Mostrando postagens com marcador sociedade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sociedade. Mostrar todas as postagens

sábado, 4 de fevereiro de 2023

Considerações em torno do que seja Sociedade.




Vez por outra, de quando em quando, costumo ler algum 'manuel', digo, Manual de Sociologia - Também leio os de Filosofia, de Psicologia ou de Pedagogia > E há alguns muito bons (Guido de Rugiero, Jaspers, Thonard... Th Ribot, Wundt... Herbart, Comenius, Backheuser, etc). 

Por hora estou lendo "El hombre y la gente" de Ortega Y Gasset - Revista de Ocidente, Madrid, 1958, juntamente com a edição das Epístolas de Caio Cecílio Segundo, o 'Plínio' Jovem ou Jovem Plínio - Estranha mistura ao que parece... Se bem que não da para confundir o escritor latino com o humanista espanhol. 

Todos sabem que considero Gasset um dos nomes mais representativos em termos de genialidade, juntamente com Freud, Adler, Darwin, Weber, Malthus, Sorel, Decrolly, Hitchcock, Valéry, Horney e Goodall. 

Quem quiser adicione o nome de Marx. Sua crítica foi positiva mas, penso eu, sua construção positiva ou 'solução' de muito pouco valor, e o comunismo se nos parece tão desastrado quanto o capitalismo.

Outros desejarão adicionar um Einstein ou um Fermi, aos quais de fato não faltou genialidade.

No entanto, confessadamente socrático, penso ser patético ou até calamitoso, o caniço pensante explorar o universo - Das partículas elementares as grandes estrelas, passando pelo fundo dos oceanos. - sem conhecer suficientemente a si próprio ou explorar a mente que dita nosso comportamento e tudo comanda.

Sim, em tempos de Ética, de crise e de suicídio comum (Em termos de espécie.) temos que questionar absolutamente tudo, inclusive a prioridade em termos de conhecimento.

Pois controlar a força contida nas partículas sem comandar a si mesmo pode ser algo bastante perigoso.

Tal reflexão foi que me fez por optar pelas Humanidades e não pelas ciências exatas ou pela técnica, tão queridas a ideologia positivistas e tão lucrativas. 

Necessário registra-lo. 

Pois em nossa cultura degenerada quem opta por ganhar menos traduzindo clássicos como as Antiguidades romanas de Dionísio de Halicarnasso ou a História geral de Diodoro Sículo, ao invés de tornar-se físico ou químico, i é partidor de moléculas ou analista de substâncias é tido em conta de inepto, incapaz ou imbecil.

Chega de divagação e prolixidade, como dizia minha saudosa mestra Isamar Alcover do Amaral Loureiro> Sr Domingos, o sr é prolixo e tão prolixo como Rui - Quem me derá ser a metade ou um quarto de um Rui... Mas tornemos a Gasset, nosso Ortega.

Antes porém devo dizer que já havia lido, e há um bom tempo, A unidade social, de P A Silvestre, São Paulo, 1956, obra atualmente bastante rara sobre a percepção social em Tomás de Aquino e, por ext. nos escolásticos e contratualistas.

Curiosamente Gasset define o associacionismo com precisão: "... Que assim fosse mera combinação ou resultado de outras realidades, como os corpos são 'na realidade' mais do que combinações de moléculas e estas de átomos." p 22 a qual, substituindo-se moléculas e átomos por tecidos e células, teria sido absoluta.

Importa saber que o ilustre pensador espanhol após definir avalia: "Se como sempre se tem crido... é a Sociedade uma criação dos individuos... que se congregam e portanto se não é ela mais que uma associação, a Sociedade não tem própria e autêntica realidade e não precisamos de uma Sociologia." p 22

E foi um pensador genial, um Ortega Y Gasset, quem o disse, como que copiando trivialidade repetida nos manuéis ou manuais de Sociologia. 

Achei digno de nota ou reflexão a assertiva do Ortega.

Afinal nossos corpos são agregados de células e tecidos. O que não os priva de existência real.

Curioso isso - Que aquela treva chamada positivismo tenha produzido há um tempo introduzido materialismo mecanicista no campo da Psicologia e Metafísica muito mal feita no campo da Sociologia. 

Mais - Agregado sim, agregado e agregação. Nem por isso uma célula sozinha se converte em tecido ou corpo, menos ainda o corpo ou o tecido numa única célula. Pois de modo algum a existência do agregado basta para confundir o agregado com o todo e vice versa... A simples existência particular da célula no conjunto do tecido não a transforma a célula particular em tecido e vice versa.

Sucede porém que a simples união da célula em tecido, órgão ou corpo confere a cada um desses agregados novas propriedades, as quais não se encontram presentes em cada célula separada mas comente nos agregados: Tecido, órgão e corpo. E conforme o tipo ou forma de união assume diferentes formas é natural que cada forma possua propriedades diversas - Assim que o corpo possua propriedades que não se acham presentes no órgão ou no tecido. 

Naturalmente que há algumas propriedades comuns a todo fenômeno vivo. Como certamente há propriedades diversas na célula, no tecido, no órgão e no corpo - Pois unidade não significa identidade. Por isso dizemos que o agregado tecido difere da unidade particular célula na medida em que apresenta atributos ou propriedades diversas. Pois só pode apresentar propriedades novas e diversas na medida em que sua estrutura difere da unidade particular.

Observe que toda essa comparação estabelecida pelos positivistas em torno de fenômenos biológicos está totalmente equivocada.

Pois o considerar o corpo humano em sua totalidade como agregado de agregados - Cujo elemento mínimo seria a célula! - não reverte a Biologia, a medicina ou a realidade em citologia. Um corpo mais desenvolvido olha, ouve e fala. O corpo ouve, fala, olha, pensa, etc por meio dos tecidos e células. Há tecido apto para ativar a audição. Posso dizer no entanto que esse tecido ouve ou que células olhem ou falem - Mesmo quando pertencentes a tecidos relacionados com a visão ou a fala posso eu dizer que tais células enxergam ou falam...  O caso é que as células não possuem sistema nervoso central... E nossos corpos o possuem... E pensam...

Percebe como sendo formado por células ou sendo um agregado de tecidos o corpo não é irredutível a células ou tecido, por possuir outras propriedades e corresponder a uma estrutura diversa. Como a medicina - a Mesma medicina que reconhece ser um corpo um agregado de células é irredutível a mera citologia...

Diante disto, o quanto podemos afirmar é que a Sociedade, a modo do corpo físico, não é uma fusão de células ou pessoas, e portanto algo essencialmente diverso dos agentes que a compõem. 

Agora se não estamos diante de um novo ente ou fenômeno, produzido por fusão, só nos resta concluir que ligação entre as pessoas, a modo da ligação entre as células, se dá por conexão ou contato. 

Essa percepção é importante porque nos impede de imaginar a Sociedade como algo a parte dos agentes que a compõem ou como um organismo essencialmente distinto deles. 

E no entanto ela, a Sociedade ou melhor as diversas Sociedades, da mais elementar a mais difusa, apresentam propriedades que não se encontram nos agentes.

Impõem-se aqui outra pergunta ou questionamento, muito comum nos compêndios de Sociologia.

A qual é posta nos seguintes termos.

Se a Sociedade ou as Sociedades apresentam propriedades com que não nos deparamos nos agentes que a compõem é justamente porque a natureza do agente e da Sociedade são distintas. 

Claro que há alguma diferença entre os agentes e a Sociedade.

Será no entanto uma diferença essencial ou ontológica, no sentido de que a Sociedade seja algo totalmente diversa dos agentes ou alguma outra coisa ou apenas um estado diverso apresentado pelos agentes.

Teríamos assim o indivíduo hipoteticamente isolado do corpo social ou num Estado pré social (Quiçá ante histórico ou primitivo!) - Veremos que o homem não social, em qualquer momento histórico, é uma ilusão - e o humano em Estado social tal como o conhecemos. 

Ocioso dizer que o 'social' precede a própria existência do fenômeno humano. Porquanto nossa espécie aparece já num contexto social ou num contexto social pré humano legado por outras espécies de primatas. 

Jamais houve Homo ou Homo Sapiens a parte de uma organização social, exceto se confundamos, maliciosamente, a Sociedade com o Estado.

O homem de Rousseau, bem se vê, é um ser imaginário, se, como se pensa ou crê, postulou a existência de indivíduos isolados ou separados uns dos outros antes de um contrato que tenha dado origem ao grupo social mais primário. Rousseau só cessa de ser perfeito idiota caso consideremos que seu contrato da origem ao Estado ou a Sociedade política...

Podemos portanto supor ou presumir que a questão sequer toque a forma ou a estrutura do conjunto ou grupo social mas apenas AO MODO E EXTENSÃO DO CONVÍVIO: As Sociedades apresentam propriedades diversas entre si e ausentes no 'indivíduo' conforme o contato seja mais íntimo ou mais extenso. 

Então não temos porque imaginar uma transformação essencial.

Nem por isso fica a Sociedade sendo irrelevante e menos ainda a Sociologia, pelo simples fato de que apresenta propriedades com as quais não nos deparamos nos humanos que tentam, em certa medida, viver a parte delas. 

A conclusão aqui já foi antecipada pelos sociologistas de Comte e também de Durkheim, este por sinal um homem de grande mérito. Tinham esses autores - Sobretudo o segundo em sua acirrada polêmica travada com Gabriel Tarde.- receio de que caso a Sociedade não formasse um ser essencialmente diverso dos seres que a compõem, reverteria a algum tipo de Psicologia, marcadamente em Psicologia social. E esse temor, mais ou menos fundamentado no século XIX, refletiu em toda essa construção, no sentido de afirmar-se que a Sociedade constituía um organismo totalmente a parte de seus agentes pessoais. 

Bom bater nessa tecla, sobre os estragos feitos pela Ideologia positivista no campo dos conhecimentos humanos ou das humanidades - Cujo valor científico e objetivo contínua sendo negado por seus janízaros até nossos dias > Mais de século após a morte de Wilhelm Dilthey (Esse gigante do Espírito!!!). O epílogo dessa invasão da psicologia pela Ideologia materialista (Sob o termo de positivismo ou ciência.) foi essa pasmaceira chamada Behaviorismo > De Watson e Skinner até G Roth  e o queridinho dos ateístas (Dalkins, Denett, etc) S Pinker. 

Certo é que a destruição ou negação da mente equivale a destruição ou suicídio da Psicologia, pela simples negação de seu objeto de estudos, que é a mente (cf Fechner, Wundt, etc). Caindo a psicologia nos domínios da Biologia e revertendo a Psiquiatria. Pois tudo no Behaviorismo conduz a Psiquiatrismo...

Outro o caso dos sociologistas, os quais sempre temeram que admitido qualquer nível de influência da pessoa não diretamente associada na 'engrenagem' social ou como se queira, nos fatos ou fenômenos sociais, ficava comprometida a própria Sociologia. 

E no entanto essa mesma pessoa capaz de interagir com o construto social e de altera-lo é ela mesma, grande parte, resultado de interações sociais e um ente social e não um indivíduo isolado, porquanto a existência de um indivíduo isolado, que nada deva ao grupo social, é um ente abstrato e ilusório. 

Perceba-se o óbvio - A Sociedade ou o grupo social plasma a condição de todos os seres humanos e todo ser humano é em parte resultado de interações sociais diretas e indiretas. Por outro lado algumas pessoas, satisfazendo certas condições sociais dadas e externas a sim, são capazes de alterar essas condições ou de interferir na dinâmica social. E é justamente essa intervenção ativa de alguns humanos que altera as estruturas sociais, as quais doutra forma sendo externas, formais e mecânicas seriam fixas, constantes e irreformáveis - A exemplo das reações físicas e químicas. A Sociedade se transforma justamente porque não é engrenagem fechada e impermeável a ação humana.

Por mais que atribuamos esta ou aquela propriedade específica aos diversos grupos sociais seria absurdo admitir que os grupos sociais possam alterar a própria dinâmica ou transformar a si mesmos, impondo novos sentidos, a parte dos agentes que lhes conferem existência. 

A Psicologia social caberá investigar o quanto o fenômeno humano recebe do corpo social. A Sociologia Pessoal como e em que condições um agente humano qualquer é capaz de alterar a dinâmica social e a Sociologia examinar as propriedades dos grupos ou fatos sociais em si mesmos bem como a estrutura dos grupos citados.

Tais as reflexões que me foram suscitadas pela leitura de Ortega Y Gasset.





sexta-feira, 16 de julho de 2021

As conquistas sociais do Bolsonarismo.


Enganam-se redondamente os que julgam que o Bolsonarismo nada fez crescer em nosso país.

Pois fez crescer:

# O índice do desmatamento e da degradação ambiental.

# O avanço da poluição e dos transtornos climáticos.

# O número de animais ameaçados de extinção.

# O grau de pobreza ou miserabilidade.

# As taxas de água e luz.

# O nível do desemprego.

# A inflação ou subida de preços, inclusive dos gêneros de primeira necessidade.

# O número de mendigos e sem teto.

# O grau de inabilidade quanto ao aparelho público de saúde - Demonstrado inclusive pelo manejo da epidemia do coronavírus. 

# O número de mortos por Covid.

# O índice da repressão a imprensa.

# A produção de fake news.

# O índice de violência policial.

# O índice dos crimes passionais.

# O índice de violência contra a criança.

# O índice de violência contra a mulher.

# O índice de violência contra os homossexuais. 

# O índice de violência e intolerância religiosa contra as minorias.

# O grau do negacionismo científico.

# O conteúdo ideológico da administração pública brasileira.

# A ignorância, já crônica entre as massas.

# O nível da corrupção que hipocritamente costuma denunciar e atribuir aos outros.

# A má reputação de nosso país em todo mundo civilizado.

# O número de militares na administração pública brasileira.

# Os lucros e consequentemente a fortuna dos pastores parasitas. 

# O número de ministros crentelhos.

# Os privilégios dos grandes empresários e multimilionários.

# Conjurações  e marchas anti democráticas.

# Crises institucionais.

# Ataques ao STF.

# Os insultos e baixarias advindos do Palácio do Planalto.

# Passeios de motocicleta.


"Contra fatos não há argumentos."



quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Por que 'Ela só pensa naquilo...' - O propósito de Damares Alves e da Continência...

Não me julgo fanático, exceto pela liberdade.

Compreendo assim que livremente assumida a continência sexual ou o celibato, representem valores dignos de respeito. Assim se alguém gerencia ou controla sua sexualidade sem tornar-se neurótico ou por ter um propósito/sentido mais elevado, quem sou eu para critica-lo? Nem posso deixar de encarar o que chamam de sexismo i é a super valorização da dimensão sexual como algo negativo. Quando afirmamos que a sexualidade não deve ser satanizada/negativizada mas encarada com naturalidade não queremos dizer com isto apresentar o sexo como supremo valor da vida humana ou a sexualidade como seu aspecto mais importante. Para nós a sexualidade, mesmo quando encarada com naturalidade, sempre será parte da vida, não a vida. Nós não assumimos a posição de um Marquês de Sade, deplora-mo-la, tanto quanto deploramos o maniqueísmo. Uma coisa é o corpo ser aceito, outra negado e outra idolatrado... fugimos aos extremos.

No entanto, enquanto parte, defendemos uma sexualidade livre e isenta de pre conceitos.

E quanto a continência ou ao gerenciamento da vida sexualidade, encara-mo-lo como possível valor apenas quando livremente assumido pelo sujeito a partir de suas conclusões, i é, apenas quando é significativo para ele e jamais como algo imposto por alguém ou mesmo pela sociedade.

Como fator formativo da personalidade humana a dimensão sexual da vida deve ser considerada com todo cuidado e certamente ser gerenciada pelo sujeito. Claro que no setor familiar da Sociedade serão oferecidos ou mesmo impostos certos tipos de conduta como desejáveis, isto a guiza de educação. Desde que não haja excessos, como a agressão, temos um fenômeno normal. Certamente que a partir daí podem resultar seríssimos problemas. Tal no entanto é o curso da vida, ao menos em seus primeiros passos. Agradeça a natureza ou a Providência aquele que teve a sorte de obter pais ou educadores amorosos, liberais e pacientes. Os demais só tem a chorar...

No entanto para além da infância e da adolescência, é normal e justo que o homem adulto, na posse de sua liberdade, reconsidere os princípios e valores recebidos, mormente quando lhe parecem já sufocantes, já tacanhos; e quando produziram em si determinados problemas ou patologias psíquicas, assim traumas, bloqueios, fobias... Pois tudo isto e muito mais pode produzir uma sexualidade artificial, reprimida ou excessivamente limitada. Então é justo que, apesar das ameaças dos padres arrogantes ou dos pastores imbecis, a pessoa se reavalie e reconstrua a si próprio, questionando a educação sexual que recebeu.

Normal que os pais controlem - até certo ponto e apenas com determinados meios - a sexualidade dos filhos e não trataremos mais disto. Parece um direito ou uma necessidade natural, mesmo quando sofra os mais terríveis abusos por parte de pais neuróticos.

Agora por que raios aspiram os padres e pastores (No tempo presente estes antes de todos)- Por vezes os reis, presidentes, generais e patrões... gerenciar a sexualidade alheia?

Já disse que sexo é poder e que o exercício da sexualidade implica relações de poder, mais talvez que de afeto... Controlar a dimensão sexual do outro é controlar o outro, é domina-lo, é dispor dele. Quando alguém dispõem do poder de uma Nefer Nefer de 'O egipcio' (Mika Waltari), de uma Dalila, de uma Lais, de uma Gruchenca... estebelece-se a relação senhor/servo, uma escravidão. A dependência afetivo/sexual pode ter a força de correntes e cadeias, advertem o padre e o pastor, partindo da fina psicologia do antigo testamento, cujo fundo talvez reconheça a grande força ou o grande poder da líbido sobre o sexo masculino. Não vou entrar aqui nos termos da relação Homem, Mulher e Líbido ou dependência -

Sucede porém que a mesma relação por assim dizer 'se reproduz' sempre que outrem, seja padre ou pastor, passa a direcionar a sexualidade alheia. Também aqui, por meio de uma continência ou de uma abstinência imposta (Na qual muitas vezes não se vê o mínimo sentido.) por uma autoridade externa, estabelece-se uma relação de dominação e poder, mesmo porque, quem admite ser guiado externamente quanto a própria sexualidade dificilmente estabelecerá limites ou fronteiras quanto a qualquer tipo de controle externo, concedendo em ser dirigido por completo i é quanto a todos os setores da vida. Uma pessoa dominada por outra quanto a todos os setores da vida, tendo abdicado de sua liberdade, converteu-se num boneco ou numa marionete.

Voluntariamente assumido por uma pessoa adulta a Continência ou o Celibato podem ser libertadores  e contribuir no sentido de constuir-se uma personalidade heroica, no pleno sentido da palavra. Já dissemos: Controlar, dominar ou gerenciar a concupiscência ou pulsão (Impulso) sexual, transferindo esta energia para outro setor qualquer da vida e escapando a neurose, é quase uma obra divina.

Abdicar artificialmente da sexualidade por imposição externa, além de ser a porta de entrada da neurose e da insanidade, pode estabelecer uma relação desigual de poder e assim dar vezo a um controle moral, econômico, social e político. Generais, técnicos de futebol, demagogos politiqueiros, patrões ambiciosos, etc sucedem cada vez mais ao charlatão ou déspota religioso, buscando impor a transferência de energia, e obter um time ou exército vitorioso ou uma maior produção de bens...

Felizmente patrões, técnicos, ideólogos, etc não dispõem do mesmo poder que os padres e pastores ou dos meios de um General. E o atleta, o proletário, o afiliado e mesmo o soldado (Fora da caserna) sempre poderão farrear e burlar ou mentir. Os líderes religiosos apenas podem possuir a alma e o coração do homem, mesmo quando o ameaçam com os míticos fogos do inferno... e é aqui que o controle obtém sucesso e se torna absoluto. Caso o lider decrete: Vocês, meus fiéis, transarão ou farão sexo assim e assado (Estabelecendo um roteiro ou receita em nome de Cristo), a situação esta decidida e aqueles que concordam sinceramente convertem-se em matéria plástica... como cera quente.

Nem se trata de chegar ao celibato ou a abstinência provisória absoluta. Basta que as formas sexuais sejam dadas ou definidas por outrem no sentido de permitido e não permitido. Admitido este tipo de moralidade temos o controle. Talvez por isto o Verbo Jesus praticamente não revindicou autoridade sobre a sexualidade humana ou apresentou seu Evangelho como um Kama Sutra, dum Deuteronômio ou de um Sahi (Hadith), recusando-se a fazer o jogo dos oportunistas e ambiciosos e confiando no poder da verdade. Quando leio o Evangelho, buscando mostras de controle sexual e falhando em encontra-lo, não poucas vezes consolida-se minha fé na Divindade deste Jesus que tem tão pouco em comum com os manipuladores de homens e demagogos.

Tornando ao tema em questão, depreende-se do quanto foi escrito e do fato segundo o qual, não possui a sociedade política sólidos e profundos conhecimentos psicológicos a respeito da personalidade humana, a ponto de, tal e como os pais e responsáveis, gerenciar a sexualidade alheia ou mesmo educa-la, impondo qualquer tipo de padrão comum ou coletivo. Os pais exercem tal gerenciamento por necessidade absoluta, dentro dos limites de seus lares. E cada lar assume um tipo de olhar, lei ou padrão distinto, não cabendo a sociedade ou ao poder político selecionar ou padrão ou julgar o tema. Mormente quando devem estes jovens obter a autonomia, fugindo inclusive a autoridade paternal. De modo algum poderia o Estado assumir este caráter paternal ou paternalista - a menos que o velho Filmer estivesse correto rsrsrsrsrs - apresentando-se como cuidador de um rebanho de adultos, aos quais pelo contrário convém dirigir todos os assuntos do Estado, desde que principiem por obter a autonomia que os caracteriza como pessoas humanas e não como vil rebanho de alimárias!

Alias a simples ideia implícita no projeto do Estado anti liberal brasileiro educar sexualmente os jovens, sugerindo-lhe modelos de conduta, já pressupõem a intenção de gerenciar e uniformizar e assim de dominar o futuro cidadão, convertendo-o em simples tutelado, impedindo-o de atingir a autonomia e consequentemente frustrando os ideais liberais e democráticos. É uma refinada e oculta forma de controle e opressão imposta por um governo híbrido ou amorfo, parte militarista e parte economicista liberal, inspirado nos modelos irracionais e sectários importados dos EUA.

O espectro do maniqueísmo estatólatra - Satanizando a dimensão sexual da vida...



Resultado de imagem para john stuart mill


É necessário fechar as portas do totalitarismo... Tranca-las, trava-las com ferrolhos de aço, com os ferrolhos do liberalismo, não do econômico e dúbio é claro, mas, com os ferrolhos dos liberalismos saudáveis, do Liberalismo moral, do Liberalismo social e do Liberalismo Político, guardiões de nossa civilização, ou do que ainda resta dela.

Neste sentido toda e qualquer brecha ou fissura deve ser imediatamente denunciada e execrada, por mais inocente que pareça ser. Toda grade inundação ou avalanche começa com uma pequena rachadura ou com uma pequena pedrinha... a qual se vai abrindo, ou rolando, e tudo arrastando em seu percalço e semeando morte e destruição. Tudo no entanto começou com uma gotícula quase invisível ou com um pedacinho de cristal.

Como o menino da fábula há que se por o dedo no furo e ali ficar. Para salvar o dique ou a represa. Não podemos deixar de perceber o desprendimento da pedrinha, e de gritar - Alerta, alerta!!!

É sintomático e doentio que todas as atuais e indevidas intromissões do poder público ou do Estado nas vidas dos cidadãos e em nichos que devem ser regulados pela Liberdade pessoal (Como a moralidade) partam sempre daqueles que condenam as mesmas intromissões no campo divino ou sagrado da economia (Economicistas)... Aspiram estes senhores - demagogos ou fariseus - emancipar as atividades econômicas (Inclusive face a certas exigências ÉTICAS) as custas de outros setores da atividade humana, como a política, a moralidade, etc Até podemos avançar e declarar que boa parte dos liberais economicistas são, concomitantemente autoritários em política (E favoráveis a sistemas ditatoriais ou despóticos desde que canonizem suas opiniões econômicas), puritanos ou moralistas e não poucas vezes fanáticos e intolerantes em matéria de religião.

Engana-se redondamente aquele que faz dos liberalismos um embrulho ou pacote só. Pois as aspirações do Liberalismo econômico são totalitárias e absorventes. Já declaramos um bilhão de vezes - Há um terrível conflito entre os Liberalismos e o pivô é o liberalismo econômico - Prática falaciosa que aspira afirmar-se as custas dos demais liberalismos (essenciais) sacrificando-os.

Este conflito, facilmente negado - Pelos oportunistas do pacote - faz-se cada vez mais patente em todo nosso mundo ocidental, dos EUA ao Brasil, onde vemos os capitalistas unidos e associados não apenas a ditadores, déspotas, tiranos, militarizantes, autoritários e golpistas, mas também a massas e líderes religiosos fundamentalistas, cuja suprema aspiração é criar ou recriar estruturas repressoras e moralizantes nos moldes da Torá ou da Sharia e a partir delas dominar, oprimir e escravizar mentalmente os homens livres, privando-os de sua autonomia. Compreende-se que a religião, através da vida Ética, seja INDIRETAMENTE totalizante - nos princípios e valores éticos que afirma e propõem para seus seguidores. E nisto vemos um bem. Outra coisa é ser totalitária e aspirar servir-se do Estado com o sórdido objetivo de impor uma uniformidade moral, pautada em preconceitos absurdos. Monstruoso é o Estado, por meio dos falsos liberais (economicistas), que dele se apossaram por meio de uma estrutura democrática meramente formal, aproximarem-se deste setor obscurantista.

No passado acreditava-se que os liberalismos essenciais cairiam sob os golpes do Comunismo, do Fascismo ou do Nazismo... Ora percebemos que vacila sob os golpes do fundamentalismo religioso ou sectário (Sempre resistente ao éthos ou a orientação LIBERAL, essencial a vida democrática e fundamento seu), cada vez mais alimentado e apoiado pelos economicistas traidores do liberalismo, os quais querem um Estado mínimo ou policial apenas em termos econômicos ou de propriedade. Desde que possam 'Comprar e vender' - O termo pejorativo é de Confúcio - pouco se lhes dá que as massas ou o povo como um todo seja entregue como rebanho ou gado nas garras dos líderes religiosos sem consciência... Pouco se lhes dá que a Torá ou o Corão prevaleçam política e socialmente desde que se mantenham ricos ou em posse do poder.

A suprema ameaça enfrentada pelos liberalismos essenciais e por toda civilização ou seu projeto é esta sútil aliança entre o banqueiro, o deputado/presidente e o pastor, i é entre o poder econômico (Em posse do político ou no controle) e esta fermentação sectária que demanda por uma estrutura teocrática e, consequentemente, por uma sharia ou inquisição destinada a eliminar os dissidentes e a extinguir as diferenças, até uniformizar moralmente o homem, convertido já em escravo...

O objetivo agora - Pasme cidadão!!! - é queimar dinheiro público favorecendo um determinado ideal - Particular, jamais público! - de éthos sexual: A abstinência ou melhor a continência. Nada de novo debaixo do sol... Parte considerável da igreja romana sempre foi favorável a tal tipo de solução, mas, apenas uma parte ainda menor ou mínima, arvorou-se em dirigir os governos anteriores, tendo em vista esta finalidade. Em geral a igreja romana - fazendo uso de um direito que é seu - limitava-se a orientar seus fiéis quanto a esfera da vida pessoal. O que ora assistimos, trinta ou vinte anos depois, é a atitude concreta de apossar-se do poder público e de volta-lo para uma finalidade que a própria igreja romana, há mais de trinta ou quarenta anos, reconheceu como pessoal. É algo voltado para os partidários de tal e tal agremiação religiosa, não para os cidadãos como um todo. Uma vez que as concepções e valores sexuais são distintos e todos merecem - do ponto de vista social - a mesma tolerância.

Se não cabe a esfera da religião impor tais valores e tais práticas no contesto de uma Sociedade pluralista, menos ainda ao Estado pode caber tais aspirações!!! Não cabe a uma dada seita ou grupo religioso julgar uma sociedade política pluralista. Como não cabe ao poder político faze-lo, arvorando-se em juiz de moralidades distintas. Foi o governo constituído para velar pelo bem comum ou pela dimensão do comum, assim pelos imperativos da ÉTICA, pela interação e conduta social, etc não para interferir na dimensão privada das vidas de seus cidadãos. Sem que disto deixe de resultar a mesma confusão entre o público e o privado que alimentou - A não muito tempo - a prática anti liberal e anti democrática da censura e pouco antes dela as inquisições e autos de fé.

Penso e julgo que os cidadãos livres deveriam fazer algo de concreto face a tal abuso. Pleiteando junto aos meios jurídicos, últimos guardiães dos princípios e valores liberais... O que a cidadã Damares esta planejando nada é além de mais uma investida - A última foi contra a agremiação artística Porta dos fundos - urdida pelos fundamentalistas e fanáticos religiosos (Em geral bíblicos, calvinistas e pentecostais - Sempre com o apoio e imbecis úteis pertencentes as igrejas Ortodoxa e romana.). São eles os principais promotores desta nova Cruzada puritana ou moralizante bem a gosto dos E U A.

Aprovado esse tido de campanha não tardarão os moralizantes (Exportados pelo Sul dos E U A) a
avançar e ditar 'regras' a fala, ao vestuário, ao cardápio, etc até chegarmos ao modelo da Genebra de Calvino, o qual sempre pretenderam impor a sua pátria de origem - Sem que jamais obtivessem completo sucesso. Admitida uma intervenção esses urubus jamais recuarão, pararão ou se darão por satisfeitos. Até lançarem toda Torá pela guela desta infeliz república, convertendo-a em Califado bíblico protestante. Começarão, a princípio, idealizando outras tantas campanhas com o dinheiro público - Isto com o objetivo de criar entre nós (Ou de consolidar) uma consciência puritana ou moralista tanto mais agressiva. Serão campanha contra o Palavrão, a Masturbação, a Homo afetividade, as roupas curtas ou imorais, determinadas músicas ou danças até chegarem a abstinência de álcool, exatamente como nos E U A...  Em seguida eles tentarão impor tais costumes ou pontos de vista e opiniões por meio da lei.

Consiste isto em utilizar do erário com o objetivo de construir ou alimentar determinada consciência IDEOLÓGICA. Levado a cabo, hipocritamente, por um governo que se diz descomprometido ou não ideológico, apenas por não ser comunista rsrsrsrsrs Como se fosse o Comunismo a única Ideologia da face da terra... Enquanto o governo fiscaliza ou finge fiscalizar, arbitrariamente, uma única janela, entram ideologias muito piores (Inspiradas no Sagrado!!!) pela porta escancarada de um Estado muito pouco liberal.

Foi um ministro do STF que recentemente proferiu esta alocução imortal (Se bem que constante num autor como John Gray - Apud Anatomia): Estamos assistindo a uma manobra maligna, a construção de um Estado democrático não liberal ou anti liberal. Noutras palavras: Ao invés de avançar e construir uma democracia cada vez mais real e proativa como na Antiga Grécia, estamos implementando aquele modelo defeituoso de Rousseau (apud Nisbet), apenas uma casca ou carcaça de democracia, uma mera estrutura externa (Sem vida) ou formalismo. Um tipo de democracia como este, destinado a impor a vontade de algum grupo majoritário e a extinguir a liberdade não é democracia, apenas tirania exercida pela maioria, e em detrimento de direitos fundamentais.

Num momento crucial como este só me pode ocorrer e vir a mente uma figura.

A figura exponencial de um J S Mill. Espectro hoje - Para quem tem a felicidade de conhecer - mais ameaçador do que o de um Marx ou o de um Proudhon, quando penso Mill, penso Freud, Malthus, Peter Singer, Marcuse, Nearing... E alguns outros rebeldes seletos. Imaginem só, face a mística irresponsável e destrutiva de um capitalismo - C ujas aspirações parecem ser infinitas o valor de um conceito tão racional quanto "Economia estacionária". Foi cunhado por J S Mill há século e meio. No entanto Mill soube ir além e levar seus princípios as derradeiras consequências. Por isso Gray (Opus cit.) ousou declarar que ele aceitaria com absoluta naturalidade tanto a prática da Eutanásia quanto a da Homoafetividade como decorrências lógicas e necessárias de sua doutrina sobre a liberdade, alias, a que tem dado suporte a nossa cultura democrática e vivificado nossas instituições marcadas por guerras fratricidas, pogrons, golpes, censuras e inquisições.

A figura soturna e patética da Sra Damares oponho este colosso do pensamento humano chamado J S Mill. Isto numa Era preocupante, em que as massas tupiniquins principiam confundir Mill ou Ellul com Marx, liberalismo político ou policracia com Comunismo (rsrsrsrs). Alias para eles tudo é comunismo é os pastores ineptos só avançam graças ao espantalho do Comunismo, o qual falseiam e distorcem, apenas para apresentarem-se como nossos defensores...



Imagem relacionada

terça-feira, 23 de outubro de 2018

As mutações da Comunidade...



Imagem relacionada


Algumas Reflexões sobre Formas de comunidade, Sociedade política, Apogeu, Declínio, Crise, Anomia, Anarquia, Despotismo, Totalitarismo, Democracia, Liberalismo político, etc tomadas as diversos autores.



Muito se tem discutido em torno do termo 'político', o qual a bem da verdade, numa perspectiva mais estrita ou policrática, deveria acoplar-se ao termo 'sociedade'. Todavia é certo que o político e o social movimentaram-se separadamente por muito, muito tempo. Sempre que isto aconteceu o político ou permaneceu apenas em potência ou degradou-se. E a comunidade permaneceu militar - apesar do apelo político - ou tornou-se econômica, deixando de captar a intensidade do político. A Piccarolo e R Nisbet

Precisamente por isso - dando que o político e o social andaram separados por um bom tempo - aqueles que definem a ação política enquanto relações de poder, encaram tanto a monarquia quanto a aristocracia como entidades políticas, no sentido já explicitado, duma estrutura política que não se identifica plenamente com o que chamamos sociedade. Claro que essa política, feita a chicote e espada não pode ser a boa política, mas uma política de segunda classe ou categoria.

A política só adquire qualidade e se torna consciente de si mesma quando se faz democrática ou quando o discurso e a argumentação substituem a espada, enfim quando se busca livremente o consenso ao invés de estabelecer um acordo formal por meio da coerção externa.

Portanto, se num sentido 'lato' temos de considerar a monarquia e a aristocracia como formas políticas, num sentido mais estrito ou purista apenas a democracia o é - e quando dizemos democracia queremos dizer democracia verdadeira: Inclusiva, liberal e direta (inclusiva e liberal por nós e direta pelos gregos rsrsrs) - pelo simples fato de apenas ela comportar cidadania.

Monarcas e aristocratas tem súditos i é pessoas que aceitam submeter-se a um poder externo a si e portanto imposto. Na forma policrática o cidadão identifica-se com o governante manipulando ele mesmo, diretamente, o poder. É ele um co governante com os demais cidadãos membros do corpo social. Daí a identificação - Governo/Sociedade. É exatamente este aspecto que torna a vida democrática intensamente rica em comparação com as formas precedentes, que ressentem a militarismo, a autoritarismo, a coerção, a imposição, a arbitrariedade...

Sabido é de todos ou de quase todos que a Democracia foi criada ou inventada pelo ateniense Clístenes no ano 509 a C, uma data memorável. Claro que não se trata de nossa democracia anglo saxã, obra de John Locke.

O que poucos de nós sabem ou imaginam - e de fato é insólito - é que o conceito de cidadania ou participação política antecede o conceito de pessoa. É a democracia anterior ao que chamamos de liberalismo político. Compreendido como espaço próprio da pessoa ou privado, ou ainda como santuário inviolável da consciência. Já Fustel de Coulanges, na clássica 'Cidade antiga' referia-se a esta verdade. De que nos tempos antigos era a cidade Estado tudo e a pessoa nada... posto que as leis invadiam e regulavam todos os setores da existência humana, de modo que nada tocasse a liberdade ou a autonomia.

Além de exclusiva, no sentido de excluir o escravo, a mulher e o estrangeiro, foi a democracia grega não menos totalitária do que a monarquia ou a aristocracia, e não devemos nutrir ilusões a respeito. 
 
 De fato os gregos conceberam a ideia genial de que polis fosse governada pela totalidade dos cidadãos. O que ele jamais imaginaram é a existência de setores da vida humana que não fossem determinados ou controlados pela polis.

Para as antigas civilizações, anteriores ao advento do Cristianismo, tudo, inclusive a religiosidade, dizia respeito a família ou ao estado, a tradição ou as leis cabendo ao homem amoldar-se. Após ter absorvido a família com suas tradições a polis, por meio da lei escrita, tornou-se senhora absoluta das existências. Um dos primeiros juízos que define e restringe com precisão a esfera e o alcance do político e por ext do social, encontra-se na clássica passagem de Suarez: "O objetivo da sociedade cívil - leia-se estado, poder público, etc - é o BEM COMUM TEMPORAL."

E no entanto estes gregos, que não era tontos, puderam imaginar as decorrências da vida democrática.

Por isso, durante cero tempo, parte dos gregos pôde - ao menos quanto o foro interno da consciência - desprezar as instituições e tradições, inclusive religiosas.

E no entanto esta convenção, que separava a liberdade de pensamento da liberdade de expressão, estava longe de corresponder ao nosso Liberalismo, filho do Cristianismo e do martírio.

Pois jamais grego algum acalentou a possibilidade assumir publicamente suas negações ou ceticismo. Formal ou publicamente eram todos adoradores dos deuses, todos religiosos, todos devotos... E ofereciam sacrifícios! Os gregos mantinham as aparências ou a ficção com firme zelo, sabiam até onde podiam chegar. Um mínimo desvio, com efeito, implicava beber cicuta, ser exilado (assim Aristóteles) ou arrastado a um processo ignominioso (assim Anaxágoras)... Não havia liberdade alguma para ser diferente ou e tinha os filósofos de suportar a canga da hipocrisia.

Portanto, os refinados atenienses jamais imaginaram um setor qualquer da existência separado da polis ou privado. É justamente este setor da existência, setor pessoal ou privado -  fundamentado num direito mais alto ou natural (Lembre-se de Antígona) - que possibilita a qualquer homem apelar ao tribunal interno da consciência face as ambições totalitárias do poder público (Lembre-se de Creonte). Os antigos atenienses não tinham para onde apelar. Nós reconhecemos que a existência corresponde a duas esferas bem distintas, uma privada e regulada pela própria pessoa e outra pública, regulada pelo poder político. E admitimos que cada uma delas seja soberana em sua própria esfera. De maneira que o privado/pessoal não se sobreponha ao público na esfera do político e que o público não invada a esfera privado/pessoal. Os gregos nada conheciam neste sentido.

Assim se Locke concebe uma democracia capenga ou representativa - Inventando um processo por meio do qual o poder é transferido do povo para alguns poucos representantes - ao constatar que os produtores não podiam não podiam participar integralmente da atividade política - como na polis grega - sem causar graves danos a atividade econômica, ou que trabalhando excessivamente não podiam fazer a boa política, Platão opta pela solução radicalmente oposta. E - ao menos quanto aos viligantes - eliminando a família busca atingir a vida privada em seu coração. Desde então o estadista platônico poderá consagrar-se por completo a atividade pública ou política. 

Se o inglês, comprometido com o capitalismo emergente, restringe a esfera da coisa pública, falseando a ordem democrática (Arendt), o grego de ombros largos cogita suprimir a esfera do privado, caindo, é claro, em mais uma utopia, corrigida, posteriormente através das 'Leis', obra do Platão mais maduro e realista.

Bem, chegamos a Platão, e Platão é sempre um tema interessante.

Karl Popper na Sociedade aberta e seus inimigos, divisa em Platão o Patriarca das sociedades fechadas e busca relaciona-lo com o quimérico passado de Atenas. O equívoco salta a vista pelo simples fato da antiga sociedade ateniense ter sido do tipo familiar, enquanto que Platão, como vimos, preconizava uma Sociedade sem famílias. Acerta no entanto ao alista-lo entre os teóricos da sociedade fechada e alias como seu primeiro grande teórico. Alias Platão já foi classificado como fascista, comunista, etc

Que Platão seja decididamente social ou comunal cheira a obviedade. Apesar disto não sei se poderíamos classifica-lo como socialista. Os socialistas assumem a liberdade humana, Platão... Tampouco era ele comunista ou fascista...

Então que era ele???

Era platão totalitário e despótico, assim como os comunistas e fascistas. Nem por isso era comunista ou fascista pelo simples fato de ignorar supinamente o quanto seja característico de tais sistemas. Totalitário e despótico sim, e por isso não poucas vezes odiado... Platão de fato exaspera os liberais e os democratas. Todavia devemos tentar ser justos com ele e buscar compreende-lo, inserindo-o no quadro a que pertence. Pois compreendendo os medos de Platão estaremos aptos para diagnosticar nossa própria época.

E para compreender o homem devemos situa-lo em seu tempo e situa-lo com exatidão.

E que é este Platão senão um testemunho eloquente da decadência de Atenas e de uma democracia em colapso?

De fato se compreendemos que Atenas atingiu seu apogeu ou zênite entre 509 e 429 - assim por cerca de oito décadas - saberemos que Platão nasceu - em 427 - quando ela principiara a morrer... Lavrava a pavorosa guerra do Peloponeso, ganha em 404 pelos espartanos. Os quais impuseram a indômita Atenas 51 tiranos. A princípio Platão acreditou que eles saneariam moral e politicamente sua querida cidade... E no entanto que fizeram eles senão justiçar precisamente aquele que melhor conhecia os problemas em questão? Paradoxalmente aquele Sócrates, que criticando honestamente a democracia, poderia te-la seneado...

De fato todo caminho precorrido por Platão, da morte de Sócrates a sua própria morte foi um caminho em direção a Esparta, não a Atenas da tradição ancestral, mas a militar, belicosa, despótica e totalitária Esparta. Afinal não esmagará ela a brilhante Atenas???

Eis um evento que impactou poderosamente as mentes de todos os gregos, sem falar nos próprios atenienses.

Importa saber que Platão jamais o perdeu de vista...

Quanto a nós, esforce-mo-nos por relacionar a nova ordem policrática com o novo padrão de pensamento, racional.

Já dissemos que imperava a convenção, que as aparências deviam ser mantidas e que nem todas as tradições reconhecidas pela Polis podiam ser formalmente negadas. O equilíbrio social exigia um tal sacrifício ou uma tal restrição.

Resultou disto uma estabilidade bastante precária e posteriormente - após o fim da Idade Média - viemos, nós mesmos, a conhecer semelhante estado.

Mesmo buscando alguns compromissos a razão nem sempre podia abster-se de questionar os mitos e mesmo o surgimento da alegoria ou do simbolismo - que buscava amortece-lo - o choque chegou a ser traumático. Platão ousa clamar contra Homero e Hesíodo, educadores das gerações precedentes... Sócrates tampouco pode admitir que os deuses praticassem imoralidades e acima deles sobrepõem um Ente racional, invisível, ilimitado, etc Entidade a respeito da qual Xenófanes, Anaxágoras, Apolônio e outros já haviam insistido, inconvenientemente...

Após a religiosidade praticamente tudo foi submetido ao crivo da razão e logo, em alguns casos, a experiência. A medicina já havia ensaiado tais passos... Desde então os rios se convertem em fluxos d água e os astros em pedras flutuantes... com grande agravo de Diopeites e das massas populares que clamavam contra tais impiedades. Afinal de contas a identidade social, o sentido de pertencimento, os princípios, os valores, tudo enfim, repousava sobre tais crenças... critica-las era como golpear a raiz de uma árvore... Num determinado momento parte das pessoas sentiram-se desenraizadas, confusas, fragilizadas, desprotegidas, ameaçadas.

Em Atenas, como observamos, este movimento pode assumir uma forma marcadamente política através da democracia e desenvolver-se. Noutras cidades, onde exasperou os monarcas e tiranos, foi violentamente suprimido. Pitágoras queimado vivo em sua Escola, Zenon moído vivo numa mão de pilão, etc Como não existisse um Basileu em Atenas, esta situação de crítica se foi acentuando mais e mais... E os intelectuais se tornando cada vez mais ousados.

Por algum tempo, tempo daquele equilíbrio e são 'realismo' que caracterizam o apogeu de qualquer civilização (Sorokin), a razão e a sobriedade lograram manter-se no controle, alias respeitando a ficção ou tentando substitui-la discretamente.

Em seguida porém, cindiu-se aquela sociedade em dois grupos radicalmente opostos. E a ruptura, seja dito, não partiu dos conservadores ou tradicionais mas dos próprios filósofos ou melhor dizendo, de sua ala mais radical; os sofistas que agora voltavam-se contra o critério comum da razão. E antes que a razão substituiu-se a fé ou a tradição era já solapada por eles...

Agora veja o leitor - De um modo ou de outro lograram a razão e a experiência, inserir-se num espaço até então completamente dominado pela tradição, ensaiando os primeiros passos do pensamento naturalista e do conhecimento científico. Os sofistas no entanto, antecipando Hume e Kant, levaram o processo crítico a razão, que era o elemento comum porque os essencialistas buscavam substituir a superstição e a autoridade. E o resultado disto foi a elaboração de uma teoria subjetivista e relativista, a princípio e, em seguida totalmente cética. Isto num ambiente cujas estruturas eram totalitárias, despóticas e solidárias.

Não 'a humanidade' através do elemento comum da razão, mas o individuo isolado, converteu-se em medida de todas as coisas, produzindo sua verdade parcial, pela qual bem podia pretender guiar-se, e assim matar ou roubar, caso tivesse tais ações em conta de boas... Observe a extensão de um problema que é nosso e que hoje se exprime pela negação de uma Lei Natural, único fundamento plausível de uma Ética objetiva ou universalmente válida, para homens de todos os tempos e lugares.

Foi em oposição a esta maré individualista, subjetivista, relativista e cética que levantou-se a maré conservadora ou reação, tudo engolindo pela frente, inclusive o genial Sócrates, mesmo porque, o grande público ou a massa, alheia aos grandes temas da Filosofia, era incapaz de discernir entre uma corrente e outra. Destarte toda Filosofia, compreendida como sofística, tornou-se ameaçadora. Mesmo sem terem conhecido o liberalismo político, os gregos tiveram uma experiência de liberalismo metafísico extremo (epistemológico e ético) a qual não lhes foi nada agradável, e chegou a aterroriza-los...

Na medida em que o ensinamento dos sofistas era assimilado pelos elementos mais jovens da comunidade o pouco que restava dos laços sociais anteriores a afirmação da comunidade política principiou a dissolver-se muito rapidamente, dando lugar a uma situação de anomia, de anarquia, de caos, de conflito generalizado... face a qual parte significativa da sociedade sentiu-se nostálgica quanto a um passado já em parte idealizado.

De modo geral os atenienses do século IV a C não estavam preparados para testar aquele futuro ou para ver até onde as coisas chegariam... Sabiam intuitivamente que sem religião, fé, Deus, deuses... cada individuo converter-se-ia em padrão absoluto de bem e mal, e deduziram as consequências sociais desde individualismo crasso.

Quanto aos culpados, como já dissemos, foi bastante fácil identifica-los com a Filosofia e a Democracia, cuja relação, aos olhos eles, era bastante nítida. O elemento racional comum a ambas era o elemento por assim dizer corruptor, que envenenará a Sociedade. Não a crítica a razão ou a metafísica... Eles não sabiam distinguir racionalidade de empirismo crasso ou ceticismo...

Assim a anti comunidade de Platão é idealizada em oposição a 'comunidade caótica', anômica ou anárquica dos sofistas (Nisbet) identificada com a comunidade democrática ou como consequência dela.

O remédio aqui era olhar para a polis vitoriosa, Esparta, cidade militarista e fiel a suas tradições, que jamais se deixará desviar pelo fantasma da razão, pai filosofia e da democracia. É nesta perspectiva e em oposição ao veneno instilado pelos sofistas/filósofos que Platão escreve seu clássico. Não é a democracia que ele leva combate, mas a sua forma decadente e corrompida... A qual no entanto, para ele, é consequência dela.

Isto não foge a experiência que ora vivenciamos ou ao choque entre as diversas formas - corruptoras - de individualismo, assim: Relativismo, subjetivismo, ceticismo, anarquismo individualista ou ANCAP, liberalismo econômico, plutocracia, democracia meramente formal ou representativa, etc a um lado, e as soluções totalitárias, como nazismo, fascismo e comunismo a outro... É um dilema bastante parecido.

A Democracia perdeu seu espírito, acomodou-se estrutural ou formalmente, deixou-se dominar por outros setores (não políticos), desvinculou-se do essencialismo ético, deixou-se impregnar pelo individualismo, foi abalada pelo ceticismo, etc, etc, etc Entrando em declínio, o qual ora vivenciamos... Em que pese os arroubos de jacobinismo típicos dos EUA...

O fato é que nossa democracia por descuido educativo ou formativo quanto o espírito, não consolidou-se. Antes, colonizada pelo capitalismo, converteu-se em instrumental do poder econômico e não do bem comum, como queria Aristóteles. Tudo quanto temos hoje é demagogia, plutocracia, oclocracia... não democracia, pois não há cultura democrática, espírito, profundeza. E essa forma instrumental ou espúria é a que tem sido propagada pelo jacobinismo yankee, posto que os N Americanos como os ingleses, não distinguem um liberalismo do outro, tomando liberalismo por uma coisa só.

Destarte tem sido o liberalismo político, que é essencial a vida democrática  - juntamente com o liberalismo religioso e o liberalismo moral - sucessivamente traído pelo liberalismo econômico e sacrificado em seu benefício e já aludimos ao sacrifício primordial quando nos referimos a Locke e ao que Arendt definiu como um esvaziamento do político em benefício do econômico ou ainda do público e comum em benefício do privado.

Não atingimos ou perdemos nosso ponto de equilíbrio. A balança tem pendido decididamente para o individualismo, com as mais terríveis consequências... E os EUA alimentado doentiamente este padrão.

Mas já se pode observar um fenômeno análogo ao observado durante o período entre guerras que é a reação totalitária e despótica ou o renascimento das diversas culturas de morte, como fascismo, comunismo e nazismo, as quais tem entrado em choque entre si, com o anarquismo, com a democracia formal e com as teocracias, disto resultando um clima próximo ao caos - EIS A ATENAS DE PLATÃO... Eis a decadência da cultura democrática e a total perda do equilíbrio... A um lado um materialismo que chega ao ateísmo, ao nihilismo e como já dissemos ao relativismo e a anomia (em termo sociais) e a outro um idealismo - não poucas vezes representado por formas primitivas e obscuras de religiosidade - tão totalitário e despótico quanto o de Platão. O ateísmo/materialismo pela anarquia absoluta e o Idealismo/fideísmo pela repressão e pelo controle absolutos. Uma Era de extremos. Quiçá a sofisticada Atenas do século IV a C tenha vislumbrado este cenário.

Agora, ao tempo de Platão não era, a solução totalitária ou despótica, tão variegada quanto a nossa mas, até certo ponto unitária e portanto tanto mais sedutora. Platão emprestou-lhe as tintas de poeta e moralista, mas não pode ver sua realização.

A um tempo a democracia estalou, veio abaixo e caiu, dando espaço ao Imperialismo de macedônico. Alexandre inspirava as melhores esperanças, pois havia sido aluno de Aristóteles... e Aristóteles, como já dissemos, ao menos quanto a política e suas estruturas não era metafísico mas empirista, realista ou relativista. Tudo quanto ele fazia era associar o ideal de 'bem comum' a determinada estrutura e assim legitima-la. Sob este aspecto era a monarquia tolerável, e até desejável, caso tivéssemos em mira a destruição do império persa. Esperava-se inclusive que Alexandre tivesse assimilado as lições do Filósofo e que inaugura-se uma nova era da ouro. Eram expectativas gerais, que malograram logo após sua morte. Sucedendo-se o inferno dos diadocos e epígonos... E a crise filosófica representada pela afirmação, ainda mais decidida, do ceticismo (cf V Brochard).

Agora como aproxima-se este Platão de Esparta se os tiranos, empossados pelo poder Espartano deram cabo de seu Mestre?

Ao tempo em que Sócrates fora condenado a beber cicuta o equilíbrio entre as facções era precário ou melhor dizendo delicado. Górgias de Leontinum e Protágoras haviam assestado golpes não apenas contra a razão mas também contra a tradição posto que eram uns iconoclastas nihilistas... Por outro lado temos o discípulo ingrato de Sócrates, Alcebíades, fazendo das suas... E sobretudo Aristófanes, que representa o sentir geral, não só ridicularizando os sofistas mas apresentando Sócrates como um deles, o que ele de modo algum era...

Já a entente conservadora precisava obter um bode expiatório e correr com ele da cidade, para dar exemplo. Em geral os Filósofos, uma vez acuados, fugiam... Era necessário fazer um deles fugir e Sócrates, em função das circunstâncias acima descritas, foi o escolhido. Ele no entanto não era o que dele pensavam. Não estava disposto a fugir, não fugiu e por isso mesmo converteu-se em mártir, não da democracia, a qual criticava positivamente, mas do pensamento crítico ou da liberdade de expressão. Ele insistiu muito nisso e podia ter aberto um 'nicho' favorável a pessoa... Disto beneficiariam-se igualmente os radicais. Portanto Sócrates tinha de ser imolado.

Em certo sentido Sócrates foi o único representante do liberalismo pessoal ou político em Atenas. Foi o dissidente, foi a objeção de consciência, foi o elemento discordante e acreditava ser direito seu portar-se assim. Certamente esta irrupção do pensamento liberal numa Atenas que sequer era democrática chocou há muitos e exasperou os ânimos. Sempre podia ser explorada pelos individualistas, anômicos, nihilistas, etc como sói ainda hoje. Mas os atenienses não estavam dispostos a arcar com o ônus social que semelhante exigência implicava.

Ainda hoje, e com plena razão, os extremistas irracionalistas, individualistas, relativistas... que tomam carona no liberalismo político ou moral, produzem escândalo entre os elementos ponderados da Sociedade e mesmo alguns distúrbios isolados. Tentem conceber a sensação que estas remoras ou sanguessugas da democracia produziram nos Atenienses há dois mil e quinhentos anos... Comprometeram e ainda comprometem as instituições democráticas esses extremistas e radicais, pelo que merecem ser ferozmente impugnados no plano das ideias.

Identificado, de um modo ou de outro, com os sofistas e portanto com o mal, foi Sócrates imolado pelo partido da ordem ou conservador. E no entanto era ele o médico... O único que criticando positivamente as falhas da democracia podia ter lhe dado vigor e vida. Pois a democracia precisa justamente de críticas construtivas e seus melhores amigos são aqueles que apontam seus defeitos. Pela que o democrata fanático ou formalista, de ontem ou de hoje recuse-se a percebe-lo.

Ainda aqui genial, Sócrates percebeu o descompasso - e como já dissemos isto é atual - entre uma boa estrutura e a falta de preparo ou de capacidade dos homens que a compõem ou que nela estão inseridos.

Não foi contra a democracia mas a favor de uma aristocracia aberta que Sócrates posicionou-se. De uma aristocracia potencialmente democrática, de uma aristocracia do saber, de uma aristocracia do mérito ou da competência, franqueada a tantos quantos buscassem dignificar-se. 

Sócrates percebeu o óbvio. Percebeu que a democracia demanda preparo por parte dos homens ou dos cidadãos de modo a não transforma-se numa oclocracia. Postulava que os juízes fossem escolhidos, dentre aqueles que conhecessem as leis... Postulava que os generais fossem escolhidos, dentre aqueles que conhecessem a arte da guerra... Postulava que aqueles que tivessem conhecimento a respeito de determinado tema ou assunto fossem levados em consideração pelos demais... Queria trazer qualidade a vida democrática. Suas críticas no entanto foram muito mal compreendidas e os democratas fanáticos jamais o perdoaram...

O próprio Platão pode ter tomado a crítica de seu Mestre noutro sentido. No entanto não há qualquer evidência de que Sócrates fosse tão totalitário ou despótico quanto seu pupilo. Seu liberalismo político coadunas-se mais com a forma democrática. De um modo ou de outro foi Sócrates um democrata lúcido ou crítico, que conhecia os defeitos ou vícios do sistema e buscava elimina-los. Por isso, ainda hoje é ele consumado modelo de polícrata para nós... Que sabemos faltar cultura ou espírito onde sobejam estruturas... prenúncio de morte.

Resta esclarecer que Atenas, quanto o passado, é o que temos mais próximo de nós. Nela podemos observar uma trajetória social bastante parecida com a nossa. Digo das sociedades 'políticas' que tendo ultrapassado o modelo romano, calcado no Digesto, tornaram-se ao menos formalmente democráticas.

Atenas surge, a exemplo das demais cidades, como uma comunidade familiar, que se faz militar e logo democrática com Clístenes, até aproximar-se por fim de algo como um mercado desregulado ou de um liberalismo econômico que sem embargo não se faz pleno. Pois os resíduos familiares, religiosos, militares e políticos o sufocaram; até que esta trajetória foi por assim dizer 'cortada' por Alexandre, seguindo outros rumos.

Atenas não nos segue ou acompanha até o fim embora a sucessão de formas comunitárias porque passou seja a que mais se aproxime da nossa. Por isso o estudo da civilização grega ou ateniense e seus problemas é tão fecundo para nós.

Roma não. Roma é outra coisa.

Associamos Roma a Grécia, porque após sua vitória em Queroneia tornou-se Roma província cultural de Atenas. E isto a ponto de tomar Platão por guia ao descrever o poder Cesáreo. Neste sentido Roma é grega, enquanto platônica no campo da política.

E nossa Renascença foi muito mais romana do que Grega ou ateniense. Aulo Gélio já o havia dito. Roma não manteve o sentido humano da coisa, descambando num eruditismo pedantesco e frio. Assim os humanistas da Renascença.

Roma, a exemplo de Atenas, começa como uma Sociedade familiar ou tradicional e militar na qual aos poucos - i é durante a República - vai se formando uma aristocracia aberta em posse de uns instrumentos semi policráticos quais sejam os plebiscitos e referendos. Tal seu elemento característico ou seu diferencial.

Roma sempre fora militar e jamais deixou de se-lo para tornar-se política.

Admitido que existiu nela uma orientação para a democracia, ao menos num determinado momento de sua trajetória, é necessário reconhecer que ela frustra a si mesma, embota-se e fica sem realizar-se. Roma jamais se tornará democrática. Através do Império Roma retorna ao ideal monárquico em termos ainda mais enfáticos e já foi sugerido (Antonio Piccarolo) que o Imperador associou-se as massas com o objetivo de suplantar aquela aristocracia senatorial que num dado instante fechou-se em si mesma.

Fato é que o impasse entre as aspirações populares e as aspirações acalentadas pela elite senatorial resultou numa pavorosa guerra civil, a qual perdurou por quase um século.

E como durante as revoluções e guerras a parte mais vulnerável é sempre a mais humilde, não nos devemos admirar de que, num determinado momento as camadas populares, fatigadas, se tenham inclinado a paz... Júlio Ceśar e Otaviano, que eram mentalidades genais, captaram muito bem esta situação propícia e buscaram explora-la em favor de si mesmos, colocando-se desde então ao lado do povo e contra o Senado.

Eles também eram lideres militares muito bem sucedidos e até mesmo estimados.

Diante disto o Senado, em situação de isolamento, apelou a ficção, passando a validar tudo quanto desejava o 'Imperador'. O Império nada mais era do que o comando supremo das forças armadas ou do exército e uma instituição belicosa... A paz augusteana foi mais uma paz interna do que externa, embora a paz externa tenha sido imposta pelas circunstâncias, assim pelo desastre de Teutburg, onde Varo perdeu suas legiões. Com Roma jamais entramos na política e jamais saímos da caserna. Assim após sua morte é Augusto divinizado, e quase nos sentimos no antigo Egito... Essa Roma que é a um tempo familiar, religiosa e militar, jamais se torna propriamente política, em termos estritos. Porque jamais se faz democrática.

Importa que todos estavam felizes: Os militares porque vigiavam as fronteiras colossais do Império em troca de soldo, a casta burocrática dos funcionários públicos, a hierarquia religiosa, o povo romano que recebia benefícios ou moedas de ouro e até mesmo o Senado que mantinha uma aparência de autoridade 'respeitada' pelo Imperador... Sendo assim Augusto tinha mesmo de ser canonizado ou divinizado. Era o arquiteto de algo mais ou menos estável trezentos anos após Alexandre. É como se todos estivessem dispostos a pagar pelo fim do conflito com o sacrifício da liberdade e dos direitos, i é com  submissão e este é o grande dilema das democracias formais parasitadas pelo capitalismo ou do estado mínimo o qual nada oferece as massas, o que torna essas democracias desinteressantes para elas e o odiado Comunismo, atrativo...

As liberdades abstratas e utópicas não atraem estômagos vazios ficando esta democracia censitária ou economicista sempre ameaçada pelos totalitarismos, desde que saibam manejar um simples prato de comida. A combinação democracia e miséria não é nada propícia aos valores democráticos.

Assim, se a jurisprudência romana coloca o Imperador acima da lei a redescoberta das Institutas ou do Digesto (Pandectas) durante a baixa Idade Média servirá para justificar ideologicamente o absolutismo ou o direito divino. Ainda aqui foi Roma uma fonte de atraso, estagnação social e inquietação para nós.

E quanto a economia?

Teria a sociedade romana atingido o mesmo grau de desregulamentação que antiga Atenas?

Talvez ao tempo de Augusto ou durante o século I, enquanto o poder Imperial ainda estava sendo construído. Pois desde o século II esse poder se vai ampliando e invadindo todas as esferas da vida humana - inclusive a religiosa, a ponto de conflitar com o Cristianismo nascente - até absorve-las por completo.

Temos assim, ao cabo do século III diversas leis destinadas a regular a atividade econômica. No entanto, por esse tempo, avança já a crise simultaneamente econômica e social, provocada pelo escravismo, pela estagnação territorial e pelo abolicionismo Cristão; dos quais resultou a inflação, o aumento de impostos, etc. O grande problema da economia romana foi o escravismo. A Grécia, de modo geral, não parece ter passado por isso...

A bem da verdade, a impressão que se tem é que na Atenas do século IV a C ou na Grécia antiga o número de pequenos ou médios empreendedores livres sempre foi maior. Assim o número de trabalhadores livres... tradição que parece prolongar-se no Império Cristão Bizantino. É uma hipótese a ser averiguada.

Em Roma temos, ao que parece, a macro empresa formada por um imenso número de escravos sob a tutela de um só homem. E um bando de homens teoricamente livres sustentados pelo imperador ou pelo poder público. Eu até ousaria dizer que Roma faz lembrar o capitalismo de Estado... não fosse a forma escravocrata. Em Atenas as coisas não se dão em tais termos...  

Seja como for, graças ao histórico do Império sabemos que não existe uma ordem fixa ou metafísica de sucessão quanto as formas de comunidade, e que nem sempre as coisas se sucederão como em Atenas.

Quanto a sociedade europeia contemporânea temos a ligeira impressão de que tendo partido de um modelo familiar/militar comum aos germânicos e análogo ao romano, tornou-se político na Inglaterra do século XVIII ou na França pós Revolucionária de 1789 para logo tornar-se econômico e dar lugar a uma terrível crise de cultura e identidade, semelhante aquela vivenciada por Platão. Karl Polanyi Resta dizer que o liberalismo político é uma construção comum, assim como o liberalismo religioso e o liberalismo moral. Há afirmações suas na Espanha, na França, nos EUA, na Inglaterra e mesmo, pasmem, na Rússia Csarista; pelo simples fato de ser um princípio Cristão.

Curiosamente a França revolucionária ou se preferirem jacobina construiu um modelo de democracia despótica - no sentido de que poderia ser imposta externamente a uma determinada sociedade -  análogo ao modelo ateniense ou ainda mais virulento ora assumido pelos EUA. Bem antes do Comunismo e do Anarquismo revolucionário, e do fascismo o jacobinismo desesperou da Educação e da Cultura i é do Espírito, assumindo um deplorável formalismo, inspirado no materialismo crasso.

Posteriormente, foi a mesma visão bizarra de uma democracia imposta por golpe ou oferecida por uma minoria, legada ao positivismo, o qual por sua vez inseriu-a em nosso pais... Onde democracia brota como Atenas da cabeça de Zeus, de um golpe militar, assumindo um viez militarista. Donde resultam todos os nossos problemas, assim os sucessivos golpes reencarnados e avatares ditatorais, filhos de uma democracia mal consolidada, meramente formal, sem espírito, consciência, cultura; numa só palavra - profundidade. Filha do jacobinismo é nossa democracia superficial.

O Comunismo percebeu a incongruência do jacobinismo, manteve o golpe, eliminou a liberdade e jamais compreendeu a dinâmica da cultura... Quanto ao liberalismo é certo que a França promulgou os direitos do homem e do cidadão, mesmo quando concedeu a doutrina da vontade geral uma abrangência tal que dificilmente encontraria apoio nos escritos daquele que a formulou e a ponto de tornar esta vontade totalitária. Numa perspectiva democrática mais direta admitimos que a 'vontade geral' seja internamente soberana em sua esfera - pública ou política  - mas não que seja totalitária, a ponto de imiscuir-se no que diga respeito ao privado... A separação entre o público é o privado é princípio de que não podemos abrir mão, assim o espaço sagrado da pessoa humana face a estatolatria. Ficamos assim entre o totalitarismo estatólatra e o individualismo, condenando veementemente a ambos, pois como declarou o Filósofo: Os extremos sempre se tocam.

Após ruminar tais pensamentos, colhidos neste ou naquele autor - Fustel de Coulanges, Crane Brinton, Hannah Arendt, K Popper, John Gray, R Nisbet, Ortega Y Gasset, P Sorokin, Victor Brochard, Alfred Weber, Antonio Piccarolo, Nicolas Berdiaeff, V G Childe, Harold J Laski, Jacques Maritain, Emanuel Mounier, etc -  entrega-mo-los ao juízo do amigo leitor...



quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Carta a um entusiasta da lusitanidade e das letras portuguesas

I - A circulação da cultura, o cosmopolitismo e a distinção entre a cultura grega e a cultura latina

Trocas ou permutas culturais sempre existiram e são certamente o 'motor' da evolução humana. Por meio destas trocas diversos universos culturais entram em choque e se fazem opções e julgamentos, o que pode ser saudável. Se você adota uma linha de análise racional ou científica, embora isto não seja tudo.

Parece ou deve existir uma espécie de seleção natural da cultura. Nós, homens ou pessoas refinadas precisamos de padrões, princípios e valores para julgar as culturas. O curioso é que estes padrões já fazem parte de uma dada cultura. Penso que haja certa objetividade em algumas culturas e que possam, elas e seus elementos, ser organizados hierarquicamente.

Você mencionou a cultura romana. De fato, não poucos, confundem a cultura grega com a cultura romana. E já foi dito que ao conquistarem os gregos pelas armas foram os romanos conquistados pela cultura grega. Isto é verdade, mas apenas em parte. Uma elite, parte de outra elite bem maior, formada pelos melhores romanos, absorveram o pensamento ou como queiram, a cultura grega em sua puridade. No entanto de modo geral não foi assim e temos de compreender isto muito bem para saber o que é e porque é o nosso mundo.

Sim os latinos tem suas virtudes e dou-os, ou seu temperamento por muito superior ao nórdico ou anglo saxão, de cujo bojo saiu o americanismo que hora nos polui e contamina a todos, não só a nós mas a Europa, ao velho mundo, arrancado de suas tradições, cultura e raízes pela reforma e pelo capitalismo. Os latinos eram práticos e excelentes administradores, tinham certas criatividade técnica que faltava aos gregos e sua arquitetura é até mais bela.


II - Humanismos Grego, Romano e Renascentista - Modelos distintos



No entanto esses mesmos latinos eram mais ou menos toscos e impermeáveis a contemplação do espírito. Interessavam-se mais por jogos do que pelo teatro e mais por espetáculos de gladiadores do que por esportes, a ponto de encarar os gregos como um povo degenerado ou corrupto.

Em termos de humanismo os romanos não assimilaram tudo, e o quanto assimilaram obscureceram. Clássica é a exposição de Aulus Gelio sobre a Humanitas romana, retomada pela renascença, e a Humanitas grega ou helênica. Para os gregos o ideal humanista não se restringia a erudição ou as letras, enfim a nossos belos versos de Virgílio ou Stacio, mas comportava o desejou ou a aspiração de beneficiar todos os seres humanos, inclusive os bárbaros ou de, de algum modo, promover o homem, o humano e de promove-lo integralmente.

Os romanos eram neste sentido mais ou menos semelhantes aos Norte americanos, que tratavam seus escravos com mais dureza do que os nossos. Os gregos até onde nos é dado saber eram mais suaves para com seus escravos. Assim quando as batalhas e combates. Os romanos eram mais agressivos, mais insensíveis e mais violentos do que os gregos. Sem chegarem a ser uns individualistas consumados ou terem consciência ideológica disto, eram indiferentes aos sofrimentos e miséria alheias, ao menos durante o declínio do Império e foi este declínio de uma orientação basicamente egoísta ou hedonista.

Veja nobre Wilson que estes romanos, que este ilustri vir escandalizou-se do Cristianismo nascente e dele mofou justamente devido a seu conteúdo fraternalista ou solidário. Estas nova consciência social, que recordava o socratismo, foi muito mal avaliada pelos senhores da cultura latina. Luciano de Samosata, Fronton, Filostrato, Juliano, Porfírio, Jamblico... qual o teor de suas críticas a nova fé? Que os cristãos assistiam os pobres, os aleijados, os enfermos, os escravos, os encarcerados, etc Então já sabes porque o Nazareno foi cognominado Novo Sócrates ou Sócrates redivivo e não novo Cícero ou novo Terêncio, ou novo Plauto. Para os romanos Humanitas era escrever ou falar bem, amar as artes, brilhar nos salões. Eles esvaziaram e empobreceram o conceito grego retomado por Jesus.

Mas a Renascença, após a I Média, retoma o conceito romano, não o grego. E introduz, a parte de benefícios, como a liberdade, a racionalidade, o pensamento científico... uma certa doze de alienação face ao outro. Lamentavelmente, fora as exceções - como S Tomas Morus - este 'vir' renascentista que temos de admirar e aplaudir já não é homem completo ou perfeito, ao contrário do Santo medieval que embrenha-se no leprosário ou cria hospitais, ele se aparta das multidões sofredoras. Claro que a multidão ou a massa é sempre fastidiosa ao homem culto, mortifica-o e penso que até Jesus foi mortificado pelos apóstolos e pelo povo. Mas ele cumpriu seu dever e é nosso exemplo. O Santo medieval é mais sublime do que nosso 'Vir' porque mesmo não sendo instruído identifica-se e compadece-se. Reteve o bem ou a ética, a melhor parte. O homem renascentista ficou com a casca ou com a aparência, i é com a arte ou a beleza, no máximo com uma verdade 'fria', assumiu um legado dos antigos romanos e não dos gregos ilustres. O Kalokagathos é um homem mais completo...
 
III - Tentativas de síntese, afirmação do protestantismo e do capitalismo e a falsa civilização norte americana.


Por um instante dos admiráveis Jesuítas acenaram com este ideal completo de homem completo ou do Kalokagathos. Assumiram o que havia de eterno e sublime na grande Renascença e associaram a ética Evangélica ou Cristã, afirmando um humanismo Cristão. Passou-se isto em algum momento entre os séculos XVI e XVII. Mas, lamentavelmente, não foram estas sementes que desabrocharam e plasmaram a nova cultura. O estrago estava já feito pela reforma protestante e o mundo protestante ou anglo saxão, movido por um individualismo ideológico e consciente, a caminho da nova ordem capitalista. Aquilo foi o dobre de finados para o projeto Jesuíta e mesmo a 'grande portugalidade' ou a Hispanidade apartaram-se logo dele...

As tendências ancestrais ou romanas que definhavam e poluiam a Renascença foram categoricamente reafirmadas pela pseudo reforma e a própria igreja romana, que já chafurdava no pântano do agostinianismo, assumiu a perspectiva solifideista numa proporção cada vez maior. O espiritualismo descarnado ou idealismo, associados ao individualismo crasso produziram uma outra 'civilização' ou uma anti civilização, americanista e de matriz já protestante, já capitalista. Nesta cultura de morte o anti humanismo converteu-se em lei. Deus não foi substituído pelo homem como sonhavam tantos e tantos e sequer pela razão ou pela ciência, mas pelo que há de mais vulgar e rasteiro: O amor ao dinheiro, o capital, o lucro, pelo que chamam de mercado enfim.

Claro que diante deste novo padrão, mesmo o padrão romano ou lusitano, mostra-se infinitamente superior. Os franceses até certo ponto adotaram o programa Jesuítico. Aspiraram produzir um Cristianismo letrado e brilhante. Parte dos anglo Católicos do outro lado da mancha também. Na Inglaterra após a morte do grande W Laud e na França apesar de S Vicente de Paulo, a insensibilidade e a indiferença; senão o hedonismo é que associaram-se as letras, artes e ciências e já não havia consciência social ou humanidade. Nossos Católicos não se deram conta disto, produziram um monstro e prepararam a Revolução, mesmo com toda sua erudição clássica ou refinamento. E tudo isto já apontava para algo ainda pior e mais feio - A afirmação absoluta do individualismo economicista nos séculos XIX e XX.

É incrível mas mesmo parte das elites educadas pela Igreja, não se puderam manter a parte deste fluxo cultural. Os Católicos racionais, racionalistas ou semi racionalistas foram um refresco caso compare-mo-los aos Católicos 'positivistas' ou mancomunados com o cientificismo. Mas isto não era o pior, pois antes de surgiram os malsinados Católicos comunistas apareceram em cena - ideologicamente porque já eram 'velhos' - os Católicos capitalistas ou liberais economicistas que é o tipo mais escandaloso e irreverente pelo simples fato, de segundo J Maritain, relacionar-se com o solifideísmo protestante. Pois são Católicos que cessaram de investir nos irmãos, na caridade, na assistência social, etc para investir no tal mercado ou católicos que trocaram os irmãos pelas riquezas - Católicos materialistas!!! Avarentos! Idólatras!!! Agora diga-me como o Católico poderia deixar de por seu tesouro nos céus??? E de empenhar todas as suas energias na construção de um mundo melhor, mais justo e fraterno; conforma a ótica e ética do nosso Evangelho.

Tudo isto já prenunciava o triunfo fácil do veneno que nos mata e do mal que nos assola - O americanismo!


IV - Crise e conflito de Civilizações: Nossa herança grega X americanismo


A grande luta do século, do milênio, da Era e da civilização não toca ao latinismo ou mesmo ao lusitanismo e o americanismo; exceto quanto a Portugal e Brasil talvez, mas entre nossas fontes e raízes mais remotas - Nossa herança grega, o humanismo pleno (com Ética da alteridade), a Kalokagathia, a autêntica Arete e a pseudo civilização protestante, capitalista e Norte americana.

Advertência que já editamos diversas vezes: Não existe civilização ou cultura Ocidental. O que é vendido como tal é o projeto Norte americano, culturalmente imperialista é claro. Ele não corresponde nem ao projeto latino, nem ao projeto Cristão/Católico, ao projeto helênico ou a qualquer síntese feita a partir destes elementos. Não corresponde a nossa autêntica e legítima cultura. A Nossas tradições e raízes. A nosso legado ancestral... Mas a um elemento estranho, que introduziu a confusão. Vivemos um conflito de culturas, mais do que um conflito de classes talvez. Crise porque temos uma sobreposição de civilizações e culturas. Crise porque temos um agregado artificial de elementos conflitantes. Crise porque temos vivido um sincretismo irracionalista e tosco.

Temos duas culturas em choque ou conflito e temos de afirmar e de gritas e de divulgar isto. Não vivemos o projeto de Sócrates, Aristóteles, Platão ou Jesus... Através dos meios de transporte e comunicação, valendo-se do poder do dinheiro os Norte americanos tem divulgado um outro projeto e vendido como nosso ou como projeto comum do Ocidente - assim sem anti comunismo boçal... É gato por lebre. Nosso projeto é outro e distinto de ambos. É reacionário em grande parte por ser antigo, mas, paradoxalmente, revolucionário e progressista por opor-se a esta confusão ou a este mistifório a que vende por civilização europeia ou comum.

Que há de Dante, Cervantes, Camões ou Tasso nela??? Nada, absolutamente nada e até a arte foi corrompida e obscurecida por meio da arte psicologista ou moderna, santuário do subjetivismo e do relativismo reinantes, frutos de uma cultura ou de uma civilização deterioradas, assim como o ceticismo. Sem querer ser Spengleriano, tudo em nossa volta fala de crise, ruína, decomposição, morte...Vivemos o ocaso da cultura porque a cultura deteriorou em suas novas formas. O Comunismo leva estes germes de morte adiante... Porta os velhos germes de morte do positivismo e do tecnicismo.


V - Os fundamentos religiosos de nossa Civilização e a crise do 'Catolicismo' Ocidental

Certamente que a portugalidade como a romanidade religiosa, foram superiores ao anglicismo e ao protestantismo. Mas, Roma caiu, assimilou modos protestantes - Doutrinas, princípios e valores protestantes. E não podemos ter a ilusão de fazer algo a partir dela.

Portugal e Brasil, e Espanha, e França, e Itália, do passado foram o que foram graças a Igreja romana. Se você abstrai deste elemento nada se produz em termos de cultura.

Veja que estes povos já se tornam protestantes meu caro! Como não queres que ass
umam uma cultura alienígena e de origem protestante cujos elementos são a democracia indireta ou representativa e o capitalismo ou livre mercado? Como escapar a este Imperialismo cultural ou a artificialidade desta cultura sem algo como a Igreja papalina?

Impossível - It's impossible...

O resto da cultura não se sustenta sem o substrato religioso do qual depende. Não vejo esperança de resgatar a latinidade exatamente como era, a hispanidade ou a lusitanidade. Teremos de fazer outras reelaborações com o material a partir de algo mais antigo e seguro - a Igreja Católica Ortodoxa e o Socratismo/Aristotelismo (nossa herança grega). Temos de produzir outra síntese, como diria Toynbee, e opo-la ao americanismo e seus aparelhos e aparato. Teremos de rezar para que se efetue a Mimesis ou para que esta reelaboração seja aceita pelas elites intelectuais e chegue até as massas perpassando todo corpo social. É um desafio e tanto e por isto devemos estar conscientes dele.

Temos de pugnar pela cultura restabelecendo suas fontes, as quais, ao contrário do que disse K Marx, são religiosas. cf Coulanges, Dawson e Butterfield.


VI - O idioma e a poesia não nos salvarão


As linguas comunicam-se, transformam-se, alteram-se, evoluem, declinam, sofrem influxo de outras linguas e do mesmo modo a cultura. A lingua é como uma casca. Importante manter a norma culta para fazer-se compreender e evitar duvidas e conflitos. Mas a lingua não salvará a cultura. A salvação da cultura exige um elemento estável e o mais estável de todos que é a religião e a religião tradicional, especialmente a que afeta 'imutabilidade'. Ela sempre será o melhor suporte para a cultura e por isso precisamos é debruçar-nos sobre o terreno religioso. E decifrar o Cristo, e compreender o Evangelho, e conhecer sua ética, e encarar a crise da igreja romana, e saber o que significa protestantismo, e precisar quando e porque a crise começou. Isto é fazer diagnóstico.

Nem as armas e munições, nem a lingua, nem mesmo o Estado e as leis, produzem a cultura que lhes da suporte. Volte-se para o fenômeno religioso e a esfinge soltará a lingua e lhe falará e quem sabe você poderá fazer algo de grandioso e imortal pela pobre humanidade, assim como Paulo, Fócio, Aquino, Mohler, etc


segunda-feira, 23 de julho de 2018

Ravachol, Sante Casério... e a propaganda pelo fato.

Resultado de imagem para ravachol








Qual o preço a ser pago por ser justo?

Não sei...

Vai de um 'deslike' no mundo contemporâneo ou a um xingamento a cicuta que o grande ateniense teve de tragar.

É que hoje já não nos podem fazer tragar cicuta ou ameaçar com a corda fazendo correr a Calcis ou ao país mais próximo.

De alguns dizem que foram queimados vivos, como Pitágoras ou Moídos vivos num pilão gigantesco como Zeno.

Quanto aquele que disse 'Ai de vós que juntais casa a casa e somais campo a campo' dizem ter sido serrado ao meio por ordem do ímpio Manassés.

Carneades teve a sorte de apenas ter sido expulso da cidade eterna por Catão. Epicteto teve a perna quebrada, antes de ser exilado por decreto imperial. Petrônio o 'árbitro da elegância' teve de suportar os 'grunhidos' de Nero e Sêneca de abrir as veias. Helvídio Prisco foi mandado matar por Vespasiano.

S João Crisóstomo teve de morrer no exílio, S Máximo teve a lingua e o braço cortados, S Atanásio, S Hilário e muitos outros amargaram o exílio em terra estrangeira.

Conecto foi lançado as chamas. Edeline e De Lure foram encarcerados. Vieira processado pela Inquisição.

St Just, Robespierre e o próprio Babeuf supliciados.

Uma multidão de Católicos sociais, os filhos mais esmerados da Igreja, insultados e descritos como comunistas pelos traidores. D Lefevre e o abbe Georger de Nantes perseguidos incansavelmente pelos pedreiros livres. Emmanuel Mounier e Jacques Maritain caluniados pela ralé.

Também Kropotkin e Tolstoi, Ghandi e Thoureau, Blum e Nearing, dentre muitos outros, tiveram de conhecer as privações do cárcere, assim Hérzen, assim Lavrov... Chaplin teve de abandonar o EUA, que dizem ser a terra da liberdade!!!

Vargas foi assassinado da mesma maneira como Gabriel Garcia Moreno.

E sucessivamente os justos tem sofrido nas mãos do paganismo, do judaísmo, do papismo, do protestantismo, do capitalismo, do absolutismo régio, do comunismo, do nazismo, do fascismo e de todas estas culturas de morte abomináveis. Socráticos, Católicos, Policratas, Anarco socialistas e outros tantos amigos do homem tem sido sucessivamente oprimidos e suprimidos por terem ousado alça a voz em defesa da verdade.

Aqueles que se postam intransigentemente, ao lado da justiça e sem consideração de ideologias tornam-se odiosos!

Aqueles que afrontam os preconceitos sancionados pelo senso comum tornam-se detestáveis.

Aqueles que levantam-se contra a mediocridade dominante atraem numerosos desafetos.

Diante disto que fazer?

Calar-se e compactuar face quanto esteja errado ou afrontar?

Seguidores daquele que morreu suspenso no alto do calvário temos por imperiosa e imperativa a segunda opção!

No entanto por uma questão de prudência e para não dar ocasião de escândalo aos mais débeis queremos deixar bem claro qual seja nosso pensamento sobre a 'propaganda pelo ato' ou pela 'propaganda pelo fato' levada a cabo pelos bakuninistas radicais no último quarto do século XIX.

Sabemos muito bem quem foi o patife Nechyaev e quais foram suas relações com Bakunin, intelectualmente falando o menos afortunado ou mesmo pigmeu dos anarquistas. Face a Proudhon e Kropotkin Bakunin é para lá de medíocre...

Para nós a 'propaganda pelo fato' corresponde a algo de monstruoso, abominável, grosseiro e inadmissível sob qualquer pretexto ou alegação. Coisa de gente bárbara, cruel, vil e desumana; quando sã.

Afinal nós não pertencemos ao grupo daqueles que colocam a verdade ou a ideologia, seja ela qual for, acima da vida humana. Nós situamos a vida humana acima da verdade. E por isso não acreditamos que matar seja uma forma ou uma maneira de lutar pela verdade. Admitimos que a violência e a morte sejam justificadas face a opressão, a dominação, a miséria, a injustiça... Acreditamos que os homens possam reagir face a situações sociais de injustiça. Acreditamos na violência defensiva ou na guerra justa, mas de modo algum que se deva matar pela verdade ou em nome da verdade. A verdade é algo que se decide por meio da persuasão ou seja através de evidência e argumentação e não através de bombas, fuzis ou baionetas.

A menos que alguém, capaz de defender-se, opte por morrer por seus ideais ou que se auto sacrifique, é a verdade manchada. Honorifica-a o verdadeiro martírio, dos fortes. Polui-a o assassinato, o derramamento de sangue, a carniçaria, a matança... Matar será sempre matar, jamais defender a verdade. Assassinar será sempre assassinar, jamais promover o conhecimento. Educar jamais será sinônimo de ensanguentar.

Por isso condenamos a propaganda pelo fato da mesma forma que condenamos o terrorismo promovido pelos adeptos do califado; e antes de condena-los despresa-mo-los como o substrato mais baixo da ralé. Como bárbaros, rudes, grosseiros e inimigos da civilização. Não compactuamos com nada disto, e quem ousar declarar-nos partidários de tais recursos seja tido em conta de vil caluniador e mentiroso.

No entanto uma coisa é condenarmos o método empregado por Ravachol e seus companheiros, assim Vaillant e Sante Casério e outra condenarmos a eles como se não passassem de vis criminosos, sádicos, cruéis, etc sem quaisquer conexão com a sociedade em que viviam. De fato adotaram meios inadequados, no entanto nem por isso deixam de ser produtos do tempo ou da sociedade em que viveram ou melhor homens que sentiram todo peso dessa sociedade e não foram capazes de suporta-lo.

Não adianta dizer que havia algo de errado com Emilé Henry ou com Meunier. É da-los como seres a parte da Sociedade, da Sociedade que eles arrenegavam. Então o que temos de analisar, caso queiramos ser justos é se, em que pesem os meios de ação inaceitáveis a que recorreram, tinham lá alguma razão no sentido de repudiar aquele tipo ou padrão de sociedade. Não se trata de absolver a eles, mas de condena-los e absolver aquela sociedade; isto é que nos parece problemático. Alias a ideia que se passa é que eram homens maus ou cruéis em luta contra uma sociedade paradisíaca ou no mínimo aceitável aos olhos da criatura racional.

E já começamos dizendo que aqueles homens, condenados por terem agido equivocadamente, eram filhos de uma Sociedade condenável, cujos métodos ou recursos condenáveis reproduziam. Apenas não eram hipócritas e dissimulados como aqueles que matavam em nome do poder, do dinheiro ou do que chamam de ordem e eram condecorados quando não homenageados com uma herma em alguma praça...

Ravachol e Vaillant, franceses, viveram nas décadas de 60, 70 e 80 do décimo nono século e eram ambos de famílias paupérrimas ou miseráveis. Na França, do século XIX, nem havia algo semelhante a 'poor law' inglesa, nem havia mais um S Vicente de Paulo. De fato a Revolução francesa foi mais imprevidente do que a Coroa Inglesa ao cabo do décimo sexto século. Pois se esta abandonou os pobre por meio século, a contar da extinção dos mosteiros em 1838 a aprovação da primeira 'poor law' em 1898, aquela deixou-os completamente abandonados até a criação das primeiras leis trabalhistas, criadas de 1892 a 1900 e consolidadas em 1938. Portanto o estado francês, marcadamente liberal,, após ter usurpado parte dos bens eclesiásticos - a exemplo da reforma protestante - e secularizado as abadias e mosteiros, abandonou os pobres por mais de século e eles ficaram completamente, totalmente desamparados... A igreja, a seu tempo, envenenada pelo incredulidade e assolada pelo terror, tornou-se absolutamente dócil, na França do décimo nono século. Apenas os Católicos sociais, como Ozanam, lutavam arduamente no sentido de mudar tal situação. Eram no entanto poucos... E as condições políticas inadequadas.

Desde a Revolução, em que pese o Catolicismo social, podemos falar de um significativo vácuo, quanto ao socorro aos pobres, a promoção humana e a proteção do trabalho. Não menos que na vizinha Inglaterra, vigorava um liberalismo sufocante. Mas os ingleses, ao menos durante algum tempo, contaram com a ação social metodista, responsável inclusive, segundo alguns teóricos, por ter espantado o espectro da Revolução... A França, cética e em parte secularizada não contava com algo semelhante. Sua situação era dramática, digo a situação dos pobres, dos trabalhadores, dos camponeses e das classes superiores, os quais levavam uma existência miserável.

Tanto Ravachol quanto Vaillant referem-se amiúde não apenas as situações de fome porque passaram, mas o que é ainda mais dramático, as situações de fome porque passaram seus pais ou irmãos mais jovens sem que tivessem uma mísera códea de pão duro com que forrar o estomago. Mas há quem ache tudo isto comum, aceitável ou até mesmo belo; enquanto a mesma época um único banquete oficial com que as autoridades constituídas recebiam uma autoridade estrangeira consumia uma soma capaz de manter dezenas de milhares de famílias pobres por anos a fio... Tais banquetes, aquele tempo constituíam a prioridade orçamentaria, juntamente com as armas e munições destinadas a reprimir e massacrar os possíveis insurretos, que não se conformassem com tão indigna situação. Eram umas reuniões idílicas e aprazíveis em que algumas centenas de fidalgos degustavam canapês de caviar, trufas, salmão, foie gras, faisão, vinho do porto, etc enquanto milhões passavam dias inteiros com as barrigas vazias, inclusive crianças! Um estado policial, cujo único fim era manter a força semelhante condição, a que chamavam ordem...

Ordem na França do século XIX significava que, segundo o nascimento, uns tinham de conformar-se com pão amanhecido - quando havia - enquanto outros podiam consumir toda sorte de iguarias finas e delicadas, cujo valor bastaria para matar a fome daqueles... E quando morriam eram os nababos sepultados com suas joias de ouro e pedrarias. Carcaças putrefatas eram enterradas com joias cujo valor seria capaz de matar a fome de um vilarejo inteiro por anos a fio. Um só daqueles anéis bastariam para levar pão as bicas de centenas de crianças famintas. Mas... preferiam encerra-lo com uma cadáver num caixão apenas para mostrar 'status'... Então avalie o que era semelhante sociedade! Banquete para uns e agonia para outros, segundo o nascimento, não segundo a inteligência ou o mérito, os quais pouco contavam, exceto quando ornavam uns bajuladores sem caráter.

Segundo Max Nordau - nas 'Mentiras convencionais' - (De man alude a isto) a grande diferença entre os banquetes oferecidos pela França republicana e os não menos faustosos banquetes oferecidos por um Calígula, um Nero ou um Domiciano - capazes de consumir as rendas anuais de uma única Província imperial! - era que estes não apareciam nas primeiras páginas de revistas ou jornais. De fato aquele tempo as comunicações eram bastante precárias, de modo que tais excessos apenas por ouvir dizer chegavam aos ouvidos das massas, jamais aos olhos e com viva cor. A partir de um determinado momento a imprensa pos-se a ostentar ou a por debaixo dos olhos desta plebe ignara o faustoso banquete degustado por nossas elites, tornando-os assaz conhecidos do grande público. E semelhante ostentação da fortuna ao lado da miśeria ou da fome tinha mesmo de despertar a indignação e a repulsa de muitos.

Não era apenas questão de gula ou fome, de excesso ou privação, de riqueza ou miséria, mas acima de tudo de ostentação. A sem cerimônia com que esses ricos esbanjavam o que facilmente ganhavam foi logo interpretada como um tapa na cara. Nós não apenas exploramos o pobre e o fazemos passar fome, não é suficiente - Humilha-mo-lo e tiramos sarro dele. Foi esse tipo de humor negro, já presente na fábula dos 'brioches' de M Antonieta, que exasperou os mais inteligentes e sensíveis dentre os pobres tornando sua miséria ainda mais dolorosa ou internalizando-a.

Além do mais, as pesquisas nos fazem saber que a fome enlouquece. Eu mesmo testemunhei como um de nossos assistidos - pessoa demasiado tímida para revindicar qualquer coisa - quase surtou durante o período em que ficamos doentes e não pudemos socorre-lo. Veja o senhor o que é a fome! Imagine então ter de dormir sabendo que sua mãe passa fome por ter dividido a única fatia de pão com os pequenos, que os pequemos talvez não tenham leite no dia seguinte ou que a sua irmã menos tenha de vender o que chamavam 'pureza' em troca de alguns pobres para ajudar nas despesas da casa... Tais as situações porque passaram Vaillant, Ravachol, bem como o italiano Casério.

Dickens nada inventou do quanto escreveu. Descreveu com fidelidade a crônica de seu tempo, a 'idade de ouro' do liberalismo econômico...

Mas perguntará nossa 'cinderela' ou nossa 'branca de neve': Por que tais homens não trabalhavam ou deixavam-se imolar, como outros tantos, pelo deus mercado??? Havia aquele tempo, mais do que hoje, um colossal exército de reserva composto por desempregados. De modo que conseguir emprego não era tão simples ou fácil quanto se pensa. Tanto pior nas Vilas espalhadas pelos campos em que o trabalho era sazonal. Havia com que viver durante o tempo da semeadura e da colheita, no entanto, durante o resto do ano... Sim, sempre se podia executar alguma coisa ou algum servicinho mas a remuneração era irrisória, ínfima... e o preço dos gêneros, elevadíssimo.

Parece inacreditável ao homem de hoje mas cenas como as que atualmente só se sucedem nos confins da Etiópia ou que ocorreram na Ucrânia do Holodomor, repetiam-se anualmente nos cantões da França caso a colheita sofresse alguma alteração imprevista e o valor dos alimentos subisse. Dezenas de pessoas morriam de inanição... Sem que o Estado fizesse qualquer coisa. O governo policial nada fazia além de recorrer as baionetas e reprimir os insurretos. Por que vocês acham que o anarquismo mais virulento fez sua primeira aparição na França, identificando o estado como o mal absoluto ou metafísico??? Por que durante quase um século, o estado francês inspirado por uma ideologia econômica liberal, omitiu-se por completo face ao problema da inanição, disto resultando a morte de muitos... Para não mencionarmos a fome, a miséria, o trabalho; que eram outros tantos problemas.

De fato viver naquela França 'doce' apenas para uns poucos privilegiados era literalmente enlouquecedor. De modo que Ravachol, Vaillant e outros tantos acabaram surtando e colocando em prática a solução inconsequente formulada por Nechyaev. Exasperados puzeram-se a estourar bombas aqui e ali julgando que exerciam vingança contra aquele estado imoral, insensível e cruel. E se bem que, via de regra, explodissem apenas espaços frequentados pela alta burguesia debochada, sabiam que corriam os risco de ferir ou matar os inocentes que por necessidade ali trabalhavam. Tampouco pararam para considerar a condição peculiar das crianças, dos alienados mentais ou dos idosos, para eles todos os que pertenciam ao 'meio burguês' eram igualmente culpados e como disse Emilé Henry não havia inocentes no seio da burguesia. O marxismo, visando ser mais humano, deu a entender que também o burguês ou ao menos alguns deles, podiam ser vítimas da alienação... Estes jovens aterrorizados no entanto, compreenderam que todos os burgueses eram insensíveis, sádicos, cruéis e culpados face ao calvário percorrido pela gente simples.

Seja como for fica difícil entender de que modo explodir um bebê burguês torna-se revolucionário. Me parece mais um ato irrefletido, face da revolta e da insanidade produzidas pela fome. Trata-se antes de tudo de um ato de sadismo, mas de um sadismo produzido no seio de uma sociedade sádica, por uma sociedade em que todos, inclusive os que protestam contra ela, acham-se anestesiados. Tal o sadismo dos que sepultam seus queridos com tesouros, bem como daqueles que devoram diariamente salmão, pernil, caviar... sabendo que seus irmãos não tem o que comer! De fato o sadismo assume diversas formas... Como cobrir-se com um vestido de seda, tafetá, chamalote, rendas, laços, fitas e pedrarias... com que se poderia saciar a fome de milhares de bocas. Não, não se trata numa insensibilidade ou duma frieza presentes apenas nos anarquistas ou terroristas, mas de uma insensibilidade difusa, socialmente partilhada e que num determinado momento voltou-se contra a própria sociedade.

Antes de julgar tais homens ou tais criminosos - que tenho em conta de mentalmente instáveis ou afetados e aos quais certamente absolveria - acho que devemos procurar conhecer melhor a Sociedade em que viveram e julga-la. Nem preciso dizer que tais homens eram vítimas da Sociedade. Que uma sociedade individualista e egoísta faça vítimas é uma obviedade...  Contento-me por dizer que faziam parte daquela sociedade e que eram expressão dela, não algo a parte... Eu tive honestidade suficiente para ler os depoimentos deixados por estes homens e sacar algumas conclusões. Diferentemente de Paul Adam não direi que tais homens fossem mártires ou santos - embora Ravachol tenha jurado jamais tornar a roubar galinhas de uns pobre camponeses magricelas para dar de comer a irmã menor - mas tampouco direi que eram uns alienígenas ou mesmo uns celerados sem coração. Tudo quando direi é que eram homens de seu tempo e de seu lugar, e que aquele tempo e aquele lugar certamente não eram muito bons.

Pronto falei ou melhor escrevi e aguardo já pelas pedradas, afinal o -

"Diga a verdade e saia correndo." ainda parece ser a regra vigente...

Enfim estamos diante de homens descristianizados, membro de uma sociedade descristianizada ou o que é ainda mais chocante, de uma Cristandade aparente. Pois como pode o Cristão, o Cristão Católico, permanecer acomodado e indiferente face ao irmão que passa por privação e fome??? Como pode o Católico encarar a fome, num ambiente em que a produção de alimentos é suficiente para saciar a todos, como algo aceitável ou comum??? Admitido isto, só posso dizer que há algo de muito estranho ou de muito errado com este Catolicismo e que não se parece nem um pouco com o Catolicismo dos Apóstolos, de Justino, Clemente, Ambrósio, Astério, Basílio, Crisóstomo, etc