Já foi dito que o que Paulo fez pelo Cristianismo, separando, por assim dizer, essa pequena seita ou ramo do judaísmo e inserindo-o entre as sociedades pagãs, Lênin teria feito pelo marxismo, extraindo-o dos escritos herméticos de K Marx e conferindo-lhes vida própria.
Até certo ponto uma e outra afirmação correspondem a verdade, e paulinismo esta para Cristianismo como leninismo ou bolchevismo esta para Marxismo ou Comunismo. Avanço ainda mais, da mesma maneira como Paulo - pupilo de Gamaliel - falseou a Ética Cristã, Lênin falsificou certos conceitos marxistas como 'Ditadura do proletariado' (cf nosso artigo precedente sobre Rosa Luxemburgo) e 'Revolução'. Sob estes dois aspectos ao menos foi renegado, apóstata, traidor, revisionista... e hipócrita por ter atribuído tais defeitos da Kaustky.
Não é preciso ser um R Nisbet da vida para constatar que Marx vincula a ação individual a oportunidade oferecida pelo processo histórico, concebido em termos materialistas e economicistas. Deve o proletariado consciente acompanhar de perto o desenrolar da História para atuar apenas quando for possível i é no tempo certo. É dever da vanguarda socialista atuar em comunhão com a História para que a revolução seja bem sucedida.
O que implica acompanhar a implantação, o desenvolvimento e o declínio do sistema capitalista numa dada sociedade. Tendo em vista certos defeitos inerentes a sua estrutura o capitalismo devastará as classes médias e proletarizará a sociedade. O proletariado a seu tempo, tirando proveito deste processo e sabendo-se maioria, tomará o poder para si. Disto resultando a ditadura do proletariado. O proletariado servindo-se do poder político alterará radicalmente o regime de propriedade, socializado os meios de produção. Alterada esta relação desparecerá o que chamamos de sociedade classista e com ela o conflito. E como o conflito é o motor da História, chegamos ao fim do estado e do período socialista, para atingir ao que chamam de fase Comunista...
Tal o fim último da Revolução, da qual a ditadura do proletariado de faz meio.
Uma coisa porém é absolutamente certa. Antes da sonhada revolução o capitalismo deve gastar todas as suas forças e desenvolver-se plenamente, pelo simples fato de que a Revolução será - ao menos em parte - o produto final deste desenvolvimento. Ao desenvolver-se o Capitalismo produzirá a expansão da classe operária e da expansão desta classe advirá seu triunfo.
Antes que este ciclo se cumpra a Revolução fica sendo sempre impossível.
Por isso ela deveria acontecer ou ter acontecido, forçosamente, na Inglaterra ou na Alemanha, na medida em que o capitalismo daqueles países havia percorrido o roteiro traçado por Marx enquanto ele ainda vivia e isto a ponto de chamar-lhe a atenção as vésperas da morte. De alguma maneira Marx deve ter intuído o que foi constatado já por Lênin, já por Henri de Man, no século seguinte - Que a atividade político/parlamentar e o sindicalismo tinham o condão, de por meio de reformas, conter o máximo desenvolvimento do capitalismo e portanto de protelar a sonhada Revolução.
De fato os marxistas ortodoxos estão convencidos de que todas as sociedades humanas devam passar pelo mesmo processo. Assim as que se encontram sob qualquer forma primitiva ou pré capitalista, devem forçosamente adotar o modelo capitalista para, ao fim do processo de desagregação do capitalismo chegar a Revolução socialista e, após a ditadura do proletariado, atingir o paraíso comunista. Foi por uma questão de coerência que Marx aplaudiu de pé a conquista da Índia pelo Império Britânico, pois considerava um bem que a tradicional sociedade indiana fosse suplantada pelo modelo capitalista trazido do Ocidente, de modo a ulteriormente atingir o Comunismo... Os nayrodniya no entanto ousaram perguntar a seus apóstolos do porque seria necessário passar pelo inferno capitalista para chegar ao paraíso comunista?
Os comunistas limitaram-se a classifica-los como retrógrados ou reacionários. Enquanto eles redarguiam dizendo que já estavam em posse do socialismo...
Quanto ao Ocidente no entanto a questão era bem outra. Pois o capitalismo já se havia manifestado e desenvolvido. Diante disto, o que parte dos socialistas queria era paralisa-lo, conte-lo, enjaula-lo, limita-lo... ao invés de permitir que continuasse a desenvolver-se livremente no sentido previamente descrito por Marx. Conceberam portanto uma série de reformas politicas com o objetivo de travar a marcha do capitalismo e de manter a sociedade no nível em que se achava. Outros cogitavam em faze-lo retroceder, igualmente por meio de reformas políticas... Uma e outra solução receberam o nome de reformismo ou de socialismo reformista, em oposição ao socialismo revolucionário ou comunista. Os reformistas, chamados também - pelos marxistas - de socialistas pequeno burgueses despertaram a fúria dos marxistas ortodoxos, que encaravam o máximo desenvolvimento do capitalismo como uma necessidade. Afinal, sem ele, não haveria proletarização, revolução e paraíso comunista.
Cumpre dizer ainda que a social democracia jamais pode furtar-se a este 'desígnio ímpio' de regular o trabalho - até então livre ou ditado pelo 'laissez faire' - por meio de leis e de consequentemente melhorar a condição dos proletários, a qual tornou-se de fato suportável, quando não - ao menos por algum tempo - confortável, o que não podia deixar de atuar sob a marcha do capitalismo, retardando-a ou imprimindo-lhe outro sentido. Afinal ao invés minguar, em certas situações, a classe média - sempre identificada com a pequena burguesia - acabou expandindo-se, ficando o número de descontentes minoritário. Na medida em que o capitalismo foi sendo contido ou limitado - o que nos faz duvidar quanto a continuar sendo capitalismo! - mais e mais trabalhadores foram sendo absorvidos por ele, num movimento contrário ao que fora descrito por Marx. Mesmo o capitalismo não pode furtar-se a pressão feita pelas massas e a ação política dos reformistas tendo de adaptar-se a novas realidades para sobreviver...
Os marxistas ortodoxos perceberam-no de imediato e concluíram que o reformismo, limitando o Capitalismo, conferia-lhe vida e resistência. O reformismo foi que impediu o capitalismo de desagregar-se e perecer, frustrando os vaticínios de Marx. A social democracia, mesmo quando protestava não ser reformista, foi que tornou a Revolução inviável ou desnecessária, ao menos por algum tempo. Pois segundo Engels após suportar limitação após limitação, a burguesia ameaçada acabaria por violar as regras do jogo recorrendo ao que chamamos de golpe. Neste momento os socialistas, recorrendo a 'violência defensiva' passariam do exercício (Leon Blum) a posse do poder. No entanto, ao menos na América latina, os golpes de estado promovidos pela burguesia ameaçada, nem sempre suscitaram a merecida reação...
Lênin, por uma questão de lógica, não via diferenças muito significativas entre o reformismo e a social democracia. Tendo chegado a inferências bastante parecidas com as que acabamos de expor. Todavia, ao contrário dos mencheviques fiéis, como Martov, Plekanov e Axelrod, ele não estava nem um pouco disposto a aguardar pelo máximo desenvolvimento do capitalismo russo. Haja visto que os servos haviam sido emancipados em 1861 e que em 1905 ou 1914 o capitalismo russo ainda se achava num estado incipiente. Era a Rússia de Lênin uma sociedade majoritariamente agrária ou rural e Lênin, como Marx sabia que não era possível esperar qualquer Revolução de uma sociedade agrária e por definição tradicional.
Sendo assim Lênin teve de fazer algumas acomodações, repudiando o materialismo economicista do Mestre e opinando que não era necessário esperar pelo máximo desenvolvimento do capitalismo russo - processo que demandaria mais de um século. Era perfeitamente possível fazer a Revolução na Rússia agrária de então... Perceba o amigo leitor que o esquema ou roteiro de Marx não foi respeitado. Lênin de fato, acreditava ou fingia crer, na possibilidade de furtar-se ao processo Histórico e de alguns homens adiantarem os tempos ou a hora da Revolução. Passando as vistas por alto parece uma aposta inocente... Mas implica admitir uma solução idealista e mesmo romântica em termos de História. Na medida em que se admite que o homem prescinda da oportunidade oferecida pelo processo para ser bem sucedido. O homem pode furtar-se ao processo ou atuar por si só, nada menos materialista ou mesmo realista.
Os 'odiosos' mencheviques expuseram detidamente os erros de Lênin, limitando-se ele a declarar que seus críticos não passavam de fariseus, escravizados pela letra ou pelas palavras de Marx, das quais se serviam contra a Revolução... Foi tudo quanto ele pode dizer na 'Doença infantil do Comunismo', onde acusava os radicais i é os que de fato mantinham-se fiéis ao pensamento Marxista. Efetivamente estes estavam dispostos a permitir que o capitalismo russo se desenvolve-se sob a égide de uma democracia formal, e mesmo dispostos a colaborar com semelhante padrão de Sociedade, por estarem convencidos de que ao cabo de sua evolução ela viria a baixo ou desmoronaria, criando as condições necessárias a Revolução. Para eles esperar a ação das forças econômicas era absolutamente necessário, pois tal e qual Marx eram etapistas ou gradualistas. Lênin aspirava pelo poder e por isso não queria esperar, por crer que o poder era a Revolução ou que poderia substituir a ação das forças econômicas. Posteriormente, após o colapso da URSS, em 1990, os comunistas ortodoxos declararam que a Revolução não dera certo justamente porque furtara-se ao esquema estabelecido por Marx... tornando necessárias uma série de emendas ou adaptações, sem que qualquer uma delas pudesse salvar a obra de Lênin.
Para sermos justos temos que concordar com aqueles que viram na Revolução russa um aborto da natureza em termos de teoria marxista ou como um uma saída tão revisionista quanto o reformismo.
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terça-feira, 24 de julho de 2018
O renegado, revisionista e traidor W Lênin
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terça-feira, 17 de julho de 2018
A dupla tradição do comunismo - Sua gênese e desenvolvimento

Conforme dissemos num artigo anterior, o Comunismo se nos apresenta, face ao anarquismo - particularmente face ao anarquismo proudhoniano, mas também face ao bakuninismo (Kropotkin foi quem pela primeira vez tento sistematiza-lo racionalmente polindo as 'arestas') - como um sistema bem mais simples, orgânico e coeso. Conhecendo certa coerência mesmo quando pelo cisma divide-se em correntes rivais. Cada uma delas parte de um princípio oposto presente na gênese da ideologia e desenvolvido até o fim. No anarquismo percebemos inúmeras ideias opostas e contraditórias sobrepostas como que flutuando. Além de esta cindido em duas tradições básicas: Ocidental e Oriental ou russa, o anarquismo encontra-se cindido em torno de inúmeras questões, inclusive práticas e suas correntes assemelham-se as seitas protestantes.
O marxismo, grosso modo, conhecerá apenas duas variedades: A um lado a Social democracia, seja a crítica ou prudente, de Engels, Bebel e Rosa; a moderada de Kautsky, Adler, Bauer, Gramsci, etc ou a radical de Bernstein e por ext dos fabianistas ingleses... O nível a que tais críticos aderem ao insercionismo pode variar quanto o grau, mas não quando a essência do conceito. A outro teremos apenas o jacobinismo radical, demolidor e iconoclástico de Lênin, Trotsky e turma. Os mencheviques de Martov e Axelrod inclusive, tendiam a solução social democrata...
Ainda hoje o marxismo achasse cindido entre comunistas ou leninista a um lado e sociais democratas, 'revisionistas', gradualistas, 'heterodoxos' ou reformistas a outro. E aqueles que arrogantemente revindicam para si o título de 'Ortodoxos' ou fiéis, apegando-se a um aspecto do pensamento de Marx como pronto, acabado e imutável - quando jamais deixou de ser repensado ou revisto pelo próprio Marx - não tem deixado de fazer suas mãos pesarem sobre aqueles que encaram como heréticos, mesmo quando hipocritamente criticam a Igreja Católica.
Importa saber que esta situação característica do marxismo é insuperável ou insolúvel.
Mas por que?
Porque uma e outra corrente partem de dois princípios antitéticos presentes na gênese do pensamento marxista. Quiçá o jovem Marx até tenha pensado em concilia-los, mas só podia falhar, como de fato falhou.
Agora que elementos ou princípios contraditórios Marx buscou unir e qual a gênese de cada um deles?
A um lado temos um ideal de Revolução jacobinista expresso pelo conceito de conjuração levado a cabo por uma elite minoritária. Este ideal foi tomado por Blanqui ao babovismo e transmitido ao jovem Marx, que incorporou-o ao primitivo conceito de Revolução, anterior a 1848. É a ele que se refere Engels no prefácio de 1895 e Bernstein em seu estudo a respeito das fontes ideológicas do marxismo.
Este ideal de Revolução implica admitir que um grupo de heróis ou de homens superiores; um 'quadro' enfim, pode mudar por si só o curso da História, o que nos faz lembrar a noção de herói em Carlyle ou mesmo em Sorel. Implica saber que nem Carlyle, nem Sorel e finalmente nem mesmo Babeuf eram ateus ou mesmo materialistas. Daí terem enfatizado ou salientado o potencial da ação humana, mesmo na esfera individual. Eles certamente acreditavam que a História podia ser adiantada e ignoravam a noção de processo histórico e condicionamento material. Blanqui, que a ser ateu e materialista assimilou o pensamento insurrecionista de Babeuf, era, tal e qual Bakunin, um homem simples ou intelectualmente vulgar. Não podia perceber a contradição entre o método recomendado por Babeuf e as decorrências de seu próprio modelo de pensamento; tampouco o jovem Marx foi capaz de percebe-lo porquanto guiado pelo entusiasmo.
Marx no entanto fora bem mais atilado que Blanqui, no sentido de deixar-se conquistar por um materialismo consciente, que chegou a ser chamado materialismo dialético, por conformar-se com a dinâmica estrutural do pensamento hegeliano. Esse materialismo levou-o a formular o conceito de infraestrutura e de superestrutura e a consagrar o pensamento economicista.
Curiosamente os etapistas, gradualistas e sociais democratas todos apegaram-se a este conceito de materialismo economicista, ulteriormente desenvolvido pelo próprio Marx. Segundo este modelo de pensamento ou esquema o capitalismo carregaria em si o germe das contradições que plenamente desenvolvidas - em sua maturidade - levariam-no inevitavelmente ao colapso. O pensamento clássico de K Marx só poderia ser, como foi, radicalmente determinista. O Capitalismo transporta em seu seio germes de morte... Quando chegar a seu ápice declinará e entrará numa crise da qual jamais poderá sair. O partido deve treinar o proletariado para que seja capaz de detectar o momento em que este processo atingir seu 'clímax' - Só então o proletariado poderá exercer ou cumprir seu papel que é aproveitar-se da oportunidade oferecida pelo processo histórico e assumir a liderança do corpo social. Implica isto caminhar com a História e esperar pela oportunidade dada, que depende do curso do capitalismo... Este desenvolvimento do capitalismo só pode ser apressado pela dinâmica interno do próprio capitalismo, no sentido de atingir sua maturidade e tornar-se vulnerável. TODA E QUALQUER AÇÃO HUMANA QUE PRECEDA ESTA EVOLUÇÃO ECONÔMICA OU MATERIAL É INCONCEBÍVEL OU ABSURDA.
Neste caso como se dará a Revolução babovista ou blanquista?
O velho Marx julgou sabe-lo e poder dize-lo.
Acreditava que no correr da carruagem a proletarização do trabalho eliminaria já os elementos da antiga ordem, já o mundo rural, já as classes médias ou intermediárias. Ao fim do processo todo este universo intermediário cessaria de existir, sendo absorvido, é claro pelo mundo do trabalho. Ao fim do processo, uma capitalismo maduro poderia ser socialmente descrito como uma multidão colossal de proletários face a um diminuto grupo de burgueses monopolistas, estes, naturalmente, a testa da sociedade. Claro que sempre poderia restar um grupo mais ou menos largo que sempre poderia vender-se a burguesia e combater por ela - tal o lupem proletariado. Seja como for Marx chegou a acreditar que apesar dessa possível traição por parte da massa amorfa, alienada e manipulada, o poder cairia como uma maçã madura nas mãos dos trabalhadores. Ele jamais pensou nos termos apocalípticos, catastróficos ou sangrentos da velha Revolução francesa e chegou a crer numa transição/revolução que a não ser pacífica tampouco corresponderia ao 'terror' robespierriano... Tão execrado pela nova elite dominante francesa ou mesmo pela elite dominante inglesa.
Claro que esta visão, por diversos títulos, não se encaixa com a visão anteriormente descrita, em termos de blaquismo/babovismo, legado pela Revolução francesa. Aqui, a ação humana ou individual embrenha-se pelos caminhos do idealismo, podendo por si só mudar os caminhos da História sem contar com agentes condicionantes ou limitantes, ou mesmo exigir uma visão acurada dos tempos, na qual uma elite intelectual busca por sinais. Grosso modo a sanha dos guerreiros e revolucionários não conhece tais elementos condicionantes - como o processo histórico ou a dinâmica interna do capitalismo - presentes no pensamento de Marx e é exatamente esta ignorância a respeito das limitações externas ou dos límites que a torna combativa e invencível no dizer de Sorel.
Assim a corrente marxista mais sofisticada ou determinista, torna-se hermética ou astrológica no dizer de Sorel, na medida em que depende de cálculos externos sobre a realidade feito por um corpo de especialistas. Especialistas que por exigências de caráter racional seriam levados do jacobinismo a social democracia. Por chegarem a crer que ao contrário da conjuração babovista/blanquista esta revolução deveria ser previamente calculada ou preparada nos mínimos detalhes, o que certamente demandaria algum tempo. Por outro lado tempo é que não lhes faltaria, sendo oferecido pela evolução interna do capitalismo, a qual deveriam acompanhar. No entanto o resultado daquela evolução era absolutamente previsível: O colapso do sistema e a oportunidade revolucionária. No campo externo a sociedade capitalista nada poderia ser feito no sentido de 'abreviar os tempos', destarte urgia esperar e enquanto se esperava a política institucional ou melhor a social democracia bem podia fazer as vezes de tática, tendo em vista a futura revolução. Temos aqui um pensamento muito próximo ao de Engels e a respeito do qual nos referimos já em diversas ocasiões. Ainda conta com a Revolução e é crítico, mas por exigência do materialismo - que já se transforma em realismo - faz a revolução recuar ou posterga-a...
Antecipar a Revolução, dirá Engels, é como por o carro a frente dos bois, fazer o jogo da burguesia, ser esmagado e expor-se a ver a causa do socialismo aniquilada. A revolução ou a ação humana, só poderá ser bem sucedida em seu tempo, quando as condições materiais, oferecidas pelo sistema, mostrarem-se propícias. É a maturação do capitalismo quem nos oferecerá a grande chance - Marx o disse!!!
Diante disto Bebel, Adler e outros, com as bençãos de Engels e antes, com as do velho Marx, podem lançar-se sem temor ao seio da disputa eleitoral e levar os ideais comunistas ao parlamento, beneficiando-se da máquina chamada propaganda. Afinal elemento algum, fosse de ordem política ou não, seria capaz de atalhar a dinâmica do capitalismo e, consequentemente de impedir o estouro da Revolução. A revolução estava determinada pelo processo histórico - em termos de produção econômica - e nada seria capaz de alterar esta realidade. De modo que a ação parlamentar era muito bem vinda.
Perceba amigo leitor que o rígido materialismo mecanicista de Marx conduziu seus seguidores a via eleitoral ou a inserção.
Por outro lado, quando Bernstein, no final do século XIX, avançou até praticamente negar o colapso deduzido ao materialismo crasso e a necessidade de uma revolução, afirmando a ação parlamentar como algo definitivo e quando até mesmo os centristas chegaram a identificar a 'tomada' do parlamento pelos socialistas com a ditadura do proletariado, a ala jacobina - que sempre se mantivera calada por respeito a Marx e a Engels - não pode deixar de retomar o ideal revolucionário, inda que não pudesse repudiar ao materialismo gradualista ou denunciar Engels como revisionista. Diante disto levantaram as mãos contra Kautsky, o testamenteiro de Engels, e contra diversos outros pioneiros, fazendo alarde em torno das mutilações de Liebknecht, agora apresentadas como falsificações e ignorando ou fingindo ignorar a existência de muitas outras fontes e documentos quais sejam as cartas de Engels e de Eleanor Marx. De modo geral o conjunto de tais documentos revelam-nos um Engels que apesar de seus precauções e criticidade abraçou não apenas a via parlamentar mas a violência defensiva, repudiando o golpismo peculiar as correntes blanquista e bakuninista. Claro que os comunistas jacobinos não podiam admitir nada disto, pelo simples fato de não acreditar na via institucional ou parlamentar. Assim, desviando os olhos de Engels e de seus últimos escritos, eles passaram a classificar todos os sociais democratas como renegados e a arvorar o revolucionismo como única solução não apenas viável mas possível. Ao menos da Rússia a coisa tomou este caminho, tomando o jacobinismo o nome de leninismo e hipostasiando-se ao comunismo soviético ou marxismo ortodoxo.
Claro que e Lênin sempre pôde apelas ao jovem Marx blanquista/babovista com o objetivo de santificar seus ideais. O que ele não poderia ter feito é ignorar o conjunto do pensamento marxista e seu desenvolvimento ulterior. O que sobretudo não poderia ter feito é ignorar os ulteriores pronunciamentos de Engels, atribuindo a Kaustky uma ruptura que jamais havia acontecido. Ao apresentar os sociais democratas como inovadores e apóstatas Lênin mostrou-se absolutamente desonesto. O único renegado ou traidor aqui foi Lênin, embora a bem da verdade, devamos admitir que ele apegou-se a um princípio individualista, idealista e rival, que num determinado momento Marx e Engels tiveram de sacrificar ou ignorar - A possibilidade de indivíduos ou grupos, por meio de golpes ou conjurações, antecipassem as condições dadas pela História - Fazendo com que esta avançasse. Para tanto teve Lênin de fazer certos empréstimos ao teórico anarquista G Sorel - outro implacável adversário do determinismo economicista - pensador que mais tarde veio a descrever, hipocritamente, como embaralhado ou confuso.
Paradoxalmente Engels não desejou destruir por completo a esperança na futura Revolução, mas apenas posterga-la. Grosso modo podemos dizer que ele assumiu uma posição social democrática 'crítica', ficando como que no meio do caminho, entre Lênin e Bernstein. Por isso Bernstein como Kautsky, pode revindicar para si o título de sucessor, caso admitamos que Marx e Engels possam ser superados ou revistos; como se supõem de seres humanos e falíveis, inda que geniais e bem intencionados. Na medida em que o pensamento de Marx conheceu uma evolução e do Engels mais ainda, por que supor que este padrão de pensamento não pudesse continuar a evoluir após a morte deles convertendo-se numa Bíblia ou num Corão?
Importa saber que para mater viva a esperança de uma revolução final, Engels teve de reler, reinterpretar ou revisar o materialismo mecanicista e economicista de Marx, renunciando ao que chamamos determinismo, e postulando o que chamamos de condicionamento ou possibilismo. Vale a pena reproduzir suas belas palavras:
"Devemos provar a nossos adversários o princípio essencial - o lado econômico - que eles repudiavam; e então nem sempre tinhamos tempo, facilidade ou ocasião PARA POR EM RELEVO OS OUTROS FATORES QUE EXERCEM AÇÃO RECIPROCA... A evolução política, jurídica, filosófica, religiosa, literária, artística... dependem certamente da evolução econômica. NO ENTANTO TODAS SE INFLUEM MUTUAMENTE E ATUAM, A SEU TEMPO, SOBRE A BASE ECONÔMICA." Carta de 1890 publicada no Sozialisticher akademiker em Outubro de 1895Admitido o simples condicionamento material, Engels, tornava mais aceitável e reforçava ainda mais a doutrina revolucionária da interação, partir da qual os futuros comunistas puderam deduzir que caso a oportunidade oferecida pelo processo histórico não fosse 'trabalhada' ou aproveitada pelo elemento humano, a chance de implementar com sucesso a Revolução ficaria abortada - Daí a insistência cada vez maior no sentido do partido ou da propaganda preparar uma elite de homens no sentido de aproveitarem a oportnunidade histórica.
Daí Rosa Luxemburgo, cogitar que a oportunidade revolucionária não aproveitada poderia descambar em algo totalmente distinto do capitalismo ou do comunismo, o que ela define como barbarismo. Prenúncio do Nazismo??? Quem sabe... Foi o quanto bastou para Lênin e seus sequazes assinalarem-na como heterodoxa, tal e qual Kautsky, Bernstein, Plekhanov, Axelrod, Martov, Gramsci, etc, etc, etc Curiosamente, o citado G Sorel, que nutria séria dúvidas quando ao materialismo mecanicista, também nutria certo temor face a um futuro sombrio e barbaresco...
Importa saber, e esta é nossa conclusão, que o marxismo nascente comportava dois princípios antitéticos, contraditórios ou opostos - Um consciente e outro não. E que no decorrer do tempo Marx e Engels foram apegando-se cada vez mais ao princípio consciente, que conduziria fatalmente a social democracia, até que este foi ligeiramente corrigido por Engels, tendo em vista a elaboração de uma ideologia mais equilibrada, do que resultou uma espécie de social democracia crítica, em que o ideal da Revolução foi protelado para um futuro incerto, como após a revolução russa o fim da ditadura do proletariado seria sucessivamente protelado para um futuro incerto, até atingir setenta anos, e por a luz do dia a farsa ou o equívoco da transição. Claro que, em tais condições, exceto em caso de golpe de estado (Situação em que seria exercida a violência defensiva - Otto Bauer, 1926) os socialistas poderiam conformar-se indefinidamente com a política parlamentar.
Lênin teve de reassumir o ideal do jacobinismo - sem todavia identifica-lo com o idealismo - e de negar toda evolução ulterior, rompendo com ela, e negando, ao menos o pensamento mais elaborado e desenvolvido de Engels. Claro que tudo isto supõem uma traição, inda de inconsciente. Os princípios opostos no entanto, já ali estavam, envenenando o pensamento de Marx. Tudo quando podemos dizer aqui é que Marx era jovem e que o pensamento de cada personagem intelectual deve ser analisado numa perspectiva cronológica e evolutiva.
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segunda-feira, 16 de julho de 2018
O recuo da Revolução nas teorias sociais de vanguarda

Segundo certa 'Escola' Jesus teria anunciado a manifestação imediata ou premente do 'Reino' de deus a seus seguidores. Estes, a seu tempo, teriam efetuado uma releitura, no sentido de aplica-la a 'segunda vinda' de seu líder, mas mantido a premência... da qual Paulo seria um típico representante.
No entanto a medida em que as gerações envelheciam ou morriam e o 'Senhor' não voltava, a igreja elaborou um novo tipo de padrão escatológico dedicado a prolongar o período intermediário entre sua fundação e a parousia. A interpretação, julgo eu, é bastante discutível senão artificiosa, serve no entanto como exemplo para mostrar o que aconteceu com a teoria revolucionária no interior do marxismo e do anarquismo.
Pois se Marx sempre se distinguiu por certo sentido de realidade, e por uma tendência a concepção etapista - a que chegou por fim - seus correligionários nem sempre se mostraram tão cautelosos, a ponto de crerem, na esteira da tradição jacobinista/individualista (de Voltaire?) que fosse possível adiantar o processo histórico. Sabe, aquela coisa de 'História feita por grandes homens ou por gênios' típica de Carlyle??? Bem isso...
Naturalmente que em alguns momentos Marx também entusiasmou-se ante a possibilidade de que a aquele fosse o momento decisivo. Assim em 1848, assim em 1870. No entanto, após o estrondoso fracasso da Comuna, tornou-se bem mais cauteloso.
De fato o desenvolvimento de sua teoria de Revolução parece conter o germe do quanto será elaborado por Engels, Kautsky e mesmo Gramsci e Bernstein após sua morte, numa linha de raciocínio coerente e lógico que apenas os sectários mais intransigentes são capazes de negar. O pensamento de Marx surge num contexto claramente jacobinista, insuflado pelo blaquismo, com sua ideia de insurreição, e é claro que o marxismo teve de ultrapassar o blanquismo como expressara Engels no prefácio de 1895.
A partir da superação do Blanquismo, em 1895 surgirão duas correntes rivais. A social democracia e o leninismo. Este no entanto esta mais próximo daquele Sorel, porque Lênin afeta arrogante desprezo, mas de cujas obras se nutriu. A autêntica tradição marxista ou a 'sucessão apostólica' parece estar mais próxima da social democracia, a qual se apresenta em Engels sob uma forma bastante equilibrada ou crítica, mas que virá a conhecer outras formas, tanto mais ingênuas é certo.
Importa saber que a solução insercionista ou social democrática, é Engels que no-lo diz (e isto é prenhe de significados), já se apresenta de forma antecipada no famoso Manifesto, onde deparamos com um estímulo a luta pelo sufrágio universal. O mesmo Engels, a continuação, declara - Lassalle tomou o princípio e levou adiante. Apropriou-se de um princípio afirmado historicamente por Marx e Engels em 1848. Engels pode registra-lo sem problemas em 1895 porque Marx já estava morto e, devemos ser claros, Marx nutria por Lassalle uma espécie de inveja que o levava a perder a razão, chegando ao insulto...
Em 1870 Bismarck, tendo em vista certos objetivos, estabelece o sufrágio universal na Alemanha recém unificada e os socialistas de modo geral, inclusive os marxistas, encaram esta alteração política como uma chance ou oportunidade para aproximarem-se do poder. Formam partido e elegem August Bebel, um marxista ortodoxo. No mesmo ano congregam-se em Gotha e subscrevem um programa. Antes que o ano termine Marx subteme o programa de Gotha a uma crítica até hoje bastante citada nos meios marxistas.
Marx arrelia contra a inserção ou contra a social democracia. Buscamos o sentido de sua crítica... E, ao que tudo indica, parece ser sua antipatia insuperável face a Lassalle, falecido já a dez anos. No entanto, em que pese a Crítica tão aplaudida, após algumas emendas destinadas a dissipar certos ares de nacionalismo, Marx dá seu placet - compreenda-se que Marx não é um São Francisco de Assis corrido por Fr Elias e que nada se faria sem ele em termos de comunismo ou socialismo alemão! - e o partido socialista alemão se torna uma realidade. Dez anos depois e dois anos após sua morte, a filha Eleanor, admitirá que Marx publicou aquela crítica por ódio ao rival falecido e que nos últimos anos de sua vida inclinara-se a social democracia.
Engels o sabia e por isso, com a devida cautela, toma o mesmo caminho.
Importa saber como Marx veio a encarar a Revolução na última década de sua vida. Formulou-se a teoria de Revolução em termos inequivocadamente etapistas ou realistas. O Capitalismo desenvolvendo-se produzindo contradições internas criaria as condições necessárias para a Revolução e sem as quais a Revolução não aconteceria. A História ou melhor a produção econômica é responsável pelas condições dadas, a partir das quais haverão os homens de atuar. Sem as condições dadas conjuração alguma provocada por um ou alguns indivíduos produzirá qualquer coisa... De modo que a Revolução Marxista, embora não seja institucional ou legal, tampouco será violenta ou hecatômbica como a Revolução francesa. Não será nem pacífica mas também não será sangrenta... Neste caso como se dará?
Marx acreditava que do máximo desenvolvimento do capitalismo resultaria um tipo de composição social jamais visto - A um lado um pequeno grupo de grandes capitalistas e a outro uma multidão imensa de proletários. Neste caso a revolução seria pacífica, pois o exército colossal de trabalhadores, cooptados e formados pelo partido comunista, simplesmente removeria esta diminuta elite de parasitas e assumiria o controle. E os mortos não passariam de algumas centenas ou no máximo de alguns milhares de resistentes. Marx no entanto sabia muito bem que essa diminuta minoria de senhores ou nababos haveria de comprar ou de manipular outro significativo contingente de seres humanos, os lupem proletários - ou as massas alienadas - e que estes lutariam por eles.
A questão dessas massas manipuladas pelos milionários e políticos é ainda hoje atual, mas parece não ter preocupado demasiadamente Marx. Teria sido ela a principal responsável por concilia-lo com o insercionismo? Eis o que não sabemos. Digo que a questão das massas manipuladas, numa conjuntura revolucionária, é bastante atual, pelo simples fato dos revolucionários entusiastas ou patológicos, encararem tais massas como carne de canhão... Renunciando a qualquer esforço mais sério no sentido de educa-las, apenas porque semelhante projeto significaria protelar a querida revolução, e há aqui um certo menosprezo pelo elemento humano que não percebo ser compatível com a nobreza da tarefa assumida.
Seja como fora é certo que Engels acabou pronunciando por uma solução não totalmente desprovida de certo sentido humano, a 'violência defensiva', aproximando-se do conceito tradicionalmente Cristão de guerra justa. Claro que para os humanistas os conceitos de Revolução necessária e guerra justa devem hipostasiar-se face as exigências da justiça. O que torna a Revolução em tais casos, tão desejável quanto uma cirurgia. Outro é o caso de entusiasmar-se por uma cirurgia, em termos quase místicos. Quando imaginamos ou concebemos a solução revolucionária, como única e final, como um medicamento amargo, uma cauterização ou uma cirurgia, a que não se pode fugir, penso que estamos no plano da realidade. Quando vibramos com ela ou com seus excessos, chegamos a psicopatia. Talvez, para muitos, esta linha parece tênue. Nós acreditamos que seja real.
Percebam que com Marx a Revolução recua até o máximo desenvolvimento do sistema capitalista e portanto da urbanização, quando as condições necessárias são dadas pelo processo histórico, independentemente das ações humanas ou individuais. O que, ao tempo de Marx, supunha um prazo de tempo mais ou menos longo para diversas sociedades como as mediterrânicas ou a russa. De fato Marx acreditava que Inglaterra e Alemanha eram as sociedades mais propícias a Revolução num prazo mais curto. Portanto a Revolução não era para já como imaginava Bakunin...
A propósito de Bakunin e dos anarquistas temos de compreender que o sentido de Revolução em Proudhon tampouco parece ser jacobinista, blanquista ou draconiano. E ele se refere amiúde a Alexandre, Júlio César e outros conquistadores como tipos de revolucionários por terem produzido, um e outro, a partir de suas conquistas, condições favoráveis a circulação ou difusão de ideias, que a longo prazo haveriam de alterar a realidade social. Assim S luis fica sendo revolucionário porque organizou as Guildas medievais como observa Nisbet 'Os filósofos sociais' 1982 p 367 "É impossivel não concluir que Revolução no pensamento de Proudhon, não passa de uma palavra destinada a designar qualquer mudança social importante, decisiva e irresistível." ib ibd
Tal e qual costumamos dizer Revolução Cristã, Revolução socrática, Revolução sexual, etc
Assim se Bakunin, influenciado pelo psicopata e demagogo Nechayev, por quem alias era apaixonado, passa a apresentar a 'propaganda pelo fato' nos termos terroristas de um Thomaz Muntzer e a apregoar o veneno, a corda, o estrangulamento, etc Temos que o tema tão querido aos atuais anarcóides, aparece apenas esporadicamente no Kropotkin maduro, o qual na velhice aproximasse definitivamente de L Tolstoi e de uma solução ética em que percebemos um eco do Evangelho. Longe de embarcar na canoa furada de Maquiavel, pouco antes de passar a eternidade, o patriarca dos anarquistas eslavos, ousa erguer sua voz contra o todo poderoso Lênin e condenar o recurso ao fuzilamento, a tortura e outros meios anti humanos porque se queria levar a Revolução a cabo, manchando a nobre doutrina do socialismo (A expressão é de Kropotkin).
O emprego sistemático da violência numa perspectiva individualista - condenado pelos mesmo pelos blanquistas e sorelianos - por parte de J Most, O Henry, Ravachol e outros não passou duma fase na vida do próprio Bakunin, e a respeito do qual não achamos consonância quer em Proudhon, quer em Kropotkin. Neste caso por que os anarquistas ou parte deles teriam adotado semelhante método a não ser por questões de ordem patológica que nos remetem a psicopatia. Que haverá de ideológico em explodir ou fuzilar civis inocentes numa praça qualquer??? O anarquismo teve de pagar o justo preço por isto e seus paladinos - apos terem ceifado a vida de mulheres, idosos e crianças - de serem levados ao cadafalso, além de terem fornecido a burguesia amplo repertório de fantasmas com que povoar o imaginário das massas alienadas, precavendo-as contra quaisquer mostras de justa indignação face ao sistema. Foi um método contraproducente, embora aplaudido e louvado por alguns 'bostinhas' de nosso tempo...
A corrente rival - face a social democracia - que desenvolveu-se no marxismo recebeu o nome de leninismo, por ter sido elaborada por W Lênin na Rússia. Lênin, a princípio fora pupilo de Plekhanov, o qual na juventude, confabulará com Engels e assimilara o etapismo. Foi Plekanov que os Nayrodnyia objetaram dizendo: "Por que para chegar no paraíso comunista temos nós de passar pelo inferno capitalista?" questionando o sistema evolucionista linear. Pois bem, Lênin acabou afastando-se de seu mestre por chegar a crer - contra Marx - que a Revolução podia acontecer sem que o capitalismo se desenvolve-se ao máximo na Rússia. A Revolução devia acontecer agora ou já, o que supunha uma tática distinta tanto da propaganda pelo fato de Bakunin quanto as conjurações Blanquistas. Engels já havia indicado o árduo caminho no prefácio de 1895, mas Engels, como Marx, dava tempo ao tempo. Lênin não... Daí ter tomado o conceito de elite guerrilheira as obras do anarquista francês Sorel. Foi esta tática vanguardista que lhe permitiu, contra as advertências de Marx, 'adiantar a História' e implantar sua querida Revolução (em termos jacobinistas) num país predominantemente rural recém saído da feudalidade.
A custa de indizíveis sofrimentos e crueldades, prolongou-se esta estado, anômalo, de coisas, até 1989, quando caiu. Possibilitando a canalha liberal economicista, declarar que a solução socialista, de modo geral, estava morta e sepultada. A parte honesta dos próprios marxistas no entanto teve de concluir pelo erro cabal de Lênin, i é, de pretender fugir as condições dadas e apressar o processo histórico. Claro que semelhante advertência só faz sentido dentro da ótica marxista em que eles, que se dizem marxistas, se situam. Eu fico com os Nayrodnyias e com certas correntes anarquistas que encaram a passagem das antigas formas para o capitalismo ou para o tecnicismo como absolutamente desnecessárias e indesejáveis.
Resta-nos dizer que após Marx e Engels terem preparado o caminho Kautsky, Adler, Rosa, Gramsci e outros, ao menos em algum momento de suas trajetórias chegaram a cogitar se o domínio do Parlamento pelos socialistas através das eleições não corresponderia a 'Ditadura do proletariado' ou não seria seu ponto de partida? Para os leninistas cada um deles - e muitos outros - mereceu ser classificado como revisionista, o que para nós significaria traidor, renegado ou herético... Bernstein no entanto foi que, rompendo com todas as convenções, estabeleceu o babovismo/blanquismo como ponto de partida do jovem Marx, sendo capaz de traçar toda a ulterior evolução de seu pensamento até a morte de Engels, concluindo por uma política parlamentar que, em que pese as advertências de Engels e os exemplos de Bebel e Guesde não deixou de ser contraproducente e degradante, devido as alianças ou pactos imorais e as lutas pelo poder. E alguns disseram que o homem há que entrar no cenário da política institucional para sujar os pés...
Claro que a opção/ação social democrata precisa de uma alta doze de criticidade, tal e qual fora sugerida por Engels. E que de modo algum elimina a possibilidade ou mesmo a necessidade de uma Revolução ou de uma guerra justa tendo em vista satisfazer a demanda da justiça. O que não nos leva a, esgotados todos os recursos possíveis (como a desobediência cívil, a greve geral, etc ) ao delírio místico em torno da violência desbragada ou a ignorar os riscos implicados em tal opção. Pois como temos dito e repetido em diversas ocasiões, a revolução é como um remédio amargo, uma cauterização ou uma cirurgia, e quem a olha com encantamento só pode ter sérios problemas de ordem psicológica. Nós não excluímos a Revolução, mas tampouco encara-mo-la como receita de bolo ou bula de remédio, a exemplo dos jacobinistas. Nem será ela capaz de eliminar todos os nossos problemas. Mesmo uma Revolução, para ser bem sucedida, exige que as massas sejam transformadas em povo consciente e levadas a cabo por ele, devendo vir de baixo para cima. Assim a Revolução, também ela, deverá ser preparada com décadas de antecedência e não realizada a esmo. Mesmo Lênin sabia que um mínimo de organização e de coordenação era absolutamente necessário. Então já sabemos porque todas as conjurações anarquistas, mesmo a conjuração espanhola, falharam estrondosamente.
No próximo artigo tentaremos examinar a teoria revolucionária sob a perspectiva da ética e da própria liberdade.
August Bebel
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