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sábado, 18 de março de 2023

Psicologia, psicanálise, Freud e a questão da multiplicidade de existências - Reflexões sobre a obra de Hermínio C Miranda 'A memória e o tempo' Edicel 1984 - Parte VII


UM AMONTOADO DE PRECONCEITOS - O MATERIALISMO, O DOGMATISMO E A RECUSA.


           Certa vez o conselheiro Aksakoff assim se expressou a propósito dos fenômenos paranormais ou 'heterodoxos': "Os fenômenos correm atrás dos cientistas e os cientistas fogem dos fenômenos.". Já a mistagoga Blavatsky referiu-se a certos acadêmicos como "Psicofobos" talvez parafraseando Platão. 

            Ao contrário do que se poderia pensar não era a importância do cérebro e sua conexão com o pensamento ignorada pelos antigos. Bastando para tanto mencionar Herófilo de Kalkedon e Eresístrato de Chios. Eresístrato no entanto, juntamente com os hormônios ou fluídos cerebrais um Pneuma que pode ser compreendido como força vital ou espírito.

              Efetivamente uma teoria materialista ou atômica foi elaborada pelo pensador Demócrito de Abdera, mas não com base empírica ou pautada em observações fisiológicas em torno do cérebro. 

              No entanto, ao que parece, a ideia de que o pensamento corresponde a uma espécie de secreção produzida pelo cérebro, surge apenas na segunda metade do século XVIII. Impõem-se no entanto a alguns cientistas como dogma ou princípio fundamental e indiscutível.

               Sobre a primeira síntese materialista contemporânea, o "Sistema da natureza" (1770) do Barão de Holbach temos duas apreciações que falam por si mesmas: A primeira é a do Marquês de Sade (A respeito do qual disse o ultra insuspeito Michel Onfray "Fazer de Sade um herói é intelectualmente bizarro.") segundo o qual era esse livro - Que lera seis vezes e de cujo sistema se considerava um 'mártir' - um "Livro de ouro" que "Deveria estar em todas as bibliotecas e cabeças."

               Necessário dizer que o Sistema de De Holbach sendo determinista e mecanicista excluía por completo a noção de livre arbítrio ou de liberdade. Eis porque, para Sade, imoralidade e crime eram palavras vazias uma vez que todas as ações humanas eram fruto da necessidade, assim o estupro, a tortura, a agressão, o assassinato, etc

               Afinal, como ensinava o profo Carus, o materialismo "sendo mecanicista por necessidade, tudo explica por combinações e agrupamentos de átomos. Sendo assim todas as variedades de fenômenos existentes: O nascimento, a morte, etc não são senão o resultado puramente mecânico das composições e decomposições, mera manifestação externa de átomos que se agregam e separam." Não há portanto outras opções ou possibilidades e tudo, absolutamente tudo, inclusive o crime - Como ensina Sade - torna-se não apenas necessário mas inevitável. 

               Vejamos agora que diz o grande Goethe sobre a obra prima de De Holbach: "Quintesência da velhice enfadonha e insípida." 

                Moleschott no entanto concorda perfeitamente com De Holbach e Sade "Caso uma razão ou personalidade dirigisse a matéria a um determinado fim, A LEI DA NECESSIDADE DESAPARECERIA da natureza, e cada fenômeno seria apenas possível."

                Agora demos a palavra a Pierre Cabanis: "Vemos as impressões chegarem ao cérebro por intermédio dos nervos; elas se acham, então, isoladas e sem coerência. O órgão entra em ação, age sobre as impressões e as reenvia metamorfoseadas em ideias que se manifestam, exteriormente, pela linguagem da fisionomia ou do gesto, pelos sinais da palavra ou da escrita. Concluímos, com a mesma segurança, que o cérebro DIGERE, DE ALGUM MODO, ESSAS IMPRESSÕES; E QUE REALIZA A SECREÇÃO DO PENSAMENTO." Eis o que diz o homem... e o que dá por demonstrado - Sem que o seja.

             Completa-o Carl Vogth "Os pensamentos tem com o cérebro a mesma e exata relação que a bílis tem com o fígado e a urina com os rins." só faltou completar: E as fezes com os intestinos...

              Ouçamos agora a Broussais: "Desde que eu soube, pela cirurgia, que o pus acumulado à superfície do cérebro destruía nossas faculdades, e que a saída desse pus lhes permitia o reaparecimento, não as pude considerar mais de outras forma, as ideias, como produtos do cérebro vivo, mesmo sem saber que era cérebro e que o que era vida." Testamento.

               Observem agora a lógica desse senhor - Tens um revólver que não funciona porque está enferrujado, removes e ferrugem, ele funciona... pronto, o tiro é produzido apenas pelo revólver, se necessidade de uma gente humano que lhe puxe o gatilho...

                Demos no entanto a palavra a Moleschott: "O pensamento não é mais que um fluído, assim como calor e som, é um movimento, uma transformação da MATÉRIA CEREBRAL, a atividade cerebral é uma propriedade do cérebro, tão necessária como a força, por toda parte inerente a matéria, de que é caráter essencial e inalienável. É IMPOSSÍVEL QUE O CÉREBRO INTACTO NÃO PENSE, COMO É ABSOLUTAMENTE IMPOSSÍVEL QUE O PENSAMENTO SEJA LIGADO A OUTRA MATÉRIA QUE NÃO O CÉREBRO." 

                     E noutra parte continua: "Bem sabeis que a abundância excessiva do líquido céfalo raquidiano produz a idiotice, a apoplexia é seguida pela aniquilação da consciência, a inflamação no cérebro causa o delírio, a síncope - Que diminui a circulação do sangue, no cérebro provoca a perda do conhecimento, a afluência de sangue venoso provoca alucinações e vertigens, uma completa idiotia é efeito necessário e inevitável da degeneração dos dois hemisférios cerebrais; enfim toda a excitação nervosa na periferia do corpo só desperta sensações conscientes no momento em que repercute no cérebro." Até aqui Moleschott.

                   
Passemos a palavra ao Dr H Tutlle "Tudo - diz ele - desde a lagarta que dança aos raios de sol até a inteligência humana que EMANA DAS MASSAS MEDULOSAS DO CÉREBRO, é submetido a princípios fixos, isso pelo simples fato de inexistir um deus." 

                    Ouçamos também a Dubois Reymond "O pensamento nada mais é além de matéria em movimento."

                    "Esse negócio de espírito nada mais é do que uma força da matéria que resulta imediatamente de atividade nervosa - Mas donde provém... Do éter em movimento nos nervos." assevera Hermann Schaffle.

                   Tudo perfeitamente aceitável, como Filosofia ou especulação Metafísica.

                   Como dado científico, tudo perfeitamente discutível. 

                   Inclusive para pensadores ou cientistas honestos como Bruchner, o qual assim responde a seus companheiros: 

                   "Em que pese o MAIS ESCRUPULOSO EXAME, não podemos encontrar analogia entre a secreção da bílis ou da urina e o processo porque se forma o pensamento no nosso cérebro. A urina e a bílis são elementos materiais palpáveis, ponderáveis e visíveis; e mais ainda, são matérias excrementícias que nosso corpo usou e agora rejeita. O pensamento, o espírito, a alma, pelo contrário, nada têm de material, não são substâncias, mas o encadeamento de forças diversas que formam unidades, o efeito do concurso de muitas substâncias dotadas de força e de qualidades.
                       Quando uma máquina feita pela mão do homem produz um efeito qualquer, põem em movimento seu mecanismo ou outros corpos, dá uma pancada, indica a hora ou coisa semelhante, esse efeito considerado em si mesmo é coisa essencialmente distinta de certas matérias excrementícias que ela produz, talvez, durante essa atividade.
                         Assim é o cérebro, princípio, fonte, ou melhor dizendo, causa única do espírito ou do pensamento; mas não é por isso seu órgão excretor. Ele produz algo que não é rejeitado, que não perdura materialmente e que se consome no momento mesmo de sua produção. O trabalho ou atividade dos rins ou do fígado se realiza sem que o saíbamos... mas a atividade do cérebro não pode existir sem que dela haja consciência completa..." 

                           
O que o nobre professor Bruchner jamais logrou esclarecer - Como lhe foi solicitado pelo Dr Janet no "Materialismo dos dias atuais, uma crítica ao sistema do Dr Bruchner" - é como o cérebro, sendo um agregado de células materiais, produziria pensamentos imateriais ou o fenômeno da consciência... 

                             Mais adiante de Moleschott foi o professor Bayson que para demonstrar que o cérebro produzia ou excretava pensamentos dava-se ao trabalho de pesar todos os sulfatos e fosfatos que consumia por meio da alimentação, após o que dedicava-se a algum trabalho mental e por fim contabilizava a quantidade de sais presentes em suas excreções i é fezes, urina e suor, visando demonstrar que a quantidade de sais excretados aumentava após qualquer trabalho intelectual...

                              Meio século passou-se até que um outro Nobel, e portanto para que um pesquisador sério, Henri Bergson repudia-se expressamente a doutrina ou ensinamento segundo a qual é a mente humana produto do cérebro ou que o pensamento seja exclusivamente elaborado por ele. O espírito, declara ele, não é matéria e não está demonstrado que seja ele mera função do cérebro. 

                              Todavia, como não houvesse um Bergson a Ideologia materialista impregnou de tal modo a ciência e suas instituições ao cabo dos séculos XIX e XVIII, que elas chegaram a substituir o Vaticano e a Inquisição com suas denuncias por heresia, excomunhões, interditos, etc enfim com seus meios de controle.

                               E já veremos como Mesmer teve seus pedidos de pesquisa ou análise aprioristicamente negados por tais Instituições, o que por si só é comprometedor. Posto que é dever dos cientistas e instituições científicas investigar.

                               Todavia, tanto mais se apegavam a certos princípios apriorísticos ou metafísicos, tanto mais esses acadêmicos temiam a realidade e suas manifestações - Justamente por não se enquadrarem em seus sistemas. Do que resultava a recusa ao exame... 

                                Os tais sábios limitavam-se a cruzar os bracinhos e declarar: Tal coisa não pode ser real - Determinando se algo podia existir ou não, conforme o esquema de mundo vigente.

                                 Foi atitude que vigorou por mais de século e infectou vários homens ilustres, a começar por Lavoisier o qual, apelando a tais e tais princípios, tachou os camponeses de simplórios ou imbecis, por insistirem que pedras caiam do céu. Feito isso compôs a famosa memória contra a existência de meteoritos e enviou-a a Academia, onde foi ovacionada pelos guardiães da ciência. Trinta anos depois tiveram os mesmos guardiões que dar razões aos camponeses imbecis - Que apesar disso tinham olhos e sabiam observar! - e admitir a existência de meteoritos! 

                Passado um século foi a vez de Th Edison, após ter apresentado seu Phonógrafo, quase ser agredido por um acadêmico francês, o qual aos gritos de - Não passais de um ventríloquo! - buscava desmascara-lo.

                Tais os tempos.

                O mais grave no entanto era a peremptória recusa, por parte de alguns, a investigar. 

                De fato, quando o fenômeno das mesas girantes chegou a França, Foulcault, no "Journal des debats" apelando a determinados princípio, não apenas negou o fenômeno, como após ter declarado que era absurdo e impossível, declarou que sequer deveria ser examinado por um cientista sério.

                 No entanto passados mais de cento e vinte anos, pudemos ler com gosto num Carl Sagan que todo e qualquer fenômeno, por insólito que fosse - A exemplo dos discos voadores ou OVNIs - deveria sim ser investigado, sendo dever faze-lo. 

                  Muito antes de Sagan, tanto o estadista Agenor de Gasparin quanto o poeta Victor Hugo - Legítimos expoentes do pensamento crítico e científico. - deram competente resposta ao grande físico -

                   "Substituir o exame pela zombaria é muito cômodo, mas bem pouco científico. O fenômeno da velha trípode, como o da atual mesa, tem, tanto quanto qualquer outro, direito a observação." Hugo in "William Shakespeare

                    "Não, eles não lerão essas coisas, mas julgarão! Julga-las-ão sem mais nem menos, do alto de suas cátedras e apelando a um argumento irrebatível: Não creio porque não creio - Simples, fácil e peremptório. Não admito tais coisas porque são impossíveis. Sendo assim perdeis vosso tempo transmitindo tais narrativas!" De Gasparin
in "Des tables tournantes, du surnaturel en général et des esprits." 

                   Acho absolutamente válido discutir teorias, explicações, hipóteses, etc discutir, por em dúvida ou negar a atuação de espíritos... Postulando a Hiperestesia, a objetivação de tipos ou a Prosopopese metagnomia, os resíduos mentais ou tulpas, desdobramentos psíquicos, etc desde que fatos não sejam aprioristicamente negados e pesquisas seriamente realizadas desdenhadas, pois aqui topamos com a desonestidade. E o fruto da desonestidade e da negação dos fatos será o descrédito da própria ciência, mormente num tempo em que os fundamentalistas e ocultistas buscam desacredita-la.

                        
                                
               



                  

             

domingo, 3 de setembro de 2017

O problema da neutralidade em Ciências humanas II

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Chegados aos domínios da História tornasse o tema da neutralidade ou da isenção ainda mais polêmico na medida em que os teóricos do positivismo, levando adiante seu ideal meramente descritivo, proíbem a introdução de todo e qualquer juízo de valor em relatórios, monografias e até mesmo artigos e livros.

E no entanto além das enfermidades Psicológicas, e das condições sociais, o Historiador ainda depara com certo resíduo ou com certa quantidade de atitudes ou comportamentos irregulares quais sejam, roubos, assassinatos, estupros, etc os quais não poucas vezes envolvem elementos humanamente frágeis e desprotegidos quais sejam animais, crianças, idosos, deficientes, etc e degeneram em pura e simples crueldade ou sadismo. Mesmo diante de cenas e situações como estas o positivismo não se abala e pede que elaboremos uma simples crônica em forma de narrativa, fugindo aos juízos de valores como o diabo foge da cruz.

Agora qual o pôrque de tudo isto???

Quais os pressupostos do positivismo???

Grosso modo os positivistas ingênuos costumam declarar que a tarefa do Historiador esgotasse ao reconstituir os fatos Históricos. Logo o que ultrapassa a simples reconstituição espraia-se pelos domínios do subjetivismo puro ou do relativismo, representando mero ponto de vista individual, a que não devemos atribuir maior valor.

Num segundo momento dirá nosso positivista que semelhante avaliação cabe a Ética e não a História, o que muitas vezes equivale a dizer que não cabe a ninguém e que devemos mesmo enquanto homens, nos conformar com aquilo que é ou com a realidade, uma vez que toda e qualquer crítica ou discordância supõem metafísica. A qual só se foge tornando-se acrítico ou conformista.

Não levo a mal que nas obra do gênero, especialmente no prefácio, a distinção seja não só marcada mas salientada i é a distinção entre o Pesquisador que reconstrói objetivamente a História resgatando os fatos, e entre o homem que avalia. Não levo a mal o Filósofo da História, pensador ou Historiador mais comedido, que opte pela crônica ou simples narrativa deixando ao leitor a apreciação crítica ou valorativa dos fatos. Não levo a mal que no próprio livro o trabalho do Historiador e a apreciação do homem, sejam rigorosamente estabelecida.

No entanto a exigência de que o Historiador abdique de todo e qualquer juízo ético ou valorativo mesmo enquanto homem ou ser racional só pode partir de teóricos que repudiam formalmente a hipótese de uma Ética objetiva ou essencial enquanto forma de conhecimento válido ou verdadeiro, abraçando o dogma - também presente na Sociologia - do relativismo cultural. Aqui de fato é Ética encarada como pura e simples produção cultural - relativa apenas a determinada sociedade - ou mesmo subjetiva perde todo seu valor. Tal não é no entanto a perspectiva do humanismo socrático, cujo entendimento é bem outro.

Claro que nós esperamos e desejamos que cada leitor e que cada leitor faça sua opção em termos de ética, identificando-se com determinados princípios e valores, a partir dos quais julgue a realidade. Tal esperança no entanto esta longe de impedir-nos de opinar ou de manifestar nossos pontos de vista, buscando orientar o homem para uma direção ética que julgamos ser a mais acertada ou correta; não como Historiador, mas como ser humano que reflete criticamente sobre as ações e exemplos humanos oferecidos pela História.

Significa isto que não podemos ser neutros em termos de princípios e valores ou mesmo de ideologia?

Se em termos de ciências exatas uma neutralidade absoluta, do começo ao fim, é bastante questionável, em termos de ciências humanas é certamente impossível, senão indesejável.

Ser neutro diante das inquisições papista e protestante, da Jihad islâmica, das situações de miséria produzidas pelo capitalismo, das atrocidades cometidas pelos nazistas, das guerras, da tortura, etc equivaleria a ser sádico, desumano e cruel.

Enquanto historiador tudo quanto o homem visa é compreender determinada situação Histórica e podemos compreender perfeitamente bem o pôrque de cada um dos eventos acima citados, sem no entanto buscar justifica-los ou absolver as pessoas envolvidas. Não cabe ao Historiador enquanto tal justificar, apenas compreender. Enquanto homem e cidadão no entanto lhe é permitido julgar partindo de seus princípios e valores.

Neste caso que lhe é proibido e a que ponto chegamos?

Nada impede ou deve impedir um homem de avaliar determinado fato Histórico segundo suas crenças e ideias. Como nada impede ou deve impedir alguém de identificar-se com determinada visão de mundo ou ideologia.

Tanto o Sociólogo quanto o Historiador é defeso ter sua opinião, seu ponto de vista ou sua ideologia. O que ele não pode permitir é que esta ideologia interfira em seu trabalho de pesquisa social ou de reconstituição histórica, fazendo com que altere ou manipule os dados da pesquisa ou as informações tomadas as fontes históricas selecionando-as arbitrariamente seja inventando umas ou ocultando outras. Tocamos aqui ao nervo da questão ou a Honestidade cientifica.

Não pode o homem ser neutro no sentido de que seja isento de princípios e valores ou mesmo de ideologias, como uma tábua rasa. No sentido de que não traga consigo uma visão de mundo ou como diz Brinton um esquema mental preparado. No sentido de que enquanto homem não possa opinar sobre suas próprias descobertas ou que isto lhe seja vedado...

Mas deve ser disciplinado e honesto a ponto de evitar que seus pontos de vista interfiram na pesquisa científica a ponto de selecionar ou manipular os fatos.

Portanto o que esta em seu acesso e garante a objetividade de seu trabalho enquanto pesquisador não é uma suposta e absurda neutralidade valorativa ou ideológica, e sim o que chamamos de honestidade intelectual e que podemos definir como a capacidade para administrar suas opiniões preconcebidas, atendo-se antes de tudo aos fatos sejam eles biológicos, geográficos, psicológicos, sociológicos, históricos, etc Honestidade intelectual é o esforço exequível para ouvir os fatos e permitir que falem sem deixar-se cegar pelas próprias opiniões e crenças.

Tendo chegado ao término da questão devemos considerar que a neutralidade ou imparcialidade deva ser encarada como um ideal possível APENAS SE ENTENDIDAS NO SENTIDO DE NÃO INTERFERÊNCIA COM RELAÇÃO A PESQUISA HISTÓRICA, SOCIAL... e mesmo assim - ao menos na Sociologia, que lida com causas gerais - na esfera reduzida dos fatos ou leis; porquanto a dinâmica da formação de uma teoria é bem mais complexa. 

No entanto caso compreenda-mo-las no sentido corrente de isenção, no sentido do pesquisador não trazer consigo determinados princípios, valores, crenças e ideias; qual fosse uma tabua rasa, é absurda, ingênua, grosseira e tosca. Como ser humano o cientista não só trás ideias capaz de influencia-lo como é normalmente sugestionado por elas caso não passe por um treinamento bastante sério na acadêmia. Resulta disto que a imparcialidade ou neutralidade relativa - DEFINIDA EM TERMOS DE HONESTIDADE CIENTÍFICA - não seja algo fácil de ser conquistado demandando resolução, esforço e sobretudo certos pressupostos derivados da Ética.

Sobretudo não devemos compreender Neutralidade no sentido positivista de abster-se de avaliar criticamente os fatos na perspectivas da Ética da pessoa. Julgar as ações e situações sociais é natural, humano e absolutamente normal. Neutralidade relativa ou HONESTIDADE CIENTÍFICA resume-se em não fabricar ou manipular fatos ou leis tendo em vista o favorecimento de qualquer teoria que nos agrade. A desonestidade não consiste em julgar ou avaliar eticamente mas em falsear a realidade.

Conclusão: Nas ciências do homem a neutralidade absoluta ou isenção compreendida já como a pura e simples inexistência de um aparelho conceitual anterior a pesquisa, já como a necessidade de se evitar a qualquer custo juízos de natureza valorativa é pura e simples utopia.

Já uma neutralidade relativa (Imparcialidade formal) ou HONESTIDADE INTELECTUAL compreendida como a possibilidade de controlar a investigação e impedir que seja influenciada pela ideologia tal até a seleção e manipulação dos dados e distorção da realidade, julgamos ser perfeitamente exequível embora demande como já dissemos um firme ideal de ética associado a um treinamento acadêmico e a uma prática constante. Segundo julgamos esta Honestidade Intelectual é o fundamento da objetividade no terreno das ciências humanas.

Afinal as ciências humanas, fugindo tanto ao prever - seus fenômenos são mais e mais imprevisíveis na medida em que entra em jogo a qualidade humana da vontade livre - quanto aos justificar, tem por objetivo recompor e compreender um determinado aspecto da realidade, o qual, uma vez recomposto e compreendido sempre poderá ser apreciado valorativamente por qualquer homem, inclusive pelo Psicólogo, pelo Sociólogo e pelo Historiador, os quais certamente são homens. Importa distinguir bem uma coisa da outra, colocando os pingos nos is.

Por fim se a Sociologia será meramente descritiva para o Sociólogo enquanto Sociólogo, será certamente normativa para o mesmo Sociólogo enquanto pessoa ou ser humano i é numa perspectiva mais ampla. E ele, o sociólogo, sempre poderá expressar-se já quanto cientista social que investiga e descobre, já como ser humano que avalia sua descoberta e pensa a sociedade. Bastando para tanto que estabeleça a distinção.

Sobre a elaboração das teorias em ciências humanas, reservaremos um artigo a parte.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Era Karl Marx um hipócrita?



Não preciso ser comunista para defender a idoneidade do Sr Karl Marx.

Como o jurista Sobral Pinto não precisou ser ou fazer-se comunista para assumir a defesa de Carlos Prestes.

Outros mais fariseus ou escribas do que Católicos certamente não o fariam por questões de ordem ideológica.

No entanto a justiça ou a ética não conhece ideologia.

Assim o nobre advogado deve ter se lembrado da memorável frase de Vieira:

"Justiça seja feita até ao Diabo!"

As quais ficariam muito bem nas bocas de um Sócrates, de um Platão ou de um Jesus Cristo meus senhores e mestres aos quais folgo imitar.

Ao invés dos neo católicos que preferem imitar ao fideísta Martinho Lutero ou ao fariseu João Calvino...

Eu no entanto fico bem com o Sobral, o Platão...

Antes de tudo acho curioso o fato de que geralmente parte das pessoas que reproduzem tais clichês não passam de Cristãos que recusam-se a viver o Evangelho de Cristo.

Esses coitados pensam que achincalhando a memória do socialista ateu ficam autorizados a acumular toda sorte de bens neste mundo e a viver suntuosamente.

Basta-me abrir o Evangelho e tomar as palavras daquele que dizem ser o deus deles para frustrar-lhes o pérfido intento:

"Não acumuleis tesouros neste mundo... ACUMULAI TESOUROS NO CÉU!"

"Não podei servir a dois senhores, não podeis cultuar a Deus e as riquezas."

"É mais fácil uma corda passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus."

Agora pergunto a querida platéia, quem é que proferiu condenação tão rigorosa, Marx?

Não. Jesus de Nazaré, o qual a cristandade nominal declara ser deus, mas não leva a sério nem obedece!

Quem anatematizou a doutrina do lucro máximo? Engels????

Não, o humilde carpinteiro de Nazaré...

Quem decretou castigos espirituais e punições divinas contra os endinheirados, Kautsky?

Não, o pobre filho de Maria, a Virgem...

Apesar disto como vivem os Cristãos que censuram o sr Karl Marx???

Como surdos e infiéis, juntando bens neste mundo a não poder mais e sustentando teoricamente a doutrina do acumulo ilimitado nos mesmos termos que os ATEUS Friedman e Haiek.

Que dizer então aos cristãos hipócritas e petulantes que pretendem corrigir Marx mas que recusam-se a viver o Evangelho?

Quem estão a soprar cisco em olho alheio enquanto tem uma trave ou melhor um poste fincado em seus olhos...

Marx não vivia o que ensinava...

Tampouco os neo cristãos vivem em conformidade com a doutrina de Cristo ou seja, cultivando uma vida sóbria segundo os preceitos da temperança aos quais até mesmo os antigos pagãos pertencentes ao círculo de Sócrates estavam habituados.

Os neo Cristãos no entanto aspiram viver como sofistas, a moda de Antifonte de Ramnunte, de Shilock, do Harpagão... enquanto tecem refinadas críticas ao sr Karl Marx.

Neste caso meu primeiro recado vai para esses cristãos hipócritas, pastores embusteiros, traficantes de indulgências, charlatães, ilusionistas, enganadores, empresários da fé, SIMONÍACOS, etc: daremos ouvidos as críticas feitas por vocês quando forem honestos e passarem a viver como Jesus Cristo preceituou...

Em segundo lugar declararei que se Marx era vagabundo por jamais ter exercido trabalho braçal ou manual também Platão, Aristóteles, Teofrasto, Cícero, Sêneca... ENFIM A QUASE QUE TOTALIDADE DOS FILÓSOFOS GREGOS NÃO SÓ ERAM VAGABUNDOS mas canalhas, uma vez que alguns deles, inclusive, tiravam rendas do trabalho escravo!!!

E no entanto os mesmos senhores que criticam Marx, leem as obras de Sêneca, Ovídio, Virgílio, etc sem se incomodarem ou atira-las ao fogo...

Nem ouço-os mimoseando Demócrito, Parmênides ou Apolônio com os epítetos de: vagabundo, poltrão, hipócrita, safado...

E no entanto uns e outros não só dedicavam-se a trabalhos de natureza intelectual ou material - o único trabalho digno do homem livre inserido na cultura greco romana - como encaravam o trabalho material ou braças como degradante, enfim como coisa de escravo...

Acontece que Karl Marx trabalhou sim como pesquisador, escritor, pensador, jornalista, articulista, etc Chegando a ler todos as obras da Biblioteca central de Londres consagradas a economia. Tarefa nada desprezível... e a escrever vultoso número de obras, algumas inclusive de caráter científico como o odiado 'Capital', além dos aludidos ensaios e artigos.

Agora se ser jornalista ou escritor é ser vagabundo que eram Stuart Mill e Herbet Spencer??? Pedreiros ou marceneiros??? Não que eu saiba...

E esses articulistas e jornalistas de péssimo gosto a exemplo do sr Reinaldo Azevedo, do sr Constantino, do sr Gentili; que nada de útil ou produtivo fazem além de respirar, comer, beber e excretar, como mereceriam ser qualificados???

Se por vagabundo compreende-se quem não é operário ou trabalhador braçal Marx terá de dividir seu título com uma multidão de charlatães, que sequer leram 1% da Biblioteca de Londres...

Quanto aos mais...

Que Marx jamais tenha pisado numa fábrica é crítica mais do que pueril e desonesta pois até onde sabemos participou de diversas mobilizações sindicalistas no termo final de sua existência.

Que tenha vivido as largas e outra mentira da qual os religiosos e toda gente honesta deveria abster-se. Uma vez que após o fechamento da Gazeta renana passou a enfrentar sérias dificuldades financeiras, a ponto de ter de ser socorrido pela bolsa do fiel F Engels...

Agora não me venham dizer que vivia as custas de Engels uma vez que o querido Herbert Spencer, sendo de origem humilde, teve de ser - em diversas ocasiões - socorrido pela bolsa de Stuart Mill que era de origem abastada e amigo seu.

A diferença aqui é que Spencer por ser liberal pode encontrar e exercer ocupação enquanto que Marx por ter ousado defender ao sua maneira e moda, os direitos de quem não tinha direito algum, passou a ser sistematicamente boicotado e, consequentemente impedido de encontrar ocupação (trabalho). Donde lhe veio em auxiliou o amigo Engels por admirar-lhe a tempera.

Ademais, contamos com o testemunho insuspeito de Savage Landor, o qual na afamada entrevista descreve a residência de Karl Marx como simples e suas maneiras como dignas e sóbrias. Parece que entre o lar de Marx e o do filho de Sofronisco não havia lá muita diferença...

Verdade seja dita: o pai do comunismo jamais habitou num palácio, num castelo ou numa vivenda glamorosa.

É verdade que casou-se com uma nobre falida; Jenny, cuja família melindrou justamente devido a suas atividades sociais. Foi um dos poucos casamentos do tempo feitos por amor - tanto que faleceu pouco tempo depois da morte da esposa, segundo dizem 'deprimido'  -  e do qual não lhe adveio qualquer vantagem pecuniária.

Muito mais abastado do que Marx era certamente Von Mises, o qual por sinal alinhou-se ideologicamente com os abastados... Não Marx.

Resta-me advertir ainda que se as calúnias e invenções reproduzidas no panfleto acima fossem consistentes o hipócrita seria Marx, a pessoa de Marx e não o comunismo, que não é uma pessoa mas uma ideologia.

A confusão feita aqui entre a pessoa e a teoria beira ao ridículo.

Partindo deste argumento miserável poderíamos seria fácil lançar ao fogo todas as obras de Martim Heiddeger, o filósofo portátil de Hitler e nem mesmo papai Mises por ter integrado o governo fascista de Dollfuss... além de ter apoiado o regime de Mussolini (Raico 1996 'Mises sobre o fascismo..,'). E sempre poderíamos acusar o islam e o protestantismo de assassinos pelo simples fato de Maomé e Lutero terem cometido assassinatos...

No entanto entrar diretamente por este caminho, confundido pessoas com ideais, seria desonesto e apelativo.

Coisa de quem não tem argumentos com que combater o Comunismo.

Então apelam a jargões imbecis... típicos da sifilização yankee.

Resta-me dizer que se Marx jamais foi proletário e lhe faltava experiencialidade neste sentido, sobejava a mesma experiencialidade a Católica Simone Weil, a qual com não menos veemência denunciou em nome do Sagrado as atrocidades perpetradas pelo materialismo economicista. Isto após ter abandonado sua vida burguesa e folgada para trabalhar durante mais de um ano numa fábrica, ficando com a saúde comprometida para o resto de seus dias.

Então se não nos demove o testemunho do ateu Marx arrasta-nos o testemunho da devota Simone Weil.


sábado, 16 de abril de 2011

Espantalho e Wellington Menezes de Oliveira o que eles tem em comum?

O que o Espantalho um dos inimigos do Batman tem a ver com o Wellington Menezes de Oliveira? Espantalho é um personagem fictício enquanto Wellington foi um ser real, mas ambos tem algo em comum, a saber: o bullyng. O Espantalho, Jonathan Crane é um psicólogo e cientista e em algumas histórias, psiquiatra. Quando criança e adolescente, o futuro Espantalho, sofreu bullyng por ser tímido, fraco e esquisito. Ele cresceu com desejo de vingança não só contra aqueles que lhe maltrataram mas contra toda a humanidade. Com o serial killer do Realengo aconteceu a mesma coisa, foi humilhado e sofreu maus-tratos e esses fatos são as causas do efeito que foram as mortes dos 12 adolescentes da escola que fica em Realengo. Sempre gostei de ler os Hqs (histórias em quadrinhos) do Batman, não pelo Batman em si, mas pelos perfis psicológicos bem traçados, bem delineados. Em minha opinião os Hqs do Batman são ótimos manuais de psicologia. Através deles percebemos que não existe uma natureza humana intrinsecamente má, pelo contrário, as pessoas se tornam más por uma série de fatores que sofreram e que suas mentes não conseguiram suportar. Então, esses bandidos são antes vítimas da sociedade do que fascínoras como a mídia nos quer fazer acreditar. Com isso, não estou afirmando que concordo com o falecido Wellington, mas entendo que seus atos não foram atos isolados, mas são fatos ligados a outros fatos, ou seja, uma sucessão de causa e efeito. O Espantalho do Batman também não é um bandido mau por natureza, mas vítima de uma sociedade hipócrita que se guia mais pelas aparências do que pela essência. A sociedade cria seus monstros e depois quer matá-los.