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quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Capitalismo - Posso questiona-lo?


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Quando indagamos se podemos questionar o capitalismo o que queremos saber é se podemos questiona-lo sem ser Comunistas?

Ao menos supostamente, é apanágio do pensamento livre e das instituições democráticas não apenas poder questionar qualquer coisa em foro íntimo como poder expressar tais questionamentos... aqui, chegamos a obviedade e ter de explicita-la já insinua a gravidade do problema.

Vivemos tempos em que o óbvio deve ser muito bem explicado e tempos assim não são dos melhores.

Há quem se julgue bom Ocidental - Civilizado, evoluído, 'moderno', vanguardista... E ignore pressuposto tão caracteristicamente liberal, tendo-o em conta de anarquista ou o que é ainda mais grave, de comunista!!! E no entanto estamos falando sobre um dos fundamentos da nossa civilização, o que basta para evidenciar quão frágeis são tais fundamentos...

Digo, o pressuposto ou o direito de duvidar de qualquer coisa.

Para muitos no entanto duvidar do Capitalismo ou seja de sua viabilidade, de sua dignidade, de sua perfectibilidade, ou de sua suposta eternidade sabe a heresia... O que nos remete ao conceito de Dogma. Para muitos a perfectibilidade do Capitalismo é crença que sabe a Dogma. E há que se ter fé nela para ser um bom cidadão ou homem de bem, ao menos em certos círculos. Do contrário serás um herético... quase nos termos da Idade Média. 

Há todo um misticismo chão em torno do sistema econômico vigente. O qual não condiz nem um pouco com nossos fundamentos liberais...

Após ter aluído o liberalismo político em diversas situações, o liberalismo econômico choca-se contra a mais fundamental de todas as expressões liberais - que é a liberdade de pensamento.

Para muitos pensar contra o Capitalismo ou questionar esta opção é algo intolerável, algo que deveria ser reprimido, punido, castigado... Como nos velhos tempos da inquisição genebrina... que o velho Mc Carthy tentou fazer reviver nos EUA do século XX, sem experimentar maiores dificuldades!

Claro que há quem, fiel a tradição liberal, reconheça aos contrários ou dissidentes, o direito, líquido e certo de duvidar de qualquer coisa, inclusive do Capitalismo. No entanto os que duvidam são sempre e necessariamente, Comunistas ou Bolcheviques.

Mesmo que semelhante dúvida parta do Dalai lama, do Papa Francisco ou de John Gray, eles ficarão sendo vermelhos... Aqui nos meios virtuais do Brasil José Bonifácio, D Pedro II e Getúlio Vargas já foram matriculados na KGB. Freud e - pasmem - Darwin foram os últimos a seres acusados de apoiar o 'Comunismo' e fila certamente conta com Platão, Sócrates, Buda, Confúcio, Jesus, Paulo, os Padres da Igreja, Aquino, Vitória, Morus, Campanella, etc Esperemos os cães de guarda do sistema tornarem-se mais atilados ou imbecis... Maritain, Mounier, Bloy, etc que se cuidem, pois o fanatismo liberal economicista não perdoa seus críticos... levantou dúvidas é comunista ou bolchevique.

Tal o sentido de nossa pergunta: Podemos questionar o Capitalismo ou ser céticos com relação a ele sem ser Comunistas?

Embora tudo nos indique que Sim, e de modo absolutamente claro, sonoro, translúcido e evidente, boa parte das respostas obtidas equivalerá a um sonoro Não. O que como já dissemos é alarmante. Venha donde venham as críticas, partam donde partam, procedam onde procedam, e embora inspiradas em valores diferenciados quais sejam o humanismo socrático, a fé búdica, a Ética católica ou considerações keynesianas em torno da economia pura, serão sempre classificadas como comunistas pelos desonestos.

Isto mesmo querido leitor. Para boa parte dos ocidentais resolvem a questão dualisticamente ou por meio de um dilema: Quem não é capitalista é Comunista e vice versa. E não enxergam qualquer outra possibilidade além destes dois sistemas hermeticamente fechados. É necessário conformar-se com um ou outro i é entrar na caixinha.

Terceira opção, via ou possibilidade é algo impossível, impensável, inconcebível... A este falso dilema acrescentam ainda - é claro - uma avaliação simplória, a que chamamos maniqueísmo: Capitalismo bom, Comunismo mau...

Eis julgada a questão e não se pode pensar doutro modo, fronteiras estão traçadas e limites postos! Quem discordar é comunista, logo mau...

Julgo que qualquer pessoa inteligente e ponderada seja capaz de concluir pela artificialidade, pela tacanhice e pela miséria deste quadro. 

Eis-nos diante de uma pintura distorcida da realidade formulada por pessoas francamente limítrofes senão desonestas. Mas há quem identifique-se com ele. Quiçá devido a sua pobreza absoluta... Nada mais fácil do que gritar como uma pega no cio: Comunistas, Comunistas... ao invés de pensar, discutir, pesar dos argumentos e dialogar como gente civilizada. Melhor rotular e permanecer eternamente girando em torno de um 'ad hominem'.

Caso você ofereça outros botões - digo outras opções ou horizontes mais amplos -  ao sujeito, os neurônios queimam... e o cérebro pifa.

A zona de conforto destas pessoas pede por uma concepção falaciosa e por uma avaliação maniqueísta. Fazer o que??? "Os homens desejam ser enganados, façamos sua vontade." reza o provérbio...

O que me espanta não é a existência deste tipo de visão. A existência da tolice ou da miséria intelectual é previsível. Digo mais: Semelhante tipo de visão é algo que até esperamos ver proliferar num espaço como o 'Belt bible'.

O que me espanta e atemoriza é ve-lo estender-se pelo mundo afora e contagiar outras tantas culturas, encontrando aderentes e repetidores.

Haja visto um número considerável de brasileiros que afetam ser patriotas e engolem esta xaropada americanista forjada pelos seguidores de João Calvino...

Curiosos estes brasileiros que melindravam-se do tal imperialismo russo ou soviético enquanto saudavam e saudam o imperialismo Monroe - o do destino manifesto.

A crítica é válida e aguda posto que originalmente o Capitalismo não pertence a nossa cultura. É elemento externo ou alienígena, tão alheio a nossa cultura quanto o Comunismo ou o Anarquismo. Mais, é elemento não de origem Latina ou Católica mas de origem Alglo saxã e protestante. Por mais que alguns 'católicos' ou melhor neo católicos, safados e vendidos, pretendam demonstrar o contrário, a crítica levantada por Max Weber permanece firme, forte e inabalável. É corroborada além do mais por uma hoste ou multidão de autores católicos de fidelidade indiscutível. Assim O Brien, Maritain, Fanfani... O que a Igreja criou ou produziu foi uma doutrina social destinada a combater este sistema pérfido e cujo sentido é obviamente, anti liberal.

Caso o liberalismo econômico ou a auto regulação interna do Mercado estivesse de acordo com o pensamento da Igreja não haveria qualquer necessidade de uma doutrina social inspirada numa ética religiosa e portanto externa ao Mercado. A Igreja romana e com ela todo o Cristianismo, tudo quanto seja Católica, a Ortodoxia Oriental, o Anglo Catolicismo... não compreendem que hajam necessidades humanas autônomas face ao que chamamos ética. Não reconhece de modo alguma a pretensão cientificista do positivismo, alardeando que também a ciência - outra ação ou produção humana - possuí limites igualmente ditados pela Ética. Como reconheceria as pretensões de um sistema economicista, cujo fim e o materialismo???

O protestantismo apenas poderia concordar com tais pretensões na medida em que postulou, como observa Maritain, uma salvação sem obras ou ética, desvinculada da imanência ou do mundo natural. O Catolicismo sempre vinculou a redenção a ação ou atuação dos fiéis no mundo natural, físico ou material; em suma ao comportamento, o que certamente engloba a produção da ciência e a administração da produção e distribuição de bens. Nada caí fora do primado da ética. Alegar que a Igreja ou a fé nada tem a ver com isto é distorcer a questão. Não é o Catolicismo uma fé teórica ou um sistema solifideísta, mas uma fé destinada a inspirar e regular as ações humanas e assim a ação econômica, que é humana. Portanto as pretensões do Catolicismo chegam ao Mercado sim e são pretensões reguladoras e limitadoras, alias de um vício que nossa tradição classificou como avareza!

Os padres da Igreja não deixaram a economia florescer livremente, nem os escolásticos, nem Francisco de Assis, nem S Antonio de Pádua, nem a tradição constante e imutável que vai de Morus e Campanella e Mably, Morelly, Meignam, Keteller, Mounier e Maritain, ou seja, ao Catolicismo social. E deste contesto surgiu um sistema dócil e colaboracionista que foi a reforma protestante, quiçá porque a Igreja antiga tivesse sido irredutível e se recusado a colaborar. Foi o protestantismo que batizou as primeiras aspirações economicistas com Calvino e seus sucessores e foi ele a instituição que mais colaborou - ao menos negativamente, por recuo ou omissão - para a afirmação da nova realidade, e isto a ponto de podermos descreve-lo como solidário. Ao contrário da igreja antiga ele não teve poder ou forças para resistir aos ímpetos do novo sistema. E disto surgiu um novo mundo ou uma nova sociedade, não apenas secularizada, mas materialista e economicista, embora teoricamente se apresentasse como Cristã. O que alias condiz com o éthos solifideísta do protestantismo.

Mas era quanto a prática ou quanto as obras Cristã esta Sociedade em que os homens não mais se reconheciam como irmãos? Uma Sociedade em que o amor fora substituído pelo sentido do lucro? Uma Comunidade em que a justiça fora sacrificada ao capital? Uma Sociedade onde o homem foi trocado dinheiro? Uma Sociedade em que irmãos converteram-se em rivais ou concorrentes??? Por mais exata ou correta que fosse esta fé, não vejo como semelhante sociedade pudesse fazer jus ao título de Cristã. O que temos aqui sequer é uma Sociedade pagã, mas uma Sociedade materialista, economicista, desumana, inumana e cruel. O cúmulo da degradação!

Agradeçam por isto o querido protestantismo a que incensam, não a igreja romana e menos ainda as antigas Igrejas Católicas, as quais reguladas pela tradição ancestral e se querem por uma tradição produzida numa cultura rural ou agrária, só podem pensar em termos de solidariedade, o que o capitalismo tem de menos característico. Segundo nossa tradição nem os pobres são vagabundos  - mas frequentemente oprimidos - nem a miséria diz respeito a caridade (mas a justiça cf Aquino) e nem é o exercício da caridade livre mas tão impositivo quanto o da justiça.

E se a fome e a morte resultam de uma má gestão ou de uma má distribuição dos bens produzidos é sobre o homem - que opera por meio da avareza ou da cobiça - que cai esta aberração monstruosa. De que haja fome e morte quando há suficiência de bens para todos. Corresponde isto, inclusive o esforço excessivo e a saúde precária do trabalhador, a um crime ou pecado horrendo e este pecado é pecado social. Praticamente todos somos co responsáveis na medida em que silenciamos ou cessamos de criticar. Caso não nos oponhamos a este regime de morte somos cúmplices. Pergunta o Cristo sobre as almas e corpos de nossos irmãos e não lhe podemos dizer: Que tenho eu a ver com meu irmão??? Porque batizados fomos inseridos num só corpo. Assim não convém quem um membro do corpo assista impassível a fome ou a enfermidade ser experimentada pelo outro. Ser membro de um só corpo implica sentir a dor do outro ou ser solidário.

O neo Católico prostituído no entanto observa os membros de Jesus Cristo, expoliados pela avareza e lançados a sarjeta, como vagabundos, e aparta-se deles, recusando-se a estender-lhes a mão. E caso o denunciemos esse ímpio ousará replicar gritando - Comunista! Se ser Comunista é servir aos pobres, censurar a avareza e indagar sobre as fontes da miséria humana, então é o Comunismo filho do Evangelho e perfeitamente evangélico! O que não é nem um pouco evangélica é a cobiça e a dureza de coração dos neo Católicos protestantizados. Afinal é dever do Católico Ortodoxo - e de quantos se consideram Católicos - considerarem sempre suas posições com relação ao próximo, que é seu irmão, buscando dignifica-los e resgata-los da miséria.

Assim o Católico é levado a promover o irmão ou a investir no homem e não no Mercado. Pois sua poupança ou bolsa de valores esta nos céus, no Reino de Jesus Cristo. Pois seu coração e seu tesouro estão no mundo invisível ou no paraíso. Porque suas economias consistem em servir. Em alimentar, vestir, medicar, visitar, confortar, etc Tal seu ofício e sua vocação. Tal a verdadeira religião, que consiste em socorrer os órfãos e as viúvas em suas necessidades. Se o Católico não trás este sentido quão miserável ele é...

Portanto não é só a experiência da realidade que nos convida a duvidar do sistema estabelecido mas a fé de nossos ancestrais, a qual plasmou nossa cultura, socialista para mim, se quiserem ou fizerem questão - Solidarista, corporativista, humanista, trabalhista, personalista, social, pouco se me dá. Podeis definir a nossa cultura ancestral como quiserdes menos como Capitalista ou liberal economicista e desafio qualquer Católico desonesto ou de má fé a demonstrar-nos a existência de Capitalismo na Antiguidade Cristã, na Alta e mesmo na Baixa Idade Média. Provem ou demonstrem que o Capitalismo afirmou-se em qualquer sociedade Católica antes do advento da Reforma protestante. Estou aguardando há duas décadas por esta demonstração. Do contrário continuarei repetindo com Weber - o liberalismo economicista ou capitalismo é filho ou irmão do protestantismo, nada trazendo em si de legitimamente Católico.

Mas para que levar o tema até ai???

Para demonstrar cabalmente que os defensores do modelo capitalismo estão na contra mão de nossa cultura ancestral - Católica, latina, lusitana e brasileira. Tanto pior caso adicionassem as fontes indígenas e africana. Nenhuma delas sabe a Capitalismo. Destarte temos de avaliar este sistema tão seguro se si, como algo tão estrangeiro e imperialista quanto o Comunismo e o Anarquismo. Ao criticar os Comunistas e ao berrar contra eles o capitalista brasileiro assemelha-se a alguém que busca tirar cisco da vista alheia, tendo um poste na sua. Nossas formas de opressão e dominação, sempre questionadas pela igreja - embora não com a devida intensidade - eram abertas. As formas de dominação capitalistas são ainda mais nocivas e perniciosas porquanto dissimuladas. Afirma-se que há chances ou igualdade de oportunidades a todos quando não há. E o resultado desta crença é a conformidade.

Claro que nosso passado não foi santo, perfeito ou paradisíaco, mas bem poderíamos ter tomado uma outra rota, no sentido do Evangelho ou da Ética proposta por ele. Lamentavelmente o rumo que nos foi imposto de fora para dentro foi bem outro... fortalecendo as cadeias da opressão e multiplicando os males. Certamente não temos mais escravos africanos. Mas temos multidões de descendentes seus 'exilados' num mundo a parte ou numa realidade paralela chamada favela. Quanto aos índios, quem ignorara o estado de penúria e indignidade em que vivem??? E não chegamos as multidões de trabalhadores urbanos assalariados cujos direitos se veem ameaçados dia após dia pelas necessidades econômicas ditadas pelo mercado. O quanto vejo é um povo ameaçado pela servidão e pela mais dura das servidões, ainda que disfarçada.

Diante disto o Socrático se pergunta - Posso criticar o Capitalismo??? E assim o Platônico, o Aristotélico, o Budista, o Confuciano e sobretudo o Cristão, o Cristão Católico e Ortodoxo... e só pode responder de um modo:

Não posso, DEVO. E se não colocar este sistema em dúvida como poderia afirmar-se como Católico.

Termino este breve ensaio concluindo que há mais motivos para questionar o sistema Capitalismo do que supõem o Comunismo.




terça-feira, 17 de julho de 2018

A Igreja e o espantalho do anti abortismo I - A hipocrisia dos anti abortistas

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A véspera das eleições 2018 estamos assistindo a mais uma manipulação do discurso anti abortista pelos pseudo católicos liberais e protestantizados, ou melhor dizendo pelos neo católicos ou tridento modernistas.

Já me referi no artigo anterior ao imenso perigo que consiste nos Católicos assumirem slogans protestantes ou causas que não são suas, como a pregação ou cruzada anti comunista. O protestantismo, aliado incondicional do capitalismo, em sua imensa miséria pode, definir-se a si mesmo como uma religiosidade anti Comunista. Ele sequer possui uma doutrina social normativa.

O Catolicismo não. Não é comunista, mas tampouco seu ponto de vista pode ser definido nos termos bisonhos e simplórios de um anti Comunismo. Por mais aterrorizante que a Revolução russa ou bolchevique tenha sido. E foi. A Igreja tem uma doutrina social, que não é nem comunista nem liberal. Isto quer dizer que ela não tem parceiros ou aliados, justamente por ter uma proposta própria. E que não pode fazer o jogo do liberalismo ou do imperialismo cultural Norte americano, que em termos de ideal Católico é uma anti civilização.

Mas o protestantismo, desde Trento, esforça-se por empenhar o papismo e por manipular seus membros, já em favor do agostinianismo, já em favor do germinismo de Bismarck, já em favor do nazismo, do liberalismo... E os Católicos tontos e superficiais, como verdadeiros patos, vão se deixando enlear pela parlenga protestante. Em temos de relativismo ecumênico não podia ser diferente. Os protestantes lançam suas iscas ideológicas ou puritanas, e os Católicos vão se deixando fisgar.

Qual a principal consequência de tudo isto?

O ideal Católico e Cristão de sociedade, legado por nossa tradição antiga e medieval vai ser cada vez mais pondo de lado e o ideal protestante ou Norte americana, em torno de uma sociedade liberal economicista ou capitalista se vai afirmando entre nós. Graças aos 'senões' destas almas timoratas...

Nada diferente durante estas eleições presidenciais 2018. Em que os protestantes e sua sinistra bancada teocrática, tem buscado favorecer seus candidatos, Marina e Bolsonaro - um e outro mancomunados com o liberalismo econômico - e prejudicar o candidato rival, Ciro Gomes, do PDT, apelando ao anti abortismo, a que os Católicos são bastante sensíveis e transformando-o em argumento político. Tudo isto sai dos fornos protestantes... e o resultado é justamente o afastamento drástico de nossas tradições - sempre respeitadas pelo Dr Enéas Carneiro- em benefício do capitalismo e da cultura yanke.

Comecemos portanto a deslindar esta trama, principiando pelo tema ou pela questão do aborto.

Lembro-me de ter lido, na Didaké e em S Atenágoras de Atenas, alguma coisa contra o aborto. De fato este ponto de vista faz parte da tradição humanista Cristã desde seus primórdios mais remotos.

Os antigos tinha uma postura distinta. E não poucos recorriam a poções com o objetivo de interromper a gravidez, algo bastante comum nas antigas Grécia e Roma. Levados pelo mesmo princípio - que abortistas e não abortistas parecem ignorar - eles também admitiam repudiar e consequentemente lançar ao bueiro ou a cloaca os filhos recém nascidos. Os Cristãos daquele tempo chocavam-se face a ambas as posições e a suas expensas financiavam - embora fossem pobres - orfanatos destinados a recolher tais crianças, combatendo eficazmente o aborto e a exposição. Eles não se contentavam em assumir, hipocritamente um discurso anti abortista ou em ignorar o não menos grave problema da exposição, da miséria e da escravidão - Por meio de instituições próprias buscavam solucionar a ambos os problemas.

De nossa parte, numa sociedade pluralista e laicista, nós temos buscado analisar o aborto do ponto de vista natural ou comum e tomar como ponto de partida os ensinamentos de Aristóteles a respeito do ato e da potência, bem como a tradição Socrático humanista que costumeiramente enfatiza o caráter racional do ser humano, um ser capaz de refletir, de pensar e portanto de planejar o seu futuro. Diante disto somos levados a crer, que num contesto em que a família pode ser planejada e a gravidez evitada por meio de contraceptivos, a opção pelo aborto irrestrito torna-se no mínimo problemática.

Afinal por que interromper artificialmente um processo que pode ser evitado e que não precisaria ter sido iniciado? A possibilidade de planejar, de algum modo, exclui a necessidade de uma interferência 'a posteriori'. Não se trata aqui de discutir se o feto é ou não um ser vivo ou se sente dor, não é o foco da questão. O que se deve analisar aqui é se este processo iniciado ao consumar-se redundará ou não no surgimento de um ser vivo... A vida esta potencialmente contida neste processo, que é a gravidez, desde o princípio. Então, se não desejamos que haja gravidez ou vida POR QUE NÃO PLANEJA-LA RACIONALMENTE ATUANDO DESDE O PRINCÍPIO OU NÕ PRINCÍPIO OU seja adotando métodos contraceptivos sejam eles quais forem? Por que não evitar ao invés de interferir 'a posteriori'?

Num tempo em que a oferta de preservativos é feita pelo poder público, o qual oferta da mesma maneira o planejamento familiar e contraceptivos, chega a ser clamoroso absurdo pleitear a aprovação indiscriminada do aborto, especialmente tendo em vista a clientela economicamente mediana e medianamente instruída - Isto sem falarmos nos abastados... E quando se cogita, tendo em vista relativo controle, que tais procedimentos sejam executados em instituições públicas com o dinheiro público. Como contribuinte tenho direito de recusar-me a custear o aborto de uma madame fútil, manipulada por um esposo fútil ou cruel, que bem poderia ter laqueado suas trompas ou exigido que o macho fizesse vasectomia! Afinal de contas é comum em todas as classes e condições que o 'macho alfa', após ter exigido transar sem camisinha, pressione a mulher para abortar... Refiro-me a tais problemas situados nas classes média e superior. E não quero pagar por tal ônus!

Quanto a possibilidade de tais serviços, destinados a atender esse tipo de clientela - bem posicionado - serem assumidos pelo setor privado, teríamos de pensar no controle. Pois teríamos aqui um sistema de abortização movido a dinheiro e sabe-se lá que abusos monstruosos resultariam disto em nosso paraíso tupiniquim... em que tráfico de órgãos e assassinato de pacientes é algo corrente. Em Hospitais públicos inclusive.

Mas estas pessoas, alegará alguém - e não sem razão - já realizam abortos no exterior ou abortos clandestinos aqui mesmo no Brasil. Aqui temos que ser bem claros. Quanto a essas mulheres ou casais de situação confortável - que optam livremente por assassinar seus futuros filhos e filhos que bem poderiam ser evitado - que continuem a gastar seu dinheiro no exterior, abortando por lá. O problema é a existência dessas clínicas ilegais, que auferem milhões e milhões aqui mesmo, sem que seus proprietários sejam punidos no rigor da lei. Antes de punir os que abortam deveriam ser punidos aqueles que tornam o aborto factível e dele fazem uma fonte de lucro. Mas no Brasil... Toda situação em torno do aborto feito por ou para pessoas bem situadas é problemática e eu julgo que tais pessoas, a começar pelo macho ou pelo pai, deveríam ser rigorosamente penalizadas. Deveríamos começar punindo com máximo rigor o homem, posto que vivemos numa cultura ainda machista.

Agora temos um problema não menos sério que é o das mulheres pobres e sem instrução inseridas uma cultura ainda mais machista, aquelas que por condição natural ignoram que seja planejamento familiar ou contracepção. E que tampouco deixam de ser influenciadas pelo macho ou, muito frequentemente, abandonadas pelo 'garanhão', tendo de assumir sozinhas o encargo de sustentar a prole, resultando disto situações de miséria e indignada que não podem ser desconsideradas, especialmente pelos que ousam apresentar-se como Católicos. Claro que as condições desta mulher pobre e quase sempre parda e semi analfabeta de periferia é totalmente distinta da madame fútil que encara o feto como um parasita ou como um pedaço de seu corpo! Como imaginar esta pobre mulher, vivendo como uma freira ou, procriando, sucessivamente sete ou doze filhos para que passem a viver sob condições desumanas???

Sem que o papa, o cardeal, o arcebispo ou mesmo o padre X ajudem-na a sustentar e criar dignamente esta imensa prole. Acaso o Marmelo Rossi ou o Pulha Ricardo estão dispostos a compartilhar do ônus que implica a criação de tantos filhos??? Quantos orfanados ou abrigos mantém eles??? Vão levar estas pobres crianças para a casa paroquial, adotar e cuidar??? Então veja só que diferença entre esta pregação teórica, que beira o fideísmo, e a atitude dos primeiros Cristãos, que mesmo sendo pobres assumiam o encargo de alimentar, vestir e manter os pequeninos???

Caso contrário denunciar, como criminosa e assassina a esta mãe pobre de periferia, que não recebe apoio algum, não passa de sórdida hipocrisia! Claro que a situação material, concreta e real desta mulher, deve ser considerada. Por que não localizam o macho que a abandonou? Por que não obrigam este celerado a pagar uma boa pensão? Por que não colocam este desalmado atrás das grades? Por que não punem este egoísta??? Porque se evade! Porque foge! Porque não há quem o encontre ou vá buscar! Porque é bêbado, drogado ou marginal! Porque não tem fonte de renda donde se lhe arreste uma pensão!!! Porque socialmente este homem ou marginal inexiste! E fica a mulher obrigada a manter-se sozinha, abandonada e com um cordão inteiro de filhos... Querem condenar o aborto em tais condições??? Assumam a responsabilidade social ou comunitária de vocês. Mas vocês murmuram contra a esmola do Bolsa família, e declaram - Quem pariu Mateus que balance! Que belos inimigos do aborto vocês são!!! Por que uma coisa é absolutamente certa: Se o macho pode omitir-se e permanecer impune, ou a Igreja ou o Estado i é a Sociedade, terão de auxiliar esta mulher... Do contrário, caso ela venha a abortar, calem a boca! Vocês são os infanticidas, não ela.

A situação da mulher em desespero é uma situação específica que os bons Cristãos não podem ignorar. Como criminalizar uma mulher destas em sã consciência? A qual já foi punida por si mesmo ao desfazer-se de um filho! Via de regra a mulher do povo tem sensibilidade e por isso fica, não poucas vezes, traumatizada, após abortar. Enquanto a mulher rica ou de classe média, cede as exigências do macho sem maiores consequências. Uma, amiúde, acalenta remorsos e culpa. A outra muito raramente. Portanto como pensar em punir esta vítima do machismo e do egoísmo humano. O mínimo que podemos dizer aqui é que a mulher que aborta, dependendo de seu contesto, não devería ser criminalizada. Assim a mulher pobre e sem instrução, a mulher do sertão, da rua ou da periferia. Esta mulher deveria sim ter sido acolhida e ajudada. Caso não o tenha sido, o mínimo que se espera é que não seja molestada pela hipocrisia alheia em busca de 'punições'.

Se vocês, paladinos do anti abortismo, querem de fato evitar que o aborto seja amplamente descriminalizado no Brasil - E nosso país só conhece soluções extremistas ou radicais: Proíbe tudo ou libera geral - comecem assumindo sua culpabilidade social e ajudando tais mulheres. Comecem a fundar orfanatos e abrigos tendo em vista a criação de tais pessoas numa atmosfera de carinho e dignidade. Sentem o coração doer face a tantos infanticídios? Pois bem adotem??? Quantos de vocês estão dispostos a adotar tais criaturas ou no mínimo a apadrinha-las??? Cadê as obras de vocês??? Quanto aos protestantes, ao menos são honestos quando declaram que não precisam fazer boas obras e que sem elas se salvam. Agora e vocês anti abortistas Católicos, cadê suas obras???

Me desculpem pera rude franqueza, mas se não fazem absolutamente nada ao invés de berrar: Aborto não... Vocês deveriam é engolir e digerir o anti abortismo de vocês. Porque cheira a hipocrisia. Vocês tem um problema que é em parte social, produto da ignorância e da miséria e nada fazem além de exigir que mulheres solteiras perambulem pelas ruas rodeadas por seus filhos esqueléticos! É este o espetáculo de uma sociedade Católica??? Um exército formado por uma multidão de miseráveis e famintos??? Sementeira de ravachóis e Casieros!!! Mas o Pe Pulha Ricardo... Mas o Pe Pulha Ricardo não passa de um fariseu hipócrita que coloca sobre os ombros alheios imensos fardos que nem mesmo com a ponta do dedo mindinho ousa empurrar!!! Pelo simples fato de não ter adotado alguns deses pobrezinhos ou de manter um abrigo destinado a acolhe-los! Ele só sabe pregar ou seja falar... Quanto a fazer...

Claro que alguns Católicos denodados e heroicos do passado, e una pouquíssimos hoje, tenham feito e busquem fazer alguma coisa. Merecem ser ovacionados e aplaudidos de pé. No entanto, parece que a imensa maioria dos que compõem esta multidão de abortistas tenha tombado no comodismo, no egoísmo e na insensibilidade. Limitando-se a apontar, a julgar e a condenar aqueles aos quais deveriam ajudar. Estão envenenados pela mesma ideologia neo liberal, burguesa e egoísta que alimenta os abortistas das classes superiores.

Continua


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quinta-feira, 5 de abril de 2018

Introdução ao Canon sociológico contemporâneo.


Segundo o canon sociológico atual prevalecente desde os anos 40 e 50 três seriam as matrizes teóricas da Ciência Social -

A Marxista ou de conflito, esboçada pelo pensador alemão K Marx juntamente com F Engels e sistematizada posteriormente por K Kautsky, Plekhanov, Rosa Luxemburgo, Bukharin, etc

De modo geral os marxistas insistem que existe uma infra estrutura material ou econômica (relacionada com as formas de produção) que da suporte a uma super estrutura cultural que envolve relações pessoais, princípios, valores e crenças.

Nosso período é determinado pela relação - Posse privada dos meios de produção e regime assalariado, o qual determina nossas formas de ser e pensar. Por fim o conflito presente se dá entre os detentores dos meios de produção - que vivem de mais valor - e os assalariados ou proletários.

A Positivista de E Durkheim, M Deat, C Bouglé, M Mauss; sobrinho de Durkheim e outros. O princípio explicativo dessa escola é o da causação funcional. Os fenômenos sociais tem uma causa que pode ser explicada em termos de suas funções sociais.

Já o objeto específico da Sociologia segundo Durkheim seria o fato social, compreendido nos seguintes termos:

Anterior e externo aos individuos
Coercitivo
Geral ou comum e
Objetificável ou coisificável

A Sociologia compreensiva tem por 'pai' o teórico alemão Max Weber, tributário de Simmel - teórico da sociologia formal - Tonnies e outros. Weber tem o mérito de tentar superar o materialismo marxista e o mecanicismo durkheimiano, legados do positivismo. Daí recorrer a um modelo epistemológico alemão elaborado tendo em vista as ciências do homem por Dilthey, Rickert, Windelband e outros. Basta dizer que ele tem o arrojo de incluir a pessoa humana como agente da ação social, uma ação intencional.

Ele não nega o valor da análise marxista quanto a sociedade ocidental contemporânea ou capitalista, que é materialista e economicista. Mas julga que de modo geral, outras culturas e sociedades fogem a este padrão, identificando em algumas a prevalência de um éthos religioso ou espiritual e noutras uma tensão entre o material e o espiritual. Assim o modelo weberiano adota a solução multi causal ou multi fatorial de J S Mill.

Dentre os conceitos cunhados por Weber destacamos a 'afinidade eletiva' entre diversos conceitos, ideias e crenças, conceitos que são capazes de penetrar diversas esferas da existência humana e de aproxima-las e coordena-las em termos de 'civilização' assim a Kalokagatia para os antigos gregos, a vida eterna para os antigos egipcios, a solidariedade para os primeiros cristãos, a tradição dos ancestrais para os antigos chineses, o individualismo para o homem ocidental do tempo. Essa visão orgânica de cultura recebeu o nome de culturalismo. 

Enquanto recorte - a Escola de Franckfurt adota o termo - o enfoque marxista (Despojado de suas receitas de bolo futuristas em torno da Revolução cataclísmica < Elemento tomado por Lênin a Sorel > da ditadura do proletariado, do fim da História, etc) é importantíssimo para compreendermos os vícios e defeitos da Sociedade capitalista entregue ao 'Laisez faire' e para buscarmos supera-los. As contradições irracionalistas deste modelo precisam ser bem conhecidas para possibilitar sua transformação, até J S Mill estava de acordo neste sentido e não podemos pensar um pós capitalismo (democrático ou melhor policrático) sem considerarmos criticamente a crítica de K Marx.

Quando usado com liberdade, autonomia e criticidade, é o marxismo instrumento precioso no sentido de investigar seriamente a realidade que nos cerca e identificar suas mazelas. Como credo fechado em si mesmo ou como sistema 'ortodoxo' e partidarista avalio-o como o marxólogo Raymond Aaron apud 'O ópio dos intelectuais'.

Apesar dos vícios positivistas - como a monocausalidade, o reducionismo físico matemático, etc - o modelo de Durkheim é interessante na medida em que visa categorizar ou descrever que sejam fatos sociais, produzindo um objeto específico para nossa disciplina. Para além disto não podemos menosprezar sua contribuição a respeito dos elementos ou fatores que mantém determinada Sociedade coesa impedindo que mergulhe na 'anomia'. Foi ele quem cunho os termos 'solidariedade mecânica' e 'solidariedade orgânica'.

Outro aspecto peculiar a esta corrente foi tentar analisar outras sociedades e outras culturas, inda que sob influxo do evolucionismo linear e do esquema dos 'Três estados'. Houve por certo um ensaio no sentido de se compreender as sociedades tradicionais ou campesinas embora isto envolvesse quase sempre juízos de valor em torno da técnica.

A corrente weberiana é bastante saudável pelo simples fato de considerar o homem ou a pessoa humana como agente (ator) social, e não como peça de uma máquina mecanicamente movida. Neste sentido podemos classifica-la como uma sociologia humana e humanista, a qual foge aos devaneios metafísicos de Durkheim. A já citada compreensão de que as ideais que dominam as instituições possuem afinidade, é ferramenta indispensável para compreendermos a dinâmica das diversas culturas e civilizações. Neste sentido Toynbee foi o continuador natural de Weber no plano da História. Depois C Dawson, H Butterfield, Crane Brinton, etc

Além destes autores temos de citar Le Play, da escola da ciência social, Karl Von Lorenz, Wilfredo Pareto e entre os mais recentes Pitirin Sorokin, T Parsons e Timacheff, dentre outros, como teóricos importantes. Todavia de modo geral, a maior parte dos teóricos deixou-se influenciar em maior ou menor grau por Marx, Durkheim ou Weber. Há no entanto marxistas weberianos como Michael Lowy.

sábado, 6 de maio de 2017

O sentido da Encarnação: Como Deus sendo absolutamente perfeito torna-se livre e solidário


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Como dissemos no artigo anterior Criação e Encarnação não implicam impossibilidades. Antes implicam uma necessidade interna ditada pela própria essência divina. Donde concluímos que se são absolutamente necessárias é que enriquecem a Deus, antes Deus só é absolutamente perfeito porque produz criaturas e faz-se criatura entre as criaturas... E como não pode ser imperfeito é constrangido por sua própria condição a criar e a fazer-se homem. Deus não podería deixar de faze-lo sem empobrecer-se e tornar-se 'inferior' o que é absolutamente impossível.

Resta saber se de algum modo pode Deus tornar-se livre de alguma maneira e como isto se dá.

Uma vez que corresponde a perfeição do ser criado ser livre ou optar conscientemente pelo bem ou o mal, segue-se que a natureza humana e criada é 'livre' por definição.

Despojado do componente de sua liberdade cessa o homem de ser humano e converte-se em alguma outra coisa qualquer.

Ser livre é parte integrante de nossa condição finita.

Consequentemente ao fazer-se verdadeiro homem e lançar-se no mundo dos homens, Deus torna-se livre ou capaz de experimentar concretamente situações de liberdade no complemento da natureza humana que assumiu e incorporou a si.

Por isso da mesma maneira como atribuímos a necessidade absoluta a natureza divina tendo em vista sua natureza interna coerente e sua perfeição, afirmamos em alto e bom som a existência de vontade dinâmica ou livre arbítrio verdadeiro na natureza humana de Cristo.

Se foi questão de desafio ou curiosidade não diremos. Nós nos contentamos em afirmar que ele aceitou esta nova experiência movido antes de tudo pelo amor, pela bondade, pela generosidade, pela filantropia, pela piedade, pela solidariedade enfim...

Foi - Aqui L Chestov - movido por tão nobres sentimentos que Deus optou por sair de si mesmo, por abandonar a estabilidade, a bem aventurança, o conforto o comodismo, e experimentar aquela situação de desconforto, sofrimento, dor e drama representada pela Cruz. Afinal como observou Raskolnikoff todos os mortais nascem já sob este signo.

O fato é que diante do drama de nossa existência não quis a divindade omitir-se ou permanecer na platéia observando e aplaudindo. O Deus dos Cristãos e aqui esta sua beleza ímpar, o Deus da Igreja Ortodoxa e da fé Católica não é Deus insensível as situações de miséria e por isso quis irmanar-se e identificar-se ao máximo conosco. Quis se Emanuel ao invés de ficar tudo observando de oitiva como o tal ser absolutamente transcendente dos judeus e muçulmanos...

Nada mais cruel do que assistir impassivelmente o drama de nossa condição sem fazer-se participante ou ator. O deus semita permitam-me dizer francamente é mero espectador. Esse fantasma descarnado não sofre e furtando-se de sofrer não é capaz de consolar os sofredores. No Deus encarnado entre os homens apenas, no Deus que assume o encargo de caminhar conosco, no Deus do Evangelho, neste apenas temos um companheiro. Um Deus companheiro, coisa maravilhosa esta!

Este Deus lança-se no mundo dos homens e aceita o desafio de ser livre em sua natureza humana.

Aceita o desafio da liberdade.

Como não pretendo discorrer sobre meandros de alta teologia, furtar-me-ei de abordar as decorrências da liberdade da pessoa única de Cristo Jesus. É assunto de alta teologia, indigesto e enfadonho para muitos e incomodo alias para a maior parte dos Cristãos, ao menos inconscientemente docetas, maniqueus, monofisitas, monotelistas... Sempre tentados a mutilar, reduzir ou obscurecer a natureza humana de Cristo. Sabemos no entanto que é verdadeiro homem e se não levamos esta certeza até o fim destruímos o padrão de nossa fé que é a Encarnação. Deus só se encarna de fato caso se torne integralmente homem, sem restrições.

Homem em tudo semelhante a nós menos no pecado.

Portanto homem quanto ao corpo físico com seus processos e necessidades e homem quanto a liberdade com seus dramas mais íntimos.

Temos de assumi-lo, é necessário.

Não da mais para manter a piedosa farsa, oriunda da mitologia, a respeito de natureza pré adâmica ou pré pecado diferenciada com seu corpo de luz ou impassível. Tudo isto não passa de um delírio insano!

Tudo quanto pretendo aqui, por meio deste breve ensaio, é deixar bem claro e bastante claro é que o Deus Cristão mergulhou de cabeça no grande drama de nossa existência, a qual consiste em optar entre o bem e o mal, o perfeito e o imperfeito, o melhor e o medíocre, o superior e o inferior... Encarnado teve a natureza de Jesus que tomar decisões, as quais certamente não foram nem um pouco fáceis.

Segundo o critério da fé e piedade teve de abster-se do mal e do pecado. Sendo homem entre os homens não pecou... O que certamente toca ao heroísmo. E mais uma vez revela-nos a 'ponta' deste drama. Podia pecar, certamente foi solicitado ou tentado (Ser tentando sem consentir não é pecar!), mas não cedeu e não pecou. Tomou as decisões mais certas e convenientes convertendo-se em ideal utópico de perfeição para os mortais e ensinando-nos sobre como devemos agir e viver. Ministrou-nos as mais elevadas lições de éticas não apenas com os lábios ou com a boca, mas sobretudo com aquele amor que converteu-o num exemplar vivo do Evangelho que pregava e num compêndio ambulante de todas as virtudes!

Não era boneco ou marionete, vazio de espírito e controlado pela divindade. Era ser livre que livremente aceitou morrer e sofrer na Cruz obedecendo a um desígnio eterno: Atrair, persuadir, convencer e recuperar o ser humano através da manifestação de seu carinho infinito. Aspirou morrer para demonstrar o amor, que nos amava, que estava junto conosco, que se preocupava conosco, com nossa situação e condição. Cruz é isto - Não punição absurda e sádica imposta por qualquer outro poder superior (Segundo a fórmula blasfema - deus mata deus para aplacar deus) - símbolo ou prova de amor e cuidado. Caso o martírio não fosse livremente aceito onde ficaria o amor? Caso não fosse voluntario mas imposto por um poder supremo como conservaria seu profundo sentido?

A natureza Humana sempre pode furtar-se a solução final e por isso pouco antes de ser suspensa - No exercício da liberdade e esmagada pela dor - rogou a natureza Divina: Aparta de mim este cálice, emendando-se logo depois: Conformo esta minha vontade com a tua! Mas instante antes havia hesitado e manifestado desconformidade (Provocada do medo causado pela experiência da dor), justamente porque era livre e não manipulado ou controlado pela divindade.

A natureza humana conserva-se sua integralidade e autonomia e Jesus sobe o calvário por livre decisão. Optou por tomar a Cruz ao invés de recebe-la. Não foi imposição foi decisão e esta decisão deve ter sido mais dolorosa do que a própria Cruz ou ao menos igual. Pela contemplação do futuro a experiência dolorosa da Cruz já se antecipa a mente do mártir e até podemos dizer que desde o primeiro instante em que se fez homem sentiu a presença e o travo da cruz antecipadamente e que sua vida foi em certo sentido um martírio lento e uma subida paulatina ao monte do Gólgota.

Mais a natureza humana deve ser abandonada a si mesma e ao sofrimento não para que pague qualquer coisa ou aplaque qualquer coisa, mas apenas e tão somente para chegar as últimas consequências do amor e mostrar para os homens mortais que amar concretamente jamais e fácil, que implica decisões, limitações, sofrimentos, dores, sacrifícios e o que é pior - Tudo livremente aceito e racionalmente considerado.

Adianta-se Jesus e dá um passo a frente face ao drama de uma existência livre posta entre o bem e o mal, a abnegação e o egoísmo, o comodismo e o sacrifício. Mas como podemos fazer o que é certo se estamos sós? Como obedecer a lei eterna ou ao imperativo divino? Como exercer a virtude? Olhando para a cruz e contemplando o exemplo dado pelo próprio Deus que se faz companheiro. Nada impossível, absolutamente impossível ou utópico se a brecha dessa senda foi aberta por Jesus. Se ele tomou a dianteira e foi a frente. Não, o Deus Cristão apenas, e tão somente ele não exige de nós algo que não tenha ele mesmo feito. Por isso assumiu a livre vontade e submeteu-se a lei eterna da consciência. Não se trata de um deus demagogo, que muito exige sem nada fazer... Mas de um Deus educador e presente.

Resta-nos por fim esclarecer como e porque este Deus se manifestou visível e fisicamente na carne, uma vez que estava já presente no mundo, não ausente e separado. Então temos de saber como e porque já estava presente no mundo!

O que deslindaremos no último artigo desta série.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Objetividade ética - Critério humanista

Para mim humanismo não é mera questão de opinião ou ponto de vista, mas de objetividade essencial.

Justamente por não 'admitirmos' a objetividade essencial das coisas somos absolutamente levianos, acomodados, descompromissados, insensíveis.

Graças a essa brincadeira de muito mau gosto alimentada pelo ethos burguês chegamos a duvidar da existência do ser e consequentemente da existência da pobreza, da injustiça, da miséria, da opressão, da dor e do sofrimento alheio, como o qual nos acostumamos a conviver folgadamente. Não nos empenhamos efetivamente na construção de um mundo melhor, mais justo, humano e fraterno pelo simples fato de crer que tudo não passa de aparência ou ilusão.

Para quem vive bem é fácil crer que a experiencialidade da vida alheia, da vida real e vivida, seja ilusória ou aparente.

Quem sofre sofre e por isso não esta interessado no númeno ou na coisa em si imaginada pelos filósofos de gabinete, geralmente bem vestidos e alimentados.

Ser cético face a dor alheia não é ser pensador ou filósofo. Me perdoem é ser cruel, canalha ou psicopata.

O grito de angústia do outro me faz perceber seu sentimento como real.

Chagas purulentas, farrapos, comida podre, palafitas, pontes de madeira, lama podre... é inferno real sobre a terra e sou chamado a posicionar-me face a ele ao invés de ficar diletando...

Para mim a negação do mundo implicará sempre na aceitação do mundo tal qual é e portanto em colaboração e servilismo. Aceito a realidade do mundo para empenhar-me em transforma-la.

Foi da imoderação dos céticos que partiu a negação da Ética e da negação da Ética ou do cientificismo comteano todas as culturas de morte que assombram o Ocidente. E o ceticismo com seu utilitarismo, com seu pragmatismo, com seu emotivismo e sobretudo com o relativismo crasso não lhes opôs resistência alguma. Deixou-nos indefesos face ao liberalismo crasso, o fascismo, os militarismos, o nazismo, o comunismo, etc Batemos de porta e porta pedindo ajuda a essas ideologias necrosadas e não achamos resposta alguma, apenas opressão e sórdida opressão e esmagamento do homem!

O ceticismo metafisico lanço-nos neste báratro de estruturas econômicas ou sociais e nos perdemos por completo e chegamos a negação do outro. Negamos o outro pelo dinheiro, pela raça, pela pátria, pelo partido, pela categoria, pelo gênero... Rotulamos, etiquetamos, desumanizamos...

Tudo porque lá atrás, lá no passado, algum gênio do mal ou ídolo podre declarou que nossa ética sendo meramente subjetiva, relativa e irracional não possuía qualquer padrão ou critério satisfatório.

Objetiva era apenas e tão somente a ciência material e empírica, filha das provetas e tubos dos laboratórios.

Como a Ética não fraciona, não conta, não mede, não pesa, não prevê... passou a ser identificada com os costumes ou preconceitos legados pelo passado remoto ou como resíduo transmitido a estes tempos áureos de par com as superstições mais degradantes...

No entanto era necessário substituir a Ética por alguma coisa. A princípio escolheram a 'deusa' razão. Mas o racionalismo de Voltaire, Rousseau, Diderot, Maine du Biran, Jouffroy, Damiron, Cousin, Renan, etc continuava remetendo os homens a um Ser Supremo e Legislador Eterno. Derribaram-na e entronizaram em seu lugar a ciência, e em seguida o capital, a pátria, a raça, o partido, etc E um deus foi derrubando e devorando seu predecessor... Alguns deuses apenas definharam, outros ressuscitaram quase que miraculosamente; e chegamos a esta luta inglória entre 'pés de barro' que consome as energias do mundo ocidental enquanto o abutre do islã permanece a espreita. A espreita duma civilização, que a semelhança do antigo Império romano, fragiliza-se dia após dia...

Quando encaro a infeliz Europa infeccionada pelos germes cadavéricos do ceticismo, do relativismo, do subjetivismo e das culturas de morte, ocorre-me a imagem horrenda do menino etíope, esquelético, observado pelo abutre faminto.

E ai esta o abutre... Lá em Paris o islamismo, aqui o pentecostalismo, nos EUA o Belt Bible...

Talvez a única liberdade que tenhamos seja a de escolher o monstro porque seremos devorados.

No entanto como ainda não morremos, não demos o último suspiro, não soltamos a respiração, não fomos devorados, temos ainda esperança.

No vestíbulo ainda do inferno de Dante resta-nos ainda um pingo de esperança.

E acreditamos que o cidadão ocidental, superando os preconceitos americanistas e pós modernos (que são o câncer desta civilização moribunda), será cada vez mais de contemplar seu passado, seja ele medieval ou clássico, e reencontrar-se nele ao descobrir as fontes e o sentido de sua cultura original.

Nestes tempos há quem aposte em Marx, em Mises, em Rootbarth, em Stirner, em Lutero, em Calvino, em Nietzsche, em Durkeim, em Dawkins, em Trump... Nós esperamos decididamente em dois derrotados: Num envenenado e num fugitivo ou seja em Sócrates e em Aristóteles, aos quais bem poderíamos adicionar um revolucionário e contestador supliciado nos confins da Judeia. São nossas fontes de inspiração juntamente com o já citado Marx, Weber, Darwin e especialmente Mestre Freud.
A eles: Sócrates e Jesus é que tomamos nosso critério ou padrão de Ética: O homem, sua vida, sua dignidade e sua liberdade.

Pois quando discursamos sobre este homem discursamos sobre nós mesmos lançados que fomos na mesma condição.

Todos conhecemos de perto a dor e a aborrecemos. Todos conhecemos por experiência o prazer e o desejamos, embora não sob a mesma forma!

O problema aqui não é a busca pelo prazer ou a fuga face a dor.

O problema é o outro.

O outro e nossa busca pelo prazer. O outro e nossa fuga face ao sofrimento.

Podemos sacrificar o outro, que é semelhante a nós, tendo em vista a aquisição do prazer ou a eliminação da dor?

Podemos usar o outro para adquirir o prazer ou suavizar a dor?

Podemos por de lado o elemento humano e cogitar apenas na dor e no prazer como fenômenos abstratos?

Qual deveria ser nossa intenção, a intenção reta, a intenção pura?

Como identificar-se é reconhecer a semelhança e admitir que também o outro foge a dor e busca o prazer, a reflexão é pertinente.

Na vida vivida em que fomos lançados isoladamente conseguimos muito pouco e sempre temos laços de dependência mútua.

Assim se hoje os outros dependem de nós, amanhã bem poderemos depender deles.

E quase sempre esperamos algo dos outros.

E até calculamos o que devemos fazer para agradar os outros e ser favoravelmente satisfeitos.

Tendemos a confiar na reciprocidade.

É uma tendência natural esperar o melhor do outro, especialmente quando nos adiantamos e beneficia-mo-lo.

Quantas vezes não recebemos nada do que desejamos justamente porque nada demos e fizemos por merecer?

Neste sentido adiantar-se e beneficiar o outro - ao menos desde que não haja dano ou prejuízo para nós - parece ser a atitude ou critério mais sábio.

Pois se tratarmos os outros como desejamos ser por eles tratados e portanto sempre que possível for amável e benignamente, honramos a natureza comum.

Ademais na medida em que nossas atitudes forem sendo imitadas pelos demais e a corrente do bem tornando-se mais densa as chances de sermos nós mesmos beneficiados irão se tornando bem maiores. Trata-se portanto dum princípio que se levado a sério melhorará a vida de todos.

Da mesma forma, se esperamos que não nos façam quaisquer males comecemos abstendo-nos de fazer mal aos outros. De modo que nosso exemplo venha a ser imitado e o mal entre em declínio.

Evidentemente que este padrão de comportamento nos remete a espécie ou gênero humano em termos de solidariedade.

Ao fazer mal a mesma qualidade que esta no outro faço mal a mim. Pois pela razão, a liberdade, a vontade, a percepção, etc estou no outro e sou um com ele. E ao beneficia-lo beneficio a mim mesmo.

Assim nosso padrão ou critério será o homem ou melhor ainda a humanidade, a espécie humana; e tudo quando a favorece.

Agora quais os bens mais caros e preciosos ao homem?

Antes e tudo a vida! Condição primária para que tenhamos acesso a todos os outros bens oferecidos pelo universo. Não há como ter acesso ao prazer sem estar vivo.

Assim a Ética da pessoa valorizará antes de tudo a vida, e se oporá decididamente a morte, assim ao assassinato e assim a pena capital (embora aqui possam ser feitas algumas exceções).

No entanto esta vida deve valer a pena. Devendo ser digna para ser prazerosa.

E por dignidade devemos considerar antes de tudo a ausência de dor.

Sob pretexto algum seria lícito fazer o outro sofrer, assim profanar-lhe o corpo, mutilar seus membros e tortura-lo. É crime dos mais perversos e abomináveis digno apenas de psicopatas e povos bárbaros.

A integridade do corpo, seguem-se em matéria de dignidade humana a saúde, a alimentação, a vestimenta, a habitação e o lazer.

Abster-se-a o homem virtuoso de comprometer direta ou indiretamente a saúde, a alimentação, a habitação e o ócio alheios. Jamais poderá subtrair remédios, comida, bebida, roupa, brinquedos, etc aqueles que os tenham adquirido honestamente e deles façam uso.

Agora como tais bens costumam ser adquiridos pelo próprio sujeito as custas do valor auferido pelo trabalho que exerce, chegamos a questão da propriedade pessoal. A qual jamais deverá ser confundida com a posse dos meios de produção, esta sempre poderá ser questionada e ter sua legitimidade negada; aquela jamais. A propriedade pessoal é sagrada e inalienável e sua apropriação por particulares ou pelo Estado um crime abominável.

Por propriedade pessoal definimos os proventos obtidos por meio do trabalho. Assim o salário ou estipêndio, bem como todos os objetos ou coisas adquiridos a partir dele. Portanto se um imóvel foi comprado por um trabalhador com as economias advindas de seu trabalho temos propriedade pessoal e portanto intocável. O homem virtuoso jamais ousará apropriar-se de qualquer objeto adquirido as custas do suor alheio, assim não furtará.

Obviamente que isto não toca a questão da herança, do excesso, do acúmulo, etc mas apenas das propriedades e bens adquiridos com o suor do trabalho e USADOS pela família.

Claro que tudo isto nos leva a questão da justiça pessoa e social.

Em termos clássicos definimos a justiça como dar a cada qual aquilo que lhe pertence. Isto apenas é certo, correto e direito.

Aquele que trabalhou e produziu pertence ao menos parte da produção em termos de valor. Como aquele que plantou uma árvore e dela cuidou merece colher os frutos e degusta-los. E aquele que semeou o trigo e por ele velou pertence o direito de ceifa-lo e converte-lo em pão. E aquele que adquiriu a uva e transformou-a em vinho em seu lagar, a felicidade de bebe-lo.

O compromisso do homem com a justiça implica questionar sempre se as pessoas estão tendo acesso aos bens que ajudaram a produzir, e a analisar e a questionar a repartição dos bens.

Há por fim aquela Ética atinente a liberdade humana ou a auto determinação da pessoa e que diz respeito a suas escolhas. Implica admitir que as pessoas possam exercer o ofício que bem quiserem, acreditar no que quiserem (ou não), expressar-se como desejarem e determinar o que haverão de comer, beber, trajar, ouvir e com quem haverão ou se haverão de casar ou com quem haverão de transar... etc, etc, etc.

Como todos desejamos ser livre e determinar nossas vidas é perfeitamente compreensível do ponto de vista racional, que reconheçamos a liberdade alheia. Afinal na mesma medida em que aspirarmos dominar os outros, outros aspirarão dominar-nos. Então o menor é que respeitemos as liberdades uns dos outros numa perspectiva comum. Claro que a dimensão da liberdade tem um limite bastante preciso: A vida, a dignidade alheia e os imperativos da justiça. Grosso modo podemos dizer que a pessoa tudo pode exceto causar dano ou prejuízo ao outro.

Chegamos assim ao supremo critério de ética.

Se o padrão é o outro e aquilo que o outro teme é a dor ou o sofrimento, segue-se que posso fazer absolutamente tudo quanto me der na telha, desde que não atinja ou acometa o outro.

Por este critério temos o fim da moralidade enquanto costume arbitrário e a consagração de uma ética essencialista, humanista e racional.

E temos como saber perfeitamente que a norma: "Não vestireis ao mesmo tempo roupas de lã e linho." em termos de Ética não faz sentido algum pelo simples fato de que a associação dos dois tecidos não prejudica a quem quer que seja.

Dá mesma forma o preceito: "Proibido comer coscorões." torna-se igualmente irrelevante pelo simples fato de não tocar ou atingir a pessoa humana.

Já a recomendação para amar, beneficiar, respeitar e tornar felizes o maior número de seres humanos converte-se em imperativo categórico, num mandamento ou numa necessidade.

Promover o outro em todos os sentidos e sob pretexto algum incomoda-lo. Aqui temos uma regra de ouro.





terça-feira, 31 de maio de 2011

O povo unido jamais será vencido

A sociedade como um todo (exceto a burguesia) quer educação de qualidade e saúde de qualidade. Mas quando professores fazem greve ou quaisquer outras categorias fazem greve, não apóia e critica. Mas essas categorias fazem greve por salários melhores, por melhores condições de trabalho, pois se os médicos tiverem melhores condições de trabalho, se receberem aumento, se suas jornadas são reduzidas sem redução de salário, a qualidade da saúde pública logo se fará perceber.Se os professores depois de uma greve conseguem um salário digno, não terão necessidade de trabalhar em duas ou três escolas, mas como não conseguem nada com suas greves, porque o povo não apóia, então, tudo continua a mesma coisa, os professores trabalharão em duas ou três escolas, não terão tempo de preparar suas aulas, estarão estressados e suas aulas serão nada mais do que lixo. O mesmo se diga dos médicos que trabalham 18 ou mais horas por dia, ou trabalham em duas clínicas é aí que acontecem as desgraças... Ao se apoiar uma greve não é só uma categoria que ganha mas toda a sociedade, pois se o povo derrotar o governo, médicos e professores ganharão mais, ganhando mais podem ser proibidos de trabalharem em outras clínicas e escolas, e por conseguinte a qualidade dos serviços prestados vai aparecer. O individualismo aqui não cabe, individualismo para ser sincero é sinônimo de burrice. Quer ser egoísta e sair ganhando? Então seja solidário, pois sua solidariedade se reverterá em benefícios para você. O primatologista Franz de Waal já provou isso cientificamente.