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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Os percalços históricos dos socialismos

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Após termos analisado os motivos porque os intelectuais e professores, e pequenos funcionários públicos, com seus méritos pessoais, tendem a assumir uma postura não apenas crítica, mas hostil face ao Capitalismo cumpre examinar a questão seguinte - vide artigo precedente - sobre o insucesso dos socialismos.

"Existiram e existem vários lugares em que não deram certo."

Mas, aparentemente a democracia ateniense, extinta no século III a C, também não deu certo...

Deveríamos tornar ao esquema dos reinados divinos do Oriente?

Uma coisa que não deu certo num determinado período histórico ou em determinadas condições, bem poderá dar certo noutras.

Assim a democracia direta ou policracia nos Landsgemeine suíços ou o Demoex na Suécia.

Acho hipocrisia lançar criticas a pequenina Cuba pelo simples fato de estar sob um embargo econômico unilateralmente imposto por um Império. Levantem o embargo, julguem a pequena Ilha em condições de IGUALDADE -  exigência da justiça - e então ai discutiremos. Desconsiderar o embargo imposto a essa república, é para mim pura e simples desonestidade.

Antes de criticarem a Revolução Venezuelana tentem observar imparcialmente a conjuração de formar internas e externas que levantou-se contra ela. Afinal quem nestes nossos tempos ignora que o mercado financeiro engendra e administra crises econômicas com objetivos meramente políticos assim desestabilizar determinadas sociedade que adotaram um modelo 'não ortodoxo' buscando levantar as massas contra os governantes???

Certamente não aprecio a Revolução cubana devido a seu conteúdo autoritário ou despótico, no entanto quem não vê ou percebe quão pouca democracia real existe nas esferas mais altas do governo Norte Americano? Concedo sem maiores problemas que os norte americanos tenham forte tradição democrática, admirável por sinal, mas na esfera do municipalismo, não enquanto Estado nacional. Todavia para ser justo quanto a república de 'Castro' tenho de considerar a realidade social anterior ao regime comunista que era a da não menos despótica e imperialista Emenda Platt... E tenho de levar em conta as críticas tecidas, já no século XIX, pelo não comunista, Jose Marti, um dos ícones da Revolução cubana. Desconsiderar todos este fatores é julgar sem devido conhecimento de causa.

Há uma Coréia do Sul. Beleza mas também há Estados Unidos da América do Norte policiando ideologicamente o mundo com ferocidade e arrogância; buscando tirar proveito econômico. Há um Bush, há um Trump... Há idiotas, psicopatas e palermas com bombas atômicas do outro lado, quem se importa ou incomoda??? Alias por que os EUA podem ter bombas atômicas e as demais sociedades livres não podem? Em que são melhores ou superiores??? Isto não cria uma disparidade em termos de poder como foi dito pelo Dr Enéias Carneiro??? Em que critério material nos baseamos para classificar os EUA como bons e a Coréia do Norte como má? Aqui os paralogismos vão se acumulando ao infinito...

Há no momento atual um esforço político muito bem coordenado no sentido de impedir a todo custo que soluções não capitalistas, logo socialistas, deem certo. São pura e simplesmente boicotadas por meia da força seja física ou econômica. Não morrem de morte natural, por si mesmas (falência múltipla de órgãos). São mortas ou assassinadas por outras Sociedades... São impedidas de dar certo por obra de um poder externo.

Vou no entanto retroceder e examinar o passado.

A primeira reforma social aconteceu muito mas muito tempo antes que se ouvisse falar no odiado Karl Marx. Que digo? Aconteceu muito mas muito tempo antes que se ouvisse falar os nomes de Jesus, Sócrates, Buda ou Confúcio. Pois aconteceu na pequena cidade de Lagash, na Suméria ou no Sul da Mesopotâmia - atual Iraque - há cerca de 3.500 anos, por iniciativa do rei Urukagina. Os detalhes podem ser encontrados - há textos originais - na "Suméria, berço da civilização." de Samuel Noah Kramer e numa versão tanto mais abreviada em Max Beer "História do Socialismo". Curioso aqui é que Urukagina apelava a uma ordem social mais antiga, fixada no início ou aurora dos tempos, apresentando-se destarte mais como um reacionário e restaurador do que como um revolucionário. Seu ideal de justiça ou de sociedade equilibrada, numa perspectiva histórica, esta no passado.

Teria sua reforma social dado certo? É o que não podemos saber uma vez que pouco depois de ter sido implementada foi a pequena Lagash invadida e conquistada por Lugalzagezi de Umma.

Outra tentativa, um pouco mais sutil e de teor mais religioso, de reforma social, afogada em sangue deu-se no Egito de Akenaten, o faraó monoteísta e anti imperialista que aboliu os sacrifícios sangrentos. Podemos le-la romanceadamente no 'Egipcio' de Mika Watari, filmado em 1953 creio eu. Temos aqui mais uma vez, uma iniciativa de reforma social pacifica até certo ponto, violentamente reprimida pelos poderosos sacerdotes de Amon Rá e pelos chefes militares.

Segundo Aristóteles o primeiro grego a idealizar uma Constituição socialista foi Faléias de Calcedônia. Aristóteles pode passar a proposta de Faleias por uma severa crítica, não pode todavia apelar a realidade concreta e certificar que a proposta de Faléias não havia dado certo, o que nos leva a supor justamente o contrário, isto é, ter ela vigorado com relativo sucesso na cidade de Calcedônia.

Para além disto podemos compendiar os seguintes exemplos:

  • A Bizâncio Cristã nos séculos IX a XII pode ser descrita como uma república em que a promoção social atingiu alto nível de sofisticação em que pese as estrutura política formal da monarquia. Embora ela tenha passado por sérias mudanças sociais e crises foi destruída pelos turcos seljúcidas no século XV.
  • O Império inca funcionou perfeitamente por no mínimo um século adotando um modelo fortemente socialista destruído pelos espanhóis em 1530.
  • A República guaranítica dos Jesuítas, criada no Paraguai pelos idos do século XVII, também foi por assim dizer destruída externamente pelos conquistadores portugueses após ter dado certo por cerca de um século.



Temos acima o exemplo de três sociedades relativamente socialistas que deram certo por um bom tempo e que foram destruídas externamente por outras sociedade sem que tivessem apresentado - no caso das duas últimas ao menos - sérios problemas estruturais a nível de organização interna.

Quanto a Europa civilizada no entanto, após a reforma protestante, impos-se cada vez mais um modelo burguês, liberal economicista ou capitalista cuja dinâmica foi descrita com absoluta precisão por David Ricardo já no comecinho do século XIX. A simples substituição do ideal gregário - tomado pelo catolicismo já ao judaismo, já ao platonismo grego - pelo ideal individualista canonizado pelo protestantismo mudou por completo a dinâmica da cultura na medida em que conferiu uma sansão espiritual ou metafísica ao novo padrão de relações econômicas até então incipiente. A igreja antiga fiel ao pensamento de Aristóteles a respeito dos juros e ao conceito tradicional de avareza legado pelo judaísmo, jamais havia se disposto a conceder tal tipo de sansão aos ensaios de liberalismo feitos pela burguesia. Sua tendência era reprimi-los justamente por meio daqueles poderes e sansões imateriais de plasmam a cultura e a mantém estável.

Eis senão quando estoura a reforma protestante, trazendo em seu bojo outros tipos de valores como o aquele individualismo peculiar as sociedades nórdicas e teutônicas e cuja gênese foi detalhadamente explicada por Le Play e Turville. Após ter sido ele introduzido na esfera da religiosidade Cristã, em franca oposição a tradição milenar, fica fácil compreender como e porque inseriu-se facilmente em todos os demais domínios da cultura produzindo outros tantos nichos de pensamento individual ou liberal. Desde então pode o liberalismo incipiente ou a avareza alimentar-se da cultura e impor-se materialmente no mundo real, criando novas estruturas. A partir da dinâmica cultural criada pelo protestantismo o liberalismo econômico, mesmo antes de sua codificação pôde encarnar-se muito facilmente em todas as sociedades europeias e esta solução cultural, ao menos nos países protestantes, inviabilizou qualquer saída pelo socialismo.

Em todas estas sociedades o Socialismo, mesmo enquanto parte do ideário Cristão tradicional, foi cada vez mais retomando aquela direção ancestral naturalista característica do modelo grego, e seguindo pela decididamente pela via do agnosticismo até o ateísmo e o materialismo. O que vindo a chocar as sociedades católicas tradicionais acabou despertando uma estranha oposição. Isto a ponto do Catolicismo romper com seus próprios valores no curso dos séculos XVIII e XIX, ocasião em que os Católicos mais esclarecidos, capitaneados por F Lammenais, Von Keteller e Maning criaram um partido Católico social resgatando sua tradição. Na Itália Nitti e De Amicis apresentaram este partido como socialista. O termo socialista havia sido inventando pelo pensador francês Pierre Leroux pelos idos de 1830.

Quanto ao socialismo naturalista foi proposto primeiramente proposto pelos niveladores ou diggers durante a revolução inglesa. Assim Liliburne, assim Winstanley inda que de modo bastante sutil e de matiz religioso. Devemos lembrar que a Inglaterra é pátria do único reformador protestante classificado por muitos como socialista Hugh Latimer e que a proposta do anglo Católico W Laud e seu circulo era igualmente socialista e até mais socialista e popular em oposição ao ideário puritano/calvinista em que topamos já com uma orientação liberal economicista. Seja como for a Revolução Inglesa jamais foi comandada pelos diggers em qualquer uma de suas fases ou etapas, enquanto que o partido anglo católicos foi esmagado com o rei, ficando vencedores os puritanos. E este é o motivo porque é classificada como uma Revolução burguesa do começo ao fim ou em sua totalidade. Jamais houve uma fase ou período socialista na R Inglesa, apenas uma fermentação teórica.

Outra é a situação da R Francesa, sobretudo com o incorruptível Robespierre. Aqui pela primeira vez damos com um ideário socialista no comando e portanto com uma fase caracteristicamente socialista, o que evidentemente supõem uma direção relativamente igualitária e teses como a reforma agrária, o abolicionismo, etc No fim das contas Robespierre é assassinado, sucedendo-se uma restauração sob Bonaparte. Babeuff seu continuador, avança na direção de propostas ainda mais radicais e aspira levar as reformas robespierrianas a frente capitaneando a 'conjuração dos iguais'. A conjuração falha vindo ele a ser processado e morto. É sucedido por Ph Buonarroti e este por A Blanqui sob diversos aspectos práticos, como a polêmica 'ditadura do proletariado' inspirador e mentor de K Marx. Fácil compreender que a direção desta cepa vai de tornando cada vez mais radical até dar no extremismo comunista.

Concomitantemente, no século XIX, especialmente após a revogação das leis sobre o fornecimento de suprimentos aos pobres (criadas logo após o fantasma da Revolução ter ameaçado a Merry England após a 'queda' da França) pelos idos de 1830, a formação de um denso mercado de reserva e a implementação de uma dinâmica capitalistas ideal nos moldes clássicos de teóricos já consagrados - como - Smith, Davi Ricardo, Petty, etc - a opção socialista ou mesmo comunista vai se tornando cada vez mais atraente para os clérigos - fossem unitários, romanistas ou anglo católicos - professores, pequenos funcionários públicos, artistas, poetas, cientistas, etc enfim para tantos quantos recusavam-se a aceitar a realidade dada como única opção possível e aspiravam reconstruir a sociedade noutros moldes. A imensa produção de injustiça, miséria e ignorância no cenário áureo da Inglaterra vitoriana exasperava os setores mais reflexivos e críticos daquela sociedade na mesma medida em que agradava os donos do poder.

Desde 1870 os conflitos sociais tornam-se agudos e desde 1880 a 1920 há um grande esforço por parte das elites intelectuais, pertencentes as classes médias, no sentido de buscar soluções institucionais para o problema em termos de reformas e de reformas destinadas a limitar ou conter o Mercado. Na Inglaterra o conjunto dessas aspirações reguladoras (logo socialistas) de viés institucional, destinadas a proteger a pessoa do trabalhador recebe o nome de trabalhismo. Essas reformas são sistematizadas e organizadas de modo efetivo em 1945 quando Clement Attle esmaga o 'vitorioso' Churchill e adota uma agenda de bem estar social inspirada em J M Keynes. 

Destarte, num nível maior ou menos a Inglaterra foi socialista ao cabo de cem anos i é desde 1880 a 1980 i e ao período Tatcher e mais acentuadamente ainda a partir de 1945 sem que no entanto esta opção acarretasse maiores problemas ou levasse o país ao colapso. De fato nada no período pré Tatcher sugere qualquer tipo de crise mais séria em termos sociais ou econômicos. Havia estabilidade e relativa segurança. Neste caso qual a razão ou razões de Tatcher??? Antes de tudo a conjuntura externa da guerra fria e o decorrente alinhamento com os EUA. Era necessário demonstrar que a proposta neo liberal era não apenas viável mais excelente e aqueles que na Inglaterra sentiam saudades da doutrina clássica do lucro máximo compraram a ideia. Assim o socialismo foi em parte desmontado com o objetivo de promover ideologicamente o liberalismo num clima de guerra fria.

Tal a situação da Inglaterra. De modo que não se pode dizer que o socialismo não deu certo naquele contexto. Ser arbitrariamente removido num contesto de institucionalidade é bem outra coisa.

O segundo exemplo de socialismo bem sucedidos e tão bem sucedidos a ponto de amenizar os conflitos étnicos que seriam reavivados uma década depois - num contesto de liberalismo ascendente - é a então Jugoslávia de Iosip Broz Tito, a qual partindo do comunismo tomou um rumo sui generis, chegando inclusive a conquistar o respeito da URSS e a funcionar muito bem até a morte do Marechal, ocasião em que veio a passar por uma crise devido a questões de natureza política como a liderança e a ser levado de roldão juntamente com as demais sociedades comunistas do Leste Europeu.

O terceiro exemplo bem sucedido e muito bem sucedido temos nos países Escandinavos, capciosamente apresentados como capitalistas ou liberais por certa propaganda desleal e desonesta. Th Picket no entanto não apenas faz lembrar que tais países tem permanecido rigorosamente fiéis ao modelo de bem estar social inspirado em J M Keynes pois mais de meio século, como faz questão de demonstrar que tais países apresentam as mais altas taxas de impostos do mundo ( por onde se vê que não são liberais nem em sonho) e que o montante desses impostos é redistribuído a toda população por meio de investimentos sociais implementados nas áreas da habitação, educação, saúde, lazer e cultura, o que impede o aumento excessivo da desigualdade e a proliferação da miséria. Evidentemente que este mecanismo redistributivo, responsável pela situação de equilíbrio vigente em tais sociedades, não é econômico ou financeiro, mas político e externo ao Mercado. Nem se vê como esse princípio regulador externo esteja de acordo com as aspirações do liberalismo clássico...

A honestidade nos obriga a reconhecer que os países do Leste europeu nada tem de capitalistas, pois na mesma medida que concedem total liberdade a iniciativa individual ou privada, taxam implacavelmente toda as iniciativas bem sucedidas por meio de impostos com o objetivo de reverter parte da renda produzida pelas empresas capitalistas aos trabalhadores. Situação em que a sociedade ou o estado realiza uma mediação muito bem sucedida e eficaz. Claro que o livre consentimento dos liberais não esta em jogo e que eles não cessam de criticar ferozmente estes sistema, o qual nada tem de capitalista.

Ora este sistema de redistribuição de renda pautado nos impostos e na promoção social tem se mantido até hoje e se mostrado relativamente eficaz. Basta dizer que se trata das sociedades com o melhor índice de qualidade de vida do planeta. E que estão muito a frente da Sociedade norte americana, a qual como demonstraram Lênin e Rosa Luxemburgo não se pode sustentar sem recorrer ao imperialismo, a pirataria internacional e a guerra desde que conquistou os territórios indígenas em 1890 e atingiu o máximo limite possível em termos de expansão territorial contínua. Os cidadãos Norte americanos tinham razão em ser otimistas e confiantes em 1776 quando ainda havia um imenso território a ser conquistado e um montante colossal de riquezas naturais a serem pilhadas, o que possibilitava, até certo ponto a sustentabilidade. Outra é a situação dos EUA a partir do final do século XIX e especialmente no decorrer do século XX na medida em que a própria dinâmica do Capitalismo vai produzindo desigualdade e miséria cf Henry George 'Progresso e pobreza' e estimulando o conflito social.

Desde então a 'maravilhosa' sociedade Yankee teve de enfrentar um pavorosa crise econômica, com todo um lastro de tragédias pessoais e o recrudescimento da repressão com o consequente apego doentio ao mecanismo repressor da pena capital, além de implementar uma política cada vez mais imperialista - sancionada culturalmente pela doutrina do destino manifesto - responsável pela eclosão de centenas de conflitos por todos planeta. Diante disto não podemos deixar de pensar aquela sociedade animada pelo espírito capitalista como um morcego vampiro ou uma sanguessuga, enfim com um ser parasitário cuja existência depende da matéria tomada a outros seres, no caso a outras sociedades, votadas a uma situação de subdesenvolvimento (anemia espiritual).

Toda a vez que qualquer pessoa muito mal informada questiona-me sobre o fato do Capitalismo ir muito bem nos EUA obrigado ou dos EUA irem muito bem (não importa a forma da pergunta), limito-me a replicar: Mas a que preço, mas a que custo! Já pararam para pensa na contrapartida representada pelo imperialismo, o sub desenvolvimento, a miséria e as guerras??? Será pouco??? Acaso os EUA com seu belo capitalismo poderiam sustentar-se sem molestar ou abusar de outras sociedades ou manter-se ficando na sua??? Será portanto o capitalismo um modelo internamente sustentável ou um modelo que depende da existência de outras sociedades e continentes humanos a serem explorados ou melhor escravizados???

Só para concluir: Tenho observado diversos modelos socialistas perfeitamente realistas e funcionais em todo decorrer da História desde Faléias de Calcedônia. O que não me convence por outro lado é a perfeita funcionalidade de um modelo que dependa da pilhagem e da força, da guerra e da sabotagem, de embargos e terroristas para manter-se. E que tenha causado tantos problemas ao mundo em menos de cem anos. Por fim na medida em que este sistema de lucro máximo viraliza outras sociedades damos com os recursos naturais se esgotando, com a mãe natureza explorada num ritmo irracional e com a fauna e a flora cada vez mais ameaçadas por uma extinção em massa. Nesta perspectiva o que vejo e a ideologia ou proposta capitalista conduzir a humanidade ao suicídio ou convertendo-nos em predadores implacáveis. Afinal não podemos adotar propostas infinitas e pretensiosas num plano finito, e tampouco estimular os instintos agressivos e doentios do ego com esse tipo de proposta. De fato há em nós uma tendência que aponta para o egoísmo crônico, a qual precisa ser educada ou mesmo reprimida (pela ética ou pela fé religiosa é claro).

Tendemos a nos multiplicar ao máximo, a acumular ao máximo... mesmo sendo entidades distintas numa cifra alarmante. Tudo isto é marcadamente irracional até a loucura pois ignoramos nossa condição e os limites de nossos recursos, sonhando em pilhar outros mundos e oprimir as formas de vidas que neles vivam. O Capitalismo nos tem convertido em zumbis predadores alucinados por cérebros... Por isso profanamos a terra em que vivemos cf Scott Nearing estupramos a mãe natureza e convertemos a sociedade num inferno sobre a terra.

Enfim admitindo que os socialismos não tivessem funcionado não estaria demonstrado que o capitalismo funciona ou funcionou algum dia. Dado por certo que o socialismo não funcionasse por defeito estrutural ou de natureza interna, seriamos forçados a concluir que nada funciona. Tudo quando nos restaria seria o nada absoluto e a total falta de esperança. Ora o homem não pode viver sem esperança ou mesmo utopia. Em posse plena de suas faculdades não é um ser conformado... 









quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

República Bizantina? Um diálogo em torno da obra de Anthony Kaldellis

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Conhecida entre nós ocidentais - Em especial lusófonos e mais especialmente ainda entre nós brasileiros, sempre muito pouco preocupados com nossa herança cultural antiga, oriunda do outro lado do Mar Oceano - a pobreza quase miserável em torno de estudos bizantinos.

Devido a toda uma convergência de preconceitos transmitidos pelo materialismo hodierno, pelo iluminismo, pelo protestantismo, pelo papado, pelas pretensões acalentadas pelo sacro império romano germânico e por sei lá mas o que, habitua-mo-nos a repetir clamorosas asneiras sobre a multifacetada cultura bizantina. E de tal modo habitua-mo-nos a repeti-las que até cremos nelas.

E no entanto trata-se de uma mal querença que remonta aos tempos do 'falso imperador' ou do imperador de mentirinha Carlos Magno. Desde os tempos dos carolíngios aprendemos falar mal dos 'romenos', dos rumanios, dos romanos do Oriente, dos greculos ou greguinhos; enfim dos bizantinos. Em seguida adicionaram-se outros tantos conteúdos culturais acima discriminados. Mormente após o cisma de 1054 - quando o Ocidente passou a fabricar seus próprios cristianismos, assim o papismo, assim os protestantismos, rompendo com a Unidade Católica Ortodoxa - os gregos, rebeldes e cismáticos passaram a ser odiados ainda mais.

Sintomático que os primeiros protestantes a terem tomado contato com a cultura bizantina, já em seus estertores finais, não hesitaram a descrever os gregos insolentes como mil vezes piores dos que os papistas...

Já para os empiristas e cientificistas, e positivistas os bizantinos não passavam de uns degenerados e poltrões cujas vidas consistiam unicamente em discutir sobre questões gramaticais, poéticas, filosóficas e teológicas, dispendendo todo seu tempo e energias. Assim era a sabedoria bizantinesca sinônimo de sabedoria ociosa e inútil.

No entanto este tão pouco conhecido e mal falado contesto foi responsável por ter viabilizado em larga escala o primeiro serviço de promoção humana e social de que temos notícia. No entanto não é a respeito dele que pretendemos discorrer neste artigo.

Mas sobre a tese demolidora, iconoclástica e revolucionária de Anthony Kaldellis. (Apud Kaldellis 'The bizantine republic - People and power in new Rome'.

Optamos por apresentar esta síntese, a guiza de complemento a respeito de tudo quanto escrevemos sobre as fontes da democracia medieval, de modo a obter uma visão global ou totalizante numa perspectiva Cristã.

Afinal de contas porque raios o espírito e algumas formas democráticas teriam se conservado apenas no Ocidente barbarizado e não no Oriente Bizantino?

Lançando para bem longe de nossas vistas todas aquelas velhas lições em torno da autocracia bizantina e de seus imperadores despóticos, vulgarizadas não apenas por nossos livros didáticos mas até mesmo pelos 'bizantinistas' ocidentais, o homem nos oferece outra perspectiva tanto mais lúcida quanto realista.

Então, vamos a Kaldellis?

Segundo Kaldellis ao invés de ser autocrática, despótica, tirânica, etc a 'República' - e o autor emprega o termo república na antiga acepção em que não se confunde ou identifica com democracia e que reposta a administração comum (pública) e quiçá ao bem comum de Aristóteles - Bizantina realizará sabiamente o programa político por ele atribuído a Dion Cássio, mas que na verdade remonta a Políbio. Referi-mo-nos a ideia de república mista em cuja forma entrariam elementos da monarquia, da aristocracia e da democracia. Isto porque em suas formas 'puras' ou absolutas as três formas em questão estariam postas para uma degeneração inevitável. Assim da monarquia pura adviria a tirania, a qual sucederia a aristocracia pura. Esta degeneraria oligarquia, a qual sucederia a democracia pura e desta a anarquia (diríamos hoje anomia) a qual certamente conduziria os espíritos a monarquia, fechando-se o ciclo e repetindo-se infinitamente. Diante disto, qual a solução mais viável?

Uma vez que as formas puras são essencialmente passíveis de corrupção é necessário que o legislador misture ou associe equilibradamente as três formas.

Impõem-se aqui uma conclusão até certo ponto insólita: A solução para o problema político não se encontra na conturbada Grécia mas no Lácio, junto as sete colinas e é Roma quem no-la oferece. Não Atenas mas Roma! Pois enquanto os pensadores barbudos da Hélade haviam encastelado em posições sectárias e radicais, os habilidosos e sensatos romanos haviam concebido um modelo misto e funcional que não era nem monárquico, nem aristocrático e nem democrático mas as três 'coisas' simultaneamente.

Assim o cliente dos Scipiões, benignamente acolhido pelo 'povo romano' não hesita apresentar a República romana como modelo de síntese e equilíbrio políticos.

De fato todos os adversários da democracia direta, pura, absoluta ou popular do federalista Norte Americano Madison aos monarquistas constitucionais e parlamentaristas são em maior ou menor medida tributários de Políbio seja por via de Dion Cássio ou não.

É justamente em termos de monarquia constitucional que Kaldellis parece enxergar o império Bizantino. Analisando as fórmulas rituais de entronização e de deposição (empregadas durante as rebeliões) em torno das clássicas expressões "Axios" e "Anaxios" (assimiladas durante o ritual de consagração episcopal ortodoxo inclusive) o mínimo que se pode concluir é que os cidadãos bizantinos discordavam quanto as pretensões absolutistas de seus governantes atribuindo a si mesmos a faculdade da designação ou transmissão de poder e inclusive uma faculdade de suspensão ou de dedignação.

Portanto, ideologicamente falando, nem todos os elementos daquela sociedade assentiam mecanicamente as pretensões absolutistas e autocráticas expressas pela coroa. Havendo entre os cidadãos bizantinos um 'sentimento' divergente.

Dando seguimento a isto passa Kaldellis as estatísticas demonstrando que durante seus quase mil anos de História, O Império Bizantino conheceu uma rebelião a cada cinco anos. O que nos levaria a cerca de 200 rebeliões!!! Eram os imperadores menos estáveis no gozo do poder do que qualquer parlamentar reeleito no contesto das democracias contemporâneas. Pelo que as trocas ou alternâncias de poder eram sucessivas e continuas. Assim se haviam imperadores que como Justiniano retiveram o poder por alguma décadas outros houveram que detiveram o poder por alguns dias ou mesmo algumas horas apenas! De modo geral temos dez ou mesmo nove anos de governo para cada um deles!

O número impressionante de rebeliões e a instabilidade do titular imperial de modo algum se explica caso admitamos que toda aquela sociedade encarasse o Imperador como um representante de deus ou como alguém comissionado por ele. Admitida como premissa que tal concepção estivesse generalizada naquela Sociedade, o vultoso número de sedições levadas a cabo pelos súditos com relativo sucesso tornar-se-iam enigmáticas e a História ganharia mais um 'mistério' ocioso.

Outro aspecto que temos de considerar é que apenas muito raramente foram tais rebeliões reprimidas com máximo rigor, a exemplo da sedição de Nika, quando Justiniano mandou Belisário massacrar os rebelados presos no estádio. Via de regra os todo poderosos imperadores acovardavam-se e negociavam com os sediciosos. Outra atitude atípica numa realidade autocrática de que temos exemplo na 'Noite de S Bartolomeu' e no 'Outubro vermelho'... Reis conscientes de sua autoridade divina e poderes não negociam, supliciam.

Nem podemos ignorar que mesmo após o advento da reforma protestante, as decapitações de Maria Stuart, Carlos I e ainda de Luis XVI e Maria Antonieta foram impactantes, chocando grande parte da população europeia. A propósito de Carlos I consta que quando sua cabeça foi separada do corpo a multidão gemeu como um só homem exarando um grito aterrador. Não poucos embeberam lenços em seu 'sangue azul' como já haviam feito quando M Stuart fora executada, e guardaram aqueles lenços como 'sinais dos tempos' ou como amuletos.

No imaginário europeu ocidental dos séculos XVI, XVII e XVIII a simples ideia de depor um rei ungido soava como essencialmente pecaminosa, pelo simples fato de teóricos como Tiago I, Hobbes, Bodin e Bossuet dentre outros terem forjado a doutrina do absolutismo, corrente já a gerações. Porque aquela sociedade estava imbuída de sentido absolutista tal gênero de execuções era por assim dizer insólito ou aterrador.

Já no Império Bizantino os reis não era apenas depostos aos gritos de 'anaxios' ou 'desenterrem seus ossos' mas mutilados pela plebe enfurecida, tendo suas orelhas e narizes cortados e olhos vazados, quando não eram eternamente sepultados em mosteiros como Prinkipo, e davam-se por felizes. Diante disto como dar por estabelecido que tais pessoas encaravam os Imperadores como pessoas escolhidas por deus?

Todos estes problemas assaz conhecidos tem sido sucessivamente 'ignorados' pelos bizantinistas tradicionais completamente cegados pelo espectro do cesaro papismo e da autocracia.

Os críticos de Kaldellis tem se dado por satisfeitos com o replicar que inexiste qualquer testemunho escrito ou evidência documental em torno de uma Constituição Bizantina de caráter misto que admitisse a par da forma monárquica elementos democráticos ou mesmo aristocráticos. Como se pudesse a realidade ser dobrada por documentos... Porque se não haviam registros oficiais ou pactos haviam certamente costumes e costumes gregos, e cultura helênica ancestral.

Não penso que em qualquer momento o Imperador tenha sequer cogitado em reconhecer tais costumes ou em oficializar tal tipo de cultura, mas que ela estava ali presente fomentando sucessivas rebeliões e produzindo instabilidade estava. Comparado com os padrões de governo anteriores, seja o assírio ou o romano, foi o governo bizantino infinitamente mais maleável e mais humano. No entanto, nem por isso gozou de mais estabilidade do que os cruéis impérios que o precederam e conheceu por assim dizer a turbulência. Agora a que se deveu isto?

Chegados até onde chegamos acreditamos estar capacitados para responder a esta pergunta asseverando que apesar da forma monárquica, de modo algum imposta pelo Catolicismo, mas legada pelo Império romano, o setor Oriental ou grego do Império jamais rompeu por completo com as tradições democráticas legadas pela Hélade. As formas haviam sido atenuadas ou negadas desde Alexandre e ao cabo do Império romano ocidental, o espírito democrático no entanto permaneceu vivo naquelas consciências e naquela cultura levando parte daquela Sociedade a questionar um modelo cada vez mais estreito de monarquia e a conflitar com ele.

Então o que temos em bizâncio é um eterno estado de tensão em torno de dois polos equidistantes: Uma estrutura monárquica de tendências absolutistas legada pelo Império romano, sobreposta a uma Sociedade cuja consciência ao menos em parte sentia nostalgia de suas liberdades políticas ou do liberalismo ancestral. Desta acomodação ou justaposição muito mal acabada resultaram as centenas de sedições e rebeliões bem como o esgotamento e o fim daquela Sociedade. Eram elementos díspares, que ao cabo de alguns séculos, haviam de desagregar-se.

Assim a conclusão a que chegamos é que o espírito democrático e algumas formas democráticas jamais desapareceram por completo do contesto cultural europeu, resistindo inclusive as invasões árabe e teutônica e a sucessivas conflagrações até reafirmarem-se na Europa Ocidental do século XIII e serem engolidos pela maré absolutista do século XVI. O que nos aponta para uma solução de continuidade, embora nem sempre consciente. Esses ideais e formas podem ter saído da consciência mais jamais foram eliminados totalmente no plano da cultura. Assim alimentados pelo Cristianismo e suas instituições tornaram a florescer por algum tempo e depois a declinar... Assim a democracia não foi totalmente extraída por eruditos e teólogos modernos aos livros antigos. Antes corresponde a um espírito vital jamais removido de nossas mentes desde os tempos de Clistenes.