- Como já dissemos nem Descartes nem Spinoza foram iconoclastas no sentido de negar por completo o passado ou o pensamento antigo. Criaram algo novo, novos espaços e setores, os quais todavia conectaram aquele passado. Tampouco Hume ou mesmo La Mothe Vayer, assim Montaigne criaram algo que fosse radicalmente novo, remontando sempre aos céticos do passado ou a tradição agostiniana. Kant é quem criou algo de novo ou um novo sistema, merecendo ser classificado como Copérnico ou Lutero da Filosofia. Foi ele que, buscando elaborar uma solução de compromisso entre o ceticismo e o dogmatismo, produziu o idealismo transcendental ou crítico condenando o exercício da Metafísica ou melhor da Teodiceia e buscando justificar o conhecimento derivado do empirismo, do que resultou a ideologia positivista. Buscou assim Kant evadir-se ao materialismo, ao espiritualismo, ao teísmo e ao ateísmo, lançando as bases do agnosticismo.
No entanto este mesmo Kant, enquanto pensador do conhecimento ou gnoseológico, fugiu a simples empiria e praticou a especulação metafísica. Resulta disto que não repudiou a Metafísica como um todo, e que fez um recorte, focalizando sua crítica na Teodiceia i é em Deus e por ext na imortalidade da alma, com o objetivo de apresentar tais problemas como intangíveis ao intelecto e assim como insolúveis. Agora por que fez Kant este recorte, fixando arbitrariamente (Onde achou ou quis.) as "Colunas de Hércules" da reflexão? Para dar competente resposta a indagação acima devemos ter em mente que esse tão aclamado Kant era Luterano - Jamais rompeu formalmente com essa fé - e que Lutero, irracionalista e fideísta (Agostiniano), tinha Aristóteles, a Filosofia greco romana, o pensamento clássico, a Teodiceia naturalista e a própria razão em conta de seus principais inimigos (Mais do que o Papa romano). Lutero queria tudo atribuir a fé e Kant seguiu-o, atribuindo o tema de Deus a religião, a fé ou aos livros religiosos, e dando todos os antigos gregos por perfeitos estúpidos. Kant foi um imitador de Pirro no sentido de buscar justificar metafisicamente ou filosoficamente um preconceito de origem religiosa, no primeiro caso o Luteranismo e no segundo o Busdismo... a dinâmica é a mesma - A Epoché continua sendo budista (Assim a ataraxia) e o fideísmo gnoseológico continua sendo luterano, sem que haja verdadeiro conteúdo filosófico em tais afirmações. No primeiro caso temos apenas uma mutilação arbitrária e no segundo uma fuga face a reflexão filosófica. (cf Kant e a Teologia)
- Quanto a linguagem ou expressão, bastante complexa, com que nos deparamos na obra de Kant há muita crítica injusta e destemperada. Que hajam graves contradições - Apontadas com habilidade pelo Pe Thiago Sinibaldi - em seu pensamento é assente e demonstrável, que tenha cunhado expressões ocas nos parece exagerado e injusto. Kant visava dar golpe de misericórdia na escolástica (A qual recusava-se a estudar - O que nos parece bem pouco filosófico). Para tanto foi a suas fontes mais remotas i é a Aristóteles (Campeão da Teologia natural) cujo vocabulário técnico, bastante complexo, adota e assume. Kant não tem culpa de que os modernos ou pós modernistas ignorem supinamente o aparato conceitual aristotélico.
- Resta dizer que quem é por Kant, esta em conflito aberto com tudo quanto o antecede, assim com Parmenides, Anaxágoras, Sócrates, Platão, Aristóteles, Speusipos, Straton, Dikaiarkos, Xenócrates, Crantor, Zenon, Antioco, Cícero, Sêneca, Filiponos, Eurígena, Aquino, Scottus, Phleton, Ficcino, Pomponnazi, Telésio, Erasmo, Bacon, Descartes, Spinoza...
- Outro é o caso de Hegel, metafísico confesso, o qual prosseguiu decididamente na senda traçada por Leibnitz, construindo expressões ainda mais grotescas, pomposas e vazias (cf Schopenhauer) Criou uma Filosofia de bolha de sabão ou bexiga, a custa de tais expressões sem sentido e disto resultou outro sistema bastante aclamado em torno do Estado, o qual a partir de um lento processo imanente identifica com o pensamento divino. Deste homem confuso e desorientado partiram todos os idealistas alemães como Fichte, Schelling e aqueles tão criticados por Marx na 'Ideologia alemã', cada qual apresentando uma versão própria da 'filosofia' e pagando tributo a um subjetivismo desbragado. A reação, como não poderia deixar de ser, foi a 'inversão' de Marx, i é, em termos já de materialismo/ateísmo ou de positivismo. Em certo sentido Hegel, pela via da compulsão, conduziu a metafísica alemã ao colapso e a morte, fortalecendo a posição dos kantianos e marxistas.
- Marx, não se satisfazendo com a metafísica materialista mecanicista dos iluministas franceses (Helvetius e De Holbach), adicionou alguns temperos hegelianos e a partir de uma análise histórico social, formulou sua doutrina do materialismo dialético. O preconceito materialista seja sob um ou outro rótulo, cegou-o e desviou-o para sempre de um são realismo. Ele jamais pode reconhecer, em pé de igualdade com as forças materialistas de produção, o potencial concreto das ideias fossem ou não religiosas. Concedemos que deparou com uma Sociedade materialista e economicista e com uma religiosidade - Representada pelo protestantismo - derrotada e servil... No entanto este encontro não justifica a generalização abstrata com que pretendeu, a partir desta realidade particular ou específica, explicar todo processo histórico, desde a História primitiva, incluindo a Antiguidade e a I Média. Fugiu aos limites do simples recorte e metafisicou.
A simples existência dos mártires Cristãos dos primeiros séculos ou da substituição do paganismo antigo pelo Cristianismo, a dinâmica do islamismo ou do Japão e China budistas e o significado do socratismo deveriam te-lo alertado a respeito de suas precipitações. Especialmente após Fustel de Coulanges - Antecipando Weber, Graves, Dawson, Butterfield e Voeglin - ter publicado sua monumental 'Cidade antiga'.
- Atenuando as críticas nem sempre justas e sensatas de Popper convém admitir que a obra de Marx possui dois aspectos: Um objetivo ou como dizem científico que é sua análise crítica do capitalismo mormente representada pelo Capital. Esta não apenas permanece válida como foi utilizada por J M Keynes. O outro aspecto parece fugir a sua orientação - Não a nossa! - materialista, pré positivista, anti metafísica, etc é seu apelo a uma normatividade ética ou ideal ou seu futurismo. Marx, ao contrário dos demais empiristas/materialistas ressente, ao fim de tudo, uma influência Socrático/Cristã. Pelo simples fato de não contentar-se com uma realidade dada (O que é) tida em conta de injusta, ousando crítica-la e substitui-la por uma outra ordem, a qual só pode ser derivada de princípios ou valores ideais. Disto resultou a Ideologia Comunista, a qual apesar de seus equívocos monstruosamente bizarros, foge ao conformismo anti ético e até cruel de seus críticos ateus, materialistas, positivistas e cientificistas. Ora os humanistas e Cristãos, mesmo discordando quanto aos métodos propostos por Marx e seus colaboradores, não podem acompanhar os ateus, materialistas, positivistas e cientificistas quanto a aceitação passiva de uma realidade ingrata ou injusta. E por isso, em que pesem os erros gravíssimos do comunismo, ousam declarar que a posição de parte de seus críticos é ainda pior e mais grave.
- Já aludimos diversas vezes ao erro de Freud. Como Marx ele fugiu aos limites do recorte e dando com uma realidade cultural ou particular, abstraiu do tempo do tempo e do espaço, elaborando uma metafísica pan sexualista posteriormente emendada ou reformada com base nas sensatas críticas elaboradas por seus ex discípulos. De modo que num determinado momento o próprio Freud - Sem jamais retratar-se formalmente - rompe com o paradigma sexualista e admite outros princípios de regulação. Sua abstração metafísica, como a de Marx, é grotesca. Não seu método ou o caráter relativo de suas constatações, menos ainda o resultado de sua crítica ao puritanismo/moralismo vigente. Claro que a partir de suas críticas parte da Sociedade passou ao extremo contrário, i é a um sexismo desbragado, com sérias consequências sociais, políticas e culturais. Em que pese este desvio continuamos buscando utopicamente por um padrão de equilíbrio em que a sexualidade humana seja aceita com naturalidade, mas, sem ser deificada ou exaltada acima de tudo.
- Darwin alias é anterior a Freud. Porém queríamos estabelecer uma conexão entre o erro de um e de outro. Darwin não pertence aos domínios da Filosofia ou do pensamento abstrato posto que pesquisador ou naturalista. Era ele um homem do empirismo. No entanto sua formulação teorética - já antecipada por Lamarck, St Hillaire e outros - não poderia deixar de incidir sobre todos os domínios do pensamento humano - Psicologia e teologia, passando pela economia e pela sociologia. Foi a partir dele que o naturalismo converteu-se num paradigma, mais do que a própria evolução. Assim ele coroa a obra de Copérnico, Agricola, Newton, Hutton e Buffon/Lamarck/St Hilaire, demonstrando que o corpo humano esta inserido na ordem natural e que também este homem vaidoso não passa de um animal, ainda que racional. Não é o centro do universo, tampouco o centro da terra e sequer o centro da vida. Destarte terá este homem de procurar sua particularidade gloriosa na capacidade perceptiva e racional para a reflexão e para a apreensão das verdades metafísicas. A Filosofia é que lhe trará o sentido especial que sempre buscou por caminhos errados. É este homem um dentre tantos animais, vagando sobre um grão de pó na periferia do espaço... E no entanto, como dizia Pascal nos 'Pensamentos', tem consciência de si ou pensa, enquanto que nem Júpiter, nem o Sol, nem Arcturo tem consciência de si ou capacidade para pensar. É um caniço, um verme, um grão de poeira ou uma átomo perdido na imensidão do universo, e ainda assim caniço, verme, poeira ou átomo pensante...
- Einstein, o qual jamais supos que sua teoria física da relatividade geral fosse gnoseologicamente relativa ou duvidosa, demoliu o mito do espaço absoluto. Tudo quando temos em nosso universo é uma relação entre corpos em movimento. Neste universo que se expande ou amplia tudo esta em movimento, pois o estado de repouso é relativo a certas situações vividas por nós humanos. Este computador bem pode estar em repouso com relação a mim... Move-se no entanto caso esteja eu num trem. Move-se com as placas tectônicas, com o planeta, com a galáxia, com o universo... Tudo é movimento. E o tempo uma propriedade deste universo em expansão. Por isso nosso referenciais de tempo são relativos a terra ou ao sol, não absolutos. Quiçá o aspecto mais interessante da teoria da relatividade geral não seja a teoria em si - Simples dedução com base nas experiências feitas por Morley em 1881 - mas sua expressão (Tomada a Descartes e Newton) em termos matemáticos cujo sentido e exatidão pouquíssimos intelectuais foram capazes de compreender.
Mostrando postagens com marcador Darwin. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Darwin. Mostrar todas as postagens
domingo, 1 de março de 2020
Nótulas sobre o pensamento contemporâneo
Marcadores:
budismo,
ceticismo,
cultura,
Darwin,
Einstein,
Freud,
Hegel,
Id transcendental,
irracionalismo,
Kant,
Kantismo,
luteranismo,
Lutero,
Marx,
marxismo,
metafísica,
naturalismo,
positivismo,
protestantismo,
Tradição
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020
Marx, Darwin e Freud, três intelectuais face ao Sagrado.

Caso houvesse concurso de mentiras ou lorotas não sei quem ganharia. Se os neo ateus cientificistas ou seus desafetos fundamentalistas. Basta dizer que uns e outros amam classificar o grande Ch Darwin como ateu em suas publicações ineptas... E por ai vai - Os sectários fanáticos classificam como ateus e materialistas, irreligiosos, etc a tantos quantos repudiam seu deus retangular, a bíblia e os neo ateus, aplaudem e declaram: É exatamente assim, encampando um bom número de irreligiosos e agnósticos que jamais negaram a existência de um Supremo Ser ou de uma Consciência universal...
Fenômeno curioso este de dois grupos extremistas e fanáticos explorando os mesmos boatos, fábulas e mentiras. Sem pingo de dor na consciência... Uns quiçá por crerem que o rubro sangue do Nazareno tudo lave, e outros por repudiarem um padrão universal de bem ou virtude.
Por isso resolvi escrever algumas linhas sobre os grande ateus ou sobre os grandes ateus inventados. E começarei por Karl Marx. O qual era ateu de fato, mas de modo algum fanático como seus pretendidos seguidores ou sucessores, que parecem ter chegado a fobia...
Materialista convicto não podia Marx admitir a existência de um princípio espiritual ou imaterial paralelo, por inferência era ateu num sentido muito próximo do de Sartre: A existência dum tal Ser não lhe interessava, além de é claro parecer-lhe sem sentido. Alias, como um materialista poderia encontrar sentido numa entidade Imaterial e Invisível. No entanto Marx não perdia seu tempo precioso buscando convencer os religiosos e teístas ou visando converte-los ou salva-los. De fato ele não entrava em discussões metafísicas como o teófobo Seb. Faure... Não se empenhava em demonstrar ou provar, através de argumentos, a inexistência de Deus.
Mais ainda. O odiado Marx parece até ter tido respeito e sabido lidar muito bem com os sentimentos religiosos alheios, não lhe faltando até certa delicadeza. Ocorre-me ter lido, quando moço, trechos da correspondência que trocará com uma garota ou menina, na qual a mesma aludia ao costume de ir a Missa com a família todos os Domingos. Em certo momento Marx assim se expressa: 'Como de costume sei que iras a Missa...' e 'Porém depois que chegares da Missa...' sem revelar a jovem qualquer sentimento amargo ou negativo. Enquanto qualquer pentecostal fanático diria a queima roupa: A Missa é uma cerimônia demoníaca... em nome de seu belo deus e de seu teísmo azedo e supersticioso. O ateu e 'diabólico' Marx no entanto não procede assim. Parece até saber compreender, tolerar e colocar-se no lugar do outro... Parece que aprendeu muitas coisas boas com o capeta ou com o não deus...
Freud é outro departamento. Ao contrário de Marx e Sartre era ateu forte... tendo o costume de destilar seu ateísmo a todo instante. E juntamente com ele, por admirável força de coerência, toda sua falta de esperança. Um ateu não deveria abrigar o veneno metafísico da esperança em seu coração dizia ele. Evolucionismo, progressivismo e outros vestígios de misticismo Cristãos haviam sido lançados ao limbo por ele bem antes da crítica ácida de Grayling e outros. Para este grande representante do ateísmo, mais do que para o fanático Agostinho de Hipona, os bebês nada mais eram que malvados polimorfos e o homem algo semelhante a um verme ou parasita.
Apesar disto Freud, como todos os neo ateus sentia imenso mal estar em dialogar ou discutir sobre a teísmo natural dos antigos gregos. Em "O futuro de uma ilusão" não hesita sair pela tangente e declarar que esse Deus, o da metafisica racional, de Platão, de Aristóteles ou dos Filósofos, não o interessava. O deus que interessava a Freud, como a Dawkins e a tantos outros, era apenas o espantalho fetichista dos fanáticos religiosos e fundamentalistas i é à la Genesis... Assim, lançando-se contra esse espantalho, fica mesmo fácil...
Agora onde procurar as fontes do ateísmo freudiano? Há uns poucos anos lí uma análise psicanalítica segundo a qual Freud transplantou o ódio que sentia pelo pai e rival para Deus... Achei delicioso, no entanto minha opinião é bem outra. Quiçá a dor e a indignidade física tenham consolidado o grande psicólogo em sua posição. Afinal desde 1920 até a ocasião de sua morte passou ele por cerca de vinte intervenções cirúrgicas, devido a um câncer bucal extremamente invasivo. A cabo do processo esta terrível enfermidade lhe havia destruído a mandíbula e arrancado a lingua. As dores eram lancinantes e a morfina já não conseguia alivia-las... Por fim houve uma rejeição da prótese e necrose, o cheiro tornou-se tão repugnante que afugentou-lhe os queridos cães. Diante disto ele suplicou por uma dose maior de anestésicos e... Pense então numa pessoa que padece de dores atrozes e que por fim se vê apodrecer viva. Coloquem-se no lugar dela. Tentem identificar-se... Difícil estar no lugar de Freud sem pensar como ele ou até revoltar-se. Fácil falar sentado sobre as poltronas do sofá... Julgo melhor tentar compreender mais e julgar menos. Quero dizer apenas que Freud, a partir de sua experiência diária ou de sua vivência, não tinha lá motivos muito fortes para mudar de posição face ao problema de Deus.
Tanto pior se me disser que o deus 'sábio' serviu-se da moléstia que o consumia para castiga-lo. Ora todo castigo vindo de um Ser Bom, Generoso e Filantropo só pode ser a recuperação do homem e não para sua exasperação. No entanto supostas punições, dolorosas e desumanas como estas, só serviram mesmo para exasperar e produzir revolta nos corações dos mortais. Concluo que o deus dos fanáticos nada sabe sobre atrair e reconciliar os seres que criou. Sua pedagogia é um completo fracasso ou um reforço do ateísmo. Já a simples hipótese de estar ele exercendo vingança não passa de sadismo, i é o reforço do sacrilégio e da blasfêmia. Melhor aceitar o fato de que semelhantes desgraças são meros acidentes com que nos brinda a natureza ou a sorte, sem que a excelsa divindade tenha qualquer coisa a ver com elas...
Chegamos assim a Darwin. O qual jamais professou qualquer forma de ateísmo. Haja visto sua reflexão a respeito da sabedoria divina e do processo evolutivo em termos naturais contida na própria Origem das espécies. Religioso durante a primeira quadra da vida e destinado ao ministério eclesiástico confrontou-se aquela mente, antes de tudo, com a grosseria do Gênesis e da mitologia hebraica, porque se batem até hoje os fanáticos bíblicos, não com Deus.
Os advogados da mitologia no entanto, como Sedwigck, não pouparam esforços para fazerem-no avançar em sua posição. O que tal e qual no caso Freud foi reforçado pela própria vivência ou pela experiência pessoal. Pois Darwin teve de assistir a morte de dois de seus rebentos amados, o pequeno Charles, levado pela escarlatina e sua filha predileta e companheira Anne, após lenta agonia, aos dez anos de idade. Desde então parece ter perdido a fé e se tornado deísta. A partir daí podemos observar sucessivas crises existenciais oriundas duma existência tocada pelo sentido trágico da vida, por delicadeza, lirismo e recaídas religiosas... Foram sucessivas crises, idas e voltas, revisões, jamais privadas de uma grave consciência espiritual.
Sua trajetória no entanto, sequer parou por aqui, pois Darwin apenas encontrou escolhos metafísicos jamais vislumbrados antes e assim dignos de nota. Com efeito em suas ulteriores pesquisas pode observar o que compreendeu como um certo índice de malignidade presente na própria natureza ou no mundo natural. Observou o excesso de vida e a carência de alimentos, assim a fome. Observou em certos animais costumes bastante bizarros, que chegam a crueldade. Observou que ao menos em parte o processo evolutivo é estimulado pelo incomodo ou pela dor, enfim por situações de sofrimento, catástrofes, etc Passou então a ter dificuldades para relacionar tais fatos como conceito de um Deus bom e misericordioso... Tanto mais pesquisava e mais parecia divisar uma face maléfica na natureza, representada alias por sua seleção natural. Diante disto, nos últimos anos de vida, parece ter passado do deísmo ao agnosticismo e chegado a duvidar da existência de Deus, sem no entanto jamais obter qualquer certeza a respeito.
Em seus últimos dias Ch. Darwin a todos recebia em seu convívio fossem clérigos, religiosos ou teóricos ateístas... Com uns rezava, em companhia de Emma, com outros ouvia, não poucas vezes ferozes preleções contra a fé religiosa ou mesmo favoráveis ao ateísmo, sem todavia jamais endossa-las formalmente e até exigir certo decoro ou respeito. A atitude muito parecia-se com a de um agnóstico, ao qual fugiam todas as certezas e ambas as metafísicas: A teísta e a ateística... Darwin jamais declarou estar convencido sobre a inexistência de Deus ou tentou demonstra-lo. Tampouco desejava polemizar fosse com os ateus ou com os religiosos... Sua atitude sabe a neutralidade ou isenção, bem a gosto da divisa: Ignorabimus et ignorabimus. Tal parece ter sido seu ponto de vista definitivo, no momento em que abandonou esta existência, portanto apresenta-lo como ateu ou ateu forte sabe a mentira grossa e cabeluda.
Religiosos e ateus sejam antes de tudo honestos, evitando atribuir suas opiniões aos outros ou o que é ainda pior atribuir-lhes uma concepção que julgam ser indigna, porque em ambos os casos vocês, falseando a realidade histórica - Em nome de seus queridos sistemas! - é que se tornam indignos.
Fenômeno curioso este de dois grupos extremistas e fanáticos explorando os mesmos boatos, fábulas e mentiras. Sem pingo de dor na consciência... Uns quiçá por crerem que o rubro sangue do Nazareno tudo lave, e outros por repudiarem um padrão universal de bem ou virtude.
Por isso resolvi escrever algumas linhas sobre os grande ateus ou sobre os grandes ateus inventados. E começarei por Karl Marx. O qual era ateu de fato, mas de modo algum fanático como seus pretendidos seguidores ou sucessores, que parecem ter chegado a fobia...
Materialista convicto não podia Marx admitir a existência de um princípio espiritual ou imaterial paralelo, por inferência era ateu num sentido muito próximo do de Sartre: A existência dum tal Ser não lhe interessava, além de é claro parecer-lhe sem sentido. Alias, como um materialista poderia encontrar sentido numa entidade Imaterial e Invisível. No entanto Marx não perdia seu tempo precioso buscando convencer os religiosos e teístas ou visando converte-los ou salva-los. De fato ele não entrava em discussões metafísicas como o teófobo Seb. Faure... Não se empenhava em demonstrar ou provar, através de argumentos, a inexistência de Deus.
Mais ainda. O odiado Marx parece até ter tido respeito e sabido lidar muito bem com os sentimentos religiosos alheios, não lhe faltando até certa delicadeza. Ocorre-me ter lido, quando moço, trechos da correspondência que trocará com uma garota ou menina, na qual a mesma aludia ao costume de ir a Missa com a família todos os Domingos. Em certo momento Marx assim se expressa: 'Como de costume sei que iras a Missa...' e 'Porém depois que chegares da Missa...' sem revelar a jovem qualquer sentimento amargo ou negativo. Enquanto qualquer pentecostal fanático diria a queima roupa: A Missa é uma cerimônia demoníaca... em nome de seu belo deus e de seu teísmo azedo e supersticioso. O ateu e 'diabólico' Marx no entanto não procede assim. Parece até saber compreender, tolerar e colocar-se no lugar do outro... Parece que aprendeu muitas coisas boas com o capeta ou com o não deus...
Freud é outro departamento. Ao contrário de Marx e Sartre era ateu forte... tendo o costume de destilar seu ateísmo a todo instante. E juntamente com ele, por admirável força de coerência, toda sua falta de esperança. Um ateu não deveria abrigar o veneno metafísico da esperança em seu coração dizia ele. Evolucionismo, progressivismo e outros vestígios de misticismo Cristãos haviam sido lançados ao limbo por ele bem antes da crítica ácida de Grayling e outros. Para este grande representante do ateísmo, mais do que para o fanático Agostinho de Hipona, os bebês nada mais eram que malvados polimorfos e o homem algo semelhante a um verme ou parasita.
Apesar disto Freud, como todos os neo ateus sentia imenso mal estar em dialogar ou discutir sobre a teísmo natural dos antigos gregos. Em "O futuro de uma ilusão" não hesita sair pela tangente e declarar que esse Deus, o da metafisica racional, de Platão, de Aristóteles ou dos Filósofos, não o interessava. O deus que interessava a Freud, como a Dawkins e a tantos outros, era apenas o espantalho fetichista dos fanáticos religiosos e fundamentalistas i é à la Genesis... Assim, lançando-se contra esse espantalho, fica mesmo fácil...
Agora onde procurar as fontes do ateísmo freudiano? Há uns poucos anos lí uma análise psicanalítica segundo a qual Freud transplantou o ódio que sentia pelo pai e rival para Deus... Achei delicioso, no entanto minha opinião é bem outra. Quiçá a dor e a indignidade física tenham consolidado o grande psicólogo em sua posição. Afinal desde 1920 até a ocasião de sua morte passou ele por cerca de vinte intervenções cirúrgicas, devido a um câncer bucal extremamente invasivo. A cabo do processo esta terrível enfermidade lhe havia destruído a mandíbula e arrancado a lingua. As dores eram lancinantes e a morfina já não conseguia alivia-las... Por fim houve uma rejeição da prótese e necrose, o cheiro tornou-se tão repugnante que afugentou-lhe os queridos cães. Diante disto ele suplicou por uma dose maior de anestésicos e... Pense então numa pessoa que padece de dores atrozes e que por fim se vê apodrecer viva. Coloquem-se no lugar dela. Tentem identificar-se... Difícil estar no lugar de Freud sem pensar como ele ou até revoltar-se. Fácil falar sentado sobre as poltronas do sofá... Julgo melhor tentar compreender mais e julgar menos. Quero dizer apenas que Freud, a partir de sua experiência diária ou de sua vivência, não tinha lá motivos muito fortes para mudar de posição face ao problema de Deus.
Tanto pior se me disser que o deus 'sábio' serviu-se da moléstia que o consumia para castiga-lo. Ora todo castigo vindo de um Ser Bom, Generoso e Filantropo só pode ser a recuperação do homem e não para sua exasperação. No entanto supostas punições, dolorosas e desumanas como estas, só serviram mesmo para exasperar e produzir revolta nos corações dos mortais. Concluo que o deus dos fanáticos nada sabe sobre atrair e reconciliar os seres que criou. Sua pedagogia é um completo fracasso ou um reforço do ateísmo. Já a simples hipótese de estar ele exercendo vingança não passa de sadismo, i é o reforço do sacrilégio e da blasfêmia. Melhor aceitar o fato de que semelhantes desgraças são meros acidentes com que nos brinda a natureza ou a sorte, sem que a excelsa divindade tenha qualquer coisa a ver com elas...
Chegamos assim a Darwin. O qual jamais professou qualquer forma de ateísmo. Haja visto sua reflexão a respeito da sabedoria divina e do processo evolutivo em termos naturais contida na própria Origem das espécies. Religioso durante a primeira quadra da vida e destinado ao ministério eclesiástico confrontou-se aquela mente, antes de tudo, com a grosseria do Gênesis e da mitologia hebraica, porque se batem até hoje os fanáticos bíblicos, não com Deus.
Os advogados da mitologia no entanto, como Sedwigck, não pouparam esforços para fazerem-no avançar em sua posição. O que tal e qual no caso Freud foi reforçado pela própria vivência ou pela experiência pessoal. Pois Darwin teve de assistir a morte de dois de seus rebentos amados, o pequeno Charles, levado pela escarlatina e sua filha predileta e companheira Anne, após lenta agonia, aos dez anos de idade. Desde então parece ter perdido a fé e se tornado deísta. A partir daí podemos observar sucessivas crises existenciais oriundas duma existência tocada pelo sentido trágico da vida, por delicadeza, lirismo e recaídas religiosas... Foram sucessivas crises, idas e voltas, revisões, jamais privadas de uma grave consciência espiritual.
Sua trajetória no entanto, sequer parou por aqui, pois Darwin apenas encontrou escolhos metafísicos jamais vislumbrados antes e assim dignos de nota. Com efeito em suas ulteriores pesquisas pode observar o que compreendeu como um certo índice de malignidade presente na própria natureza ou no mundo natural. Observou o excesso de vida e a carência de alimentos, assim a fome. Observou em certos animais costumes bastante bizarros, que chegam a crueldade. Observou que ao menos em parte o processo evolutivo é estimulado pelo incomodo ou pela dor, enfim por situações de sofrimento, catástrofes, etc Passou então a ter dificuldades para relacionar tais fatos como conceito de um Deus bom e misericordioso... Tanto mais pesquisava e mais parecia divisar uma face maléfica na natureza, representada alias por sua seleção natural. Diante disto, nos últimos anos de vida, parece ter passado do deísmo ao agnosticismo e chegado a duvidar da existência de Deus, sem no entanto jamais obter qualquer certeza a respeito.
Em seus últimos dias Ch. Darwin a todos recebia em seu convívio fossem clérigos, religiosos ou teóricos ateístas... Com uns rezava, em companhia de Emma, com outros ouvia, não poucas vezes ferozes preleções contra a fé religiosa ou mesmo favoráveis ao ateísmo, sem todavia jamais endossa-las formalmente e até exigir certo decoro ou respeito. A atitude muito parecia-se com a de um agnóstico, ao qual fugiam todas as certezas e ambas as metafísicas: A teísta e a ateística... Darwin jamais declarou estar convencido sobre a inexistência de Deus ou tentou demonstra-lo. Tampouco desejava polemizar fosse com os ateus ou com os religiosos... Sua atitude sabe a neutralidade ou isenção, bem a gosto da divisa: Ignorabimus et ignorabimus. Tal parece ter sido seu ponto de vista definitivo, no momento em que abandonou esta existência, portanto apresenta-lo como ateu ou ateu forte sabe a mentira grossa e cabeluda.
Religiosos e ateus sejam antes de tudo honestos, evitando atribuir suas opiniões aos outros ou o que é ainda pior atribuir-lhes uma concepção que julgam ser indigna, porque em ambos os casos vocês, falseando a realidade histórica - Em nome de seus queridos sistemas! - é que se tornam indignos.
Marcadores:
agnosticismo,
ateísmo,
Darwin,
deísmo,
dor,
Falsificações,
Fanáticos,
Fé religiosa,
Freud,
Fundamentalistas,
Honestidade,
Marx,
Mentiras,
natureza,
Religiosos,
sofrimento,
Subjetividade,
teísmo
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020
Os cavaleiros do apocalipse vs obscurantismo bíblico/protestante
Já assinalamos que quase um século antes de ter sido, o heliocentrismo, condenado pelo papa romano, fora condenado, na pessoa de Copérnico, pelo pai e criador do protestantismo... Significativo que a Igreja Romana não tenha sido fundada pelo tal papa mas que o movimento protestante seja obra desse Lutero obscurantista.
Ora este Copérnico, juntamente com Darwin e Freud foi um dos responsáveis, aliás o primeiro, a atingir a megalomania humana no coração. Afinal o diácono polonês deslocou o pobre homem do centro para a extrema periferia do universo. Assim como Darwin lançou dos céus na terra ou no mundo animal a que pertencia por definição, inda que apresentado como rei... Ora ser racional não é ser rei e tampouco a racionalidade elimina a animalidade... Freud - Cujas teses meio metafísicas são bem mais duvidosas e questionáveis - por fim demonstrou que não é este homem uma unidade estável mas uma fragmentação dinâmica.
Agora se Copérnico ou heliocentrismo, cujo anátema foi levantado pela igreja luterana com vinte anos de atraso face ao papismo (Encarado por muitos como a quintessência da obscuridade), foi assim tratado pelas 'bens bíblica, imagine o amigo leitor o que estava reservado aos continuadores de Copérnico inseridos nessa cultura protestante que muitos julgam tão progressista.
O próprio Servet, mandado queimar a lenha verde pelo reformador Calvino na praça Champel sob a acusação de arianismo ou anti trinitarismo, aliás mero fruto ou resultado de seu livre exame não tão livre, não deixou de ser ridicularizado pelos fanáticos por ter defendido a circulação do sangue movido pelo coração, o que efetivamente foi demonstrado por Acquapendente e Harvey meio século depois.
Também Melanchton, ao ser confrontado por Clavius e Maestlin sobre as manchas solares, preferiu fechar obstinadamente os olhos, o que repercutiu no luteranismo, fazendo com que Ihonnes Kepler, como seu mestre Tycho Brahe seguissem em demanda da Áustria, centro do império Habsburgo, papistas. Ali foi que, sob os auspícios de uma monarquia 'católica' desenvolveram seus roteiros de pesquisa e fizeram suas descobertas, alheios à cultura protestante ou bíblica, a qual por fim abjuraram, o segundo positivamente, o primeiro presumivelmente.
Em meados do século seguinte foia vez do luterano dinamarquês Niklaus Stenius ser confrontado pelos pastores luteranos já por ter sido um dos primeiros homens modernos a estudar os fósseis - Sendo apontado por muitos como o pai da Paleontologia - já por suspeitar apenas quanto a validade da cronologia curta ou massoretica. Foi o quanto bastou para atrair o furor dos bibliolatras... Diante disto concluiu ele que a igreja papa era mais flexível e aderiu a ela, chegando a tornar-se prelado.
A seguinte vítima da intolerância científica protestante foi o astrônomo sueco Nils Celsius, cujo caso, bem mais grave do que o de Galileu, posto que ocorrido em 1679, é muito pouco conhecido e divulgado entre a gente 'culta'. Pois nesse infausto ano foi o dito cientista condenar o pela Universidade de Upsala, em nome da bíblia, já por ensinar o odiado heliocentrismo de Copérnico, já por questionar a doutrina da inspiração plenária. Disputas e edições foram proibidos e ainda em 1691, nove anos após Sir Isaac Newton ter divulgado a lei da gravitação universal, Spole e outros acadêmicos suecos, que há muito ensinavam Copérnico, tiveram de ajudar e tornar ao modelo egocêntrico, tão caro ao sectarismo bíblico...
Segue -se o caso Rousseau. Cuja primeira edição do Emilio foi publicamente queimada em Genebra e o autor condenado, isto em pleno século das Luzes i é o décimo oitavo. Pouco faltou para Rousseau não se converter num novo Servet, com dois séculos de atraso. Diante disto transferiu se o ilustre genebrino para Neuchatel, onde apesar da proteção com que contava da parte dos homens mais ilustres e influentes da Europa foi ameaçado e perturbado pelos pastores locais, os quais queriam po-lo a ferros. Ora isto não foi obra da Igreja velha ou do papa, mas do protestantismo 'progressista' e levada a cabo no seu centro ou coração.
É verdade que a mesma obra fora condenada e queimada pouco tempo antes por ordem do Parlamento de Paris, em tese formado por bons católicos. Bravata, pois a este tempo ainda era o Parlamento de Paris, dominado, senão pelos jansenista - agostinianos fiéis e excomungados - ao menos por seu espírito, essencialmente oposto aquele que se reflete no Emílio, o qual de imediato atraiu o odio, não dos papistas - Exceto se minoria liderada pelo cardeal Morris- mas dos rebeldes filo jansenistas. Ora o que os cripto jansenistas fizeram os calvinistas suíços souberam fazer bem melhor. O primeiro campo de concentração da humanidade - segundo o insuspeito Van Paasen - (Genebra) ainda não havia abandonado suas tradições. Afinal a pouco menos de dois séculos, o principal ícone intelectual da Europa, Erasmo (Vida Zweig ou R Bainton) havia sido igualmente ameaçado e expulso de Bale, pelos mesmos calvinistas...
Ocioso creio eu mencionar o químico inglês Joseph Prestley cujo laboratório valioso fora invadiďo e depredado por uma massa de fanáticos (Como sempre instigada pelos pastores em nome da bíblia) protestantes as vésperas do século XIX. Ele concluiu como Celsius, que apesar das aparências, a cultura papistas era mais tolerante. Cerca dos anos 20/30 foi a vez do velho Moleschott, abandonar a querida Holanda protestante e instalar se a metros do Vaticano i é em Roma, onde pode confortavelmente professar e divulgar seu materialismo.
Quanto a Darwin, passados século e meio, o terrorismo protestante ou criacionista está longe de cessar. Nem se trata aqui de introduzir Deus como motor ou dirigente do processo evolutivo, como alegam os ateus e materialistas por ingenuidade ou má fé, mas de afirmar e impor, como dogmática e indiscutível a letra do Genesis e isto mais de quinze séculos após Agostinho de Hipona ter composto o clássico Genesis ad Literam... Do que resultou, nos anos vinte do passado séculos o infame 'Processo do macaco' contra o professor Scopps, em pleno Estados Unidos!!! Quanto aos que enchem a boca pata falar sobre o index papal temos de dizer que em pleno ano de 1860 foi vedada a entrada da 'Origem das espécies' no Trinity College... Isto sem contar o fiasco de Wilbeforce. Imaginem só o estado de tensão que desabou sobre aquela Cristã sincera chamada Emma, sem que Jesus ou o Evangelho o sugerissem i é apenas devido a caturrice dos pastores judaizantes e a sua teologia ultrapassada da inspiração plenária ou do Corão Cristão, que ainda hoje teimam opor não apenas a Darwin mas a ciências contemporânea como um todo e isto a ponto de se terem precipitado no terraplanismo e no geo centrismo, pois querem tudo retroceder não a fase anterior a Copérnico mas ao Israel do século VII a C, a plena barbárie anti científica após todo caminho percorrido pela ciência desde Tales ou ao menos destes cinco últimos séculos. O protestantismo desconsidera tudo isto, e nem a embriologia, nem a cladística, nem o estudo comparado dos fósseis abala seus aderente.
Nos catolicismos Ortodoxo, romano ou anglicano temos - Triste é admiti-lo - criacionistas, e contumazes. Tais comunhões todavia não se apresentam como criacionistas. No protestantismo ativo de nossos dias temos a Torre de vigia e o adventismo com suas organizações e edições falaciosas, além de imenso número de divulgadores. Imagine agora a situação do pentecostalismo, cujos membros de modo geral nada sabem ou podem saber sobre ciência ou evolucionismo, por serem tais elaborações sacrílegas ou blasfemas e ponto, porque esta na bíblia ou o pastor falou, e não se questiona ou argumenta por se pecado, punido com castigos eternos. A que estão destinados todos os evolucionistas, marxistas e freudianos, a maior e melhor parte.
Que dizer agora a respeito de K Marx, homem honestamente equivocado quanto a seus pressupostos, método, reduções e propostas futurísticas ou normativas (Como o Comunismo)? Basta dizer que nos EUA é o prato principal dos pastores fabricantes de fabulas em conflito com a Lei divina. Afinal, por mais que discordamos de sua proposta - O comunismo (Não de sua análise das estruturas capitalistas ou de sua posição crítica) isto não nos autoriza a julgar sua pessoa e menos ainda a calunia-lo da forma mais vulgar, grosseria que foge não apenas ao Evangelho mas a qualquer Ética naturalista que se preze. SEGUEM no entanto os pastores que vivem de dízimo ou rápida, denunciando o trabalho intelectual desse autor ( A que chamam vagabundo diante do espelho!) ou simplesmente declarando que era um satanista ou adorador de Belzebu!!! O que só vem a relevar a natureza do sectarismo protestante...
Basta dizer que os protestantes de modo geral são ferozmente anti evolucionistas ( É não apenas anti darwinistas, nem Lamarck ou St Hilaire servem para eles), anti marxistas e anti freudianos, levando sua cruzada fundamentalista até a raiz das árvores i é até Copérnico... Equivalente disto temos somente no islamismo sunita mais virulento, de Hambal, Wahaab, etc Os nossos protestantes todavia não se acham na periferia da Civilização mas em seu bojo.
Meu objetivo aqui não foi nem é ocultar as limitações, vícios e mazelas da organização que assassinou Giordano Bruno, mas demonstrar que a consciência dos Católicos de modo geral, sempre foi mais aberta e flexível do que a mentalidade do protestante ortodoxo ou sectário de matriz calvinista ou pentecostal com seu paradigma da bibliolatria. A bem da verdade a própria cúpula da ICAR parece ter sido bem mais tolerante do que a multidão de seitas protestantes onde tiveram estas acesso ao poder político. ESTAS sempre se mostraram impermeáveis ou inacessíveis as formas mais desenvolvidas do conhecimento científico, pelo simples fato de sua religião, a bíblia, ser criticada ou sofrer restrições. ESSENCIALMENTE. Fetichista e mágico como o antigo testamento que Ad Literam idólatra e prisioneiro dessa caixa, não pode nosso sectário compreender ou aceitar o mundo natural seja nos termos de um Copérnico, de um Agrícola, de um Stenius, de um Rousseau, de um Darwin, de um Marx, de um Weber ou de um Freud... ou conceder mínimo espaço ao naturalismo, pois está fora de seus padrões mentais e exaspera-o, suscitando um furor destrutivo ou iconoclastico.
As massas que ora fabricamos não conseguem ultrapassar o padrão baixo e fetichista das partes menos nobres do Antigo Testamento. O que até mesmo os judeus modernos lograram fazer. Eles não conseguem superar os moldes ou limites da Tanak e muito se assemelham aos criticos de Anaxágoras ou Sócrates como Diopeites e Licon, homens culturalmente superados na Grécia do século V a C.
A consequência prática se tudo isto é que nossos liberais, cientificistas, comunistas, anarquistas, etc perderam o trem da História por não terem sabido aquilatar o significado e os riscos do protestantismo enquanto biblismo ou doutrina de inspiração plenária que autoriza um livro a julgar todas as coisas ou conhecimentos inapelavelmente. Até hoje desconsideram o aspecto virulento dessa fé e por isso estrategicamente tem mirado no alvo errado ou chutado cachorro morto. Comportando-se como aliados ingênuos do protestantismo teem dado sucessivos tiros nos próprios pés ou cometido suicídio.
Já está mais do que na hora de rever essa postura incoerente, não no sentido de blindar o papismo ou qualquer setor dos Catolicismos, mas, de trazer a luz as obras do protestantismo ao invés de ignora-las ou de oculta-las. Como ex protestante e pesquisador garanto que são mais amplas e graves. Vamos testar???
Marcadores:
bíblia,
Celsius,
ciência,
cientistas,
Copérnico,
Darwin,
fanatismo,
fetichismo,
Freud,
Maestlin,
Marx,
Melanchton,
Moleschoot,
naturalismo,
Prestley,
protestantismo,
Rousseau,
Servet,
Stenius
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020
Os cavaleiros do apocalipse ou a intelectualidade vs obscurantismo bíblico/protestante
Como ex protestante ousarei declarar que a humanidade tem pegado pesado com o papismo ou com os catolicismos de modo geral, e pegado demasiadamente pesado com o protestantismo e o princípio estreito do biblismo, abismo que se abre aos pés de nossa civilização, ora arrancada de seus fundamentos.
Observe o leitor que a bíblia - mesmo o Evangelho, cujo tema é a transcendência e não a verdade imanente ou científica - ou o antigo testamento, que é um livro ou registro escrito, jamais poderá pronunciar -se objetivamente no sentido de reconhecer a Evolução biológica dos seres vivos. Outro o caso do papismo, o qual na pessoa de seu chefe ou líder, Pio XII, na Encíclica "Humani generis", pode posicionar -se claramente no sentido de permitir que suas ovelhas assumissem como empiricamente veraz a Evolução do corpo. Tal pode parecer muito pouco aos olhos de alguns, porém, em comparação com o descontrole protestante assume contornos bastante significativos.
PERMITIU o livre exame, superficial e imvecilmente exercido pelas massas, que elas firmassem e afirmassem uma cultura fetichista/criacionista tomada a letra do Genesis e mantendo a letra do Genesis ao invés de dar passagem a uma solução crítica e libertadora. O que daqui resultou não foi nada libertador mas servil no mais alto grau posto que, o protestantismo ortodoxo e sectário, que vomitou injúrias sobre a Igreja antiga e a Tradição Cristã jamais pretendeu ou ousou criticar a bíblia, quero dizer os escritos judaicas e isto pelo simples fato de, com Calvino, ter canonizado a tese de um Corão cristão, infalível de capa a capa sob todos os aspectos. Tal a doutrina da inspiração linear ou plenária, a quintessência do obscurantismo protestante.
A parte disto parte do catolicismo antigo foi, por tradição, aberto a especulação racional ou ao padrão de pensamento grego, daí o surgimento da Teologia sistemática com Clemente e Orígenes, em Alexandria, a sombra da grande Biblioteca e enfim da corrente escolástica, da qual resultou, mesmo a partir de uma postura crítica ou hostil, o ressurgimento da Filosofia enquanto atividade autônomo. Nem Erasmo, nem Bacon, nem Descartes, nem Montaigne foram queimados ou excomungados pela igreja antiga. Mesmo Pomponazzi e Telesio puderam construir seus ousados sistemas na terra dos papás romanos e tal deve ser considerado.
O protestantismo, sendo ferozmente racionalista com Lutero e estreitamente bíblico com Calvino, tendia a ser mais negativo, como tende até hoje. Por isso pricipia ele, na pessoa do próprio fundador Lutero - Tido por muitos em conta de progressista - condenando Copérnico e o heliocentrismo, por ext., nos termos mais severos e categóricos, setenta anos antes do Vaticano. Totalmente injusto e absurdo fazer clamor em torno da condenação de Galilei pelo papa e passar em branco a condenação destemperada de Copérnico - aliás diácono da Igreja Romana! - pelo pai do protestantismo.
Talvez por isso cientistas como Agrícola terem repudiado tacitamente a nova fé, cujo real conteúdo aquilatatam. Mesmo um pensador ousado como Erasmo acabou por fim voltando se contra ela. Tampouco fora endossada pelo condenado Galileu, o qual, num de seus livros, põem abertamente em cheque a crença supersticiosa na inspiração plenária, explicitando que a ciência não é objeto ou parte da Revelação divina.
Logrou o protestantismo posterior ludibriar a platéia pelo simples fato de se ter cindido em múltiplas seitas, e de, no contesto europeu, seus ramos históricos, terem adotado - ao menos em parte - uma crítica naturalista que reverteu contra a bíblia e produziu uma religiosidade não apenas liberal mas incrédula.
Confiados na fragmentação do protestantismo em múltiplas seitas e na aparição de um grupo liberal, - De que faziam parte materialistas e ateus inclusive - os pensadores e cientistas incrédulos, em sua maior parte, jamais se deram ao trabalho de combate-lo, quando não o encararam, ingenuamente, como um aliado.
O papismo ou os catolicismos, em sua unidade credal e extensão pareciam bem mais ameaçadoras.
Foi uma análise precipitada e equivocada, posto que as aparências enganam. O protestantismo sobretudo, por atribuir a gente semi analfabeta um método monacal e acima de suas forças, tinha mesmo de fomentar um sectarismo de massas e assim um ethos fundamentalista calçado numa visão unitária (Por isso cooranica do Lívŕo) e numa visão superficial. Nem a visão de mundo estreita e não científica que possuíam exigia mais deles.
Tenho declarado, em minhas polêmicas com os defensores do livre exame bíblico, que tal exame até pode encaminhar a fé Ortodoxa é Católica, que é o conteúdo da verdade revelada ou ao menos a algum sentido histórico do Cristianismo, na periferia da objetividade ou da tradição. Para tanto porém jamais poderia ser livre quanto a forma, mas estrito, metódico, erudito, técnico e cientifico. Claro que estamos falando de um método restrito e elitista, exportado dos mosteiros cristãos. O qual dependia de toda uma estrutura educativa difusa, ainda hoje inexistente, quanto mais aquela época. Não era e não é algo para ser posto no acesso da gente simples, analfabeta ou sumariamente letrada.
O erro cabal dos protestantes foi querer estender este método ao povo. Um método ainda hoje reservado a teólogos ou a estudiosos consagrados ao estudo dos Evangelhos. O exame dos Evangelhos em sua dimensão literária (Deus originais são gregos como a República e a Memorabilia) assim cultural, histórica, geográfica... é coisa de médico ou jurista. Imaginem só os leigos e semi letrados praticando direito ou medicina??? Foi exatamente o que o protestantismo fez no âmbito da religião ou das Escrituras promovendo uma versão superficial, subjetiva e distorcida quase sempre judaizante e anti Cristã, mas também anti científica e irracionalista, pelo simples fato de estar calcada nos antigos mitos do antigo testamento, cujas raízes sumerianas tocam aos albores da História.
Eis porque este livre exame voluntarista e irresponsável, estimulado pela reforma nascente, tinha de resultar por fim num robustecer da consciência mitológica e numa postura a princípio irracionalista e enfim anti científica.
Em tempos de racionalismo e empirismo ou de controle mecânico por parte da Igreja antiga, nada disto assustava. Muito pelo contrário mais temiam os cientificistas dos catolicismos, devido a coerência interna que tais sistemas apresentavam e a couraça escolástica, buscando não poucas vezes enfraquece-los com o auxílio dessas seitas bíblicas, aliás bem mais próximas do modelo norte americanista ou capitalista que acalentavam. Aliás as seitas ainda servem este propósito cultural inserido na imanência...
Todavia em tempos de pós modernismo, - Quando pensadores é filósofos da ciência tornam a Hume e Kant, arrematado contra a experiência e o raciocínio, e arvorado as bandeiras do ceticismo e do relativismo, (Aliás semeados pela prática do livre exame protestante.) - inverteu-se a situação em benefício do irracionalismo, do emocionalismo, do voluntarismo, do moralismo e das citadas seitas, que mais e mais vão abrindo espaço e adquirindo poder.
Há no entanto algo ainda mais obscuro. A falharem miseravelmente quanto a sua ideologia por falta de um aparelho educativo que produzisse qualidade, os próprios reformadores canonizaram a degeneração na medida em que canonizaram o fetichismo e anteciparam a manobra pentecostal. Na medida em que preconizavam a iluminação ou inspiração individual, ensinando irresponsavelmente que as massas receberiam a instrução bíblica diretamente do espírito santo, sem a necessidade do estudo, santificaram a ignorância e conferiram-lhe uma chancela social. Hoje entre as massas livre examinadoras ser igorante ou sumariamente letrado equivale a virtude... Como levar consciência científica a este nicho?
Para ser povo livre é necessário mais que letramento formal ou elementar. É necessária uma educação de qualidade, que traga consciência. É consciencia ou sentido que qualifica um povo diz com razão Freire. Massas não podem ser livres e se a Igreja velha, por não ter educado com suficiência e dado sentido mais amplo, falhou e produziu ou manteve massas, ao menos ajudou o antigo regime elitista a controla-las. Da mesma forma o partido Comunista, quando falhou igualmente em produzir consciência. FOI O SECTARISMO PROTESTANTE, ESPECIALMENTE PENTECOSTAL, que viabilizou está horrenda rebelião de massas iconoclasticas mais do que o Comunismo ou o Anarquismo, a partir desta democracia formal que inconsequentemente admite o voto do analfabeto ou do analfabeto funcional. O clamor dessas massas é triplo - Aspiram pelo fim das liberdades e direitos fundamentais, o aniquilamento da ciência ou de uma visão mais naturalista do mundo e enfim o controle do poder - Moralismo puritano, fetichismo e teocracia são as três parcas para nós e palavras de ordem ou programas para eles.
É necessário revelar ainda o quanto estes sectários perversos, não menos do que a intifada cultural do islã tem se beneficiado dos erros táticos cometidos ainda a pouco e obstinadamente repetidos já pelos neo darwinistas ateus, cientificistas, positivistas, etc Já pelos comunistas e anarquistas ou até mesmo por espíritas e esotéricos mas avisados cujas críticas igualam todas as formas religiosas ou priorizam a velha e combalida igreja romana, em parte degenerada aliás pela influência protestante fundamentalista. É como chutar cão morto, enquanto o cão vivo se multiplica. Hoje porém é bem mais fácil cooptar um romano ou Católico medianamente instruido do que um crente raiz conformado com a própria ignorância. O protestantismo no entanto tem tirado largo proveito disto, no sentido de apresentar se as massas incultas como inocente e puro, como anjo de luz e mesmo amigo do progresso...
DAI a necessidade extrema de expor seu caráter essencialmente obscurantista anti libertário, anti científico e anti policratico. Por isso nada melhor do que registrar tudo quanto ou ao menos parte do que os principais homens de ciência e pensamento, como Rousseau, Prestley, Darwin, Marx ou Freud tiveram de sofrer por parte das massas fanáticas, dos pastores e desta cultura bíblica anti humanista (Dale Nogare). EIS UMA HISTÓRIA OU CRÔNICA A SER ESCRITA E DIVULGADA NUM PAIS CADA VEZ MAIS SECTÁRIO E AZEDO!!!
Marcadores:
'Catolicismo',
bíblia,
Biblismo,
ciência,
Copérnico,
Darwin,
fanatismo,
fetichismo,
Freud,
fundamentalismo,
inspiração plenária,
irracionalismo,
Marx,
Massas,
naturalismo,
protestantismo,
romanismo,
Sectarismo
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018
R Dawkins - Cientista ou metafísico??? Considerações sobre a 'filosofia' biológica do sr Dawkins
Passamos por tempos difíceis e sombrios.
Tempos em que as pessoas, mesmo as supostamente cultas e emancipadas, limitam-se a repetir e reproduzir o que leem.
Tempos em que a criticidade corre sérios riscos.
Tempos em que obras supostamente científicas angariam tantos admiradores passionais quanto o Corão ou a Torá...
Jamais o 'argumento da autoridade' foi tão criticado e ao mesmo tempo posto em prática sem maiores cerimônias.
E se a um lado os toscos costumam gritar - Moisés, Davi, Salomão, Jeremias, Paulo, Maomé... a outro há quem grite com não menos entusiasmo - Darwin, Wilson, Dawkins...
Antes que pare de ler este ensaio insisto que minha comparação é absolutamente justa e válida. Pois se a um lado temos uma série de escritores mitológicos, atrelados a um padrão de pensamento fetichista a outro temos um grupo de homens oferecendo ilações metafísicas como se fossem constatações científicas, e isto é assombroso, é alarmante, é devastador.
A cerca de duzentos anos o Alemão I Kant veio a baila - alias, seguindo os rastros de D Hume - contra a metafísica teísta do monge dominicano Tomás de Aquino, argumentando que toda metafísica otimista com relação aos sentidos e a mente, era especiosa, frívola e vã. Desde então a metafísica passou a ser encarada como algo fantasioso ou como fruto de nossa imaginação.
Curioso que até então metafísica e filosofia fossem sinônimos, não só entre os teutônicos, mas até mesmo entre nos franceses. O mundo kantiano é que buscou distinguir ambos os conceitos, 'criar' determinadas áreas da Filosofia - Ética, Estética e Epistemologia - circunscrever a metafísica e identifica-la com a assim chamada Teodicéia. Foi todo um processo capcioso de ressignificação levado a cabo por criticistas e positivistas, se bem que Litreé e alguns outros jamais disfarçassem seu desprezo pela Filosofia como um todo. Afinal toda Filosofia é metafisica, especulativa e não empírica.
Isto vale sobremodo para a Epistemologia, alias campo bastante explorado por I Kant. O problema do conhecimento é e sempre será teórico, imaterial e especulativo; jamais empírico. Tudo questão de evidências e de argumentos. Como posso saber empiricamente que posso saber, que estou certo e tenho acesso a Verdade? A crítica aqui transcende aos fato e ultrapassa os domínios da materialidade pura.
Pela sensação temos acesso a fatos. Os fatos no entanto ai estão mudos e calados e nada dizem a respeito de si mesmos ou de sua realidade mais íntima. Para tanto devemos especular ou raciocinar. Assim a Ética e a Estética tratam de princípios e valores que igualmente fogem a materialidade pura, embora nela se realizem ou encontrem sua expressão. Mas os princípios e valores não são fatos.
Houve no entanto um projeto pós kantiano ou positivista, abortado, cujo objetivo era aniquilar a Filosofia como um todo, e descartar a reflexão ética, estética e mesmo epistemológica como fútil. Felizmente nossa herança grega, ao menos em parte prevaleceu, a Teodicéia - elaborada pelo brilhante Estagirita e não pelo monge Cristão Aquino - foi remetida ao tártaro (para a alegria dos agnósticos e mesmo dos ateus que aspiravam afirmar-se ) e as demais partes conservadas.
Acontece que a mesma metafísica ou vício racionalista da especulação, expulsa pomposamente pela porta, tornou a penetrar em nosso mundinho pela janela.
Explico -
Perceba amigo leitor que o primeira questão em termos de epistemologia e que diz respeito a realidade do mundo externo ou a ciência se dá em termos de percepção, isto é, de nossos sentidos, de cuja validade I Kant duvida. Como diz Heisenberg não podemos conhecer a realidade em si mesma, e nossa querida ciência não passa duma casca, de algo superficial enfim. Ao cerne ou tutano não temos acesso... Pois todo fenômeno percebido, segundo o mesmo físico, contém a própria imagem do homem. Antropomorfizamos a realidade externa a nós ou distorce-mo-la ao invés de capta-la. Eis a ciência que eles, kantianos e pós modernos nos oferecem! E é como dissemos um problema empírico, relativo a credibilidade da experiência e valor dos sentidos.
Outro é o enfoque posto a metafisica ou a especulação racional pelos kantianos. Aqui a razão converte-se em imaginação ou fantasia, e é claro que imaginamos o que mais nos agada. Triste sina do homem - para qualquer direção que se volte encontra apenas a si mesmo e nada mais... A realidade externa do mundo ou sua origem e seu fim sempre lhe escapam...
E no entanto nossos biólogos e cientistas dão largas a razão compondo as mais sofisticadas teorias, tão distante dos fatos e leis quanto a terra do sol.
Claro que o positivismo - que fez dos fatos e das leis seu carro chefe - apercebeu-se disto há muito tempo. Popper não hesitou em classificar o evolucionismo como metafísico - assim a psicanalise - e não como científico. Caso tenha se expressado mal e visado certas correntes darwinistas não errou o tiro, acertou em cheio. Temos que conceder que os pretensos sucessores de Darwin tem ultrapassado bastante os limites não apenas da simples empírica mas da própria racionalidade, elaborando uma autêntica escolástica genética, cuja 'Summa' é o 'Gene egoísta'...
Tal o 'opus magnum' do Dr Dawkins, o qual a mídia desmiolada tem apresentado a opinião pública como mais valioso do que 'A origem das espécies' de Darwin, os 'Principia..' de Newton, as 'Revolutionibus' de Copérnico, e as obras de Galileu e Kepler!!! Isso mesmo caríssimo leitor, numa só talagada o Dr Dawkins envia Darwin, Newton, Copérnico, Galileu e Kepler ao purgatório do intelecto, e ascende triunfante ao empíreo. E no entanto Copérnico e Darwin tinha os pés bem mais próximos do chão... Estes deixaram-se induzir pelos fenômenos. Dawkins salta de dedução em dedução, como perfeito escolástico ou metafísico. A única diferença aqui é que Aristóteles e Tomás não batizaram suas especulações, tanto mais eruditas e profundas com o pomposo termo de 'teoria'...
Aristóteles, Tomás e todos os outros, especulam e são classificados como metafísicos desprezíveis e delirantes... Dawkins não especula com menos fervor, e o dizem 'cientista' ou papa do cientificismo. E ele vende os exercícios de sua 'razão pura' como ciência... Lá do fundo de suas frias tumbas os manes dos positivistas gritam - Fatos! Leis e até mesmo a ralé criacionista com eles... Tal o atrevimento dos novos metafísicos que pretendem monopolizar o uso da razão em nome da ciência e produzir 'teorias'.
Mas como é que as pessoas, a gente emancipada, os cientistas, etc não percebem nada disto???
Porque são burros amigo, leitor, porque são burros...
Porque no tempo presente pouquíssimas pessoas conhecem a Filosofia a fundo.
Porque raros são aqueles que estudam Gnoseologia.
E que tem deduzido o Dr Dawkins?
Um é o traço comum entre todas as culturas de morte - Comunismo, Nazismo, Positivismo, Behaviorismo, Biologismo... a saber, a negação do Livre arbítrio ou da liberdade humana, pressuposto indispensável em termos de responsabilidade e moralidade. É o homem responsável por seus atos apenas porque livre... Isto para nós humanistas, que consideramos o homem integralmente, i é como um todo, sem mutila-lo ou repudiar qualquer aspecto de seu ser.
Para o Comunismo é este homem produto das relações econômicas de produção. Para o nazista produto de uma raça ou etnia. Para o positivista produto da interação social ou da cultura, assim para Sniker e os behavioristas, traidores da Psicologia. Assim para E O Wilson e assim para outro 'neo darwinista' S Pinker. Uma coisa é absolutamente certa, o homem julga ser livre, porém de modo algum o é.
Então qual a novidade de Dawkins?
(E há uma novidade...)
A Novidade de Dawkins consiste em declarar que somos máquinas vivas programadas pelos genes com o objetivo de perpetua-los. Isso mesmo bestificado leitor... Tanto eu quanto você imaginamos ser livres quando na verdade somos controlados por nossos genes com o objetivo de nos reproduzirmos, e velar por nossa descendência. Não menos que a esponja, somos um agregado de células, uma colônia ambulante dirigida por elas. E tal caráter é o que explica todos os atos de abnegação ou altruísmo por meio dos quais os pais e avós expõem-se a diversos tipos de sofrimentos ou mesmo a morte com o objetivo de garantir a sobrevivência dos filhos e netos... Ainda aqui nada mais que a natureza assegurando a continuidade dos genes.
Claro que Dawkins não explica nem pode explicar os inúmeros exemplos de altruísmo elencados por Kropotkin no 'Auxílio mútuo' e que dizem respeito a indivíduos sem qualquer ligação genética direta com os beneficiados pelo 'ato' ou de espécies diferentes senão rivais. Os quais Dawkins e seus pares dão por duvidosos. Negam assim aprioristicamente quaisquer fatos que não se enquadrem em sua teoria ou que pareçam contraria-la, falseando a realidade. Como sói fazer qualquer outra ideologia.
Nem preciso dizer que um tal tipo de visão essencialmente biologista, darwinista, genética e egoísta de mundo tem especial repugnância pela forma religiosa segundo a qual um celibatário teria dado sua própria vida com o objetivo de beneficiar todos os seres humanos, morrendo em nome de seus ensinamentos Éticos. Claro que a ideia segundo a qual alguém possa morrer para demonstrar seu amor pela humanidade só poderia exasperar os teóricos do egoísmo genético... Há mais de século os cientificistas ou biologistas, concluíram a luz do darwinismo - a nova panacéia ou teriaga universal - não apenas que o altruísmo é 'impossível' mas que, e E O Wilson e Pinker não cessam de dize-lo - Que a mentira, a falsidade, o erro ou o auto engano são fatores demasiado importantes do ponto de vista evolutivo....
E o Dr Dawkins ainda pretende construir um novo padrão de ética, descente, correto, honesto, etc a partir de seu ateísmo biologista ou melhor neo darwinista! O qual converte ou transforma a mentira numa vantagem evolutiva!!! Que elimina o fator do livre arbítrio... fundamento insubstituível de nossa vida ética ou da responsabilidade. Que menospreza a racionalidade humana. Que na contramão de Popper, Eccles e Penfield ignora por completo o papel da mente e que, ignorando a advertência de Asheley Montagu, desconsidera o fator crucial da cultura no desenvolvimento deste animal racional que é o homeo sapiens.
Para o reducionista Dawkins tudo quanto existe são células, cromossomos e sobretudo genes onipotentes, controladores e egoístas. Os genes nos controlam como marionetes ou como bonequinhos enquanto nós, idiotas, imaginamos decidir nossos destinos e acreditamos ser livres. Mas que... tudo quanto existe é uma farsa muito bem encenada por nosso próprio material genético, do qual somos servidores ou escravos. Basta substituir as estrelas pelos genes... O mecanismo é o mesmo - Nosso destino esta traçado pela mínima parte de nossa parte, e essa mínima parte é egoísta, 'pensando' apenas em reproduzir-se!
Nada de cultural, nada de racional, nada de psicológico, nada de livre... És leitor uma máquina conduzida ou movida por teus genes e nada mais... E teu sentido, objetivo ou propósito é servir ao egoísmo de teus genes. Tal o ensinamento do sr Dawkins... E ele o ensina bastante seriamente.
Agora como pode o teu gene dispor de ti ou do corpo para um determinado fim, que é a replicação de si sem ter intencionalidade??? Se teu gene é egoísta é porque deseja replicar-se ou manter-se a fina força em sua descendência... Portanto que não percebe que por meio desta bela teoria o sr Dawkins transfere o poder decisório, a liberdade, o sentido, a intencionalidade, a definição de uma direção ou sentido ao gene??? Que transfere o que é mais caracteristicamente humano ao celular ou genético??? Não decidimos nada. Porque o 'gene egoísta' decidiu replicar-se ou reproduzir-se... Agora como poderia uma célula ou um gene, irracional e isento de vontade livre, ter qualquer tipi de intenção??? Como poderia um gene traçar uma meta, a si e ao corpo ou conceber uma determinado plano???
Dawkins como qualquer biologista tosco, declarara arbitrariamente que tais questões não se colocam, mas não se colocam apenas porque ele, Dawkins, não quer, e sobretudo porque não pode responde-las e tampouco admitir que haja 'intencionalidade' nos genes. Afinal de contas intencionalidade supõem conhecimento de causa e fim, i é racionalidade, e por fim impulso decisório tendo em vista uma direção uniforme - No caso a replicação ou continuidade e tudo quanto seja necessário para garanti-la! Se não pensamentos o gene pensa por nós e nossas ações são reflexos dos 'genes'... E quem não percebe que toda esta escolástica biológica e cientificista é absolutamente monstruosa???
E invadiu a Psicologia essa monstruosidade 'ideológica'!!! Claro que por meio do behaviorismo, esse apêndice do positivismo e do materialismo, enquistado na ciência destinada a conhecer, analisar e estudar o fenômeno da mente ou da consciência. O qual sob os auspício dos 'magos' E O Wilson e especialmente de Pinker, converteu-se em Psicologia evolutiva ou em psicologia, pasme, neo darwinista.
Mas que tem Ch Darwin que a princípio, ao menos, na Origem das espécies pretendeu explicar a origem dos animais superiores ou das entidades corpóreas mais complexas, como o homo sapiens, a partir de uma primeira célula, descrevendo todo este caminho??? Lamentavelmente adiantou-se Darwin, no livro 'A origem do homem...' a explicar a evolução de nossa espécie - o que é algo bem diverso do que explicar o mecanismo evolutivo, até o surgimento do homem ou a aparição da cultura no cenário natural - a partir daquilo que acreditava ser o único fator responsável pela evolução das espécies, a saber, por meio da seleção natural (Alias, ainda um tanto presa ao conceito mais que duvidoso de Malthus.) O que nos levaria a seu 'querido' filósofo Herbert Spencer com sua mística ou metafísica social centrada na seleção das espécies, compreendida como competição, conflito, luta ou guerra entre as espécies a ser resolvida em termos de força bruta apenas...
Toda esta construção parte de um princípio errôneo e conduz ao absurdo, até a aberração. Antes de tudo porque no caso do homem - vou restringir - entra em cena um novo fator, peculiar, que é a cultura, epifenômeno de um aparato intelectual ou racional capaz de alterar toda dinâmica desse fluxo. E como dissemos a Biologia ou melhor dizendo o culto biologista, não esta disposto a conceder absolutamente nada a mente. É indiferente a cultura, a suas fontes, causa ou gênese. É um estudo do homem sem Psicologia verdadeira... E portanto uma mutilação, redução e falsificação da realidade.
O segundo aspecto não menos aberrante é que todas as formas de mística darwinistas ou de darwinismos sociais ou psicológicos fingem ignorar que Charles Darwin não deslindou por completo a verdadeira causa, alias o fator positivo ou chave da Evolução dos seres vivos. Para os charlatães e mistagogos neo darwinistas a 'seleção natural' equivale a uma força mágica que atua sozinha e explica absolutamente tudo... E eles procedem assim justamente porque o grande público ignora supinamente a gênese da teoria científica evolutiva, sintética ou apenas em parte darwinista, não completamente ou inteiramente darwiniana querido leitor... Dawkins e todo seu grupo, atua e reflete como se vivêssemos antes de Weismann, Batenson e De Vries, os quais demonstraram - contra Lamarck, Darwin e sucessores - que a seleção natural nada produz por si mesma. Sim, é a seleção natural um processo estéril, o qual nada produz em absoluto, limitando-se a testar o que é produzido pelas MUTAÇÕES. Aqui o fator positivo do que chamamos evolução dos seres vivos.
A mutação produz e a seleção natural, testa. Isto no caso dos seres vivos não humanos. Porque no caso dos seres humanos, o processo de seleção natural deve contar, necessariamente com os outros fatores que aparecem e entram em jogo, assim a cultura e consequentemente a inteligência, a razão, a vontade livre, a associação, etc Não se podendo mais encarar tal processo apenas a nível de força bruta ou de embate físico tendo em visto a obtenção de alimento em determinadas circunstâncias. Quem não percebe que em nossa evolução entram outros elementos ou forças propriamente humanos???
Apesar de tanta riqueza, com quanta miśeria encontramos no esquema, pobrezinho, dos neo darwinistas com sua luta física por alimentos travada entre máquinas comandadas por genes egoístas... Aqui nada de cultura, nada de razão, de inteligência, de associação e menos ainda de vontade livre... Somos veículos de genes em situação de famélica, os quais lançam-se uns contra os outros aos tabefes ou golpes de clava...
E há gente que leva isto muito a sério e diz ser isto ciência.
Pinker por exemplo, seguindo ao behaviorista Skinner e ampliando seus erros nada quer saber de vontade livre. Para ele o refinado conceito judaico ou greco romano de liberdade é tão absurdo quanto o mito do bom selvagem, a teoria aristotélica da Tábua rasa (empirismo) e a crença estúpida da imortalidade pessoal. Skinner, desertando da Psicologia e fazendo petição a sociologia determinista dos positivistas forneceu o roteiro a Pinker. Este no entanto inclinou-se mais a Biologia. Mestre Dawkins declarou que somos máquinas ou veículos ou estruturas somáticas comandadas por genes egoístas, os quais imprimem-lhe a direção nos termos de Darwin ou Spencer... Pinker acha o máximo e declara sem mais cerimônias que nossos genes individuais trazem em si não só conhecimentos mas determinação. Nossos genes tem certo conteúdo intelectual ou ideológico ao qual não dos podemos furtar. Nossos genes trazem determinações que não podemos mudar e as quais não podemos fugir... Temos aqui uma espécie de inatismo genético, e evidentemente mais uma forma de determinismo, irmã do marxismo, do nazismo e de outros abortos do gênero...
Pinker, segundo a tradição incoerente de Watson e Skinner, insere no domínio da Psicologia, destinado a investigar a mente e a consciência, a teoria neo darwinista do Dr Dawkins. E leva-a a frente, exprime-a e desenvolve-a de modo categórico, chegando as vias de um inatismo platônico de viés materialista... Mas a hipótese ou opinião segundo a qual nossos genes portam qualquer conteúdo intelectual ou que nascemos com qualquer conteúdo intelectual jamais foi demonstrada empiricamente! O máximo até onde podemos avançar, com Chomsky, é que A ESTRUTURA DO CÉREBRO HUMANO, e não os genes, comporta um esquema ou modelo destinado a processar informações (como um programa de computador) assim como a ESTRUTURA GENÉRICA DA LINGUAGEM (A qual é em última análise lógica) sem que no entanto comporte qualquer conteúdo específico ou formal. Temos aqui uma orientação ou conteúdo biológico/somático que reflete com que deve conformar-se o intelecto, e nos o identificaríamos de modo geral com a lógica de Aristóteles ou com o que chamamos raciocínio. Teríamos assim uma estrutura inata, mas isenta de qualquer conteúdo ou vazia em termos de informações.
Já a afirmação oposta, segundo a qual o cérebro ou melhor os genes trazem conteúdo formal ou informação, deve ser demonstrada nos termos científicos. Coisa que Pinker ou qualquer outro ainda não fizeram.
No entanto os genes egoístas do Biólogo inglês e papa dos neo ateístas demandam intencionalidade. Diante disto por que admirar-se quando o amigo Pinker atribui-lhes conteúdo intelectual, como se fossem, céus eternos, genes pensadores... E vão os genes se humanizando ou antropomorfizando enquanto nós, privados de livre arbítrio e de racionalidade efetiva nos valos desumanizando e nos convertendo em joguete de forças cegas como a luta ou a mentira... E evoluindo graças a essas potências sinistras com que fomos brindados pelo acaso, pela sorte ou pelo eterno giro dos átomos... E a partir daí, quer o Dr Dawkins produzir uma ética tão digna e elevada quanto a dos teístas ou deístas! Quer aproximar-se de Sócrates??? Mais! Quer produzir uma nova Ética, tão elevada e nobre quanto a de Buda ou a do Nazareno, que ensinaram o ideal da abnegação... Falta-lhe ler a Ayn Rand!!! E evoluímos graças ao egoísmo e a mentira... E disto saíra uma Ética elevada!!!???
Alguém acredita???
Milhões, e milhões...
Os quais acreditam e repetem.
No entanto o Dr Dawkins e seus pretensiosos parceiros, que agora querem enriquecer a ética com seu biologismo ou darwinismo toscos, verdade seja dita, jamais lograrão ultrapassar os geniais J S Mill, H Spencer, Ayn Rand e Wilson... Isto é aquela coisa maravilhosa chamada darwinismo social, delícias de Adolph Hitler e outros... Jamais ultrapassaram o limiar do que chamamos utilitarismo, e em sua versão individualista ou, permitam-me ser claro e exato, egoísta. Afinal, se os genes são egoístas, como construir ou elaborar uma ética universalmente altruísta fundamentada na abnegação??? Darwin, baseado apenas e tão somente na sua querida 'seleção natural' já proclamou este ideal como utópico...
Se quisermos obter uma ética condizente com o gene egoísta é isto que teremos, sem maiores floreios... E quem desejar ou sonhar com algo maior, mais elevado e digno, oh miséria, terá de recorrer ao velho Sócrates, a Çakia Muni ou ao esfarrapado profeta Galileu, cuja existência buscam impugnar, uma vez que não se coaduna com a nova religião ou mistica ateísta do egoísmo.
Por fim se é cientificista e partidário do sr Dawkins e mesmo assim teve estomago para ler nossas críticas até aqui, ponha seu cérebro para funcionar ou responda para si mesmo que é este tipo de Ética ou de padrão, rasteiro, que deseja para si para seus filhos e netos, mas lembre-se, caso responda afirmativamente fique já sabendo que pessoa alguma - que inspire-se em tais padrões - irá colocar-se em seu lugar ou arriscar-se por você e pelos seus caso venham a precisar... E sinceramente espero que jamais venha a precisar. Do contrário, tenho absoluta certeza, que um deísta, um socrático, um budista, um católico, um espírita ou um humanista será quem lhe estenderá a mão.
No próximo artigo avançaremos ainda mais e atingiremos um aspecto ainda mais ridículo da ciência ou da teoria de Dawkins, a ideia ou conceito forçado de meme, e muito teremos que refletir. CONTINUA.
Marcadores:
ateísmo,
Biologismo,
cientificismo,
cultura,
Darwin,
Dawkins,
determinismo,
ética,
Gene egoísta,
Homem,
Livre arbítrio,
Neo darwinismo,
positivismo,
racionalidade,
seleção natural,
sociedade
quinta-feira, 16 de novembro de 2017
O tabu do totem - Uma resposta a S Freud III (As fontes de 'Totem e tabu' - Darwin e Robertson Smith))
Segundo Kroeber duas são as principais fontes de 'Totem e tabu'. Acompanhe-mo-lo:
"Antes de tudo a simples hipótese emitida por Darwin e Atkinson... Assim a escolha do gorila como modelo de organização dos primeiros homens é puramente arbitrária pelo fato de excluir os demais hominídeos."
"Segundo ponto. A alegação de Robertson Smith sobre o sacrifício de sangue se o centro de um antigo culto restringe-se as culturas do Mediterrâneo durante um período muito bem definido pelo autor - O qual situou-o nos últimos dois milênios antes desta Era - e nas culturas subsequentemente influenciadas por elas. Trata-se portanto de uma hipótese que não se aplica a religiões de outros lugares e a esfera de outras culturas." Diante de tais 'defeitos' de fabricação somos autorizados a declarar que o 'filho' de Freud é aleijão que capenga de ambas as pernas.
Examinemos agora a crítica levantada pelo antropólogo estado unidense.
Quando a primeira fonte:
"A conclusão que nos parece mais provável, é a de que os homens viveram primitivamente em pequenas sociedades, tendo cada um deles uma só mulher, e as vezes, quando possuía um alto grau de poderio, várias; as quais defendia zelosamente contra todos os demais homens. Pode o homem não ter sido um animal social e ter vivido, sem embargo, COMO O GORILA, com várias mulheres de sua exclusiva propriedade. NOS GRUPOS DESTES ANIMAIS se a constatado sempre a presença de um único macho adulto. Quando o gorila jovem chega a um certo estado de crescimento, luta com os demais pelo controle absoluto do grupo e após te-los matado ou expulsado, se faz chefe supremo.... Os jovens machos assim eliminados e errantes de lugar em lugar consideram a seu tempo um dever, quando chegam a conquistar uma fêmea, impedir quaisquer uniões co sanguíneas demasiado íntimas entre os membros de sua família. Atkinson parece ter sido o primeiro a reconhecer que as condições que Darwin atribui a horda primitiva implicam a exogamia dos machos jovens. Cada um destes desterrados podia fundar horda análoga, no interior da qual ficava assegurada e mantida, por ciúmes, a proibição das relações sexuais. Deste modo, acabaram tais restrições por transformarem-se na regra que hoje em diase nos mostra como lei consciente, ou seja, a proibição das relações sexuais entre os membros da mesma horda. Após a introdução do totemismo assumiu esta proibição o caráter que conhecemos e que proíbe as relações sexuais entre os membros do mesmo totem." p 165
Em que pesem as conclusões de Atkinson - em 'Primal law' 1903 - a temática do gorila como um todo remonta ao teórico evolucionista Ch Darwin (The descendent of man).E nem podemos duvidar de que as conclusões sacadas por Freud dependem prioritariamente dela, e que toda sua teoria caí ou permanece de pé com ela.
De fato o grupo dos pongídeos compreende Orangotangos, gibões, chimpanzés e gorilas. Não apenas gorilas.
Darwin por sinal costumava observar bastante de perto a orangotango Jenny, primeiro exemplar deste animal levado ao Zoológico de Londres. Chegando a declarar inclusive que o Orangotango era como que uma espécie de janela para as origens da humanidade.
No entanto, apesar disto, como Hanon de Cartago, deu o gorila como sendo nosso parente mais próximo e até, em certo sentido, nosso proto tipo sócio cultural. Pelo simples fato de poder vincula-lo, ainda que remotamente, a sua doutrina da seleção natural - "Os jovens machos, sendo expulsos e vagueando por outras plagas, fugiriam, quando bem sucedidos na procura por um parceiro, o intercruzamento próximo dentro dos limites da família." Darwin 1874 p 901 Claro que isto favoreceria a variedade das formas sexuais ou numa releitura contemporânea a variabilidade genética.
Quanto a Freud e sua teoria, a escolha de Darwin, veio a calhar pelo simples fato de que o macho dessa espécie vaga solitário pelas florestas enquanto que a fêmea costuma cuidar sozinha do único filhote, tornando impossível a viabilização do 'complexo edipiano'. Por outro lado Atkinson já havia, de certo modo, aplainado o caminho na medida em que sugerira que num dado momento a mãe recusou-se a permitir que o filho caçula fosse expulso da horda - teria se baseado no mito de Zeus e Cronos? - até que conseguiu manter todos os filhos adultos junto a si. Diante disto o patriarca teria sido impelido a formular uma lei contra o incesto... Kuper 2008 p 151 Quem não percebe que nos achamos na 'soleira' de 'Totem e tabu'??? Atkinson no entanto, como bom cidadão vitoriano que era, prefere resolver toda essa questão de família gorila nos termos de Blackstone i é nos termos da lei ou civilizadamente. Aduzindo daí o tabu generalizado a respeito do incesto...
Freud no entanto era, ao menos culturalmente, germânico e pupilo de Nietzsche. Daí o 'drama' da efusão sangrenta com que finaliza sua versão do conto...
Evidentemente que não podemos responsabilizar Ch Darwin por uma escolha feita numa época em que genética praticamente inexistia.
Hoje no entanto, esta suficientemente demonstrado que Ch Darwin - e consequentemente Atkinson e Freud - equivocou-se, e que nosso parente mais próximo é sem sombra de dúvida o Chimpanzé. Em termos de genética nossa identidade com o chimpanzé é maior... Ponto e basta...
Agora que pensar em termos de cultura? Será que a cultura vai de encontro as constatações da genética ou afasta-se delas?
Até onde podemos saber a arqueologia tem, cada vez mais, coletado evidências no sentido de confirmar a proximidade da nossa organização cultural mais primitiva - australiopitecidea - com a organização social dos chimpanzés.
Tentarei ser sucinto.
Gorilas, sem serem completamente vegetarianos - alimentam-se ocasionalmente de larvas e insetos - não caçam. Daí a organização familiar observada por Savage, Schaller, Fossey, etc e descrita por Darwin e Atkinson. Já os chimpanzés caçam, inclusive pequenos macacos, o que supõem, como no lobo e no leão, estratégia de caça e portanto um grupo mais amplo. E de fato os grupos de chimpanzés agregam inúmeras famílias e clans, chegando a abarcar cem indivíduos.
Freud no desenvolvimento de sua teoria chega a fazer alusão a tecnologia de implementos. Sem no entanto declarar que se tratavam de implementos de caça, os quais, segundo o testemunho da arqueologia, destinavam-se a caçar. Estudos de rádio carbono efetuados em 1992 e 1994 evidenciaram o consumo de carne por parte dos australiopithecus.
Não ignoro a questão do dimorfismo quanto a altura dos machos e fêmeas deste grupo. O qual nos primeiros humanos ( H erectus e H Habilis) aproximava-se dos 20%, também aqui análogo ao existente entre os chimpanzés. Devemos considerar no entanto que os primeiros representantes do gênero Homo eram mais acentuadamente caçadores do que seus ancestrais australiopicídeos... isto a ponto de caçarem grandes mamíferos, o que nos leva mais uma vez, e decididamente a grande comunidades de caçadores e não a pequenas famílias de coletores.
Se algo no Australiopitecus reportava ao gorila, deixando alguma dúvida pairar no ar, isto já não ocorria com os primeiros representantes do gênero Homo. O Homo habilis é caçador, talha seus implementos e alimenta-se inclusive de australiopitecídeos... A simples indústria lítica basta para sugerir a formação de um grupo social mais amplo que a simples comunidade familiar.
A arqueologia apoia decididamente a tese segundo a qual Homo Habilis, Homo Ergaster e Homo Erectus viviam em grupos constituídos por diversas famílias ou clans a exemplo dos chimpanzés e não em pequenas comunidades patriarcais. Não basta reconhecer com Freud que semelhante modelo social - análogo ao do gorila - JAMAIS PODE SER OBSERVADO EM PARTE ALGUMA QUANTO AO 'HOMO SAPIENS SAPIENS' p 185. É necessário deixar bem claro que se sua identificação com o regime de vida dos Australiopiothecus é duvidosa, sua identificação com o regime de vida dos primeiros representantes do gênero Homo é insustentável.
Não estamos mais diante de vegetarianos ou coletores que vivem em famílias e tampouco de caçadores episódicos como os chimpanzés, mas diante de comunidades de caçadores especializados e já se disse que a caça plasmou o homem e acelerou sua evolução. Ora a caça é por definição uma atividade social em termos de estratégia. Agora adicionem a este quadro uma indústria lítica e a hipótese da indústria lítica cai por terra.
Seja como for seria bastante ousado postular a existência, nos homens de hoje, de agregados psíquicos persistentes ( apenas parodiando, num bom sentido Wilfredo Pareto ) que remontem a hominídeos que floresceram há dois milhões de anos e meio. Temos de lembrar que o primeiro representante do gênero Homo, o Habilis, extinguiu-se a cerca de oitocentos mil anos. E que o Homo Erectus passou a História a não menos de trezentos mil anos. Aqui a transmissão consciente de cultura, em tese possibilita a transmissão de fragmentos ou vestígios agregados a mente do homem atual.
O próprio cérebro não deixou de evoluir durante todo este tempo em que o homem consumiu gordura e por fim a carne assada dos grandes mamíferos em quantidade cada vez maior. Foi justamente esta evolução da base somática ou física de nossos ancestrais que possibilitou a elaboração de um aparato psíquico tão complexo quanto o nosso, acompanhando a mente a evolução do corpo, e transformando-se com eles.
Diante deste quadro supor alguma herança ou legado psíquico de simples hominídeos, quiçá anteriores ao Australiopithecus, é exercício altamente especulativo, que Etnólogo, Antropólogo ou Sociólogo algum jamais aventurou-se a fazer, por mais imaginativos que tenham sido.
A simples tese - bem parecida com o monogenismo bíblico por sinal - segundo a qual um evento sucedido no interior do primitivo tronco (leia-se aqui horda ou o que quiser) plasmou a direção psíquica ou cultural de toda espécie, exige para ser validade, que esse evento - quanto ao Homo Habilis - tenha ocorrido a dois milhões de duzentos mil anos, e quanto ao Homo Erectus, que tenha sucedido a um milhão e oitocentos mil anos! Por outro lado se devemos situar tal evento a aparição do Sapiens Sapiens, devemos situamo a no mínimo trezentos e cinquenta mil anos.
Sucede no entanto que o Neanderthal apareceu cinquenta mil anos antes e constitui cultura própria. E que parte dos Sapiens Sapiens 'cruzou' com eles... além é claro de terem trocado experiências em termos de cultura.
Problematizemos ainda mais.
A simples existência de raspadores de pele numa época tão remota quanto 780 mil a C nos faz deduzir a existência de roupas de pele. O uso do fogo remonta a quase dois mil anos e seu controle efetivo a um milhão de anos. É provável que o abrigo tropical preceda a descoberta do próprio fogo e o uso de cavernas na Zona temperada remontando a mais de um milhão de anos. A indústria lítica parece ter surgido com o H Habilis a cerca de dois milhões de anos. Assim a própria caça... De modo que os principais elementos da cultura procedem o aparecimento tanto do H neandertalensis quanto do H Sapiens. Resultando disto ser absolutamente falso que o evento incestuoso ou o complexo de Édipo estejam na base de todas as nossas conquistas culturais e por assim dizer da Religião e da Moralidade.
A menos que tal experiência remonte no mínimo a um milhão e oitocentos anos, numa fase que nosso aparelho cerebral ainda esteva em formação e sujeito a determinadas transformações. Semelhante baliza temporal torna as hesitações expressar por Freud nas últimas páginas de seu Ensaio - justamente quanto ao modo porque essa experiência foi transmitida a posteridade - ainda mais consistentes. Tanto pior se levarmos em conta não apenas a inexistência da escrita mas o próprio caráter rudimentar da linguagem naquela fase da evolução cultural... Quando a precariedade do aparato cerebral em desenvolvimento já nos referimos.
Se o simples conceito de consciência ou alma coletiva, alias aduzida por Jung, já é discutível em termos de cultura atual ou como algo formado nos últimos milênios ou dezenas de milênios, faze-lo remontar a um ou dois milhões de anos parece-nos ainda mais ousado do que as especulações dos etnólogos, antropólogos e sociólogos apontadas por Freud.Tomada primeiramente a genética, a arqueologia e por fim a própria antropologia cultural; a evidência de que os primeiros gêneros do Homo, assemelhavam-se mais aos chimpanzé do que ao gorila, só nos resta admitir que a administração ou fruição da vida sexual era similar e inferir com toda verossimilhança, que o Habilis e o Erectus não viviam isolados em comunidades familiares poligâmicas a semelhança de um sultão, mas em regime de promiscuidade, em que as fêmeas férteis estavam disponíveis a todos os machos, em que pese, sem dúvida, a preponderância do macho alfa, a qual nem de longe implica posse exclusiva ou controle.
Segundo os primatólogos Waal e Goodall uma jovem chimpanzé acaba sempre transando com outros machos além do macho alfa ou com diversos membros do grupo. A própria 'vastidão' do grupo impede que o macho alfa consiga controlar esta tendência.
Consideremos agora que as chimpanzés ignorem o instante em que concebem de determinado macho... ou que mesmo tendo ciência disto (!!!) não possuam um calendário para marcar tal evento ou um Diário para registra-lo. Por fim que ignorem essa 'coisa maravilhosa de deus' que é o exame de DNA.
Que aduzir daqui?
Que cria alguma pode saber quem é seu pai!
O que destrói pelo fundamento a metafísica freudiana ou a formulação de um complexo edipiano a parte de determinada formação cultural. Nem estamos dizendo que o complexo edipiano não exista em determinada realidade espacial e temporal... Limita-mo-nos a negar sua amplitude e presença universal, o quel por sinal já foi suficientemente demonstrado por M Mead quanto a primitiva cultura africana e por Malinowsky quanto aos habitantes das Ilhas Tobriand.
Sem que haja paternidade definida, como é próprio da organização sexual grupal, o tão decantado Complexo de Édipo vai-se pelo ralo abaixo. Impossível formula-lo em termos de paternidade difusa... bem a gosto da "República" do velho Platão... Onde todos os machos são pais das crias.
Devo acrescentar ainda que o incesto filha/ pai e irmão/irmão é frustrado em função das jovens chimpanzés migrarem para outros grupos. Estabelecendo-se em cada grupo, quanto ao macho que ali permanece, uma organização matrilinear, a qual parece corresponder da mesma maneira a organização dos primeiros grupos humanos. Freud como conhecedor de J J Bachofen e L Morgan, esta perfeitamente ciente disto p 140/142. O próprio matriarcado e a existência das divindades femininas, como a grande mãe, se lhe apresentam como algo um tanto enigmático. p 194 Evidente que a matrilinearidade supõem a ignorância quanto a pessoa do genitor, e a formação promiscua dos primeiros grupos humanos.
Resta-nos indagar a respeito das relações mãe e filho na Sociedade promiscua dos chimpanzés. Aqui mais uma vez os primatólogos são terminantes - jamais puderam observar chimpanzés machos copulando com suas mães biológicas em estado de liberdade ou natureza. Quanto a isto é necessário ter em mente a constatação basilar de Wolfgang Kohler segundo a qual um chimpanzé enjaulado e isolado, privado com contato com o grupo, não é um chimpanzé de verdade, uma vez que se tratam de animais caracteristicamente gregários.
Seja como for em estado de natureza, o incesto mãe/filho jamais foi verificado nas Sociedades chimpanzés.
Outro aspecto não menos interessante da relação mãe/filho entre os chimpanzés é a estabilidade ou durabilidade dos vínculos afetivos, os quais supostamente impedem a ativação das relações sexuais ou mesmo do próprio desejo. O que nos levaria a hipótese de Westermarck - Efeito Westermarck - a ser discutida noutro artigo.
Marcadores:
Antropoides,
arbitrariedade,
Arqueologia,
Atkinson,
Caça,
Chimpanzé,
Complexo edipiano,
cultura,
Darwin,
Freud,
genética,
Gorila,
Homo,
Kroeber,
psicologia,
Robertson Smith,
Totem e tabu,
Transmissão
Assinar:
Comentários (Atom)