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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Repressão sexual, civilização, barbárie e sexualidade - Ensaios sobre Freud




Uma das abordagens mais interessantes de Freud diz respeito certamente a relação existente entre repressão ou limitação do prazer e Civilização ou cultura.

Conforme teoriza ele a criação da Sociedade Civilizada só foi possível a partir da limitação do prazer. Inclusive do prazer sexual, dentre outros. Não nos esqueçamos de que o próprio ócio é um prazer.

No entanto este mesmo homem também se via ameaçado pela decadência de seu próprio corpo que é a velhice, pela enfermidade, pela dor, pelos movimentos arbitrários da natureza e, o que é pior, pelo convívio com seus próprios semelhantes. De modo que as ocasiões de sofrimento não eram poucas.

Diante disto concebeu e implementou o ambicioso plano de alterar, até onde fosse possível, as forças da natureza, tendo em vista reduzir ao máximo as ocasiões acima elencadas. A partir daí foi que surgiu a técnica e posteriormente a ciência, as quais ao menos por um tempo tornaram sua vida mais amena.

O espaço em que a técnica surgiu e em que a vida tornou-se mais amena foi o espaço urbano das primeiras cidades. Com a expansão da vida urbana é assumido um ideal de civilização ou de desenvolvimento.

Tudo isto já o sabemos...

Há no entanto muita coisa de interessante nas entrelinhas a par de algumas possíveis deduções apressadas que poderiam ser feitas. É este aspecto embutido na teoria freudiana de Sociedade que queremos abordar.

A dar a limitação do prazer e a restrição da sexualidade por impulso em termos de civilização e as civilizações por mais ou menos desenvolvidas a primeira conclusão a ser sacada é que quanto mais notável é uma civilização tanto mais repressora é. A dar tal inferência por exata seriamos forçados a concluir que as civilizações egípcia e sumeriana, grega e romana, chinesa e indiana foram acentuadamente maniqueístas, puritanas e repressoras.

Ao que parece a hipótese do Dr Freud, em termos de uma repressão meramente funcional i é relacionada com a disciplina do trabalho. As civilizações ou melhor o esforço dispendido tendo em vista a elaboração delas, teve por consequência uma redução, relacionada ao menos com o montante de tempo gasto com a obtenção de certos prazeres sensíveis, dentre os quais o sexo. Caso aqueles homens primitivos tivessem optado por estar dormindo ou fazendo sexo durante a maior parte do tempo disponível por um lado o trabalho coletivo seria impossível de ser realizado e por outro chegariam ao esgotamento. O tempo teve de ser ordenado e a fruição do prazer, do lazer ou do ócio relegada a um determinado período. Além disto, na mesma medida em que o esforço fosse tanto mais intenso e o gasto de energia maior, a própria fruição do prazer devia ser restringida.

Houve uma restrição em termos de prazer, não todavia em termos absolutos, senão em termos relativos e funcionais. Nos períodos em que não estavam trabalhando e nas horas do dia em que não estavam trabalhando aqueles homens deviam ter livre acesso ao prazer. Outro aspecto tanto mais importante e digno de ser considerado é que a restrição dos prazeres em tais sociedades, as mais avançadas, deu-se prioritariamente em termos de quantidade, jamais ou quase nunca de qualidade ou forma. Necessário ressaltar este aspecto. Quero dizer que em nenhuma das civilizações acima apontadas topamos por exemplo com a condenação de alguma forma de fruição sexual em si mesma. Assim a prostituição, assim a masturbação, assim a homoafetividade... jamais chegaram a ser questionadas em si mesmas. Restrita quanto ao acesso em termos de tempo, a sexualidade chinesa, indiana, egípcia, sumeriana ou greco romana permanece aberta, indeterminada e rica quanto as formas.

Como não pretendo escrever uma História do sexo na antiguidade ou nas antigas civilizações, digo das mais desenvolvidas e, graças as escavações em Pompéia estamos bastante bem informados sobre a presença do sexo na vida dos antigos romanos, limitar-me-ei em abordar, de passagem apenas, a sexualidade no antigo Egito. Nada ali era tabu uma vez que Ramsés, o grande Faraó, contraiu matrimônio com sua própria filha Meritamon. De fato o sexo estava difuso em toda civilização Egípcia, a começar pelo universo religioso. Aton, o deus primordial, masturba-se com o objetivo de produzir os primeiros seres divinos. Chu e Tefnut transam produzindo Geb e Nut, os quais dão origem aos primeiros reis divinos. Crianças assistiam a realização do ato sexual feito por seus pais. Noutras circunstâncias Geb pratica a auto felação. Amiúde os deuses são representados com o falo ereto, ejaculando. O próprio Faraó masturbava-se publicamente no Nilo, uma vez por ano, com o objetivo de fecundar a colheita. Segundo um mito já clássico Isis após recompor o corpo do falecido Osiris recria seu falo por meio da magia. Cenas de caça são pintadas nos túmulos significando veladamente a sexualidade. Havia um deus da líbido, da dança, da embriagues, do sexo; o qual era Bes. O papiro erótico de Turim, representando a vida quotidiana num bordel de Tebas, expõem aos leitores cenas explicitas de masturbação feminina, etc Preciso mencionar a saga do padeiro Panet? E mencionar que sequer foi castigado ou punido pela lei? Nem preciso dizer que os antigos egípcios não tinham maiores problemas com seus corpos ou com a nudez; que meninos e escravos andavam praticamente nus enquanto que as mulheres da elite limitavam-se a cobri-se sumariamente com um pano de linho fino. Nada mais comum em Deir el Medinat do que desenhos de natureza sensual ou erótica. O matrimônio era flexível, o divórcio comum, a poligamia e a semi poligamia amplamente disseminadas e a mística da virgindade ignorada. Mesmo a homo afetividade era originalmente tolerada desde que não houvesse subjugação forçada. Além disto os egípcios drogavam-se usando flores de lótus, embriagavam-se com cerveja, etc, etc, etc Prazer ali não parece ter sido tabu.

Trabalhavam, e refiro-me aos trabalhadores livres, no entanto esses egípcios dez dias durante a semana. Sendo assim como encontravam energias ou forças para praticar sexo? Acaso não estaria o sexo apenas na imaginação ou na fantasia de tais pessoas??? Algumas pinturas e representações parecem indicar-nos que a vetusta civilização do Nilo conhecia já o que chamamos de excitantes ou melhor dizendo substâncias afrodisíacas. Certamente não faziam sexo a todo tempo mas quando o faziam faziam intensamente. E no entanto apesar da fruição do prazer, seja por meio do sexo, da cerveja, dos narcóticos ou da dança, a civilização Egípcia foi o que foi. Não sobrecarregou ao extremo seu povo com tabus sexuais, os quais sequer existiam.

Quanto aos antigos indianos limitar-me-ei a mencionar que são os autores do Kama Sutra...  Diga-se o mesmo do Tantra.

Outro é o caso da sexualidade na Mesopotâmia, pelo simples fato de que achasse esta região de par com as 'terras santas' do islã e do judaísmo, e devido a presença da cultura semita. Claro que tomamos por base aqui a cultura original sumeriana ou de matriz sumeriano/asiânica, atendo-nos especialmente ao Sul desta região, ocupado posteriormente pela cultura babilônica, em oposição ao Norte assírio muito mais bem mais semitizado. Tenha-se em mente que os acádios são um povo sêmita.

Compreende-se portanto porque o tema foi relegado ao silêncio e porque a sexualidade dos mesopotâmicos foi ocultada ou mesmo negada desde os bons tempos da 'santa' rainha Vitória... Apesar disto salta a vista de todo e qualquer sumerólogo o aspecto positivo com que os antigos babilônicos não apenas encaravam mas representavam, comumente, o sexo. Basta dizer que a Epopéia de Gilgamesh refere-se ao sexo como um dos principais prazeres de que os mortais devem desfrutar enquanto passam pela vida. O texto de Shumma âlu CIV, 1,14 refere-se explicitamente ao sexo anal sem adicionar qualquer juízo depreciativo. O mesmo texto acima citado refere-se positivamente a prática homossexual desde que levada a cabo com um 'assinnu' ou prostituto profissional, excluindo a coação (outra era a postura dos assírios). Já foi sugerido alias que havia certo conteúdo homo afetivo entre Gilgamesh e Enkidu. A prostituição por fim era tida em conta de sagrada e em algumas regiões deviam as moças prostituir-se em honra a deusa do amor Astarte. O incesto no entanto é tido em conta de Tabu e a mulher goza de muito menos liberdade do que no Egito. Não se pode no entanto sustentar que a primitiva Sociedade mesopotâmico/sumeriana fosse demasiado repressora ou mesmo repressora em termos de sexualidade ou de prazer. Tornou-se no entanto cada vez mais limitada e policiadora na medida em que o elemento sêmita se foi tornando preponderante, especialmente ao Norte, entre os assírios.

Após termos passado em revista a sexualidade em tais civilizações, a saber as mais desenvolvidas e ricas da antiguidade, podemos estabelecer que mesmo admitindo-se como certa aquela redução quantitativa em termos de prazer necessária a produção da cultura, a forma por assim dizer do contato sexual jamais tornou-se objeto de tabu ou policiamento, e que inexiste por assim dizer uma relação proporcional entre restrição ao prazer ou melhor dizendo entre preconceitos de natureza sexual e grau de desenvolvimento cultural. O desenvolvimento da cultura ou o florescimento da civilização antiga não parece estar na dependência do que podemos classificar como comportamento moralista, maniqueísta ou puritano em termos de negação consciente do corpo ou do orgasmo. Tal tipo de relação é o que não se constata. Eis a primeira relação a que chegamos.

O que nos leva a um problema ou a uma pergunta.

E a existência das culturas maniqueístas implica algum tipo de relação em termos de sentido ou organização social.

Quanto a esta pergunta talvez nos seja possível sugerir um caminho novo ou diferente.

Não precisarei ser erudito ou onerar o leitor com outra aula de História com o objetivo de sugerir uma certa relação existente entre a repressão sexual, os tabus, a negação do corpo ou o maniqueísmo e o espírito agressivo ou a belicosidade de algumas culturas.

Chegado a este ponto devemos esperar pelos protestos de alguns. Os quais dirão que todos os povos e culturas da antiguidade eram agressivos e belicosos na mesma proporção. Este tipo de afirmação se me parece arbitrário e artificial, gratuito enfim. Típico daquela gente simplória que diz para si mesma: Como todas as culturas são iguais todas devem estar em posse das mesmas qualidades e dos mesmos defeitos. Aqui tudo muito apriorístico.

No entanto ousarei perguntar a toda essa boa gente relativista por que não damos com as mesmas cenas de empalamento, esfolamento, tortura, etc representadas nos painéis dos palácios assírios no contesto da antiga China? Por que no Egito temos um Akhenaton abolindo os sacrifícios sangrentos e cogitando sobre a igualdade existente entre todos os homens enquanto o rei da Assíria declara estimar tanto a boa leitura quanto o hábito de cortar as orelhas e narizes de seus prisioneiros de guerra? Por que os Egípcios após terem tomado uma cidade limitavam-se a matar ou escravizar os combatentes enquanto que o 'povo eleito de jao' i é os antigos israelitas massacravam sem piedade até mesmo as crianças, os idosos e os animais que habitavam as vilas tomadas por eles? Por que os indianos ou mesmo os egípcios não saíram pelo mundo afora gritando 'Converte ou morre'? Então pelo amor de Zeus não venham dizer-me que a violência estava presente com a mesma intensidade na antiga China e na Assíria. Na antiga Índia e no antigo Israel. Na cultura islâmica e no antigo Egito.

Indianos, Egípcios e Chineses mal saíram de seus domínios com o intuito de conquistar outros povos ou de submeter outras culturas e mesmo quando foram levados a faze-lo (no caso do Egito após as invasões dos Amu) fizeram-no muito a contragosto e obedecendo determinados padrões de humanidade. Sumerianos e mesmo os Babilônicos, durante certo tempo, tampouco fugiram a estes padrões. Outro é o caso dos Assírios, dos antigos hebreus e dos árabes cujas façanhas todos nós conhecemos muito bem. Assírios pilhavam e aterrorizavam outros povos. Os hebreus promoveram ao que parece o primeiro genocídio de que temos notícia na História e os muçulmanos, a princípio árabes em sua totalidade, buscaram levar sua jihad aos confins da terra. Do que resultou uma quantidade de agressões, mortes, derramamentos de sangue e destruição apenas comparáveis as futuras guerras dos cem anos, dos trinta anos e mundiais...

Certamente que algum estudioso tanto mais realista fará questão de apontar-me os determinantes geográficos ou climáticos, o que vem sendo apontado desde os tempos de Ibn Khaldun e foi assumido entre os nossos, pela primeira vez, por Montesquieu. Os povos do deserto - e estamos diante de três culturas sêmitas - tendem a ser mais rudimentares, agressivos e belicosos do que os povos agrícolas das planícies ou cidades, em função de suas vicissitudes como o nomadismo ou a falta de recursos. Longe de mim questionar que tais fatores possam também eles cooperar quanto a gênese deste espírito belicoso. Suspeito no entanto que neste terreno qualquer enfoque monocausal seja improcedente, e que devamos tal caráter a uma convergência de fatores, assim em parte ao clima ou ao solo, mas não somente a ele.

Há aqui algum ou alguns fatores a mais e nós acreditamos poder identificar um deles com a negação do corpo e a restrição da sexualidade intencionalmente decretadas pelo legislador com o objetivo de potencializar ou de aumentar ao máximo esta alegada agressividade já favorecida pelo meio. Que a cultura semita se tenha esforçado - muito provavelmente mais do que quaisquer outras culturas - no sentido de ocultar o corpo humano e em nega-lo se me parece indubitável. Que tenha adotado igualmente uma série de tabus com relação a fruição do prazer sexual não me parece menos evidente. Tal o escopo - a princípio - do machismo e da homofobia, e posteriormente - já no contesto judaico 'cristão' da modernidade - da monogamia, da indissolubilidade matrimonial, etc Até a formação de um super ego estritamente moralista, em conexão com uma cultura moralista, a qual impôs o recalque dos desejos como sinônimo da virtude ou ideal a ser alcançado por todo homem piedoso.

Certamente resultaria de tais medidas uma epidemia de neuroses a ponto destas assumirem um caráter coletivo, isto caso as religiões de Assur, Javé e Ala, não canalizassem toda a agressividade latente produzida pelo recalque sexual para os domínios da guerra religiosa, tornando tais povos mais agressivos do que já eram ou belicosos no mais alto grau. Pelo que vinculamos essa produção intencional de agressividade e violência a afirmação desse padrão cultural maniqueísta ou puritano e a revolta instintiva latente nesta multidão de recalcados. Em certo sentido a negação da sexualidade chegou a produzir um sentido de Tanatos, um certo desprezo pela vida e uma certa tendência para morte decorrente da infelicidade e da frustração. Não é sem menos razão que podemos relacionar a mística revolucionária assumida por certas pessoas com problemas, desajustes ou disfunções de caráter sexual a apresentar ao menos alguns revolucionários fanáticos como não realizados sexualmente e portanto como seres amargurados. A frigidez, a impotência e a impossibilidade do orgasmo tirou de tais pessoas a vontade de viver a ponto de converte-las em suicidas inconscientes. Guerras, sedições, conflitos, etc dependem de eunucos ou de meios eunucos, enfim de gente que não goza... Assim é que se formam os exércitos e multidões de incendiários revoltosos, os quais ligam muito pouco valor a suas próprias vidas.

A Idade média tinha de ser combativa. Grécia e Roma tiveram de ser combativas; pois havia toda um conjuntura externa que favorecia a combatividade. As idades moderna e contemporânea não conheceram semelhante conjuntura, e no entanto foram ainda mais belicosas. Desde o século XVI ao XIX o número de guerras e conflitos recrudesceu, declinando apenas a partir de meados do século XIX. Durante todo este tempo que vai da reforma ao período vitoriano os ideais maniqueístas e puritanos embutidos na sociedade Cristã pela cultura judaica não cessaram de consolidar-se. O que não pode ter deixado de aumentar ainda mais a pressão do recalque e portanto a produção da agressividade e o desejo inconsciente pela destruição. Desejo que originalmente inexiste, sendo produzido, bom dize-lo, pela cultura da repressão. Seja como for, durante quase trezentos anos este desejo alimentou um sem número de guerras e conflitos estimulados e sancionados pelo fanatismo religioso. Esta relação - Repressão, agressividade, conflito e Religião, marcou toda uma Era, até os idos de 1830 ou 48. Desde então assistimos, sem que o puritanismo saísse de cena (afinal estamos em sua Idade dourada que o período vitoriano), uma redução do número das guerras e dos conflitos ( a qual se prolonga até o surgimento da primeira grande guerra mundial). Neste caso que foi feito de toda esta agressividade?

Desde 1830, com a consolidação do modelo de produção liberal ou capitalista nos moldes clássicos, foi a agressividade canalizada para outros fins, assim para o mundo do trabalho, tornando sua relação com a própria sexualidade ambivalente. Até que Freud apareceu em cena, e após ele os contraceptivos e as Revoluções sexual e feminina, dispondo todas estas relações doutro modo.



sábado, 24 de dezembro de 2016

O 'Novo mundo' que Freud devassou...





Muito, muito antes de Freud já se falava na existência de um inconsciente ou de um setor da nossa mente inacessível a esfera da consciência.

Rousseau e Nietzsche já haviam postulado sua existência e discorrido a respeito dela.

Tal e qual aqueles astrônomos que já falavam sobre a lua antes da Apolo XI e como aqueles que hoje falam sobre Marte.

Mas era tudo muito obscuro e misterioso e aquele terreno jamais fora explorado.

Há quem hoje duvide da ida do homem há lua e há certamente quem duvide da vontade inconsciente.

Grosso modo a respeito do inconsciente podemos admitir que homem algum foi lá, pois para tanto teria de entrar na mente do outro, o que sabemos ser impossível.

Não, nós não vemos o inconsciente como não vemos o ar. Tampouco a maioria de nós já esteve na China ou na Índia. No entanto quando testemunhamos os efeitos produzidos pelo vento deduzimos a existência do ar e quanto vemos chineses ou indianos constatamos a existência daqueles lugares.

As memórias do inconsciente ou memórias inconscientes é que vieram até nós quer por meio de delírios febris, quer por meio da assim chamada hipnose ou hétero sugestão.

Foi por esta brecha ou porta aberta no final do século XVIII que tais resíduos chegaram até nós e puderam ser estudados.

O que nos reporta ao Abade de Faria, a F A Mesmer, ao Marquês de Puységur, a Du Potet e finalmente ao grande Liébault.

Um dos casos mais famosos dizia respeito a um ancião de origem polonesa que morava nos EUA e que aos 93 anos de idade durante o delírio febril provocado por um resfriado, tornou a falar polonês. Sucede no entanto que nosso homem havia saído da Polônia com três ou quatro anos de idade e deixado de falar polonês antes dos cinco. Pelo que havia se esquecido por completo da lingua materna e deixado de emprega-la há cerca de 88 anos!!! O que nos levaria a supor que havia o esquecimento havia sido total e que toda e qualquer memória neste sentido tivesse desaparecido.
No entanto o polonês la estava arquivado na memória inconsciente do ancião e não apenas como forma a ser repetida, mas como estrutura dinâmica!!!

Ao cabo de quase um século ou até mais milhares e milhares de casos semelhantes foram registrados e arquivados após terem sido observados pelos médicos.

O que levou J M Charcot e Bernheim a admitirem a existência de uma vida inconsciente, a qual por vezes aflora no domínio da consciência como a ponta de gigantesco Iceberg aflora sobre as águas do mar...

No entanto não se tratava apenas de memória ou arquivo mas de vida inconsciente na acepção mesma do termo.

Pois postas em sono hipnótico não poucas vezes as pessoas surpreendiam seus analistas sustentando ideias, gostos, opiniões, etc que não ousavam suster publicamente ou que até mesmo conscientemente reprovavam... Como se por trás do Eu consciente habitasse um outro Eu. Como se fossemos seres fragmentados e cindidos em duas partes conflitantes, a externa e a interna.

Posteriormente, após o fenômeno de múltipla personalidade ( Transtorno de dissolução da personalidade) ter sido exaustivamente analisado pela Dra Wilbur (caso Sybill) a doutrina da vida inconsciente tornou-se ainda mais sólida e absolutamente demonstrada.

Ao tempo de Charcot no entanto, não havia que estivesse disposto a postular semelhante tese a respeito da personalidade humana - i é que estivesse cindida em diversos departamentos conflitantes - e esta pessoa audaz teve de vir de Viena, capital do Império Austro húngaro.

Tratava-se do judeu Sigmund Freud, fisiologista visitante.

Ali na Salpetrière pode ele constatar que postas sob sono hipnótico as pacientes hipnotizadas tornavam-se normais. Da mesma maneira sob hipnose podiam as pessoas normais reproduzir os sintomas da histeria...

Constatação trivial posto que há décadas eram os sintomas de diversas enfermidades incuráveis e mortais - em especial a dor - suprimidos por meio da hipnose. Cancerosos morriam esvaindo em sangue ou de obstrução mas sem dor ou sofrimento. Assim a hipnose substituia o éter e a morfina com larga vantagem. Prisioneiros condenados a morte haviam morrido por terem sido induzidos a crer que suas veias haviam sido cortadas e que todo sangue do corpo estava a escorrer... e morreram sem sofrer quaisquer danos.

Havia muito, mas muito material.

Faltava no entanto personalidade suficientemente audaz para ligar os fatos e tirar as constatações por sinal revolucionárias. Até que o Dr Freud bateu a porta daquele afamado Instituto no final dos anos 80 (século XIX). E quanto de lá saiu já não pretendia dissecar corpos e examinar tecidos mas explorar o terreno inexplorado da mente humana.

E tinha a brecha, a porta ou a chave, como queiram.

Tinha a ferramenta necessária e esta era a hipnose.

Hipnotizou por quase dez anos ou mais e consequentemente extraiu não apenas memórias arquivadas mas volição inconsciente, disposições, gostos, crenças, ideias, etc Lançadas pela memória inconsciente no mais profundo dos abismos, o inconsciente. Lá ao cabo de exaustivas pesquisas deu com a outra face a moeda, nossa personalidade rival ou banida, o inconsciente.

Diante disto formulou sua teoria dinâmica da mente e segundo a qual achava-se ela cindida no mínimo em duas áreas, esferas ou compartimentos: o Consciente ou Ego e o Inconsciente (primeiramente Id e posteriormente super Ego).

Observando tudo isto do século XXI parece até prosaico.

No entanto até 1900 era o homem concebido como uma Unidade coesa e perfeita. Quiçá os anormais tivesse suas personalidades divididas e em estado de tensão ou choque, não as pessoas normais!

Desde o tempo dos antigos gregos o tipo de homem racional, cuja vontade era comandada ou dominada pela reta razão ou pelo intelecto era bastante caro ao menos para as pessoas mais instruídas e nem mesmo Agostinho, Lutero ou kant haviam logrado aniquilar este ideal de natureza humana organizada.

Pois o que aqueles não haviam logrado fazer executou-o S Freud ao demonstrar cabalmente que somos Caos e não Kosmos. Conflito, tensão, cisão e não unidade coesa e estável.

Dentro de nosso eu temos um outro eu em estado de guerra face aquele.

É a natureza do homem uma natureza fragmentada!

Num primeiro momento ninguém quis dar ouvidos a este judeu austríaco de barba andó e com o eterno charuto entre os lábios. No entanto, quando sua tese mostrou-se seriamente sustentável, muitos devem ter sentido ganas de lincha-lo ou que queima-lo vivo em praça pública tal e qual João Calvino havia feito com Miguel Servet trezentos e cinquenta anos antes!!! De fato passados trinta anos Freud chegou a ver suas obras serem queimadas pelo terceiro Reich! 'Antes, há cem ou duzentos, anos eu é que seria queimado no lugar delas; há progresso!' exclamou ele!

Ao tempo em que Freud elaborava suas teses sobre o inconsciente e o Ego, era a cultura européia dominado por um ideal de moralidade JUDAICO cristão altamente maniqueísta ou puritano, o qual implicava negação sistemática do corpo (com a decorrente condenação da nudez como pecaminosa e imoral) e da sexualidade. E sói como acontece no plano da cultura, mesmo aqueles que haviam perdido a fé ancestral e rompido com a religião ou a igreja conservavam vivo este padrão de moralidade e não ousavam contesta-lo. Sendo assim sexualidade era sinônimo de tabu. Todos certamente faziam sexo, mas não podiam admiti-lo publicamente, aceita-lo como algo normal, tecer comentários, etc pois era algo tido em conta de sujo ou indigno e não poucos rezavam antes e depois de terem tido relações, havendo inclusive quem confessasse e implorasse absolvição pelo pecado da concupiscência e da carne.

Isto para não falar em prazer ou orgasmo. Pois aquele tempo era o sexo encarado apenas como meio voltado para a procriação. E ninguém cogitava em separar uma coisa da outra sob pena de ser considerado devasso! Abordar a questão da satisfação sexual naquela época era certamente coisa de 'tarados', não de gente normal e decente. Toda gente honesta viva e morria como se o sexo jamais existira.

Era toda uma estrutura social, mecanismo ou sistema disposto para a mutilação, a negação e o recalque.

Desde pequenas as crianças eram ensinadas pelos pais, tutores, familiares, professores, lideres religiosos, etc que aqueles impulsos eram criminosos ou malévolos e que deviam ser banidos da vontade consciente, ao menos até a legalização do matrimônio. E mesmo após sua legalização deviam tais impulsos revestir-se de formas ortodoxas ou autorizadas pela boa moral (de origem religiosa ou JUDAICO cristã) para que fossem aceitáveis. Naquele tempo a opinião segundo a qual 'Entre quatro paredes tudo é permitido' tinha bem pouco acolhimento geral.

No entanto como a natureza é o que é e como só se pode agir segundo a lei da natureza não só os impulsos mas os desejos pecaminosos apareciam. Quando apareciam no entanto, já se havia cristalizado junto ao Id e ao Ego a instância policiadora ou repressora do super Ego, e remetidos ao inconsciente ou recalcados, para lá permanecerem enterrados ad aeternitatem!

E tal era a força dessa presença dos outros e de suas ideias em nós mesmos (super Ego) que muitas vezes nem nos dávamos conta daquilo que desejávamos, pois nem bem o desejo aflorava e o super Ego lançava-o nos abismos da inconsciência. Fazendo-nos pensar que éramos puros, imaculados e santos! Engano fatal pois a negação desses desejos e impulsos ditados pela natureza repercutia inevitavelmente sob a forma de enfermidade mental, neurose, alienação, angústia, histeria... A negação de nós mesmos em virtude dos preconceitos arraigados tornou aquela Sociedade doente!

Ao cabo de séculos produziu 'possessões', 'bruxas', dementes, loucos furiosos, melancólicos, suicidas, etc Parte dos quais era queimada viva por padres e pastores em nome do papa ou da Bíblia e parte dos quais era sepultada em mosteiros ou prisões e submetida a toda sorte de maus tratos. Não poucos canalizavam as energias e impulsos sexuais para os domínios da fé e convertiam-se em fanáticos, místicos, visionários, profetas, etc

É portanto em função de uma cultura específica dada no tempo e no espaço que o inconsciente dos europeus, ao fim do século décimo nono, estava povoado principalmente por uma energia de teor sexual. Evidentemente porque o setor da sexualidade humana é que fora satanizado, negativizado e menosprezado por aquela cultura puritana. Incidindo a repressão sobre qualquer outro setor da vida humana outro seria - e totalmente diferente - o teor da energia inconsciente.

O que quero dizer aqui ao encerrar este artigo é que a maior parte das enfermidades psiquicas que afetam a pobre humanidade ainda são provocadas pela negação dos impulsos e desejos sexuais inerentes a nossa condição humana. Em virtude do recalque, do aumento progressivo da tensão e duma fissura maior. Caso não haja válvula de escape ou alívio a personalidade de desfaz ou se desagrega por completo dando lugar a insanidade. Pois não é impunemente que se nega a natureza.

Ainda na esteira de Fliess e Freud cabe reconhecer o caráter bissexual da personalidade ao menos até o estado adulto ou como queiram o caráter não determinado da sexualidade humana em suas primeiras fases ou períodos e ainda durante largo tempo. Disse bissexual ou indeterminado não homossexual ou fixado num objeto igual a si. Há inclusive quem faça remontar esse aspecto da bissexualidade humana a infância, ao embrião, etc numa perspectiva biológica.

É a educação veículo da cultura que nos torna heterossexuais. Por meio da educação é que canalizamos o desejo consciente para determinado objeto. É a educação que nos orienta para uma forma sexual definida - a mulher para o homem e o homem para a mulher. Nós acreditamos e somos levados a acreditar e somos ensinados que a natureza determina esta escolha. No entanto ao que tudo leva a crer tal escolha é produto da cultura e da educação, então não escolhemos mas nos conformamos com uma identidade que nos é imposta ou dada.

Que seria de nós caso jamais tivéssemos ouvido as palavras mágicas: Você não pode gostar de homens ou você não pode gostar de mulher????

Naturalmente que enquanto o drama permanece latente em termos de relativa normalidade passa em branco e não temos com o que nos preocupar. No entanto quando a situação de conflito aflora ou se torna patente sob a forma de neurose, então é necessário por a mão na ferida. Isto no entanto dependerá da forma geral da personalidade e do próprio lugar da sexualidade naquela existência.

Ainda assim sou levado a questionar se algo que é natural precisa ser externamente inculcado por meio da educação com tanto empenho e esforço. Então vocês me dirão que a linguagem humana é igualmente natural e objeto de educação. A afirmação é contestável e discutível e já se disse muitas vezes que o aparato linguístico do homo sapiens é produto da cultura e por isso objeto de esforços educacionais. Sem os quais não vem a consumar-se ou a aflorar.

Por ora é o quanto tínhamos a dizer, a declarar e a propôr a reflexão do leitor!





sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A afirmação dos fundamentalismos nas Sociedades Ocidentais

Um dos problemas mais sérios com que nos deparamos no tempo presente é a afirmação dos fundamentalismos religiosos seja no contexto Cristão (assim temos a expansão do pentecostalismo na América Latina e a resistência do calvinismo no Bel Bible - USA) ou no contexto judaico sem falarmos no islamismo, o qual é por assim dizer o Império do fundamentalismo e o baluarte do pensamento teocrático.

Este tipo de padrão de pensamento, peculiar a cultura proto judaica ou israelita florescente no período que vai do século VII ao século I a C ou a cultura árabe do século VII desta nossa Era, já o conhecemos muito bem e consiste sobretudo em acreditar que tudo quanto se deve saber ou crer a respeito de todas as coisas tenha sido escrito num determinado livro infalível. Livro infalível face ao qual devemos sacrificar não só o intelecto mas a própria sensação e percepção.

Nada mais anti natural e degradante do que alguém sacrificar a própria percepção, a própria capacidade intelectual e a própria dignidade as exigências de um livro escrito a 3000 ou a 1400 anos passados...

Se sequer perceber suas contradições, antinomias, desacertos, frioleiras, etc

Trata-se no entanto de um pensamento em ascensão.

Nos EUA como já dissemos resiste o Biblismo com sua insistência mórbida no criacionismo. No Brasil assistimos a expansão do pentecostalismo associado a deletéria teologia da prosperidade. Na Europa afirma-se dia após dia o islamismo... É como se a sombra do fundamentalismo pairasse sobre este nosso hemisfério do globo, eclipsando o Sol da Filosofia e as luzes do pensamento científico... e pondo em risco nossa civilização democrática.

Em termos de sociedade e cultura estamos assistindo a uma contra revolução anti helenística ou a uma intifada fetichista que remonta a expansão do islã e aos albores da reforma protestante.

Arabia e USA são os dois pólos desta revolução religiosa. Europa e América latina encontram-se como que entre Cila e Caribdes...

Importa saber quais foram os fatores que conduziram a civilização a beira do abismo.

Passemos em revista cada um deles:

  1. A falência do materialismo no sentido de fornecer-nos uma Ética essencial (absoluta)
A partir do século XVI entramos na Era das Revoluções.

A revolução protestante fragiliza o sentido ÉTICO, SOCIAL OU IMANENTE do Cristianismo típico dos modelos Católicos. A revolução Inglesa instaura as bases de uma nova ordem, rematada pela revolução francesa e implementada da Inglaterra a partir de 1830; estamos diante de uma nova ordem materialista economicista ou capitalista. Concomitantemente, a partir do século XVIII, papistas e protestantes assistem a abertura de um novo nicho religioso: a religião natural ou deísmo.

Ao fim deste mesmo século no entanto é a capacidade da razão rudemente atacada pelo pensador protestante I Kant. Antes dele por sinal a credibilidade da percepção havia já sido posta em dúvida por Hume.

É Assim que chegamos ao século de Comte e Littré: sem fé, e sem razão; sem religião e sem metafísica, sem teologia e especulação. Restava no entanto a ciência...

Até as críticas de Hume serem retomadas... A partir de Nietszche e sobretudo dos pós modernos: Foulcault, Deleuze, Gatarri, Derrida, Lacan, Camus, Heidegger, etc até mesmo o santuário da ciência é profanado e a cultura científica enquanto construção artificial e subjetiva, nivelada as demais culturas.

Os novos dogmas do subjetivismo, do relativismo e do ceticismo retiram tudo, absolutamente tudo ao pobre homem: fé, razão, ciência, sentido e até mesmo a Ética, já anatematizada pelos positivistas.

Aqui não sobra espaço algum ao humanismo ou a ética essencial da pessoa humana, pois é a Ética, segundo dizem e declaram construção subjetiva e relativa feita por um sujeito prisioneiro de uma determinada cultura.

Percebem como a partir desta perspectiva não só se torna impossível tecer qualquer crítica objetiva e consistente as mazelas do capitalismo, como se tornar perfeitamente possível negar a realidade do sofrimento humano???

Num primeiro momento este padrão de pensamento emancipado favoreceu as doutrinas egoístas de Stirner, Nietszche e sobretudo da 'profetiza' Ayn Rand. Bastando-lhes argumentar que Benthan e Mill haviam associado arbitrariamente o conceito de SOCIEDADE ao utilitarismo... outra não foi a cruz do pragmatismo... Pois os conceitos de pragmatismo e utilitarismo não possuem qualquer nexo interno e orgânico com o conceito de SOCIEDADE ou GRUPO.

Aqui a critica dos individualistas é imbatível, não a nexo ontológico e natural entre utilidade e sujeito... assim aqueles que como Benthan, Mill, W James, etc enfatizaram a dimensão social do utilitarismo ou do pragmatismo, foram sucessivamente acusados de terem assumido valores CRISTÃOS (eu diria Católicos) secularizados, mas Cristãos.

Individualistas, liberais e Católicos em diversas obras demonstraram cabal e extensamente, que toda e qualquer petição ética em torno de SOCIEDADE ou GRUPO parte quase sempre de uma fonte religiosa secularizada; a saber, do Cristianismo antigo ou primitivo. Alias para o liberal o veneno do Cristianismo antigo, não depurado pela visão 'protestante' esta justamente neste travo social ou socialista, comum a toda cultura antiga.

Tal percepção implica duas coisas:

  • O materialismo crasso em termos de ética jamais é ou será capaz de ultrapassar o individualismo ou de desenvolver qualquer sentido social ou gregário. 
  • A ideologia individualista por suas relações internas e orgânicas com o relativismo e o subjetivismo tornando o nazismo, o fascismo e o comunismo inatingíveis em termos de essência, limitou-se a condena-los em termos meramente externos ou políticos. AGORA COMO ESPERAR QUE UMA SOCIEDADE NAZISTA OPONHA-SE AO NAZISMO OU QUE UMA SOCIEDADE FASCISTA OPONHA-SE AO FASCISMO??? Este vazio que jamais atinge as fontes e raízes de um mal que é absoluto foi o que desarmou por completo a democracia meramente formal face as culturas de morte.

Conclusão: Partindo da reforma e do Capitalismo, chegando ao materialismo crasso e embarcando nas canoas furadas do relativismo e do subjetivismo como poderíamos chegar ao individualismo crasso sem chegar ao extremo da mística estatólatra com o comunismo, o fascismo e o nazismo??? Que nos impede ou impediria de vagar entre os dois extremos??? Que justifica um extremo que não possa justificar o outro??? Que nos permite condenar comunismo, nazismo, fascismo e absolver os egoístas de Rand e Stirner??? Que nos impede de chegar as doutrinas do super homem e do darwinismo social?

Senhores, ou podemos e devemos condenar a ambos em nome da mesma dignidade da pessoa humana ou estamos sendo hipócritas! Puro farisaísmo condenar o lado estatólatra e aplaudir o egoísta! Simples juízo de vontade e conveniência! Por isso enquanto assistirmos cabisbaixos o florescimento desta doutrina monstruosa que é a do egoísmo, assistiremos igualmente o florescimento dos totalitarismos... porque ambos estribam-se nos mesmíssimos princípios: a negação da metafísica, do ser, da ética, da verdade... ou seja nos dogmas do relativismo e do subjetivismo...

Em termos de pessoa humana não receberemos solução alguma do materialismo puro ou do ateísmo incontaminado. Postulem a solidariedade e seus próprios companheiros apontarão vossas fontes secularizadas de Cristianismo.

O liberal é consequente: Se o socialismo é mau sua fonte o 'catolicismo' também o é. Assim como socialista não posso deixar de simpatizar vivamente com os Catolicismos ou com o Cristianismo antigo tendo em vista o nível de sua consciência social.

     2. O fastidio do TER

O homem materialista inserido no contexto economicista liberal aderiu a ideologia do consumo acreditando que ela lhe acrescentaria muita coisa.

Não acrescentou quase nada. Pois é um crescimento de fora para dentro... e nós crescemos humana e moralmente apenas de dentro para fora.

Não comprando coisas ou tranqueiras mas adquirindo princípios e valores saudáveis.

Consumir objetos materiais de que não se tem extrema precisão é como beber água do mar, quanto mais se bebe mais se quer beber - porque este tipo de água é incapaz de matar a sede (pelo contrário é apto para aumenta-la) - até que se afoga...

Chegamos assim a depressão, que é o mal do século.

Parte das pessoas acreditou que quando estivessem plenamente inseridas na sociedade do capital e do consumo, ganhando um bom salário e podendo comprar tudo quanto quisessem seriam felizes. Esqueceram-se que Jacqueline Onassis suicidou-se, bem como Raymond Roussel, Marilyn Monroe, Maria Callas, Michael Jackson, Whitney Houston, Curt Cobain, Amy Winehouse, dentre outros... Tais pessoas tinham tudo quanto podiam comprar mas não encontraram qualquer sentido para a vida, o que é imensamente trágico.

No entanto a obsessão pelo dinheiro, pelo lucro, pelo capital, pelo TER faz com que a pessoa deixe passar as pequenas coisas, que tornam a vida relativamente feliz; que deixem que criar vínculos afetivos, que se alienem do outro. O consumo aliena o homem. Passado muito tempo ele não mais encontra a si. Perdeu o outro, perdeu a si, não tem paz de consciência, sente-se amargurado.

Quando o homem esgotou todas as suas possibilidades: religião (que perdeu), razão (de que duvida), percepção (iden), ética (que ignora), e enfim a fé no consumo chegou o momento de imitar ao jovem Werther... não há qualquer outra coisa que lhe possa ser oferecida. Então deve filosofar no sentido de Camus ou seja decidir se deve viver uma vida que não faz sentido ou suicidar-se. Por coerência da incoerência suicidar-se-a!

Em certas sociedade 'civilizadas' suicidio tornou-se epidemia.

Materialmente falando não falta absolutamente nada a tais pessoas.

Apenas inverteram a ordem da vida ética sobrepondo o TER ao SER.

O problema crucial aqui não é que tenham feito isto, mas a questão das cultura.

Produzimos um padrão de cultura materialista economicista que conduziu-nos a esta inversão aberrante.

Alguém lá atrás ou em algum lugar afirmou que valorizando mais os objetos ou coisas do que as pessoas seriamos felizes. Quem proferiu tal obcenidade enganou-nos; enganou a mim, a ti e a todos, e envenenou nossas vidas!

Existimos para viver em comunhão de amor com o próximo. Eis a chave da felicidade! Então se o Catolicismo acertou é inutil deitar-lhe pedras! Existimos para o outro, para o semelhante, para solidariedade. É mitigando os sofrimentos alheios que mitigamos nossos próprios sofrimentos! É lançando bálsamo as dores alheias que encontramos o bálsamo para nossas feridas! Coisa que o dinheiro não paga e que a moeda não comprar! O financeiro fez-nos perder esta noção de valor moral!

Amigo leitor o amor da tua mãe, a dedicação do teu pai, a cumplicidade da tua esposa, o sorriso do teu filho e a acolhida do teu cão, são coisas que não tem preço, que dinheiro algum neste mundo pode comprar! Se em troca de cada um destes valores darias todas as riquezas do mundo sabes bem do que estou falando e és um ser humano de verdade! Agora se duvidas...

Se duvidas das coisas excelsas e belas que teu cartão de crédito não pode comprar, lamento por ti e espero que jamais possas comprar tudo e terminar desiludido como uma Maria Callas ou uma Jacqueline Onassis!!!

A cultura é que conduziu-nos a beira do abismo.

A cultura materialista e economicista afirmada pelo capitalismo.

Prometeu-nos um paraíso, mas era artificial.

Prometeu-nos o bem e a paz que não poderia dar-nos.

Muitos acreditaram e se decepcionaram.

Outros testemunharam a decepção alheia e perceberam quão falacioso é o sistema.

      

      3. O recalque espiritual e ignorância religiosa

O terceiro fator ligado a ascensão dos fundamentalismo tem a ver com a irreligiosidade fanática.

Quando a irreligiosidade não é fanática é capaz de perceber valores relacionados com a dimensão religiosa do ser ou ao menos a reconhecer a influência social das religiões e a estuda-las.

Já a irreligiosidade fanática engendra mitos.

Assim aquele segundo qual todas as religiões são iguais; ou todas igualmente boas ou todas igualmente más.

Tal a divisa ou a senha de quem jamais estudou seriamente a História das religiões e crenças.

Se há religiões boas precisamos conhece-las por pura e simples questão de honestidade e justiça.

Não precisamos crer ou ser religiosos paras ser justos. É imperativo categórico que procede da consciência.

Agora se há religiões nefastas e danosas é vital estuda-las com maior empenho ainda. Aqui o estudo das religiões funcionaria como uma espécie de vacina, antidoto ou contra veneno.

Nem digo que seja necessário conhecer-lhes as respectivas teologias mas apenas e tão somente suas relações com as sociedades humanas, a ética, o humanismo, a promoção humana, o pensamento científico, etc

Compreendo inclusive que as religiões institucionais sejam acusadas e repudiadas por este ou aquele motivo. É questão de pesar os argumentos ao invés de repetir 'boatos'...

Compreendo até que algumas pessoas não tenham necessidade de uma religião definida e que outras permaneçam indecisas. Compreendo enfim que algumas pessoas sejam opostas a todo e qualquer tipo de religiosidade, mesmo natural...

Agora uma coisa espero ou ouso esperar dos irreligiosos convictos! Que abstenham-se de imitar ou de reproduzir o que reprovam e condenam nos fanáticos que é a imposição arbitrária da fé.

Por isso não compreendo a atitude de certos intelectuais irreligiosos que indispõem-se com seus país, cônjuges, filhos, etc pelo simples fato de não abraçarem seus pontos de vista ou aqueles que ousam impor a negação religiosa em seus lares, mortificando a esposa ou os filhos menores.

Educar, orientar, dialogar... é uma coisa.

Impor é e será sempre sinal de intolerância e fanatismo, partindo ou não de uma pessoa religiosa.

É necessário que cada pessoa faça seu caminho, informe-se, tenha suas experiências... buscando inclusive contemplar a dimensão espiritual ou religiosa da existência.

Neste sentido informar sempre será a melhor saída.

Pois possibilitará que a pessoa faça as melhores escolhas possíveis ou as menos danosas para si e para os outros.

É como dizer a alguém que tem fome: Controle-se você não precisa comer!

Quando a fome atingir uma intensidade muito grande esta pessoa estará disposta a comer qualquer coisa ou a ingerir qualquer porcaria.

Assim o efeito das restrições arbitrárias no domínio da religiosidade humana também pode ser catastrófico, particularmente quando associado a falta de conhecimentos religiosos.

Se a religião corresponde de fato a uma espécie de infecção ideológica talvez seja necessário entrar nela e sair dela para criar anti corpos e imunidade.

A ignorância religiosa no entanto pode encaminhar o sujeito a sistemas demasiado fechados ou sectários. Adiando por muito tempo ou impossibilitando sua saída...

Uma contenção precoce e arbitrária sempre poderá levar a uma afirmação obstinada e fanática ou a uma oposição ferrenha mais adiante...
Diante dos resultados contra producentes temos que a irreligiosidade não tem sabido lidar com a religiosidade. 


      4. A falência de nosso modelo educativo


Em larga escala - tomo por exemplo a educação de estados inteiros como os Estados de S Paulo e Rio de Janeiro - a educação tem falhado ou deixado de cumprir seu papel enquanto formadora de um éthos crítico reflexivo e de uma cultura científica.

É algo que se deva deplorar.

É por meio da educação que transmitimos ou reelaboramos nossa cultura.

Interesses econômicos no entanto postulam que nossas Escolas devam ser privatizadas.

Antes de serem privatizadas no entanto devem entrar em colapsou ou falhar.

Devem além disso falhar para conter as massas no respeito i é longe da esfera do político.
Nem pode o estado fazer com que as escolas acertem aqui e falhem acolá.

Assim por falta de insumos materiais os espaços educativos tornaram-se obsoletos e inadequados.

O que dificulta ao máximo a atividade do professor consciente. Levado a assumir uma postura tradicional que sabe ser ineficaz.

Para piorar ainda mais a situação temos de considerar os professores 'descompromissados'...

Que ali estão apenas para ganhar o pão de cada dia, que assimilaram os postulados do individualismo, que são conformados, que jamais questionam, que limitam-se a executar ou reproduzir, que ignoram a personalidade do educando... etc

Os professores que desconhecem os pressupostos pedagógicos... os que ignoram os conteúdos das matérias... os que ministram a velha educação bancária (cópia e questionários).

Tudo isto faz parte da realidade complexa e calamitosa do universo escolar.

Um universo que funciona cada vez menos...

Diante disto a massa de manobra, massa humana e inconsciente... vai aumentando pelas beiradas.

Não formados apenas massas manipuláveis tendo em vista certas necessidades políticas. Não formamos apenas massas para trabalhar e consumir sem reclamar...

Formamos massas no pleno sentido da palavra.

Incapazes para interpretar e conhecer, para decidir, para optar conscientemente a respeito de qualquer assunto, inclusive de natureza religiosa.

Concedemos papéis falsos a criaturas que fogem aos padrões lógicos de pensamento, que são incapazes de avaliar a importância do método científico, que sequer tomaram gosto pelo hábito de aprender!

E estes zumbis ou vagantes não haverão de alimentar somente a esta demagogia ou democracia meramente formal e ao mercado... alimentarão também e alimentam toda sorte de misticismos.



Conclusão:

Localizamos e isolamos quatro fatores responsáveis pela afirmação do fundamentalismo religioso nas diversas sociedades Ocidentais, em especial na nossa, a Paulista:

  • A falência do materialismo em termos de ética.
  • A sobreposição do TER ao SER.
  • Os recalques e a falta de informação característicos da Sociedade não religiosa
  • A falência do ensino público.
Em contraposição preconizamos:

  • O retorno a uma espiritualidade natural nos termos do deísmo
  • A sobreposição do SER ao TER e questionamento da cultura de mercado
  • Reconhecer a importância do conhecimento ou do estudo das diversas religiões
  • Lutar por melhores condições de ensino e pelo caráter estritamente laico da escola pública.