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sexta-feira, 17 de outubro de 2025

O abismo pós modernista

Aqui algo de ao menos parcialmente novo.

Pois se no papismo, no protestantismo (Apesar de seu conteúdo cético!), capitalismo, comunismo, anarquismo, conservadorismo e fascismo temos a afirmação de algum conteúdo, com o pós modernismo> Ceticismo, subjetivismo e relativismo, chegamos as portas do nihilismo ou ao nada absoluto.

Até o iluminismo, empirista ou materialista, tínhamos ainda alguma fé, fosse mais forte com a ortodoxia, o episcopalismo ou o papismo, mais fraca com o protestantismo, absoluta e cega com as seitas... havia fé.

Restou-nos por pouco tempo a Filosofia ou Metafísica, de pronto abatida por Hume, na Inglaterra, por Kant (Arauto de Lutero) na Alemanha e enfim por Comte na França... Cerca de 1840\50 removeram-nos o racionalismo.

Porém, desde Condorcet restou-nos a Ciência, com suas douradas e paradisíacas promessas para o futuro. Até a explosão das duas grande guerras... E foi-se a ciência. Todavia, ao menos no Leste, restavam a velha mística em torno da ciência, associada ao comunismo e suas visões futurescas - O que perdurou até a queda do mudo de Berlim em 1989 e ao colapso da URSS no ano seguinte.

Então o nada> A negação da realidade, a pós verdade, o domínio das narrativas, o 'imaginário coletivo', a 'construção social'... 

Sucessivamente foram as ilusões (Em torno de alguma verdade) caindo, uma após outra> Fé\Religião, Filosofia (Ética e Estética), Ciência e Revolução... A ponto do insuspeito Nietzsche contemplar uma Europa coberta por escombros e ruínas.

Parece que o comunismo e o positivismo não deram cumprimento a suas promessas, tal e qual haviam falhado o capitalismo e o protestantismo antes deles. 

Mas a questão aqui não é essa...

Pois apesar das sucessivas infidelidades e desmoronamentos sempre havia alguém disposto a coletar os cacos e construir um novo castelo ou fortaleza: Smith, Marx, Condorcet, Comte, Proudhon, Bakunin, Maurras, Mussolini... 

E era a utopia levada adiante...

Até que com Stirner, Nietzsche, Derrida, Foucault, Rand, etc chegaram os demolidores.

Após os quais restaram apenas escombros e ruínas, ou mesmo algum pedaço de carne fresca que o gusano ateísta busca devorar ou consumir com voragem... Referi-mo-nos aqui ao livre arbítrio ou da livre vontade, atacada com ferocidade por Skinner, Pinker, Roth, Sapowsky... Com efeito a neurociência dos 'ateistas' opõe-se decididamente a existência do livre arbítrio por ter dificuldade de explica-lo a partir de sua ideologia ou metafísica podre.

Assim, se o livre arbítrio não se encaixa muito bem como nosso materialismo mecanicista tosco, bora repudia-lo... 

Portanto - Mesmo no escuro reino do nihilismo, expandem-se as negações, sendo a negação dada por verdade...

Nada de novo debaixo dos céus - Há dois ou três séculos os céticos encantam os idiotas ao por tudo em dúvida, exceto o ceticismo, a que se apegam como um dogma. 

Aqui, sem sermos materialistas temos de admitir que, ao menos em certa medida, a atmosfera social exerce relativa influência sobre o mundo das ideias. 

Um franco realismo obriga-nos a admitir que quando uma sociedade está a progredir, avançar, a evoluir, etc Cria ou produz ideologias com um conteúdo bastante rico ou ideologias de afirmação, de certeza, de posse; enfim ideologias otimistas.

Outro o caso das sociedades quando abaladas por alguma calamidade social ou das sociedades fracas e decadentes. As quais tendem a abraçar, reproduzir ou criar ideologias de negação postas para o desespero.

O que já sucedeu mais de uma vez.

Assim os séculos IV e III a C > Período em que os planos de Aristóteles, assumidos por Alexandre, principiaram a dar errado, na medida em que Diadocos e Epígonos disputavam os restos de seu império e mergulhavam toda aquela parte do mundo num mar de fogo e sangue - Debutou o ceticismo de Pirro.

E novamente, quando o Império romano veio abaixo, tivemos o florescimento da Teurgia i é da feitiçaria ou da bruxaria (Com Jâmblico) em plena academia de Platão! E era isso o neo platonismo, ao menos em sua derradeira fase... E temos no campo da Teologia, o maniqueu Agostinho de Hipona, com seu pecado original e sua corrupção total da natureza, enquanto é Roma conquistada por Alarico e seus Godos...

Assim se Orígenes é o Teólogo otimista daquela Roma ainda forte e segura sob Aureliano, Agostinho...

Mesmo nos domínios da infidelidade islâmica, Gazail fez seu ataque a razão, aos racionalistas mutazzilas e aos escolásticos quando o califado estava já sendo estraçalhado pelos mamelucos fanáticos desde 909, culminando esses desastres com a ascensão de Al Haquim e enfim com a destruição da casa da Sabedoria de Bagdad em 1258. Foi este período um período de crise política, dissolução, violência, guerras, etc o qual resultou na consolidação definitiva do fideísmo irracionalista acharita.

Fácil compreender que para a Europa contemporânea, foram das duas grandes guerras mundiais, eventos similares aos conflitos que marcaram o período helenístico, a queda do império romano ou a dissolução do califado abássida, isto do ponto de vista do impacto psicológico. Se a guerra dos Trinta anos abalou a fé Cristã e as guerras napoleônicas atingiram a fé romana, as duas grandes guerras além de terem abalado mais uma vez a fé romana, destruíram da noite para o dia a fé positivista na ciência e ainda conseguiram respingar alguma lama sobre a fé capitalista... 

Daí a ascensão do ceticismo, do relativismo e do subjetivismo, enfim do modernismo e do pós modernismo enquanto doutrinas de negação. O quanto restava do outro lado do muro, como já sabemos, desabou pelos idos de 1989, provocando outra onda de desapontamento ou de ceticismo, entre os ocidentais.

Disto resultou, a partir dos anos 90 e nas duas primeiras décadas do terceiro milênio na afirmação do pós modernismo ou da pós verdade, etc, etc, etc

Parece que no fim das contas não havia mais sinal de esperança nos domínios da cultura ocidental. Por fim a construção das ideologias cessou, e parece que o nazismo foi a última delas. O quanto basta para demonstrar como a construção degenerou... Talvez muitos tenham concluído que era já a hora de parar. E que essas elaborações metafísicas ou racionais eram uma autêntica calamidade.

A impressão que se tem é que as grandes guerras produziram uma aversão a qualquer tipo de proposta ou ideário mesmo que suavemente reformista supostamente derivado da reflexão. Os conservadores de matriz agostiniano ou luterano tornaram a apontar a razão ou o racionalismo como sendo o vilão... Os resistentes do positivismo editaram mais uma vez o discurso em torno da 'coisa dada'... E todos os demais abraçaram o novo credo iconoclástico e vazio do pós modernismo, alegando que tudo quanto existia ou sobrevivia era o discurso, a narrativa, o imaginário coletivo ou a construção social, enfim a pós verdade...

Em seguida, o dilúvio...

Abriram-se as velhas comportas cerradas há séculos com portas de aço, e desde então, sem concorrência alguma, foram entrando os fios e as ondas do fundamentalismo religioso, espantando para a periferia do mundo.

Na conta do pós modernismo, com sua negação da verdade, seja científica, metafísica ou religiosa, devemos creditar a afirmação e expansão da treva fundamentalista no ocidente, seja ela protestante (Nos EUA e na América) ou islâmica, na Europa. 

Afinal que poderíamos opor nós as falsas verdades alegadas pelos fanáticos de plantão... Narrativas, discursos, versões... kkkk A moeda falsificada só se pode opor com sucesso a moeda verdadeira. 

Por mais que o pós modernismo negue, é fato que o intelecto humano está posto para a verdade, que pugna por ela e que ela apenas o satisfaz. 

Inútil oferecer coisas reformadas para a contemplação do intelecto racional, como intentou o protestantismo. Verdade seja dita quem se deleitaria  com com um sapato, uma camisa, uma moto ou mesmo uma casa reformada, podendo ter uma nova?

Nem mesmo comida requentada ou refeita apreciamos, quanto mais verdades divinas requentadas ou reformadas. 

Tanto pior para nós a ausência ou negação da verdade. Naturalmente que uma bananeira ou um limoeiro não se podem sentir frustrados caso não frutifiquem ou deixem bananas ou lições.

Outro o caso da criatura, ao menos em parte racional e sensível, que desespera de obter algum conhecimento válido e consistente. Negado ao Homo Sapiência o conhecimento, tudo quanto lhe resta é a decepção. Seguida pela frustração, pela angústia e enfim, por vezes, a alienação mental e o suicídio. 

Pois não existe o ser humano para o nada ou o vazio porém para a posse. 

E sua condição não se conforma por completo com a ausência.

A posse de ao menos algumas poucas e elementares verdades certas, válidas, indubitaveis e consistentes é indispensável a sanidade mental e a construção de uma personalidade forte.

Nem é possível constatar se a proliferação das doenças mentais no mundo contemporâneo é um sintoma ou uma das causas dessa calamidade. 

O problema crucial é que a falta da verdade pode produzir compulsão. A ponto da pessoa angustiada aceitar qualquer coisa, aliás duvidosa e infundada. Como mitos religiosos de talhe fetichista, conhecimentos alegadamente reformados ou enfim ensinamentos anti éticos ou mesmo bárbaros.

Não nos surpreende portanto que um cético ou negacionista radical passe facilmente ao extremo oposto i é a aparência de uma verdade totalitária que estimule a intolerância.

Afinal todos sabem muito bem como se comportam, a maioria dos humanos após longo período de fome ou jejum...

A Europa atual, desnutrida e famélica, por conta da brincadeira pós modernista, chegou já a esse ponto... De regastelar na lavagem do fundamentalismo árabe...

Então você já sabe perfeitamente bem o que produziu o avanço e potencial triunfo do califado islâmico na Europa> O pós modernismo, com sua leviana negação da verdade e repúdio ao conhecimento.

Creio porém que ainda haja tempo para fazermos uma arqueologia dos saberes ou regressão da cultura, recuperar nossos fundamentos e por assim dizer 'salvar' este projeto de civilização que ainda se não concretizou.

E é claro que não estou me referindo a protestantismo ou capitalismo, os quais representam o desvio quase inicial e o início da 'crise' porém a nossas raízes clássicas: Socrático/Aristotélica e talvez, ao Cristianismo antigo ou episcopal. 

Reflitamos...

Conheça também os demais artigos da série 'Culturas de morte': 


  • Americanismo
  • Protestantismo
  • Conservadorismo
  • Positivismo
  • Anarquismo
  • Capitalismo
  • Comunismo
  • Fascismo
  • Sionismo 
  • etc







terça-feira, 24 de junho de 2025

Três críticos insuspeitos do Capitalismo - Um artigo que vai te surpreender

Quando mencionamos algum tipo de oposição ao capitalismo, todo e qualquer idiota, pensa, quase que de imediato em Marx, Engels, Lênin e na trupe comunista ou bolchevista e nesse tipo de crítica radical ou iconoclasta.

Parece que a mente vulgar só sabe pensar em termos de dicotomia ou de oposição radical.

E ninguém sabe explorar esse falto dilema como um pastor protestante de quinta categoria.

Se você não aceita o capitalismo é certamente um bolchevista, repetem esses idiotas servidores do 'deus'' milhão ou de Mamom.

E tão idiota é este tipo de gente que atribui ao capitalismo uma existência que remonta aos primórdios da História. 

Por falta de estudos teêm séries dificuldades para imaginar um tempo sem automóveis, aviões, telefones, bicicletas e mercado financeiro...

Mais fácil imaginar um grupo humano sem orelhas ou narizes do que uma sociedade sem mercado financeiro, bolsa de valores, ações, capital, lucro, juros, etc

E se você emite qualquer sinal de dúvidas quanto a essa cosmovisão economicista - Pronto, fica sendo comunista... 

E ficam sendo comunistas os nossos José Bonifácio, Getúlio Vargas, Leonel Brizola, etc além do papa romano Leão XIII e certamente o cardeal Mercier... Dentre outros - Apenas para não sermos mais ridículos.

Compreende-se que por via do individualismo, protestantismo e capitalismo sejam solidários. De fato são elementos quase que indissociáveis em termos de americanismo ou de sifilização norte americana.

É o lixo ideológico que os yankees exportam para todo mundo, juntamente com seus sanduíches insalubres e sua Coca cola...

E se a sórdida Teologia do Domínio canoniza o Destino manifesto ou o imperialismo político, a Teologia da prosperidade santifica as relações capitalistas de produção, apresentando-as como lídima e pura expressão de nossos Evangelhos - Nos quais sem embargo lemos: Não junteis bens neste mundo... pois: É mais fácil uma corda passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. 

Porém, com o adjutório do livre exame: Capaz de transformar a Mãe de Deus numa mulher vulgar, Jesus num mero profeta, a eucaristia num lanchinho ordinário, o espírito imortal numa ilusão, as ícones em ídolos, etc fica nosso Bom Jesus sendo empresário, defensor do capital, apóstolo do lucro, etc - De fato é o livre exame santo que faz portentoso milagre e que converte a igreja num banco, tipo Cristo S\A

Aliás o supremo milagre do protestantismo ou do livre exame é justamente criar 'versões' do 'cristianismo' ao agrado do freguês ou adaptáveis a quaisquer circunstâncias. E se há seitas sabatistas, zwinglianas, calvinistas, unitárias, mortalistas, etc naturalmente que poderia haver, e há - Um bloco capitalista, que justifica ou sacraliza essa expressão do materialismo até a mais abjeta servidão.

Agora por sinal, tendo assumido sua forma pura ou mais refinada o americanismo protestante ou o protestantismo norte americano apresenta já o liberalismo econômico associado ao conservadorismo moral ou ao puritanismo. Isso mesmo, nobre e excelente leitor, inverteu, e subverteu, e perverteu; o protestantismo yankee; toda ordem Cristã postulando uma moral rígida, estreita e formalista (Igualzinha a dos fariseus hipócritas açulados por Jesus!) de origem judaica a uma liberdade ilimitada no campo das relações econômicas e portanto a aniquilação total da Ética Cristã sancionada pelo Evangelho. Ainda aqui o protestantismo sacrifica o autenticamente Cristão pelo judaico e troca primogenitura por lentilhas.

Mostra-se a bela religião calvinista de todo insensível a exploração econômica, fonte de miséria e injustiça - Além de outras tantas calamidades éticas, enquanto apresenta Nosso Senhor Jesus Cristo como fixado em comida, bebida, modos de vestir ou formas de práticas sexo, isto é, como perfeito escriba ou fariseu que coa mosquitos e deixa os elefantes passarem facilmente.

Daí o recurso a fraude, ao engano, a mentira, etc por parte daqueles que estão proibidos de mentir e que deveriam proceder com a mais absoluta lealdade...

E o péssimo costume por nós descrito - De apresentar como comunistas todos aqueles que repudiam o sistema capitalista, inda que em nome do Evangelho e da Tradição milenar da Igreja.

Para os fanáticos e fundamentalistas 'made in EUA' se você não é capitalista é um comunista 'devorador de criancinhas' e ponto...

E no entanto tem esse sistema irracionalista chamado liberalismo econômico uns críticos acima de toda suspeita. 

Irracionalista porque apesar de adotar a racionalidade como princípio operatório (Tendo em vista minimizar os custos e acelerar a produção.) parte de fundamentos irracionalistas.

De fatos o ideais ou objetivos do capitalismo são tão irracionalistas quanto o aumento da população humana, experiências feitas com animais, consumo da carne de mamíferos, orientação mágico fetichista, guerra total, etc 

E quem toca nessa ferida ou melhor dizendo chaga purulenta, é o pensador grego Aristóteles, um dos maiores gênios da humanidade. 

O qual muito antes do capitalismo acenar com a possibilidade de lucro máximo e ilimitado para cada indivíduo (E já são quase oito bilhões.) dizia que num sistema fechado e consequentemente limitado - Ou seja com recursos não renováveis ou limitados. - tais pretensões são aberrantes ou absurdas. 

Num sistema O, relações ----- são impossíveis.

Por sinal a simples tentativa, posta em prática desde a Revolução industrial, conseguiu já levar o planeta e a humanidade - Seja pela explotação de recursos ou pela poluição. - a beira do abismo, em suma da E X T I N Ç Ã O. 

A segunda testemunha que levanta alguma dúvida, ainda que indireta, sobre os fundamentos do capitalismo é um clérigo inglês - Th Malthus o qual, mesmo antes de falarmos em 'exército de reserva', enquanto meio para controlar o valor do salário, apontava os riscos em torno do crescimento populacional, o que é tanto mais válido hoje, tendo em vista a redução do espaço natural e a produção de resíduos.

Tem sido Th Malthus ácida e desonestamente criticado por alguns facínoras por ter circunscrito suas conclusões a produção de alimentos, o que se tem mostrado falho, uma vez que ainda produzimos alimentos suficientes para todo montante da população humana - Todavia, mesmo que no tempo presente o problema da fome possa ser definido em termos não de produção mas de distribuição ou de puro e simples desleixe em termos de planejamento, caso a população humana continue a aumentar descontroladamente ou nas proporções que hoje se dá, chegará dia em que a produção de alimentos num sistema finito (Esgotados todos os recursos do engenho.)dará lugar a insuficiência e a fome.

Todavia não precisamos chegar aos termos finais do quanto foi posto por Malthus em termos de produção de alimento ou de fome. Pois para que consigamos manter o nível da produção alimento temos recorrido tanto aos pesticidas que envenenam a terra, os animais e nós mesmos e, sem apelação, a redução do espaço natural, isto é, a destruição da fauna e da flora.

Por fim a própria existência de tão vultoso número de seres humanos e dos animais necessários para nutri-los constitui por si só um poluição.

Imaginemos por um instante o volume de excreções de todo tipo feitas por humanos, por seus animais de estimação e pelo rebanho destinado a alimentar as duas primeiras populações... Sem mencionar os gazes ou o CO2...

E no entanto para controlar os salários e mante-los baixos (Tendo em vista a maximização dos lucros.) o capitalismo depende de um exército de reserva, definida como mão de obra desempregada ou ociosa.

Eis porque o terceiro sujeito: J S Mill - Partidário da econômica liberal, declarou que tal economia deveria ser estacionária. Denunciando o ritmo acelerado ou descontrolado da produção como perigoso e a ideia de um progresso ilimitado ou indefinido (Relacionado com o ideal ou a mística positivista ) num sistema finito como utópico. Então a própria fórmula já indica de modo bastante claro que o progresso humano deveria ser responsável, em certa medida lento e planejado. De maneira que Mill, por postular limites, acaba rompendo com a Ortodoxia liberal e questionando o dogma da ilimitação.

De minha parte, sem negar o mérito de Engels e Marx (No campo limitado da economia ou da crítica ao modelo capitalista.) considero as objeções dos críticos aqui citados ou dos não comunistas, como muito mais sofisticadas e dignas de consideração. Pois enquanto as críticas elaboradas por comunistas e alguns socialistas digam respeito os meios de produção utilizados pelos capitalistas ou ao processo de produção (Incidindo sobre o salário ou regime assalariado por exemplo.) as críticas levantadas pelos nomes aqui citados, sendo tanto mais genéricas, atingem em cheio os princípios mais elementares e fundamentais do liberalismo econômico.

Importante salientar que ao menos Aristóteles e Malthus ou mesmo Mill, ao contrário dos teóricos comunistas (E esse é o principal problema deles: Soluções tão ruins quanto o problema.) não pretenderam apresentar quaisquer soluções a nível de sistema ou qualquer solução alternativa nos domínios da economia. Há no entanto um bom número delas feitas por: Herr, Blum, Marcel Deat, Henry George, Mercier, Webster, etc e outras tantas sínteses a serem feitas pelo intelecto humano. Para que precisemos permanecer atrelados e presos ao dogma capitalista...





sábado, 23 de setembro de 2023

O pensamento equilibrado de Almeida Garrett no 'Testamento' de Sardinha

 




Abaixo reproduzirei alguns trechos bastante realistas e equilibrados do literato português Almeida Garrett sobre Conservadorismo e Progressismo ou ainda sobre Manutenção e Revolução. Trechos em que nosso homem, surpreendentemente, afasta-se de ambos os extremos, buscando por uma noção equilibrada de fluxo histórico ou buscando acompanhar a História ao invés de paralisa-la ou faze-la avançar.


Fazer a História parar, como querem os conservadores de vária cepa é impossível e nem mesmo as antigas sociedades egípcia e chinesa, que foram as mais estáveis ou o quanto possível conservadoras, lograram esse feito miraculoso. Posto que sendo vivas também elas se transformaram, sob diversos aspectos, nos séculos em que subsistiram. 

Fazer a História avançar, como aspiram os revolucionários e sediciosos até poder ser possível, porém sempre desastroso. Pois após o aparente avanço segue sempre um retrocesso ou recuo ainda mais grave. Semelhante ao movimento do arco descrito por V G Childe - Embora nesses casos seja recuo cego e sem ulterior avanço.

De fato ambos os extremistas> Conservadores e Progressistas, imutabilistas e revolucionários, paralíticos e avancistas; ignoram o que seja acompanhar o ritmo da História. De fato não sabem marchar em seu compasso. E se recusam a seguir o fluxo natural das coisas. Não querem caminhar em comunhão com o processo histórico mas altera-lo artificialmente seja travando-o ou acelerando-o.

Os Conservadores tem dificuldade invencível para compreender que o dinamismo é caráter essencial dos seres vivos em sua marcha evolutiva. Anti cientificistas parte deles permanecem fixados em modelos mitológicos absurdos como o fetichismo criacionista e decorrente fixismo... E fundamentam o erro sobre a ignorância ou a mentira. De fato o conservador nato é o fundamentalista religioso, com sua cosmovisão mágico... Desamparado pelo mito o conservador fica indefeso ou vulnerável diante dos fatos, posto que sendo vivas as sociedades invariavelmente mudam e se há algo de imutável e fixo é a mudança ou o fluxo.

Corpos vivos e sociedades formadas por corpos vivos e mentes não são animais empalhados, cadáveres ou múmias enroladas em faixas. Sociedades não são compostas por pedras ou estátuas mas por seres humanos, seres vivos e animais racionais providos de intelecto ativo. 

Compreende-se que o movimento de mudança seja gradativo, dando-se por meio de rupturas e permanências. Na medida em que as rupturas se vão acumulando acentua-se a diferença. A transformação nem sempre é acelerada ou rápida, todavia não deixa de ser certa. Transformam-se os seres humanos, e as sociedades, por eles formadas, acompanham tal transformação.

Tão insensato querer tudo conservar quanto querer tudo demolir, implacavelmente. Há que se ser crítico aqui. Há coisas que são dignas de ser conservadas, por corresponderem a seus fins, a legítimos fins e coisas há que de modo algum são dignas de serem conservadas, devendo ser destruídas... Parece-me que os direitos do trabalhador e a política protetiva deva ser conservada, como dever ser conservado o ideal de bem estar social correspondente a noção de bem comum. Como parece-me que a isenção concedida as agremiações religiosas que não mantém qualquer rede de serviços sociais e públicos deva ser revogada. 

Parece-me bom que o 'direito' ao duelo ou a licença para matar esposas adúlteras tenham sido canceladas pelo legislador. Como me parece digna de ser mantido o regime público a que chamamos SUS. 

Há portanto instituições e leis que devem ser conservadas - E quanto a elas é dever ser conservador... E instituições que devem ser demolidas e substituídas por outras mais elevadas e condizentes com as circunstâncias - E aqui se deve ser progressista... Adotar as divisas de conservador ou de progressistas como absolutas é verdadeira idiotice. Como é pura bobagem ser Revolucionário e contra Revolucionário, ao menos de modo geral - E tornamos ao genial Berdiaeff em oposição ao energúmeno Donoso Cortes papa dos contra revolucionários.

As vezes se pode apoiar alguma Revolução - Pois alguns ideais são dignos de serem apoiados e o problema das Revoluções é sempre o meio ou método. De modo geral melhor manter-se alheio a elas, embora não completamente alheio quanto a seus fins ou ideais. Problema das revoluções é a mística da violência, a qual atribuem a capacidade mágica de alterar radicalmente as coisas. E é ridículo, pois as grandes e relevantes transformações se produzem por meio da mudança de consciência, único meio porque se atinge a cultura e a realidade. 

Tanto pior ser contra revolucionário ou se opor a um evento inevitável (A Revolução é o que o sintoma é para um corpo enfermo - Berdiaeff) devido a incúria dos cidadãos. Deveriam ser as Revoluções evitadas institucionalmente por meio de reformas que adequassem as leis a realidade - Não sendo assim serão sempre fatais... Correspondem assim ao resultado se um pecado social ou comum, que deve ser suportado por todos com docilidade e paciência. A Revolução, quando virulenta, dever ser sofrida ou recebida como espécie de penitência, jamais combatida com armas como querem os demagogos.

Unicamente tem direito de critica-la os que buscaram sinceramente evita-las e esses quase nunca são os conservadores obstinados.

Quanto a violência ou a sedição já disse que esgotados os meios institucionais e sendo a situação insuportável, é perfeitamente legítima, tal e qual a guerra justa em caso de agressão. Apenas não se deve crer que a violência ou a sedição trarão alterações radicais ao corpo social. Caso erradiquem ou suprimam determinada situação de injustiça a violência cumpriu com sua finalidade - Mesmo porque constituindo sempre meio e jamais fim em si mesma, a violência, ou seu emprego jamais poderá ser condenada 'in totum' ou abstratamente. A violência sempre deverá ser considerada com relação a seus fins, portanto caso os fins sejam nobre também seu emprego será nobre - Claro que devemos excluir o campo da religião ou da fé, o qual segundo a Lei do Evangelho não admite o emprego da violência mas o da persuasão das liberdades. 

Observamos ainda que o emprego da violência jamais deve corresponder ao ataque ou a agressão mas sempre uma resposta a algum tipo de agressão como uma situação de injustiça. 

Feito tal prólogo passemos as doutas reflexões de Garrett:

"É a missão das Revoluções destruir: É uma lei, e de precisão eterna, a periodicidade desses cometas do sistema social: Jamais edificam ou constroem, criam ou reformam. Porém é a Sociedade imortal e as leis e condições elementares de sua existência perpétuas, assim, mais cedo ou mais tarde, das ruínas necessárias de uma Revolução, ressurgem os princípios insdestrutíveis para remodelar o que é essencial a vida de cada grupo humano, segundo seu modo de ser." Sardinha - 1942 p 88

"Sou eu retrógrado cronologicamente e não metafisicamente. Talvez que os senhores responsáveis pela Revolução não o compreendam... Mas assim sou, cronologicamente retrógrado. Pois aqueles que tudo deslocaram no nosso Portugal fizeram-no por mover EXTEMPORÂNEO E ANTECIPADO, destarte desejo eu retrogradar o país ao justo e razoável ponto em que deveriam te-lo deixado. Não o faço metafisicamente, porque tudo quanto sem grave risco e perigo podemos fazer avançar não ponho limites ao avanço." Id p 82

"Não venha o funesto sofisma que é o medo do passado impedir-nos de resgatar o quanto havia de bom, justo e livre - E que era muito. - nas instituições de nossos ancestrais." Id p 103

"Devemos confessar que neste ponto ao menos, era o antigo regime menos arbitrário do que o nosso, o qual, diante da Liberdade das tábuas da Lei que pusemos sobre um altar, estamos sacrilegamente imolando ao um bezerro de ouro dos nossos interesses e paixões. NÃO VALE A PENA SAIR DO EGITO PARA ISSO E ANTES VAGAR TANTOS E TANTOS ANOS PELO DESERTO, E PASSAR PELO MAR VERMEHO DE TÃO SANGRENTAS GUERRAS CÍVIS." Id p 106

Ocorre-me aqui o triste exemplo da ex URSS com seu despotismo totalitário e sua posterior desagregação - Tão copioso Mar de Sangue para isso: Expurgos de Stalin e retomada do modelo capitalista numa intensidade ainda maior...

Também se me ocorreu a Reversão da Revolução francesa após a fase Robespierriana cheia de promessas e conquistas - Desde então a França se foi reacomodando até a subida de Napoleão e a ascenção de outros régios potentados... Até cair nos tentáculos do Mercado, conforme o modelo de Albion... Tanta efusão de sangue para isso...

Poderia mencionar ainda a inacabável Revolução mexicana, com seus quarenta ou cinquenta anos de curso e decorrentes misérias - Para terminar no Nafta, em plena comunhão com o mesmo país que despojou-o do Texas e da Califórnia...

Certo é que as Revoluções sangrentas ou draconianas revertem sempre, a menos que conduzam a nova sociedade a um poder absoluto que prolongue o espetáculo terrificante. Não são - As Revoluções. - sólidas ou consolidadas porque ficam sempre na superfície da cultura, uma vez que não produzem consciência por meio da educação\formação. No fundo as Revoluções são sempre frágeis e seu legado discutível.

Tornemos porém a sabedoria de Garrett: 

"As nossas antigas colônias tinham um sistema de legislação antiga, obra dos séculos, e só as ordenações dos reis S Manuel e D Sebastião para a Índia tinham quase tanto a se estudar quanto as nossas Ordenações do reino... As legislações da primeira ditadura aplicaram indistintamente a todos aqueles países, tão diversos dos nossos, tão diversos entre si, o mesmo sistema de administração e regimento que já para nós mesmos era inconsiderado...

Veio a segunda ditadura, e remediou em grande parte os males da primeira, retrogradou (Como devia) a muito dos antigos métodos especiais e da legislação local daquelas terras. Mas todo esse direito anda por cá flutuante e vago; como não o há de ser por lá. Que fatal não pode ser aqueles estabelecimentos, cujo estado é já tão tomentoso, que fatal lhes não será que agora se lhes apareça por lá um novo regime e sistema que amanhã declararemos nulo e revogaremos. Que será se o governo ido nesta monção começar a estabelecer o regimento da província... e na próxima lá aportar outra com outro sistema e outras instruções..."

Alude aqui as sucessivas mudanças efetuadas na legislação por sucessivos plataformas e partidos por pura e simples questão de Ideologia, e inclusive as anulações ou revogações de leis que vigoraram em determinados governações.

Pois se é certo que mudanças sejam sancionadas é inconveniente e perigoso que hajam continuas idas e vindas - O que amiúde sucede quando após a governação de uma plataforma progressiva ou equilibrada, aparecem os sinistros conservadores querendo, a força de princípios ou (Que é infinitamente pior!) de livros religiosos ou bíblias, restringir as liberdades conquistadas pelos cidadãos e fazer a sociedade retroagir. Não há atitude mais danosa e desgastante para a legítima autoridade que essas idas e voltas. Por vezes é lícito ou melhor necessário, retroagir - Não sempre ou constantemente. 

Podemos portanto aquilatar o dano produzido pelo governo anterior ao tentar, quase por força de baionetas, fazer recuar nossa legislação ambiental apenas para agradar uns mineradores e fazendeiros i é a particulares. Digo o mesmo sobre os murmúrios em torno da Lei Maria da Penha ou da Lei menino Bernardo, as quais os tarados religiosos e fanáticos, aspiravam tornar mais lassas ou revogar em nome de seu deus. Isso sem falar na constante maquinação em torno da Legislação trabalhista destinada a proteger o trabalhador contra os desmandos dos que detém o poder econômico e arbitrário.

Bem se vê que o que é conservador aos próprios não o é a olhos alheios e que tudo isso é muito relativo. Dirá o leitor que eram reacionários... Tenho por reacionários os que tomam por modelo um passado muito distante, seja ele antigo ou medieval. Esses que aspiram revogar certar Leis progressistas também aspiram revogar outras leis, que como as trabalhistas, inspiram-se em modelos muito antigos, tenho-os em conta de meio conservadores e meio progressistas - É essa inversão de Garrett ou monstruosidade iniqua do tempo: Conservador nas tais moralidades ou em política e ultra liberal em economia, quando, ao menos entre os Cristãos apostólicos e classicistas se deveria dar o extremo oposto: Conservador ou melhor reacionário em economia e ultra liberal e política ou mesmo em moralidades. Bem se vê que eles adotam o modelo Norte americano ou americanista com sua com sua cultura moralista economicista...

É um conjunto incoerente, amorfo e utópico esse do conservadorismo moral associado ao liberalismo religioso que clama por ilimitação absoluta. Posto que o impulso inicial do progressismo ou da dissolução da sociedade antiga partiu justamente do liberalismo econômico e este da reforma protestante. Temos ai a nova fé e o capitalismo iniciando a demolição do modelo antigo e do antigo regime. Como agora querem os livre examinadores que questionavam a Trindade divina, a Encarnação, a Imortalidade, a presença real, etc pousar de defensores de uma moralidadesinha imutável e absoluta... E mancomunados com o sistema econômico que esfacelou a família, após, com falsas promessas, remove-la do campo. 

E continuam esses conservadores, ignorantes ou hipócritas, a propor esse modelo esdruxulo em que entram uma economia que instila e exige mudanças radicais e uma moralidade tosca de múmias e cadáveres associada a um governo paralitico ou a uma política de aparência, que se confunde com uma polícia destinada a manter as diferenças a golpe de baionetas. Afinal esse Estado só é mínimo mesmo para quem precisa, o pobre, o trabalhador ou o cidadão comum. Depois de ter montado nos ombros do rei e lhe atribuído poderes absolutos CONTRA TODA TRADIÇÃO ANTIGA E CRISTÃ, o poder econômico, consolidado, clama por um Estado de enfeite, que o permita oprimir e dominar 'livremente'.

Tornemos porém a Garrett 

"Não contentes de revolver até os fundamentos a pátria desgraça  com inovações incoerentes, repugnantes umas as outras e sobretudo absurdas, sem consultar nossos usos, nossas práticasm nenhuma razão de conveniência, foram atirar com todo esse montão de absurdos para além mar, onde desatinos se tornaram dobrados e se multiplicaram ao infinito pela variedade de obstáculos, repugnâncias, impraticabilidades...

E o mesmo se há de suceder se loucamente nos pusermos a legislar para aquelas remotas regiões, querendo doutrinariamente forçar localidades, circunstâncias, hábitos, modos de ser que ignoramosm a entrar a martelo dentro dos quadros arbitrários, que nossas teorias cá decretam, como se fossemos nós o Criador que disse: Faça-se! Como se pudéramos nós, mesquinhas criaturas, fazer mais do que reconhecer os fatos como eles são, e modifica-los apenas até onde possam ir..."
Id p 79

Lembram tais palavras as de John Gray na 'Anatomia' por sua elevada sabedoria e alto realismo, de que muitas vezes se esquecem os democratas demasiado abstratos ou formalistas, e sobretudo os jacobinos. E tem certo paladar conservador, posto que não se pode torcer por completo uma estrutura social a golpes de martelo ou altera-la sem levar em conta o Estado precedente.

Quero dizer com isso que o liberalismo político e a democracia, não apenas podem como devem, até onde possível seja, adequar-se as diversas culturas e estruturas sociais. Noutras palavras, que não se pode pegar um modelo francês, inglês ou Norte americano e impo-lo a quaisquer outras sociedades; e a sabedoria popular proclama: Era de outro o paletó do defunto...

Tal como roupas e corpos não é possível tomar o sistema democrático de qualquer país e impo-lo em bloco a um outro...

Serão politicamente liberais ou democráticos quanto a essencialidade, porém a seu modo ou do seu jeito.

E se copiar o modelo francês foi equivocado, imitar o inglês ou Norte americano é desastroso.

Alias o liberalismo político e um laicismo não anti clerical jamais alterariam radicalmente quaisquer culturas - O que não se pode dizer da economia de Mercado ou da mudança religiosa, os quais tendem a altera-las ou melhor a introduzir determinado modelo de cultura e a afirmar - Por afinidade eletiva. - um imperialismo cultural. É exatamente por isso que a democracia meramente formal e sobretudo o protestantismo tendem a promover o liberalismo crasso ou o ethos economicista e a reproduzir a pseudo cultura norte americana noutros espaços.

Outra lição preciosa aqui embutida é que a democracia e liberalismo político equivalem sempre a assunção interna ou a evolução de uma dada Sociedade. Diríamos que o espírito democrático é fruto de uma sociedade madura e cultivada ou que corresponde a um caminho percorrido. Implica admitir que cada grupo ou sociedade deve atingir por si só i é por meio da educação ou da cultura esse estado de consciência. Enfim que a vida democrática é resultado de um processo interno. 

O que nos conduz a lição final - Que a democracia, supondo um espírito, jamais pode ser imposta externamente a qualquer sociedade. Que o liberalismo não pode ser dado ou comunicado por meio de uma guerra ou invasão. Que as instituições livres não podem ser levadas ou transferidas, e que o jacobinismo - Francês ou Norte americano - estão redondamente equivocados > A democracia jamais procede de fora. A ideia pode até vir e vem, de fora, porém o sentido de excelência ou de necessidade e enfim a aspiração, deve sempre vir de dentro. Um povo qualquer deve desejar a liberdade e desejar inclusive morrer por ela...

Foi semelhante desejo que fez os atenienses resistirem aos persas e vencerem em Maratona e Salamina.

Recorro enfim aos exemplos arrolados por Gray - Os diversos grupos étnicos e culturas africanas que se atacaram mutuamente e mataram uns aos outros após a supressão do domínio colonialista (Tutsis e Hutus.) ou ainda as seitas religiosas muçulmanas... Com o objetivo de certificar que a autonomia democrática não pode ser conferida por decreto a todas as sociedades humanas sem que estejam a altura desse ideal. Do contrário poderia ser como uma faca entregue a uma criança. Melhor seria para certas culturas de certos locais que mantivessem seus próprios regimes.

O revolucionarismo jacobino N Americano é tão patético quanto os modelos comunista e anarquista e não nos deixemos enganar, tudo quanto os norte americanos aspiram é levar sua cultura 'in totum' a outros lugares, neste sentido não são melhores que os muçulmanos com seu imperialismo árabe. É tudo o imperialismo ou farinha do mesmo saco. A nós, a parte de um liberalismo político suficiente ou de uma democracia básica, convém permanecer leais a nossa cultura - No caso latina, ibérica ou brasileira e diante disso repudiar o liberalismo político ou o capitalismo como elemento exógeno ou importado.

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Revolução, violência, razão e Cristianismo.

Poucos temas há, tão polêmicos quanto o tema da violência.

Tema em que se vai da rejeição absoluta ou do pacifismo crasso a aceitação absoluta assim ao odinismo, entre os quais há toda uma série de gradações.

No Evangelho damos ora com Jesus Cristo mandando Pedro embainhar sua espada ora com o próprio Jesus expulsando os fariseus do tempo com um chicote. 

Textos que tem dado o que falar e sido empregados por pacifistas como Tolstoi e por odinistas como Sorel.

De modo geral a Igreja Antiga ou dos padres, ao menos no plano da fé, repudiou decididamente o apoio da força ou da violência. Outro o caso das relações pessoais, onde predominou igualmente o pacifismo, alias crasso. E por fim outro o caso das relações sociais, havendo cristãos pacifistas, cristãos revolucionários e cristãos equilibrados ou partidários do emprego a violência circunstancial ou contida.

Agora por que o mesmo Jesus que empunha o chicote aqui repreende Pedro acolá, mormente quando ele Pedro exercita a defesa enquanto que ele Jesus ataca?

Há quem diga, equivocadamente, que Jesus aqui procede como Deus enquanto que Pedro ali procede como mero homem. Não aprecio todavia esse tipo de interpretação, a qual me sabe a monofisita. Evidentemente que quando perdoa Jesus os pecadores sabemos que tal ação tem seu motor primário na natureza eterna e divina. Agora quando exerce certa violência ou força contra os mercadores sacrílegos não temos como saber com exatidão qual seja o motor primário ou mais remoto de tal atitude. 

Direi então que o motor mais provável dessa ação Cristológica executada pela natureza humana seja a natureza divina, embora não possamos demonstra-la. 

Todavia meu ponto de vista e bem outro e consiste em distinguir que faz Jesus do que faz Pedro. Pois Pedro empunha uma espada que fere e mata. Enquanto Jesus emprega um feixe de cordas (Ev de João 2,15).

Insistirei resolutamente quanto a esta distinção, a ponto de apresenta-la como fundamental: Pedro não empunha um feixe de cordas e Jesus não utiliza uma espada. Pois os partidários de que a violência é sancionada por Deus quanto as coisas profanas costumam alegar que dá no mesmo Jesus ter empregado uma feixe de cordas ou chicote, uma espada, uma lança, uma metralhadora ou uma bomba. Advirto porém que o texto em questão não diz respeito ao emprego da violência no plano social, e sim ao suposto emprego da violência no plano religioso ou da fé, o que acaba por chocar-se contra o conjunto dos ensinamentos de Jesus. O qual a um tempo condenou radicalmente o emprego da violência no plano do ideal e a outro jamais imiscuiu-se em questões formais de sociologia ou política, as quais são indiferentes ao Evangelho.

Ora, justamente por tal narrativa estar vinculada a piedade religiosa não cabe recurso a violência ou mesmo a força. 

Segundo a narrativa sumária de S Mateus Jesus expulsou ou teria expulsado os vendedores, derrubando suas mesas e cadeiras. Agora como fez isto? Onde Mateus silencia S João completa: Valeu-se dum feixe de cordas a guiza de chicote. Donde concluem alguns que teria batido nos cambistas. A narrativa todavia indica que com o chicote espantou os animais que ali se achavam. De que resultou terem as mesas, cadeiras e moedas caído pelo chão (Outras foram derrubadas pelo próprio Jesus) e a fuga de ao menos alguns mercadores devido a surpresa e ao pavor, afinal aquele tipo de ataque era algo atípico e inesperado. 

Teria o Senhor ao menos batido nos animais que ali se achavam com o objetivo de espanta-los?

Também isto tenho por demasiado improvável.

É coisa a respeito de que a letra do Evangelho igualmente silencia e o Redentor sempre poderia ter feito girar e zunir aquele chicote com cordas, bem como bater com ele no chão e nas mesas e cadeiras para assustar os animais po-los em fuga e causar todo aquele tumulto assombroso.

Nada no Evangelho impõem a crença ou ensinamento de que chicoteou Jesus os pobres animais e menos ainda que tenha surrado a sacerdotes e cambistas, e isto sempre será ultrapassar a letra, profanar a divina Revelação e simplificar as coisas.

Nem pode aquilo que sequer se equipara a um chicote ser equiparado a lanças, espadas, machados, revólveres, metralhas e bombas... E apenas alguns cérebros doentios poderiam concebe-lo. Ademais o quanto teríamos aqui seria a aprovação quanto ao emprego da violência no âmbito da fé ou da religião. Sendo assim por que os primeiros Cristãos não partiram para o ataque e conquistaram o império romano recorrendo a guerra e a espada? Deixando-se inclusive condenar injustamente sem esboçar resistência? Acaso não compreenderam o sentido 'oculto' do Evangelho?

Admitia essa versão nada teríamos em Jesus além de um outro Moisés ou Maomé, alias, neste caso Zwinglio e Calvino o teriam compreendido melhor do que quaisquer outros. Tal a versão odinista do Jesus fascista e do Jesus fascista uma vez que os Comunistas ao menos não se importam com ele a ponto de distorcer seu caráter e ensinamentos.

Implica essa constatação admitir que o emprego da violência quanto as relações sociais e políticas não é norteado pela Lei religiosa e ética de Jesus Cristo - A qual obviamente remove-o das relações ou do convívio pessoal. - mas pela experiencialidade e sobretudo pela reflexão. 

Apesar disso há algo desse espírito evangélico que se estande remotamente as relações sociais, como que a guiza de inspiração. Trata-se aqui da condenação do primeiro motor do odinismo ou daqueles que estimulam a agressividade e a conquista associadas a violência. Então a violência para ser lícita deve romper com o paradigma anti Cristão da belicosidade ou da conquista. E circunscrever-se a esfera da defesa. O uso político e social da violência na perspectiva Cristã estará sempre a serviço da defesa, jamais da agressão ou da conquista.

Não pode portanto a violência, no sentido Cristão, servir ao assim chamado imperialismo seja qual for ele.

Tal a única baliza ou exigência ética.

Para além disto temos de conceder que é a violência um fenômeno tão instrumental quanto a estrutura política formal de nossa democracia. O qual por isso mesmo deve servir a algum propósito ideal ou ético. Quero dizer que a violência não pode ser avaliada em si mesma como algo bom (Como fazem os odinistas) ou mau (Como faz o pacifismo crasso.) mas sim quanto a seu fim ou objetivo. Então a pergunta a ser feita é se esse fenômeno pode estar a serviço de algo digno como o bem, a justiça ou a virtude, ainda que circunstancialmente.

Pois não pensamos como os revolucionários i é em acionar qualquer gatilho social por meio dela e assim criar novo homem ou nova humanidade. Eis o que não se pode ou deve esperar da violência, engendrando veleidades místicas. Podemos dizer sim a violência, mas não a sua mística. Não posso ver como a violência em si mesma ou mesmo enquanto meio possa entusiasmar o homem reflexivo.

Nem entusiasmar nem demonizar mas apenas avaliar até que medida podemos usa-la vinculando-a a uma boa causa.

Claro que ao utilizarmos a violência em benefício das crianças, dos idosos, das mulheres, dos deficientes, dos injustiçados, da natureza, etc estaremos fazendo um bom uso dela. 

Importa saber que a violência precisa ser administrada pela razão e assim sempre planejada, contida, limitada, etc 

Nem podemos conceber (Ao modo dos odinistas) a violência ou a força física como as diversas culturas de morte afirmam o mercado, a fé, a política, a ciência, etc i é como algo fora do controle da ética ou acima dela. Simples assim: A estância da Ética deve predominar em todos os setores da existência humana. Daí não estarmos de acordo com um uso irracionalista, cego ou voluntarista da violência.

Ao contrário dos Revolucionários, que imaginam a violência como gatilho ou motor primário da mudança, o quanto pretendemos é usa-la em algumas situações sociais circunstanciais, apenas com o objetivo de substituir umas pessoas por outras, assim as más, egoístas e injustas por outras que sejam éticas e tanto mais dignas. Não pretendemos tocar as estruturas, crendo que tenham elas seu fluxo, e que virão a ser alteradas pelas pessoas dignas e conscientes através dos meios educativos, políticos e sociais. Nós acreditamos na evolução orgânica das estruturas ou em sua transformação interna através do acúmulo de reformas acionadas pela formação ética dos cidadãos. É coisa de cultura não de murros, pontapés e bombas.

É por isso mesmo que não atribuímos as situações de violências, guerras, batalhas e conflitos a solução de todos os nossos problemas. Pois de fato nada resolverão. Limitando-se a criar novas possibilidades de ação, conforme delas resulte a troca dos quadros. É recurso destinado a arejar as estruturas e não passe de mágica que as altere radicalmente e a partir delas a sociedade como um todo. Toda essa mecânica social imaginada pelos metafísicos anarquistas, comunistas, nazistas, fascistas, etc é furada e assim as idéias de revolução e contra revolução.

Continua











segunda-feira, 2 de março de 2020

Nótulas sobre o pensamento atual

- Resta declarar, quanto ao século XIX, que há muita coisa boa: Maine de Biran, Damiron, Jouffroy, Victor Cousin, Mme De Stael, e muita coisa excelente: F A Trendelemburg, Franz Brentano, R Eucken, Dilthey, Nartorp, Brochard, Windelband, H Rickert, Deat, Zeller, Mauss, Simmel, Weber, L Bloy, Pe Thiago Sinibaldi, o próprio Lênin (Nos domínios da gnoseologia cf "Materialismo e empiro criticismo"),etc a par de muita porcaria, como os já citados Fichte, Schelling, Feuerbach, Stirner, Nietzsche, Mach, Avenarius, Guyau, etc O século seguinte (XX) escolheu e valorizou o que havia de pior e mergulhou de cabeça no irracionalismo, digo, no absurdo nihilista.

Tivemos ainda alguma coisa boa - M Buber, M Scheler, Berdiaeff, Maritain, Sciacca, Mondolfo, Mounier, K Jaspers, G Marcel, Dawson, Butterfield, Voeglin, etc Todavia, de modo geral, predominou a herança irracionalista ou anti metafísica alardeada por Kant e o kantismo conheceu o status de dogma. Após Kant reinaram Marinetti, Gattari, Deleuze, Foulcault, Barthés, Lyotard, Baudrillard, todos herdeiros de F Nietzsche, para o qual há apenas discurso, jamais verdade. E a Filosofia, que a partir dos positivistas tornara-se analítica, converteu-se agora em exercício de hermenêutica ou em Semiótica ou semiologia com Pierce e Saussure. A busca agora é pelo significado, não pela realidade concreta ou pela verdade. Após a fé, razão e percepção foram postas de lado, restando apenas o nada ou o vácuo absoluto. O pós modernismo ou o irracionalismo retirou-nos tudo e não ofereceu coisa alguma em troca, pois ele sequer ousa afirmar-se como verdade, a exemplo de seu irmão gêmeo, o ceticismo.

- Dentre os principais teóricos irracionalistas temos:
Jacobi, Goethe, Fichte, Schelling, Stirner, Nietzsche, Wallas, MacDougall, Bergson, Heiddeger, Sartre... além dos pós modernistas acima citados, os quais em sua maioria são céticos. Os demais tomaram por critério o sentimento, a vontade, o ego, o inconsciente, a intuição, além é claro da fé, critério como vimos já adotado por Montaigne.

- Firmado nos EUA o pós modernismo tratou logo de forjar um vocabulário próprio: Lugar de fala, apropriação cultural, etc invadindo é claro as esferas da História e da Sociologia e arrebatando a esquerda fanfarram ou carnavalesca, especialmente no Brasil, onde até os Comunistas abandonaram o sóbrio realismo gnoseológico de Lênin e aderiram a moda. Claro que os pivôs ou as pontas de lança desta corrente espúria foram os anarquistas, os quais do plano político - Onde tinham alguma razão de ser - passaram ao Filosófico ou gnoseológico, criando - A partir de Fayerabend - o anarquismo epistemológico ou gnoseológico. Segundo esta corrente ideológica ou metafísica todos estavam errados desde Descartes, inclusive Comte, e Marx e sobretudo o velho Aristóteles... Nada de Método experiencial, de Lógica ou de Dialética, pois o conhecimento dispensa quaisquer métodos.

- Ao refugo acima esta ligado o relativismo, seja epistemológico ou cultural, e os pós modernistas fazem grande bulha a respeito disto. Quanto ao primeiro sentido querem dizer que tudo é verdade, pelo que não existe verdade ou erro que se lhe oponha. Se as verdades são todas relativas não pode haver qualquer verdade absoluta... Assim pensam eles. E sendo tudo mera produção subjetiva da consciência nada há de objetivo. Forjamos nossas experiências, como forjamos nossa lógica e produzimos o que chamamos de conhecimento objetivo, projetando-o nos objetos. Tudo no entanto é produto nosso - Da imaginação, da fantasia, do inconsciente, do ego... E vivemos apenas de ilusões ou aparências.

No plano da cultura isto significa que o próprio conceito de progresso ou evolução histórica, social e cultural é falacioso. A contrapartida é simples: Não há cultura melhor ou pior, superior ou inferior, mais ou menos evoluída... Todas são absolutamente iguais, dos Bosquimanos e Ianomamis a Grécia antiga ou a França do século XVII, passando pela Suméria, pela Índia e pela China antigas. Nada é melhor ou mais valioso e se você ousar discordar deles gritarão dizendo que és racista, posto que confundem maliciosamente o conceito de cultura com o de raça ou etnia. No momento seguinte, caso o amigo leitor ouse afirmar que entre a cultura do antigo israel e a cultura assirio/babilônica vai um abismo ou que a cultura clássica produzida na hélade é superior a qualquer coisa produzida na floresta herciniana de então, classificar-lhe-ão como fascista... E por força de rotular seus opositores, os dogmatizadores do pós modernismo vão espalhando o terror aqui e ali. Se você discorda quanto a teoria monstruosa e grotesca do relativismo cultural eles te impõem o ferrete de racista ou fascista... E com que sanha.

- Aos poucos tais aberrações, já dizia R Barthés, vão destruindo um projeto educativo multi secular e impregnando nossa vida cultural, desde o nível superior ao fundamental, posto que penetram o currículo e impõem a versão do igualitarismo cultural absoluto ou do relativismo cultural. No Brasil a moda consiste não em apresentar nossos diversos núcleos de cultura como uma amalgama - muitas vezes sincrética - de elementos indígenas, africanos e europeus, de informar objetivamente sobre as culturas ameríndia e africana. Não nos opomos ao estudo da cultura indígena pré cabralina ou da História africana. É benefício conhecer a pluralidade das culturas justamente para poder julgar livremente seu processo formativo, ao invés de repetir-se automaticamente dogmas pós modernistas... Não somos contra a presença destes estudos e culturas no currículo, mas sim contra a forma - relativista - como tais conteúdos são apresentados. Temos o direito de discordar e de assumir uma perspectiva evolutiva ou progressivista, avaliando as diversas culturas a partir de determinados critérios e julgando que umas são mais avançadas ou melhores do que outras. Importa saber onde surgiram a Filosofia ou a Ciência ou onde foram concebidas e produzidas determinadas regras em torno das artes ou ainda determinada normatividade Ética... Onde o teatro veio a luz ou o direito foi sistematizado... Se tudo isto é irrelevante ou deve ser desconsiderado admito nada ter compreendido em termos de História... O próprio comunismo e mesmo o anarquismo surgiram num contesto histórico e social bem definido, não em outro...

Apesar disto os profetas do pós modernismo amam viver entre nós, em meio a nossa Civilização tóxica (A qual afetam odiar) e mais particularmente ainda amam pontificar nas cátedras da Sorbonna ou de Oxford, receber comendas, medalhas, menções honrosas, 'honoris causa', etc Caso aconselhe-mo-los a trocar o terno ou o paletó por uma tanga e banquetear-se com larvas no meio da floresta, viram a tromba e recebem tal conselho como tipo de insulto. Eles que vivem publicando as glórias das culturas tribais sejam africanas ou ameríndias... Mas viver estas culturas e assumi-las verdadeiramente não querem, e vivem longe da 'praxis'... Limitam-se a forjar um discurso pomposo destinado a agradar a opinião pública. Caso acreditassem no que ensinam teriam abandonado a muito o padrão cultural que tanto criticam e se exilado nos desertos, campos e florestas, distantes das grandes metrópoles... Não é o que se observa ou vê. De minha parte tendo e desconfiar daqueles que não vivem seus próprios ensinamentos...

Como T S Elliot e Eric Voeglin, dentre outros, deploro não apenas o anarquismo epistemológico quanto o relativismo cultural, elementos pertencentes a mesma salada ou sopa pós modernista e indigesta.

- Não temos pensamento atual mas quase que total ausência de pesamento. Por isso estamos em crise e a merce de tantos fundamentalismo religiosos. Ao destruírem nossa confiança na percepção e na razão os pós modernistas desarmaram-nos face aos sectarismos e extremismos religiosos. Abriram um alçapão e os homens caíram no abismo da fé cega. Urge reabilitar imediatamente a razão e a percepção, assim a boa Filosofia, com metafísica e a uma Ciência que não seja cientificista.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

A bíblia ou o biblismo como obstáculo histórico a construção do conhecimento científico.

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Absolutamente comum ouvir alguém declarar que aqueles que admitem qualquer tipo de principio superior ao mundo material não são aptos para cultivar um espírito científico ou fazer ciência.

Os positivistas ou cientificistas amargurados adoram emitir semelhantes tipos de juízo, em que pese um Planck, um Albert Einstein ou um Fermi... Os quais fizeram verdadeira ciência sem necessidade de metafísica materialista ou o que é pior, ateística.

Outra coisa, bem distinta, é dizer que muito dificilmente se poderia conciliar o espírito fetichista presente nas páginas do Antigo Testamento, bem como seu aparato mitológico, com a prática da ciência. Aqui a afirmação parece ser mais consistente e merecer uma análise detalhada. O verdadeiro adversário da ciência não é uma Energia cósmica ou um Ente de razão mas um livro ou a leitura de um livro - A bíblia, o antigo testamento, o biblismo, o fundamentalismo, um tipo de leitura da bíblia...

Absolutamente inútil os sectários protestantes ou bíblicos apresentarem, como alias folgam apresentar, estampas ou figurinhas com os semblantes de Galileu, Kepler, Descartes, Newton, Faraday, Maxwell e outros grandes cientistas do passado, com o objetivo de demonstrar que é perfeitamente possível ser protestante, bíblico, fanático e, cientista. Isto pelo simples fato de que todos estes honoráveis senhores - Honestamente religiosos! - floresceram antes de Ch Darwin, não depois dele ou de Einstein... Marque isto - A lista de cientistas religiosos, em tese partidários da bíblia, como da astrologia, não vai além da segunda metade do século XX.

De minha parte não vejo problema algum em tais homens terem endossado a narrativa bíblica ou a criação mágica das espécies em separado, pelo simples fato de terem vivido do antes do século XIX e da afirmação cabal de um padrão naturalista. Aqui foram homens de seu tempo, uma vez que o homem moderno abstrato jamais existiu. Linné pode ser genial, e biólogo, e etc porque viveu antes deste divisor de águas que é o paradigma da evolução biológica, o qual continua sendo paradigma, mesmo que Darwin não seja infalível ou tenha cometido imprecisões. O que não anula o conjunto de seu trabalho, imperecível. No entanto vivesse após Darwin, Linné, mas do que ninguém, em vista de seu conhecimento, teria aderido ao evolucionismo. Não aderiu a ele Agassiz, pelo simples fato de viver nos E U A, e isto já diz tudo!

Após Darwin e Einstein quantos cientistas podem eles, os bíblicos, apontar, que tenham apoiado a bíblia, criacionismo ou a inspiração plenária, com todo seu aparato mitológico? Pode ser que um ou dois, dentre centenas ou milhares de cientistas, se afirmem como protestantes como filhos da cultura ou amantes do Evangelho. O que não significa muita coisa... Uma vez que bem podem ter sido liberais face a doutrina da inspiração plenária ou da judaização, e assim naturalistas quanto ao mundo natural e evolucionistas, a exemplo dos que adicionam a direção divina ao processo. Certamente tais homens criam em Deus, e em Cristo, e no Batismo, e na Eucaristia, etc... Criam no entanto na letra do Gênesis ou na mitologia judaica? Era fetichistas??? Aqui fica a pergunta e eu pago para ver. Não não creio que alguns possíveis cientistas protestantes sejam geo centristas, terraplanistas ou criacionistas...

Em termos de século XX ou XXI o protestantismo ortodoxo, bíblico ou criacionista é absolutamente estéril e incompatível com qualquer forma de conhecimento científico relevante. E temos aqui um conflito se resolução - Posto que a ciência é já naturalista e uniformitária enquanto que o Gênesis, fruto de seu tempo, é mitológico ou fetichista, supondo sucessivas intervenções da parte do Sagrado. Os bíblicos cá venham e citem os nomes dos grandes cientistas criacionistas ou bíblicos posteriores a Darwin ou a Einstein e compendiem suas descobertas! Os pensadores, sejam ou não cientistas bem podem colocar o Numinoso antes do início do processo, como elemento desencadeador ou como mantenedor de todo processo, não como interventor... Intervenções no decorrer do processo é justamente o que a ciência descarta.

Não nos iludamos, o cerne ou âmago do problema é o padrão mágico fetichista cristalizado no Criacionismo... Não diz respeito se Deus existe ou não mas a respeito de como atuou ele, se sicut experiência ou ciência, fixando e gerenciando uma Lei natural ou sicut 'escritura' ou seja interferindo caprichosamente e seguindo uma ordem totalmente absurda.

O protestantismo bíblico ou Ortodoxo chafurda justamente no pântano do Criacionismo, adotando este padrão mágico fetichista. Em termos de ciência esta solução pode até ter sido possível até Darwin. Não após Darwin, Wallace, De Vries, Weismann, Dobzhansky, Mayr, etc

A questão não é Deus, uma direção inteligente, um sentido, uma fé esclarecida, religiosidade, espiritualidade... Wallace jamais questionou tudo isto, enquanto Dobzhansky era religioso ou crente. Nem criacionistas, nem fetichistas um e outro. Para eles a ação divina era descrita não pelo gênesis em seus termos ultrapassados e toscos mas pela pesquisa cientifica i é pela experiencialidade e o raciocínio, padrões certamente fixados por Deus. E nem é preciso ser um Aquino para concluir que este padrão não pode ser desmentido por qualquer ele, e que a fé e a revelação com ele devem concordar. Supor discordância natural entre o conhecimento natural e a Revelação é monstruoso. Se há clamor em torno da contradição é justamente porque a cristandade, desviada pelo antigo testamento ou pelo judaismo, invadiu a esfera da imanência ou do mundo natural. Todo este mal entendido procede do antigo testamento e do conceito equivocado de inspiração plenária, não do Evangelho ou da Revelação autenticamente Cristã, absolutamente alheia ao mundo natural.

Nada disto, e nada disto esta em jogo. Digo a existência de Deus ou de um Ser ou de uma Consciência supra terrena.

Para o protestante a questão continua a girar apenas em torno de seu deus ou ídolo retangular, a bíblia... Com a mesma bíblia que combateu o Catolicismo ou a tradição Cristã e a Igreja antiga, o protestantismo hoje faz guerra a ciência e condena-a aos infernos.
Específico melhor - Toda questão gira em torno do antigo testamento ou do dogma, essencialmente protestante, da inspiração plenária...

Convém repetir a exaustão: O Evangelho não predica sobre a imanência... Os protestantes no entanto pensam sua bíblia como um Corão, e creem-na enciclopedicamente infalível. Daí suas pretensões totalitárias, que conflitam com a ciência, com todos os seus ramos... Após terem 'reformado' o cristianismo antigo ou o papismo ora aspiram reformar tudo - Biologia, História, Sociologia, Psicologia... O furor bíblico não tem limites e por isso, como o Islã ameaça a civilização. Temos dois perigos semelhantes (Vide o que Guilherme Postel escreveu a quase meio milênio sobre protestantismo e islamismo!) - Um no Ocidente ou nos EUA, o sectarismo bíblico; e outro no Oriente, o islamismo sunita, e é um espírito bastante semelhante, já por livresco já por fetichista.

Daí a total incompatibilidade dessa fé obscura e tosca com o pensamento científico. Newton, homem do seu tempo, como Galileu e Copérnico, ainda pode talvez dar crédito ao Gênesis. Após o estudo comparado dos fósseis, a embriologia, a cladística, a geologia, etc é impossível levar a cosmologia judaica a sério; e essa Era passou, definitivamente, sem que se possa alegar Newton - Homem genial, mas pertencente a seu tempo, o século XVIII - Ocasião em que Buffon havia já descartado o fetichismo bíblico...

Lamarck, St Hilaire e outros já não podiam levar tais coisas a sério numa Europa civilizada. Agassiz foi o último cientista sério a tentar emenda-la ou remenda-la... apelando a exegese alegórica, e admitindo as tais intervenções caprichosas e sucessivas ou os sucessivos 'milagres', com que ainda ousava repudiar o uniformitarismo. O intervencionismo tosco morre com Agassiz e com ele é enterrado. Impondo-se o uniformitarismo em Biologia, como já havia se imposto na Geologia, com Hutton e Lyell. Os protestantes no entanto querem que Deus tenha multiplicado ações miraculosas ou interferências, apenas porque o Gênesis o quer... Eles querem que deus tenha agido de determinada forma porque agrada a sua fé... Repudiam o naturalismo e o uniformitarismo apenas porque é supinamente ignorado por seu livro. E o padrão deles é a ignorância ou o desconhecimento por parte de um livro ultrapassado. Outra coisa a Tanak, com toda sua mitologia não é...

Não é por mero acaso que o maior pais protestante do mundo é hoje o centro mundial da superstição criacionista, patrocinada entusiasticamente por seitas como a jeovista e a adventista, bem como por parte considerável dos calvinistas e pelas hostes do pentecostalismo. O armazém das trevas ali esta: Num dos países mais ricos e desenvolvidos do Planeta, e isto só serve para patentear o espírito tenebroso do biblismo e sua periculosidade. Parte dos N Americanos continua a pensar que a ciência deve estar errada não porque hajam evidências contundentes neste sentido (Não hà!) mas apenas porque esta na bíblia ou a bíblia o diz... Basta o pastor gritar que esta escrito para Marx, Darwin, Freud, Einstein, Hutton, Newton, Kepler, Galileu e Copérnico serem descartados com uma fornada só!

O que você leitor deve compreender bem é a virulência deste princípio.

E o quanto tem colaborado para travar a ciência durante o último meio milênio ou seja desde que tem sido santificado pelo protestantismo.

Pois não houve ramo do conhecimento humano que o biblismo não tenha prejudicado, imensamente mais do que o papismo ou qualquer outra fé, a exceção talvez do islamismo sunita após a fixação da Ortodoxia pelos imames Achari e Gazalli no século XI desta Era.

Tenha em mira por exemplo a geografia de Ptolomeu, promovida pelos sectários religiosos e fanáticos até o século XIX pelo simples fato de ser, em parte, compatível com o mito bíblico. A terra tinha de ser o centro do universo ou de ser quadrada! Por força da bíblia... Observe os mapas dos séculos XVI e XVII com a obscura nomenclatura bíblica povoando as Américas!!! Quanto tempo precioso perdido e quanta energia dispendida com o objetivo de conciliar a existência de indianos, japoneses e chineses, os quais para o antigo testamento inexistem... A tanak ou os judeus ignoravam a existência de chineses, japoneses e indianos, logo, eles não podiam existir!!!  E para explicar a existência da América e dos ameríndios, os quais também são supinamente ignorados pela magnífica Tanak... Quanta hipótese ociosa ou treva. De que resultou por fim o mormonismo, com o dito livro de mórmon e as peregrinações de Jesus entre os maias e aztecas. Como tudo isso é aberrante... Não podem existir pólo Sul ou mesmo pólo Norte porque a bíblia nada sabe sobre eles, e tampouco a Austrália...

Caso passemos a Geologia o espetáculo continua - Os fósseis devem concordar com o dilúvio, e só se investiga as rochas, por séculos a fio, com o objetivo de encontrar sinais seus, os quais jamais foram encontrados, devido a impossibilidade geológica de um dilúvio universal, capaz de cobrir o Everest. Mas a bíblia... A bíblia postula a horrenda catástrofe com que jave afogar quis seus obras tão mal feitas... além de postular sucessivas catastrofezinhas com que punir a tribo dos hapiru, logo a Geologia não pode ser uniforme. E quando aparece Hutton, em pleno século XVIII, para dizer o óbvio - Que não há desconformidades ou sinais de qualquer evento bíblico no processo, sucede o grito de: Heresia...

Após ter empatado a Geografia e a Geologia a treva bíblia não empata menos a astronomia. Afinal as estrelas haviam sido postas no 'firmamento' com o objetivo de 'iluminar a terra'... Imagine só o descalabro que é o Sol aparecendo depois da terra ou da cúpula superior (Equivalente a metade de nosso planeta) contendo todo universo i é multilhões de galáxias e estrelas...

Pense agora na História e em todas as cronologias equivocadas atribuídas aos Sumérios, Egipcios e mesmo aos gregos, inda que diante de tantas inscrições, monumentos ou testemunhos arqueológicos. Qual a razão deste cipoal tenebroso? Querer fazer concordar todas estas cronologias com a narrativa vétero testamentária ou com os escritos dos hebreus... Tudo quanto se queria em termos de egiptologia era encontrar algum testemunho a respeito da presença dos antigos hebreus naquele pais exuberante. Não se ligava maior importância ao Egito monumental exceto pela possível presença das tribos dos hapirus a sombra das pirâmides... Quanta miséria e quanto transtorno. Passe agora a Babilônia descrita por Heródoto! A cujas ruínas acorriam os escavadores e arqueólogos, movidos pela fúria de lá encontrar sinais dos antigos judeus... Oh miséria. Hebreus era tudo quanto os fanáticos procuravam de Tebas a Nínive... E tinham olhos apenas para eles.

Ai você pensa Palestina e as ricas culturas do Bronze I ou do Bronze II. Enquanto os arqueólogos concentram-se apenas em Davi e Salomão ou em demonstrar que a biblia tinha razão. Mesmo um arqueólogo insuspeito como W F Albright foi obrigado a reconhecer que este tipo de abordagem não podia deixar de produzir ao menos alguns transtornos...





terça-feira, 13 de novembro de 2018

Estabilidade civilizacional, tendências predominantes, ritmo histórico e conflito

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Não conhece nem busca a História leis gerais, pois sua tarefa consiste em identificar as causas imediatas de cada fenômeno ou evento particular. O sentido, a direção, o ritmo, as tendências, as 'leis', o processo Histórico enfim é perseguido pela Sociologia. O que os antigos chamavam providência podemos chamar de leis sócio/históricas ou melhor dizendo de tendências predominantes. Afinal tais leis não atuam de maneira estritamente mecânica ou absoluta como as leis físicas ou naturais, são flexíveis até certo ponto, conhecendo certo grau de indeterminação tendo em vista a ação livre do elemento humano ou melhor as modalidades de ação e interação que são 'infinitas'. A História ou melhor a sociedade humana, a cultura... possuem certamente um ritmo, uma dinâmica, uma frequência; mas não exata ou inelutável. Tinha plena razão W Dilthey ao substituir o paradigma da previsibilidade pelo paradigma da compreensão.

Justificar pertence a ideologia ou a moralidade. Prever a física ou a química. A História buscamos descrever e compreender. E através dela compreender o caminho percorrido pelas diversas Sociedades e pela cultura, em busca de alguns elementos comuns. Não se faz Sociologia geral sem História embora a Sociologia busque certo nexo genérico entre fenômenos que estão dispersos. Abstrai assim do tempo e do espaço, mas, para tanto, deve utilizar-se da História e da Geografia e alimentar-se delas.

Possui a dinâmica Social certas leis gerais desde que compreendamos o termo Lei de maneira 'lata'. Por isso recomendo o emprego do termo tendências predominantes. Claro que a natureza da cultura tem direções bem definidas, as quais podemos, com o devido cuidado esboçar.

Antes de tudo quero abordar o tema da Estabilidade civilizacional e das Crises, o qual faz-se tão premente em nossos dias. Para tanto vou socorrer-me de um Filósofo da História e de um Sociólogo aos quais atribuo o mérito de terem desvendado o segredo da Esfinge; assim Toynbee e P Sorokin, os quais juntamente com F de Coulanges, M Weber e R Nisbet, tenho em conta de geniais.

Constatou Sorokin a generalidade do conflito - quem disse que o conflito não existe ou que nada move? - envolve quase sempre culturas cujos valores antitéticos podem ser definidos como Materialista ou Idealista. Uma cultura em crise é basicamente uma cultura cindida entre valores materiais e ideais ou indefinida; bem como uma cultura fechada, seja materialista ou idealista. A Estabilidade civilizacional ou o 'brilho' corresponderia a uma síntese entre os dois 'sentidos' ou a uma equilibração. Em torno do que poderíamos chamar Realismo. O Realismo tenderia a conciliar a razão e a experiência, o psíquico e o biológico, o mental e o corporal ou físico, a religiosidade ou a fé na vida futura e a ação na vida presente, a Transcendência e a Imanência... Assim a prática da ginástica e dos esportes com o ideal da Kalokagathia, a Ciência e a Filosofia, a técnica e a ética, formando um todo harmonioso, e bem se vê o quanto este ponto de equilíbrio deva ser difícil de ser obtido. Via de regra move-se a Sociedade de um extremo a outro, tal o 'sentido' das crises.

E se o conflito de valores existe dentro da maior parte das Sociedades mais desenvolvidas, devemos considerar um outro tipo de conflito, existente entre diversos padrões de civilizações estáveis e mais ou menos estáveis ou mesmo não estáveis. Segundo Spengler o atual conflito entre o Islã e o Ocidente, remontaria a situações de conflito de conflito anteriores travadas entre a cultura persa e a cultura greco/helenística, a cultura romana e a cultura judaica, a civilização Cristã bizantina e o islã, a civilização Cristã Ocidental e o islã, enfim a civilização Ocidental contemporânea e o islã... Teríamos aqui o prolongamento de um choque milenar de culturas. Noutras palavras seria o islã herdeiro ou legatário do judaísmo antigo ou mesmo do zoroastrismo (o que é discutível - esta última assertativa) enquanto que os Catolicismos - devido ao conceito de Encarnação - seriam em parte legatários do paganismo antigo. Daí o conflito entre as duas tradições: Da transcendência pura e da Transcendência/Imanência.

Sucede no entanto que nossas construções sociais, raramente atingiram o necessário equilíbrio. A exceção do século IV, do século IX, do século XIII e do século XVII, em que conheceram-se aproximações, o ideal de civilização Católica jamais concretizou-se, frustrando-o - A queda do Império romano no século V, o advento do Islã no século VII, o advento do neo paganismo no século XIV, o advento da pseudo reforma, do capitalismo e das culturas de morte a partir do século XVI. Tais eventos tornaram o ideal de civilização Transcendente/imanente inexequível. Para além disto o próprio Catolicismo - seja Ortodoxo ou latino - deixou-se contaminar, poluir e obscurecer sucessivas vezes pelo neo platonismo sob as mais diversas formas, assim do agostinianismo, do palamismo, do zwinglianismo, etc E afastando-se do Eixo da Encarnação, perdeu sua consciência, tornando-se descarnado e confluindo para o judaísmo e o islamismo, facilitando inclusive a dispersão ou a conversão...

Hoje acima de tudo acha-se o padrão de civilização Ocidental cindido entre opostos, em luta e portanto em crise. O que se sucede desde que o protestantismo e seu 'filho' adotivo, o capitalismo, assumiram a direção de nossas sociedades. No protestantismo ortodoxo ou luterano temos uma fé ou religiosidade desvinculada do mundo material e totalmente idealista. No Capitalismo uma praxis naturalista, materialista, anti ética e anti Católica. No americanismo uma síntese monstruosa entre a religiosidade descarnada ou maniqueísta e a praxis capitalista, em oposição a valores humanistas e autenticamente Cristãos ainda presentes nas antigas sociedades europeias, assim como o sentido comunitário, o ideal de bem comum e uma doutrina social normativa.

Entre os vestígios da civilização Católica ainda presentes numa Europa colapsada e os ideais da pseudo civilização Norte americana ou americanista de origem protestante ou calvinista pautada no que chamam 'bíblia' ou antigo testamento, com sua moralidade individualista, grosseira e vulgar, vai um abismo imenso. E este conflito se torna ainda mais agudo nas sociedades latino americanas, onde entram ainda outros conteúdos culturais,  que o americanismo não pode aceitar ou compreender. Pois devemos ter em conta que para os puritanos recém chegados da Inglaterra, faziam os naturais deste continente as vezes de perversos cananeus votados ao extermínio.

Se os portugueses e sobretudo os espanhóis trazem a este continente recém descoberto um ideal de Cruzadas ocidentais, desconstruído pelo clero em Valadollid 1551, os puritanos do Mayflower, em 1648, trazem para este continente um ideal sectarista construído face as permanências do Catolicismo europeu, num clima de fanatismo e ódio contra Bispos, cruzes, torres e sinos... Tal e qual os Padres do século quarto tomaram por meta ou modelo social o Evangelho ou a lei de Jesus Cristo e os teólogos medievais do Ocidente a 'Cidade de Deus' de Agostinho - e já se percebe a queda do ideal... os calvinistas tomaram a peito criar uma Sociedade bíblica nos moldes da torá ou do antigo Israel... Daí a necessidade imperativa de satanizar e de aniquilar a cultural anterior ou nativa, segundo os ensaios que já haviam feito nos cantões Católicos da Europa...

Privada de conteúdo Cristão tradicional ou Católico ou de conteúdo nativo, implementaram os puritanos no Norte um ideal de Civilização protestantes que buscam, desde então vender ao mundo como legitimamente Cristão e impor as demais partes da América, conforme a doutrina do destino manifesto. Não apenas a América latina mas agora ao mundo como um todo como forma de legitimar o sistema Capitalista do qual tornou-se colaborador ativo ou servidor, pelo simples fato de que o protestantismo ortodoxo faz muito pouco caso das obras ou da ortopraxia. Mesmo os Catolicismos, posteriormente instalados neste 'solo virgem', tem se deteriorado muito facilmente e perdido sua consciência nesta atmosfera culturalmente tóxica, e tendem inclusive a exportar este Catolicismo negociável, flexível, morno, acomodado... face as necessidades do Mercado ao mundo inteiro, como se fosse produzido por encomenda.

Por isso não temos mais uma civilização Ocidental, unida e coesa, como no século XIII, mas uma sociedade cindida em torno de valores extremistas, como um espiritualismo descarnado e um materialismo insensível e cruel, os quais não se excluem, necessariamente. Em torno de permanências representadas por valores autenticamente Católicos, mesmo quando secularizados, como o socialismo, o ecologismo, etc E em torno de rupturas dramáticas como como a centralização política, os nacionalismos, o odinismo, o capitalismo, etc Vivemos um tempo de desencontro e contradição. A "Era da incoerência."

O que nos torna vulneráveis face a um islã relativamente coeso em torno do velho espírito fetichista e do padrão idealista ou descarnado de pensamento. O islã pode não ter atingido a equilibração civilizacional em termos de cultura, pelo simples fato de afirmar um deus absolutamente transcendente e apartado do universo material, mas fornece a seus adeptos, em termos de cultural, um padrão coeso ou não fragmentado. O ocidente deixou passar diversas oportunidades de equilibração e estabilidade social, até, por meio do protestantismo, do capitalismo e sucessivas culturas de morte, chegar a beira do abismo. Parte de nós zomba da fé ou da divina Revelação e da vida Ética que dela decorrer, embora nossas instituições todas e nossa cultura tenham sido postas sobre tais fundamentos desde tempos imemoriais e ante cristãos, uma vez que os Catolicismos dão continuidade a tudo quanto havia de nobre e excelente no paganismo antigo, fazendo com que remontemos a Platão, Sócrates e Aristóteles.

Ao repudiar preconcebidamente o Catolicismo estamos repudiando os fundamentos mais remotos da nossa identidade e para compreender o que estamos a fazer caberia ler - Coulanges, Dawson e Butterfield... Sociedade alguma subsiste fundamentada no ar, no vácuo ou no espaço. Uma sociedade completamente desarraigada de sua cultura ancestral não se mantém e por isto dizemos que os Catolicismos muito preservaram da cultura pagã ancestral quando o mundo antigo, por vício estrutural, ruiu fragosamente e veio abaixo. Foi um naufrágio e não fosse a presença do Cristianismo Católico experimentaríamos uma regressão tal como jamais fora vista em toda História, podendo quiçá, impugnar as constatações de V G Childe.

Quero dizer ainda que o neo paganismo, o materialismo, o ateísmo e mesmo o ceticismo ou a incredulidade, tal e qual nos tempos antigos nada produziram de relevante em termos de cultura refinada e já se disse que tais ideologias tem se mostrado estéreis nos domínios da Estética, o qual costumam depreciar. E quando se sabe o que esta tal arte moderna, psicologista... temos mais uma esfinge decifrada. Já quanto a ética bem poderíamos dizer que as mesmas causas produzem os mesmos efeitos, não por coincidência. O ateísmo e o materialismo refletidos jamais fogem ao utilitarismo, ao relativismo e ao subjetivismo... e são co relações epistemológicas necessárias. Por esta via jamais se chega a uma noção de Lei natural e assim ao essencialismo Ético em torno a alguns valores universalmente estáveis como o Bem, a Verdade e a Beleza - Digo algo a respeito deles... Para o cientificista ou positivista de nossos tempos Estética e Ética são palavras desprovidas de significados ou vazias, 'flatu vocis' enfim... Isto quando a própria razão e mesmo a própria experiencialidade não nos desamparam e encaminha ao nihilismo.

Nem fé, nem razão e nem mesmo a experiência.Nada fica restando de estável... Como construir ou manter uma civilização neste terreno? Tudo isto é resultado da dissolução, não algo positivo ou construtivo. Civilizações se constroem com afirmações fortes e ousadas em termos de princípios e valores. O protestantismo e suas sucessivas e múltiplas 'evoluções' privou-nos de tudo isto. Tornando-se o indivíduo centro da fé, e em seguida da razão e da experiencialidade, até que vieram a todas a morrer, pelas mãos do individualismo, imoladas!!!

Até aqui o conflito... Vivemos uma época de intenso conflito!

Devo dizer por fim, com Toynbee que a identificação de uma dada Sociedade com essa síntese harmoniosa e rara chamada realismo, não ocorre de qualquer maneira mais através da mimesis. Pois se faz necessário que após ter sido elaborada por uma elite intelectual, pensante ou dirigente, a solução de equilíbrio seja assumida por cada um de seus setores, inclusive pelos mais baixos ou pelas massas correspondendo a um eixo coordenador, capaz de integral todos os cidadãos, qual fossem um só corpo animado por uma só alma. Claro que essa assimilação de valores ou de cultura pressupõem antes de tudo uma organização educacional eficiente. A assimilação da cultura depende sempre da transmissão... Assim sendo uma Sociedade que aspire estabilizar-se deverá disseminar ou fixar determinados princípios e valores comuns por meio da educação, atingido verticalmente cada um de seus estamentos ou mesmo de seus membros.

Caso tais valores empolguem e inspirem os membros mais ativos e  produtivos de cada esfera, este vínculo produzirá a estabilidade e promoverá a civilização, desde que tais valores, como já dissemos, representem um são realismo em torno de necessidades espirituais e materiais ou de demandas psíquicas e biológicas de modo a contemplar o homem por inteiro. Caro que esses momentos de mimesis em torno de uma construção teóricas equilibrada ou realista serão raros e breves na História da pobre humanidade e não uma constante, pelo que conheceremos certamente mais e maiores períodos de crise. Ora também o ser humano em fase de crescimento ou o adolescente conhece períodos de crise e ambivalência... Por isso não nos devemos amedrontar, caso isto aconteça também com as diversas culturas ou com a humanidade de modo geral, apenas, como disse Guicciardini, deplorar o fato de vivermos nós em tais épocas - Como durante a eclosão da reforma protestante, a queda de Constantinopla, a expansão do islã, a queda do Império romano, os cem anos posteriores a morte de Alexandre, a Atenas conquistada pelos espartanos...

Talvez, como Platão, vossa genialidade seja estimulada pelas condições adversas... Assim enquanto prevalece a crise, procedais como os entomólogos buscando compreender e identificar cada faceta do processo histórico ou do ritmo conhecido pelas sociedades. A cada um dos que tiveram a paciência necessária para ler este artigo faço votos de boa sorte! Que possais, vós e vossos filhos, ver dias melhores!