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domingo, 18 de julho de 2021

O Karma ou a roda do Comunismo, de Marx e de Sorel...

Sabido é que mantenho franco diálogo com representantes de pensamento, isto a ponto de ter assistido, como convidado de honra e observador, a todo tipo de reuniões ideológicas. Tenho os ouvidos abertos a todos pois gosto de conhecer ou de aprender e não apenas por meio dos livros, embora eles também ajudem muito, especialmente quando vamos as fontes primárias ou aos autores e suas obras. Alias só não atendi aos convites dos maçons e não as reuniões a que fui convidado porque não me interesso pelo que seja oculto, mas apenas pelo que é público. 

Por isso quando mais moço fui as reuniões dos comunistas, os quais alegavam - Alguns quiçá sinceramente, e outros por bravata. - se terem conciliado com o pensamento democrático e superado o paradigma da Revolução violenta. Observei tudo muito atentamente e não tardei a perceber a terrível contradição existente entre o pensamento de Lênin e o pensamento de Marx e Sorel, mesmo quando Lênin tenha tomado seu éthos revolucionário a Marx e seu método a Sorel. Sucede no entanto que por questões de princípios e coerência lógica Marx e Sorel eram etapistas, julgando que a Revolução seria acionada pelo máximo desenvolvimento do modo capitalista de produção, assim na Inglaterra, na Alemanha ou nos EUA, jamais na Rússia, quase feudal e eminentemente agrária do Czar. 

Posto está que numa Rússia agrária e feudal Lênin não esperou pelo kairós assinalado por seu guru mas ousou agir sem esperar pelo momento histórico e cuidou poder fazer avançar o processo histórico, e agindo assim inverteu e subverteu o marxismo, enquanto esquema dado e modelo pronto, antepondo a Revolução ao desenvolvimento das forças de produção que deveriam aciona-la e transplantando o desenvolvimento das forças de produção capitalistas para depois da Revolução soviética. 

É portanto, perfeitamente natural e compreensível, que a decisão de Lênin e o sucesso da Revolução tenham planteado aos revolucionários bolcheviques toda uma série de problemas jamais imaginados por Marx, Engels ou Sorel, o quais haviam imaginado outro esquema ou outra realidade. Tais problemas a seu tempo receberam distintas respostas por parte dos pensadores comunistas russos, do que resultou a fragmentação, o sectarismo, o conflito e a confusão - Até Trotzky, Preobrajenski, Bukharin, etc ninguém sabia ao certo como lidar com aquela realidade a parte do esquema.

Basta dizer que parte dos Comunistas, e começaremos a crônica da loucura por aqui, eram favoráveis a promover o desenvolvimento das forças de produção nos termos capitalistas ou liberais, enquanto outros propunham a industrialização forçada do campo quase que nos mesmos termos, e por ai adiante.

Claro que outros tantos comunistas ficavam chocados diante de tais propostas e no entanto eram elas coerentes e partiam do etapismo marxista. 

Faço agora uma pausa e torno a minha experiência com os comunistas.

Vez por outra tive ocasião de em alguns autores apostólicos romanos - Quem sequer pertenciam a teologia da libertação, sendo quase todos anteriores ao Vaticano II - (Alguns padres inclusive.) que apesar de seus vícios e erros possuía o comunismo uma vantagem face ao liberalismo econômico ou o capitalismo, e era esta vantagem um sincero desejo de resgatar o homem da opressão (Um certo humanismo), certa compaixão pelos oprimidos e um sentido de justiça social... Após ter convivido com os comunistas de hoje e buscado conhece-los não mais posso corroborar esta premissa humanista... Após ter lido as "Reflexões sobre a violência" de Sorel devo confessar que ao menos parte dos comunistas não partilham de tais princípios. Marque isto leitor amigo!

Todavia antes de tornar ao marxismo para confrontar os marxistas fortes e coerentes, devo dizer duas palavrinhas sobre o anarquismo e declarar que sua condição é muito pior, posto que ao veneno materialista mecanicista juntam um psicologismo mais forte, um iconoclasmo mais amplo e certa doze de individualismo (O que faz dele uma ideologia muito mais virulenta.) O Comunista coerente, após percorrido o caminho, aspira derrubar o modelo econômico atual que ajudou a desenvolver-se, certo de que a estrutura cairá por si mesma. Enquanto o anarquista tudo aspira derrubar e destruir junto com o modelo econômico sem aguardar qualquer transformação orgânica. 

Quando passei a conviver com os comunistas - Como convivi com os fascistas, com os anarquistas e até (Pasme leitor!) com os protestantes (Pois meu irmão e eu fomos observadores num curso de Teologia protestante.) - algo chamou de imediato minha atenção, o famoso grupo do 'Quanto pior melhor', amiguinhos do DEM ou do antigo PFL e do PSDB, que pretendem assistir impassíveis ou melhor complacentemente a marcha do capitalismo e seu fortalecimento no Brasil. Parte dos quais não apenas nutrem um ódio feroz contra aqueles que por meio de reformas procuram atenuar ou conter o capitalismo como chegam a unir-se frequentemente com os janízaros do capital contra os socialistas parlamentares ou sociais democratas.

Na primeira reunião deles que assisti chamei um desses srs a parte e pus-me a solicitar suas razões, motivos, etc Ele no entanto não soube ou não quis responder-me. Posteriormente outro deles, este leitor compulsivo dos teóricos (O que não é comum entre eles!) polemizou com meu irmão alegando que os socialistas parlamentares, sociais democratas e reformistas eram os inimigos por excelência, traidores e apostatas por haverem abdicado do ideal revolucionário e dos meios porque seria ele atingido: O livre desenvolvimento do Capitalismo ou do modo de produção burguês, o qual de modo algum deveriam ser atalhado ou combatido, já porque continha em si mesmo os germes de sua destruição. 

Contendo ou suavizando o capitalismo por meio de reformas políticas inspiradas por uma Ética humanista o quanto fazíamos era conter o fluxo da História e postergar a Revolução. 

Lembrava-me disto e sabia o sentido mas não havia aquilatado a malignidade intrínseca. 

Até o dia em que lí, e a leitura é recente, as "Reflexões sobre a violência" de G Sorel, o qual, quanto a isto, é marxista ortodoxo e mais exaltado que os próprios comunistas.

Pois nada equivale a testemunhar um teórico do Escola referendando com suas palavras tudo quanto havíamos já havíamos intuído sem no entanto querer acreditar, por ser o que é... Mas é.

Também meu irmão, que chegou a ser anarquista ao modo de Tolstoi e Kropotkin, tendo por isso convivido com os 'ocidentais' de Bakhunin e com os libertários dos EUA (Aos quais jamais poupou severas críticas, até desvincular-se do anarquismo por causa deles.), tem se perguntado a cada dia, durante os últimos seis anos, por que os mesmos anarquistas que moveram guerra atroz a ex presidente Dilma toleraram de muito bom grado não apenas o ultra liberal canalha do Temer mas até mesmo o Bolsonaro, esse fantoche da teocracia e títere da bancada evanjéguica?

Pois é questão que se planteia e grave questão.

Por que raios os comunistas aderiram a aliança liberal contra esse mesmo Vargas que de bom ou mau grado reconheceu os direitos dos trabalhadores? Por que na Espanha foram contra Franco, em Portugal contra Salazar, na Argentina contra Peron e na França contra De Gaulle quando todos estes eram combatidos pelos liberais economicistas? Por amor ao política liberal ou as instituições democráticas? Pera lá - Não são os comunistas inimigos inconciliáveis da democracia burguesa e da política parlamentar, partidários da Ditadura do proletariado e do liberalismo moral ou pessoal? Então por que raios se uniram a oposição capitalista em todos esses países? Qual o segredo de tostines?

Sabido é que parte desses ditadores, tal e qual Hitler e Mussolini, foram alçados ao poder num cenário político formalmente democrático pelas massas lançadas numa situação de extrema penúria e angústia, pois haviam captado os anseios imediatos das massas e acenado com reformas destinadas a conter o espírito do capitalismo em ascensão. O que de modo algum havia ocorrido aos comunistas e anarquistas, os quais tentaram em vão conquistar os trabalhadores ( E de fato não pouparam e não poupam esforços para isso.) e mesmo camponeses com suas propostas abstratas e futurescas na direção de uma metafísica revolucionária, insistindo na preparação da Revolução futura. O bom povo no entanto, sejam funcionários públicos, camponeses ou mesmo a maior parte do que chamam de proletariado, jamais se interessou pela tal mudança cósmica futura. E mesmo na Rússia eles só conquistaram a adesão dos camponeses e obtiveram a vitória acenando com a Reforma Agrária.

Quanto aos países protestantes - Onde Marx e Sorel, péssimos conhecedores da cultura, imaginavam explodir a tal Revolução - um ideal funesto imposto pelos pastores tem resistido a todas as forças produtivas por mais de século e meio...

Os nossos no entanto, a suportar a indignidade imposta por um capitalismo plenamente consciente e imperioso, preferiram cair nas garras dos ditadores e demagogos que lhes acenavam com reformas.

Naturalmente que os janízaros do capital denunciaram-nos e combateram-nos desde o princípio, alegando motivações democráticas, quando as verdadeiras motivações eram econômicas: Manter a auto regulação ou as imunidades do capitalismo, e fugir as odiosas reformas. O quanto eles desejavam era manter o trabalhador como vil escravo e é de fato chocante que a proposta de uma emancipação sumária tenha partido de ditadores, porém tal se deu em todos os países citados. São fatos - Que fazer? Assim o é ou foi.

Agora por que raios os revolucionários comunistas fizeram pacto de aliança com os tais Capitalistas e burgueses se não comungavam do valor comum em torno da democracia formal? Alguém me pode dar uma resposta satisfatória? 

A partir de Sorel, interprete fiel do sr Marx posso da-la eu.

Justamente por que os tais ditadores odiosos eram tão reformistas quanto os socialistas parlamentares e a sra Dilma Roussef. E basta ser reformista ou pensar conter o capitalismo para exasperar todos os revolucionários sejam comunistas ou anarquistas. Pois foge a seu esquema etapista, segundo o qual cumpre ao capitalismo desenvolver ao máximo suas forças, aprofundar a luta ou conflito social, inspirar ódio mortal ao proletariado e acionar a desejada revolução, não havendo outra via de acesso, passagem ou caminho.

É o desenvolvimento modo de produção burguês que criará as condições para a Revolução comunista, é ele que nos conduzirá a ela, é ele que a deflagrará. 

Sociólogos humanitários, clérigos justicionistas, socialistas parlamentares, democratas reformistas, ditadores sagazes, sindicalistas imediatistas, etc são todos e efetivamente todos adversários da Revolução na medida em que tentam conter ou fazer recuar o poder do grande capital ou amenizar as mazelas produzidas por ele. Para que surja a revolução a tensão deve agravar-se e não diminuir. 

Perceba, para o comunista leal, para o marxista coerente e para o materialista compenetrado, tais grupos só podem ser vistos como perniciosos e odiosos em máximo grau, pois são os traidores que repudiam formalmente os ensinos de Marx e Engels e que fazem abortar o grande dia. O reacionário portanto, aquele que sonha com uma sociedade economicamente equilibrada ou com a extensão das classes médias, com a estabilidade e com a paz social, é o inimigo por excelência, o proscrito, o maldito.

Quem sabe por que os comunistas maravilhosos se opuseram a Vargas não tardará a intuir porque os anarquistas que combateram Dilma não se empenham em combater seus sucessores. Dilma era a inimiga, assim Lula, posto que uns e outros pretenderam conter a fúria capitalista ou liberal por meio de reformas, i é, porque eram reformistas. Dilma e Lula eram e são ameaças concretas ao destino da sociedade brasileira pelo simples fato de terem buscado a justiça social e aliviado a situação de milhões e milhões de criaturas humanas. No entanto se o preço pago pela promoção humana e pela justiça social é postergar a gloriosa ruptura chamada revolução é um preço demasiado caro - Ferre-se a justiça e vá as favas a promoção humana, pois o que importa é o 'ideal' ou projeto futuresco de Revolução.

É Sorel quem o diz e em alto e bom som: O Verdadeiro revolucionário seja comunista ou anarquista não cogita em Justiça, conceito subjetivo e embaralhado sem maior conteúdo ou valor (Aqui Litreé, Ayer e outros positivistas concordam.). Tampouco (Sendo ateísta.) considera ele algo a semelhança de uma lei natural ou em termos de essencialidade, o que serve unicamente aos poderosos (Aqui mostra ele imensa ignorância em termos de História já quanto o socratismo grego, já quanto o Cristianismo antigo.). Ademais o Revolucionário nada busca de imediato, nem mesmo aliviar os sofrimentos, dores, e angústia dos trabalhadores, mas apenas a Revolução futura, a qual absorve todos os seus cuidados...

Portanto o que dizem alguns Cristãos e padres sobre a busca dos comunistas pela justiça social e dos anarquistas quanto aliviar o sofrimento humano, pode até ser válido por parte de alguns deles - Mormente quanto aos que procedem do papismo, da ortodoxia, do espiritismo, do judaísmo ortodoxo, do budismo, etc e que mantém os valores recebidos ou a cultura (Mesmo caso dos ateus não marxistas ou anarquistas.) - mas não quanto a totalidade deles, especialmente quanto a parcela que nasceu e foi educada no sistema, estando familiarizada com os ensinamentos de Marx e chegado a introjeta-los. Caso sejam coerentes eles chegarão a doutrina do 'Quanto pior melhor'.

Posso pensar ou imaginar algo semelhante a tal padrão de pensamento, materialista, evolucionista, linear e mecanicista?

Sim posso e de fato existe um sistema religioso bastante parecido nos confins do Oriente.

Compreendo que parte do espiritismo kardecista tenha se esforçado, a luz do Evangelho a separar o veículo instrumental da reencarnação da doutrina metafísica do Karma. Por isso parte majoritária dos espíritas preconizam a prática fervorosa das boas obras. Ocorre-me no entanto, ao folhear certo livro doutrinário de origem espírita, em que o autor atribui esse zelo pelas 'imoderado' por boas obras a cultura 'católica' ou melhor apostólica romana, prevalecente no Brasil. Advertindo que a doutrina do Karma considera que é sempre melhor não beneficiar o outro, pois o benefício aparente equivale na verdade a um estorvo.

Advirto mais uma vez que a maior parte dos espíritas não compactuam com tal juízo extremado, buscando manter a doutrina da reencarnação, sem no entanto apresentar a doutrina do Karma como uma roda inexorável ou samsara. Por isso mesmo os espiritas que de algum modo referem ao Karma e buscam exercer a caridade são frequentemente apresentados como incoerentes não apenas pelos papistas e ortodoxos mas até mesmo pelos protestantes. Situação delicada.

Outro o caso do hinduísmo. O qual não se tendo deixado influenciar pelo Evangelho ou pelo Cristianismo, além de carregar o conceito de Karma ou samsara aduziu uma série de postulados éticos ou morais que consideraríamos aberrantes.

Se no marxismo temos uma metafísica materialista e determinista mecanicista no hinduísmo temos uma metafísica espiritualista ou espiritual igualmente determinista mecanicista, a qual face a dor e ao sofrimento leva as mesmas e exatas conclusões: A inação, a não interferência ou a omissão, enfim a uma insensibilidade monstruosa.

Não, não exageramos ao comparar a metafísica marxista com a metafísica hindu, posto que são ambas deterministas, mecanicistas e etapistas.

O princípio do Marxismo já expusemos tanto neste artigo como no anterior, sobre as correntes sociológicas. O princípio do hinduísmo ou da samsara fundamenta-se na crença de que todo e qualquer sofrimento porque passe o homem no curso desta vida é resultado de algum crime ou pecado cometido da vida precedente. Afinal reencarna o homem para fazer penitência ou pagar pelos pecados cometidos durante a existência anterior. Algo tipo a pena de Talião: Pé por pé, mão por mão, cabeça por cabeça. A conclusão é obvia: Cada sofrimento neste vida é uma oportunidade para pagar uma maldade cometida na outra e purificar-se. É o sofrimento físico o modo porque nos purificamos e nos aproximamos da perfeição. Daí a necessidade de aceitar resignadamente os sofrimentos... Tal no entanto não basta, pois na medida em que por compaixão interferimos no processo, com o objetivo de aliviar ou eliminar o sofrimento alheio estamos privando aquela pessoa de uma oportunidade para purificar-se. Portanto ao conceder-lhe um benefício imediato ou material estamos na verdade a prejudicando-a, tipo fazendo-lhe mau quanto ao plano mais elevado ou espiritual.

Por isso o hindu consciente e devoto tenderá ser indiferente aos sofrimentos humanos, já que sofrimento equivale a purificação.

A doutrina ou a teoria pode até ser bela, as consequências no entanto são monstruosas.

Perceberam como o Comunismo, sacrificando uma situação imediata, concreta ou atual de dor, tendo em vista o desenvolvimento desse sistema cruel chamado capitalismo e seu ideal metafísico e futuresco de revolução é análogo hinduísmo, posto que seu etapismo social corresponde a uma espécie de karma material ou materialista?

Os odiados e execrados reformistas ou socialistas parlamentares é que de fato se preocupam com o problema imediato, atual e concreto da injustiça social, da dominação, da exploração e do sofrimento humano. Eles é que se mostram sensíveis e comprometidos quanto a eliminar tais males agora, i é no momento presente, ao invés de recomendar aos sofredores que se conformem (Até que a Revolução estoure!) ou que tenham paciência; ou ainda que saiam lançando bombas em meio a população civil. 

Enquanto os revolucionários inumanos limitam-se a condenar qualquer tentativa no sentido de minorar as situações sociais de vulnerabilidade e angústia. 

A bem da verdade - E o leitor ficará com essa pérola ao termo deste artigo. - os meigos revolucionários (Ou Psicopatas) contam com tais situações de dor, angústia e sofrimento para exasperar ou enlouquecer (E o sofrimento de fato enlouquece.) o povo e lança-los nos braços da Revolução. Sabendo que parte das pessoas são amantes da paz ou acomodadas, por uma questão de cultura, contam esses ideólogos com o sofrimento para torna-las agressivas ou move-las a violência. É como os boiadeiros que para lançar um pobre boi num rio cheio de piranhas (O Araguaia) picam-no sem dó até que entre e seja devorado... Os anarquistas e comunistas encaram os trabalhadores como um boi de piranha, o qual deve ser picado pelo sistema capitalista até entrar no bojo da revolução...

E depois de tudo isso esses demagogos sem consciência ainda tem o desplante de virem a baila para censurar os trabalhadores e camponeses preocupados apenas com si mesmos i é com a condição dos trabalhos que realizam face a Lei ou que lutem por melhorias imediatas, ao invés de focarem na tal Revolução. 

Por isso nada é mais comum em suas reuniões e assembleias eles reclamarem que o povo ou mesmo o proletário é insensível a causa, de modo que as reuniões são formadas majoritariamente por intelectuais, professores e funcionários públicos... Quase todos oriundos das 'classes médias' que censuram e dizem odiar... - Não por proletários, pobres e muito menos camponeses. Diante disto eles se perguntam repetidamente: Por que? Por que? Que devemos fazer para atrair os trabalhadores, por quem lutamos. 

Minha Santa Simone Weill, essa boa gente jamais se colocou no lugar dum proletário ou trabalhou como um... Ideólogos lindinhos eles trabalharam quase sempre instalados em confortáveis poltronas, com ar condicionado, merenda, lanchinho, aguinha gelada (Oh odioso paraíso burguês!)... Assim o é. Agora que lhes tem a oferecer além de um roteiro metafísico cristalizado na palavra (Mágica) revolução? Nada, absolutamente nada. 

Negam que a alma sobreviva a morte do corpo ou que haja uma outra viva e ainda esperam que o trabalhador sofrido abdique do presente e viva em função do futuro.

Contam que os operários, camponeses e pobres sejam uns estúpidos ou idiotas, mas não são e a demonstração cabal é que essa mística materialista que assume a forma monstruosa de uma samsara não penetra eles. 


 

terça-feira, 13 de julho de 2021

Socialismos, o espelho do Cristianismo II

Já expusemos honestamente nossa vergonha.

Materialistas, mecanicistas, economicistas e positivistas há que ousam revindicar para si mesmos o título nada honroso de cristãos capitalistas ou liberais mercadistas. Fossem eles protestantes não nos admiraríamos disto - Oh Sancta Simplicitas... Pois é o protestantismo individualista, transcendentalista, livre examinista; sancionando quaisquer distorções subjetivas dos textos sagrados, etc

Incoerente, grave e escandaloso é que Cristãos apostólicos: Romanistas, Anglicanos e Católicos Ortodoxos tenham assimilado tão levianamente esse cipoal de heresias filosóficas e sociais enquanto berram como pegas no cio: Comunistas, comunistas... 

Ora, os comunistas não fazem parte da Igreja e aqueles que simpatizam com algumas de suas visões e métodos equivocados devem ser reorientados com toda paciência pela autoridade eclesiástica, ou, constatada a má fé, disciplinados. Aqueles que de fato se preocupam com os oprimidos e cuidam da justiça não terão dificuldade alguma em submeter-se. Pois é de nossa tradição mover guerra espiritual a avareza e denunciar a opressão sob todas as suas formas. É da Igreja tomar o partido dos fracos e oprimidos e vindicar-lhes a causa. No entanto são nossas fontes espirituais e nossos meios específicos.

Não somos comunistas nem nos fazemos comunistas por denunciar como devemos o pai do Comunismo, o Capitalismo esse filho terrível, afilhado ou enteado do protestantismo. 

O protestantismo, temos sempre de bater nessa tecla, foi quem lançou as sementes venenosas do individualismo ou do egoísmo. Foi ele que (Não estou atribuindo este erro fatal a Lutero! - O qual jamais negou as obras e sim que as obras salvassem!) apartou a Cristandade das obras e da imanência, ferindo de morte o ideal insercionista inaugurado pela Encarnação de nosso Deus. Foi ele que dando as mãos ao neo platonismo criou esse cristianismo descarnado, fantasmagórico ou 'espiritualizante'. Foi ele que por necessidade histórica deitou nos braços do poder estabelecido. Foi ele que tornou-se lacaio do Estado e por meio desse servo de forças econômicas. Foi ele que editou a nova versão 'frágil' do Cristianismo, esse Cristianismo fala mansa ou água com açúcar. Foi ele que converteu o Cristianismo em sedativo e tornou-o socialmente irrelevante ou inútil. Tudo isto fez o protestantismo, acalentando a víbora materialista/economicista em se seio e dando-lhe vida.

Aspiravam os poderes econômicos por semelhante oportunidade. De revindicarem autonomia e assumir a soberania. Demandavam portanto por uma Igreja submissa, sem Bispos, monges, conventos, cruzes e sinos... O protestantismo esvaziou e enfraqueceu o nosso Cristianismo, curvando-o face a outros poderes, quando lhe estava reservado o comando (Indireto ou via Ética) de tudo, assim a direção do processo histórico.

Tampouco pôde o protestantismo com sua petição grosseira a bíblia ou ao antigo testamento, assumir tal encargo ou a missão que revindicava. Impediam-no a divisão em seitas e consequentes disputas, a petição ao exame particular, o viés transcendentalista, etc E só por um tempo o monstro de Genebra, com a Torá entre as unhas, governou a ferro e fogo, fazendo verter torrentes de sangue humano e criando - Segundo Pierre Van Paassen (Com o apoio de Stefan Zweig) - o primeiro campo de concentração da História. Afinal a cegueira bíblica ou judaizante só poderia mesmo prevalecer por meio da força... 

Foi um triunfo efêmero.

O protestantismo fragmentou a igreja cismática de Roma num amontoado de seitas e proclamou altissonante seu triunfo, e sem embargo falhou miseravelmente por não ter sido capaz de substituir a igreja rival. O protestantismo de modo algum tomou a condução dos destinos do mundo mas abriu mão dela, e isto equivale a capitulação espiritual do Cristianismo histórico, esse refúgio na extremidade do 'espírito', nas nuvens ou nas alturas - Pelo simples fato do Deus do Evangelho se ter aproximado do mundo e entrado na História por meio da Encarnação. Com o triunfo do protestantismo e sua alienação ou esvaziamento neo platônico perdeu o Cristianismo sua vocação. 

Por incapacidade do protestantismo mitológico (Por via do antigo testamento) e sectário (Por via das seitas) o Cristianismo perdeu a direção das coisas e cessou de inspirar cada vez mais as ações dos homens imprimindo-lhes um cunho social. 

O protestantismo foi e é recuo, abandono e fracasso. Uma opinião firmada em Agostinho e segundo a qual mesmo em posse da graça o homem sequer pode transformar a si mesmo, devendo desesperar-se por completo do mundo e, necessariamente (Como ocorreu e ocorre) tornar-se catastrofista e apocalíptico, assimilando o derrotismo dos antigos hebreus. Toda essa carga de negatividade e pessimismo existente já na literatura judaica ou judaizante dos primeiros séculos o protestantismo absorveu, e a ponto de criar um lema: O mundo não tem solução.

Agora ao recuar de seu posto, até então ocupado, ainda que sofrivelmente pela igreja romana, mas ocupado, o protestantismo permitiu que um outro tipo de poder, o poder material ou econômico, se instala-se em seu lugar inaugurando um novo ciclo na História da Humanidade, o ciclo das ideologias naturalistas ou das culturas de morte, todas ao menos implícita ou dissimuladamente materialistas até os confins do ateísmo, e relativistas (Quando não negacionistas) quanto aos valores espirituais, e isentas de qualquer sentido metafísico profundo, que transcenda o mercado, a pátria, a raça e outras categorias inferiores senão vulgares da existência. O espírito perdeu seu primado já há muito disputado como jamais perdera nos piores momentos da História antiga...

Como de Ideologia em Ideologia, de cultura em cultura, de mística em mística não chegaríamos a borda do abismo que é a negação e a extinção do homem.

Não foi o Deus, assim o teísmo naturalista dos pensadores gregos e tampouco o Deus encarnado e presente do Evangelho que morreu, bateu botas e apodreceu, mas o homem. Nossa espécie é que ora agoniza e se vê prestes a morrer miseravelmente em meio a águas, ares e terras poluídos e a falta de comida! E isto tudo por falta de Ética, por falta de sólidos fundamentos espirituais... E o caminho disto foi a bíblia, digo e repito, o biblismo, o livre exame, o sectarismo. O protestantismo foi o começo de tudo. Precipitou-nos inclusive no vórtice das Revoluções, outra ilusão, delírio ou quimera perniciosa. Fala-nos mesmo por meio de Kant, Nietzsche, Sorel, etc e sempre para o mal ou para o pior... Por isso ele não nos poderá salvar, e tampouco conter este ciclo de culturas de morte que acionou.

E se você leitor protestante, nada percebe ou vê além do falso dilema papismo/protestantismo desespere de toda salvação e aguarde pela pior das mortes no único e verdadeiro inferno produzido pela avareza, pelo individualismo, pelo egoísmo e pelo mar de irracionalismo, e é claro pela falta daquela Ética filha do Evangelho vivo e redentor.

Agora ao estender meu olhar sobre o corpo da Igreja que vejo em termos de consciência social Cristã, de ideários, planos, propostas, métodos, etc

Contemplo antes de tudo aquela multidão de Cristãos alienados que nada sabem sobre as condições do mundo atual e que tampouco se importam com ele, caminhando como cegos ou zumbis em direção do abismo hiante. Tais os Cristãos que se reproduzem organicamente, os de tradição cultural, os reprodutores, os imitadores, os apenas batizados, etc - Nossas massas, como diria J H Newman. Aqueles que receberam o Cristianismo de seus ancestrais mas que jamais sentiram-no ou refletiram sobre eles. Esses homens sem espírito, sem alma ou consciência; nos quais não brilha o amor pelo bem, pela verdade ou pelo belo. Os Maria vai com as outras. Os que concordam com tudo. Os que aceitam tudo. Os mal formados. Os desinformados. Os incoerentes... Nossas massas, nossa cruz. Porque devemos sofrer e chorar com a mãe Igreja.

Deixados estes formalistas e confortáveis de lado devo mencionar os Cristãos que tem consciência de sua fé, digo os que sabem o que sua fé significa e o que espera deles. Estes como Peguy sabem o que devem fazer... Sabem que o Cristianismo Católico ou Apostólico não se limita a missa de Domingo, as procissões e almoços de família... Sabem que Catolicismo não é esse paraíso burguês fechado em torno do jardim... Sabem que esse mundo artificial encerrado numa cúpula - Com sua atmosfera de intangibilidade, nada tem de Cristão. Quem espera repouso não é sabe que é Cristianismo. Pois é o autêntico Cristianismo a mais heroica das religiões e a única destinada a confrontar o mal ou a afronta-lo audaciosamente. É fé de homens e mulheres audazes e corajosos, que nos primeiros séculos suportaram horrendas torturas. Cristianismo é isto, mesmo para o leigo - Incomodo, desafio, perseguição e trabalhos: Ou não seria cruz! Ao menos a consciência de cada Ortodoxo deve sentir o impacto do desafio!

Não e não. Não se pode permanecer neutro face ao reino do dinheiro, a força do lucro, o poder do capital, a sanha da avareza. São ações e fatos que exigem postura clara e decidida. De que lado está você??? 

Pode você face a tanta fome, ignorância, nudez, enfermidade, violência, etc declarar que a vontade de Cristo se realizou nesta terra pela qual pedimos todos os dias ao repetir: Seja feita a tua vontade na terra e nos céus???

Então bata no peito, faça um junto 'Mea culpa' e em seguida se pergunte sobre o que pode fazer ou sobre qual seja teu dever, o dever do Cristão!

Amai-vos uns aos outros como vos amei, diz o Mestre.

E agora examine sua consciência e indague se aquele que explora, oprime, domine e exerce a injustiça ama!

Tornemos já, do Oriente ao Ocidente ao herói Peguy!

E cessem as relações promíscuas com o Império de Mamon! Que Mamon seja definitivamente expulso dos domínios sagrados de Jesus Cristo, nos quais devem impor-se a solidariedade, a justiça e o amor.

Apresentar nosso irmão batizado e filho de Deus como um rival ou concorrente é atitude essencialmente maligna.

Ignorar o irmão que passa fome, sede, frio, etc é ser insensível e ser insensível é não ser Cristão.

Priorizar relações e investimentos econômicos é pecar e nada mais.

Caso o Evangelho que lemos sem artifícios e atenuantes sacrílegos esteja certo o mundo em que vivemos está demasiado equivocado, e se está equivocado é nossa missão corrigi-lo.

Advertir os que erram é obra de misericórdia imposta pela verdadeira religião. Por isso nossa Sociedade não deve ser acalentada com afagos ou aplaudida mas corrigida. E exorta-la é dever que nos impõem o Evangelho. 

Assim se você se diz súdito do reino celestial por que acumula ou junta tantas tranqueiras na terra?

O melhor médico não é aquele que se dirige ao doente com palavras doces. Mas aquele que determina a dieta ou a morte. E que emprega o bisturi e o cautério. O que corta e extirpa os tecidos putrefatos e saneia o corpo por meio da cirurgia, não o que distribui confeitos...

E no entanto esses meios dizem respeito a mente e a privação das coisas sagradas no seio da Igreja.

Resta-me dizer por fim que mesmo entre os Ortodoxos ou apostólicos romanos que aspiram confrontar e transformar o mundo nem todos estão de acordo quanto aos meios e também entre os nossos há muito que existem os adeptos da ruptura radical e da inserção, da revolução e da evolução, da sedição e da reforma. E já advirto que mesmo admitindo o emprego ocasional ou circunstancial da violência, o Cristão opta certamente pela via da inserção, da institucionalidade e acima de tudo da educação, da formação ou da produção da consciência como algo que não apenas promoverá a mudança estrutural como prepara-la-a. 

É um movimento concomitante de certo modo, posto que o acúmulo das sucessivas reformas terá como resultado uma transformação gradativa. Todavia se considerarmos que os responsáveis por dar impulso as reformas - Sejam meros cidadãos engajados ou políticos de carteirinha. - estão sempre na dependência de uma educação/formação ético pessoal, concluímos que o que aciona o processo social é o espírito ou a ideia. Nem poderia a estrutura material e isenta de vida resistir como muralha invencível a ação humana. Transforma-se a sociedade como transforma-se a estrutura econômica, não magicamente ou por si só, mas sempre por ação de algumas pessoas que se acham a frente de seu tempo, são elas que dentro de limites e medidas levam a sociedade adiante, pois não se move a sociedade por si só como algo a parte, sendo movida pelos atores que moveu e move. Há pois um duplo movimento: Um que parte da estrutura e dá vida a cultura, outro que partindo do homem altera a cultura, recria as estruturas e reinventa a sociedade.

Equivocou-se Marx: Não é o modo de produção que determina a consciência. Determina as consciências das massas e influencia a todos, sendo no entanto influenciado e transformado por certas consciências bem formadas. Que tenham as tais consciências, vinculadas a diversos modelos de cultura tradicionais, resistido as investidas do modelo capitalista e contido tais investidas por séculos a fio foi suficientemente demonstrado por Polanyi e Hobsbawm. Que os efeitos das transformações impostos pela toda poderosa estrutura econômica tenham de ser sancionados pela instância do ideal confessou-o Marx. Que haja interação entre ambas as forças concedeu Engels. Que a instância imaterial tenha produzido uma cultura e que essa cultura, em diversos nichos, tenha resistido as pretensões postas pela estrutura econômica ja havia sido demonstrado por Fustel de Coulanges. Que hajam diferentes formas de constelações sociais cristalizadas em torno de princípios e valores de modo algum econômicos foi demonstrado por Sorokin. 

Se bem que não se tenha equivocado tanto ou como um Lênin. Pois era Marx, o Marx autêntico, Etapista. Fosse quais fossem suas diferenças com Hegel Marx jamais concebeu o processo social ou o fluxo histórico como cera quente. Tinha a História para ele um ritmo, sendo necessário ao Revolucionário conhece-lo bem, de modo a perceber o kairós i é a oportunidade, e atuar em comunhão ou sintonia com esse ritmo. De modo que o Revolucionário, se faz avançar um pouco a História, sempre tem consciência de seus limites. Mesmo o conjunto dos homens ou parte da Sociedade atuam sempre dentro de certos limites dados pela estrutura. 

É somente por essa via que pode a Revolução obter acesso ao poder, alterar radicalmente as estrutura e então, magicamente, alterar toda marcha da sociedade. 

Assim se nem toda Revolução é ou se dá nos termos materialistas de um Marx ou de um Bakhunin e da modernidade que é materialista - Pois como veremos toda Revolução (Como a força ou a violência) é instrumental, ficando sempre na dependência de um conceito chave ou matriz geracional que pode ser ou não ser materialista. - é certo que materialismo e Revolução combinam perfeitamente e que, bem ponderado, o conceito de Revolução conduz facilmente ao materialismo.

Explico. O que Revolucionário algum pretende é transformar a sociedade pela simples mudança em termos de pessoal, ou fica abortado o conceito de revolução. O que ele busca é um elemento chave, material ou imaterial capaz de mudar a cultura e por meio dela as pessoas. O que ele julga ter obtido através de seus estudos é a compreensão de qual seja esse mecanismo responsável pela produção e manejo da cultura. Para em seguida, por meio da violência, tomar posse desse mecanismo e, através desse mecanismo mudar a sociedade.

Importa saber algo.

Que mesmo quando é este elemento imaterial como uma nova fé, o culto a liberdade, etc ele só pode ser manipulado por quem detém o controle da força, o qual depende em última instância de um embate ou confronto físico. Parece que aquele mecanismo a ser acionado está na dependência de alguma estrutura política de poder já em parte material. E que essa estrutura de poder está na dependência de um conflito físico de forças entre corpos e munições. Porquanto o princípio da Revolução ou sua matéria é a violência.

Teríamos assim o seguinte esquema: O confronto físico entre os corpos franqueia o acesso a estrutura em parte física do poder e este por fim ao mecanismo capaz de alterar a realidade social e o comportamento das pessoas. Posso conceber, como fiz acima, uma variante; apenas por trocar o lugar das duas últimas premissas, e conceder que alterando o comportamento das pessoas altero a estrutura da sociedade; e assim atenuo o materialismo, mas não o suprimo. Como não o suprimo ao identificar o mecanismo capaz de transformar a sociedade ou a vontade pessoal com qualquer elemento imaterial. 

O revolucionismo, a metafísica revolucionária, o pensamento revolucionário, deveria, por necessidade, fazer-se marxista porque já nele está contida uma premissa materialista. Uma vez que sua petição secundária é a estrutura política (Tão material quanto a econômica.) enquanto que sua petição primária é a força física. Pois o que faz diferir a Revolução da Guerra não é a matéria mas a forma, porquanto a matéria é a força e apenas se aspira alterar toda uma estrutura ou todo um universo por meio da força física de corpos, armas e bombas, e não por meio da Educação ou da tomada de consciência. Diversos sociólogos intuíram esse aspecto, i é, o antagonismo existente entre o padrão revolucionário da violência (Que descambou no materialismo.) e o padrão evolucionário da formação/educação. Percebeu-o claramente Sorel inclusive. Dando a entender todo um quadro metafísico ou ideológico por trás de ambas as opções.

Exatamente por isso o Cristão, mesmo quando admita - Como eu - a petição a força, jamais pensará a força nos termos de um revolucionário i é como algo algo ampla e profundamente transformador ou princípio de uma nova ordem. Mesmo quando a violência for admitida em sua cosmovisão, o Cristão jamais fará dela ou centro ou o motor dessa cosmovisão, tal como a alavanca de Arquimedes, e a força será apenas um aspecto isolado e circunstancial. 

E será esse Cristão evolucionário, insercionista, institucionalista, reformista, etc mesmo quando partindo da noção perfeitamente Cristã de Guerra, ou de defesa social ou de ordem justa e desejável, admitir que em algumas situações, esgotados os demais meios, cabe e é necessário recurso a violência. Pois a demanda pela justiça institucional só é tolerável até certa medida. Claro que essa situação de violência e conflito que diz respeito a pura e simples troca de pessoas no exercício do poder e que ficará sempre na dependência de relações políticas numa ordem o mais democrática possível, não pode nem deve ser confundida com Revolução. Nem toda forma de violência contra o governo, comporta as ilações metafísicas de uma revolução. 

Tal a questão das estruturas minimamente ou apenas formalmente democráticas. As quais mesmo não correspondendo a um tipo ideal (Que se identifica com a democracia direta ou a policracia.) ou a uma estrutura perfeita, prestam-se no sentido de dar acesso a Evolução ou progresso social, o qual alias se dá nessa estrutura, i é por dentro, devendo partir dela a democracia plena ou resultar ela em democracia direita, mas não por golpe e sim por pressões sociais convertidas em leis. Por isso, ao contrário dos jacobinistas, somos contrários a qualquer sedição ou golpe democrático ou policrático (No cenário de uma democracia formal ou indireta.) e em franca oposição aos primeiros lideres protestantes, que se estribaram no Antigo Testamento, somos decididamente contra qualquer tipo de golpe ou violência religiosa. Somos contra todo e qualquer golpe cujo objetivo seja acionar forças que movam estruturas ou pessoas. Nós não cremos nisto.

Portanto mesmo quando assumirmos o padrão da força lhe daremos outro sentido, assim removeremos pessoas, em beneficio de pessoas mais dignas e melhores. Não acionaremos gatilhos e não buscaremos mudar estruturas exceto por meio da produção de consciência, da educação, da formação, a qual para nós é a chave da cultura. E e claro que o objetivo de toda essa movimentação de consciência tem por fim produzir uma cultura ética e essencial da pessoa humana, valendo-se de nossa herança Cristã que é o Evangelho (Não a bíblia e menos ainda o antigo testamento e seus preconceitos tolos.) e de nossa herança Socrática. 

Eis porque não será o Cristão revolucionário, COMO JAMAIS SERÁ CONTRA REVOLUCIONÁRIO opondo-se ativamente e por meio da força a qualquer Revolução, exceto se religiosa ou credal. 

Por isso no próximo artigo, considerando Sorel, avaliaremos a questão da violência face a razão, para em seguida reforçar nossa oposição ao contra revolucionarismo hipócrita.



domingo, 1 de março de 2020

Nótulas sobre o pensamento contemporâneo

- Como já dissemos nem Descartes nem Spinoza foram iconoclastas no sentido de negar por completo o passado ou o pensamento antigo. Criaram algo novo, novos espaços e setores, os quais todavia conectaram aquele passado. Tampouco Hume ou mesmo La Mothe Vayer, assim Montaigne criaram algo que fosse radicalmente novo, remontando sempre aos céticos do passado ou a tradição agostiniana. Kant é quem criou algo de novo ou um novo sistema, merecendo ser classificado como Copérnico ou Lutero da Filosofia. Foi ele que, buscando elaborar uma solução de compromisso entre o ceticismo e o dogmatismo, produziu o idealismo transcendental ou crítico condenando o exercício da Metafísica ou melhor da Teodiceia e buscando justificar o conhecimento derivado do empirismo, do que resultou a ideologia positivista. Buscou assim Kant evadir-se ao materialismo, ao espiritualismo, ao teísmo e ao ateísmo, lançando as bases do agnosticismo.

No entanto este mesmo Kant, enquanto pensador do conhecimento ou gnoseológico, fugiu a simples empiria e praticou a especulação metafísica. Resulta disto que não repudiou a Metafísica como um todo, e que fez um recorte, focalizando sua crítica na Teodiceia i é em Deus e por ext na imortalidade da alma, com o objetivo de apresentar tais problemas como intangíveis ao intelecto e assim como insolúveis. Agora por que fez Kant este recorte, fixando arbitrariamente (Onde achou ou quis.) as "Colunas de Hércules" da reflexão? Para dar competente resposta a indagação acima devemos ter em mente que esse tão aclamado Kant era Luterano - Jamais rompeu formalmente com essa fé - e que Lutero, irracionalista e fideísta (Agostiniano), tinha Aristóteles, a Filosofia greco romana, o pensamento clássico, a Teodiceia naturalista e a própria razão em conta de seus principais inimigos (Mais do que o Papa romano). Lutero queria tudo atribuir a fé e Kant seguiu-o, atribuindo o tema de Deus a religião, a fé ou aos livros religiosos, e dando todos os antigos gregos por perfeitos estúpidos. Kant foi um imitador de Pirro no sentido de buscar justificar metafisicamente ou filosoficamente um preconceito de origem religiosa, no primeiro caso o Luteranismo e no segundo o Busdismo... a dinâmica é a mesma - A Epoché continua sendo budista (Assim a ataraxia) e o fideísmo gnoseológico continua sendo luterano, sem que haja verdadeiro conteúdo filosófico em tais afirmações. No primeiro caso temos apenas uma mutilação arbitrária e no segundo uma fuga face a reflexão filosófica. (cf Kant e a Teologia)

- Quanto a linguagem ou expressão, bastante complexa, com que nos deparamos na obra de Kant há muita crítica injusta e destemperada. Que hajam graves contradições - Apontadas com habilidade pelo Pe Thiago Sinibaldi - em seu pensamento é assente e demonstrável, que tenha cunhado expressões ocas nos parece exagerado e injusto. Kant visava dar golpe de misericórdia na escolástica (A qual recusava-se a estudar - O que nos parece bem pouco filosófico). Para tanto foi a suas fontes mais remotas i é a Aristóteles (Campeão da Teologia natural) cujo vocabulário técnico, bastante complexo, adota e assume. Kant não tem culpa de que os modernos ou pós modernistas ignorem supinamente o aparato conceitual aristotélico.

- Resta dizer que quem é por Kant, esta em conflito aberto com tudo quanto o antecede, assim com Parmenides, Anaxágoras, Sócrates, Platão, Aristóteles, Speusipos, Straton, Dikaiarkos, Xenócrates, Crantor, Zenon, Antioco, Cícero, Sêneca, Filiponos, Eurígena, Aquino, Scottus, Phleton, Ficcino, Pomponnazi, Telésio, Erasmo, Bacon, Descartes, Spinoza...

- Outro é o caso de Hegel, metafísico confesso, o qual prosseguiu decididamente na senda traçada por Leibnitz, construindo expressões ainda mais grotescas, pomposas e vazias (cf Schopenhauer)  Criou uma Filosofia de bolha de sabão ou bexiga, a custa de tais expressões sem sentido e disto resultou outro sistema bastante aclamado em torno do Estado, o qual a partir de um lento processo imanente identifica com o pensamento divino. Deste homem confuso e desorientado partiram todos os idealistas alemães como Fichte, Schelling e aqueles tão criticados por Marx na 'Ideologia alemã', cada qual apresentando uma versão própria da 'filosofia' e pagando tributo a um subjetivismo desbragado. A reação, como não poderia deixar de ser, foi a 'inversão' de Marx, i é, em termos já de materialismo/ateísmo ou de positivismo. Em certo sentido Hegel, pela via da compulsão, conduziu a metafísica alemã ao colapso e a morte, fortalecendo a posição dos kantianos e marxistas.

- Marx, não se satisfazendo com a metafísica materialista mecanicista dos iluministas franceses (Helvetius e De Holbach), adicionou alguns temperos hegelianos e a partir de uma análise histórico social, formulou sua doutrina do materialismo dialético. O preconceito materialista seja sob um ou outro rótulo, cegou-o e desviou-o para sempre de um são realismo. Ele jamais pode reconhecer, em pé de igualdade com as forças materialistas de produção, o potencial concreto das ideias fossem ou não religiosas. Concedemos que deparou com uma Sociedade materialista e economicista e com uma religiosidade - Representada pelo protestantismo - derrotada e servil... No entanto este encontro não justifica a generalização abstrata com que pretendeu, a partir desta realidade particular ou específica, explicar todo processo histórico, desde a História primitiva, incluindo a Antiguidade e a I Média. Fugiu aos limites do simples recorte e metafisicou.

A simples existência dos mártires Cristãos dos primeiros séculos ou da substituição do paganismo antigo pelo Cristianismo, a dinâmica do islamismo ou do Japão e China budistas e o significado do socratismo deveriam te-lo alertado a respeito de suas precipitações. Especialmente após Fustel de Coulanges - Antecipando Weber, Graves, Dawson, Butterfield e Voeglin - ter publicado sua monumental 'Cidade antiga'.

- Atenuando as críticas nem sempre justas e sensatas de Popper convém admitir que a obra de Marx possui dois aspectos: Um objetivo ou como dizem científico que é sua análise crítica do capitalismo mormente representada pelo Capital. Esta não apenas permanece válida como foi utilizada por J M Keynes. O outro aspecto parece fugir a sua orientação - Não a nossa! - materialista, pré positivista, anti metafísica, etc é seu apelo a uma normatividade ética ou ideal ou seu futurismo. Marx, ao contrário dos demais empiristas/materialistas ressente, ao fim de tudo, uma influência Socrático/Cristã. Pelo simples fato de não contentar-se com uma realidade dada (O que é) tida em conta de injusta, ousando crítica-la e substitui-la por uma outra ordem, a qual só pode ser derivada de princípios ou valores ideais. Disto resultou a Ideologia Comunista, a qual apesar de seus equívocos monstruosamente bizarros, foge ao conformismo anti ético e até cruel de seus críticos ateus, materialistas, positivistas e cientificistas. Ora os humanistas e Cristãos, mesmo discordando quanto aos métodos propostos por Marx e seus colaboradores, não podem acompanhar os ateus, materialistas, positivistas e cientificistas quanto a aceitação passiva de uma realidade ingrata ou injusta. E por isso, em que pesem os erros gravíssimos do comunismo, ousam declarar que a posição de parte de seus críticos é ainda pior e mais grave.

- Já aludimos diversas vezes ao erro de Freud. Como Marx ele fugiu aos limites do recorte e dando com uma realidade cultural ou particular, abstraiu do tempo do tempo e do espaço, elaborando uma metafísica pan sexualista posteriormente emendada ou reformada com base nas sensatas críticas elaboradas por seus ex discípulos. De modo que num determinado momento o próprio Freud - Sem jamais retratar-se formalmente - rompe com o paradigma sexualista e admite outros princípios de regulação. Sua abstração metafísica, como a de Marx, é grotesca. Não seu método ou o caráter relativo de suas constatações, menos ainda o resultado de sua crítica ao puritanismo/moralismo vigente. Claro que a partir de suas críticas parte da Sociedade passou ao extremo contrário, i é a um sexismo desbragado, com sérias consequências sociais, políticas e culturais. Em que pese este desvio continuamos buscando utopicamente por um padrão de equilíbrio em que a sexualidade humana seja aceita com naturalidade, mas, sem ser deificada ou exaltada acima de tudo.

- Darwin alias é anterior a Freud. Porém queríamos estabelecer uma conexão entre o erro de um e de outro. Darwin não pertence aos domínios da Filosofia ou do pensamento abstrato posto que pesquisador ou naturalista. Era ele um homem do empirismo. No entanto sua formulação teorética - já antecipada por Lamarck, St Hillaire e outros - não poderia deixar de incidir sobre todos os domínios do pensamento humano - Psicologia e teologia, passando pela economia e pela sociologia. Foi a partir dele que o naturalismo converteu-se num paradigma, mais do que a própria evolução. Assim ele coroa a obra de Copérnico, Agricola, Newton, Hutton e Buffon/Lamarck/St Hilaire, demonstrando que o corpo humano esta inserido na ordem natural e que também este homem vaidoso não passa de um animal, ainda que racional. Não é o centro do universo, tampouco o centro da terra e sequer o centro da vida. Destarte terá este homem de procurar sua particularidade gloriosa na capacidade perceptiva e racional para a reflexão e para a apreensão das verdades metafísicas. A Filosofia é que lhe trará o sentido especial que sempre buscou por caminhos errados. É este homem um dentre tantos animais, vagando sobre um grão de pó na periferia do espaço... E no entanto, como dizia Pascal nos 'Pensamentos', tem consciência de si ou pensa, enquanto que nem Júpiter, nem o Sol, nem Arcturo tem consciência de si ou capacidade para pensar. É um caniço, um verme, um grão de poeira ou uma átomo perdido na imensidão do universo, e ainda assim caniço, verme, poeira ou átomo pensante...

- Einstein, o qual jamais supos que sua teoria física da relatividade geral fosse gnoseologicamente relativa ou duvidosa, demoliu o mito do espaço absoluto. Tudo quando temos em nosso universo é uma relação entre corpos em movimento. Neste universo que se expande ou amplia tudo esta em movimento, pois o estado de repouso é relativo a certas situações vividas por nós humanos. Este computador bem pode estar em repouso com relação a mim... Move-se no entanto caso esteja eu num trem. Move-se com as placas tectônicas, com o planeta, com a galáxia, com o universo... Tudo é movimento. E o tempo uma propriedade deste universo em expansão. Por isso nosso referenciais de tempo são relativos a terra ou ao sol, não absolutos. Quiçá o aspecto mais interessante da teoria da relatividade geral não seja a teoria em si - Simples dedução com base nas experiências feitas por Morley em 1881 - mas sua expressão (Tomada a Descartes e Newton) em termos matemáticos cujo sentido e exatidão pouquíssimos intelectuais foram capazes de compreender.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

O marxismo, a verdade e o relativismo. Ensaio epistemológico.

Habitualmente ouvimos ser o marxismo ou sua epistemologia, serem apresentados como relativistas e, os marxistas rebaterem, dizendo que não é bem assim. Daí a necessidade de pontuarmos o assunto e verificar que é o marxismo face a verdade ou qual seja sua perspectiva epistemológica.

Grosso modo podemos dizer que é o marxismo um relativismo, porém de modo algum um relativismo crasso ou individualista, análogo ao relativismo pós moderno, que é dentre todos o mais virulento.

No relativismo individualista nada há que transcenda as unidades individuais e isoladas, pelo que a fragmentação é total ou absoluta. Aqui a única referência que temos é o indivíduo separado de todos os outros - Tal é o critério de todas as coisas!

"O homem é a medida de todas as coisas." Que homem? A espécie enquanto receptáculo de uma capacidade racional ou o indivíduo pautado em sua vontade??? O relativismo pós moderno responde dizendo que cada homem constrói sua verdade, válida apenas para si e que não existe qualquer verdade comum, transcendente ou absoluta. O marxismo não chega a tais confins... quero dizer ao 'vir a ser'... a instabilidade plena... a fragmentação total... ao Caos, conservando alguma unidade, ainda que não seja transcendente.

Privado de fundamentos metafísicos, abstratos, espirituais; assim essenciais e perpétuos, a exemplo da 'Filosofia perene' ou das teorias das formas elaboradas por Platão ou Aristóteles, nem por isto o marxismo dissolve-se por completo num relativismo individualista, atomizando-se.

Assumindo-se como uma espécie de meio termo entre o 'vir a ser' e a 'essência' apresentando-se como um relativismo, mas, como relativismo social, fruto de uma conjuntura histórica muito mais estável do que as impressões individuais. O marxismo admite impressões estáveis e comuns, inda que mutáveis a longo prazo.

De fato julgam os marxistas - A partir de seu materialismo dialético - que a realidade cultural e assim a própria compreensão humana do que seja verdadeiro ou real (superestrutura) esteja assentada sobre uma infra estrutura definida em termos de relações econômicas de produção. Tais relações possuem formas estáveis e comuns em determinadas fases da História humana, as quais perduram por considerável espaço de tempo (Muito mais amplo do que o tempo fruído por algumas gerações humanas.) i é até que as relações de produção sofram alguma alteração significativa.

Delas resulta uma compreensão perdurável em termos de mundo a qual, mesmo sem tornar-se metafísica ou perene nem por isso chega a diluir-se por completo num aos de impressões, emoções, gostos ou opiniões. Destarte a noção de verdade proposta pelos marxistas, sem tornar-se imutável e perpétua como a Socrática, a Aristotélica ou a Católica, nem por isso deixa de possuir certa consistência e durabilidade. Estamos portanto diante duma perspectiva totalmente diversa e não do mesmo e exato relativismo.

domingo, 29 de julho de 2018

O veredito de Henri Mann - E A C Grayling, Pinker, etc II

Resultado de imagem para Henri de Man belga







Aqui chegamos a De Mann, e o deixamos para o fim apenas por ter concentrado sua crítica numa destas culturas de morte, o comunismo ou marxismo ortodoxo. Grosso modo De Man não nega o Marxismo, aprofunda-o. Parte dele e ultrapassa-o dialeticamente. Não toma Marx e Engels como escrituras canônicas e inspiradas, dialoga com eles, buscando isolar-lhes dos defeitos, para consolidar-lhes os méritos.

Os marxistas não levam isto a bem. Pois animados por uma mística secular ou por uma religiosidade inconfessável não podem admitir que Marx ou Engels, como seres humanos que eram, se tenham equivocado. Para eles criticas Marx ou Engels equivaleria a criticar o Evangelho para um Cristão, a criticar a Torá para um judeu ou a criticar o Corão para um muçulmano, equivaleria enfim a uma heresia... Do contrário os marxistas dialogariam com Marx tal e quam dialogamos com Platão, Cícero ou Agostinho... Entre eles no entanto Marx é citado como autoridade, em termos de 'Magister dixit' tendo inclusive sucessão apostólica, ao menos para os leninistas... Lembrem-se das carinhas e do culto a personalidade tão característico entre eles como a devoção aos santos entre os Cristãos. É todo um Vaticano em miniatura, digo o partido comunista russo, com seu CC, politburo, etc i é Rota romana, santo ofício, papa, cardeais... No entanto, como os 'católicos' integralistas estão acostumados a saber rsrsrsrsrs tomar soluções políticas a modelos religiosos não é nem um pouco recomendável...

A primeira dentre as conclusões sacadas por Man é que o marxismo só é válido enquanto teoria econômica, o que sabe a Herr, Jaurés, Andler, Bauer e toda escola de Franckfurt...

Outra constatação sua, que sabe a Grayling e que chega a ser obvia é que o Marxismo corresponde a ética ou ao ideal Católico secularizado. Tornou-se - o socialismo antes do comunismo - vingador de um ideal Cristão que a igreja, em determinado momento havia abandonado. Como fora também, em certos casos, herdeiro de um ideal tanto mais apurado de democracia (popular, direta, semi direta) sacrificado pela burguesia vitoriosa. Dito isto De Man recorrer ao argumento clássico e irretorquível segundo qual o socialismo realizou-se apenas nas velhas sociedades cuja cultura era Cristã, e digo mais Católica. Pois como salienta Sombart pais protestante algum - até a Escandinávia já descristianizada dos anos 30 - assumiu esta pauta, especialmente os EUA, que a ela se mostraram refratários, passando a comandar a resistência anti socialista (cf Sombart 'Por que o socialismo não floresce nos Estados Unidos'?)

De Man responde com simplicidade declarando que: É do Cristianismo que procede este sentimento de igualdade acalentado pelas massas; da época feudal, com o equilíbrio entre direitos e deveres... De fato fora este Cristianismo e não o arreio dos cavalos, como quer o Dr Noel, que havia convertido o escravo ja em homem livre ou em servo, mesmo quanto limitara-se em afirmar a plena igualdade religiosa entre os homens, verdade jamais admitida pelo paganismo antigo, para o qual os escravos eram escravos ou seres inferiores mesmo face aos deuses e em tudo quando concernia a vida religiosa. Pois este homem não pode ser igual face aos deuses sem que se torne igual a todos os homens! Ademais os escravos sempre se poderia atribuir outras funções aos escravos, e nada implicava a necessidade absolutas de liberta-los!

"Os móveis da convicção socialista não são criação do tempo presente, tem seu ponto do partido num passado remoto."Tão remoto quando chega a um Urukagina de Lasgash ou, numa perspectiva Cristã, a Orígenes, Cipriano, Justino... ou ao tempo em que os Cristãos tendo vida em comum tudo partilhavam uns com os outros; ideal assumido perpetuamente pela instituição modelar dos mosteiros. Em que os heróis da fé vivem vida sóbria ou regular, servindo de exemplo a toda comunidade, com o objetivo de lembra-la de que estamos de passagem neste mundo, e de que acumular corresponde a um objetivo sórdido e egoísta, a avareza.


O socialismo já existia antes de qualquer movimento operário e antes mesmo do surgimento da classe operária. E mesmo Henry Beer, autor insuspeito, teve de dedicar uma sessão em sua 'História do socialismo' ao Catolicismo antigo, chegando a citar Jerônimo de Stridon e Ambrósio cuja condenação a acúmulo é mais severa do que a condenação lavrada pelo comunismo. Assim Benoit Malôn no 'Socialismo integral' (1891) vol I, decida um capítulo inteiro ao Catolicismo antigo e seu conteúdo social. E mais recentemente o erudito Luiz Francisco F. de Souza em sua obra monumental "Socialismo uma utopia Cristã". Assim o florilégio patrístico intitulado 'Por que a igreja condena os ricos' editado pela casa Paulinas...


Já Tasso da Silveira, o crítico literário Católico ventilará a hipótese de que os russos haviam abraçado equivocadamente o comunismo devido a um marcado sentimento de justiça, introduzido pelo Cristianismo tradicional ou Católico Ortodoxo. E salienta que tal fora a fonte do jovem Maxim Gorki cuja pregação socialista, tão benéfica ao comunismo, jamais deixou de ter acentos Cristãos e profundamente humanos. Lembremos ainda que esse mesmo Gorki não hesitará em reprochar a Lênin seus métodos desumanos e maquiavélicos...


"Não foi por mero acaso, que os primeiros militantes do movimento NÃO HAVIAM SIDO OS OPERÁRIOS DAS FÁBRICAS, mas os obreiros semi artesãos da pequena indústria tradicional ameaçada: tipógrafos, gravadores, marceneiros, chapeleiros, relojoeiros, etc" continua o Dr De Man acrescentando o apoio dado pelos intelectuais ou funcionários públicos. Marx e Engels, como Bakunin e Kropotkin, Caffiero e Kautsky, Ruskin e Owen, etc, etc, etc Noventa por cento dos ideólogos socialistas pertenciam a classe alta, a nobreza ou a média burguesia e não a classe predestinada do proletariado. Daí ser já no princípio e se ter tornado um socialismo cada vez mais reformista ou pequeno burguês, como dizia Marx e cujo ideal era sempre parar a História ou faze-la recuar, o que Marx, progressista entusiasta, de modo algum admitia. O choque foi inevitável e para Marx o socialismo pequeno burguês converteu-se no mais odioso inimigo, por não compreender que o capitalismo devia seguir em sua marcha proletarizadora... No entanto aqueles homens queiram defender suas posições, e nem eram eles que oprimiam os proletários. Curiosamente Marx, postou-se ao lado daqueles que oprimiam os proletários e ameaçam os ofícios tradicionais, sendo, a seu tempo, encarado como traidor por eles.


O que a ideologia Marxista jamais logrou explicar foi como a consciência social dos proletários, apareceu primeiramente no setor médio ou pequeno burguês, e por que este setor não reproduziu a ideologia capitalista imposta pela ordem dominante??? Talvez como hoje, tenha havido mais adeptos da ideologia capitalista entre operários idiotas do que entre os odiosos pequeno burgueses, dos quais partiu a primeira reação ou esclarecimento.


Max Nordau, nas mentiras convencionais já aludia a esta maior sensibilidade do homem instruído e culto face as condições de injustiça, opressão e miséria. Constatando ser mais fácil o homem iletrado e ignorante suportar uma carga maior de exploração e que o funcionário publico ou o intelectual exasperava-se facilmente ao testemunhar a prosperidade do homem vulgar ou medíocre. Assim a indignação que levou a tona o velho ideal socialista não parte de proletários narcotizados mas da angústia interna ou moral de que é vítima o trabalhador intelectual, via de regra pequeno funcionário público mal remunerado. Nietzsche inclusive não pode deixar de perceber a inveja que corroía este homem desde que observava o capitalista emborcar uma garrafa de vinho do porto. O que Nietzsche não aquilatou foi que aquela inveja era justa, justa pelo simples fato de no mais da vezes aquele capitalista não passar de um charlatão fraudulento ou de um vil bajulador, enquanto que aquele, intelectual era honesto, virtuoso e capaz; enfim superior. O que nos leva a duvidar de que a atividade econômica guiada pelos movimentos do mercado favoreça a excelência e não a vulgaridade ou a mediocridade. Pareto também parece não ter levado em conta este problema e verificado se suas elites superiores eram verdadeiramente competentes em máximo grau ou as mais merecedoras.


Não adiante tentar fugir a esta verdade intuida por Platão e considerada por Gramsci:

"Os intelectuais estão na gênese da civilização. No mundo atual desempenham um papel bastante importante já que teem posse de parte do estado ao menos. Não são nem proletários nem capitalistas e me parece até que sejam mais hostis a burguesia do que os proletários, já que estão menos dominados por necessidades aquisitivas imediatistas." Lefranc 349


"Assim se para criar uma nova cultura, apenas os operários poderiam obter sucesso, apenas os intelectuais poderiam concebe-la." id ibd
O que nos leva ao dia posterior a revolução i é a tomada de poder, e a resolução dos problemas administrativos. Tão presentes no pensamento de um Bauer, de um Herr, de um Andler ou de um Blum... quanto relegados ao acaso por nossos anarcotiticas ou anarcotontos espontaneístas e irracionalistas. De fato suas conjurações ou revoluções mais celebradas foram pro vinagre como a de Paris e a Espanhola, uma e outra devido a defeitos de coordenação interna; e caso saíssem vitoriosas não podemos ter certeza de que disto não adviessem ainda piores males para a população, devido a falta de planejamento i é a leviandade.

A obra de Man segue elencando os vícios, que não são poucos, do Comunismo e como Sorel ele não pode deixar de apontar para o dogma materialista mecanicista. Que conduziu o grosso dos epígonos e diadocos de Marx a social democracia.

Ainda aqui a abordagem de De Man é significativa.

Quanto aos trabalhadores rebelados identifica ele um complexo de inferioridade face a realidade econômica e não um ódio essencial. Tudo quanto parte dos trabalhadores aspira ou deseja são compensações afirmativas por meio de leis. Identificam-se com o reformismo ou com um capitalismo limitado pelo poder político (Social democracia), com um socialismo de mercado ou estado de bem estar, que segundo creem permitirá que cada qual ascenda segundo o mérito. Sentem-se desfavorecidos pelo regime de herança, pela educação desigual, pela democracia representativa, etc e por isso aspiram por uma igualdade de oportunidade ou ponto de partida, a partir da qual a desigualdade relativa se torne justa. O que nos lembra a doutrina de Bakunin.

Ao que parece o grosso do proletariado não aspira por uma igualdade absoluta que nivele a todos ou pelo paraíso marxista sem classes. Contenta-se com o assim chamado socialismo pequeno burguês satanizado por Marx, aspira que do lado de cá a proletarização seja revertida e que tudo desemboque numa ampla classe média, não mais média é claro. Sonham com o oposto a proletarização e a expressão concreta deste sonho seriam as leis trabalhistas, a educação pública para todos, uma democracia mais participativa. Querem condições iguais para seguirem adiante, algo que não seja nem comunismo nem capitalismo ao menos o capitalismo do Laissez faire.

Destarte quanto mais reformas são implementadas e quanto mais o capitalismo é limitado ou contido, tanto mais os trabalhadores contentam-se com a situação. Tanto mais o bolo é levado a partilha por força da lei e os trabalhadores inserem-se no sistema tanto mais conformam-se com sua condição. Tanto mais é o capitalismo freado e sua marcha contida, a reação trabalhista vai perdendo sua força. E fica sendo o socialismo reformista ou trabalhista o principal 'obex' no sentido de se atingir o paraíso comunista por meio do inferno capitalista, os trabalhadores e o povo de modo geral, se não querem ver o Capitalismo desenvolver-se - exceto nos EUA e nas sociedade infectadas pelo americanismo - tampouco aspiram destrui-lo por completo. Inclinam-se como já foi dito a uma terceira via entre Comunismo e Capitalismo ou a algum tipo de socialismo ameno.

Aos marxistas restou apenas a atitude especiosa de fazer causa comum com os Capitalistas, lutando sempre pelo 'quanto pior melhor'. Devem destruir todas as situações de equilíbrio e produzir situações de conflito com o objetivo de chegar ao paraíso prometido. Caso declarem abertamente que é necessário deixar livre o curso do Capitalismo para que se desenvolva ao máximo e produza as condições históricas necessárias a revolução, se converterão em chacota. Caso assumam sua 'simpatia' pelo capitalismo selvagem chegarão ao ridículo... Tudo quanto nos resta fazer é escolher entre as duas tradições: A social democrata, que nos levará ao reformismo e a uma estabilidade que os marxistas no fundo execram ou o Leninismo, cujo idealismo implica adiantar o impossível i é a revolução, desconsiderando, do mesmo modo, o ulterior desenvolvimento do Capitalismo. Poucos são os que desejam assumir o ritmo de Marx ou caminhar com ele, e uns apostam na contenção do capitalismo enquanto outros apostam no adiantamento da revolução; e tratam-se ambas as partes por heréticas, como os protestantes que discutem sobre o que sucederá antes, durante e após a segunda vinda de Jesus... A situação é parecida.

terça-feira, 24 de julho de 2018

O renegado, revisionista e traidor W Lênin

Já foi dito que o que Paulo fez pelo Cristianismo, separando, por assim dizer, essa pequena seita ou ramo do judaísmo e inserindo-o entre as sociedades pagãs, Lênin teria feito pelo marxismo, extraindo-o dos escritos herméticos de K Marx e conferindo-lhes vida própria.

Até certo ponto uma e outra afirmação correspondem a verdade, e paulinismo esta para Cristianismo como leninismo ou bolchevismo esta para Marxismo ou Comunismo. Avanço ainda mais, da mesma maneira como Paulo - pupilo de Gamaliel - falseou a Ética Cristã, Lênin falsificou certos conceitos marxistas como 'Ditadura do proletariado' (cf nosso artigo precedente sobre Rosa Luxemburgo) e 'Revolução'. Sob estes dois aspectos ao menos foi renegado, apóstata, traidor, revisionista... e hipócrita por ter atribuído tais defeitos da Kaustky.

Não é preciso ser um R Nisbet da vida para constatar que Marx vincula a ação individual a oportunidade oferecida pelo processo histórico, concebido em termos materialistas e economicistas. Deve o proletariado consciente acompanhar de perto o desenrolar da História para atuar apenas quando for possível i é no tempo certo. É dever da vanguarda socialista atuar em comunhão com a História para que a revolução seja bem sucedida.

O que implica acompanhar a implantação, o desenvolvimento e o declínio do sistema capitalista numa dada sociedade. Tendo em vista certos defeitos inerentes a sua estrutura o capitalismo devastará as classes médias e proletarizará a sociedade. O proletariado a seu tempo, tirando proveito deste processo e sabendo-se maioria, tomará o poder para si. Disto resultando a ditadura do proletariado. O proletariado servindo-se do poder político alterará radicalmente o regime de propriedade, socializado os meios de produção. Alterada esta relação desparecerá o que chamamos de sociedade classista e com ela o conflito. E como o conflito é o motor da História, chegamos ao fim do estado e do período socialista, para atingir ao que chamam de fase Comunista...

Tal o fim último da Revolução, da qual a ditadura do proletariado de faz meio.

Uma coisa porém é absolutamente certa. Antes da sonhada revolução o capitalismo deve gastar todas as suas forças e desenvolver-se plenamente, pelo simples fato de que a Revolução será - ao menos em parte - o produto final deste desenvolvimento. Ao desenvolver-se o Capitalismo produzirá a expansão da classe operária e da expansão desta classe advirá seu triunfo.

Antes que este ciclo se cumpra a Revolução fica sendo sempre impossível.

Por isso ela deveria acontecer ou ter acontecido, forçosamente, na Inglaterra ou na Alemanha, na medida em que o capitalismo daqueles países havia percorrido o roteiro traçado por Marx enquanto ele ainda vivia e isto a ponto de chamar-lhe a atenção as vésperas da morte. De alguma maneira Marx deve ter intuído o que foi constatado já por Lênin, já por Henri de Man, no século seguinte - Que a atividade político/parlamentar e o sindicalismo tinham o condão, de por meio de reformas, conter o máximo desenvolvimento do capitalismo e portanto de protelar a sonhada Revolução.

De fato os marxistas ortodoxos estão convencidos de que todas as sociedades humanas devam passar pelo mesmo processo. Assim as que se encontram sob qualquer forma primitiva ou pré capitalista, devem forçosamente adotar o modelo capitalista para, ao fim do processo de desagregação do capitalismo chegar a Revolução socialista e, após a ditadura do proletariado, atingir o paraíso comunista. Foi por uma questão de coerência que Marx aplaudiu de pé a conquista da Índia pelo Império Britânico, pois considerava um bem que a tradicional sociedade indiana fosse suplantada pelo modelo capitalista trazido do Ocidente, de modo a ulteriormente atingir o Comunismo... Os nayrodniya no entanto ousaram perguntar a seus apóstolos do porque seria necessário passar pelo inferno capitalista para chegar ao paraíso comunista?

Os comunistas limitaram-se a classifica-los como retrógrados ou reacionários. Enquanto eles redarguiam dizendo que já estavam em posse do socialismo...

Quanto ao Ocidente no entanto a questão era bem outra. Pois o capitalismo já se havia manifestado e desenvolvido. Diante disto, o que parte dos socialistas queria era paralisa-lo, conte-lo, enjaula-lo, limita-lo... ao invés de permitir que continuasse a desenvolver-se livremente no sentido previamente descrito por Marx. Conceberam portanto uma série de reformas politicas com o objetivo de travar a marcha do capitalismo e de manter a sociedade no nível em que se achava. Outros cogitavam em faze-lo retroceder, igualmente por meio de reformas políticas... Uma e outra solução receberam o nome de reformismo ou de socialismo reformista, em oposição ao socialismo revolucionário ou comunista. Os reformistas, chamados também - pelos marxistas - de socialistas pequeno burgueses despertaram a fúria dos marxistas ortodoxos, que encaravam o máximo desenvolvimento do capitalismo como uma necessidade. Afinal, sem ele, não haveria proletarização, revolução e paraíso comunista.

Cumpre dizer ainda que a social democracia jamais pode furtar-se a este 'desígnio ímpio' de regular o trabalho - até então livre ou ditado pelo 'laissez faire' - por meio de leis e de consequentemente melhorar a condição dos proletários, a qual tornou-se de fato suportável, quando não - ao menos por algum tempo - confortável, o que não podia deixar de atuar sob a marcha do capitalismo, retardando-a ou imprimindo-lhe outro sentido. Afinal ao invés minguar, em certas situações, a classe média - sempre identificada com a pequena burguesia - acabou expandindo-se, ficando o número de descontentes minoritário. Na medida em que o capitalismo foi sendo contido ou limitado - o que nos faz duvidar quanto a continuar sendo capitalismo! - mais e mais trabalhadores foram sendo absorvidos por ele, num movimento contrário ao que fora descrito por Marx. Mesmo o capitalismo não pode furtar-se a pressão feita pelas massas e a ação política dos reformistas tendo de adaptar-se a novas realidades para sobreviver...

Os marxistas ortodoxos perceberam-no de imediato e concluíram que o reformismo, limitando o Capitalismo, conferia-lhe vida e resistência. O reformismo foi que impediu o capitalismo de desagregar-se e perecer, frustrando os vaticínios de Marx. A social democracia, mesmo quando protestava não ser reformista, foi que tornou a Revolução inviável ou desnecessária, ao menos por algum tempo. Pois segundo Engels após suportar limitação após limitação, a burguesia ameaçada acabaria por violar as regras do jogo recorrendo ao que chamamos de golpe. Neste momento os socialistas, recorrendo a 'violência defensiva' passariam do exercício (Leon Blum) a posse do poder. No entanto, ao menos na América latina, os golpes de estado promovidos pela burguesia ameaçada, nem sempre suscitaram a merecida reação...

Lênin, por uma questão de lógica, não via diferenças muito significativas entre o reformismo e a social democracia. Tendo chegado a inferências bastante parecidas com as que acabamos de expor. Todavia, ao contrário dos mencheviques fiéis, como Martov, Plekanov e Axelrod, ele não estava nem um pouco disposto a aguardar pelo máximo desenvolvimento do capitalismo russo. Haja visto que os servos haviam sido emancipados em 1861 e que em 1905 ou 1914 o capitalismo russo ainda se achava num estado incipiente. Era a Rússia de Lênin uma sociedade majoritariamente agrária ou rural e Lênin, como Marx sabia que não era possível esperar qualquer Revolução de uma sociedade agrária e por definição tradicional.

Sendo assim Lênin teve de fazer algumas acomodações, repudiando o materialismo economicista do Mestre e opinando que não era necessário esperar pelo máximo desenvolvimento do capitalismo russo - processo que demandaria mais de um século. Era perfeitamente possível fazer a Revolução na Rússia agrária de então... Perceba o amigo leitor que o esquema ou roteiro de Marx não foi respeitado. Lênin de fato, acreditava ou fingia crer, na possibilidade de furtar-se ao processo Histórico e de alguns homens adiantarem os tempos ou a hora da Revolução. Passando as vistas por alto parece uma aposta inocente... Mas implica admitir uma solução idealista e mesmo romântica em termos de História. Na medida em que se admite que o homem prescinda da oportunidade oferecida pelo processo para ser bem sucedido. O homem pode furtar-se ao processo ou atuar por si só, nada menos materialista ou mesmo realista.

Os 'odiosos' mencheviques expuseram detidamente os erros de Lênin, limitando-se ele a declarar que seus críticos não passavam de fariseus, escravizados pela letra ou pelas palavras de Marx, das quais se serviam contra a Revolução... Foi tudo quanto ele pode dizer na 'Doença infantil do Comunismo', onde acusava os radicais i é os que de fato mantinham-se fiéis ao pensamento Marxista. Efetivamente estes estavam dispostos a permitir que o capitalismo russo se desenvolve-se sob a égide de uma democracia formal, e mesmo dispostos a colaborar com semelhante padrão de Sociedade, por estarem convencidos de que ao cabo de sua evolução ela viria a baixo ou desmoronaria, criando as condições necessárias a Revolução. Para eles esperar a ação das forças econômicas era absolutamente necessário, pois tal e qual Marx eram etapistas ou gradualistas. Lênin aspirava pelo poder e por isso não queria esperar, por crer que o poder era a Revolução ou que poderia substituir a ação das forças econômicas. Posteriormente, após o colapso da URSS, em 1990, os comunistas ortodoxos declararam que a Revolução não dera certo justamente porque furtara-se ao esquema estabelecido por Marx... tornando necessárias uma série de emendas ou adaptações, sem que qualquer uma delas pudesse salvar a obra de Lênin.

Para sermos justos temos que concordar com aqueles que viram na Revolução russa um aborto da natureza em termos de teoria marxista ou como um uma saída tão revisionista quanto o reformismo.


sábado, 27 de janeiro de 2018

Conceito de revolução em Marx, Lênin, Trotsky, Staline e a doutrina do 'Quanto pior melhor'


"V H - Pensa portanto que o Comunismo perdeu sua oportunidade. Por que e quando precisamente?

Toynbee - Perdeu-se no exato instante em que Stalin esmagou Trotsky... Stalin bonapartizou, ou como se diz, o desvirtuou, e confundiu-o com o nacionalismo russo, matando na fonte o ideal Católico ou universalizante que era a força do comunismo." (O que esta de acordo com a análise de Crane Brinton na 'Anatomia das Revoluções' onde expõem a russificação do Comunismo durante a segunda grande guerra) 'Viagem aos centros da terra' por Ventilia Horia, ensaísta anti comunista. P 225

Claro que uma Revolução dramática, nos termos de Lênin, só poderia dar-se nos termos totais e universalizantes de Trotsky. Stalin matou o revolucionarismo bolchevista, literalmente e em termos de sentido ao associal o comunismo a cultura eslava ou russa. Comunismo e Anarquismo devem impor-se a nível internacional ou global, não nacional ou regional, pelo simples fato do Capitalismo ser internacional. Serão fenômenos globais, ou não serão.

Acompanhemos portanto os desvios porque passou o conceito de Revolução dentro do Comunismo.



Marx quando jovem definiu a organização 'partidária' - se é que assim podemos dizer! - como formadora da consciência proletária ou seja como instância educacional.

Mas eu percebo que cada vez mais inseriu-se na consciência marxista, envenenando-a, a tese soreliana segundo a qual alguns quadros intelectuais  fariam ou comandariam uma revolução. Alias, sem depender do tempo ou das circunstâncias externas a que Marx havia aludido (realismo etapista) e assimilando o conceito de Revolução hecatômbica ou de conflito entre esta elite minoritária e as massas alienadas comandadas pela burguesia. A bem da verdade a noção de quadros ou de uma aristocracia educadora não podia deixar de estar presente num teórico de classe média como Marx, ou ainda em Engels e Kautsky, o qual amiúde refere-se a sem papel em termos bastante próximo do padrão de pensamento positivista.

A ideia de um núcleo dirigente, de quadros ou de um partido ali já estava e não podia deixar de estar, a finalidade no entanto não era pelejar ou fomentar sedições, mas infundir a consciência proletária ou social nas massas.

Vejamos então o que Marx havia ensinado sobre o tal processo Revolucionário -

Marx havia ensinado algo totalmente diverso - caso tomemos por padrão o modelo Sorel/Lênin. Pois acreditava que a própria dinâmica do capitalismo produziria uma imensa massa e horda colossal de proletários a um lado e a outro uma diminuta e insignificante burocracia de capitalistas, a qual seria derrotada por aquela sem drástica efusão de sangue ou abalos cósmicos na medida em que tivesse sua consciência despertada pelo 'partido' ou pelos quadros intelectuais os quais, como já dissemos, na visão de Marx, fariam mais o papel de professores - cujo objetivo é levar consciência as massas convertendo-as em povo agente de sua História -  do que de guerrilheiros.

Para K Marx a realidade econômica era condição 'sine qua nom' os proletários não poderiam agir ou fazer a Revolução. A qual se daria necessariamente por etapas, acompanhando o desenvolvimento da produção. Era portanto absolutamente necessário, que no contexto em que viesse a dar-se a futura Revolução, o Capitalismo não apenas aflorasse sem que houvessem objeções, mas que evoluísse, progredisse, se desenvolve-se e atingi-se, livremente sua forma final. Disto dependia a oportunidade ou a necessidade da Revolução Comunista, a qual não passava sempre de uma resposta aos últimos estádios porque passará o Capitalismo. Compreende-se, segundo esta visão, que a Revolução teria de dar-se, necessariamente, numa Sociedade Capitalista que tivesse feito já todo este percurso, e ao fim do século XIX, apenas Inglaterra e Alemanha, pareciam apresentar tais condições.
Marx
jamais compreenderia uma Revolução na Rússia ou na China de sua época i é em Sociedades que ainda não haviam assimilado em larga escala o modo de produção Capitalista, encontrando-se um estádio agrário, campesino, feudal, primitivo, tradicional, etc que ele, Marx, - filho do iluminismo e coevo do positivismo - não podia compreender e cuja cultura deplorava. Segundo o esquema etapista de Marx seria de todo inútil fomentar a consciência proletária em tais conjunturas. A teoria de Sorel no entanto possibilitou um adiantamento, absolutamente controverso, em termos de História. A consciência proletária foi estimulada nos grande centros urbanos tradicionalmente associados ao poder, até que, aproveitando-se de um nicho aberto pelos liberais, veio a assumi-lo; mas em oposição ao campo e ao campesinato (o qual aspirava apenas pela Reforma agrária i é pela distribuição da terra). Foi uma Revolução tipicamente urbana, que renovou a clássica oposição - Cidade X Campo. Para parte dos campesinos, que tiveram sua mentalidade e padrão cultural depreciados, esta Revolução foi sinônimo de opressão.

Digam o que quiserem do autêntico marxismo, a ordem de pensamento presente no velho Marx parece sensata, coerente e realista; diria sóbria. Afinal nela cooperam tanto elementos externos ao homem quanto elementos humanos conscientes de suas possibilidades. Sucede no entanto que esta ordem de pensamento foi danosamente turbada por correntes exógenas advindas do anarquismo idealista. Claro que a revolução elitista e ingênua proposta por Sorel e abraçada pelos sucessores de Engels só podería dar-se nos termos totais ou globais propostos por Trotsky, jamais em termos nacionais ou regionais. Deveria ser universal ou não ser. Os anarquistas que são péssimos lógicos e pensadores - creem que a lógica formal, a coerência, o raciocínio são sempre sufocantes ou opressores - erraram desde o princípio. E as massas até hoje permanecem sem espírito e manipuláveis. Talvez a hora tenha passado porque as massas não foram devidamente preparadas para a hora nos termos propostos lucidamente por K Marx.Você converte as massas em povo i é desmassifica-as e prepara-as para a cidadania (por meio de uma educação integral) ou as mantém escravizavas e submissas i é sob estrito controle. Não há terceira vias aqui. Ou vamos pelo caminho de uma democracia cada vez mais direta, popular ou cidadã ou vamos pelo caminho do totalitarismo, do despotismo ou da ditadura. Uma, coisa é absolutamente certa - como salientaram Ortega Y Gasset e MacLuhan dentre outros - massas e liberdade é coisa que não combina. É como receita de pólvora. É algo explosivo. Apenas os anarquistas a partir de sua antropologia romântica ou ingênua, construída a partir de J J Rousseau, puderam mesmo conceber a ideia monstruosa de emancipar 'massas' e é claro que as massas emancipadas, dando largas a impulsos, instintos e outras forças irracionais, levariam a cabo o ideal sangrento ou hecatombico de Revolução total... Resta saber o que acionaria o furor das massas levando-as ao paroxismo.

Antes de prosseguir quero dizer que este ideal de massas irracionais inconscientemente movidas ainda povoa o pensamento anarquista - se é que assim podemos chama-lo. Do que tivemos e temos exemplo nos Hippies, Punks e outras tribos formadas por rebeldes sem causa. Há aqui uma revolta cega, que não é necessariamente produzida por situações de injustiça, miséria ou indignidade humanas - como no caso dos socialistas e de parte dos comunistas - e que jamais se define, permanecendo sempre difusa... Essa revolta amorfa a um tempo e multiforme a outro não nos parece saudável. Ela sempre poderá conduzir a civilização a tal guerra de todos contra todos... e converter nosso homem em lobo do outro, dando certa força as reflexões emitidas por Hobbes há tantos séculos. Ao menos quanto a essas massas suas considerações parecem justas. A democracia direta pressupõem homens educados segundo os princípios da racionalidade e da ética; demanda um projeto construtivo de caráter humanista. Democracia, mesmo representativa, e formalismo ou estruturalismo, é outra mistura funesta... Sócrates, Platão e Aristóteles elaboraram suas críticas há mais de dois mil anos e nos parecem válidas. 



Vejamos agora como exasperar e acionar essas massas incultas de modo a que executem o programa da Revolução -
Comecemos pelo velho dilema - Na mesma medida em que o capitalismo, diante dos perigos e ameaças, apara suas arestas ou garras (quando não as tem aparadas) as pessoas mais simples passam a ter esperanças ou até a suportarem-no. Aqui todo e qualquer alívio conduz a certo comodismo e é justamente isto que nos explica porque a Revolução não ocorreu na Inglaterra do século XIX.


Para tanto devemos ter em conta aquela reação Cristã (Católica e anglo Católica) e humanitária cuja melhor expressão é a Sociedade Fabiana, criada pelo casal Webster, matriz das 'Trade unions'. De fato aquelas condições cruéis e desumanas que vigoraram durante o auge do liberalismo econômico inglês (Idade de ouro dos capitalistas e patrões) - 1830 a 1880 - e que foram tão vivamente descritas pela pena de um Charles Dickens (o qual nada tinha de comunista ou bolchevista) foram lentamente alteradas no domínio da institucionalidade pelas assim chamadas reformas trabalhistas, das quais emergiu em meados do século passado um estado de bem estar social e de qualidade de vida que perdurou até a Era Tatcher i é por quase oitenta anos. Foram tais reformas que conjuraram o perigo da Revolução comunista prevista por Marx. Não é que o Capitalismo se tenha reelaborado ou reprogramado, como sugerem alguns. O fato é que passou a sofrer restrições por parte do poder político. Na expressão consagrada de Keynes, a fera foi posta numa jaula.
A conclusão salta a vista - Caso as pessoas tenha acesso a certo nível de qualidade de vida, bem estar ou esperança não estarão dispostas a apoiar uma Revolução cósmica nos termos de Sorel ou Lênin. Afinal de constas sabem muito bem que Revolução não é sinônimo de brincadeira e a imagem das  Revs Inglesa e francesa ainda esta mais ou menos fresca em suas memórias. Ainda há certa consciência quanto ao fato das Revoluções terem sido eventos traumáticos nas vidas das sociedades que as conheceram de perto.

Que preço as pessoas estão disposta a pagar por sua libertação?

Não deverão ser bem escravas, na plena acepção da palavra, para estarem dispostas a pagar um preço demasiado alto?

Que condições concretas as fazem com que as massas aspirarem por revoluções totais e incontroláveis?

Enquanto a situação social for suportável e tiverem esperança não apostarão neste padrão de revolução sanguinolenta. Afinal não temos registros de que os escravos, nesta ou naquela Sociedade, tenha cometido suicídio em massa - E a religiosidade pagã ou greco romana nem condenava a prática nem conhecia penas eternas ou inferno. Neste caso por que os escravos não recorreram sistematicamente ao suicídio?

Simples. Por que elas, as condições em que se dava a escravidão, se tornaram flexíveis a ponto de injetar alguma esperança de liberdade em suas consciências. Nem podemos descartar que tudo isto tenha sido previamente calculado com base na simples experiencialidade da vida... Podemos pensar assim na fuga, na alforria, na simples construção de laços de afeto com os proprietários e consequentemente numa melhoria significativa quanto ao trato, etc

Assim a condição dos operários em certas realidades sociais. Quando o sistema ameaçado abre mão de sua rigidez total e até certa medida possibilita a inserção e ascensão social - o que quando faz faz por cálculo - é absolutamente natural que a maior parte das pessoas se conformem com ele. É a obra Psicológica da esperança, a qual não se pode fugir. Apenas a total falta de esperança e a vigência de uma situação insuportável abrem as portas para a Revolução com que sonham anarquistas e comunistas... A matéria da Revolução é o sofrimento, a angústia e o desespero.

Por isso os neo marxistas sorelianos que levam sua escolástica medonha até o fim são sempre favoráveis a tese, imensamente discutível, do 'quanto pior melhor'.

Quero dizer que são favoráveis a afirmação radical do capitalismo em seus termos clássicos para que se produzam as condições ou circunstâncias apontadas não apenas por Marx mas até por Henry George, assim a proletarização total... circunstância que facilitaria ao máximo a Revolução por parte das massas conscientizadas.

Quero dizer que tais pessoas são as que preferem sempre o DEM, o PSDB, o PSC, o PMDB no controle da política, uma vez que tais partidos, de inspiração liberal , produziriam as condições ideais de miserabilidade e desigualdade social que deflagariam uma Revolução violenta inda que por parte de minorias comandadas por elites ainda menores dispostas a lavar a terra com ferro e fogo. O terror só poder ser produzido por circunstâncias excepcionais.

Mas a angústia humana tanto pode ser objeto de esclarecimento objetivo por parte dos estudiosos da sociedade ou dos trabalhistas como pode ser habilmente manipulada pelos fanáticos contra os interesses dos próprios manipulados elevando o grau de alienação a nivel máximo; assim na Sociedade islâmica, no Belt Bible e no Brasil de hoje. O tiro pode sempre sair pela culatra e o medo, o temor, o receio e a dor virem a cimentar. Marx jamais contou com isto, ele era otimista, evolucionista linear e como os positivistas acreditava que o fundamentalismo religioso, ao menos no Ocidente, estava com seus dias contados. Erro cabal, corrigido por Weber dentre outros.

Eis o motivo porque os marxistas/leninistas, ignorando os últimos trabalhos de Marx e as derradeiras cartas de Engels, condenam inexoravelmente a social democracia ou a inserção no plano da política institucional com o objetivo de obter reformas e conter cada vez mais a ferocidade do sistema. Eles não apreciam este caminho porque sabem que a amenização das condições produziriam a acomodação por parte dos dominados, alivio como já dissemos sempre se traduz em esperança e acomodação. A posição é ingênua porque ao menos a parte menos irracionalista do sistema saberá auto regular-se ou adaptar-se até certos limites caso sinta-se ameaçada por uma insurreição. Mas é assim mesmo e a possibilidade de um relativo e precário equilíbrio dentro da estrutura social existente basta para exasperar os radicais sorelianos ou jacobinos, os quais contam com o desconforto ou o incomodo para levantar as massas.
Não tenho nada contra a ideia de uma imensa maioria de oprimidos e injustiçados i é o povo, tomar um poder que alias já é seu.

O que não posso aprovar, em hipótese alguma, é uma ditadura de quadros elitistas, uma vez que estes jamais equivalem ao partido, quanto mais ao proletariado; proletariado é proletariado e ponto.

O que nos conduz diretamente a um governo democrático popular, exercido diretamente pelo povo e jamais por aristocracias de qualquer talhe. Isto porém é outra questão.

O que não posso aceitar é justamente a tese maquiavélica segundo a qual devemos assistir impassivelmente o desenvolvimento total das forças capitalistas de produção - senão até colaborar com ele e estigmatizar a social democracia - enquanto elas esmigalham e torturam impiedosamente seres humanos.

Essa espécie de quietismo que consiste em largar-se ou em entregar-se ao fluxo das forças históricas de caráter economicista sem sequer cogitar em resistir-lhes ou em amenizar-lhe os efeitos é que me parece anti ético, rudimentar, bárbaro, sórdido e grosseiro. Enfim a doutrina do 'quanto pior melhor', a única que me parece apta a fazer com que a maior parte dos seres humanos aspirem por uma revolução em termos catastróficos parece-me sem sombra de dúvida muito mais questionável do que qualquer tipo de reformismo. Afinal porque não conter a priori o desenvolvimento de forças contra as quais teríamos que lutar e combater a posteriori??? Não vos parece mais sensato combater as causas do que seus efeitos, assim a instalação e desenvolvimento das forças capitalistas de produção numa dada sociedade tradicional do que a ordem capitalista já instalada e consolidada. O fato é que Marx no capital, encara o capitalismo ou a fase capitalista como um benefício ou como uma fase progressista no quadro geral do desenvolvimento. Nada mais duvidoso em toda sua obra.




segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Mais problemas de Socialismo - Foi esta teoria ultrapassada?

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Após termos considerado a situação das sociedades contemporâneas reguladas pela ideologia Capitalista ou as consequências produzidas por esta ideologia, não menos utópica e certamente mais irracional e insidiosa do que o socialismo, podemos passar a terceira questão, proposta nos seguintes termos:

"Não é - o socialismo - uma ideologia ultrapassada? A ideia de Marx daria certo no nosso contexto hoje?"

De minha parte começarei apontando um aspecto bastante curioso e contraditório da crítica direcionada o modelo socialista.

Curioso e sobremodo curioso que alguns adversários destes sistema acusem-no de utópico enquanto que outros acusam-no de ultrapassado. Mas como poder ser utópico, i é impossível de ser implantado ou realizado no mundo e ao mesmo tempo ultrapassado, logo até certo ponto trivial ou comum?

Seja como for a indagação posta nestes termos - Se foi ele, o socialismo, ultrapassado? - é importante na medida em que damos com ele em diversas situações geográficas e históricas não enquanto mera ideologia utópica mas enquanto práxis ou prática i é enquanto modelo de organização social.

Nem é como mera ideologia que deve ser avaliado, ele ou o capitalismo; mas na prática ou na aplicação.

Neste sentido é perfeitamente redarguir com outra pergunta: E o capitalismo, não é ele uma ideologia ultrapassada? Pelo simples fato de nos ter conduzido a beira de um colapso ambiental ou de um suicídio enquanto espécie? Pelo simples fato de ter acenado com o infinito num sistema que é finito? Por ter sancionada a tendência do indivíduo tornar-se lobo do outro? Por ter estancado a circulação das elites e criado um Império de medíocres (Reverto assim a crítica favorável dos elitistas mal informados)? Por ter ignorado supinamente a existência da dimensão ética da vida conforma as lições do positivismo? Por ter promovido um sem número de guerras fratricidas? Por não poucas vezes ter 'brincado' com o veneno do fanatismo religioso?

Por quanto mais nossa terra poderá resistir?

Não sabemos, mas intuímos que não nos resta mais muito tempo...

E tudo graças a quem?

A teoria segundo a qual o principal objetivo desta vida é obter dinheiro, lucro ou fortuna em máximo grau, SE POSSÍVEL, honestamente.

Dados os objetivos foram delineados os meios, os quais conhecemos muito bem...

E agora temos diante de nós os resultados - milhares de espécies de plantas e vegetais definitivamente extintos, a terra em estado de super aquecimento, os pólos derretendo, os oceanos subindo de nível, os tornados e ciclones tornando-se mais poderosos, etc, etc, etc E gente e mais gente dizendo que tudo isto é perfeitamente normal ou mesmo que não esta acontecendo absolutamente nada. Que somos uns tolos cooptados pela propaganda vermelha, cujo objetivo é massacrar a reputação do bom e velho capitalismo!!!

Diante de tudo isto que ouvimos por parte dos chefes ou das cabeças medíocres ou mesmo imbecis do sistema (Bush e ou Trump)???

Que o ritmo da economia Norte americana é mais importante do que a conservação do planeta ou que não podemos parar de produzir...

Tal a resposta que nos é oferecida pelo sistema da moda ou do momento.

Mas os tubarões estão atacando os banhistas nas praias do Recife, coisa que jamais se viu... Tudo efeito da propaganda socialista ou do PT, os tubarões foram certamente cooptados.

Por fim como falar na viabilidade ou no sucesso de um sistema responsável pela depredação do planeta no mais alto grau e que continua, após dois séculos, repetindo como mantra que devemos acumular, lucrar, produzir ou explorar ao máximo????!!!! Que nível de racionalidade pode existir neste padrão de pensamento???

Fomos enganados desde o princípio por um sistema falacioso que editou promessas em torno de infinitude ou ilimitação num espaço material que é finito e quantificável.

O que nos leva a sonhar com foguetes e colônias na lua ou em Marte onde possamos continuar a explotação após termos transformado este nosso planeta num cadáver um numa carniça ambulante, contaminado por um nível de poluição jamais visto no universo observável. Estamos no mínimo transformando a terra em que vivemos num imenso lixão, monturo ou depósito de resíduos, e ainda não podemos sair dela ou abandonada a semelhança dos ratos que saltam do convés.

Apesar disto o discurso é o mesmo e se mantém inalterado, havendo quem insista em tecer loas e dirigir aplausos ao deus capital.

Agora vou revelar ao amigo leitor uma verdade importante e a respeito da qual muito devemos meditar: E este nosso mundo todo infectado por sucessivas epidemias de socialismo não é o ambiente ou mundo ideal sonhado pelos liberais ou capitalistas...

Como é???

Isso mesmo. Devido ao maior ou menor grau de contaminação socialista produzida pela revolta ou pela resistência de tantos idiotas, o capitalismo jamais atingiu o seu nível ideal de desenvolvimento porque jamais foi de fato deixado livre e ao sabor de suas próprias forças!!!! Você compreendeu bem???

Diante disto temos de considerar a profunda reflexão do outro Karl, o Polayni: Via de regra desdouramos quanto a todo este grau de resistência experimentado pelas diversas sociedades face as aspirações do liberalismo, sem imaginar o quanto toda esta resistência desacelerou-o. Sabe-se lá em que estádio de degradação estaríamos agora caso não fosse a soma de toda resistência ao modelo do lucro máximo... Se ainda não chegamos ao fim da linha, agradeçam o odiado socialismo enquanto elemento de contenção.

Evidentemente que o Capitalismo desejaria ter feito mais e muito mais...

Tendo por modelo a clássica sociedade vitoriana da livre iniciativa, a qual esteve em vigor de 1830 a 1880, ou seja mais ou menos durante meio século na querida Albion. Temos ai a santa Genebra do capitalismo ou sua idade áurea com que jamais cessou de sonhar. Nem precisamos ler as obras dos rancorosos socialistas que tudo falseiam para conhecer a sociedade de Jack, o estripador; pois temos as obras clássicas e estilosas do britaníssimo Mestre Charles Dickens, condecorado por sua majestade. Nada muito distante do quadro pintado pelo odiado Marc Ferro em seu 'Livro negro'... Há quem diga e não sem fundamento que durante o período áureo do capitalismo os escravos brasileiros desfrutavam de uma condição pouco melhor do que os trabalhadores livres de Manchester... Os quais além de viverem em barracões de papelão sem água encanada, luz ou esgoto, comiam, quando tinham, um pedaço de pão duro, além de cobrirem-se com trapos, num pais em que o inverno é bastante rigoroso.

Estou falando em crianças de seis anos (alguns registros dizem quatro!), de octogenários e de mulheres no oitavo mês de gravidez, trabalhando nos corredores das minhas de carvão sem qualquer tipo de proteção, com um pedaço de pão velho no estomago (muitas vezes vazio) por até dezoito horas por dia e 364 dias ao ano. Tudo muito bem regulado em nome da liberdade de contrato... Afinal quem não quisesse bem poderia deixar de trabalhar PARA MORRER DE FOME COM SUA LIBERDADE!!! Bom insistir que tudo isto foi sustentado e mantido em nome da bela doutrina da livre iniciativa e da neutralidade do estado face a dinâmica natural do próprio Mercado. Mais, em nome de tudo isto, até foi formulada uma refinada doutrina a respeito do mínimo de insumos a serem oferecidos ao trabalhador em troca da força de trabalho, o qual lhe permitiria apenas conservar a vida! O que ainda hoje é seriamente discutido entre os acadêmicos liberais!!! Preciso entrar nos detalhes desta quantificação matemática em termos de pão, água e pano necessários ao trabalhador para permanecer vivo e trabalhando ou melhor produzindo para seu patrão???

Enfim nobre amigo leitor, este é o ideal ou a proposta clássica do Capitalismo, frustrada apenas e tão somente devido as ardilosas conjurações tecidas pelos socialistas frustrados e rancorosos, os quais recusaram-se - oh céus - a aceita-la. Aqui todos são vagabundos pelo simples fato de não quererem trabalhar intensamente, isto é, ao máximo - e a pão e água - por aquele empreendedor exemplar que é o patrão. E não venham com chorumelas pois esse negócio de 'mais valia' não existe rsrsrsrsrsrs

De fato o Capitalismo tem acenado não apenas com a circulação das elites mas também com a posse de riquezas para todos ou para a maioria dos membros do corpo social e ao menos para os mais esforçados, que adotem sua regra de vida, i é, trabalhar honestamente e economizar. No entanto quando examinamos mais de perto o que vemos? Vemos a maior parte dos trabalhadores ou assalariados - o capitalismo clássico é contra um salário mínimo fixado pelo estado em nome do maravilhoso livre contrato - enriquecerem??? Não. Então o que vemos??? Bem o que nós vemos é os herdeiros enriquecerem (mais e mais a cada geração)... Os que jamais põem as mãos na massa enriquecerem... Os trapaceiros sem consciência enriquecerem... Os bem casados enriquecerem... E acumularem cada vez mais riqueza.

Vemos quem não trabalha mas vive gozando a vida enriquecer ou acumular e quem busca ganhar o sustento com o suor do próprio rosto rojar na miséria... É o que amiúde vemos, e por que??? Porque, respondem-nos os advogados do capitalismo, os trabalhadores, os trabalhadores são esbanjadores - pelo simples fato de quererem provar vinho ou atum uma vez por ano ou uma vez na vida - enquanto que os patrões são sacrificados, morigerados, heroicos, disciplinados e praticamente, abençoados por deus rsrsrsrsrsrsrs Alguém se lembra de Max Weber e da 'Ética protestante...' Como se vê o capitalismo tem seu 'hagiológio' onde constam os nomes dos patrões morigerados, apesar do caviar, do Hanessy, dos banhos em leite de aveia, das cirurgias plásticas, iates, ferraris, heliportos, etc Quem não percebe que proporcionalmente este patrão gasta muito pouco para viver tão bem???

Agora por que acumula tanto é o que não explicam... Porque lá entra a mais valia ou a parte - colossal - do trabalho produzido de cada trabalhador abnegado, a qual fica com o senhor patrão. Imagine então o que sucede com quem explota o trabalho de dez mil operários abnegados... A cada ano mais dez fábricas ou filiais, apesar dos limitadíssimos gastos com festas e recepções a um milhão de reais cada!!! Enquanto o trabalhador ganha 900 pratinhas graças ao salário mínimo fixado pelo Estado ou pelo poder político... Pois a depender da maravilhosa ideologia capitalista passaria muito bem com cem reais por mês caso não morresse. Quanto aos filhos pequeninos - salário família ou o bolsa família correspondem a situações monstruosas para nosso asceta do capital - que se prostituíssem como nos velhos tempos da Rainha Vitória e fossem respeitosamente deflorados pelos membros da elite reinante.

A bem da verdade o que temos aqui é pura falácia (cf Henry George 'Progresso e pobreza) i é miséria acumulando-se de um lado na mesma proporção em que a fortuna acumula-se do outro em muito poucas mãos. E uma ampliação continua da separação social entre as classes. Uma minoria incipiente de milionários cada vez mais milionários e uma maioria de miseráveis cada vez mais miseráveis. O que nos conduz de chofre - na medida em que a religiosidade apaziguadora vai perdendo a força - a situações de conflito e violência e consequentemente a necessidade das elites terem as mãos um aparelho repressor - em certo sentido retornamos ao paradigma da coerção física na medida em que a alienação da fé vai perdendo sua força - muito bem organizado, tal e qual uma polícia militar.

Tal a situação entre as classes, mas não só entre elas; pois na mesma medida em que algumas sociedades vão abraçando a ideologia capitalista e atingido máximo desenvolvimento em seu espaço, tendem a lançar-se contra as sociedades mais fracas com o objetivo de coloniza-las ou escraviza-las gerando outras relações de dependência e uma situação de miséria social generalizada, assim o subdesenvolvimentos. Por outro lado na medida em que as sociedades exploradas vão tomando consciência de sua situação, mesmo quando não se tornam comunistas ou mesmo socialistas, tendem a insubordinar-se e a sacudir o jugo da dominação imperialista, resultando disto outros tantos conflitos extra nacionais ou mundiais i é as guerras.

No interior das diversas sociedades o capitalismo alimentando a revolta estimula a rebelião e a sedição, produzindo um clima continuo de instabilidade e insegurança. Externamente produz uma série de choques e guerras entre as diversas sociedades imperialistas e subdesenvolvidas. Outras tantas guerras que fogem a esta dinâmica são produzidas ou alimentadas tendo em vista as necessidades da indústria bélica ou mesmo da indústria civil - cujo objetivo premeditado é a reconstrução da infra estrutura destruída pelas guerras - enfim do Mercado. O Mercado precisa ser aquecido pelas guerras, as guerras são feitas e exploradas economicamente.

De tudo isto, tenho de parar por aqui ou de escrever uma Enciclopédia rsrsrsrsrs, ressalta claramente a inviabilidade do Capitalismo, observada desde as mais priscas eras i é desde Th Morus e Campanella. Melhor dizendo, desde Evemeros, Zenon e Jambulos. E desenvolvidas por Bacon, Harrington, Mably, Morelly, etc St Simon, Owen, Fourier... Não a poucos observadores qualquer uma destas utopias - que só é utopia enquanto não é realizada por algum homem mais atilado - é preferível a realidade acima descrita. Foi o desencanto - a expressão é de T S Elliot - ou a angústia produzidos pela nova sociedade do capital que lançou parte dos homens nos braços da utopia.

O socialismo no entanto, em maior ou menos medida, tendo existido concretamente e na maioria das vezes com sucesso, numa determinada conjuntura histórica, não nos parece nem ultrapassado nem inviável, mas absolutamente necessário enquanto única forma de oposição a realidade indesejável que temos, o Capitalismo.

Como poderia ser ou estar ultrapassado se no momento presente ou agora mesmo - e há mais de meio século - regula os destinos das sociedades mais civilizadas do planeta, no Norte da Europa ou Escandinávia? Como poderia ser ou estar ultrapassado sem em Cuba tem enfrentado com relativo sucesso um embargo imposto pela nação mais poderosa da terra? Como poderia ser ou estar ultrapassado após tudo quando tem realizado pela população mais humilde da Venezuela e na perspectiva de uma democracia semi direta? Como poderia ser ou estar ultrapassado se em parte contribuiu com o que a de melhor para as legislações trabalhistas da Alemanha, Inglaterra, França, Itália, Espanha e Portugal tornando tais sociedade relativamente estáveis apesar dos progressos do capitalismo???

Já quanto as ideias de Karl Marx - já dissemos que o Socialismo não procede de K Marx mas de Urukagina, Akenaton, Faléas, Sócrates, Buda, Confúcio, Jesus, Paulo, Padres da Igreja, Escolásticos, Utópicos, etc - temos que distinguir seu duplo conteúdo: O conteúdo científico, de crítica formal ao modelo capitalista, vazado em sua obra clássica o capital. Temos aqui uma análise empiria e econômica de uma realidade dada, a qual revela sua inoperância ou seus defeitos estruturais. Neste terreno as críticas de Marx são tão válidas que tiveram de ser consideradas e incorporadas por J M Keynes. O capitalismo é viciado e inviável socialmente falando.

Já no 'Manifesto comunista' e obras congêneres temos um projeto de sociedade futura fundamentado em determinados princípios e valores, e portanto numa ética tomadas ao Cristianismo e ao Humanismo socrático. Concedemos sem maiores problemas - não somos positivistas - que este projeto seja mais ético, abstrato, metafísico, etc do que científico. Para além disto a proposta do Marx socialista costuma ser mais radical que as demais propostas socialistas de modo que ele é um tanto demolidor ou iconoclástico e isto a ponto de querer eliminar o regime assalariado - contaminado pela mais valia - e para tanto fazer uma 'reforma agrária' dos meios de produção, compreendido como os instrumentos ou aparelhos destinados a produzir algum bem de natureza econômica i é negociável. Naturalmente que isto, para nós - que não somos comunistas - é discutível. Por fim quanto aos meios embora Marx mesmo, tal como Engels, Kautsky e Berstein e nós mesmos, tenha em sua última fase optado pela via institucional (superando assim sua crítica um tanto radical assumida na 'Crítica ao programa de Gotha) devemos lembrar que Lênin, a partir de Sorel, elaborou uma mística revolucionária a partir da qual o conceito de Revolução passou a ser compreendido necessariamente e exclusivamente em termos de um conflito bélico sempre regado com sangue. Desde então os comunistas ou marxistas ortodoxos esforçam-se por atribuir esta opinião a Marx e isto a ponto de alguns deles acusarem já não somente Kautsky, mas o próprio F Engels e mesmo Eleonor - filha de Marx - de terem falsificado o pensamento do barbudinho e criado ou legalizado a social democracia compreendida como via institucional. Segundo esta visão artificiosa tantos quantos precederam Lênin teriam sido renegados ou falsificadores. No mínimo, nenhum deles teria penetrado e compreendido perfeitamente o pensamento de Marx antes do russo. O idealismo embutido nessa teoria salta a vista - É como se Paulo tivesse compreendido melhor a mensagem de Jesus do que Pedro, Tiago e João i é as testemunhas oculares da palavra ou como se os califas tivessem compreendido os ensinamentos de Maomé, melhor que a shahaba.

Claro que todo este projeto de Marx e mais ainda a metodologia canonizada por Lênin e jamais aceita acriticamente pelos sociais democratas e 'revisionistas' é mais do que discutível e eu não penso que a mística ou receita de bolo da Revolução armada e violenta ou da sedição, seja viável - abstratamente - em quaisquer sociedades. Os modos porque alcançar o socialismo são diversos ou múltiplos e a institucionalidade poderá ou não se possível, em muitas situações o é. Isto porém é discutir com Lênin não com Marx e tenho para mim que a cosmovisão de Lênin, segundo reconhece Engels numa de suas últimas cartas a Kautsky só é viável em situações não democráticas de exceção, assim como um golpe de estado semelhante ao qual estamos vivenciando hoje no Brasil. E não preciso ser comunista e nem mesmo socialista mas simples liberal (em política), democrata ou policrático para reconhecer que um governo ilegítimo ou golpista deva ser removido por meio da força ou das armas, este ensinamento não é de Marx ou Engels mas dos grandes teóricos da Revolução Francesa, de Alfieri, enfim de John Locke ou mesmo do Pe Jesuíta Juan de Mariana. Não é problema de socialismo ou marxismo mas de política e de liberalismo clássico face a tirania. A própria Constituição dos EUA é taxativa ao declarar que todo cidadão tem o dever de rebelar-se face a uma situação anti democrática de golpe. Salvo em tais situações anti democráticas que fogem a legalidade os socialistas, mesmo marxistas - não leninistas - aceitam o jogo democrático, embora os mais esclarecidos aspirem desconstruir a democracia burguesa ou formal ampliando-a e aprofundando-o na perspectiva de uma democracia cada vez mais direta, a exemplo do bolivarianismo venezuelano, do Demoex na Suécia, etc o que reporta a Gramsci, Polantzas e outros teóricos que seguem na vertente oposta a de Lênin. 

Penso que qualquer uma dessas propostas socialistas - excluída a da ditadura do proletariado, conceito tomado por Marx ao atrabiliário Blanqui e canonizado por Lênin - seja preferida a realidade capitalista. Não me refiro aqui ao comunismo enquanto solução futuro ou ao marxismo ortodoxo, mas apenas e tão somente a qualquer solução socialista nos termos de uma social democracia vinculada a implementação de uma democracia direta ou semi direta que permita ao povo desmassificado e esclarecido tornar-se agente de sua História. Sim eu acredito na viabilidade desta proposta. Temos aqui uma vasta gama de propostas socialistas a serem empiricamente testadas no corpo social e não podemos dizer que seja inviável antes de testa-las e esgota-las todas.