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domingo, 18 de julho de 2021

O Karma ou a roda do Comunismo, de Marx e de Sorel...

Sabido é que mantenho franco diálogo com representantes de pensamento, isto a ponto de ter assistido, como convidado de honra e observador, a todo tipo de reuniões ideológicas. Tenho os ouvidos abertos a todos pois gosto de conhecer ou de aprender e não apenas por meio dos livros, embora eles também ajudem muito, especialmente quando vamos as fontes primárias ou aos autores e suas obras. Alias só não atendi aos convites dos maçons e não as reuniões a que fui convidado porque não me interesso pelo que seja oculto, mas apenas pelo que é público. 

Por isso quando mais moço fui as reuniões dos comunistas, os quais alegavam - Alguns quiçá sinceramente, e outros por bravata. - se terem conciliado com o pensamento democrático e superado o paradigma da Revolução violenta. Observei tudo muito atentamente e não tardei a perceber a terrível contradição existente entre o pensamento de Lênin e o pensamento de Marx e Sorel, mesmo quando Lênin tenha tomado seu éthos revolucionário a Marx e seu método a Sorel. Sucede no entanto que por questões de princípios e coerência lógica Marx e Sorel eram etapistas, julgando que a Revolução seria acionada pelo máximo desenvolvimento do modo capitalista de produção, assim na Inglaterra, na Alemanha ou nos EUA, jamais na Rússia, quase feudal e eminentemente agrária do Czar. 

Posto está que numa Rússia agrária e feudal Lênin não esperou pelo kairós assinalado por seu guru mas ousou agir sem esperar pelo momento histórico e cuidou poder fazer avançar o processo histórico, e agindo assim inverteu e subverteu o marxismo, enquanto esquema dado e modelo pronto, antepondo a Revolução ao desenvolvimento das forças de produção que deveriam aciona-la e transplantando o desenvolvimento das forças de produção capitalistas para depois da Revolução soviética. 

É portanto, perfeitamente natural e compreensível, que a decisão de Lênin e o sucesso da Revolução tenham planteado aos revolucionários bolcheviques toda uma série de problemas jamais imaginados por Marx, Engels ou Sorel, o quais haviam imaginado outro esquema ou outra realidade. Tais problemas a seu tempo receberam distintas respostas por parte dos pensadores comunistas russos, do que resultou a fragmentação, o sectarismo, o conflito e a confusão - Até Trotzky, Preobrajenski, Bukharin, etc ninguém sabia ao certo como lidar com aquela realidade a parte do esquema.

Basta dizer que parte dos Comunistas, e começaremos a crônica da loucura por aqui, eram favoráveis a promover o desenvolvimento das forças de produção nos termos capitalistas ou liberais, enquanto outros propunham a industrialização forçada do campo quase que nos mesmos termos, e por ai adiante.

Claro que outros tantos comunistas ficavam chocados diante de tais propostas e no entanto eram elas coerentes e partiam do etapismo marxista. 

Faço agora uma pausa e torno a minha experiência com os comunistas.

Vez por outra tive ocasião de em alguns autores apostólicos romanos - Quem sequer pertenciam a teologia da libertação, sendo quase todos anteriores ao Vaticano II - (Alguns padres inclusive.) que apesar de seus vícios e erros possuía o comunismo uma vantagem face ao liberalismo econômico ou o capitalismo, e era esta vantagem um sincero desejo de resgatar o homem da opressão (Um certo humanismo), certa compaixão pelos oprimidos e um sentido de justiça social... Após ter convivido com os comunistas de hoje e buscado conhece-los não mais posso corroborar esta premissa humanista... Após ter lido as "Reflexões sobre a violência" de Sorel devo confessar que ao menos parte dos comunistas não partilham de tais princípios. Marque isto leitor amigo!

Todavia antes de tornar ao marxismo para confrontar os marxistas fortes e coerentes, devo dizer duas palavrinhas sobre o anarquismo e declarar que sua condição é muito pior, posto que ao veneno materialista mecanicista juntam um psicologismo mais forte, um iconoclasmo mais amplo e certa doze de individualismo (O que faz dele uma ideologia muito mais virulenta.) O Comunista coerente, após percorrido o caminho, aspira derrubar o modelo econômico atual que ajudou a desenvolver-se, certo de que a estrutura cairá por si mesma. Enquanto o anarquista tudo aspira derrubar e destruir junto com o modelo econômico sem aguardar qualquer transformação orgânica. 

Quando passei a conviver com os comunistas - Como convivi com os fascistas, com os anarquistas e até (Pasme leitor!) com os protestantes (Pois meu irmão e eu fomos observadores num curso de Teologia protestante.) - algo chamou de imediato minha atenção, o famoso grupo do 'Quanto pior melhor', amiguinhos do DEM ou do antigo PFL e do PSDB, que pretendem assistir impassíveis ou melhor complacentemente a marcha do capitalismo e seu fortalecimento no Brasil. Parte dos quais não apenas nutrem um ódio feroz contra aqueles que por meio de reformas procuram atenuar ou conter o capitalismo como chegam a unir-se frequentemente com os janízaros do capital contra os socialistas parlamentares ou sociais democratas.

Na primeira reunião deles que assisti chamei um desses srs a parte e pus-me a solicitar suas razões, motivos, etc Ele no entanto não soube ou não quis responder-me. Posteriormente outro deles, este leitor compulsivo dos teóricos (O que não é comum entre eles!) polemizou com meu irmão alegando que os socialistas parlamentares, sociais democratas e reformistas eram os inimigos por excelência, traidores e apostatas por haverem abdicado do ideal revolucionário e dos meios porque seria ele atingido: O livre desenvolvimento do Capitalismo ou do modo de produção burguês, o qual de modo algum deveriam ser atalhado ou combatido, já porque continha em si mesmo os germes de sua destruição. 

Contendo ou suavizando o capitalismo por meio de reformas políticas inspiradas por uma Ética humanista o quanto fazíamos era conter o fluxo da História e postergar a Revolução. 

Lembrava-me disto e sabia o sentido mas não havia aquilatado a malignidade intrínseca. 

Até o dia em que lí, e a leitura é recente, as "Reflexões sobre a violência" de G Sorel, o qual, quanto a isto, é marxista ortodoxo e mais exaltado que os próprios comunistas.

Pois nada equivale a testemunhar um teórico do Escola referendando com suas palavras tudo quanto havíamos já havíamos intuído sem no entanto querer acreditar, por ser o que é... Mas é.

Também meu irmão, que chegou a ser anarquista ao modo de Tolstoi e Kropotkin, tendo por isso convivido com os 'ocidentais' de Bakhunin e com os libertários dos EUA (Aos quais jamais poupou severas críticas, até desvincular-se do anarquismo por causa deles.), tem se perguntado a cada dia, durante os últimos seis anos, por que os mesmos anarquistas que moveram guerra atroz a ex presidente Dilma toleraram de muito bom grado não apenas o ultra liberal canalha do Temer mas até mesmo o Bolsonaro, esse fantoche da teocracia e títere da bancada evanjéguica?

Pois é questão que se planteia e grave questão.

Por que raios os comunistas aderiram a aliança liberal contra esse mesmo Vargas que de bom ou mau grado reconheceu os direitos dos trabalhadores? Por que na Espanha foram contra Franco, em Portugal contra Salazar, na Argentina contra Peron e na França contra De Gaulle quando todos estes eram combatidos pelos liberais economicistas? Por amor ao política liberal ou as instituições democráticas? Pera lá - Não são os comunistas inimigos inconciliáveis da democracia burguesa e da política parlamentar, partidários da Ditadura do proletariado e do liberalismo moral ou pessoal? Então por que raios se uniram a oposição capitalista em todos esses países? Qual o segredo de tostines?

Sabido é que parte desses ditadores, tal e qual Hitler e Mussolini, foram alçados ao poder num cenário político formalmente democrático pelas massas lançadas numa situação de extrema penúria e angústia, pois haviam captado os anseios imediatos das massas e acenado com reformas destinadas a conter o espírito do capitalismo em ascensão. O que de modo algum havia ocorrido aos comunistas e anarquistas, os quais tentaram em vão conquistar os trabalhadores ( E de fato não pouparam e não poupam esforços para isso.) e mesmo camponeses com suas propostas abstratas e futurescas na direção de uma metafísica revolucionária, insistindo na preparação da Revolução futura. O bom povo no entanto, sejam funcionários públicos, camponeses ou mesmo a maior parte do que chamam de proletariado, jamais se interessou pela tal mudança cósmica futura. E mesmo na Rússia eles só conquistaram a adesão dos camponeses e obtiveram a vitória acenando com a Reforma Agrária.

Quanto aos países protestantes - Onde Marx e Sorel, péssimos conhecedores da cultura, imaginavam explodir a tal Revolução - um ideal funesto imposto pelos pastores tem resistido a todas as forças produtivas por mais de século e meio...

Os nossos no entanto, a suportar a indignidade imposta por um capitalismo plenamente consciente e imperioso, preferiram cair nas garras dos ditadores e demagogos que lhes acenavam com reformas.

Naturalmente que os janízaros do capital denunciaram-nos e combateram-nos desde o princípio, alegando motivações democráticas, quando as verdadeiras motivações eram econômicas: Manter a auto regulação ou as imunidades do capitalismo, e fugir as odiosas reformas. O quanto eles desejavam era manter o trabalhador como vil escravo e é de fato chocante que a proposta de uma emancipação sumária tenha partido de ditadores, porém tal se deu em todos os países citados. São fatos - Que fazer? Assim o é ou foi.

Agora por que raios os revolucionários comunistas fizeram pacto de aliança com os tais Capitalistas e burgueses se não comungavam do valor comum em torno da democracia formal? Alguém me pode dar uma resposta satisfatória? 

A partir de Sorel, interprete fiel do sr Marx posso da-la eu.

Justamente por que os tais ditadores odiosos eram tão reformistas quanto os socialistas parlamentares e a sra Dilma Roussef. E basta ser reformista ou pensar conter o capitalismo para exasperar todos os revolucionários sejam comunistas ou anarquistas. Pois foge a seu esquema etapista, segundo o qual cumpre ao capitalismo desenvolver ao máximo suas forças, aprofundar a luta ou conflito social, inspirar ódio mortal ao proletariado e acionar a desejada revolução, não havendo outra via de acesso, passagem ou caminho.

É o desenvolvimento modo de produção burguês que criará as condições para a Revolução comunista, é ele que nos conduzirá a ela, é ele que a deflagrará. 

Sociólogos humanitários, clérigos justicionistas, socialistas parlamentares, democratas reformistas, ditadores sagazes, sindicalistas imediatistas, etc são todos e efetivamente todos adversários da Revolução na medida em que tentam conter ou fazer recuar o poder do grande capital ou amenizar as mazelas produzidas por ele. Para que surja a revolução a tensão deve agravar-se e não diminuir. 

Perceba, para o comunista leal, para o marxista coerente e para o materialista compenetrado, tais grupos só podem ser vistos como perniciosos e odiosos em máximo grau, pois são os traidores que repudiam formalmente os ensinos de Marx e Engels e que fazem abortar o grande dia. O reacionário portanto, aquele que sonha com uma sociedade economicamente equilibrada ou com a extensão das classes médias, com a estabilidade e com a paz social, é o inimigo por excelência, o proscrito, o maldito.

Quem sabe por que os comunistas maravilhosos se opuseram a Vargas não tardará a intuir porque os anarquistas que combateram Dilma não se empenham em combater seus sucessores. Dilma era a inimiga, assim Lula, posto que uns e outros pretenderam conter a fúria capitalista ou liberal por meio de reformas, i é, porque eram reformistas. Dilma e Lula eram e são ameaças concretas ao destino da sociedade brasileira pelo simples fato de terem buscado a justiça social e aliviado a situação de milhões e milhões de criaturas humanas. No entanto se o preço pago pela promoção humana e pela justiça social é postergar a gloriosa ruptura chamada revolução é um preço demasiado caro - Ferre-se a justiça e vá as favas a promoção humana, pois o que importa é o 'ideal' ou projeto futuresco de Revolução.

É Sorel quem o diz e em alto e bom som: O Verdadeiro revolucionário seja comunista ou anarquista não cogita em Justiça, conceito subjetivo e embaralhado sem maior conteúdo ou valor (Aqui Litreé, Ayer e outros positivistas concordam.). Tampouco (Sendo ateísta.) considera ele algo a semelhança de uma lei natural ou em termos de essencialidade, o que serve unicamente aos poderosos (Aqui mostra ele imensa ignorância em termos de História já quanto o socratismo grego, já quanto o Cristianismo antigo.). Ademais o Revolucionário nada busca de imediato, nem mesmo aliviar os sofrimentos, dores, e angústia dos trabalhadores, mas apenas a Revolução futura, a qual absorve todos os seus cuidados...

Portanto o que dizem alguns Cristãos e padres sobre a busca dos comunistas pela justiça social e dos anarquistas quanto aliviar o sofrimento humano, pode até ser válido por parte de alguns deles - Mormente quanto aos que procedem do papismo, da ortodoxia, do espiritismo, do judaísmo ortodoxo, do budismo, etc e que mantém os valores recebidos ou a cultura (Mesmo caso dos ateus não marxistas ou anarquistas.) - mas não quanto a totalidade deles, especialmente quanto a parcela que nasceu e foi educada no sistema, estando familiarizada com os ensinamentos de Marx e chegado a introjeta-los. Caso sejam coerentes eles chegarão a doutrina do 'Quanto pior melhor'.

Posso pensar ou imaginar algo semelhante a tal padrão de pensamento, materialista, evolucionista, linear e mecanicista?

Sim posso e de fato existe um sistema religioso bastante parecido nos confins do Oriente.

Compreendo que parte do espiritismo kardecista tenha se esforçado, a luz do Evangelho a separar o veículo instrumental da reencarnação da doutrina metafísica do Karma. Por isso parte majoritária dos espíritas preconizam a prática fervorosa das boas obras. Ocorre-me no entanto, ao folhear certo livro doutrinário de origem espírita, em que o autor atribui esse zelo pelas 'imoderado' por boas obras a cultura 'católica' ou melhor apostólica romana, prevalecente no Brasil. Advertindo que a doutrina do Karma considera que é sempre melhor não beneficiar o outro, pois o benefício aparente equivale na verdade a um estorvo.

Advirto mais uma vez que a maior parte dos espíritas não compactuam com tal juízo extremado, buscando manter a doutrina da reencarnação, sem no entanto apresentar a doutrina do Karma como uma roda inexorável ou samsara. Por isso mesmo os espiritas que de algum modo referem ao Karma e buscam exercer a caridade são frequentemente apresentados como incoerentes não apenas pelos papistas e ortodoxos mas até mesmo pelos protestantes. Situação delicada.

Outro o caso do hinduísmo. O qual não se tendo deixado influenciar pelo Evangelho ou pelo Cristianismo, além de carregar o conceito de Karma ou samsara aduziu uma série de postulados éticos ou morais que consideraríamos aberrantes.

Se no marxismo temos uma metafísica materialista e determinista mecanicista no hinduísmo temos uma metafísica espiritualista ou espiritual igualmente determinista mecanicista, a qual face a dor e ao sofrimento leva as mesmas e exatas conclusões: A inação, a não interferência ou a omissão, enfim a uma insensibilidade monstruosa.

Não, não exageramos ao comparar a metafísica marxista com a metafísica hindu, posto que são ambas deterministas, mecanicistas e etapistas.

O princípio do Marxismo já expusemos tanto neste artigo como no anterior, sobre as correntes sociológicas. O princípio do hinduísmo ou da samsara fundamenta-se na crença de que todo e qualquer sofrimento porque passe o homem no curso desta vida é resultado de algum crime ou pecado cometido da vida precedente. Afinal reencarna o homem para fazer penitência ou pagar pelos pecados cometidos durante a existência anterior. Algo tipo a pena de Talião: Pé por pé, mão por mão, cabeça por cabeça. A conclusão é obvia: Cada sofrimento neste vida é uma oportunidade para pagar uma maldade cometida na outra e purificar-se. É o sofrimento físico o modo porque nos purificamos e nos aproximamos da perfeição. Daí a necessidade de aceitar resignadamente os sofrimentos... Tal no entanto não basta, pois na medida em que por compaixão interferimos no processo, com o objetivo de aliviar ou eliminar o sofrimento alheio estamos privando aquela pessoa de uma oportunidade para purificar-se. Portanto ao conceder-lhe um benefício imediato ou material estamos na verdade a prejudicando-a, tipo fazendo-lhe mau quanto ao plano mais elevado ou espiritual.

Por isso o hindu consciente e devoto tenderá ser indiferente aos sofrimentos humanos, já que sofrimento equivale a purificação.

A doutrina ou a teoria pode até ser bela, as consequências no entanto são monstruosas.

Perceberam como o Comunismo, sacrificando uma situação imediata, concreta ou atual de dor, tendo em vista o desenvolvimento desse sistema cruel chamado capitalismo e seu ideal metafísico e futuresco de revolução é análogo hinduísmo, posto que seu etapismo social corresponde a uma espécie de karma material ou materialista?

Os odiados e execrados reformistas ou socialistas parlamentares é que de fato se preocupam com o problema imediato, atual e concreto da injustiça social, da dominação, da exploração e do sofrimento humano. Eles é que se mostram sensíveis e comprometidos quanto a eliminar tais males agora, i é no momento presente, ao invés de recomendar aos sofredores que se conformem (Até que a Revolução estoure!) ou que tenham paciência; ou ainda que saiam lançando bombas em meio a população civil. 

Enquanto os revolucionários inumanos limitam-se a condenar qualquer tentativa no sentido de minorar as situações sociais de vulnerabilidade e angústia. 

A bem da verdade - E o leitor ficará com essa pérola ao termo deste artigo. - os meigos revolucionários (Ou Psicopatas) contam com tais situações de dor, angústia e sofrimento para exasperar ou enlouquecer (E o sofrimento de fato enlouquece.) o povo e lança-los nos braços da Revolução. Sabendo que parte das pessoas são amantes da paz ou acomodadas, por uma questão de cultura, contam esses ideólogos com o sofrimento para torna-las agressivas ou move-las a violência. É como os boiadeiros que para lançar um pobre boi num rio cheio de piranhas (O Araguaia) picam-no sem dó até que entre e seja devorado... Os anarquistas e comunistas encaram os trabalhadores como um boi de piranha, o qual deve ser picado pelo sistema capitalista até entrar no bojo da revolução...

E depois de tudo isso esses demagogos sem consciência ainda tem o desplante de virem a baila para censurar os trabalhadores e camponeses preocupados apenas com si mesmos i é com a condição dos trabalhos que realizam face a Lei ou que lutem por melhorias imediatas, ao invés de focarem na tal Revolução. 

Por isso nada é mais comum em suas reuniões e assembleias eles reclamarem que o povo ou mesmo o proletário é insensível a causa, de modo que as reuniões são formadas majoritariamente por intelectuais, professores e funcionários públicos... Quase todos oriundos das 'classes médias' que censuram e dizem odiar... - Não por proletários, pobres e muito menos camponeses. Diante disto eles se perguntam repetidamente: Por que? Por que? Que devemos fazer para atrair os trabalhadores, por quem lutamos. 

Minha Santa Simone Weill, essa boa gente jamais se colocou no lugar dum proletário ou trabalhou como um... Ideólogos lindinhos eles trabalharam quase sempre instalados em confortáveis poltronas, com ar condicionado, merenda, lanchinho, aguinha gelada (Oh odioso paraíso burguês!)... Assim o é. Agora que lhes tem a oferecer além de um roteiro metafísico cristalizado na palavra (Mágica) revolução? Nada, absolutamente nada. 

Negam que a alma sobreviva a morte do corpo ou que haja uma outra viva e ainda esperam que o trabalhador sofrido abdique do presente e viva em função do futuro.

Contam que os operários, camponeses e pobres sejam uns estúpidos ou idiotas, mas não são e a demonstração cabal é que essa mística materialista que assume a forma monstruosa de uma samsara não penetra eles. 


 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Marx, Darwin e Freud, três intelectuais face ao Sagrado.


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Caso houvesse concurso de mentiras ou lorotas não sei quem ganharia. Se os neo ateus cientificistas ou seus desafetos fundamentalistas. Basta dizer que uns e outros amam classificar o grande Ch Darwin como ateu em suas publicações ineptas... E por ai vai - Os sectários fanáticos classificam como ateus e materialistas, irreligiosos, etc a tantos quantos repudiam seu deus retangular, a bíblia e os neo ateus, aplaudem e declaram: É exatamente assim, encampando um bom número de irreligiosos e agnósticos que jamais negaram a existência de um Supremo Ser ou de uma Consciência universal...

Fenômeno curioso este de dois grupos extremistas e fanáticos explorando os mesmos boatos, fábulas e mentiras. Sem pingo de dor na consciência... Uns quiçá por crerem que o rubro sangue do Nazareno tudo lave, e outros por repudiarem um padrão universal de bem ou virtude.

Por isso resolvi escrever algumas linhas sobre os grande ateus ou sobre os grandes ateus inventados. E começarei por Karl Marx. O qual era ateu de fato, mas de modo algum fanático como seus pretendidos seguidores ou sucessores, que parecem ter chegado a fobia...

Materialista convicto não podia Marx admitir a existência de um princípio espiritual ou imaterial paralelo, por inferência era ateu num sentido muito próximo do de Sartre: A existência dum tal Ser não lhe interessava, além de é claro parecer-lhe sem sentido. Alias, como um materialista poderia encontrar sentido numa entidade Imaterial e Invisível. No entanto Marx não perdia seu tempo precioso buscando convencer os religiosos e teístas ou visando converte-los ou salva-los. De fato ele não entrava em discussões metafísicas como o teófobo Seb. Faure... Não se empenhava em demonstrar ou provar, através de argumentos, a inexistência de Deus.

Mais ainda. O odiado Marx parece até ter tido respeito e sabido lidar muito bem com os sentimentos religiosos alheios, não lhe faltando até certa delicadeza. Ocorre-me ter lido, quando moço, trechos da correspondência que trocará com uma garota ou menina, na qual a mesma aludia ao costume de ir a Missa com a família todos os Domingos. Em certo momento Marx assim se expressa: 'Como de costume sei que iras a Missa...' e 'Porém depois que chegares da Missa...' sem revelar a jovem qualquer sentimento amargo ou negativo. Enquanto qualquer pentecostal fanático diria a queima roupa: A Missa é uma cerimônia demoníaca... em nome de seu belo deus e de seu teísmo azedo e supersticioso. O ateu e 'diabólico' Marx no entanto não procede assim. Parece até saber compreender, tolerar e colocar-se no lugar do outro... Parece que aprendeu muitas coisas boas com o capeta ou com o não deus...

Freud é outro departamento. Ao contrário de Marx e Sartre era ateu forte... tendo o costume de destilar seu ateísmo a todo instante. E juntamente com ele, por admirável força de coerência, toda sua falta de esperança. Um ateu não deveria abrigar o veneno metafísico da esperança em seu coração dizia ele. Evolucionismo, progressivismo e outros vestígios de misticismo Cristãos haviam sido lançados ao limbo por ele bem antes da crítica ácida de Grayling e outros. Para este grande representante do ateísmo, mais do que para o fanático Agostinho de Hipona, os bebês nada mais eram que malvados polimorfos e o homem algo semelhante a um verme ou parasita.

Apesar disto Freud, como todos os neo ateus sentia imenso mal estar em dialogar ou discutir sobre a teísmo natural dos antigos gregos. Em "O futuro de uma ilusão" não hesita sair pela tangente e declarar que esse Deus, o da metafisica racional, de Platão, de Aristóteles ou dos Filósofos, não o interessava. O deus que interessava a Freud, como a Dawkins e a tantos outros, era apenas o espantalho fetichista dos fanáticos religiosos e fundamentalistas i é à la Genesis... Assim, lançando-se contra esse espantalho, fica mesmo fácil...

Agora onde procurar as fontes do ateísmo freudiano? Há uns poucos anos lí uma análise psicanalítica segundo a qual Freud transplantou o ódio que sentia pelo pai e rival para Deus... Achei delicioso, no entanto minha opinião é bem outra. Quiçá a dor e a indignidade física tenham consolidado o grande psicólogo em sua posição. Afinal desde 1920 até a ocasião de sua morte passou ele por cerca de vinte intervenções cirúrgicas, devido a um câncer bucal extremamente invasivo. A cabo do processo esta terrível enfermidade lhe havia destruído a mandíbula e arrancado a lingua. As dores eram lancinantes e a morfina já não conseguia alivia-las... Por fim houve uma rejeição da prótese e necrose, o cheiro tornou-se tão repugnante que afugentou-lhe os queridos cães. Diante disto ele suplicou por uma dose maior de anestésicos e... Pense então numa pessoa que padece de dores atrozes e que por fim se vê apodrecer viva. Coloquem-se no lugar dela. Tentem identificar-se... Difícil estar no lugar de Freud sem pensar como ele ou até revoltar-se. Fácil falar sentado sobre as poltronas do sofá... Julgo melhor tentar compreender mais e julgar menos. Quero dizer apenas que Freud, a partir de sua experiência diária ou de sua vivência, não tinha lá motivos muito fortes para mudar de posição face ao problema de Deus.

Tanto pior se me disser que o deus 'sábio' serviu-se da moléstia que o consumia para castiga-lo. Ora todo castigo vindo de um Ser Bom, Generoso e Filantropo só pode ser a recuperação do homem e não para sua exasperação. No entanto supostas punições, dolorosas e desumanas como estas, só serviram mesmo para exasperar e produzir revolta nos corações dos mortais. Concluo que o deus dos fanáticos nada sabe sobre atrair e reconciliar os seres que criou. Sua pedagogia é um completo fracasso ou um reforço do ateísmo. Já a simples hipótese de estar ele exercendo vingança não passa de sadismo, i é o reforço do sacrilégio e da blasfêmia. Melhor aceitar o fato de que semelhantes desgraças são meros acidentes com que nos brinda a natureza ou a sorte, sem que a excelsa divindade tenha qualquer coisa a ver com elas...

Chegamos assim a Darwin. O qual jamais professou qualquer forma de ateísmo. Haja visto sua reflexão a respeito da sabedoria divina e do processo evolutivo em termos naturais contida na própria Origem das espécies. Religioso durante a primeira quadra da vida e destinado ao ministério eclesiástico confrontou-se aquela mente, antes de tudo, com a grosseria do Gênesis e da mitologia hebraica, porque se batem até hoje os fanáticos bíblicos, não com Deus.

Os advogados da mitologia no entanto, como Sedwigck, não pouparam esforços para fazerem-no avançar em sua posição. O que tal e qual no caso Freud foi reforçado pela própria vivência ou pela experiência pessoal. Pois Darwin teve de assistir a morte de dois de seus rebentos amados, o pequeno Charles, levado pela escarlatina e sua filha predileta e companheira Anne, após lenta agonia, aos dez anos de idade. Desde então parece ter perdido a fé e se tornado deísta. A partir daí podemos observar sucessivas crises existenciais oriundas duma existência tocada pelo sentido trágico da vida, por delicadeza, lirismo e recaídas religiosas... Foram sucessivas crises, idas e voltas, revisões, jamais privadas de uma grave consciência espiritual.

Sua trajetória no entanto, sequer parou por aqui, pois Darwin apenas encontrou escolhos metafísicos jamais vislumbrados antes e assim dignos de nota. Com efeito em suas ulteriores pesquisas pode observar o que compreendeu como um certo índice de malignidade presente na própria natureza ou no mundo natural. Observou o excesso de vida e a carência de alimentos, assim a fome. Observou em certos animais costumes bastante bizarros, que chegam a crueldade. Observou que ao menos em parte o processo evolutivo é estimulado pelo incomodo ou pela dor, enfim por situações de sofrimento, catástrofes, etc Passou então a ter dificuldades para relacionar tais fatos como conceito de um Deus bom e misericordioso... Tanto mais pesquisava e mais parecia divisar uma face maléfica na natureza, representada alias por sua seleção natural. Diante disto, nos últimos anos de vida, parece ter passado do deísmo ao agnosticismo e chegado a duvidar da existência de Deus, sem no entanto jamais obter qualquer certeza a respeito.

Em seus últimos dias Ch. Darwin a todos recebia em seu convívio fossem clérigos, religiosos ou teóricos ateístas... Com uns rezava, em companhia de Emma, com outros ouvia, não poucas vezes ferozes preleções contra a fé religiosa ou mesmo favoráveis ao ateísmo, sem todavia jamais endossa-las formalmente e até exigir certo decoro ou respeito. A atitude muito parecia-se com a de um agnóstico, ao qual fugiam todas as certezas e ambas as metafísicas: A teísta e a ateística... Darwin jamais declarou estar convencido sobre a inexistência de Deus ou tentou demonstra-lo. Tampouco desejava polemizar fosse com os ateus ou com os religiosos... Sua atitude sabe a neutralidade ou isenção, bem a gosto da divisa: Ignorabimus et ignorabimus. Tal parece ter sido seu ponto de vista definitivo, no momento em que abandonou esta existência, portanto apresenta-lo como ateu ou ateu forte sabe a mentira grossa e cabeluda.

Religiosos e ateus sejam antes de tudo honestos, evitando atribuir suas opiniões aos outros ou o que é ainda pior atribuir-lhes uma concepção que julgam ser indigna, porque em ambos os casos vocês, falseando a realidade histórica - Em nome de seus queridos sistemas! -  é que se tornam indignos.


terça-feira, 23 de outubro de 2018

O sentido psicológico do luto


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Insuspeito muito admiro as sociedades judaicas Chevra Kadisha destinadas a confortar os enlutados.

Deploro veementemente a falsa piedade dos neo Cristãos que com base na doutrina da ressurreição dos corpos repudiam o luto e criticam os que choram por seus mortos.

Sobretudo os neo católicos mostram-se deploráveis pelo desprezo que votam aos rituais de sepultamento legados pela tradição. Não nos esqueçamos que os neandertais sepultavam seus mortos na posição fetal e lançavam tinta ocra sobre eles, querendo simbolizar um segundo nascimento ou um nascimento espiritual.

Incoerentes, não poucos dentre eles - i é entre os neo católicos - tem abraçado as opiniões dos fanáticos para os quais não se deve chorar pelo morto ou dar mostras de qualquer tristeza pelo simples fato de que permanecem vivos em espírito, porque haverão de ressuscitar ou porque o Cristo ressuscitou.

Essa gente tosca não compreende que a tristeza e o choro são sinais de saudade tendo em vista a ausência física daquele que partiu.

Concordo que o Cristão Ortodoxo não deva gritar, berrar ou fazer escândalo a exemplo dos que não tem esperança alguma, ignorando a imortalidade e a ressurreição. Pois a certeza de que a vida continua noutro plano ameniza a dor da separação.

Decerto aqueles que morreram segundo a carne entraram na posse da verdadeira vida e tendo vivido piedosamente ou segundo a Lei do Evangelho repousaram de seus trabalhos, depuseram seus fardos e obtiveram a paz.

Sabendo que estão felizes não é por eles que choramos, mas, em verdade, por nós mesmos que aqui ficamos. Não é pelo morto que ficamos tristes mas por nossa própria solidão, abandono e desamparo. Pranteamos porque já não temos aqueles que amamos fisicamente próximos de nós. Derramamos lágrimas de saudade porque de algum modo a ligação entre nós foi cortada e já não nos podemos comunicar. Não é o pranto sinônimo de descrença mas de saudade, tendo em vista a ausência...

Chorar pelo que já não mais se encontra junto a nós não é sinal de dúvida mas de afeição ou carinho.

Não é o desaparecimento que supomos é a separação que deploramos. Não espiritual é claro, pois cremos na comunhão dos Santos e consequentemente que nossos queridos velam por nós junto do Verbo Jesus Cristo. No entanto não somos nós espíritos puros ou descarnados, mas espíritos em posse de corpos, espíritos encarnados. Temos uma dimensão corpórea, a qual não pode nem deve ser ignorada. Fisicamente esta comunhão plena ou física, significada pela presença, é rompida e esta ruptura não pode deixar de produzir um impacto no homem normal.

Aquele que ama folga estar sempre perto do objeto amado, o que em termos humanos significa também proximidade física. A morte do corpo no entanto torna impossível esta proximidade e destrói esta convivência. E se aquele que amamos segue avante em demanda de Cristo e dos irmãos que já se foram, aquele que ama e por aqui permanece não pode deixar de sofrer algum abalo. Crendo o não crendo sentimos a separação física, uns menos outros mais. O fato é que todos sofremos ao enfrentar situações de perda, mesmos sabendo que esta perda é provisória.

Assim antes de julgar o descrente que desmaia ou grita desesperadamente na hora em que o caixão é fechado, antes de apontar, condenar ou ridicularizar coloquemo-nos no lugar dele e perguntemos a nós mesmos a respeito de como estaríamos sem a certeza da imortalidade... Antes de julgar, apontar, condenar, ridicularizar, etc busquemos tentar compreender. Assim como Jesus colocou-se como homem coloque-mo-nos no lugar do outro!

Antes de zombar e escarnecer do irmão ou amigo que pranteia seu ente querido, assumindo um heroísmo frio que nada tem de Cristão, pranteemos com ele, juntemos as lágrimas na mesma piedade, aprendamos com os judeus que assim o fazem dando mostras de humanidade. Não aspiremos ser sobre humanos uma vez que nosso Deus se fez homem. Pois quiçá nos tornemos desumanos. Confortemos com ternura aos que choram ao invés de apontar, julgar e condenar. Se você é forte e não chora, busque a máxima perfeição, abstendo-se de exigir do outro a mesma postura, pois cada um tem seu jeito de enfrentar a morte. Se você se controla ou faz das tripas corações, o mérito é seu, agora só não venha julgar os demais, pondo seus méritos a perder. Afinal há mais merecimento na fragilidade que se compadece e irmana do que na força que desdenha e julga.

Tomemos em tudo por padrão e medida a sunah ou exemplo do Senhor Jesus Cristo. O qual sendo Deus verdadeiro - Pai dos corpos e dos espíritos - e tendo se tornado verdadeiro homem  - Em tudo semelhante a nós menos no pecado - não quis conter suas lágrimas diante do túmulo do amigo Lázaro. Por isso o menor verso do Evangelho é dos mais grandiosos, por registrar que Jesus, sendo humano, chorou - E Jesus chorou... Mas por que chorou? Por que é próprio dos homens e natural chorar em tais circunstâncias. Porque chorar de modo algum é pecado. Porque chorar um morto nem é inoportuno, nem é inconveniente. Eis porque chorou o autor da fé, a verdade suprema, o Criador de todas as coisas.

Então por que aspiras tu ser mais que Jesus? Por que condenas tão levianamente aqueles que a exemplo do divino Mestre choram a separação física? Por que repreendes os que manifestam a dor e a saudade por meio das lágrimas? Tendo o Senhor de todos chorado junto ao túmulo de Lázaro já não posso dar-te razão. O que exiges de teus irmãos, essa conformidade heroica, é cruel e desumano. Caso acredites que semelhante postura te faz bem, nada tenho a declarar. Só não te faças medida de todas as coisas ou de todos os homens, porque a medida de tudo e todos é Jesus Cristo.

Altamente sofisticada é a percepção dos judeus face ao mistério da morte e de uma acuidade admirável. Pois corresponde o tempo do luto a uma necessidade imperiosa, que brota de nossa personalidade.

Por experiência digo que o luto conforta e reconforta.

Não me tomem por cruel ou zombeteiro.

Cerca de um mês, pouco menos, perdi uma parenta muito querida, uma prima que era como uma irmão mais velha. Pessoa de imensa delicadeza sempre presente em nossas vidas. Pessoa solidária, útil e prestimosa. Por motivos de ordem superior não pude eu mesmo presidir os ritos de sepultamento ou encomendar-lhe o corpo, pois tive de 'distrair' minha mãe, tia da falecida, que se achava bastante comocionada... Apesar disto tributei a sua memória, discretamente, copiosas lágrimas e preces. Me abstive de distrações, fechei-me em minha residência e parti para um encontro comigo mesmo... do qual saí mais forte e revigorado apesar da saudade.

Passados menos de quinze dias veio o grande baque. Como roguei acima, não me levem a mal... Pois refiro-me a morte de meu gato, o Et. Para ser breve direi que este gato e eu construímos uma relação 'sui generis'. Desde bebê - e eu o vi nascer em meu quarto - ele me conquistou e acabei tomando-o por um filho do coração. Era tratado como alguém da família... Meu gato era tudo para mim e eu o amava na mesma medida em que ele me amava. Era um animal adorável, um felino encantador. E já estava para castra-lo quando a tragédia aconteceu e ele atacado e mordido por um cão morreu na porta de casa.

Foi uma acontecimento tenebroso, para o qual não me achava preparado, mas que tive de suportar. A dor foi grande a ponto de anestesiar-me. E no entanto posso dizer que caso ele tivesse sumido ou desaparecido eu teria ficado louco. O simples fato do corpo não ter sido atropelado, esmagado ou destroçado - o corpo estava praticamente normal - e de pode-lo sepultar no jardim causou uma imenso alívio em meu coração. Assim saber que não havia sido envenenado ou torturado por um humano... O fato dele ter morrido de circunstâncias até certo ponto naturais - Gatos são atacados e mortos por cães desde a aurora do mundo - e de ter podido recuperar seu corpo e sepulta-lo foi para mim um imenso benefício. O segundo - não me levem a mal pois julgo que os animais ou suas almas são tão imortais quanto as nossas - foi poder jejuar e comungar por ele no mesmo dia... Poder rezar por sua bela alma e encaminha-la a paz e ao repouso.

Continuei a rezar pela alma do meu gato dia após dia e a chorar sempre que sentia saudades. E ainda sinto. Credo que ele esta bem e que nos haveremos de reencontrar um dia obtive o conforto esperado. Não se trata aqui de esquecer mas de conviver... Temos de aprender a conviver com a dor e o luto é um excelente exercício introdutório. Considero esse tempo de retido e de reflexão muito importante...

Sepultar significa entregar nossos queridos ao Pai do céu e aceitar que se foram. Retirar-se da vida por algum tempo ajuda a compreender melhor este sentido da perda ou da separação. É um período ou momento necessário. Período de abrir mão, período de aceitar, período de encarar a nova realidade que se impõem. Reflete, insisto, uma necessidade psicológica e avanço dizendo que, se observado, poderia o luto servir como uma espécie de profilaxia da depressão. Deprimi-mo-nos porque não nos é dado um tempo para vivenciar a perda... Nossos queridos partem e continuamos a viver, a trabalhar, a brincar, a produzir, a sorrir... como se nada tivesse acontecido. O subconsciente não perdoa semelhante indiferença... O resultado será a tristeza crônica. Melhor assumir a tristeza de imediato e compreende-la, até que se vá amenizando. Tal o sentido do luto...



domingo, 24 de setembro de 2017

Uma entrevista polêmica sobre Ética, ciência, vegetarianismo e cobaias.

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Após termos espicaçado os mistagogos comunistas e os sectários cristãos daremos a público um Diálogo que tivemos há algum tempo com os cientificistas e os carnívoros -

Interlocutor - Boa tarde professor.
Eu - Boa tarde jovens, sejam bem vindos.
Interlocutor - A primeira pergunta diz respeito a ciência ou melhor dizendo ao conhecimento não aplicado, corresponderá ele a algo neutro ou a um bem?
Eu - Na medida em que tanto a busca pelo conhecimento quanto sua aquisição correspondem a uma demanda da própria condição humana ou do intelecto não podemos deixar de encarar tais atividades como boas em si mesmas.
Interlocutor - Mesmo que não haja aplicação para este tipo de conhecimento em questão?
Eu - Grosso modo todo conhecimento teórico tende a converter-se, com o passar do tempo, em conhecimento aplicado i é em técnica. Independentemente disto a primeira aplicação de qualquer conhecimento obtido e enquanto conhecimento teórico, é satisfazer a curiosidade humana ou saciar nossa sede de saber. Sabemos para que? Sabemos para saber, porque somos antes de tudo curiosos. Um homem qualquer cujas necessidades básicas estejam satisfeitas não tardará a elaborar diversas perguntas a respeito da realidade que o cerca e elas surgirão naturalmente. A ciência tem sua origem nessa condição de inquietude peculiar aos seres humanos.
É justamente a ciência aplicada e apenas ela capaz de poluir o conhecimento.
Interlocutor - Poluir o conhecimento? Que vem a ser isto?
Eu - Poluímos o conhecimento de diversas maneiras, mormente quando tornamos este conhecimento aplicável e aplica-mo-lo indignamente. É o uso que o homem faz deste ou daquele objeto que o torna bom ou mau. Todo e qualquer objeto produzido pelo homem, seja ele uma faca, um rifle ou uma bomba, é bom em si mesmo enquanto produto do engenho humano. Seu uso ou emprego pelo homem numa determinada conjuntura é que poderá ser bom ou mal. Assim fará bom uso da faca para cortar legumes ou descascar frutas e um mau uso caso venha a agredir outro homem. Fará bom uso do rifle caçando ou protegendo-se dos animais selvagens e um mau uso na guerra fuzilando inocentes. Fará bom uso da bomba detonando montanhas com o objetivo de construir estradas e um mau uso lançando-as sobre cidades e estraçalhando civis inocentes. Todo e qualquer objeto pode ser usado tanto para o bem quanto para o mal.
Interlocutor - De maneira que a técnica sempre estará sujeita ao abuso?
Eu - Efetivamente, toda técnica esta sujeita a abusos pelo simples fato de seu uso corresponder a determinado fim. Caso o fim seja bom o uso será bom, caso o fim não seja bom teremos o abuso.
Interlocutor - E como poderíamos distinguir o uso do abuso. O uso da técnica, para ser bom, deve estar a serviço da condição humana e respeitar a dignidade do ser humano. Deverá promover o homem jamais avilta-lo ou abate-lo. Caso o efeito do uso desta ou daquela invenção acarrete dor, mal estar ou prejuízo aos seres humanos, estamos diante do abuso. O uso implica em beneficiar o ser humano ou em minorar seus sofrimentos. Assim o emprego deste ou daquele objeto numa guerra injusta ou agressiva deve ser encarado como mau.
Interlocutor - Apenas isto?
Eu - Não. Há diversas outras situações em termos de produção de conhecimento que suscitam nossa reflexão em termos de ética, de princípios e de valores, de bem e mal.
Interlocutor - Podería fornecer alguns exemplos?
Eu - Certamente. Julgo que antes de tudo devemos indagar se os meios investigativos empregados pela própria ciência - enquanto instância relaciona diretamente como a produção do conhecimento - são bons ou maus.
Interlocutor - Julgo não ter captado o sentido desta última pergunta.
Eu - A pergunta levantada reporta ao método científico em si mesmo e indaga se acarreta prejuízo, dor ou sofrimento a qualquer forma de vida.
Interlocutor - Ah compreendo, refere-se a testes e pesquisas feitos com doentes ou condenados, especialmente quando não autorizadas?
Eu - Naturalmente que é um dos aspectos da questão, mas não o único. Propositalmente não me referi a seres humanos, mas a formas de vida e a quaisquer formar de vida.
Interlocutor - Captei. O professor esta se referindo aos animais ou melhor dizendo aos animais que são empregados como cobaias nos laboratórios.
Eu - Exatamente.
Interlocutor - Há quem diga que o emprego de animais como cobaias é indispensável ao progresso científico.
Eu - Houve e há quem diga que as guerras são necessárias ou indispensáveis ao equilíbrio social de uma determinada sociedade como há quem diga que o regime de livre mercado seja indispensável. Uma coisa é ser indispensável e outra, totalmente distinta é ser apresentado como indispensável. Oxigênio e água são elementos indispensáveis a vida humana mas há quem afirme o cigarro, o alcool ou mesmo o chocolate como indispensáveis...
Ademais em termos de ética não se pergunta de algo é necessário - tanta coisa má é descrita como necessária - mas se é justo, certo ou correto.
Interlocutor - Desenvolva.
Eu - Obrigado. Será mesmo que não podemos continuar produzindo ciência sem cobaias ainda que num ritmo menos acelerado?
Interlocutor - Eis um questionamento a ser feito.
Eu - Mormente quando a redução deste ritmo corresponde a uma exigência ética.
Interlocutor - Parece-me convincente.
Eu - Acompanhe-me. Via de regra, a maior parte de nós, é ensinada a considerar o consumo de carne vermelha como necessário ou mesmo indispensável a conservação da vida e da saúde. Parece-me no entanto que a existência de vegetarianos ou de pessoas que limitam-se a consumir carnes brancas neste planeta aponta-nos para uma solução contrária. Seja como for somos ensinados a crer que devemos ser carnívoros para sobreviver. E como nossa cultura é carnívora não costumamos a questionar seriamente este ensinamentos. E como a carne é apetitosa.
No fundo o que queremos é saborear um bife suculento. Por isso não questionamos a cultura carnívora.
Seja como for aqui bem cabem algumas perguntas: Será mesmo impossível que a humanidade como um todo ou ao menos parte dela sobreviva sem devorar mamíferos ou bovinos? Quem sairia perdendo caso boa parte da humanidade cessa-se de consumir carne vermelha? Acaso parte do discurso vigente não teria sindo elaborado tendo em vista as exigências econômicas do mercado? Há gente querendo lucrar com a venda de carne não? E nesse sentido o consumo faz-se necessário, devendo ser estimulado.
Interlocutor - Jamais me haviam ocorrido tais perguntas?
Eu - Geralmente não costumamos a elaborar perguntas capazes de incomodar-nos. O ser humano não costuma ser bom nisto.
Interlocutor - Supondo que o consumo da carne vermelha não seja necessário a manutenção da vida?
Eu - Neste caso somos obrigados a nos perguntar sobre o pôrque de saborearmos a tal carne vermelha e julgo que a resposta oferecida seria mais ou menos assim: Consumo carne vermelha porque gosto ou porque me agrada e porque não prejudica a quem quer que seja.
O engano aqui é manifesto pelo simples fato do Boi ou do Porco não poder falar.
Afinal não vejo como possa qualquer um deles sentir-se beneficiado ao levar um baita golpe na testa e ter a vida suprimida pelo homo sapiens.
Não nego que em estado de natureza tanto o boi quanto o porco ou qualquer outro animal tivesse de conseguir sua própria comida e de escapar de seus predadores, é fato. No criadouro ou na fazenda por outro lado são alimentados e cuidados pelo homem. Sim, mas para terminarem no abatedouro e sem aquela mínima chance que lhes é oferecida pelo meio ou pela mãe natureza.
Interlocutor - Quem sabe se a média de vida de um animal criado em cativeiro não seja até maior do que em estado de natureza? Estado em que poderá morrer de câncer inclusive, caso atinjam uma idade mais avançada.
Eu - Claro que há variáveis e algumas até consoladoras para os consumidores de carne vermelha... Quanto ao câncer a alegação talvez seja plausível com relação a um seleto número de indivíduos idosos, já quanto a média de vida de um animal criado num cativeiro integrado aos moldes capitalistas de produção e ao lucro máximo, acho no mínimo discutível. Seja como for devemos admitir que a criação - em comparação com a caça - sendo controlada evite a extinção da espécie. Que os animais criados pelo homem sejam os mais prolíficos na face da terra me parece fora de dúvida.
E no entanto aquele que considera normal devorar um animal em tais circunstância raramente ou quase nunca o abate com suas próprias mãos, considerando este tipo de ação 'infamante'. A quase totalidade dos que consomem carne vermelha não realiza o trabalho sujo. Hoje certamente bem menos sujo devido ao abate humanitário, o qual corresponde certamente a uma das mais belas aspirações humanas. Apesar disto para muitos dar uma marretada nos miolos de um boi ainda seria tabu. Neste caso, se você não tem coragem suficiente para abater por que consome???
Interlocutor - Boa pergunta.
Eu - A bem da verdade consumimos carne vermelha de grandes mamíferos porque gostamos ou porque nos agrada, mas justificamos alegando uma hipotética superioridade. Tal o caso das cobaias. Criamos cobaias e usamos cobaias em laboratórios porque julgamos ter este direito e julgamos ter este direito por sermos superiores. Bem, no caso do consumo há um atenuante, o abate humanitário. No caso da cobaia a produção de dor e sofrimento é intencional.
Interlocutor - Tal distinção jamais me havia ocorrido, agora quanto a tomar o que é agradável como critério em matéria de juízos éticos sempre me pareceu problemático.
Eu - Me parece bem mais do que problemático. Afinal a quem sinta prazer em matar, torturar, estuprar, humilhar, oprimir, etc
Interlocutor - De modo que o agradabilidade não produz direito.
Eu - Nem poderia e por isso editamos outra justificativa, segundo a qual somos superiores aos animais.
Trata-se dum discurso - caso estabeleçamos sua arqueologia - antes deslocado do que discutível e que foi produzido antes mesmo de que a ciência viesse a ocupar o espaço que ocupa na sociedade contemporânea. Discurso segundo o qual o homem não seria um animal mas uma criatura a parte ou diferenciada de todas as outras. O que reporta necessariamente ao mito do gênesis ou a criação fetichista do mítico Adão, apresentando como dono ou proprietário de todos os animais.
Interlocutor - No entanto desde Darwin...
Eu - Sim, sim, desde Darwin foi o homem integrado a natureza e apresentando como um animal, inda que racional por apresentar cercas capacidades em termos de abstração. É no entanto um mamífero e primata, aparentado com os demais mamíferos, cujos genes trás em si.
Grosso modo nossa única superioridade face aos demais mamíferos nossos parentes é a de elaborar pensamentos tanto mais complexos ou raciocínios o que paradoxalmente conduz-nos a questionamentos éticos em termos de princípios e valores e a uma vida ética. Somos consumidores de carne e matadores de mamíferos capazes de questionar o consumo de carne, pelo simples fato de sermos capazes de nos identificar com nossos parentes mais próximos. Temos consciência de que as formas mais complexas do reino animal, em especial os mamíferos são bastante sensíveis a dor, e mais ainda, somos perfeitamente capazes de nos colocar no lugar deles e de nos compadecer. Portanto nossa única e decantada superioridade equivale justamente a um padrão de consciência tão refinado a ponto permitir que problematizamos nossos alimentares...
Somos superiores porque capazes de submeter nossos hábitos alimentares a um escrutínio ético, coisa que certamente mamífero algum, enquanto espécie é capaz de fazer.
Interlocutor - Já sei porque as vezes me sinto canibal...
Eu - O fato é que poucos de nós estão dispostos a levar adiante ou as últimas consequências este tipo de reflexão. Por isso batemos o pé e declaramos ter o direito de torturar uma pequena cobaia, um macaco, um gato ou mesmo um cão ou um cavalo. Mas de que decorre este suposto direito? Temos de beneficiar nossa espécie!!! Sim, mas parasitando outras? É lógica de lombriga ou ancilóstomo não de um ser racional. Somos superiores... Só se for em sadismo...
Sei que a reflexão sobre o uso de cobaias é desconfortável.
Injeção também é, mas também é necessária.
Em que somos superiores as pequenas cobaias ou aos animais que acometemos em nossos laboratórios infringindo toda sorte de sofrimentos?
Interlocutor - Em poder ou força?
Eu - Acertou em cheio. Não torturamos as cobaias porque exista qualquer direito natural que nos autorize a faze-lo mas apenas porque queremos e podemos. A lógica dos experimentos científicos com o objetivo de beneficiar nossa querida espécie, é o direito do mais forte. Nada mais venenoso... Direito do mais forte é tese que reporta ao darwinismo social, a Nietzsche e enfim a Hitler e ao nazismo. Não fazemos isto ou aquilo porque é justo ou direito mas apenas e tão somente porque podemos e queremos. Tal a origem de todas as agressões, conflitos e guerras de conquista e dominação. Como as cobaias são mais fracas do que nós, como os animais são indefesos...
Certamente não temos diante de nós um bom caminho.
Por outro lado, caso levássemos a ética a sério, proibiríamos o uso de cobaias sob quaisquer pretextos, mesmo que disto decorresse uma diminuição no ritmo da pesquisa e produção científica e isto pelo simples motivo de que o supremo valor de uma Sociedade humana não pode ser a produção científica ou a aquisição do conhecimento, mas o respeito por todas as forças de vida. Implica admitir uma escala de valores e o primado da ética, coisa de os cientificistas não podem admitir.
Eis uma via porque a ciência é contaminada na fonte convertendo-se ela mesma em abuso.
Felizmente há diversas áreas da pesquisa científica que não fazem uso de cobaias. Neste caso a investigação em si mesma é, como já dissemos, sempre um bem.


FIM

terça-feira, 2 de maio de 2017

A 'Sonia' de Crime e castigo...

Ao ler ou reler uma obra como 'Crime e castigo' - A qual bem poderia der relida, 'trilida', e lida novamente, ao cabo da vida - se nos apresentam tantas e tantas impressões...









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Quando pergunto a mim mesmo sobre a personagem predita - Não a mais interessante e sim a predileta, pois são perspectivas diferentes - me vejo pensando em Nastasia, a serviçal dedicada e a única que se importava com Raskolnikoff.

Nastasia
certamente salvou-o de morrer a mingua.

Nastasia parece ser a única a preocupar-se com ele.

Nastasia. Sempre a imagino com aquela xícara de chá ou com o prato de caldo.

Agora que moverá esta esquálida rapariga?

Talvez a religiosidade sincera posta para o serviço fraterno, dirão alguns.

Bem pode ser.

Eu no entanto, sem ser nada romântico, pressinto aqui um amor de moça e amor que envolvido pela timidez jamais se declara ou manifesta.

Estou persuadido de que Nastasia ama Raskolnikoff mas guarda seu amor para si. Sem jamais ter coragem de dizer...

Se estou certo e assim o é - Pois é como o caso da Capitu e do Bentinho, e de todas as coisas incertas - temos mais um drama oculto no grande drama. E Dostoevsky é justamente uma sucessão interminável de íntimos dramas vivenciados pelos mortais. A ponto de se poder dizer com o Buda, que tudo é dor...

Todavia se Nastasia ama é Sonia, que sem nada fazer, obtém o coração do mancebo.

E quando dizemos que Sonia nada faz queremos dizer que muito sofre e que também ela vive seu drama, e que drama...

E é por muito sofrer que ganha o coração do jovem.

Mas quem é Sonia?

Filha de Marmelodoff e órfã de mãe, Sônia é uma adolescente miseravelmente pobre ou paupérrima que se vê na contingência de prostituir-se para sustentar uma madrasta tísica e seus três filhos pequeninos.

Sacrifica assim sua virgindade, reputação e honra com o intuito de minorar o sofrimento alheio e com o dinheiro que obtém por meio das relações ilícitas mata a fome dos pequeninos, da pobre mulher e do pai. Chegando inclusive a dar dinheiro para que este se embriagasse.

Não se trata todavia de personagem vulgar ou insensível...

Filha da época, Sônia trás em si os preconceitos do tempo, e portanto um imenso complexo de culpa entesourado no fundo do coração.

Não ela mesma parece não desfrutar do prazer que comercializa ou tirar proveiro sensível do deleite oferecido. Dir-se-ia que não goza ou que não se permite atingir o orgasmo... Justamente por acreditar que comete um terrível pecado.

Culta, sensível, finamente educada, segundo os preconceitos do tempo; mimosa e doce, Sônia pode ser considerada pura quanto a alma porque se nega ao prazer ou melhor dizendo, porque prostituir-se é uma tortura para ela. Imagine uma mulher que se faz tábua e se deixa estuprar a contragosto, apenas para obter dinheiro. Esta é Sonia e sua desventura não é menor do que a de uma mulher estuprada! E no entanto se não se deixa estuprar e não se vende...

O drama terrível desta personagem consiste justamente em deixar-se poluir ou profanar apenas para obter alguns cobres.

Outra qualquer em seu lugar, como sugere Raskolnikoff teria se lançado ao Neva ou feito suspender-se numa corda. Sônia no entanto, sequer pode cogitar em acabar com a própria vida e, quem sabe, fugindo a vergonha obter a tão cobiçada paz... Mesmo a alternativa da solução final lhe é negada. Pois sem ela, eles viriam a morrer de fome...

O amor impede-a de suicidar-se e obriga-a a viver envolvida pelo lodo até o pescoço. A abnegação impele-a a poluir-se e a profanar-se quotidianamente.

E nem pode suportar a ideia de que morta, a 'irmã' mais nova Polenka tenha de esbater a mesma senda e viver o mesmo drama. A simples ideia de morrer e ser 'substituída' pela pequenina é o quanto basta para aterroriza-la.

Impedida de suicidar-se é obrigada a arrastar-se por uma vida tormentosa, a engolir a própria dignidade, a humilhar-se, a baixar a cabeça, a ser insultada, vilipendiada, malbaratada...

E sendo prostituta sem querer ser, toma, a semelhança do Cristo, o caminho de um calvário a cujo topo ou fim jamais chega. Sua existência insuportável por ser definida como um aproximar-se da cruz sem jamais atingi-la... É uma agonia, um suplício sem sim.

O mundo no entanto não esta nem ai para seu drama...

E passa a seus olhos como miserável prostituta, criatura repugnante e odiosa, filha da luxúria e da devassidão. Embora sua alma seja tão casta - Senão mais - quanto a de uma freira...

Mas que é a alma? Que é a mente? Que é a consciência? Que é a intenção? Para a Sociedade...

Tudo quanto a Sociedade vê é o escândalo... E nada, nada mais.

Para aquela Sociedade, como para a atual, o mal ou o pecado supremo esta sempre relacionado com o sexo, não com a miséria, a fome, a guerra, o morticínio...

E aquela Sociedade, como parte desta, apresentava-se como Cristã!!!???!!!

E colocava o sexo acima da convivência humana, da dignidade humana, da vida humana!

Eis um Cristianismo subvertido, pervertido e invertido, que perdeu por completo o verdadeiro sentido do amor.

Ocorrem-me as luminosas palavras de Henry Miller: "Todo mundo diz que sexo é obsceno. A única verdadeira obscenidade é a guerra."  

Tal o diagnóstico daquele triste tempo.

Sonia a vítima.

E no entanto ela é verdadeira discípula do Mestre amado, justamente porque ama, e imola-se, e sofre.

"Nisto saberão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros."

Sônia bem poderia pensar apenas em si mesma e odiar aquele pai bêbado execrável com seu bafo nauseabundo, aquela madrasta afetada e arrogante e aquelas crianças sujas e ranhentas... Caso quisesse bem poderia odia-los, e até penso que não seria difícil...

Optou pelo amor, assim pelo sofrimento e pela dor.

Quantas moças respeitáveis, a semelhança de Dounia, não se guardavam até encontrar um pretendente rico capaz de pagar pela oferta da virgindade e desposa-las regularmente, com as bençãos da igreja. E no entanto que era aquilo senão vil comércio??? E prostituição reservada a um só...

E quantas não se vendiam por luxo? Por rendas, por jóias, por vestidos, por sapatos... Enquanto ela, embora se vendesse a muitos, vendia-se premida pela fome alheia... Quiçá morresse de fome, fiel aos preconceitos do tempo. Todavia, contemplar aquele pequenos morrendo de fome...

Mesmo quando parte de um pai o juízo de Marmelodoff não deixa de ser justo!

Como Jesus poderia deixar de perdoar aquela que sacrificara seu pudor, sua honra, sua reputação e se converterá em 'pecadora' miserável apenas para salvar a madrasta, os irmãos e o pai beberrão da morte certa?

Reatualizando a pergunta: Que teria Jesus a perdoar em alguém que optou por sofrer moralmente e por imolar-se, movido pelo sentimento mais nobre e elevado de todos, a saber, pelo amor???

Como teria pecado se com o sacrifício sincero e penoso da virgindade tomou a peito saciar a quem tinha fome ou a cobrir quem estava nu?

Como teria ofendido aquele que disse: Vinde a mim as criancinhas... se foi por três criancinhas desamparadas que decidiu subir o calvário?

Deixemos agora, por um instante apenas, a personagem abstrata de Dostoevsky e tornemos a arena da vida vivida, em busca de outras tantas Sonias, feitas de carne, sangue, ossos e nervos de aço.

Observo naquela esquina uma moça vendendo-se para custear o tratamento do velho pai canceroso. O qual lá no seu recanto, outrora feliz, cuida que a filha exerce o respeitoso cargo de secretária em alguma casa de comércio ou repartição pública.

Ouça quem puder a melodia 'Secretária da beira do cais' e compreenderá o que estou a dizer.

Aquela prostitui-se para comprar os remédios do irmão mais moço, sem os quais não pode passar... Aquela outra para impedir que a pobre mãe, já entrada em anos... continue a ralar-se como escrava lavando banheiro de gente rica.

Temos ainda esta outra que expõem-se ao vexame porque tendo perdido o marido, não é capaz de custear a escola ou internato dos filhos...

Não vou dissertar aqui sobre os motivos que podem levar uma moça ou mulher a prostituir-se... Limitar-me-ei a declarar que nem todas aqueles mulheres abraçaram este ofício levadas pelo que a gente 'respeitável' - Que mata, rouba, mente, explora, faz guerra, etc - qualifica como devassidão! Limitar-me-ei a declarar que há ali muito drama... Dar-me-ei por satisfeito em levantar a ponta do véu que oculta muita tragédia... E a solicitar que os virtuosos censores moderem seus julgamento segundo a norma e regra da prudência.

Antes de apontar alguém, de julgar alguém, de condenar alguém, de repudiar alguém... experimente colocar-se no lugar deste alguém ou a imaginar que poderia te-lo feito tomar a decisão que tomou.

Raskolnikoff apesar de te feito 'aquilo' e cometido um erro demasiado grave, conseguiu não só colocar-se no lugar desta moça desprezada - Ou melhor, odiada pelo mundo e pela 'boa sociedade - compreende-la e ama-la... E amando-a veio a ser amado com não menos intensidade. O que veio a ser para ele um princípio de ressurreição após a morte negra da alma... Pois toda ressurreição parte de um amor.

No entanto se tivermos consciência de que tudo quanto parte da miséria - Assim a embriagues, a droga, a prostituição, etc - é pecado social, partilhado por todos nós... Se tivermos a rara percepção de que somos co responsáveis por todos estes males na medida em que não apenas somos insensíveis, mas em que compactuamos com a insensibilidade alheia, ao invés de, como cristãos, indignar-nos... O mínimo que teremos de oferecer as Sonias que cruzam nossas caminhos são palavras de compreensão, conforto e amor; não de juízo, não de condenação. Pois se não sabemos acolher, abstenha-mo-nos de julgar e condenar.

Assim antes de apedrejar as Madalenas que encontra pelo caminho pergunte a si mesmo sobre o que fez ou tem feito para erradicar as situações de fome, miséria, nudez, etc que afligem e angustiam a desgraçada humanidade... Tem alimentado os famintos? Dessedentado os sedentos? Vestido os nus? Caso sua resposta seja negativa não ouse julgar o irmão que caiu por terra esmagado pelo peso da cruz...

Imitemos o gesto aparentemente louco de Raskolnikoff ajoelhado beijando os pés da rapariga... Quem sabe se somos dignos de beijar-lhe o pó dos pés ou a orla do vestido esfarrapado...

Mas porque cometes este ato insensato? Por que beijas os pés de uma devassa ou de uma perdida?

Não, não é os pés de Sonia que eu beijo, não os pés da mulher, não os pés da filha de Marmelodoff o que beijo ali e ali venero 'É o imenso sofrimento humano.' - O mesmo no alto do calvário pregado sobre a cruz, o mesmo na alcova de uma prostituta inconformada, o mesmo no gesto do pai que roubou uma caixa de leite para alimentar o filho pequenino... Em todo lugar a mesma dor e o mesmo drama santificados pelo Cristo.




Ofereço este ensaio ao querido amigo Dr Carlos Seino, o qual como Cristão honesto e sincero não cessa de progredir na luz de Cristo. 


"Assim a senda dos nobres é como a aurora, que vai brilhando, brilhando, até converter-se em dia pleno." ora nosso dia é o Cristo. Jamais cessemos de avançar nele, jamais nos conformemos com o que temos. Porque ele sempre tem mais a oferecermos e nós a tomar de seus tesouros infinitos.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Objetividade ética - Critério humanista

Para mim humanismo não é mera questão de opinião ou ponto de vista, mas de objetividade essencial.

Justamente por não 'admitirmos' a objetividade essencial das coisas somos absolutamente levianos, acomodados, descompromissados, insensíveis.

Graças a essa brincadeira de muito mau gosto alimentada pelo ethos burguês chegamos a duvidar da existência do ser e consequentemente da existência da pobreza, da injustiça, da miséria, da opressão, da dor e do sofrimento alheio, como o qual nos acostumamos a conviver folgadamente. Não nos empenhamos efetivamente na construção de um mundo melhor, mais justo, humano e fraterno pelo simples fato de crer que tudo não passa de aparência ou ilusão.

Para quem vive bem é fácil crer que a experiencialidade da vida alheia, da vida real e vivida, seja ilusória ou aparente.

Quem sofre sofre e por isso não esta interessado no númeno ou na coisa em si imaginada pelos filósofos de gabinete, geralmente bem vestidos e alimentados.

Ser cético face a dor alheia não é ser pensador ou filósofo. Me perdoem é ser cruel, canalha ou psicopata.

O grito de angústia do outro me faz perceber seu sentimento como real.

Chagas purulentas, farrapos, comida podre, palafitas, pontes de madeira, lama podre... é inferno real sobre a terra e sou chamado a posicionar-me face a ele ao invés de ficar diletando...

Para mim a negação do mundo implicará sempre na aceitação do mundo tal qual é e portanto em colaboração e servilismo. Aceito a realidade do mundo para empenhar-me em transforma-la.

Foi da imoderação dos céticos que partiu a negação da Ética e da negação da Ética ou do cientificismo comteano todas as culturas de morte que assombram o Ocidente. E o ceticismo com seu utilitarismo, com seu pragmatismo, com seu emotivismo e sobretudo com o relativismo crasso não lhes opôs resistência alguma. Deixou-nos indefesos face ao liberalismo crasso, o fascismo, os militarismos, o nazismo, o comunismo, etc Batemos de porta e porta pedindo ajuda a essas ideologias necrosadas e não achamos resposta alguma, apenas opressão e sórdida opressão e esmagamento do homem!

O ceticismo metafisico lanço-nos neste báratro de estruturas econômicas ou sociais e nos perdemos por completo e chegamos a negação do outro. Negamos o outro pelo dinheiro, pela raça, pela pátria, pelo partido, pela categoria, pelo gênero... Rotulamos, etiquetamos, desumanizamos...

Tudo porque lá atrás, lá no passado, algum gênio do mal ou ídolo podre declarou que nossa ética sendo meramente subjetiva, relativa e irracional não possuía qualquer padrão ou critério satisfatório.

Objetiva era apenas e tão somente a ciência material e empírica, filha das provetas e tubos dos laboratórios.

Como a Ética não fraciona, não conta, não mede, não pesa, não prevê... passou a ser identificada com os costumes ou preconceitos legados pelo passado remoto ou como resíduo transmitido a estes tempos áureos de par com as superstições mais degradantes...

No entanto era necessário substituir a Ética por alguma coisa. A princípio escolheram a 'deusa' razão. Mas o racionalismo de Voltaire, Rousseau, Diderot, Maine du Biran, Jouffroy, Damiron, Cousin, Renan, etc continuava remetendo os homens a um Ser Supremo e Legislador Eterno. Derribaram-na e entronizaram em seu lugar a ciência, e em seguida o capital, a pátria, a raça, o partido, etc E um deus foi derrubando e devorando seu predecessor... Alguns deuses apenas definharam, outros ressuscitaram quase que miraculosamente; e chegamos a esta luta inglória entre 'pés de barro' que consome as energias do mundo ocidental enquanto o abutre do islã permanece a espreita. A espreita duma civilização, que a semelhança do antigo Império romano, fragiliza-se dia após dia...

Quando encaro a infeliz Europa infeccionada pelos germes cadavéricos do ceticismo, do relativismo, do subjetivismo e das culturas de morte, ocorre-me a imagem horrenda do menino etíope, esquelético, observado pelo abutre faminto.

E ai esta o abutre... Lá em Paris o islamismo, aqui o pentecostalismo, nos EUA o Belt Bible...

Talvez a única liberdade que tenhamos seja a de escolher o monstro porque seremos devorados.

No entanto como ainda não morremos, não demos o último suspiro, não soltamos a respiração, não fomos devorados, temos ainda esperança.

No vestíbulo ainda do inferno de Dante resta-nos ainda um pingo de esperança.

E acreditamos que o cidadão ocidental, superando os preconceitos americanistas e pós modernos (que são o câncer desta civilização moribunda), será cada vez mais de contemplar seu passado, seja ele medieval ou clássico, e reencontrar-se nele ao descobrir as fontes e o sentido de sua cultura original.

Nestes tempos há quem aposte em Marx, em Mises, em Rootbarth, em Stirner, em Lutero, em Calvino, em Nietzsche, em Durkeim, em Dawkins, em Trump... Nós esperamos decididamente em dois derrotados: Num envenenado e num fugitivo ou seja em Sócrates e em Aristóteles, aos quais bem poderíamos adicionar um revolucionário e contestador supliciado nos confins da Judeia. São nossas fontes de inspiração juntamente com o já citado Marx, Weber, Darwin e especialmente Mestre Freud.
A eles: Sócrates e Jesus é que tomamos nosso critério ou padrão de Ética: O homem, sua vida, sua dignidade e sua liberdade.

Pois quando discursamos sobre este homem discursamos sobre nós mesmos lançados que fomos na mesma condição.

Todos conhecemos de perto a dor e a aborrecemos. Todos conhecemos por experiência o prazer e o desejamos, embora não sob a mesma forma!

O problema aqui não é a busca pelo prazer ou a fuga face a dor.

O problema é o outro.

O outro e nossa busca pelo prazer. O outro e nossa fuga face ao sofrimento.

Podemos sacrificar o outro, que é semelhante a nós, tendo em vista a aquisição do prazer ou a eliminação da dor?

Podemos usar o outro para adquirir o prazer ou suavizar a dor?

Podemos por de lado o elemento humano e cogitar apenas na dor e no prazer como fenômenos abstratos?

Qual deveria ser nossa intenção, a intenção reta, a intenção pura?

Como identificar-se é reconhecer a semelhança e admitir que também o outro foge a dor e busca o prazer, a reflexão é pertinente.

Na vida vivida em que fomos lançados isoladamente conseguimos muito pouco e sempre temos laços de dependência mútua.

Assim se hoje os outros dependem de nós, amanhã bem poderemos depender deles.

E quase sempre esperamos algo dos outros.

E até calculamos o que devemos fazer para agradar os outros e ser favoravelmente satisfeitos.

Tendemos a confiar na reciprocidade.

É uma tendência natural esperar o melhor do outro, especialmente quando nos adiantamos e beneficia-mo-lo.

Quantas vezes não recebemos nada do que desejamos justamente porque nada demos e fizemos por merecer?

Neste sentido adiantar-se e beneficiar o outro - ao menos desde que não haja dano ou prejuízo para nós - parece ser a atitude ou critério mais sábio.

Pois se tratarmos os outros como desejamos ser por eles tratados e portanto sempre que possível for amável e benignamente, honramos a natureza comum.

Ademais na medida em que nossas atitudes forem sendo imitadas pelos demais e a corrente do bem tornando-se mais densa as chances de sermos nós mesmos beneficiados irão se tornando bem maiores. Trata-se portanto dum princípio que se levado a sério melhorará a vida de todos.

Da mesma forma, se esperamos que não nos façam quaisquer males comecemos abstendo-nos de fazer mal aos outros. De modo que nosso exemplo venha a ser imitado e o mal entre em declínio.

Evidentemente que este padrão de comportamento nos remete a espécie ou gênero humano em termos de solidariedade.

Ao fazer mal a mesma qualidade que esta no outro faço mal a mim. Pois pela razão, a liberdade, a vontade, a percepção, etc estou no outro e sou um com ele. E ao beneficia-lo beneficio a mim mesmo.

Assim nosso padrão ou critério será o homem ou melhor ainda a humanidade, a espécie humana; e tudo quando a favorece.

Agora quais os bens mais caros e preciosos ao homem?

Antes e tudo a vida! Condição primária para que tenhamos acesso a todos os outros bens oferecidos pelo universo. Não há como ter acesso ao prazer sem estar vivo.

Assim a Ética da pessoa valorizará antes de tudo a vida, e se oporá decididamente a morte, assim ao assassinato e assim a pena capital (embora aqui possam ser feitas algumas exceções).

No entanto esta vida deve valer a pena. Devendo ser digna para ser prazerosa.

E por dignidade devemos considerar antes de tudo a ausência de dor.

Sob pretexto algum seria lícito fazer o outro sofrer, assim profanar-lhe o corpo, mutilar seus membros e tortura-lo. É crime dos mais perversos e abomináveis digno apenas de psicopatas e povos bárbaros.

A integridade do corpo, seguem-se em matéria de dignidade humana a saúde, a alimentação, a vestimenta, a habitação e o lazer.

Abster-se-a o homem virtuoso de comprometer direta ou indiretamente a saúde, a alimentação, a habitação e o ócio alheios. Jamais poderá subtrair remédios, comida, bebida, roupa, brinquedos, etc aqueles que os tenham adquirido honestamente e deles façam uso.

Agora como tais bens costumam ser adquiridos pelo próprio sujeito as custas do valor auferido pelo trabalho que exerce, chegamos a questão da propriedade pessoal. A qual jamais deverá ser confundida com a posse dos meios de produção, esta sempre poderá ser questionada e ter sua legitimidade negada; aquela jamais. A propriedade pessoal é sagrada e inalienável e sua apropriação por particulares ou pelo Estado um crime abominável.

Por propriedade pessoal definimos os proventos obtidos por meio do trabalho. Assim o salário ou estipêndio, bem como todos os objetos ou coisas adquiridos a partir dele. Portanto se um imóvel foi comprado por um trabalhador com as economias advindas de seu trabalho temos propriedade pessoal e portanto intocável. O homem virtuoso jamais ousará apropriar-se de qualquer objeto adquirido as custas do suor alheio, assim não furtará.

Obviamente que isto não toca a questão da herança, do excesso, do acúmulo, etc mas apenas das propriedades e bens adquiridos com o suor do trabalho e USADOS pela família.

Claro que tudo isto nos leva a questão da justiça pessoa e social.

Em termos clássicos definimos a justiça como dar a cada qual aquilo que lhe pertence. Isto apenas é certo, correto e direito.

Aquele que trabalhou e produziu pertence ao menos parte da produção em termos de valor. Como aquele que plantou uma árvore e dela cuidou merece colher os frutos e degusta-los. E aquele que semeou o trigo e por ele velou pertence o direito de ceifa-lo e converte-lo em pão. E aquele que adquiriu a uva e transformou-a em vinho em seu lagar, a felicidade de bebe-lo.

O compromisso do homem com a justiça implica questionar sempre se as pessoas estão tendo acesso aos bens que ajudaram a produzir, e a analisar e a questionar a repartição dos bens.

Há por fim aquela Ética atinente a liberdade humana ou a auto determinação da pessoa e que diz respeito a suas escolhas. Implica admitir que as pessoas possam exercer o ofício que bem quiserem, acreditar no que quiserem (ou não), expressar-se como desejarem e determinar o que haverão de comer, beber, trajar, ouvir e com quem haverão ou se haverão de casar ou com quem haverão de transar... etc, etc, etc.

Como todos desejamos ser livre e determinar nossas vidas é perfeitamente compreensível do ponto de vista racional, que reconheçamos a liberdade alheia. Afinal na mesma medida em que aspirarmos dominar os outros, outros aspirarão dominar-nos. Então o menor é que respeitemos as liberdades uns dos outros numa perspectiva comum. Claro que a dimensão da liberdade tem um limite bastante preciso: A vida, a dignidade alheia e os imperativos da justiça. Grosso modo podemos dizer que a pessoa tudo pode exceto causar dano ou prejuízo ao outro.

Chegamos assim ao supremo critério de ética.

Se o padrão é o outro e aquilo que o outro teme é a dor ou o sofrimento, segue-se que posso fazer absolutamente tudo quanto me der na telha, desde que não atinja ou acometa o outro.

Por este critério temos o fim da moralidade enquanto costume arbitrário e a consagração de uma ética essencialista, humanista e racional.

E temos como saber perfeitamente que a norma: "Não vestireis ao mesmo tempo roupas de lã e linho." em termos de Ética não faz sentido algum pelo simples fato de que a associação dos dois tecidos não prejudica a quem quer que seja.

Dá mesma forma o preceito: "Proibido comer coscorões." torna-se igualmente irrelevante pelo simples fato de não tocar ou atingir a pessoa humana.

Já a recomendação para amar, beneficiar, respeitar e tornar felizes o maior número de seres humanos converte-se em imperativo categórico, num mandamento ou numa necessidade.

Promover o outro em todos os sentidos e sob pretexto algum incomoda-lo. Aqui temos uma regra de ouro.





sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A luta anti manicomial e a vida vivida.

A abordagem de hoje diz respeito a luta anti manicomial.

O que sugestionou-nos a escrever este artigo foi a morte recente do 'poeta' (não aprecio arte moderna.) Ferreira Goulart. 

Cerca de seis ou sete anos lemos uma entrevista concedida por ele em que tecia críticas a alguns partidários da luta anti manicomial.

Até então éramos totalmente simpáticos a esta luta e ainda o somos atualmente só que de modo crítico ou com restrições fundamentadas na realidade brasileira.

Aqui seria mesmo o caso de dizer: Não estamos na Escandinávia ou na Bélgica ou ainda na Suíça ou na França...

Brasil é Brasil e não 'merry England'... e as coisas aqui frequentemente azedam, especialmente sob a perspectiva do trabalho.

Sei que há muito acadêmico, militante, idealista; gente de 'gabinete' enfim, envolvida nessa luta e isso francamente me assusta.

Pois é muito fácil para qualquer um, mesmo em nome de uma ideologia mais humanitária, clamar pelo que julga ser mais conveniente ou mais correto sem ouvir a outra parte, alias a parte diretamente afetada pelo problema...

Quero dizer que a opinião de pessoas eruditas e estudadas que não são cuidadoras ou que não teem parentes enfermos não me parece lá muito relevante.

Claro que tais pessoas devem ser ouvidas. No entanto existe uma outra parte, uma parte que convive com o problema, que tem contato direto, vivência ou experiencialidade. E essas pessoas, os familiares dos enfermos, não tem recebido a atenção que merecem.

Então vamos começar a ouvir e a colocar-nos no lugar do outro?

Pois é muito mas muito fácil e comodo julgar situações reais a partir do próprio gabinete ou como costumamos dizer, da platéia.

Daí insistir sobre o tipo de contato que você tem com a doença mental... seu contato a prático ou meramente teórico???

Voltando ao F G consta ter tido ele três filhos, todos atingidos em maior ou menor medida pela doença mental.

Nem podemos ignorar que o 'poeta' sendo famoso e consagrado tivesse recursos para 'em tese' manter os filhos em casa consigo.

E no entanto foi justamente este F G que veio a público defender a existência de instituições destinadas ao tratamento de doentes mentais, os famigerados manicômios.

O histórico dos manicômios conhece-mo-lo muito bem e sabemos ser, via de regra, um histórico de terror!

Durante décadas a fio os nomes 'Anchieta' e 'Juqueri' representaram o que há de pior possível em termos de qualidade de vida e sofrimento humano.

Sem fiscalização efetiva os alienados mentais, quase sempre indefesos, eram submetidos - pelos médicos, enfermeiros e funcionários - a toda sorte de castigos, mal tratos e humilhações. Havia o choque, sob pretexto terapêutico, havia a camisa de força, o quartinho de isolamento, os banhos de água gelada, etc Isto ainda muito tempo depois de Pinel e Esquirol terem clamado por um tratamento mais humanitário lá na França...

Segundo o imaginário popular ou o folclore os alienados eram submetidos a testes e experiências escabrosas. As mulheres e moças estupradas... E alguns dos pacientes assassinados inclusive!

Isto para não falarmos no descuido e na sujeira, que eram igualmente proverbiais!

Era todo um sub mundo de horror a que poucos, muito poucos tinham acesso pois as curas e altas era coisa demasiado rara.

Compreenda-se portanto que semelhante estado de coisas acabaria por inspirar o movimento anti manicomial. Movimento que preconiza o tratamento do paciente em seu próprio lar em companhia de seus familiares.

Nada mais louvável que a reinserção de um alienado no recôndito de seu lar. Opor-se a isto, já dissemos, é opor-se aos mais elementares princípios de humanidade. Ademais concedemos também certo valor terapêutico ao convívio familiar. Afeto, amor e carinho são certamente fatores que favorecem a recuperação do enfermo.

O ideal de reinserir a maior parte dos alienados em seu lar merece total apoio da Sociedade e o P Público. E dele precisa.

No entanto precisamos admitir - e aqui cumpre como sempre por totalmente de lado o idealismo, o romantismo e a ingenuidade - que nem todos os pacientes podem ser reinseridos e que isto depende da enfermidade, do grau da enfermidade e da resposta aos tratamentos. Pacientes há que são demasiado agressivos e agitados, oferecendo perigo tanto para si mesmo quanto para os seus. Pacientes há que de nada se recordam e que tendem a fuga! Pacientes há que precisam tomar tais e tais medicamentos de tantas em tantas horas! Pacientes há que precisam receber os cuidados básicos, inclusive sendo acompanhados ao banheiro e alimentados!

É aqui que as palavras do citado escritor vem a calhar: "Pai algum deseja internar seu próprio filho. Então quando um pai roga para que seu filho seja internado é porque a situação tornou-se insustentável."

Julgo que tais palavras dispensem qualquer comentário.

Situações há que pedem cuidados intensivos. Cuidados que em mesmo alguém bem situado como o poeta é capaz de oferecer...

Ademais como poderia uma mulher ou mesmo homem idoso imobilizar seu próprio filho surtado quando num manicômio ou hospital três ou quatro enfermeiros não dão conta dele???

Implica o pai, a mãe ou mesmo um irmão mais velho aplicar-lhe injeções de Thorazine, o que é absurdo!

Aqui o problema adquire a mesma conotação que a dita 'preservação' da estrutura familiar ou da participação dos pais na vida escolar dos filhos que são outras tantas lutas mantidas por outros tantos grupos sociais e muitas vezes inutilmente.

Tanto os conservadores e moralistas (que dizem lutar pela manutenção da estrutura familiar tradicional), quando os pedagogos otimistas e os militantes da luta anti manicomial parecem ignorar uma das características ou aspectos mais marcantes da realidade contemporânea: o contesto capitalista. Referi-mo-nos ao mercado, ao mundo do trabalho e a suas exigências.

Na Sociedade contemporânea o contato e as relações humanas tem sido amplamente dificultados pelas exigências advindas do trabalho e sua jornada. Os diversos modelos familiares ( e compreendo família como um agrupamento de pessoas que se amam e se cuidam, e vivem juntas sem preocupar-me com a forma) estão todos expostos a esta influência desagregadora e por isso a família tradicional tomba vitimada. Devido a falta de tempo e a falta de convivência. Outro não é o problema da interação da família com a escola; os pais ou responsáveis não acompanham a vida escolar de seus filhos porque consagram praticamente todas as energias ao mundo do trabalho. Chegam cansados em casa e dispõem de tempo apenas para tomar banho, alimentar-se e descansar ou dormir. Parte deles faz hora extra, trabalha nos fins de semana ou leva trabalho para casa... E os filhos ficam mesmo abandonados ou a ver navios...

A educação das crianças foi relegada as escolas e isto parece ser irreversível ao menos que revejamos a organização do trabalho ou promovamos melhorias sociais em termos de aumento de renda. O lar foi igualmente abandonado e até mesmo as relações pessoais de amizade. As pessoas estão cada vez mais isoladas e estranhado-se mais mesmo quanto vivendo juntas! E tudo isto decorrer do mundo do trabalho de suas exigências. Dir-se-ia que o capital absorveu todas as esferas, inclusive as mais primárias, da existência humana levando-as ao colapso e a dissolução.

Diante disto como reinserir os alienados no lar se a maior parte dos lares esta a desagregar-se? Como reinseri-los no seio do lar se o lar não esta no lar mas fora dele ganhando o pão? Como inseri-los num meio em que ficarão abandonados e sem receber os cuidados necessários a manutenção da vida???

Certamente que não estamos falando nos lares dos trabalhadores e das famílias de baixa renda...

Espaços e ambientes saturados de stress, de angústia, de dor e de sofrimento em que as doenças mentais deitam e rolam por assim dizer...

Quanta vez a enfermidade mental não tem sua gênese no conflito familiar, no deterioramento da convivência, na pressão econômica, nos desencontros pessoais, na solidão acompanhada, na rejeição, etc

Tudo isto, digo a reinserção dos alienados, no seio familiar das famílias mais humildes, supõem a existência de uma estrutura de apoio que não pode ser criada 'a posteriori' mas 'a priori'. Aqui a ordem das coisas foi invertida pois o principal objetivo da luta anti manicomial deveria ser acionar e cobrar o P Público no sentido de investir e criar organismos destinados a auxiliar e apoiar as famílias e não lançar os enfermos no seio da família para depois criar os organismos de apoio.

Imaginar que as famílias em dissolução que sequer teem tempo para acompanhar os estudos dos filhos haverão de rebelar-se e de cobrar ativamente o P Público é a suprema das utopias. Mais fácil elas acorrentarem seus familiares enfermos em porões insalubres do que exercer cidadania... Cultura não se produz sob pressão mas apenas por via educacional.

Aqui a visita do médico de família a casa deve ser assídua, o acesso a mediação rápido e efetivo, o fornecimento de insumos igualmente rápido, o acesso ao serviço psicológico franqueado a toda família, etc Aqui o mínimo que se haveria de esperar e sabemos o quanto estamos muito longe disto. Agora como manter um alienado mental em casa sem acompanhamento médico efetivo? Sem orientação e formação? Se acesso imediato aos medicamentos??? Sem o fornecimento de insumos vitais ao paciente???

Perdoem-me os lutadores de boa fé mas aqui mandar o enfermo de volta a casa equivale a abandona-lo ou a joga-lo na sarjeta sem qualquer assistência.

Cadê a atuação complementar do P Público atuando eficazmente junto a essas famílias???

A propósito não seria ocioso propor a criação de uma bolsa ou estipêndio financeiro para tais pessoas. Sei que já existem alguns programas neste sentido. Precisam no entanto funcionar melhor, contemplar a todos e fornecer uma quantidade maior de insumos.

Isto quanto aqueles quadros em que a reinserção seja possível.

Agora devemos considerar, como disse F Goulart, os quadros em que a reinserção não é possível ou viável por colocar em risco a segurança do paciente ou da comunidade. Quadros que exigem internação no mínimo provisória e portanto a existência de manicômios ou se preferirem de instituições especializadas, clínicas ou hospitais.

Penso que se trate de um aspecto da realidade que não possa ser ignorado ou disfarçado, e que precisamos lidar com isto.

Não adianta fingir que não existe e tentar convencer a pobre família, muitas vezes completamente esgotada, a permanecer com o doente em casa. Em determinados casos é desumano...

A menos que o pobre enfermo agitado tivesse de ser dopado em dose máxima e posto em coma!

Nestes casos melhor dopa-lo o menos possível e imobiliza-lo ou isola-lo provisoriamente numa cela. Uma vez que a longo prazo o excesso de medicamentos poderia prejudicar-lhe seriamente a saúde.

Então entre encher uma pessoa de hipnóticos para disfarçar-lhe os sintomas ou suavizar-lhe a agressividade melhor seria mante-la o mais lúcida possível num recinto acolchoado, ao menos até que o acesso parasse.

Em casa terão de dopa-la ou de induzi-la ao sono ou ao topor e eu não penso que seja a medida mais acertada.

O que nos leva ao velho ideal proposto por Pinel e Esquirol a humanização do regime manicomial, uma vigilância efetiva por parte do P Público e dos coletivos sociais, a tentativa de fazer com que a família mantenha contato com o paciente por meio de visitas periódicas, e consequentemente a manutenção ou criação ao menos de alguns institutos de isolamento destinados a internação de pacientes em estado de crise.

Isto como já dissemos a par da implantação de uma estrutura de apoio destinada a orientar e auxiliar as famílias que estiverem dispostas a manter os pacientes mais estáveis ou menos graves em suas residências. Enquanto as famílias, já pressionadas pelo mundo do trabalho e cobradas pela organização escolar, não receberem este tipo de apoio julgo que a luta anti manicomial continuara sendo utópica. Para ser realista precisa antes de tudo oferecer soluções práticas as famílias e aos cuidadores e não sufocar suas vozes e clamores ou deixar se ouvi-los. Sim, o ponto de vista e opinião dos familiares precisam ser levados em conta.

Sei que este artigo não agradará a muita gente e que os intelectuais e ideólogos de gabinete ficarão injuriados, mas é o mínimo que se pode fazer no que tange a condição das famílias, especialmente das mais humildes.







quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Tópicos de Filosofia grega - Ética: a virtude e o prazer; em busca da síntese.

Exposição



Segundo Aristóteles o homem existe para a felicidade: "A felicidade é o bem para que tendem todos os outros atos e o impulso intencional de nossas motivações." .Esta doutrina recebeu o nome de Eudemonismo, pois toma a felicidade por fim.



Ora esta definição comum em nada nos satisfaz uma vez que os próprios hedonistas admitiam ser a Felicidade o bem maior ou a destinação final dos atos humanos. Importa saber o meio porque tal fim era atingido ou aquilo que tornava o homem verdadeiramente feliz.



Aristóteles, aqui seguindo a Platão e a Sócrates, classifica os atos aptos para produzirem a felicidade como VIRTUOSOS. Para Sócrates, Platão, Xenócrates, Aristóteles, etc a felicidade esta diretamente relacionada com a ARETÉ ou virtude.
Consideravam ainda que existiam diversos tipos de virtudes e procuravam organiza-las hierarquicamente. Sócrates e Platão ao que parece colocam a Justiça em primeiro lugar. Já Aristóteles colocava em primeiro lugar a contemplação da verdade pelo intelecto ou a posse do conhecimento. 

Crisipo, Seneca e Epicteto, estoicos, indicaram igualmente que o fim último da criatura racional fosse a posse da felicidade. A qual segundo o fundador da Escola era atingida pela prática da virtude ("O verdadeiro Bem pode consistir apenas na posse da virtude!"), compreendida por eles como qualquer ação empreendida em coerência com a natureza (Cleanto de Assos). Agir naturalmente ou segundo a natureza era para eles, agir virtuosamente. Enfatizavam no entanto a posse da serenidade ou impassibilidade, mesmo diante de situações dolorosas ou trágicas.

Os estoicos não podiam encarar a dor física como mal supremo ou mesmo como mal, mas como adiaphora ou coisa neutra. A respeito da saúde, da beleza, da glória, da riqueza, da doença, da fealdade, da obscuridade e da miséria i é dos bens/males naturais ou transmitidos, costumavam declarar a mesma coisa. Esta proposição foi ao que parece tomada a Platão Espeusipo. Xenócrates parece ter sido o primeiro a classifica-las como bens inferiores ou de segunda classe, isto na medida em que eram virtuosamente administradas em comunicação com os bens superiores.

Crisipo opinava que as pessoas vulgares e hostis a Filosofia tomavam tais dadivas naturais por bens preciosos, acrescentando que o sábio apenas deles se servia com moderação, subordinando-os a uma direção virtuosa ou que não se deixava afetar por eles. 

Os cínicos mantiveram a opinião de Platão ou Sócrates. 

Já os hedonistas sustinham que a felicidade tinha sua causa na fruição do prazer.



Mas não estavam de pleno acordo a respeito de qual gênero ou categoria de prazeres estava posto para a aquisição da felicidade.

Assim Arístipo de Cirene, pupilo de Sócrates, afirmou que a fruição dos apetites carnais ou sensitivos como comida, bebida e atividade sexual constituíam o sentido da vida humana e que a dor, incluindo a dor física, correspondia ao mal supremo. Teodoro de Cirene e Exegias também assumiram este ponto de vista.

Escolasticamente cumpria verificar quais fossem os prazeres mais intensos e duradouros.

Epicuro também afirmou o prazer como sumo bem a ser desejado pelos mortais. No entanto sua ideia de prazer parecer ser bastante afim da ideia aristotélica de Felicidade, de modo geral ele associa este prazer espiritual ou felicidade não apenas com a ausência da aponia ou dor física mas sobretudo com a ataraxia, definida como imperturbabilidade da alma adquirida por meio do auto controle. O sábio estabelecia uma espécie de hierarquia de prazeres, fruindo cada qual deles com certa moderação até que já não podia ser atingido pelas circunstâncias exteriores a si.

A princípio Epicuro parece ter dado bastante valor a saúde corporal, posteriormente no entanto parece ter colocado a amizade acima dela, o que ainda aqui reporta a Sócrates.

Já o estóico Cleanto de Assos parece ter chegado as vias do maniqueísmo, classificando a fruição do prazer como "Oposta a natureza" e "Nociva" 



Desenvolvimento

O primeiro aspecto que nos chama a atenção aqui é a convergência de sentido entre Felicidade e Prazer.

Nem podemos deixar de encarar a Felicidade como algo agradável ou prazeroso.

Tudo quanto podemos dizer é que a Felicidade corresponde a um tipo de prazer tanto mais complexo e refinado. Um tipo de aestesis ou sensação difusa na pessoa como um todo e presente tanto no intelecto quanto no corpo físico. Uma espécie de prazer considerado pelo intelecto e consequentemente ampliado e aprofundado, chegando a constituir um 'estado de espírito' ou modo de ser.

Podemos defini-la ainda como um bem estar ou consciência de bem estar.

Seja como for nenhuma destas definições afasta-se demasiadamente da noção de prazer ou deleite.

A felicidade é sempre algo deleitoso, agradável ou prazeroso e nem podemos pensar doutro modo ou maneira.

Assim se compreendemos felicidade como prazer, a tão decantada oposição entre eudemonismo e hedonismo perde toda sua força.

Examinemos agora a questão dos prazeres.

Para que não tomemos a felicidade pelo que não é.

Antes porém convém analisar a questão da conformidade das ações com a natureza.

Isto porque da satisfação de algum instintos parece quase sempre resultar uma sensação prazerosa.

De fato os instintos parecem estar voltados para determinados fins, grosso modo para a contemplação de certas necessidades imperiosas ditadas pela natureza, a qual para estimular esta contemplação, decretou que a satisfação de tais necessidades correspondesse sempre a uma sensação prazerosa.

Assim após a satisfação de cada apetite resulta uma sensação deleitosa ou certo bem estar.

Do ponto de vista da natureza é o prazer grande benefício. Pois sem este tipo de sensação os organismos em sua fase mais primitiva e inconsciente, quiçá não se sentissem impulsionados a satisfazer suas necessidades essenciais, de que resultariam graves consequências. Nem podemos deixar que reconhecer que a satisfação dos apetites é benéfica tendo em vista a manutenção da vida corporal ou física, e que esta é condição 'sine qua nom' para o exercício da virtude.

De tais relações resulta que ao menos remotamente o prazer apetitivo, sensório ou corporal é um bem enquanto ponto de partida necessário para a posse de outros bens. É bem relativo, secundário e remoto mas mesmo assim um bem como anteviu Xenócrates. Nem se pode, dentro do quadro geral da vida, classifica-lo como Cleanto, ou seja, como um tipo de mal.
No entanto quanto a criatura adulta, desenvolvida, racional e livre também não podemos encarar a fruição dos prazeres apetitivos como o bem supremo ou a chave da felicidade. Cumpre advertir no entanto que de certo modo a felicidade esta relacionada com os ideais acalentados pela pessoa ou com a mente.

Assim para a mente carnal, limitada, vulgar, grosseira, primitiva, etc o ideal de felicidade poderá consistir na fruição dos prazeres apetitivos ou sensoriais e resumir-se em comer, beber e procriar; isto pelo simples fato de ignorar outras possibilidades ou tipos de prazer, quais sejam os de categoria intelectual ou ética. Nem todas as pessoas, por uma questão de formação, são capazes de deleitar-se ao contemplar uma quadro ou escutar uma sinfonia. São incapazes de frui-lo ou de percebe-lo porque não foram educadas para isto... e isto não faz sentido para elas. Concentraram suas energias nos apetites e assim só são capazes de captar os prazeres produzidos pela satisfação dos mesmos.

Quero dizer com isto que alguns tipos de pessoas podem ser sentir felizes ou auferir uma sensação de bem estar apenas com o beber, o comer e o transar; e nem podemos declarar que a felicidade delas seja menor ou inferior a que é sentida por nós ao contemplar um edifício de linhas harmoniosas ou a assistir um espetáculo teatral. Não há um aparelho com que se possa mensurar a felicidade. O máximo que podemos dizer é que somos capazes que fruir uma gama maior de prazeres, parte dos quais ignorados por elas.

E como a felicidade fruída por elas não contempla todos os aspectos do ser ou da personalidade - ignorando o racional e o ético - podemos cogitar que a nossa seja mais vasta e constante. Quanto a dor já atinamos ser boa em algumas circunstâncias. No entanto é certo que dela fugimos e mais ainda da enfermidade, a qual sendo crônica ou incurável não pode ser classificada como algo bom. Tampouco podemos concebe-la como um mal absoluto, mas apenas como um mal relativo caso não nos leve a praticar voluntariamente uma ação prejudicial ou danosa.

Uma coisa parece certa: aquele que aprende a fruir outras formas mais refinadas de prazer como a contemplação do belo (música, teatro, poesia, etc) ou a amizade parece ter encontrado meios com que aliviar os tais males relativos procedentes do corpo físico. E quando o corpo físico declinar terá feito boa provisão... queremos dizer com isto que bem poderá consolar-se da insensibilidade do paladar, da frigidez ou da impotência sexual ouvindo belas canções, compondo poesias, pintando, desenhando, esculpindo, exercendo voluntariado, etc Assim não ficará exasperado, como aqueles que perdendo tais sensações ficaram privados de todo e qualquer tipo de sensações prazerosas.

Eis porque é proveitoso ampliar desde cedo o sentido do prazer.

Por outro lado não podemos deixar de reconhecer que mesmo a fruição dos prazeres apetitivos numa perspectiva natural comporta certos riscos ou perigos que devem ser considerados por ocasionalmente exigirem de nós a abstenção, a contenção e consequentemente o treino ou adestramento, caso desejamos evitar o mal maior da dor, o desastre ou a ruína. Nem sempre a criatura racional poderá satisfazer os apetites alheio a quaisquer circunstâncias de carater externo, o que nos encaminha mais uma vez a questão da hierarquia dos prazeres e da temperança ou sobriedade.

Caso nos tornemos escravos dos apetites por força do prazer e do bem estar podemos sempre estar entrando por um caminho áspero. Daí a necessidade de certo auto controle, resistência ou autonomia; enfim certa dose de liberdade. Na qual pode estar nossa redenção ou melhor preservação.

Todos precisamos de água para beber e devemos bebe-la de tempo em tempo sob pena de perecer. No entanto caso tenhamos acesso a algum tipo de água contaminada faz-se mister evita-la e buscar por qualquer outra reserva ainda que sejamos prezas da sede. Em tais conjunturas os que por hábito resistirem e forem capazes de esperar por outra provisão, no caso saudável; terão escapado a morte ou a algum tipo de enfermidade dolorosa... é sempre mais vantajoso esperar um pouco mais e ingerir água pura do que água suja, mas isto dependerá sempre do hábito.

O mesmo se dá com o alimento.

Aqueles que passarem por situações de fome ou privação por um tempo determinado após o qual haverão de receber alimentos bons, muito lucrarão de durante o tempo da privação abstiverem-se de alimentos venenosos, deteriorados ou contaminados pelas mesmas razões acima expostas.

Por fim quem de nós haverá de negar que é melhor abster-se de transar do que transar com pessoas enfermas sem preservativo??? Expondo-se a contrair AIDS ou Hepatite...

Mesmo em caso de dúvida seria melhor abster-se.

Tendo em vista futuras situações de dor e morte.

Concluímos certificando que nem sempre a fruição do prazer e a decorrente sensação de felicidade ou bem estar corresponderá a um verdadeiro bem, uma vez que deste bem decorrerão males muito maiores! No caso apenas a abstenção ou a privação equivaleria a um verdadeiro bem.

Epicuro foi quem intuiu tais coisas ao declarar que era melhor fugir a excessos ou exageros quanto a satisfação dos apetites e a decorrente fruição do prazer durante a juventude, tendo em vista a conservação da saúde por mais tempo, especialmente durante a velhice.

Este pensador parece ter percebido que a concentração na fruição do prazer pelo prazer, desvinculada dos fins naturais a que tendem e a satisfação da necessidade, parece parece estar relacionada com a deterioração precoce do corpo físico ou com a perda da saúde e a consequente manifestação da enfermidade e da dor. Inferindo que a fruição dos prazeres apetitivos devia ser exercida moderadamente ou em conexão com seus fins. Assim dizia Sócrates o que come deve ter em vista não apenas o sabor mas antes de tudo a satisfação da fome e o que bebe ter em vista não o gosto mas a extinção da sede. Classificava os que bebiam sem ter sede e os que comiam ser ter fome, jungidos pelo gosto ou pelo paladar como escravos dos sentidos.

Não se trata aqui de negar o prazer na perspectiva de Cleantes e dos maniqueus, mas apenas e tão somente de situa-los no contesto mais amplo da existência e do fenômeno humano. O que se contesta aqui é do comer, beber ou transar encarados como sentido da vida. Assim a gula, a embriaguez ou a lubricidade e não a alimentação ou a sexualidade.

Em tais casos é necessário manter uma visão sóbria e equilibrada. E contemplar o homem como um todo!

Importa saber que não podemos confundir - como Aristipo, Teodoro, Exegias e os modernos - a posse da felicidade em sua acepção mais ampla e profunda com a fruição descontrolada dos apetites ou o prazer sensorial.

Podemos admitir que no contesto de uma vida virtuosa, ela corresponda a um bem de condição inferior, mas não ao bem superior ou a virtude, uma vez que esta só existe no plano da liberdade ou da escolha. Aqui apenas o celibato tocaria a virtude, caso fosse posto a serviço das virtudes superiores como a causa da justiça por exemplo. Mesmo enquanto opção livre esta 'virtude' jamais deixaria de ser um meio para tornar-se virtude em si mesma.

E sempre alguém poderia cultivar a vida celibatária tendo em vista consagrar-se a atividades viciosas. Como aquele que se torna-se celibatário tendo em vista amealhar mais dinheiro e juntar fortuna superior a dos demais.

É o que temos por hora a declarar sobre o prazer, o bem, a virtude e a felicidade.

Resta-nos agora examinar a questão da utilidade.