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terça-feira, 14 de outubro de 2025

A utopia positivista...

Como foi dito no artigo precedente uma das poucas ideologias contemporâneas a, de algum modo, tornar-se hegemônica e tentar unificar espiritualmente a Europa foi o positivismo.

Daí a importância de compreendermos sua invenção ou o processo porque veio a surgir, pois ao contrário do comunismo não surge ele pronto como obra de dois ou três cabeças. Assim se o comunismo levou pouco mais de meio século ou de trinta anos para chegar a sua forma básica e elementar, o positivismo, a contar de 1795 ou do "Quadro histórico do progresso do espírito humano." do Marques de Condorcet aos idos de 1870, com Litreé, temos um curso de quase oito décadas e a colaboração de, no mínimo, quatro cabeças.

Condorcet foi quem, pela primeira vez, impulsionado pelo materialismo e pelos progressos da técnica no século XVIII, o século da Revolução industrial, idealizou substituir a velha escatológica cristã, com seu progresso até o fim do mundo ou paraíso, por uma escatologia natural em torno de um progresso humano ilimitado ou infinito. O que certamente nos conduz ao fim da História e ao consequente paraíso na terra dos comunistas. 

A análise em torno da secularização ou naturalização da fé é de A C Grayling, mas remonta a M. Eliade, H. Arendt, P. Gaxotte e outros, aplicando-se as demais culturas de morte pós religiosas criadas na Europa nos três últimos séculos.

E com não se pode viver sem mística ou metafísica disfarçada, os incrédulos pós revolucionários mergulharam de cabeça na ideologia esboçada pelo nobre francês. Com destaque para o sr Louis de Rouvroy, mais conhecido como Duque de St Simon, criador do movimento st simonista, o qual lhe adicionou inúmeros temperos vislumbrando uma sociedade futura, ou um dado esquema de sociedade, articulada em torno de fábricas ou indústrias, da qual resultaria uma reconstrução cultural, através de novos princípios e valores produzidos. 

E aqui já temos um esboço bem melhor delineado do positivismo futuro ou de suas aspirações/pretensões. No entanto essa estrutura utópica st Simoniana, ainda lembra, de longe, a estrutura da velha igreja que pretende substituir. O que também foi dito com propriedade sobre a estrutura do partido comunista soviético pelo Dr Fullop Muller, o qual chegou a ver nela um arquétipo do Vaticano...

Curiosamente foi esse aspecto reforçado ainda mais pelo secretário do Duque, o matemático August Comte, o qual ainda hoje é acusado por se ter apropriado indevidamente da obra de Rouvroy, sem lhe ter atribuído os devidos créditos. Pois esse matemático havia sido criado na igreja papa, e sido fervoroso durante a juventude.

Então ele decidiu plagiar igualmente, a estrutura dessa comunhão religiosa, criando inclusive um calendário positivista em que os Santos da antiga fé eram substituídos por filósofos e cientistas como Galileu, Newton ou Descartes e Pascal. Além disso ele também determinou a construção de templos e a criação de cerimônias pomposas, com estátuas, quadros, alfaias, paramentos, sacerdócio e até mesmo uma paródia de grande mãe ou Virgem Maria; a saber um antigo flerte seu, a sra Clotilde de Vaux. Por onde também chegamos a maçonaria, com seu cerimonial...

Naturalmente que parte de seus seguidores chegaram a avaliar que o sr Comte, ao menos na fase final de sua vida, tinha já as faculdades mentais avariadas e se sentiam bastante desconfortáveis face a paródia religiosa. 

Seja como for não faltava estro ao sr Comte. Pois chegou, antes de Maurras e outros, a compreender a total incompatibilidade entre a cultura apostólica romana e a cultura protestante, coisa que hoje, em tempos de negociação ecumênica, os apostólicos romanos desmiolados ignoram por completo.

Além disso, como herdeiro das culturas clássica e apostólica romana, em que pese ser kantiano - Como Comte e os franceses jamais produziram gnoseologia, adotaram a de Kant, derivada em parte de Hume e Locke. - empirista ou materialista Comte jamais admitiu negar a Ética ou sequer toca-la. Uma nobre incoerência sem dúvida.

Por fim Comte, descendo da terra as nuvens, principiou a escrever sobre a questão do poder ou da política tendo em vista a implantação de seu modelo social. O que conduziu-o igualmente ao exame das questões econômicas. Quanto a política foi democrata ou republicano. Porém, retomando Platão introduziu um comitê de cientistas e teóricos, e militares, responsáveis por implantar ou delinear a futura república, antecipando a ditadura do proletariado de Marx (Provável plágio da sua) e o esquema fascista. Todo despotismo atual procede de Platão via Comte como demonstrou K Popper na "Sociedade aberta e seus inimigos".

Também há revolucionarismo ou jacobinismo aqui, tendo em vista o golpe. Uma vez que o grosso da população, a falta de aparato educacional (Eram massas) vivia numa sociedade a parte e cada vez mais alienada pelo excesso de trabalho. Aqui seriam as elites ou quadros que dariam a liberdade ao povo e esboçariam seu futuro...

Por fim, parece que nós últimos anos de sua carreira, observando a realidade do outro lado do canal da mancha, o sr Comte considerou justamente a questão do liberalismo econômico e da pauperizaçao ou da miséria, insinuando algumas soluções na direção do Socialismo, sem no entanto avançar muito, pois afligido por um câncer no estômago foi colhido pela morte.

Após sua morte ocorreu a esperada cisão entre os Ortodoxos, seguidores de Comte e de sua igreja fake e o grupo chefiado pelo ilustre filólogo - Autor do Dicionário da academia francesa. - E J Litreé, o qual apesar de ter morrido apostólico romano, enquanto chefiou o positivismo notabilizou-se por adotar uma estrita linha de coerência. Da qual resultou a negação da Ética e da Estética enquanto elaborações metafísicas.

E tal negacionismo, tocando as raízes clássicas de nossa cultura, foi um marco.

O qual por trinta ou quarenta anos norteou grande parte da elite positivista. Desde então passou ela a encarar a questão do bem e do mal, do vício e da virtude... Como mera bravata. Enfim como algo inverificavel, relativo, subjetivo, neutro ou indiferente. O que não deixou de repercutir quase de imediato entre a juventude anarquista e comunista, resultado na ação direta.

Entrementes passou o positivismo a vizinha Albion, partindo do grupo de Darwin, a esse tempo já agnóstico. Entre os ingleses contou com a adesão de Mill e Spencer sofrendo algumas alterações ou suavizações, conforme o temperamento e a cultura dos britânicos. Na Inglaterra desvinculou-se o positivismo do grosseiro materialismo francês, legado do iluminismo e, retornando a Kant, elaborou o discurso agnóstico, sem dúvida alguma mais sóbrio ou coerente.

A corrente agnóstica, como já foi assinalado, tinha certa proximidade com Darwin e seu círculo e teve como pioneiros Galton e Huxley. Posteriormente os ingleses chegaram a acomodar o agnosticismo formal com a frequência a igreja anglicana e a admitir inclusive, que ele podia ser completado pela fé religiosa, segundo a aposta de Pascal. Naturalmente que a consequência foi um certo afastamento entre o positivismo francês e o positivismo inglês, a qual recorda a famosa querela entre os espíritas ingleses e franceses ou não kardecistas e kardecistas.

Aliás o espiritismo francês ou kardecista, ousando apresentar suas doutrinas ou crenças como científicas (Que hajam fenômenos ou fatos paranormais é outra coisa, mesmo quando possivelmente causados por espíritos humanos desencarnados) ressente a influência do positivismo, no tempo e na formação da cultura. Por isso está ele, o positivismo, presente tanto no espiritismo quanto no marxismo... O que torna essa história ainda mais fascinante.

Ainda na Inglaterra a crença positivista no progresso ilimitado da humanidade via ciência, contou com um notável paladino no ensaísta e romancista H G Wells, o qual floresceu até o pós guerra e por diversas vezes terçou armas com o fabianista G B Shaw, inclusive a propósito da própria guerra.

Como se vê o positivismo prometia muito, inclusive, em dado momento produzir uma moralidade ou Ética através da ciência (O que cognominavam Ética positiva ou empirica.) - O que jamais aconteceu (A tentativa mais próxima e malograda foi o utilitarismo 'ortodoxo' ou individualista de Benthan, o qual, como se vê, aproxima-se tanto do egoísmo de Stirner quanto de Maquiavel.) e conduziu a humanidade a primeira grande guerra i é ao inferno sobre a terra.

Após a primeira grande guerra seguiu-se a decepção generalizada. Sendo assim, tanto o homem médio quanto a intelectualidade europeias, lançaram o cientificismo (Sempre não ético, neutro ou acrítico face as mazelas sociais e políticas que afligem o mundo.) ou mesmo o conhecimento científico, as urtigas, tal e qual haviam feito antes com a fé e a filosofia. Até que nada restou além do comunismo, a derradeira esperança da Europa.

Estourando a segunda guerra a situação agravou-se ainda mais. A ponto de nos países não comunistas do Ocidente proliferar o pós modernismo, que hoje cede passo e apoia o imperialismo árabe, digo, o islã e a demolição da cultura.

Falhou o positivismo quanto a suas ilusões e falsas promessas e tinha mesmo de falhar pois começou ignorando\romantizando a condição real da população urbana inglesa pós industrial, a qual provavelmente rivalizava com a dos escravizados pretos no Brasil.

E potencializou seu erro original ao negar a Ética por ódio a metafísica. Pois dessa negação resultou sua comunhão servil com os poderes políticos e econômicos, cujos resultados, em termos de miséria ou guerras, jamais chegou a questionar, mantendo-se sempre neutro ou indiferente - Sempre colaboracionista e por vezes até conservador. Mais - Chegou ele, não poucas vezes, a apoiar o darwinismo social - Resíduo ou bastardo metafísico seu.

Com a colaboração do positivismo (E do protestantismo é claro) pode o liberalismo econômico levar adiante sua pauta, aumentando a miséria, alimentando conflitos e estimulando guerras que funcionavam como mercados de armas e munições e assim como fonte de renda ou benefício para alguns poucos celerados. Nada fez essa ideologia toda poderosa e influente para impedir ou frear a calamidade da primeira grande guerra. Quem tentou fazer algo foi J Jaures e P Kropotkin, os quais não pertenciam ao movimento.

A depender dos positivistas atuais - Porque existem! - teríamos inclusive uma terceira grande guerra, a qual, servindo-se de algum darwinismo, seus biólogos e panfletários não tardariam em classificar como benéfica (Ocorrem-me o grande Malthus - Na polêmica contra Godwin - e Von Moltke) tendo em vista o excesso de população e a redução, não da miséria kkkk, mas dos pobres kkkk.

Pois é, lobo perde o pelo mas não perde o vício.

E o neo ateísmo maravilhoso, que segundo Dawkins, ainda não produziu um sistema de ética próprio, faz dessa ideologia inutil, ociosa e perversa suas delícias.

Reflitamos...

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  • Americanismo
  • Conservadorismo
  • Positivismo
  • Protestantismo
  • Capitalismo
  • Comunismo
  • Fascismo
  • Pós Modernismo
  • Sionismo 
  • etc


quarta-feira, 24 de setembro de 2025

O protestantismo como ponto de partida da civilização 'moderna' - Os aplausos dos 'cientistas', pensadores, etc

Acho curiosas essas apologias, escritas por autores protestantes, os quais folgam proclamar o protestantismo como uma espécie de cornucópia donde saiu a civilização moderna. Ainda me recordo das obras de E Levelleye, nas quais aponta a alfabetização e a concentração dos protestantes na leitura da bíblia como elementos propulsores do progresso. 

Os protestantes naturalmente que vibram com isso...

Vamos porém examinar tudo isso mais de perto.

Pois o que ora percebemos, neste momento, são massas protestantes compostas por: Terraplanistas, geocentristas, criacionistas da terra jovem, etc Calvinistas proclamando que sua reforma deve ser levada a Biologia, a Geografia, a Sociologia, a Psicologia, e a todas as áreas do conhecimento humano, tendo por base a bíblia - Leia-se Antigo Testamento... 

Peixes engolem seres humanos, mamíferos são apresentados como aves, e por aí se vai - Bela ciência essa que saí da cornucópia protestante. O que ora podemos observar no protestante mediano, seja brasileiro ou Yankee é seu ódio e sua oposição a ciência. Isto a ponto de nomes como Darwin, Freud, Malthus, Einstein, etc serem tabus e dos líderes, a exemplo de R R Soares, orientarem suas ovelhas a jamais fazerem quaisquer cursos universitários...

De fato em certas partes da Europa a alfabetização em larga escala, encetada pela reforma protestante parece ter encetado algum resultado aparentemente positivo. Mesmo porque o ser alfabetizado pode abrir portas, aumentar as possibilidades, aumentar o conhecimento e conduzir ao pensamento crítico... Portanto a tese de que uma religião do livro, que insiste sobre a alfabetização elementar, a primeira vista parece consistente. 

Porém não são os fatos sociais assim tão simples. 

A simples sugestão de que a leitura ou a alfabetização, como causa primária e imediata, teria acionado o avanço científico europeu nos levaria a plantear questionamentos bastante difíceis de serem respondidos. Pois ao que tudo índica a metalurgia de fundição foi inventada e desenvolvida pelas culturas ágrafas ou iletradas dos Andes e posteriormente recebida pelas nações letradas das Américas central e do Norte.

Também a organização do Império Inca - Cultura ágrafa, parece ter sido, em certo sentido, mais complexa e desenvolvida que a das cidades Maias ou mesmo que a do Império Asteca, como sabemos culturas letradas. 

Outro o caso dos países islâmicos, posto que é o islã uma religião centrada no livro e na leitura, e portanto na alfabetização há mais de mil anos... E no entanto revolução ou explosão científica alguma surgiu ali. E a exceção de Alhazém e Ibn Khaldun as contribuições do islã em termos de criatividade e pesquisa são quase que nulas - Outro é o caso de seu status enquanto transmissor de cultura, o qual não discutimos.

Os dados acima nos levam a problematizar a questão da leitura entre os primeiros protestantes e o papel da alfabetização nos primórdios de sua Reforma como explicação monocausal para o advento da ciência europeia. 

O quanto podemos conjecturar aqui é que um dos fatores responsáveis pela expansão do conhecimento científico na Europa do século XVI pode ter sido, e provavelmente foi, o hábito de leitura e a alfabetização. Logo não foi a leitura por si só e de modo algum a leitura da bíblia, e menos ainda a mentalidade protestante, que provocou essa escalada científica - O quanto aqui temos é que a leitura, estimulada pelo protestantismo, foi um fator, agindo em comunhão com diversos outros.

Grosso modo a leitura no seio do protestantismo, associada a bibliolatria ou a orientação para concentrar-se apenas na leitura da bíblia, entendida muitas vezes como antigo testamento, criou uma faca de dois gumes, pois ao mesmo tempo que facultou a alguns a possibilidade de ampliar o saber, também forjou uma servidão similar a maometana. 

E aqui chegamos ao ponto nevrálgico: Pois a mesma leitura - Que produziu muitas vezes o abandono não apenas da bibliolatria, do antigo testamento e da judaização (Sem dúvida um imeso benefício.) quanto a diversos cientistas promissores {E tornaremos novamente a isto mais a frente.} produziu da mesma maneira o abandono do Evangelho ou da fé e forjou os primórdios da incredulidade em que tombamos.

Agora por que em um grupo seleto a leitura ou a alfabetização acionada pelo protestantismo potencializou a práxis e o pensamento científico enquanto que, noutro, i é, nas massas, produziu o exilio de Nicolas Steno, a condenação de Nils Celsius (Upsala - 1679) e a destruição do laboratório de J Prestley???

Certamente porque a estimulação dos primeiros dependeu não apenas da leitura, mas de outros tantos fatores ou de condições preexistentes. 

Agora quanto ao cultivo da ciência no decorrer do processo, há indicações consistentes de que parte dos sábios protestantes (Especialmente a partir do século XVIII) tornaram-se grande parte céticos ou descrentes mantendo, na maioria das vezes, uma adesão meramente externa e formal a suas comunidades. O que era facilitado tanto pela falta de 'poder' por parte das seitas quanto pelo livre exame. Newton por exemplo, apesar de teísta era unitário, tendo inclusive impugnado o Deão Sherlock. Muito apocalíptico porém muito pouco niceno, atanasiano ou leal ao Evangelho de Cristo. Ora Newton não era uma singularidade quanto a isso... E já os iluministas franceses costumavam registrar, em meados do século, que por volta de 1700 a quase que totalidade da elite intelectual inglesa era descrente ou irreligiosa.

Após termos apontado tais incongruências temos de nos perguntar sobre o que é civilização, progresso, desenvolvimento, etc Sobre quem está tecendo tais elogios ao protestantismo. Sobre as intenções e objetivos de quem elogia, etc uma vez que cada uma dessas definições e desses elogios é portador de uma enorme carga de subjetividade.

Há muito pouco tempo ainda era o desenvolvimento mensurado pelo PIB ou soma de riquezas produzidas por uma dada sociedade, como se vê um critério meramente econômico que ignora a questão de como tais riquezas são divididas entre os setores que compõem essa sociedade, se são tais riquezas divididas e de como vivem tais pessoas.

E imagine só o leitor squantas e quantas polêmicas inúteis foram travadas em torno desta definição unilateral...

Daí o padrão ou critério atual a partir do qual avaliamos a condição de uma dada sociedade não ser mais o PIB e sim o IDH i é a qualidade de vida oferecida aos cidadãos i é Alimentação, habitação, saneamento, saúde, educação, etc

Da mesma maneira convém questionar o tal desenvolvimento ou o tal progresso e seus mentores...

Surpreendentemente esses senhores que costumam aplaudir o protestantismo não são apenas incrédulos como seus ancestrais porém ateístas militantes, materialistas e cientificista, a exemplo do Dr Dawkins, o famigerado autor de 'Deus um delírio'. Cito Dawkins aleatoriamente pois há um grande número de ateus e cientificistas admiradores do protestantismo e detratores das igrejas apostólicas, o que tem uma razão de ser.

Talvez você pense ou imagine que o testemunho dos cientificistas e ateus é um testemunho insuspeito, e desinteressado, logo indubitável e leal. Porém não é bem assim e posso te assegurar que há aqui um interesse calculado, uma tática ou estratégia.

Pois sabem os cientistas, e perfeitamente bem, que é o protestantismo uma crença frágil, inconsistente e bastante fácil de ser impugnada, haja visto o conteúdo mitológico hebraico, derivado da inspiração plenária\linear.

De fato os cientificistas ateus estão muito bem informados sobre a condição do protestantismo e  habilitados para confrontar o fetichismo vétero testamentário. Consequentemente eles nada temem do protestantismo e parte de seu quadro, alias, é composto por ex protestantes...

Por ter substituído a pessoa do Cristo e a mediação da Igreja pala suposta infalibilidade absoluta da bíblia tornou-se o protestantismo alvo predileto de uma crítica irreligiosa fundamentada na ciência. E essa crítica é bastante bem sucedida.

Para o protestante médio, que chega a identificar o Cristo ou o Cristianismo com a bíblia, demonstrada a inexistência de Dário, o medo, da torre de Babel, de gigantes, de serpentes com asas ou patas, dos sátiros, do Leviatã, do Beheemot, da Lilith, das compostas do céu, dos pilares da terra e de tantas outras bizarrices fica comprometida a existência de Deus ou a Credibilidade de Cristo e por ext., o Cristianismo como um todo... 

Em suma, devido a um único erro vétero testamentário, a questões de mitologia/cultura hebraica, fetichismo, etc converte-se o bibliólatra em ateu fanático ou materialista radical e, não poucas vezes, entusiasta do cientificismo, o qual abraça com fervores místicos.

Avanço nesta análise sugerindo que parte significativa do ateísmo militante e proselitista deriva justamente dos 'conversos' oriundos do protestantismo. Os quais mesmo quando repudiam a existência de Deus ou do mundo invisível, conservam a mesma mentalidade fanática tornando-se irreligiosos fanáticos. Mudam de teoria, ideia, conceito, fé, etc porém mantém o mesmo tipo de espírito...

Alias acontece a mesma coisa com os protestantes convertidos ao papismo ou a Ortodoxia. Os quais costumam trazer para a igreja e nela introjetar seus vícios, como o apreço pelo antigo testamento, gosto pelos mitos judaicos, cosmovisão amenricanista, etc

Saem essas pessoas do protestantismo, porém o protestantismo - Enquanto mentalidade ou cultura. - não sai delas. Por isso costumo a dizer que trocar de fé ou de ideologia é, muitas vezes irrelevante. Necessário é ser coerente.

Ainda sobre os conversos ao ateísmo, e geral os ateus oriundos do espiritismo, do papismo, da ortodoxia, e de outras opões religiosas são fracos, dóceis, tolerantes, pacíficos... Enquanto que os ateus oriundos do protestantismo são extremamente agressivos, ferozes e acintosos.

Tornando aos cientistas que costumam a aplaudir o protestantismo, tudo quanto querem é favorecer a passagem dos Ortodoxos, Papistas ou espíritas ao protestantismo - Justamente porque o protestantismo, sendo tanto mais frágil e vulnerável, está no acesso da incredulidade.

Sendo cada erro do antigo testamento uma brecha no sistema protestante, sabem os profetas da incredulidade que há no protestantismo centenas ou milhares de brechas que podem produzir um 'choque de realidade' - E deste choque de realidade: Ao se perceber que o homem não foi feito a partir de um boneco de barro ou a mulher de uma costela.. - a apostasia...

Outro o caso das Igrejas apostólicas ou do Cristianismo antigo - Imune a qualquer choque de realidade, posto que quando puro e esclarecido, fundamentado ou centrado no mundo invisível, sobrenatural, transcendente, imaterial e inacessível aos sentidos. 

Da mesma maneira como conhecem - Os ateus, materialistas e incrédulos. - perfeitamente bem, o protestantismo (E seu calcanhar de Aquiles, que é o antigo testamento ou a inspiração plenária\linear.) também conhecem suficientemente bem o Catolicismo Ortodoxo e o papismo (Mesmo pós Vaticano II ou esculachado.), tendo-os por mais resistentes a sua propaganda.

Nesse caso, qual o caminho mais indicado para atingir os Ortodoxos e romanistas... Por meio do protestantismo, aproximando-os do protestantismo... Pois a mesmo que o indivíduo seja imensamente burro ou ignorante não engolirá essas baboseiras de bonecos de barro, costelas, sátiros, leviatãs, etc e tomará o caminho da incredulidade.

Como disse, tudo não passa de tática ou estratégia e elogiar o protestantismo significa no fim das contas encaminhar os espíritos para um padrão de Cristianismo tanto mais rude e grosseiro quanto indefensável de Cristianismo. É elogiar um Cristianismo que não se pode defender com sucesso da propaganda ateísta ou cientificista. É buscar fortalecer um inimigo tanto mais fácil de combater e buscar enfraquecer os inimigos tanto mais difíceis de dar combate.

Antes de lançar um ataque frontal contra a cidade de Cristo, os ateus e materialistas aspiram enfraquece-la ou destrui-la por dentro - Querem como que nela introduzir um vírus que a debilite e esse vírus é o protestantismo, com sua bibliolatria tosca, seu meio ceticismo, seu subjetivismo crasso, etc 

Pois o que encaram como 'civilização' ou desenvolvimento outra coisa não é que o próprio ateísmo, o materialismo ou no mínimo o positivismo\cientificista i é a substituição não apenas da fé religiosa, mas inclusive da Filosofia, do racionalismo ou da metafísica pela ciência - Essa instituição tão servil face aos interesses do mercado ou aos poderes econômicos, que jamais confronta. 

Tecem os ateus, materialistas, incrédulos e cientificistas rasgados elogios ao protestantismo justamente por estarem convencidos - E quanto a isto não estão equivocados. - que o protestantismo foi e é a Revolução primordial que conduziu parte do Ocidente ao ateísmo, ao materialismo, a incredulidade, etc Aplaudem o protestantismo porque sabem ter sido ele o caminho para a derrocada do Cristianismo...

Pelo simples fato de ter ele, o protestantismo, injetado o vírus do ceticismo em suas veias... Lançando dúvida sobre os ensinos da Igreja. Logo lançando dúvidas sobre a Igreja (Apostólica.) Para em seguida duvidar de seu fundador e esposo! Pois quem haverá de acreditar num 'deus' que fundou uma igreja descartável ou com prazo de validade...

Não devemos portanto, nós Cristãos legítimos, filhos das igrejas apostólicas, invejar os elogios e aplausos que a incredulidade tributa ao protestantismo. Pois como colaborador ele faz jus a eles. Ele os merece. 

Da Ortodoxia ou mesmo do papismo jamais sairiam capitalismo, comunismo, anarquismo, nazismo, positivismo, modernismo e outros tantos rebotalhos...

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sábado, 26 de maio de 2018

Malthus e os Maias ou o que Toynbee teria vislumbrado...

Foi o Rev Malthus um destes gênios supremos que a humanidade só vê surgir de cem em cem anos e não temo compara-lo a Marx, Lamarck, Freud, Weber, Newton e alguns outros poucos...

Graças ao positivismo, ao tecnicismo e ao capitalismo nós acreditamos ter invalidado os prognósticos do homem.

Hoje é Malthus, ao menos para a maioria das pessoas ou para o homem comum, sinônimo de um homem ingênuo, que não contava com a marcha ou o progresso da tecnologia, cujo ritmo é bem mais acelerado que o ritmo da natureza.

E lemos em diversas publicações como Malthus foi desmentido pelos fatos e nos pudemos multiplicar para muito além do quanto ele preveu. Afinal os progressos no âmbito da agricultura, multiplicaram a produção de alimentos e asseguraram a subsistência de uma humanidade que acomodada não para de crescer e de explotar os recursos fornecidos pelo meio ambiente numa escala sem precedentes.

Tenho para mim que a vitória dos adversários do reverendo inglês foi nossa vitória de Pirro pelo simples fato de ter produzido uma fé. Uma fé propositalmente alimentada ou impulsionada pelos modelos positivista, tecnicista, capitalista, comunista... com o ideal comum de um progresso ascendente e ilimitado. Uma fé quimérica e um ideal irracionalista...

Como duzentos anos após Malthus ainda nos alimentamos e sobrevivemos, além de crescermos e multiplicarmos, arraigou-se a crença irresponsável e absurda segundo a qual podemos continuar não apenas crescendo e multiplicando num sistema finito como expandindo a exploração dos recursos existentes ou nos desenvolvendo economicamente.

Ao tempo de Malthus os religiosos, digo os religiosos fetichistas, não lhe deram a mínima atenção. Convencidos de que deus interviria em favor dos que cumprissem o sagrado mandamento de crescer e multiplicar, quiçá inflando a terra, continuaram a despejar suas crias sobre a face da terra... Tampouco os que acreditavam ser a poligamia uma instituição sagrada fizeram qualquer caso de suas opiniões. Outros, mais astutos, recusaram a aplica-lo devido a cálculos de natureza 'política'...

Seja como for, para grande parte dos religiosos, o planejamento familiar e o controle da natalidade humana continuaram sendo tabus...

Mas não apenas para eles! Façamos justiça! Pois também a produção econômica, a regulação dos salários... dependia da superpopulação para manter um Exército de reserva, sicut a conhecida lei da oferta e da procura. Nações e culturas também preocupavam-se em ocupar terras e manter exércitos... De modo que o controle populacional chocava-se com diversos interesses: Religiosos, econômicos, políticos e até mesmo culturais...

Os quais não foram totalmente resolvidos. Assim se a população esclarecida da Europa adota uma política de planejamento e declina, as populações islâmicas dos arredores multiplicam-se, inserem-se nas socs europeias e produzem um grave desiquilíbrio cultural que não pode ser ignorado. Não é nem um pouco normal assistir a islamização daquilo que foi o berço da ideologia democrática, bem como o cenário em que fermentaram um bom número de doutrinas socialistas ao cabo dos últimos séculos... Como não me parece natural assistir a inserção da teocracia, da murtad, da djazia, da jihad, etc numa sociedade secularizada... É apenas um aspecto do problema...

Seja como for ele deve ser abordado.

E não temo dizer, repetindo a J Stuart Mill, em termos de uma economia estacionária, a qual reconhece seus limites e a impossibilidade de expandir-se. E caso mais se expandir-se não poderia garantir sequer uma igualdade ou um equilíbrio econômico relativo, aumentando cada vez mais a desigualdade, a miséria, a violência e os estados de conflito e tensão...

De fato nos expandimos e permanecemos. Mas consideremos a extinção de diversas formas de vegetais e animais no decorrer dos últimos dois séculos. A diminuição de recursos essenciais quais sejam a água - o grande problema do futuro - e os combustíveis. A poluição do meio ambiente, inclusive do ar. E a ocupação dos espaços já com objetivos habitacionais, ja com objetivos produtivos...

Certamente nos conseguimos manter até agora, é fato. Mas a que custo ou a que preço... Em escala universal a terra se mostra exausta e da mostras de ter atingido seus limites. Temos causados danos irreversíveis ao ambiente... Estamos destruindo nosso habitat e comprometendo a qualidade de vida de nossos descendentes... O clima já se mostra exasperado e catástrofes e mais catástrofes de origem antrópica já se manifestam. Ir além seria desaconselhável... Mas continuamos a nos multiplicar por crer que a ciência, o novo deus, oferecerá alguma solução a curto prazo... Os vestígios do positivismo, estimulados pela Lei do capitalismo, iludem-nos ou vendam-nos os olhos a beira do abismo...

Mas o espectro de Malthus ressurge de sua fria cova e nos quer falar...

Nosso primeiro desafio é a produção sintética de alimentos ou de comida. E parece estarmos muito longe de consegui-lo. Ainda dependemos de animais e vegetais para sobreviver, tal e qual nossos mais remotos ancestrais. Ainda não nos desprendemos, mas, somos parte de um todo que pretendemos destruir...

Suponhamos no entanto que passemos fabricar alimentos em laboratórios da noite para o dia, de modo a poder aniquilar todos os animais e vegetais existentes, ocupando seu lugar - O que confirmaria nosso caráter de parasitas ou feras...

Teríamos de lidar ainda com inumeros outros problemas, assim:

--- O suprimento de água potável. A menos que também possamos fabricar água em larga escala.

--- O fim de recursos naturais como os combustíveis. Teríamos de descobrir  outros. Mas também precisamos de bauxita, madeira, borracha, etc

--- A eliminação de resíduos ou da poluição. Se a frota de automóveis continuar aumentando...

--- A administração do espaço. Quanto mais gente há aumenta a demanda por espaço. Assim as cidades teriam de crescer horizontalmente em detrimento das florestas e habitats naturais ou verticalmente, produzindo estruturas cada vez maiores ou colossais. Cidades teriam de cobrir e recobrir cidades... O que nos leva a problemas de planejamento, transportes, etc E enfim teriam de crescer horizontalmente caso não cessamos de crescer e controlassemos nossa população.

Nenhum destes problemas parece ser solúvel a curto prazo...

E no entanto nos multiplicamos como se não existissem ou fossem irrelevantes.

Simplesmente porque encaramos Malthus como a um tolo ou imbecil. E porque, se não acreditamos mais num deus interventor, continuamos acreditando na capacidade infinita da ciência e da tecnologia para resolverem o problema. Continuamos positivistas inveterados, e por isso nos recusamos a planejar racionalmente nosso futuro num sistema finito cujos recursos são limitados. O capitalismo declarara a todo instante que devemos nos desenvolver ou nos expandir, ou crescer, ou superar... E acreditamos ou queremos acreditar. Assim para muitos, a pauta conservadora da economia estacionária, proposta por J Stuart Mill, cheira a comunismo... E com tais palavras vão transtornando a razão e apavorando os tontos...

A bem da verdade, ao menos quanto a este ponto, a mentalidade comunista, jamais apartou-se da capitalista ou mostrou-se sensivelmente diversa - pelo simples fato de ser tecnicista e derivar do positivismo, com sua escatologia Cristã secularizada e sua esperança quimérica de produzir um paraíso na terra. Claro que podemos fazer deste mundo uma ante sala do paraíso ou um lugar melhor para viver. Todavia para tanto é necessário considerar as coisas racionalmente e sobretudo encarar a realidade do espaço em que vivemos - O qual é manifestamente finito ou limitado. Devendo comportar, necessariamente, um número limitado de pessoas e um fluxo finito de atividades humanas... O que nos conduz novamente a economia estacionária de Mill e antes de tudo ao planejamento familiar e ao controle populacional.

Nada mais urgente e qualquer projeto socialista pecará pela base caso, ao contrário de Aristóteles, não considere este aspecto. Pois antes de produzir, administrar e gerir as riquezas numa perspectiva ética, devemos estabilizar o crescimento de uma dada sociedade. Do contrário as desigualdades tornarão a surgir, tal e qual as cabeças da Hidra após terem sido cortadas... De modo que o planejamento das famílias é tão importante quanto a fruição das riquezas; estando na base do que chamamos bem comum ou justiça social. Quanto mais uma população crescer descontroladamente, mais dificil será promover o bem comum ou consolidar socialmente a justiça. Em tais condições os conflitos tenderão a generalizar-se e inclusive a despejar-se sobre outras comunidades (aqui a genesis do imperialismo). Numa escala mundial porém, será o fim... A exemplo do Império romano, o qual tendo atingido as fronteiras exequíveis em seu tempo, entrou em crise e desmantelou-se.

O atual processo de globalização fez com que nossas fronteiras atingissem os limites do mundo. A partir daí a posse de recursos que escasseiam ou de espaço, associada ao crescimento desmedido de uma determinada população poderá dar origens a um número cada vez maior de conflitos, alias estimulados pela religião ou pela cultura, e levar a guerra de todos contra todos numa escala mundial, como jamais foi vista. Este cenário já foi delineado por Huntingthon e nos parece provável...

De minha parte, após ter lido algumas publicações recentes sobre os Maias e o declínio de sua civilização, lembrei-me de Toynbee... cujo método e visão sempre admirei, bem mais que a Spengler.

Ao tempo em que Toynbee vivia, e ainda hoje, a maior parte dos historiadores ou pesquisadores. Partindo sempre o falso paradigma da monocausalidade, buscavam, cada qual deles, uma chave ou solução para o fim do império Maia, e construíam hipóteses mirabolantes. Quando rapaz, folheando uma publicação dos anos vinte, cheguei a ler um artigo, muito bem elaborado, sobre as febres - em especial a febre amarela - que teriam dizimado aquelas populações e posto fim aquele glorioso império com suas cidades magníficas. Afinal alguns arqueólogos, ao escavar junto as ruínas de Tikal, Palenque, Uxmal, Pedras negras e outras metrópoles daquela civilização haviam dado com algumas estelas ou painéis que representavam, o que parecia ser, um homem vomitando junto a uma jarro... Desde então, alguns foram levados a crer que aquele Império fora desmantelado pelas febres e, jamais pude deixar de crer que elas tinham algo a ver com aquilo, embora por si só, a hipótese das febres me parece insuficiente, para tudo explicar.

Parecia a peça de um quebra cabeças... As quais foram se adicionando outras tantas...

Afinal aquele tempo a linguagem ideográfica dos Maias ainda não havia sido perfeitamente compreendida e seus textos traduzidos. Hoje podemos ler suas inscrições, mas ainda não fomos capazes de ordena-las, o que levará séculos... pesar disto, lemos já alguma coisa. Para além disto nossos recursos tecnológicos são bem mais eficazes, permitindo que enxerguemos além da floresta...

Há além disto um imenso trabalho de pesquisa realizado em diversos campos, quais sejam: Antropologia, Geologia, botânica, Arquitetura... Os quais em seu conjunto nos dizem algo e parecem apontar para uma realidade bem mais complexa ou multi fatorial. Adianto todavia, que o elemento decisivo, quanto a eclipse da civilização Maia - pasmem - parece ter sido o desenvolvimento ou o crescimento populacional propiciado pela própria civilização... Tería a civilização se convertido numa maldição ou numa cilada para os antigos Maias???

Já o veremos.

Até bem pouco tempo tinhamos uma visão, por assim dizer 'clássica', da antiga cultura Maia e imaginávamos um cenário rural do qual as grandes praças cercadas por pirâmides descomunais, eram por assim dizer, o centro de diversas comunidades agrárias esparsas pelo entorno e por assim dizer, diminutos centros, cercados por algumas palhoças de barro e entremeados por campos de cultivo. Para mim este cenário sempre me pareceu estranho tendo em vista as dimensões de tais monumentos... E hoje, ao menos quanto a grande cidade de Tikal (E toda Peten guatemalteca) semelhante concepção esta prestes a ser revista graças a leituras aéreas realizadas pela National Geographic Explorer através do projeto LIDAR (Th Garrison).

O que encontraram foi simplesmente uma megalópole colossal que se estendia debaixo da floresta, com estradas pavimentadas, açudes, muralhas, casas de pedra e inclusive, é claro, outras tantas pirâmides descomunais... O mais interessante é que ao que parece Tikal não contava com 40 ou 50 mil habs como se conjecturava até então mas com cerca de 200 ou 250 mil, e toda região das terras baixas, ocupadas pelo antigo império Maia, não por um ou dois milhões de pessoas, mas por cerca de vinte milhões de pessoas, praticamente a metade da população europeia daquele tempo, num espaço sessenta vezes menor.

Resulta disto que uma tal população não podia sobreviver recorrendo a caça, a pesca ou a agricultura de subsistência. Felizmente o LIDAR, revelou igualmente, a existência de imensas terras de cultivo intensivo, ora ocupadas por pântanos... Assim os Maias drenavam, irrigavam e cultivavam em larga escala, tendo em vista a sobrevivência de uma população tão grande...

Até aqui problema algum...

O problema se nos apresenta quando consideramos que os Maias, muito provavelmente, não estavam preocupados com o planejamento familiar ou com o controle populacional. Estariam entusiasmados pela civilização? Levando em conta as enormes pirâmides que ergueram, os belos trabalhos feitos com o jade, a invenção de um elaborado sistema de escrita, o domínio da escultura e da pintura... não podemos deixar de supo-lo.

Os Maias no entanto empregavam o fogo em seus campos, o que demandava repouso por parte da terra e portanto um espaço efetivamente cultivado cada vez maior, tomado a floresta. Isto apenas para o cultivo. Mas os Maias dependiam da floresta para extrair madeira, já para seus móveis e utensílios, hora inexistentes, já para queimar pedra e produzir a cal necessária para construir as grande pirâmides, o que nos leva, necessariamente, a hipótese do desflorestamento. No auge de sua civilização, contando com vinte milhões de habitantes e centenas de cidades com dezenas de pirâmides, muitas em construção, os Maias praticamente deram fim ao entorno ou seja a floresta.

Richard Hansen da Universidade de Utah declara que para cobrir com gesso a grande pirâmide de El Mirador os Maias tiveram de abater 600 hectares de terra, e se tratava de um único edifício, haviam milhares e mais colossais inclusive. Chegaram a um estádio em que o reflorestamento, sem fora concebido, sequer era possível. Diante disto seguiram-se as secas, já que o ciclo da água e as chuvas dependiam das árvores e estas haviam sido cortadas...

O futuro é fácil de imaginar-se - As secas afetaram as colheitas e num cenário com dezenas de milhões de pessoas, o resultado foi a fome! Não apenas a destruição de espécies vegetais em larga escala tem sido demonstrada por Botânicos, e a seca demonstrada pelos geólogos como a fome e a desnutrição - nos séculos VIII e IX - tem sido igualmente verificadas pelos antropólogos e médicos a partir dos restos humanos encontrados.

É onde entra a peste ou as febres. Pessoas desnutridas e fracas embrenharam-se nas selvas e pântanos, cheios de mosquitos, em busca de alimentos... transportando as febres aos grandes centros urbanos. As pessoas devem ter começado a morrer, de fome ou febre, em larga escala; mas ainda havia um refúgio ou uma esperança, raramente posta a prova em escala social, e a qual nos explica perfeitamente, como, porque e donde, veio o golpe final sobre aquela antiga civilização.

Como todos os povos e culturas antigas eram os Maias fetichistas ou seja, tal e qual os nossos fundamentalistas, eles acreditavam que suas divindades deveriam interferiam concretamente no meio material ou físico por meio de milagres. Estavam convencidos de que seus deuses controlavam diretamente o mundo ou a ordem cósmica e a seu tempo que podiam controlar ou influenciar os deuses por meio de oferendas e sacrifícios. Os sacerdotes, muito provavelmente, haviam dito ao povo que a seca, a fome e a peste eram castigos enviados pelos deuses ofendidos, os quais deveriam ser aplacados...

Havia pois uma esperança: A religião, a magia, o milagre... Urgia alimentar os deuses famintos, sedentos e mau humorados com sangue, segundo o costume imemorial. O cenário que apresentou-se apenas se vislumbra nos painéis de Bonampak (792) - Cada rei ou comunidade pegou em armas e atacou a comunidade vizinha com o objetivo de obter prisioneiros e oferece-los aos deuses, de que resultou um conflito generalizado entre as antigas metrópoles.

A bem da verdade os Maias sempre conheceram batalhas religiosas em que os reis, nobres e sacerdotes das cidades vizinhas eram abatidos, sequestrados, torturados e mortos. Os antigos Maias acreditavam que os homens foram criados com o sangue dos deuses (daí os homens serem pintados com vermelho vivo) que por ele se sacrificaram. A contra partida é que os deuses controlavam os astros, o clima, a fertilidade dos seres, etc... assim o equilíbrio cósmico era mantido a preço de sangue, o alimento dos deuses.

O primitivo jogo de futebol revivia um evento cósmico em que os deuses do inframundo havia sido derrotados pelos gêmeos que se converteram no Sol e na Lua... Assim os que jogavam e eram derrotados eram oferecidos ao Sol e a Lua. O sangue era uma espécie de fluído sagrado que movia os deuses e através destes o cosmo...

Muralhas e fortalezas edificadas durante este período são um claro sinal de que as violências e agressões, instigadas pelo desespero aumentaram... Como nas Gálias do século III os habitantes de 'Dois pilares' demoliram seus templos e palácios e converteram sua cidade numa pequena fortaleza amuralhada.

E no entanto o fim ainda não havia chegado. Pois a gente das cidades, apinhava os templos, massacrava os prisioneiros, feria o próprio pênis ou a própria lingua, lançava seus filhos aos poços, sacrificava jaguares e joias... Sem que as chuvas se regularizassem e as colheitas tornassem a ser abundantes. Pelo contrário as campanhas expansionistas, que visavam obter recursos e prisioneiros, pioraram ainda mais a situação. Porque na medida em que executavam multidões de prisioneiros e empilhavam crânios nos centros cerimoniais faltavam braços para cultivar uma terra já estéril e seca... De modo que a fome, a subnutrição e as enfermidades aumentaram...

As próprias cidades, que com seus vistosos templos, tornaram-se alvos para as expedições guerreiras que obstinavam-se em obter vítimas para sacrifícios rituais. De modo que seus derradeiros habitantes acabaram internando-se nas poucas florestas que restavam, com a esperança de poder viver da caça, da pesca e da subsistência...

Enfim, como intuiu Soustelle, os Maias perderam toda esperança e cessaram de acreditar nos sacerdotes e reis que os haviam feito construir as antigas pirâmides. A ideologia fetichista, após ser socialmente testada, desabou e deu lugar ao ceticismo, e a outros tantos distúrbios... Os reis e sacerdotes -  guardiães da escrita, das artes e da cultura. - caso não tenham sido mortos por seus próprios concidadãos encolerizados, acabaram sendo capturados e mortos pelos invasores, até que a sociedade como um todo desabou e as grandes cidades arruinadas foram invadidas pela selva. Sumindo do cenaŕio, a velha civilização Maia após dois mil anos de existência e um fluxo de progresso contínuo e ascendente...

No entanto, tal e qual a antiga Roma, quando esta cultura chegou a seus máximos limites e explotou os recursos de que dispunha, seguiu-se o caos. E quando a ideologia fetichista ou religiosa, que servia como base a cultura, foi testada e falhou, seguiu-se o fim... Pois já não havia esperança.

O cenário esta posto. Restabelecido ou recuperado. Façam as comparações com o período em que estamos vivendo. Afinal deveríamos ser mais humildes e aprender com as lições do passado...

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Reflexões em torno da lei dos três estados de Comte

Uma das leis fundamentais da 'ciência positiva' ou do positivismo comteano é a 'lei dos três estados'. Lei quase que universalmente conhecida entre as pessoas cultas.

Assim a afinidade eletiva de Weber, assim a infraestrutura e superestrutura de Marx, assim o Ego e Id de Freud, assim a seleção natural de Darwin e Wallace, assim a lei dos três estados de Comte...

Lei de que podemos até discordar, mas que não é bom ignorar.

Elemento que é de nosso universo cultural.

Agora vamos a ele, pois nem é coisa difícil de se compreender.

Segundo Comte a marcha evolutiva das Sociedades humanas compreendia três sucessivos estados: Teológico, Metafísico e Positivo.

O teológico correspondendo ao primado da religião ou da fé. O Metafísico ao primado da razão ou do racionalismo afirmados pelo deísmo dos iluministas. O positivo ou científico inaugurado em meados do século XIX.

Que pensar a respeito?

Há quem diga e jure de pés justos que Comte errou feio.

Houve quem - como os positivistas - encarasse tal lei como a maior descoberta de todos os tempos.

E há quem, evitando extremismos, diga: nem oito nem oitenta.

Dizem os críticos de Comte que sua visão era eurocêntrica e preconceituosa pois desconsiderou ou menosprezou as sociedades não europeias ou primitivas.

Como se pode perceber parte esta crítica do relativismo cultural, o qual em última analise não passa de um credo... ou de um voluntarismo bastante pretensioso. Acalentado por pessoas que não estão dispostas a abandonar a Europa ou os centros urbanos do Ocidente, por uma choça no meio da selva ou por uma tenda no meio dos desertos... Raros são aqueles que estão dispostos a viver seu relativismo cultural. Pelo que classifica-lo-ei como uma fé, uma crença, uma prevenção ou qualquer outra coisa.

Comte, inserido na Sociedade européia do século XIX foi absolutamente coerente em apresenta-la não como perfeita, mas como superior numa escala de valores com que identificava-se. A partir daí concluiu que as diversas sociedades primitivas fariam o mesmo caminho até chegar ao estado positivo.

Não ignorou de todo as demais sociedades nem poderia ignora-las como supõem a boçalidade reinante. Classificou-as como culturalmente inferiores ou menos desenvolvidas e pretendeu delinear o percurso evolutivo que fariam até se tornarem semelhantes a Europa de seu tempo.

Outra crítica, esta forjada pelos religiosos, dizia respeito as permanências.

No sentido de que a presença do padrão positivo de pensamento no contexto europeu não lograra eliminar por completo as formas que ele, Comte, encarava como primitivas e ultrapassadas como a Teológica e a Metafísica, convivendo as três lado a lado no decorrer do século XIX.

Julgo que a parcialidade desta crítica salte a vista. Primeiramente porque Comte jamais pretendeu negar as permanências, mas assinalar as rupturas. Enfim porque as Sociedades francesa e inglesa do século XVIII já não eram comandadas pelos líderes religiosos mas em maior medida pelos filósofos iluministas... Como a sociedade de seu tempo (1850) era já fortemente influenciada pelos cientistas e comandada já pelos industriais. Assim nem os religiosos retinham no século XVIII o imenso poder que haviam exercido no século XVI, como os deístas ou 'filósofos iluministas' não exerciam já tanta influência pelos idos de 1850.

Ao menos no que diz respeito a esfera do poder e a opinião pública Comte estava mais ou menos correto.

Outras eram as fontes inspiradoras da cultura.

Haviam mudado no mínimo três vezes, senão mais.

Agora em termos de nomenclatura somos levados a discordar de Comte.

Fossemos dado corrigi-lo apresentaríamos a famosa lei do seguinte modo:

  1. Estado supersticioso ou fetichista: da Era primitiva ao advento do Cristianismo
  2. Estado religioso/ético: Do surgimento do Cristianismo ao século XVII
  3. Estado metafísico: séculos XVII e XVIII
  4. Estado materialista: séculos XIX e XX

Pelo que teríamos quatro e não três estados apenas.

O primeiro corresponderia ao padrão de pensamento mágico fetichista típico da cultura fetichista com contínuas intervenções de seres sobrenaturais no plano da natureza ou milagres. O qual equivale a um estado de total ignorância em termos de leis naturais ou mesmo a respeito da dimensão ética da vida.

O segundo inaugurado pelo advento do Cristianismo mas em certo sentido presente já na cultura Grega clássica, corresponde a iniciativa genial de dispor o veículo religioso para uma finalidade ética.

O terceiro é caracterizado pela ruptura com a fé ou a religião sobrenatural propriamente dita e por um retorno a teologia natural ou racional dos antigos gregos (Anaxágoras, Apolônio, Platão, Aristóteles...); enfim pela afirmação de uma metafísica deísta resumida em duas palavras: Deus e Imortalidade.

O quarto é representado pelo triunfo do materialismo economicista ou do capitalismo e consequentemente do tecnicismo, do consumismo, etc Aqui já não há vestígio de elemento verdadeiramente unificador ou coordenador da ação humana e estamos já diante da mais assombrosa contradição ou de um 'espírito materialista'.

No entanto, a par deste espírito materialista liberal, temos outros tantos espíritos materialistas cujas formas são bem distintas: assim o comunismo, o fascismo, o nazismo, o anarco individualismo, etc os quais nutrem-se de algumas ideologias específicas: assim o protestantismo e suas emanações: ceticismo, subjetivismo e relativismo...

Assim onde Comte via um Cosmos ou acreditava ser possível retomar facilmente o sentido do Cosmos por meio da unificação das fontes da cultura por meio de alguns princípios e valores básicos, podemos discernir apenas o Caos avassalador e a ameaça da anomia.

De fato, ao invés de ruptura, conflito e sucessão, devia o homem ter lançado os fundamentos de uma realidade orgânica capaz de integrar todos estes modelos de pensamento.

Começando por uma sólida base metafísica e naturalista (não religiosa) em torno da existência de Deus e da possibilidade de sobrevivência da alma; inspirada quiçá em Aristóteles. Não nos esqueçamos que Tredelembourg e F Brentano desenvolveram brilhantemente os pontos de vista do Filósofo.

A qual sobreporíamos um Cristianismo Católico semi deísta ( i é em oposição a doutrina sobre a existência de milagres no tempo presente) enquanto reforço a uma Ética humanista e socialista.

E regularíamos os fins da produção econômica e do progresso técnico colocando-os a serviço das necessidades humanas e não do lucro, do poder ou de qualquer outra coisa.

Ficando os demais elementos: fossem o exército, a comunidade, o partido, etc reduzidos a suas legítimas dimensões e incorporados por uma estrutura cultural bem mais ampla, a qual lhes imporia sentido.

Aqui haveria um centro unitário ou coordenador em termos de cultura. E uma relação orgânica entre os elementos e instituições mediada por esta consciência ou espírito comum.

Ficando Prometeu acorrentado!

Foi exatamente o que não aconteceu.

Pelo que os elementos se desagregaram e entraram em choque.

Chegar aos termos duma ciência sem consciência ou limites, aos termos duma negação radical e absurda da imaterialidade e aos termos de um repúdio a dimensão ética da vida... não vejo nisto sinais de uma verdadeira evolução.

Evoluímos em sentido material ou técnico mas e em sentido humano ou ético?

Será que em posse do mesmo aparato material ou técnico nossos ancestrais da antiguidade Cristã ou mesmo da idade média não fariam melhor do que nós, erradicando por exemplo a fome ou diminuindo sensivelmente a miséria? 

Eis uma indagação sobre a qual muito devemos refletir antes de criticar nossos avoengos!

Por outro lado assistimos uma restauração do padrão fundamentalista sob os auspícios do Islã e do pentecostalismo...

O que nos coloca no meio de dois extremos igualmente perniciosos: fetichismo e materialismo/ateísmo. É como se a civilização estivesse sendo premida ou esmagada pelas pinças de uma tenaz... na medida em que os extremos sempre se tocam (Aristóteles).

Assim é necessário antes de tudo restabelecer um sadio meio termo, ou sob a forma da religião natural do deísmo ou sob a forma duma religiosidade ética e anti fetichista voltada para a promoção integral do ser humano e a justiça social. Pugnar por esse sentido de equilíbrio e por esse saudável meio termo pautado na condição humana é a tarefa a que nos propomos.

Superar este estado de tensão, esta crise de consciência, esta era de extremos e contrastes é o principal objetivo a ser atingido.