Mostrando postagens com marcador Acúmulo de bens. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Acúmulo de bens. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Meira Penna e sua opção preferencial pelos ricos a barra do Evangelho ou Evangelho e riqueza.

Inicio este artigo reproduzindo o que havia já escrito em meu 'Manual de Ética Cristã Ortodoxa': Se com relação a seus mistérios ou os dogmas da fé, foi Jesus enfático e terminante, esgotando necessariamente o assunto e prendendo-nos a literalidade de suas palavras - Sem que possamos fazer inferências ou especulações... quanto a moralidade, forneceu-nos apenas alguns princípios genéricos, sumários e elementares ou seja, alguns fundamentos éticos, a partir dos quais devemos aduzir, por meio de especulações e inferências, as soluções para quaisquer casos futuros. 

Isto porque é a moralidade dinâmica. 

Pelo simples fato de sempre toparmos com novos questionamentos ou problemas causados pelas novas circunstâncias i é pelas mudanças sociais ou pelo avanço geral da técnica. Como Deus Onisciente - Senhor do Tempo e da eternidade. - bem poderia, nosso Jesus, ter escrito ele mesmo uma enciclopédia elencando todos esses problemas que iriam surgir e oferecendo as melhores soluções.

Não foi o que ele fez ou quis fazer - Optando por oferecer alguns princípios bastante sumários as nossas consciências. De modo que através do princípio operatório das razão, possamos sacar as consequência. 

Tais as questões em torno, por exemplo, do fumo, do transplante de órgãos, da fertilização in vitro, do racismo, e de diversos aspectos do capitalismo, tais como: A proteção ao trabalho, o salário, os meios de produção, etc Quanto a estes últimos tópicos, partindo da tradição, do Evangelho e mesmo da Filosofia clássica a igreja romana formulou um corpo de doutrina social face ao qual a Ortodoxia, de modo geral, nada pode objetar mas que, pelo contrário, deve validar.

Seguindo esta linha, buscaremos examinar os principais textos evangélicos alusivos a riqueza e a partir deles confrontar o apologista brasileiro Meira Penna, principal defensor do éthos capitalista em nosso país.

Para tanto devemos examinar em primeiro lugar a questão da Propriedade e seu status face a fé Cristã.

É isto de suma necessidade para que os materialistas ocultos ou não assumidos não aleguem que estamos nós condenando toda posse ou propriedade como legítima, tal qual os anarquistas e comunistas - Pois não é este nosso ponto de vista. 

Com efeito, se a um lado, não podemos subscrever a tese de Proudhon, segundo a qual todo tipo de propriedade corresponde a um roubo, tampouco podemos deifica-la, associando-a a Deus, como fazem os proprietaristas desorientados. Nem divina, quanto a sua totalidade, e tampouco sinônimo de roubo.


Então o que...

Reconhecem os Cristãos a propriedade pessoal (O local em que alguém reside com sua família ou que é usado por uma dada família.) enquanto fruto do trabalho honesto, como algo sagrado, firmado numa Lei natural.

Portanto é, esse tipo de propriedade (Pessoal\laboral). legítima e inalienável. Caindo, todo aquele que dela toma posse por meio da força, sob a condenação inexorável do mandamento divino: Não roubarás e portanto pecando gravemente. Do que temos exemplo já no testamento velho quanto a vinha de Nabot, sancionando esse registro com uma chancela Cristã, posto que contém tal sentido.

Portanto não caí sob a proteção da Lei divina aquele excedente de propriedade que não é habitado ou usado (Como espaço laboral) pelo 'proprierário' e menos ainda o que foi desonesta e pecaminosamente adquirido por quaisquer meios ilícitos. Podendo ela, em todos esses casos, ser expropriada pelo legislador sem maiores preocupações.

Outro o caso dos monopólios ou corporações (Grandes indústrias) que detém meios de produções. Tampouco estes caem sob a proteção da Lei divina, sendo sua expropriação questão alheia a religião ou ao Evangelho, a qual, consequentemente, deve ser avaliada e decidida pelo grupo social em questão tendo em vista o Bem comum. 

Até aqui a propriedade.

Passamos agora a examinar a questão da riqueza ou do acumulo de coisas materiais face ao Evangelho ou as puras palavras de Cristo nosso Deus. 

Todavia convém que antes de iniciar esse exame consideremos que para nós Cristãos, nicenos, atanasianos, Católicos, Apostólicos, Ortodoxos, crentes, submissos e reverentes é Jesus Cristo Deus encarnado e verdadeiro Deus Onisciente, Legislador Todo Poderoso, Mestre infalível, Instrutor perfeito, etc, etc, etc Pelo que, conhecido o teor de suas palavras, não é lícito debater com ele, argumentar, levantar 'razões', etc Nós pura e simplesmente recebemos ou aceitamos os decretos de Jesus Cristo como indiscutíveis e inapeláveis. Por fim nós repudiamos o Livre exame ou a mania de atribuir um sentido arbitrário (Interpretar) como irreverente, e avaliamos essa estratégia ou tática subjetivista como uma fuga do Evangelho.

Então o que...

Examinamos as acepções literais do texto grego e nos conformamos com o sentido, para em seguida sacar as conclusões.

Comecemos então pelo emblemático texto da corda ou camelo (Os fariseus e escribas daquele tempo diziam 'elefante') - o que dá no mesmo pois nem elefante, nem camelo e tampouco corda podem passar pelo fundo de uma agulha. De fato os apóstolos compreenderam perfeitamente a mensagem, e replicaram: Sendo assim, quem se salvará... Posto que na perspectiva da natureza tais palavras implicam impossibilidade irredutível. 

Replica e responde Nosso Senhor e Mestre> É impossível aos homens.

Donde se percebe muito claramente, que ao menos neste texto e contexto, não temos nós a condenação absoluta dos ricos.

Pois do explícito: É impossível aos homens, devemos aduzir: Nada há de impossível para o Santo e Bom Deus e sua divina graça.

E já podemos por a questão noutros termos: Quem é este homem para o qual é impossível salvar-se na riqueza e como pode Deus salvar o homem rico...

Ao que parece a impossibilidade se refere ao homem natural alheio as exortações do Evangelho. Ao que tudo indica o rico não se pode salvar fora da fé no Cristo do Evangelho ou da Revelação divina. Tal o poder devastador da riqueza.

Porém no contexto Cristão, isto é abraçando sinceramente a fé, pode o rico obter e conservar a salvação. Neste caso será salvo dá riqueza ou na riqueza... 

Ouso dizer, que aparentemente autorizou Nosso Senhor que aquele que herdou dos ricos i é que recebeu herança de pais judeus ou pagãos, conservasse sua posse desde que a fosse distribuindo aos pobre ou as obras assistenciais da Igreja, ao cabo de sua vida ou ao cabo de algumas gerações. 

Não serve para impugnar este ponto de vista o exemplo de Zaqueu, uma vez que a origem de suas riquezas é dada por desonesta. Aferida a desonestidade da herança fica impugnada sua legitimidade e decretada a necessidade da reparação, devendo o titular, se Cristão, desfazer-se dela de imediato, doando-a aos pobres, segundo o exemplo de Zaqueu. Portanto estamos nos referindo as riquezas de origem desonesta.

Já quanto ao Cristão que nasceu nesta condição, parece que o direcionamento é doutra espécie: Não junteis tesouros neste mundo, onde a traça destrói e a ferrugem come, de modo que o acúmulo desmedido de bens materiais é proibido. Como é proibida a avareza ou cupidez: Bem aventurados os pobres em espírito i é os que não tem apego as coisas e objetos materiais... 

Terá você a audácia de dizer que aquele que, tendo, como Sócrates, o suficiente para viver com conforto, dignidade e decência; e, sem embargo disso, concentre todas as suas energias para obter mais coisas é desapegado... Ousarás tu alegar que aquele que consagra suas forças em juntar, acumular e enriquecer - Como aquele que disse: Hei de aumentar meus celeiros... é um desapegado... Acaso insistirás que aquele que se aplica freneticamente em obter imensa fortuna é um desapegado. Pois bem, se não és bem aventurado, perseguindo riquezas que Jesus Cristo declara falsas ou ilusórias, é certamente um mal aventurado.

A esse homem avaro, que ambiciona além do necessário e lança sua cobiça para além do que necessita, diz o mesmo Jesus Cristo: Não pode alguém servir a Deus e ao Dinheiro, ou seja, concentrar seu afeto nas falsas riquezas. Devendo conformar-se com a vida sóbria e equilibrada ou com algo próximo do Ariston metron dos antigos gregos ou com a 'Aurea mediocritas' dos antigos romanos. Agora em que consiste essa vida sóbria ou moderada: Já nos referimos a ela pouco acima, dizendo que consiste em conformar-se com uma condição confortável e digna, tendo o que comer, o que vestir, onde habitar e até mesmo algo para distrair... Não uma multidão de terras, casas, celeiros, carros, etc 

É este tipo de atitude - A busca incessante de riquezas pelo Cristão.  - que se refere o apóstolo quando diz: A raiz de todos os males é o amor ao dinheiro. A concentração da mente e das energias em obter o máximo possíveis de coisas materiais e perecíveis ou o poder. Não devemos nós juntar o que não possamos nesta curta existência gastar. Pois em caso de morte não levaremos tais 'bens' junto conosco para a verdadeira vida. Por isso declara Nosso Senhor com acento religioso: Junteis tesouros no céu. Como distribuindo os excedentes com os irmãos, batizados, membros de Jesus Cristo. Servindo e beneficiando a comunidade. Praticando obras de virtude. Sendo solidários, fraternos, amorosos, bondadosos, etc Assim é que se acumula tesouros perpétuos e imperecíveis nos céus e tal é ou deve ser o investimento daquele que nasceu de Cristo e nele está.

Devemos buscar juros não na Bolsa de valores ou nos bancos porém no mundo imaterial e invisível, i é, nos céus, fazendo render a graça de Deus por meio de nossos excedentes financeiros. É nos irmãos, no próximo, no semelhante, no outro... que devemos investir. Então nosso lucro está no além túmulo ou na vida eterna e não neste mundo que passará. 

Quanto aos avarentos, apegados ou buscadores de ouro, prata, pedras preciosas, etc segundo o primo do Senhor, estão já julgados: Porque vossas arcas estão atulhadas... enquanto os pobres choram, após esta vida vós é que haveis de chorar em meio a grande sofrimento. Como aquele Finéias, que buscando riquezas e sendo inferente a sorte do miserável Lázaro foi lançado na Geena de fogo...

Quanto aquele administrador infiel que distribuía os excedentes com os clientes do empório, não nos diz o Senhor que era Cristão ou se era hebreu ou ainda pagão. Pois não distribuiu de imediato porém no decurso da vida as riquezas que eram iniquas. Ganhou amigos nos céus e foi digno de suas intercessões, porém, de modo algum chegou a perfeição a que somos convocados - Pois ao jovem rico foi dito: Vende teus bens e dá aos pobres. É nesta passagem, dois versos mais adiantes que Nosso Senhor classifica toda riqueza como falsa ou ilusória. A do administrador apenas declarou iniquas (Não todas as riquezas de modo absoluto porém apenas as do administrador.) porquanto obtidas com fraude e dolo. A riqueza, de modo absoluto, como falsa ou ilusória.

Acaso devemos buscar o que é falso ou ilusório... 

Caso viéssemos faze-lo quão miserável seria nossa meta!

Devemos buscar o que é verdadeiro i é, o que a traça e a ferrugem não podem destruir, o imperecível, o eterno, o duradouro, a imitação de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aquele desapego, aquela sobriedade, aquela moderação, aquela temperança, etc que são sinais de vida espiritual. De modo algum a avareza, a cupidez, a ambição desmedida, o acúmulo ilimitado de bens, a riqueza, a grande fortuna, etc pois em nada disto vai o Reino de Deus.

Quanto ao Cristão é terminantemente proibido buscar aumentar as falsas riquezas, concentrar-se na fortuna, juntar sem medida, etc Poderá no entanto, sendo descendente de milionários judeus ou pagãos administrar generosamente tais bens, como fizeram os teoforos Basílio e Gregório de Nazianzo, ou ainda os piedosos citados nas cartas de Jerônimo. O que, advirto, deve ser feito com extrema lisura e cuidado, no sentido de não dissipar tais bens consigo próprio ou viver no luxo enquanto os Santos morrem de fome nas sarjetas. Esse excedente de bens fica na mãos dos Cristãos para ser administrado em benefício Santos e não para o deboche. 

Tal a doutrina pura tomada literalmente ao Evangelho, sem distorção, interpretação ou Livre exame. Pois encaramos com sumo respeito as palavras de Cristo nosso Deus. E por elas contatamos que não pode aquele que nasceu de novo concentrar-se na busca de riquezas ou acumular ilimitadamente. E que esse afã pelo poder e pela glória é pecaminoso.

O que nosso Senhor por benevolência concede aos Cristãos é que herdem riquezas acumuladas já por judeus e pagãos e administrem-na em favor da irmandade, partindo e distribuindo ao cabo da vida ou das gerações. Isto quando tais riquezas não sejam notadamente más ou iniquas, como as de Zaqueu ou as do administrador infiel, as quais, neste caso, devem ser distribuídas em sua totalidade e de imediato, pelo simples fato de constituírem roubo e pecado contra a Lei divina.

Por fim devo questionar até que ponto um sistema de Crenças em que a Encarnação de Deus não se dá num palácio ou entre uma família rica e poderosa. Em que o personagem central foi um humilde carpinteiro e não um nababo ou próspero empreendedor. Em que o supremo referencial não dispunha de propriedade pessoal. Em que o foco da fé é supliciado numa Cruz. Cuja lei insiste repetidamente sobre o desapego e sobre a insensatez de perseguir falsas riquezas. Cuja meta é concentrar-se na graça de Deus e na justiça. Cujo ideal de perfeição consiste em desfazer-se de tudo quanto acumulado foi. E cuja hierarquia eclesiástica foi entregue a Rahibes com voto de ascetismo - Poderia compor-se com a busca frenética por bens materiais...

Tudo quanto posso ver aqui é a mais cerrada oposição. Cerrada oposição e antagonismo inconciliável. 

Agora o próprio Meira Pena, admite que o sistema capitalista depende da cupidez ou que é estimulado pela cobiça. Como discorre sobre o desapego e sobre a administração dos falsos bens... Agora como pode negar que constitua avareza a concentração da mente no acúmulo excessivo de falsos bens ou essa dedicação intensa a economia... Como negar que a busca pelo excesso seja avareza ou que a busca pelo desnecessário seja consumismo e consequentemente sinal de vazio interior ou de materialismo...

Como conciliar uma busca frenética sem apego... E como conciliar o Cristianismo ou a bem aventurança com o desapego...


Conheça também os demais artigos da série 'Culturas de morte': 


  • Americanismo
  • Protestantismo
  • Conservadorismo
  • Positivismo
  • Anarquismo
  • Comunismo
  • Fascismo
  • Pós Modernismo
  • Sionismo 
  • etc



sábado, 28 de janeiro de 2023

O acúmulo ilimitado de bens e a ilimitação econômica sob a ótica da Filosofia greco romana.




Faz parte das manobras da modernidade e do discurso americanista, urdido pelos pastores, classificar todos os opositores do capitalismo ou do liberalismo econômico clássico como comunistas, marxistas, bolchevistas, etc Falso dilema que ainda faz bastante sucesso entre as massas desorientadas produzidas pelo próprio capitalismo. 


No Brasil por sinal, o surto psicótico americanista, alimentado pelo sectarismo bíblico ou protestante, tem resultado em posturas para lá de bizarras - Posto que temos visto inúmeros personagens de nossa história e arquitetos de nossa cultura (Cristãos apostólicos inclusive!) apontados como comunistas ou marxistas mesmo quanto tenham vivido antes do nascimento de Marx ou ignorado supinamente o teor de suas obras... Tais os delírios a que temos assistido nos últimos anos. Indício seguro de que tudo sempre pode piorar... E de fato piora.

José Bonifácio de Andrada e Silva, patriarca de nossa independência; D Pedro II, monarca bragantino; Getúlio Dorneles Vargas, um dos maiores adversários da ideologia comunista; Goulart, Santiago Dantas, Jânio Quadros, Leonel Brizola, D Helder Câmara, dentre outros... foram ultimamente matriculados, pelos zumbis americanistas, como comunistas ou bolchevistas... pelo simples fato de que em maior ou menor grau cada um deles afastou-se do modelo capitalista, da mercadolatria ou do economicismo crasso, orientando a economia noutros sentidos possíveis. 

Nenhum deles no entanto combateu a legítima posse da propriedade pessoal ou mesmo a posse privada dos meios de produção... Eliminando tampouco a liberdade econômica em sua totalidade. De modo que nenhum deles foi Comunista ou aplicou soluções marxistas no contexto brasileiro - Embora seja exato que tenham dirigido e portanto limitado politicamente a economia, nos termos já enunciados por Leão XIII, papa romano, na Rerum Novarum - A situações de tal gravidade, no que tange a condição dos trabalhadores, que é não apenas lícito mas necessário que interfira o poder político... (Citação de memória!). 

Não aniquilaram ou exterminaram a liberdade do Mercado como preceituam os bolcheviques, porém inspirados por ideais tomados a Tradição Cristão ou ao Evangelho - E tenhamos sempre em mente o franciscanismo! - estabeleceram justos limites tendo em vista reduzir ou reprimir a proliferação da miséria. O que repito é ideal precipuamente Cristão ou antes humano e humanista, não marxista. 

Alias se há no comunismo algo de superior em comparação com o capitalismo ou com o liberalismo crasso é a sensibilidade para perceber que algo está errado face a tanta miséria ou face a tão grande desigualdade. Tem o marxismo pelo menos um ponto a seu favor, reconheceram diversos sacerdotes papistas - Anteriores ao Vaticano II com efeito: O fato de destoar do materialismo assumido e deitar um olhar crítico, logo ideal e idealista, sobre a realidade. Pois para os liberais economicistas é a miséria algo absolutamente comum... Para os positivistas nos devemos conformar com a realidade dada - O viés conservador é explícito - e abdicar de transforma-la ou de torna-la melhor.

Em que pesem seus defeitos, como a abominável Ditadura do Proletariado, o comunismo tem consciência de que algo não vai bem ou de que algo está errado numa sociedade em que alguns não tem pão ou leite para dar aos pequenos enquanto outros tomam banho de champanhe ou comem bife temperado com ouro em pó... O comunismo percebe o drama da miséria ou da pobreza e quiçá comove-se sinceramente. O capitalismo é absolutamente insensível face a tais situações de sofrimento até a crueldade e a indignidade humana não lhe diz absolutamente nada...

De fato essa inconformidade face a realidade dada, essa revolta, essa indignação produzida por um tipo ideal é comum ao autêntico Cristianismo, filho do Evangelho; e ao comunismo. É um vínculo que nos une e um laço que nos liga: A compaixão, associada a vontade de ajudar, de melhorar, de beneficiar, de mudar, de fazer algo enfim... Podemos até desfrutar do melhor sistema já elaborado - No entanto é esse 'melhor' demasiado miserável, insuficiente e deficitário; e sempre podemos avançar e melhorar mais a partir do que temos! Naturalmente que a partir dessa vontade magnânima, que consistem em mudar para melhorar as condições de parte da sociedade, podem resultar, como resultam, diversas situações de conflito provocadas por aqueles que temem a mudança de uma realidade que os beneficia... Aqui porém a responsabilidade é deles - Dos egoístas e acomodados, que pensam apenas em si mesmos.

Ora o Cristianismo nos ordena cuidar do outro, beneficia-lo ao máximo, resgatar a dignidade alheia e minorar o sofrimento humano - Por isso nossos ancestrais e avoengos sempre tiveram diante dos olhos, como autêntico fim da vida política o "Bem comum", pois tal é o sentido da palavra "República". Não foi de Marx, Engels ou Lênine que partiram eles mas do Evangelho, da tradição patrística e mais remotamente - Como patenteia a Teologia escolástica do Aquino. - de Aristóteles, o lógico, o peripato e 'Mestre consumado de todos aqueles que sabem algo.'

E no entanto há quem, diante da economia dinâmica vivenciada pela Hélade, ouse divisar nela o liberalismo econômico clássico ou algo semelhante ao capitalismo atual. 

Em que pese aquela espécie de Loas, registrada na Política de Aristóteles, o Theorikon de Péricles, os deveres do Corego, etc há quem nos deseje apresentar Atenas como uma plena economia de mercado. Eu no entanto, diante de tais leis e de outras tantas compendiadas pelo macedônio Craterus, o máximo que posso distinguir ai é um estado de Bem estar ou Welfare State, como as atuais repúblicas do Norte da Europa, cujo modelo é absolutamente diverso do modelo Norte americano, o mais próximo dos ideais postos pelo liberalismo clássico ou pelo neo liberalismo. 

Penso estarmos de acordo - Podemos não estar! - que o principal representante do pensamento Filosófico grego foi Sócrates de Atenas, filho de Sofronisco e Fenarete. 

Em diversos aspectos seguidor de Aristóteles e Antístenes ou Diógenes, devo confessar a primazia de Sócrates. 

Conhecida a apreciação de Rousseau, o qual situava o pensador ateniense imediatamente abaixo de Jesus Cristo, com o qual tantos pontos teve em comum - Assim com Buda e Confúcio, outros dois grandes mestres que viveram mais ou menos ao mesmo tempo que ele. 

Admiro Sócrates antes de tudo por ter enfrentado serenamente a morte para não abdicar de seus pontos de vista.

Poderia ter deixado a pólis que o viu nascer e ido viver com sua esposa e filhos noutras paragens - Não o admitiu...

Anaxágoras, Protágoras e Aristóteles, dentre outros, acharam por bem fugir... O que lhes era defeso e sequer merece reproche... 

Sócrates, como disse, recusou-se a fugir - E aceitou morrer em nome dos princípios e valores que acreditava serem seus. Não foi apenas um mártir da liberdade de pensamento - Foi convicto e acima de tudo corajoso.

Quiçá pudesse subverter a Atenas de seu tempo - Tal sua fama. - e tomar o poder... Como Jesus Cristo porém...

Além disso, ao contrário do que dizem, foi ele, Sócrates, o maior benfeitor da Democracia, por denunciar o mecanismo equivocado do sorteio indiscriminado ou incondicional e insistir na formação.  Caso Sócrates tivesse sido ouvido e suas críticas tivessem sido acatadas quiçá a democracia ateniense tivesse durado mais de mil anos...  Foi aquele olhar acurado e atento que pela primeira vez distinguiu o populismo ou a OCLOCRACIA (Degeneração política voltada para as baixas aspirações e vícios das massas!) - Mais tarde descrita por Aristóteles e Políbio! - e buscou advertir seus pares, em vão!

Platão (E Critias é claro e Alcebíades.) sobretudo, foi que entendeu suas críticas equivocadamente, e por rancor, opôs-se a qualquer tentativa democrática. Platão sempre alterando o pensamento de seu mestre... E que seria de nós sem um Xenofonte ou um Esquines...

Por fim foi Sócrates quem retirou a Filosofia das quatro paredes em que fora contida por seus predecessores - Em especial Pitágoras e seus pupilos, para os quais era uma espécie de Maçonaria. - para leva-la as praças, ao grande público ou ao homem comum! Sendo consequentemente apresentado por Melito como corruptor da juventude, pelo simples fato de levar o pensamento crítico ao jovem do povo. Pois o mesmo pensamento era já levado, a peso de ouro, pelos sofistas aos jovens eupátridas...

Alias palmas a Sócrates por ter criticado igualmente o tráfico da erística, copiosa fonte de renda para os sofistas de então. De fato nem todos os sofistas tinham o mesmo comprometimento com a educação e a democracia que um Protágoras. 

Agora o que pensava Sócrates sobre o acúmulo ilimitado de riquezas ou a avareza, i é sobre o espírito do que chamamos capitalismo...

Começarei citando o Alcebíades:

"Sócrates: Quem cuida de sua fazenda, não cuida de si mesmo ou de suas coisas, senão que muito está afastado delas.
Alcebíades: Assim o é.
Sócrates: O homem de negócios, portanto, não realizado o que há de mais importante, que é cuidar do que lhe é próprio." 

E mais além:

"Portanto não se escapa a desgraça acumulando riquezas, mas acumulando a sabedoria."

Passo agora ao Eutidemo:

"Demonstrado esta que não obteríamos vantagem alguma, em possuir, sem trabalho ou sem aperfeiçoar a terra, todo ouro do mundo. Poderíamos até saber tranformar rochas em ouro: E tal conhecimento não tería valor algum, porque se não sabemos tirar proveito do ouro, por si mesmo, já o sabemos, utilidade alguma nos trará ele..."

Poderia multiplicar as citações ao infinito. Mas não desejo ser fastidioso...

Arrematarei assim com a famosa crítica ao consumismo - Motor da economia progressiva. - transmitida pelo divino Laércio (Vida e doutrina dos Filósofos ilustres.) - 

Tinha Sócrates o costume de levantar-se bem cedo e dirigir-se ao grande mercado de Atenas, indo de barraca a barraca e contemplando os diversos produtos. Por fim, ao retirar-se sem nada comprar, explicava: Gosto de passear pelo Mercado para ter uma ideia precisa de quantas coisas não precisamos por serem inúteis.

Ora toda nossa economia exuberante, e consequentemente a explotação irracional dos recursos naturais bem como a produção de resíduos ou poluição, vive disso: Da comprar e venda de coisas que não são absolutamente necessárias. De fato preciso eu de um celular ou de um refrigerador, de um fogão e de um ar condicionado, de uma bicicleta e de um liquidificador (O que em si já é problemático pois somos oito bilhões de criaturas humanas!) mas não precioso trocar de celular, carro, ar condicionado, fogão, etc podendo utilizar os mesmos aparelhos por anos a fio ou até que quebrem sem maiores problemas. Os meios de comunicação ou a propaganda é que nos convoca a desfazer periodicamente dos aparelhos mesmo estando ainda bons e isso apenas em benefício do Mercado e consequentemente da explotação de recursos e da poluição ambiental...

Mais do que a temida Revolução comunista, uma simples mudança de postura, nos termos racionais de um Sócrates, seria algo ameaçador para essa máquina chamada mercado... Pois atingiria esse sinônimo de miséria interior ou de pobreza de alma chamado consumismo. O sistema em que vivemos não apenas produz pessoas enfermas ou neuróticas mas afirma poder cura-las fazendo-as depender de si pelo simples fato de consumirem ao máximo. 

Todas as pessoas que acumulam coisas: Das que acumulam tampinhas de garrafa ou alfinetes as que, como o tio Patinhas, acumulam imensas fortunas, moradias ou automóveis são pessoas doentes e neuróticas, pessoas frustradas, pessoas mal resolvidas... enfim pessoas interiormente mendicantes ou mendigas. São os mendigos do Ser - Pois floresce o SER  na proporção inversa do SER e, quanto mais se tem menos se é. Não podendo nos sobrepor aos outros ou supera-los na esfera do Ser, por meio da virtude ou da prática do bem, optamos - Quiçá inconscientemente. - por ter mais coisas do que eles.

E se oito bilhões de humanos é uma calamidade, oito bilhões de acumuladores é um flagelo... Portanto o resto, deve ser composto por despojados ou miseráveis - Até por questão de sobrevivência.

Passo a Antístenes - O mais genial, leal e sublime entre os discípulos de Sócrates.

Que nos diz eles sobre a posse ilimitada ou o acúmulo de riquezas...

Como Sócrates, Antístenes identificava a riqueza com a sabedoria. O que não é para surpreender.

No entanto o que ele diz concretamente sobre a posse das riquezas é imensamente precioso:

"Quanto ao sábio, seja o total de seu dinheiro, o que um homem de porte mediano possa levar ou transportar."

De Crates de Thebas ou Athenas sabido é que após ter lido as obras do divino Antístenes colocou todo seu ouro numa carroça e lançou-o no fundo do mar, após o que teria exclamado:   'Agora livre' - Assumindo, o que seu mestre chamava Autarquia ou autonomia. 

Tendo tomado conhecimento de sua atitude, um certo Diógenes, ao ser exilado de sua terra natal, Sinope, desfez-se igualmente de todas as suas posses limitando a portar uma túnica surrada, um bordão e uma cuia. Segundo diziam os antigos teria vivido, ao menos durante certo tempo, num enorme barril ou melhor dizendo numa imensa ânfora de vinho ou azeite. 

Sobre esse sábio, contam as anedotas que tendo Alexandre se aproximado dele, com o objetivo de ve-lo, foi atalhado com as seguintes palavras: Afasta-te um pouco porque me tapas o sol. E noutra oportunidade, tendo o homem mais importante e poderoso do mundo lhe perguntado se poderia conceder-lhe algum favor, ouviu estas outras: Nada me podes dar que já não tenha eu!

Mesmo Aristóteles, que costumava ser muito mais moderado em seus juízo e apreciações teria criticado a sugestão sobre o acumulo limitado de bem, com o declarar que tal era impossível num sistema finito. 

Mesmo Platão, que era de família aristocrática e rica e malquistava com o regime democrático, na sua conhecida República, determinou que o grupo mais importante, o dos guardiães, formassem uma comunidade tanto de bens quanto de filhos. Pois acreditava que os Filósofos reveriam dedicar-se a refletir sobre o poder político e concentrar-se na resolução de tais problemas sem se desviar. 

Que podemos inferir a partir da solução posta por Platão...

Que ele percebeu certa rivalidade entre a esfera do público e do privado, optando, diante disso, por eliminar o privado. Sobretudo intuiu, como pode ser observado por Arendt, que dentre os diversos setores do privado, o que mais tende a absorver os humanos é o econômico, a ponto de esvaziar o político e reduzir sua qualidade. De modo que também Platão, teme o economicismo. 

Continua