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quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Capitalismo - Posso questiona-lo?


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Quando indagamos se podemos questionar o capitalismo o que queremos saber é se podemos questiona-lo sem ser Comunistas?

Ao menos supostamente, é apanágio do pensamento livre e das instituições democráticas não apenas poder questionar qualquer coisa em foro íntimo como poder expressar tais questionamentos... aqui, chegamos a obviedade e ter de explicita-la já insinua a gravidade do problema.

Vivemos tempos em que o óbvio deve ser muito bem explicado e tempos assim não são dos melhores.

Há quem se julgue bom Ocidental - Civilizado, evoluído, 'moderno', vanguardista... E ignore pressuposto tão caracteristicamente liberal, tendo-o em conta de anarquista ou o que é ainda mais grave, de comunista!!! E no entanto estamos falando sobre um dos fundamentos da nossa civilização, o que basta para evidenciar quão frágeis são tais fundamentos...

Digo, o pressuposto ou o direito de duvidar de qualquer coisa.

Para muitos no entanto duvidar do Capitalismo ou seja de sua viabilidade, de sua dignidade, de sua perfectibilidade, ou de sua suposta eternidade sabe a heresia... O que nos remete ao conceito de Dogma. Para muitos a perfectibilidade do Capitalismo é crença que sabe a Dogma. E há que se ter fé nela para ser um bom cidadão ou homem de bem, ao menos em certos círculos. Do contrário serás um herético... quase nos termos da Idade Média. 

Há todo um misticismo chão em torno do sistema econômico vigente. O qual não condiz nem um pouco com nossos fundamentos liberais...

Após ter aluído o liberalismo político em diversas situações, o liberalismo econômico choca-se contra a mais fundamental de todas as expressões liberais - que é a liberdade de pensamento.

Para muitos pensar contra o Capitalismo ou questionar esta opção é algo intolerável, algo que deveria ser reprimido, punido, castigado... Como nos velhos tempos da inquisição genebrina... que o velho Mc Carthy tentou fazer reviver nos EUA do século XX, sem experimentar maiores dificuldades!

Claro que há quem, fiel a tradição liberal, reconheça aos contrários ou dissidentes, o direito, líquido e certo de duvidar de qualquer coisa, inclusive do Capitalismo. No entanto os que duvidam são sempre e necessariamente, Comunistas ou Bolcheviques.

Mesmo que semelhante dúvida parta do Dalai lama, do Papa Francisco ou de John Gray, eles ficarão sendo vermelhos... Aqui nos meios virtuais do Brasil José Bonifácio, D Pedro II e Getúlio Vargas já foram matriculados na KGB. Freud e - pasmem - Darwin foram os últimos a seres acusados de apoiar o 'Comunismo' e fila certamente conta com Platão, Sócrates, Buda, Confúcio, Jesus, Paulo, os Padres da Igreja, Aquino, Vitória, Morus, Campanella, etc Esperemos os cães de guarda do sistema tornarem-se mais atilados ou imbecis... Maritain, Mounier, Bloy, etc que se cuidem, pois o fanatismo liberal economicista não perdoa seus críticos... levantou dúvidas é comunista ou bolchevique.

Tal o sentido de nossa pergunta: Podemos questionar o Capitalismo ou ser céticos com relação a ele sem ser Comunistas?

Embora tudo nos indique que Sim, e de modo absolutamente claro, sonoro, translúcido e evidente, boa parte das respostas obtidas equivalerá a um sonoro Não. O que como já dissemos é alarmante. Venha donde venham as críticas, partam donde partam, procedam onde procedam, e embora inspiradas em valores diferenciados quais sejam o humanismo socrático, a fé búdica, a Ética católica ou considerações keynesianas em torno da economia pura, serão sempre classificadas como comunistas pelos desonestos.

Isto mesmo querido leitor. Para boa parte dos ocidentais resolvem a questão dualisticamente ou por meio de um dilema: Quem não é capitalista é Comunista e vice versa. E não enxergam qualquer outra possibilidade além destes dois sistemas hermeticamente fechados. É necessário conformar-se com um ou outro i é entrar na caixinha.

Terceira opção, via ou possibilidade é algo impossível, impensável, inconcebível... A este falso dilema acrescentam ainda - é claro - uma avaliação simplória, a que chamamos maniqueísmo: Capitalismo bom, Comunismo mau...

Eis julgada a questão e não se pode pensar doutro modo, fronteiras estão traçadas e limites postos! Quem discordar é comunista, logo mau...

Julgo que qualquer pessoa inteligente e ponderada seja capaz de concluir pela artificialidade, pela tacanhice e pela miséria deste quadro. 

Eis-nos diante de uma pintura distorcida da realidade formulada por pessoas francamente limítrofes senão desonestas. Mas há quem identifique-se com ele. Quiçá devido a sua pobreza absoluta... Nada mais fácil do que gritar como uma pega no cio: Comunistas, Comunistas... ao invés de pensar, discutir, pesar dos argumentos e dialogar como gente civilizada. Melhor rotular e permanecer eternamente girando em torno de um 'ad hominem'.

Caso você ofereça outros botões - digo outras opções ou horizontes mais amplos -  ao sujeito, os neurônios queimam... e o cérebro pifa.

A zona de conforto destas pessoas pede por uma concepção falaciosa e por uma avaliação maniqueísta. Fazer o que??? "Os homens desejam ser enganados, façamos sua vontade." reza o provérbio...

O que me espanta não é a existência deste tipo de visão. A existência da tolice ou da miséria intelectual é previsível. Digo mais: Semelhante tipo de visão é algo que até esperamos ver proliferar num espaço como o 'Belt bible'.

O que me espanta e atemoriza é ve-lo estender-se pelo mundo afora e contagiar outras tantas culturas, encontrando aderentes e repetidores.

Haja visto um número considerável de brasileiros que afetam ser patriotas e engolem esta xaropada americanista forjada pelos seguidores de João Calvino...

Curiosos estes brasileiros que melindravam-se do tal imperialismo russo ou soviético enquanto saudavam e saudam o imperialismo Monroe - o do destino manifesto.

A crítica é válida e aguda posto que originalmente o Capitalismo não pertence a nossa cultura. É elemento externo ou alienígena, tão alheio a nossa cultura quanto o Comunismo ou o Anarquismo. Mais, é elemento não de origem Latina ou Católica mas de origem Alglo saxã e protestante. Por mais que alguns 'católicos' ou melhor neo católicos, safados e vendidos, pretendam demonstrar o contrário, a crítica levantada por Max Weber permanece firme, forte e inabalável. É corroborada além do mais por uma hoste ou multidão de autores católicos de fidelidade indiscutível. Assim O Brien, Maritain, Fanfani... O que a Igreja criou ou produziu foi uma doutrina social destinada a combater este sistema pérfido e cujo sentido é obviamente, anti liberal.

Caso o liberalismo econômico ou a auto regulação interna do Mercado estivesse de acordo com o pensamento da Igreja não haveria qualquer necessidade de uma doutrina social inspirada numa ética religiosa e portanto externa ao Mercado. A Igreja romana e com ela todo o Cristianismo, tudo quanto seja Católica, a Ortodoxia Oriental, o Anglo Catolicismo... não compreendem que hajam necessidades humanas autônomas face ao que chamamos ética. Não reconhece de modo alguma a pretensão cientificista do positivismo, alardeando que também a ciência - outra ação ou produção humana - possuí limites igualmente ditados pela Ética. Como reconheceria as pretensões de um sistema economicista, cujo fim e o materialismo???

O protestantismo apenas poderia concordar com tais pretensões na medida em que postulou, como observa Maritain, uma salvação sem obras ou ética, desvinculada da imanência ou do mundo natural. O Catolicismo sempre vinculou a redenção a ação ou atuação dos fiéis no mundo natural, físico ou material; em suma ao comportamento, o que certamente engloba a produção da ciência e a administração da produção e distribuição de bens. Nada caí fora do primado da ética. Alegar que a Igreja ou a fé nada tem a ver com isto é distorcer a questão. Não é o Catolicismo uma fé teórica ou um sistema solifideísta, mas uma fé destinada a inspirar e regular as ações humanas e assim a ação econômica, que é humana. Portanto as pretensões do Catolicismo chegam ao Mercado sim e são pretensões reguladoras e limitadoras, alias de um vício que nossa tradição classificou como avareza!

Os padres da Igreja não deixaram a economia florescer livremente, nem os escolásticos, nem Francisco de Assis, nem S Antonio de Pádua, nem a tradição constante e imutável que vai de Morus e Campanella e Mably, Morelly, Meignam, Keteller, Mounier e Maritain, ou seja, ao Catolicismo social. E deste contesto surgiu um sistema dócil e colaboracionista que foi a reforma protestante, quiçá porque a Igreja antiga tivesse sido irredutível e se recusado a colaborar. Foi o protestantismo que batizou as primeiras aspirações economicistas com Calvino e seus sucessores e foi ele a instituição que mais colaborou - ao menos negativamente, por recuo ou omissão - para a afirmação da nova realidade, e isto a ponto de podermos descreve-lo como solidário. Ao contrário da igreja antiga ele não teve poder ou forças para resistir aos ímpetos do novo sistema. E disto surgiu um novo mundo ou uma nova sociedade, não apenas secularizada, mas materialista e economicista, embora teoricamente se apresentasse como Cristã. O que alias condiz com o éthos solifideísta do protestantismo.

Mas era quanto a prática ou quanto as obras Cristã esta Sociedade em que os homens não mais se reconheciam como irmãos? Uma Sociedade em que o amor fora substituído pelo sentido do lucro? Uma Comunidade em que a justiça fora sacrificada ao capital? Uma Sociedade onde o homem foi trocado dinheiro? Uma Sociedade em que irmãos converteram-se em rivais ou concorrentes??? Por mais exata ou correta que fosse esta fé, não vejo como semelhante sociedade pudesse fazer jus ao título de Cristã. O que temos aqui sequer é uma Sociedade pagã, mas uma Sociedade materialista, economicista, desumana, inumana e cruel. O cúmulo da degradação!

Agradeçam por isto o querido protestantismo a que incensam, não a igreja romana e menos ainda as antigas Igrejas Católicas, as quais reguladas pela tradição ancestral e se querem por uma tradição produzida numa cultura rural ou agrária, só podem pensar em termos de solidariedade, o que o capitalismo tem de menos característico. Segundo nossa tradição nem os pobres são vagabundos  - mas frequentemente oprimidos - nem a miséria diz respeito a caridade (mas a justiça cf Aquino) e nem é o exercício da caridade livre mas tão impositivo quanto o da justiça.

E se a fome e a morte resultam de uma má gestão ou de uma má distribuição dos bens produzidos é sobre o homem - que opera por meio da avareza ou da cobiça - que cai esta aberração monstruosa. De que haja fome e morte quando há suficiência de bens para todos. Corresponde isto, inclusive o esforço excessivo e a saúde precária do trabalhador, a um crime ou pecado horrendo e este pecado é pecado social. Praticamente todos somos co responsáveis na medida em que silenciamos ou cessamos de criticar. Caso não nos oponhamos a este regime de morte somos cúmplices. Pergunta o Cristo sobre as almas e corpos de nossos irmãos e não lhe podemos dizer: Que tenho eu a ver com meu irmão??? Porque batizados fomos inseridos num só corpo. Assim não convém quem um membro do corpo assista impassível a fome ou a enfermidade ser experimentada pelo outro. Ser membro de um só corpo implica sentir a dor do outro ou ser solidário.

O neo Católico prostituído no entanto observa os membros de Jesus Cristo, expoliados pela avareza e lançados a sarjeta, como vagabundos, e aparta-se deles, recusando-se a estender-lhes a mão. E caso o denunciemos esse ímpio ousará replicar gritando - Comunista! Se ser Comunista é servir aos pobres, censurar a avareza e indagar sobre as fontes da miséria humana, então é o Comunismo filho do Evangelho e perfeitamente evangélico! O que não é nem um pouco evangélica é a cobiça e a dureza de coração dos neo Católicos protestantizados. Afinal é dever do Católico Ortodoxo - e de quantos se consideram Católicos - considerarem sempre suas posições com relação ao próximo, que é seu irmão, buscando dignifica-los e resgata-los da miséria.

Assim o Católico é levado a promover o irmão ou a investir no homem e não no Mercado. Pois sua poupança ou bolsa de valores esta nos céus, no Reino de Jesus Cristo. Pois seu coração e seu tesouro estão no mundo invisível ou no paraíso. Porque suas economias consistem em servir. Em alimentar, vestir, medicar, visitar, confortar, etc Tal seu ofício e sua vocação. Tal a verdadeira religião, que consiste em socorrer os órfãos e as viúvas em suas necessidades. Se o Católico não trás este sentido quão miserável ele é...

Portanto não é só a experiência da realidade que nos convida a duvidar do sistema estabelecido mas a fé de nossos ancestrais, a qual plasmou nossa cultura, socialista para mim, se quiserem ou fizerem questão - Solidarista, corporativista, humanista, trabalhista, personalista, social, pouco se me dá. Podeis definir a nossa cultura ancestral como quiserdes menos como Capitalista ou liberal economicista e desafio qualquer Católico desonesto ou de má fé a demonstrar-nos a existência de Capitalismo na Antiguidade Cristã, na Alta e mesmo na Baixa Idade Média. Provem ou demonstrem que o Capitalismo afirmou-se em qualquer sociedade Católica antes do advento da Reforma protestante. Estou aguardando há duas décadas por esta demonstração. Do contrário continuarei repetindo com Weber - o liberalismo economicista ou capitalismo é filho ou irmão do protestantismo, nada trazendo em si de legitimamente Católico.

Mas para que levar o tema até ai???

Para demonstrar cabalmente que os defensores do modelo capitalismo estão na contra mão de nossa cultura ancestral - Católica, latina, lusitana e brasileira. Tanto pior caso adicionassem as fontes indígenas e africana. Nenhuma delas sabe a Capitalismo. Destarte temos de avaliar este sistema tão seguro se si, como algo tão estrangeiro e imperialista quanto o Comunismo e o Anarquismo. Ao criticar os Comunistas e ao berrar contra eles o capitalista brasileiro assemelha-se a alguém que busca tirar cisco da vista alheia, tendo um poste na sua. Nossas formas de opressão e dominação, sempre questionadas pela igreja - embora não com a devida intensidade - eram abertas. As formas de dominação capitalistas são ainda mais nocivas e perniciosas porquanto dissimuladas. Afirma-se que há chances ou igualdade de oportunidades a todos quando não há. E o resultado desta crença é a conformidade.

Claro que nosso passado não foi santo, perfeito ou paradisíaco, mas bem poderíamos ter tomado uma outra rota, no sentido do Evangelho ou da Ética proposta por ele. Lamentavelmente o rumo que nos foi imposto de fora para dentro foi bem outro... fortalecendo as cadeias da opressão e multiplicando os males. Certamente não temos mais escravos africanos. Mas temos multidões de descendentes seus 'exilados' num mundo a parte ou numa realidade paralela chamada favela. Quanto aos índios, quem ignorara o estado de penúria e indignidade em que vivem??? E não chegamos as multidões de trabalhadores urbanos assalariados cujos direitos se veem ameaçados dia após dia pelas necessidades econômicas ditadas pelo mercado. O quanto vejo é um povo ameaçado pela servidão e pela mais dura das servidões, ainda que disfarçada.

Diante disto o Socrático se pergunta - Posso criticar o Capitalismo??? E assim o Platônico, o Aristotélico, o Budista, o Confuciano e sobretudo o Cristão, o Cristão Católico e Ortodoxo... e só pode responder de um modo:

Não posso, DEVO. E se não colocar este sistema em dúvida como poderia afirmar-se como Católico.

Termino este breve ensaio concluindo que há mais motivos para questionar o sistema Capitalismo do que supõem o Comunismo.




sábado, 6 de maio de 2017

O sentido da Encarnação: Como Deus sendo absolutamente perfeito torna-se livre e solidário


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Como dissemos no artigo anterior Criação e Encarnação não implicam impossibilidades. Antes implicam uma necessidade interna ditada pela própria essência divina. Donde concluímos que se são absolutamente necessárias é que enriquecem a Deus, antes Deus só é absolutamente perfeito porque produz criaturas e faz-se criatura entre as criaturas... E como não pode ser imperfeito é constrangido por sua própria condição a criar e a fazer-se homem. Deus não podería deixar de faze-lo sem empobrecer-se e tornar-se 'inferior' o que é absolutamente impossível.

Resta saber se de algum modo pode Deus tornar-se livre de alguma maneira e como isto se dá.

Uma vez que corresponde a perfeição do ser criado ser livre ou optar conscientemente pelo bem ou o mal, segue-se que a natureza humana e criada é 'livre' por definição.

Despojado do componente de sua liberdade cessa o homem de ser humano e converte-se em alguma outra coisa qualquer.

Ser livre é parte integrante de nossa condição finita.

Consequentemente ao fazer-se verdadeiro homem e lançar-se no mundo dos homens, Deus torna-se livre ou capaz de experimentar concretamente situações de liberdade no complemento da natureza humana que assumiu e incorporou a si.

Por isso da mesma maneira como atribuímos a necessidade absoluta a natureza divina tendo em vista sua natureza interna coerente e sua perfeição, afirmamos em alto e bom som a existência de vontade dinâmica ou livre arbítrio verdadeiro na natureza humana de Cristo.

Se foi questão de desafio ou curiosidade não diremos. Nós nos contentamos em afirmar que ele aceitou esta nova experiência movido antes de tudo pelo amor, pela bondade, pela generosidade, pela filantropia, pela piedade, pela solidariedade enfim...

Foi - Aqui L Chestov - movido por tão nobres sentimentos que Deus optou por sair de si mesmo, por abandonar a estabilidade, a bem aventurança, o conforto o comodismo, e experimentar aquela situação de desconforto, sofrimento, dor e drama representada pela Cruz. Afinal como observou Raskolnikoff todos os mortais nascem já sob este signo.

O fato é que diante do drama de nossa existência não quis a divindade omitir-se ou permanecer na platéia observando e aplaudindo. O Deus dos Cristãos e aqui esta sua beleza ímpar, o Deus da Igreja Ortodoxa e da fé Católica não é Deus insensível as situações de miséria e por isso quis irmanar-se e identificar-se ao máximo conosco. Quis se Emanuel ao invés de ficar tudo observando de oitiva como o tal ser absolutamente transcendente dos judeus e muçulmanos...

Nada mais cruel do que assistir impassivelmente o drama de nossa condição sem fazer-se participante ou ator. O deus semita permitam-me dizer francamente é mero espectador. Esse fantasma descarnado não sofre e furtando-se de sofrer não é capaz de consolar os sofredores. No Deus encarnado entre os homens apenas, no Deus que assume o encargo de caminhar conosco, no Deus do Evangelho, neste apenas temos um companheiro. Um Deus companheiro, coisa maravilhosa esta!

Este Deus lança-se no mundo dos homens e aceita o desafio de ser livre em sua natureza humana.

Aceita o desafio da liberdade.

Como não pretendo discorrer sobre meandros de alta teologia, furtar-me-ei de abordar as decorrências da liberdade da pessoa única de Cristo Jesus. É assunto de alta teologia, indigesto e enfadonho para muitos e incomodo alias para a maior parte dos Cristãos, ao menos inconscientemente docetas, maniqueus, monofisitas, monotelistas... Sempre tentados a mutilar, reduzir ou obscurecer a natureza humana de Cristo. Sabemos no entanto que é verdadeiro homem e se não levamos esta certeza até o fim destruímos o padrão de nossa fé que é a Encarnação. Deus só se encarna de fato caso se torne integralmente homem, sem restrições.

Homem em tudo semelhante a nós menos no pecado.

Portanto homem quanto ao corpo físico com seus processos e necessidades e homem quanto a liberdade com seus dramas mais íntimos.

Temos de assumi-lo, é necessário.

Não da mais para manter a piedosa farsa, oriunda da mitologia, a respeito de natureza pré adâmica ou pré pecado diferenciada com seu corpo de luz ou impassível. Tudo isto não passa de um delírio insano!

Tudo quanto pretendo aqui, por meio deste breve ensaio, é deixar bem claro e bastante claro é que o Deus Cristão mergulhou de cabeça no grande drama de nossa existência, a qual consiste em optar entre o bem e o mal, o perfeito e o imperfeito, o melhor e o medíocre, o superior e o inferior... Encarnado teve a natureza de Jesus que tomar decisões, as quais certamente não foram nem um pouco fáceis.

Segundo o critério da fé e piedade teve de abster-se do mal e do pecado. Sendo homem entre os homens não pecou... O que certamente toca ao heroísmo. E mais uma vez revela-nos a 'ponta' deste drama. Podia pecar, certamente foi solicitado ou tentado (Ser tentando sem consentir não é pecar!), mas não cedeu e não pecou. Tomou as decisões mais certas e convenientes convertendo-se em ideal utópico de perfeição para os mortais e ensinando-nos sobre como devemos agir e viver. Ministrou-nos as mais elevadas lições de éticas não apenas com os lábios ou com a boca, mas sobretudo com aquele amor que converteu-o num exemplar vivo do Evangelho que pregava e num compêndio ambulante de todas as virtudes!

Não era boneco ou marionete, vazio de espírito e controlado pela divindade. Era ser livre que livremente aceitou morrer e sofrer na Cruz obedecendo a um desígnio eterno: Atrair, persuadir, convencer e recuperar o ser humano através da manifestação de seu carinho infinito. Aspirou morrer para demonstrar o amor, que nos amava, que estava junto conosco, que se preocupava conosco, com nossa situação e condição. Cruz é isto - Não punição absurda e sádica imposta por qualquer outro poder superior (Segundo a fórmula blasfema - deus mata deus para aplacar deus) - símbolo ou prova de amor e cuidado. Caso o martírio não fosse livremente aceito onde ficaria o amor? Caso não fosse voluntario mas imposto por um poder supremo como conservaria seu profundo sentido?

A natureza Humana sempre pode furtar-se a solução final e por isso pouco antes de ser suspensa - No exercício da liberdade e esmagada pela dor - rogou a natureza Divina: Aparta de mim este cálice, emendando-se logo depois: Conformo esta minha vontade com a tua! Mas instante antes havia hesitado e manifestado desconformidade (Provocada do medo causado pela experiência da dor), justamente porque era livre e não manipulado ou controlado pela divindade.

A natureza humana conserva-se sua integralidade e autonomia e Jesus sobe o calvário por livre decisão. Optou por tomar a Cruz ao invés de recebe-la. Não foi imposição foi decisão e esta decisão deve ter sido mais dolorosa do que a própria Cruz ou ao menos igual. Pela contemplação do futuro a experiência dolorosa da Cruz já se antecipa a mente do mártir e até podemos dizer que desde o primeiro instante em que se fez homem sentiu a presença e o travo da cruz antecipadamente e que sua vida foi em certo sentido um martírio lento e uma subida paulatina ao monte do Gólgota.

Mais a natureza humana deve ser abandonada a si mesma e ao sofrimento não para que pague qualquer coisa ou aplaque qualquer coisa, mas apenas e tão somente para chegar as últimas consequências do amor e mostrar para os homens mortais que amar concretamente jamais e fácil, que implica decisões, limitações, sofrimentos, dores, sacrifícios e o que é pior - Tudo livremente aceito e racionalmente considerado.

Adianta-se Jesus e dá um passo a frente face ao drama de uma existência livre posta entre o bem e o mal, a abnegação e o egoísmo, o comodismo e o sacrifício. Mas como podemos fazer o que é certo se estamos sós? Como obedecer a lei eterna ou ao imperativo divino? Como exercer a virtude? Olhando para a cruz e contemplando o exemplo dado pelo próprio Deus que se faz companheiro. Nada impossível, absolutamente impossível ou utópico se a brecha dessa senda foi aberta por Jesus. Se ele tomou a dianteira e foi a frente. Não, o Deus Cristão apenas, e tão somente ele não exige de nós algo que não tenha ele mesmo feito. Por isso assumiu a livre vontade e submeteu-se a lei eterna da consciência. Não se trata de um deus demagogo, que muito exige sem nada fazer... Mas de um Deus educador e presente.

Resta-nos por fim esclarecer como e porque este Deus se manifestou visível e fisicamente na carne, uma vez que estava já presente no mundo, não ausente e separado. Então temos de saber como e porque já estava presente no mundo!

O que deslindaremos no último artigo desta série.

Da correta doutrina de Deus, a necessidade e a liberdade

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Ao nobre amigo S C 'Ab imo pectis'

"Nem os homens, nem os anjos são livre, apenas Deus é livre." tais as palavras escritas pelo 'deformador' protestante M Lutero há quase quinhentos anos. Quiçá uma das frases mais idiotas que tive a oportunidade de ler durante toda vida.

Deus não pode ser livre. Nada mais absurdo e ridículo do que a ideia de um Deus livre.

E no entanto para Agostinho, Maomé, Lutero, Calvino e muitos outros até hoje, Deus fica sendo livre. Pois sua onipotência implica a possibilidade de fazer o mal, prevaricar e pecar; embora o Prologo de S João seja absolutamente claro:

"Deus é luz e nele não há treva alguma."

Não há nem pode haver e por isso foi referido a respeito de sua natureza humana e livre:

"Em tudo semelhante a nós, menos no pecado."

Nem se compreende, nessa teologia rudo, grosseira e imbecil, que possa Deus ser princípio do mal e do pecado e sua natureza humana deva se abster de pecar. Caso Deus tenha liberdade para fazer o mal, Jesus bem poderia ter pecado.

E no entanto, como vimos, nega a Escritura canônica que o Mestre amado tenha pecado, e por que? Porque parte doutro princípio, a doutrina da santidade, segundo a qual - Em que pese a Onipotência divina - é impossível que Deus peque.

De fato a piedade nos obriga a crer que é impossível que Deus faça o mal e ao mesmo tempo que é onipotente. Algum mistério insolúvel e ocioso aqui? Alguma paralogia irracionalista ou contradição de termos?

De modo algum...

Mas como?

A questão até pode ser mais simples do que parece.

Judeus, pagãos, agostinianos, maometanos, luteranos, germânicos, calvinistas e outros tendem a encarar a divindade como um Poder ou reduzir Deus a uma força cega. Mutilam a Natureza e precipitam-se no abismo de um reducionismo irrefletido. Nós sem desconsiderar a força ou poder da divindade consideramos as qualidades ou capacidades divinas em seu conjunto e hierarquicamente. E portanto consideramos sua bondade, amabilidade, generosidade, inteligência, perfeição, etc

Não é Deus mero poder ou poder cego como creem os povos bárbaros ou primitivos. É acima de tudo e antes de tudo uma mente, uma consciência ou um Logos racional. Uma mente ou consciência que comanda e administra um poder.

Resulta disto ser a divindade um 'ser' coerente e não polimorfo, tenso, dividido, conflituoso, confuso, contraditório, mutável, sujeito a variação...

"É assim Deus imutável e sem sombra de variação." segundo a pena apostólica.

Nada arbitrário ou caprichoso...

Um deus mutável não pode existir.

Ressalta de tudo isto que é Deus regra imutável e inflexível de vontade para si mesmo. A coerência é Lei interna, eterna e divina presente na Natureza.

É bom insistir nisto porque 'cristãos' houveram que atreveram-se a poluir a divindade atribuindo-lhe dupla vontade, uma manifesta e outra oculta, como há aqueles que atribuiram vontades contraditórias as pessoas da Santa Trindade, plasmando três deuses e tornando-se politeístas ou triteístas. Assim aqueles cegos que sustenta ter deus matado deus para aplacar deus...

E no entanto a vontade da Santa e Divina Trindade é Una e comum, como coerente e imutavelmente fixa no Bem.

Não falta a divindade força e poder para fazer o mal ou para pecar.

De modo que teoricamente deus até pode fazer o mal...

O problema aqui esta situado no plano da volitividade: É Deus livre? Pode Deus querer o mal?

Aqui nossa resposta é negativa.

Deus, sendo imutável e sem sombra de variação, absolutamente perfeito e lei de si mesmo não pode oscilar e querer o mal. Não pode Deus querer ou desejar pecar. Em seu íntimo o Deus Bom e Santo ODEIA ou mal e o pecado e não pode fazer aquilo que odeia.

Então por que o mal existe?

Por que Deus permitiu o surgimento o manifestação do mal?

Por que esse Deus santo não impediu a manifestação do mal?

Por que o Deus Bom não aniquilou ou exterminou o mal?

Estas perguntas não são novas e já foram feitas pelo sábio pagão Epicuro.

Não elimina o mal do mundo porque o mal no mundo é obstáculo provisório e não definitivo ou perpétuo posto por si com determinado objetivo. Já o veremos.

Assim o que constitui a perfeição na Santa Divindade, que é não ser livre, já não constitui a perfeição nos seres criados.

A perfeição nos seres criados procede justamente da indeterminação, da oscilação, da mutabilidade, da variação ou do livre arbítrio. Ser perfeito enquanto ser criado e contingente implica ser livre.

Foi a natureza criada concebida como passagem livre e meritória da imperfeição para a perfeição. Foi criada imperfeita para tornar-se perfeita.

Agora como se torna perfeita?

Deve, pelo uso da racionalidade, o ser livre, passar voluntariamente do mal ao bem ou do vício a virtude. Deve repudiar livre e conscientemente o pecado e abraçar a lei eterna e imutável do amor.

Perceba portanto, caro leitor, que a existência PROVISÓRIA, do mal e do pecado existem em função do mérito. Só o ato ou opção livre é meritório.

Logo qual o motivo porque existe o mal no mundo?

Imaginemos uma corrida de obstáculos. Os obstáculos tendem a tornar a corrida mais difícil e aquilatar a competência dos atletas. E por isto são postos na pista enquanto dura a corrida. Encerrada a corrida e iniciada a premiação são os obstáculos removidos e não ficam postos na pista ou na rua para sempre. São elementos provisórios, pois sua função se esgota com a corrida.

Assim a presença do mal no mundo é provisória tendo em vista a educação do ser racional e a obtenção do mérito. Não se trata de evento cósmico ou eterno que a divindade deva suportar para sempre ou que não se vá extinguir. A luz da fé Cristã, Católica e Ortodoxa - na perspectiva do Evangelho e do grande Expositor alexandrino - estamos plenamente convencidos de que o mal haverá de extinguir-se por completo quando todas as criaturas racionais compuserem-se livremente com a vontade divina que é a lei, norma e regra do bem, do amor, da justiça, da verdade e da beleza. Quando todos forem atraídos a cruz e reconciliados com Cristo e pelo Cristo o mal - Enquanto puro se simples desvio da vontade ou fenômeno Ético - cessará de existir. É a está extinção ou aniquilação do mal e do pecado que parte do exemplo oferecido por Cristo Jesus, que cognominamos redenção, embora possamos chama-la de evolução ou educação.

Implica saber que na economia Cristã o mal cessará de existir pois: "Todas as coisas ficam reconciliadas por ele e sua cruz." Todas as coisas, não algumas ou parte delas. Mesmo porque a vontade de Deus consiste em que "Todos os homens sejam salvos e passem a luz da verdade." todos, não alguns, poucos ou uma parcela. Deus não lida com parcelar ou individualidades e por isso seu plano ou projeto consiste na redenção da espécie ou gênero humano, sem acepção de pessoas, pois é impossível que Deus, amando a todos aqueles que criou, faça acepção de pessoas. Sendo Pai perfeito ama igualmente todos os filhos...

Portanto não é Deus livre para fazer as coisas totalmente diferentes?

Ser livre implica decidir entre o bem e o mal.

Ora Deus é o Sumo Bem... Como pode ser livre?

Ser livre implica escolher entre o perfeito e o imperfeito (Em sentido absoluto). Como pode aquele que é perfeito amar a imperfeição e escolhe-la?

Ser livre consiste em optar entre superior e inferior. Mas como pode Deus desejar agir com inferioridade?

Bem se vê que todas as hipóteses acima sejam monstruosamente aberrantes e que só se sustentem a partir da perspectiva irracionalista. Ficando nossa esperança louca e totalmente desamparada pela razão.

A piedade nos obriga a proclamar que Deus, por sua condição ou natureza, é obrigado ou constrangido a fazer sempre o melhor e a optar sempre e NECESSARIAMENTE pelo mais perfeito. Pelo simples fato de ser absolutamente perfeito e inteligência infinita.

Pode de fato estabelecer algumas situações de imperfeição nos seres criados. Desde que estejam postas para aquisição da perfeição, numa perspectiva evolutiva, de aprimoramento paulatino. Não estabelecer situações definitivas e insuperáveis de imperfeição, sem com isso tornar-se contraditório, confuso, problemático, etc Aquilo que é perfeito, perfeitamente deve agir.

Ora esta ideia suscita algumas reflexões no mínimo interessantes que buscarei expor com máxima brevidade:

  • A produção de criaturas ou o processo Criador não é livre mas absolutamente necessário. Corresponde a uma necessidade que deriva da própria Natureza divina. Não poderia Deus ser Amor ou Bondade infinitas caso não aspirasse partilhar sua felicidade infinita com uma multidão de seres criados. Nem poderia ser benevolente, generoso, filantropo, magnânimo, etc sem faze-lo. Sendo 'amor' foi Deus levado a partir e a repartir-se por meio da criação. A conceber seres capazes de comportarem o dom da bem aventurança ou de serem sumamente afortunados. Foi eternamente constrangido por seu amor a criar. Por isso o ato criador ou processo evolutivo é continuo e eterno, e disto resulta necessariamente um enobrecimento do próprio Deus. O qual concebeu processo tão complexo e viabilizou com competência absoluta.
  • O ato de ENCARNAÇÃO é absolutamente necessário, Deus não poderia ter deixado de fazer-se homem entre os homens encarnado-se neste planeta. Admitindo a manifestação livre do mal e do pecado neste mundo, sabida desde toda eternidade por Deus; temos de admitir a necessidade da Encarnação como melhor modo ou maneira (A mais perfeita e portanto a única digna de Deus) para recuperar ou reeducar este mundo e dispo-lo a retomada de sua evolução. Nem poderia Deus existir e ser concebido - Num mundo como o nosso - sem que sua manifestação na carne fosse absolutamente necessária, pelo simples fato de manifestar sua solidariedade e enquanto tentativa (Feliz e bem sucedida) de conquistar este homem para si.
  • O momento da Encarnação não foi escolhido aleatoriamente, mas determinado e rigorosamente determinado desde todas eternidade tendo em vista uma conjuntura espacial e temporal ou geográfica e histórica singular. Deus só poderia ter se encarnado na Judeia ao tempo de Augusto César de modo que seu desígnio neste mundo fosse perfeitamente realizado. Entrando sua manifestação e sua Igreja no curso da História não de modo improvisado mas calculado. Disto resulta ter Deus escolhido o cenário da cultura judaica daquele tempo pelo simples fato de desejar ser julgado, torturado e morto como foi. Esta condição não decorreu da maldade dos antigos judeus nem implica qualquer tipo de desonra para os atuais judeus, mas da cultura. Este choque entre visões e concepções culturais distintas ou entre as massas fanáticas enfurecidas e o genial revolucionário divino era absolutamente necessário para que ele perecesse nas circunstâncias em que desejou perecer. Assim os antigos hebreus, mesmo inconscientemente realizaram um projeto divino. Pois Deus devia mesmo sofrer e morrer para manifestar sua solidariedade aos mortais e mostrar-se companheiro. Aos judeus não resta culpa alguma. Os antigos realizaram a única coisa que poderia ser feita... Os de hoje são inocentes e livres. Todavia o propósito de Deus ter se encarnado ou manifestado na judeia foi ser supliciado na Cruz e os antigos judeus foram escolhidos exatamente para isto, não porque fossem de condição superior, melhor ou mais civilizada (Como supõem os sionistas com a aberrante doutrina do 'povo eleito) mas justamente porque eram de condição mais rude, grosseira e incivilizada. Esta característica é que predispôs tal povo a seu excelente desígnio. A Cristandade irracionalista e estúpida é que tem oscilado, se Deus de fato quis ser torturado e morto e os judeus colaboraram com ele, os judeus são mesmo nossos benfeitores, benfeitores da humanidade.



    No próximo artigo, examinaremos o único modo ou maneira porque o Deus Perfeito podería ter experimentado a Liberdade e já adianto que só poderia tornar-se livre fazendo-se homem ou encarnando-se entre os homens deste mundo. Eis porque a Encarnação se torna ainda aqui necessária. Mais uma vez.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

As opiniões do sr Lebeziatnikoff

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As opiniões do sr Lebeziatnikoff de 'Crime e castigo' (Dostoevsky) fizeram-me recordar S Freud.

Mestre, não se incomoda de que os nazistas estejam a queimar seus livros?

Freud - De modo algum. Certamente progredimos muito pois a cem anos teriam queimado a mim.

E no entanto que palavras ousadas são postas por Dostoevsky na boca de um homem de 1860! (O livro foi editado em 1866).

Tão ousadas que século e meio depois continuam a escandalizar os leitores de 2017!!!

Para quem não sabe Lebeziatnikoff é revolucionário e amigo das ideias novas. Aspira reconstruir a Sociedade noutros termos, em marcada oposição aos valores tradicionais.

Um dos aspectos mais interessantes de seu discurso é o amor livre definido como especie de relacionamento ou casamento aberto em que tanto o homem quanto a mulher mantém (ou melhor adquirem) a liberdade sexual.

Nosso homem lá nos confins da Rússia imagina que tudo isto seja extremamente anti Cristão. Sem saber que do outro lado do Oceano (nos EUA) a tese era defendida justamente nos círculos Cristão liderados por Noyes e Lazarus.
Passemos sem delongas as palavras do jovem revolucionário russo:

"Nós procuramos a liberdade da mulher e o sr cogita apenas em... Pondo de lado a doutrina da castidade e do pudor femininos, como inúteis e absurdas, admito perfeitamente as reservas dela diante de mim, visto que assim usa de sua liberdade e exerce seus direitos. Mas caso me dissesse: Quero que sejas meu. Sentir-me-ia feliz, porque essa moça agrada-me muito... Jamais fizeram justiça as qualidades dela. (Refere-se a prostituta Sonia)" p 372
"O senhor ri porque não tem a força necessária para romper com os preconceitos. Compreendo que no contesto da união monogâmica e legítima constitua afronta ser enganado, é resultado da própria situação que degrada da mesma forma os dois conjuges. No entanto quando a ideia de posse for removida e estabelecido o relacionamento livre o adultério é que deixará de ter significado. Só assim a mulher demonstrará que ama o parceiro no momento mesmo em que ele deixar de por obstáculos da felicidade dela e até poderá prender-se livremente a ele. Julgo as vezes que se casado fosse - Livre ou legitimamente não o importa - e se minha mulher não tomasse amante, eu cogitando em sua maior felicidade, é que haveria de procura-lo, e dizer-lhe: Minha querida, eu te amo e por isso quero que o saibas - Eis o que te ofereço livremente..." p 379


Veja bem o que você acabou de ler, leitor do século XXI, numa obra escrita em 1866...

Se não compreendeu o aspecto revolucionário destas palavras que atravessam os séculos leia mais uma vez ainda.

Porque ainda hoje são afrontosas, escandalosas, revolucionárias, imorais, etc século e meio depois. Ao menos para a imoralidade convencional.

Refiro-me as relações de posse ou monopólio que não sejam - e quão poucas são - produto do amor e da decisão livre. Pois a maioria delas é produto do egoísmo e da fraqueza, alimentados pelos preconceitos. As pessoas se conformam - aparentemente - com a monogamia e com a indissolubilidade tendo em vista a opinião alheia ou a crença da maioria. E adotam, por falta de coragem e dignidade, um modelo de família, que lá no fundo, bem no fundo, aborrecem.

E pela repetição e pelo costume até acabam achando bonita toda essa falta de dignidade.

Claro que não me refiro aqui aos que adotaram esse modelo livremente tendo em vista suas necessidades psicológicas. Mas apenas aos que limitaram-se a aceita-lo externamente, por mera pressão social... Enfim aqueles que sentem ter abdicado de suas liberdades face a imposição alheia e arbitrária. Aqueles que sacrificaram a consciência...

Quantos e quantos ainda hoje não aderem a casamentos ou uniões aparentes apenas para satisfazer a opinião pública ou ludibria-la. Que pode haver de mais abjeto?

Que pode haver de mais indigno e asqueroso do que essa febre de traições e adultérios que prolifera por trás da quase totalidade de casamentos monogâmicos e indissolúveis, nos quais homem e mulher cogitam antes e acima de tudo sobre a melhor maneira de enganar o outro!

Eis o reinado abjeto, asqueroso e imundo da hipocrisia.

Não estou aqui a decantar contra a existência de uniões estáveis desde que verdadeiramente livres. Não, de forma alguma. Até concedo que sejam viáveis senão essenciais a certas estruturas psicológicas.

A questão aqui não é a companhia ou o amor. Mas o próprio sentido do amor com relação ao sexo.

Afinal traição só faz sentido se há posse ou monopólio.

Atraiçoo a alguém caso pertença a alguém.

Agora se pertenço a alguém certamente sou propriedade de alguém e alguém proprietário (a) meu...

Ah mas um pertence ao outro... A relação de posse e propriedade é recíproca.

Mas desde quando uma situação deixa de ser abjeta pelo simples fato de ser compartilhada?

Desde quanto escravidão, assassinato, roubo, etc convertem-se em ações virtuosas desde que compartilhadas?

Desculpem-me os leitores mais susceptíveis mas tenho de dizer: Caso o ser humano possa ser mesmo propriedade de outro ainda estamos lá no tempo do - Não cobiçaras a tenda do teu próximo, o boi do teu próximo, a ovelha do teu próximo, a MULHER do teu próximo... Porque ainda aqui, homem ou mulher já não se distinguem em nada de quaisquer outros objetos de posse, assim da mesa, da cadeira, do sofá, da televisão, do cavalo, do camelo...

Posso compreender que o homem entre na legítima posse pessoal da terra por ele trabalhada e dos objetos que adquiriu a partir do produto de seu trabalho. Pois trata-se daqui de elementos desprovidos de racionalidade e de vontade própria. Uma cadeira não tem consciência de si mesma, uma mesa não pode dispor de si mesma...

Agora como podemos entrar na posse de um ser racional e livre, exceto ele conceda em tal relação sem ser pressionado por qualquer fator de origem externa a si. Ora até hoje os homens e mulheres tem consentido em ser monopólio de outros apenas por força de uma lei externa ou de preconceitos sociais.

Dai a necessidade de desregular o matrimônio e torna-lo absolutamente livre para torna-lo verdadeiro e saber em que medida as pessoas aceitarão livremente ser monopólio de outras. Uma coisa porém é absolutamente certa: Pessoa alguma deveria ser obrigada, por lei alguma, a tornar-se objeto de posse de outra pessoa.

Não somos contra a posse ou o monopólio, desde livre e sem qualquer interferência social ou estatal. Para que o matrimônio monogâmico ou indissolúvel adquira a respeitabilidade revindicada por seus defensores, deverá ser livre. Imposto mostra-se falacioso. Os homens burlam as leis, enganam-se uns aos outros, criam um reinado de hipocrisia, envenenam as fontes da ética e tudo termina em chalaça.

Pessoas há que mesmo aspirando por companhia e amando a pessoa com que vivem não aspiram por essa posse, controle ou monopólio sexual, encarando tal posse como absurdamente ridícula. Tais pessoas não confundem o sexo ou o prazer sexual com o sentimento ou o amor e não misturam uma coisa com a outra. Por isso não se sentem desonradas quando o marido ou a mulher notifica que deseja sair com fulano ou beltrano. Muito pelo contrário mostram-se felizes pelo simples fato da pessoa a que amam ter acesso ao prazer e ser feliz, e chegam ao ponto de se sentirem gratas aquele ou aquele que proporciona prazer ao objeto de seu amor. Pelo simples fato de amarem... Porque amo verdadeiro não conhece limite.

Amar já foi dito não consiste em buscar a própria felicidade mas em buscar a felicidade do outro ou por a própria felicidade na felicidade alheia, como que empenhando-a. O que certamente excluí a posse, o controle, o ciúme, etc Pois tudo isto é opressão e nada disto é amor.

Direi mais: Uma hora a busca pelo prazer sexual chegará ao fim. A multiplicidade de vivências ou experiências sexais trará certamente a saciedade. O amor, a estima, o companheirismo, o vínculo criado, apenas isto permanece para sempre. Nada mais delicioso do que uma pessoa sendo livre oferecer-se exclusivamente a outra... Isto sim é que se chama conquista. O resto não passa de prisão.

.....................................

Tais os sentimentos e opiniões de Andrei Semyonovitch Lebeziatnikoff... enunciados em 1866!




O Svidrigailoff de crime e castigo


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Torquemada e João Calvino, ambos os dois, correspondem ao tipo ascético, que desconfia dos prazeres, alegrias e divertimentos comuns a esta nossa vida. Vida que para eles sabe a morte...

Da existência enxergam apenas a cruz. Sem perceber que uma boa dose de vinho com mirra é necessário para suporta-lhe o peso...

Coisa curiosa de ser ver. Como o asceta e capaz de tornar-se desumano e cruel, e consequentemente de cometer a maiores vilanias, como matar, torturar e oprimir em nome de Cristo, de Deus e da fé...

Na mesma medida em que torturam a si mesmo tornam-se insensíveis a sofrimento alheio e perfeitamente capazes de torturar os demais em nome de Jesus ou da religião...

Talvez por puro e simples amargor seja levado a assassinar e fazer sofrer.

Talvez porque a alegria experimentada pelo outro incomode-o ainda mais do que a auto privação. Quem sabe?

Só sei que o mesmo homem que prostrado ao chão vive mais de jejum do que de qualquer outra coisa, é bem capaz de esfolar o adversário até a morte ou de abrir-lhe o ventre e queimar-lhe as tripas sem soltar um suspiro ou derramar uma única lágrima.

O asceta é capaz de matar e de torturar em nome de Deus acreditando exercer uma ação sagrada. Acredita ser uma espécie de soldado ou miliciano a divindade. Talvez acredite, em sua ingenuidade, ser capaz de defender aquele que adora...

Tendo eliminado seus sentimentos e substituído o coração por um pedaço de pedra será um psicopata?

Quem saberá ou poderá dize-lo?

Intolerante consigo mesmo segundo as exigências da virtude, torna-se muito facilmente intolerante face aos outros desvirtuando a fé que o anima.

O mesmo mistério que o faz verter as mais sinceras e doridas lágrimas aos pés do divino crucificado, impede-o de chorar por uma criança acusada de 'blasfemar' contra seus pais, ou contra um idoso suspeito de heresia...

As feridas e chagas de um pecador ou herético conduzem-no ao paroxismo do ódio.

Que é a fome, a nudez, a miséria ou a enfermidade para ele em comparação com o pecado ou a heresia?

O que voluntariamente assume até o heroísmo não pode atinar que imposto pela natureza constitua peso para os demais...

E seu sadismo chega a ponto de não compreender que o sofrimento cause sofrimento aos outros, ao invés de delicia-los.

O asceta não pode encarar todos os demais homens ou todos os cristãos senão como ascetas e amantes do sofrimento. Não pode compreender como alguém possa fugir a determinadas situações de sofrimentos, mesmo quando lhe é dado ler no livro santo: Assim fugi de cidade em cidade...

Para ele furtar-se ao sofrimento já é, em si mesmo, um gravíssimo pecado.

O sofrimento deve ser amado e buscado com sofreguidão...

E este homem jamais busca ou buscará remover os sofrimentos do mundo ou transformar este mundo num lugar melhor.

A simples ideia ou pensamento de que o ato gerativo comporte certa medida de deleite ou prazer a que chamamos orgasmo transtorna a mente deste homem devoto.

E ele não pode encarar a sexualidade humana como algo natural ou decente.

Tanto os sentidos quanto o corpo físico se lhe apresentam como obstáculos reais a salvação. Sendo mais aconselhável e seguro nega-los. Pelo que chegamos ao maniqueismo ou ao puritanismo... Ideologias segundo as quais a dimensão sexual do ser humano é sempre suspeita ou menosprezada.

O asceta rebela-se contra tudo quanto seja humano e vital; assim contra a alimentação, a comida, a bebida; mas sobretudo quanto o orgasmo. Aquelas devem ser limitadas ao mínimo possível e este negado... O que só é exequível caso o corpo seja torturado ou sofra.

É necessário torturar o próprio corpo por meio de exercícios ascéticos tendo em vista mante-lo submisso e até onde é possível alheio as necessidades mais básicas, como comida, bebida e orgasmo.

Evidentemente que todo este esforço colossal fazem deste homem um neurótico e infeliz. Triunfa de suas necessidades básicas mas a que preço? A que custo? Ficando sua mente destroçada e sua personalidade destruída.

Eis porque a simples visão da felicidade alheia basta para exaspera-lo.

Este homem morigerado cuja carne de aço e o coração de pedra sente-se vivamente incomodado pela contemplação daqueles que vivem segundo a natureza, demandando alegria e contentamento.

Este homem heroico e atilado não pode suportar a simples ideia de que hajam pessoas de bem com esta vida...

Quer que todos sofram, voluntariamente, ou...

E tem disposição, céus eternos, não a torna-las felizes, mas a faze-las sofrer como ele mesmo sofre. Sem compreender - Ele jamais compreenderá isto - que o sofrimento só possuí algum valor quando livremente assumido, jamais quando imposto pela natureza ou por qualquer outra situação.

Coisa monstruosa e tremenda; o asceta fazendo a volta do parafuso, chega a acalentar um sentido ou sentimento visceralmente anti cristão e anti humano.

O ascetismo desvinculado do amor não poucas vezes assume caráter de puro sadismo. Perde o foco e degenera...

Daí os Torquemadas e Calvinos sempre dispostos a queimar pessoas (!!!) tendo em vista seus pecadilhos sexuais.

Perceba o leitor que eles acreditam ser lícito torturar e cometer assassinato com o objetivo de penalizar os pecados da carne...

E no entanto, a própria lei divina, classifica o assassinato como constituindo o pecado mais grave. Então como é possível punir um pecado mais leve por meio de um pecado mais grave???

Apelando a devassidão alheia eles justificam o supremo pecado, do morticínio. E violam sem maiores cerimônias a lei que julgam honrar...

Evidentemente que eles consideram os pecados sexuais mais graves do que o pecado contra a vida ou o assassinato...

E no entanto, quanta miséria, até mesmo a lei carnal dos antigos judeus condena em primeiro lugar o assassinato.

Curiosa a mentalidade da profanação. Homem algum jamais pretendeu honrar a Deus por meio de seus 'pecadilhos' sexuais, os ascetas e juízes no entanto, acreditam ser possível honrar aquele que decretou: 'Não mataras' matando em seu nome...

É a propósito de tudo isto que vem Svidrigailoff. 
Raskolnikoff e Dounia dedicam-lhe o mais vivo horror pelo simples fato de ser femeeiro ou promíscuo; buscando enredar as mocinhas indefesas em seu laço e desgraça-las.

Acusaram-no de ter assassinado Marfa Petrovna. Sem que no entanto haja qualquer prova neste sentido.

Alias tendo-se endividado e ameaçado pelo credor, foi, por assim dizer 'comprado' por Marfa Petrovna. A qual certamente jamais viera a amar.

Alias a própria Marfa sabendo-se mais velha e conhecendo os ardores do moço, autorizara-o a andar com as camponesas. As quais certamente não podia encarar como ameaçadoras... e a cuja honra ligava muito pouca dignidade.

O homem é isto, devasso, luxurioso, promiscuo, mas... de modo algum hipócrita. Alias é o primeiro a denunciar-se. Não tem a si mesmo em conta demasiado elevada. Sabe que leva vida escandalosa e assume esta vida ao invés de oculta-la, Viciado e vicioso o homem não tenta justificar-se.

Por fim este homem vem a travar conhecimento com a 'virtude', representada por Dounia. A qual além de chama-lo a correção mostra-se intransigente face a suas insinuações e propostas.

Tal a virtude é bela e sedutora. Vindo este homem devasso e promíscuo a amar a irmã de Raskolnikoff. Dirá o leitor que é amor de interesse ou paixão, fogo de palha ou qualquer coisa parecida. Já o veremos...

O fato é que a professorinha provinciana não sai de sua cabeça.

E viúvo parte em seu encalço com destino a S Petersburgo.

Agora que pretende este homem devasso?

Uma aventura, uma noite de amor, um caso, mais um orgasmo ou qualquer outra coisa?

Haverá um sentido de vida nisto aqui? Sim, pois este homem encarado com horror por Dounia e Raskolnikoff é devasso declarado.

Pode portanto haver ou surgir algo de bom em seu coração?

A pergunta é pertinente porque segundo o tribunal dos maniqueus e puritanos este homem é réu do pecado mais abominável e sujo que se pode conceber, a ponto de nada existir de bom ou digno nele.

Veja o caso já citado de Sonia. Basta que tenha vendido seu corpo ou se prostituído para ficar sendo uma perdida, imunda, suja e indigna... A ponto de pessoa alguma, além do 'afetado' Raskolnikoff enxergar algo de bom nela.

Os demais oprimem seus empregados, praticam agiotagem, mentem, convivem lado a lado com a mais extrema miséria, seviciam animais... Sem que apesar disto inspirem repugnância aos bons Cristãos... Como inda hoje a miséria, a fome, a guerra, a injustiça e outros pecados são encarados com suma complacência ou seja como coisa trivial ou comum.

Apenas os 'pecados' sexuais despertam indignação nas pessoas...

É todo um sentido maniqueista ou puritano socialmente compartilhado.

Tudo é permitido exceto os pecados do sexo.

Pelo que Svidrigaliloff fica sendo um pária ou um verme isento de qualquer qualidade ou virtude. Aos olhos do tempo converte-se em alguém essencialmente mau...

E no entanto podendo ter estuprado Dunia este execrável homem permite que a moça se vá embora e escape a suas mãos.

É, como dizem, um devasso, homem desprezível, vil, torpe e hediondo. E no entanto, ao tornar-se consciente de que não era correspondido por aquela que viera a amar e não ousando viola-la, ao invés de ir buscar consolo noutros braços ou num copo de vodka, este homem, esmagado pela desilusão amorosa, põem fim a vida estourando os miolos!

Eis o drama! Este homem, considerado torpe e pervertido, após abster-se de estuprar e bem podendo afogar as magoas num copo de vinho ou nos braços de uma prostituta opta por sair da vida pela porta dos fundos.

É o quanto nos basta para divisar algo de bom nas entranhas de sua alma.

Afinal quantos homens honestos, virtuosos, controlados, morigerados, etc não teriam violado a pobre moça ou qualquer outra por simples crueldade ou vaidade após um saque feito a cidade após uma guerra? Acaso todo os estupradores que se aproveitaram dos saques e guerras no passado eram promíscuos ou devassos??? Temo que não... Há muita maldade oculta por trás da boa aparência, como também há bondade oculta por trás da maldade atribuída pelas homens!

Direi mais e irei ainda mais além.

Quantos homens virtuosos, morigerados e ascéticos tem se mostrado insensíveis face aos clamores dos órfãos, do estrangeiro e da viúva? Mostrando-se incapazes para exercer mínimo ato de caridade, como oferecer um copo d água ou uma códea de pão a quem tenha sede ou fome???

Quantos desses 'santos' segundo as aparências ou desses heróis aplaudidos pelo mundo tem se mostrado insensíveis face aos apelos do Mestre: Tive fome e me destes de comer, tive sede...????

Quantos destes respeitáveis varões não tem sabido ou tem se recusado a servir e amar?

O odiado Svidrigailoff no entanto - Homem corrupto, asqueroso, devasso e pervertido devido a sua incontinência sexual - lega milhares de rublos a três miseráveis órfãos (Os quais do contrário estariam condenados a vegetar pelas ruas da grande cidade), a sua irmã e tutora - Prostituta - e mesmo a seu desafeto Raskolnikoff. Até a um quase inimigo ou inimigo, soube este homem, dissoluto fazer bem.

Dirá o leitor benevolente que não foi por amor as crianças que o homem realizou a citada dotação, e que esperava obter alguma vantagem ou benefício em troca. Mas que vantagem ou benefício poderia obter 'a posteriori' se tinha em mira por fim a própria vida??? Direis que Svidrigailoff teve em mira obter uma boa reputação para sua memória! E no entanto não me parece que tenha feito alarde em torno da dotação concedida...

Muito há que se pensar sobre a referida personagem.

A primeira imagem que me vem a cabeça é a desses beberrões, comilões e devassos sempre disponíveis a identificar-se com o outro e a favorece-lo. A do 'pecador', como dizem, sensível... Em oposição ao 'santo' ou virtuoso insensível, indisponível e que não aprendeu a amar e servir; quando não chega mesmo a ser desumano e cruel, odiando e cometendo crimes em nome de Cristo.

Pensei naqueles que afetam ortodoxia e ascetismo ou heroísmo; sem no entanto chegar a imitação de Cristo... e convivendo, muito folgadamente com a fome, a sede, a nudez, a miséria, a ignorância, a injustiça, etc E naqueles que mostrando certa fraqueza pessoal, assimilaram, a luz do Evangelho a sensibilidade do espírito de Cristo, sabendo-se obrigados a socorrer os desamparados pela sorte e a mitigar seus sofrimentos.

Assim o doutor da lei e levita que passam a largo do homem ferido a beira do caminho e o samaritano - Odiado, proscrito, vicioso... - bondoso, que soube identificar-se com o outro...

Buscando dito ou citação com que arrematar esta reflexão, topei com este:

"Porque a caridade apaga a multidão dos pecados."







terça-feira, 2 de maio de 2017

A 'Sonia' de Crime e castigo...

Ao ler ou reler uma obra como 'Crime e castigo' - A qual bem poderia der relida, 'trilida', e lida novamente, ao cabo da vida - se nos apresentam tantas e tantas impressões...









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Quando pergunto a mim mesmo sobre a personagem predita - Não a mais interessante e sim a predileta, pois são perspectivas diferentes - me vejo pensando em Nastasia, a serviçal dedicada e a única que se importava com Raskolnikoff.

Nastasia
certamente salvou-o de morrer a mingua.

Nastasia parece ser a única a preocupar-se com ele.

Nastasia. Sempre a imagino com aquela xícara de chá ou com o prato de caldo.

Agora que moverá esta esquálida rapariga?

Talvez a religiosidade sincera posta para o serviço fraterno, dirão alguns.

Bem pode ser.

Eu no entanto, sem ser nada romântico, pressinto aqui um amor de moça e amor que envolvido pela timidez jamais se declara ou manifesta.

Estou persuadido de que Nastasia ama Raskolnikoff mas guarda seu amor para si. Sem jamais ter coragem de dizer...

Se estou certo e assim o é - Pois é como o caso da Capitu e do Bentinho, e de todas as coisas incertas - temos mais um drama oculto no grande drama. E Dostoevsky é justamente uma sucessão interminável de íntimos dramas vivenciados pelos mortais. A ponto de se poder dizer com o Buda, que tudo é dor...

Todavia se Nastasia ama é Sonia, que sem nada fazer, obtém o coração do mancebo.

E quando dizemos que Sonia nada faz queremos dizer que muito sofre e que também ela vive seu drama, e que drama...

E é por muito sofrer que ganha o coração do jovem.

Mas quem é Sonia?

Filha de Marmelodoff e órfã de mãe, Sônia é uma adolescente miseravelmente pobre ou paupérrima que se vê na contingência de prostituir-se para sustentar uma madrasta tísica e seus três filhos pequeninos.

Sacrifica assim sua virgindade, reputação e honra com o intuito de minorar o sofrimento alheio e com o dinheiro que obtém por meio das relações ilícitas mata a fome dos pequeninos, da pobre mulher e do pai. Chegando inclusive a dar dinheiro para que este se embriagasse.

Não se trata todavia de personagem vulgar ou insensível...

Filha da época, Sônia trás em si os preconceitos do tempo, e portanto um imenso complexo de culpa entesourado no fundo do coração.

Não ela mesma parece não desfrutar do prazer que comercializa ou tirar proveiro sensível do deleite oferecido. Dir-se-ia que não goza ou que não se permite atingir o orgasmo... Justamente por acreditar que comete um terrível pecado.

Culta, sensível, finamente educada, segundo os preconceitos do tempo; mimosa e doce, Sônia pode ser considerada pura quanto a alma porque se nega ao prazer ou melhor dizendo, porque prostituir-se é uma tortura para ela. Imagine uma mulher que se faz tábua e se deixa estuprar a contragosto, apenas para obter dinheiro. Esta é Sonia e sua desventura não é menor do que a de uma mulher estuprada! E no entanto se não se deixa estuprar e não se vende...

O drama terrível desta personagem consiste justamente em deixar-se poluir ou profanar apenas para obter alguns cobres.

Outra qualquer em seu lugar, como sugere Raskolnikoff teria se lançado ao Neva ou feito suspender-se numa corda. Sônia no entanto, sequer pode cogitar em acabar com a própria vida e, quem sabe, fugindo a vergonha obter a tão cobiçada paz... Mesmo a alternativa da solução final lhe é negada. Pois sem ela, eles viriam a morrer de fome...

O amor impede-a de suicidar-se e obriga-a a viver envolvida pelo lodo até o pescoço. A abnegação impele-a a poluir-se e a profanar-se quotidianamente.

E nem pode suportar a ideia de que morta, a 'irmã' mais nova Polenka tenha de esbater a mesma senda e viver o mesmo drama. A simples ideia de morrer e ser 'substituída' pela pequenina é o quanto basta para aterroriza-la.

Impedida de suicidar-se é obrigada a arrastar-se por uma vida tormentosa, a engolir a própria dignidade, a humilhar-se, a baixar a cabeça, a ser insultada, vilipendiada, malbaratada...

E sendo prostituta sem querer ser, toma, a semelhança do Cristo, o caminho de um calvário a cujo topo ou fim jamais chega. Sua existência insuportável por ser definida como um aproximar-se da cruz sem jamais atingi-la... É uma agonia, um suplício sem sim.

O mundo no entanto não esta nem ai para seu drama...

E passa a seus olhos como miserável prostituta, criatura repugnante e odiosa, filha da luxúria e da devassidão. Embora sua alma seja tão casta - Senão mais - quanto a de uma freira...

Mas que é a alma? Que é a mente? Que é a consciência? Que é a intenção? Para a Sociedade...

Tudo quanto a Sociedade vê é o escândalo... E nada, nada mais.

Para aquela Sociedade, como para a atual, o mal ou o pecado supremo esta sempre relacionado com o sexo, não com a miséria, a fome, a guerra, o morticínio...

E aquela Sociedade, como parte desta, apresentava-se como Cristã!!!???!!!

E colocava o sexo acima da convivência humana, da dignidade humana, da vida humana!

Eis um Cristianismo subvertido, pervertido e invertido, que perdeu por completo o verdadeiro sentido do amor.

Ocorrem-me as luminosas palavras de Henry Miller: "Todo mundo diz que sexo é obsceno. A única verdadeira obscenidade é a guerra."  

Tal o diagnóstico daquele triste tempo.

Sonia a vítima.

E no entanto ela é verdadeira discípula do Mestre amado, justamente porque ama, e imola-se, e sofre.

"Nisto saberão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros."

Sônia bem poderia pensar apenas em si mesma e odiar aquele pai bêbado execrável com seu bafo nauseabundo, aquela madrasta afetada e arrogante e aquelas crianças sujas e ranhentas... Caso quisesse bem poderia odia-los, e até penso que não seria difícil...

Optou pelo amor, assim pelo sofrimento e pela dor.

Quantas moças respeitáveis, a semelhança de Dounia, não se guardavam até encontrar um pretendente rico capaz de pagar pela oferta da virgindade e desposa-las regularmente, com as bençãos da igreja. E no entanto que era aquilo senão vil comércio??? E prostituição reservada a um só...

E quantas não se vendiam por luxo? Por rendas, por jóias, por vestidos, por sapatos... Enquanto ela, embora se vendesse a muitos, vendia-se premida pela fome alheia... Quiçá morresse de fome, fiel aos preconceitos do tempo. Todavia, contemplar aquele pequenos morrendo de fome...

Mesmo quando parte de um pai o juízo de Marmelodoff não deixa de ser justo!

Como Jesus poderia deixar de perdoar aquela que sacrificara seu pudor, sua honra, sua reputação e se converterá em 'pecadora' miserável apenas para salvar a madrasta, os irmãos e o pai beberrão da morte certa?

Reatualizando a pergunta: Que teria Jesus a perdoar em alguém que optou por sofrer moralmente e por imolar-se, movido pelo sentimento mais nobre e elevado de todos, a saber, pelo amor???

Como teria pecado se com o sacrifício sincero e penoso da virgindade tomou a peito saciar a quem tinha fome ou a cobrir quem estava nu?

Como teria ofendido aquele que disse: Vinde a mim as criancinhas... se foi por três criancinhas desamparadas que decidiu subir o calvário?

Deixemos agora, por um instante apenas, a personagem abstrata de Dostoevsky e tornemos a arena da vida vivida, em busca de outras tantas Sonias, feitas de carne, sangue, ossos e nervos de aço.

Observo naquela esquina uma moça vendendo-se para custear o tratamento do velho pai canceroso. O qual lá no seu recanto, outrora feliz, cuida que a filha exerce o respeitoso cargo de secretária em alguma casa de comércio ou repartição pública.

Ouça quem puder a melodia 'Secretária da beira do cais' e compreenderá o que estou a dizer.

Aquela prostitui-se para comprar os remédios do irmão mais moço, sem os quais não pode passar... Aquela outra para impedir que a pobre mãe, já entrada em anos... continue a ralar-se como escrava lavando banheiro de gente rica.

Temos ainda esta outra que expõem-se ao vexame porque tendo perdido o marido, não é capaz de custear a escola ou internato dos filhos...

Não vou dissertar aqui sobre os motivos que podem levar uma moça ou mulher a prostituir-se... Limitar-me-ei a declarar que nem todas aqueles mulheres abraçaram este ofício levadas pelo que a gente 'respeitável' - Que mata, rouba, mente, explora, faz guerra, etc - qualifica como devassidão! Limitar-me-ei a declarar que há ali muito drama... Dar-me-ei por satisfeito em levantar a ponta do véu que oculta muita tragédia... E a solicitar que os virtuosos censores moderem seus julgamento segundo a norma e regra da prudência.

Antes de apontar alguém, de julgar alguém, de condenar alguém, de repudiar alguém... experimente colocar-se no lugar deste alguém ou a imaginar que poderia te-lo feito tomar a decisão que tomou.

Raskolnikoff apesar de te feito 'aquilo' e cometido um erro demasiado grave, conseguiu não só colocar-se no lugar desta moça desprezada - Ou melhor, odiada pelo mundo e pela 'boa sociedade - compreende-la e ama-la... E amando-a veio a ser amado com não menos intensidade. O que veio a ser para ele um princípio de ressurreição após a morte negra da alma... Pois toda ressurreição parte de um amor.

No entanto se tivermos consciência de que tudo quanto parte da miséria - Assim a embriagues, a droga, a prostituição, etc - é pecado social, partilhado por todos nós... Se tivermos a rara percepção de que somos co responsáveis por todos estes males na medida em que não apenas somos insensíveis, mas em que compactuamos com a insensibilidade alheia, ao invés de, como cristãos, indignar-nos... O mínimo que teremos de oferecer as Sonias que cruzam nossas caminhos são palavras de compreensão, conforto e amor; não de juízo, não de condenação. Pois se não sabemos acolher, abstenha-mo-nos de julgar e condenar.

Assim antes de apedrejar as Madalenas que encontra pelo caminho pergunte a si mesmo sobre o que fez ou tem feito para erradicar as situações de fome, miséria, nudez, etc que afligem e angustiam a desgraçada humanidade... Tem alimentado os famintos? Dessedentado os sedentos? Vestido os nus? Caso sua resposta seja negativa não ouse julgar o irmão que caiu por terra esmagado pelo peso da cruz...

Imitemos o gesto aparentemente louco de Raskolnikoff ajoelhado beijando os pés da rapariga... Quem sabe se somos dignos de beijar-lhe o pó dos pés ou a orla do vestido esfarrapado...

Mas porque cometes este ato insensato? Por que beijas os pés de uma devassa ou de uma perdida?

Não, não é os pés de Sonia que eu beijo, não os pés da mulher, não os pés da filha de Marmelodoff o que beijo ali e ali venero 'É o imenso sofrimento humano.' - O mesmo no alto do calvário pregado sobre a cruz, o mesmo na alcova de uma prostituta inconformada, o mesmo no gesto do pai que roubou uma caixa de leite para alimentar o filho pequenino... Em todo lugar a mesma dor e o mesmo drama santificados pelo Cristo.




Ofereço este ensaio ao querido amigo Dr Carlos Seino, o qual como Cristão honesto e sincero não cessa de progredir na luz de Cristo. 


"Assim a senda dos nobres é como a aurora, que vai brilhando, brilhando, até converter-se em dia pleno." ora nosso dia é o Cristo. Jamais cessemos de avançar nele, jamais nos conformemos com o que temos. Porque ele sempre tem mais a oferecermos e nós a tomar de seus tesouros infinitos.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A desnatalização do Natal






Naturalmente que Jesus não nasceu no dia 25 de Dezembro e não é preciso ser um Sherlock Holmes para sabe-lo.

Como Jesus não Era rei ou filho de rei mas filho de um humilde carpinteiro lá das bandas da Judeia seu nascimento passou em branco e nós não temos como saber o dia exato em que nasceu o personagem mais importante da História.

No entanto como era necessário lembra-lo e reverenciar o mistério da entrada de Deus no mundo, a igreja Ocidental ou latina escolheu o dia do Sol Invicto, que era uma festividade muito apreciada pelos antigos pagãos.

Quis significar com isto que Jesus Cristo é o 'Sol triunfante' ou sempre vencedor do mundo espiritual.

Desde então, Era o século IV desta Era, a data passou a representar o nascimento de Cristo, ao menos para os Cristãos ocidentais.

Não era ao astro rei deste sistema que nossas ancestrais pretendiam adorar ou cultuar no 25 de Dezembro de cada ano mas o Jesus dos Evangelhos, nascido da Santa Virgem numa manjedoura, reverenciado pelos seres espirituais, saudado pelos pastores e presenteado pelos magos da Pérsia com ouro, incendo e mirra.

Cristão algum jamais teve a intenção de cultuar o sol no dia 25 de Dezembro mas a Jesus Cristo, o qual ensinou-nos a julgar os atos humanos através das intenções. Os fanáticos e sectários que me perdoem mas para que nossos ancestrais tivessem cometido o pecado de adorar o Sol, deveriam ter tido a intenção de faze-lo, o que obviamente não tiveram. Era a Jesus Cristo que se reportavam seus afetos e sentimentos e não ao Sol...

E Jesus Cristo que sempre julga segundo as intenções que animam o coração humano deve ter acolhido de boa vontade este tributo de amor.

Tampouco sabemos em que ano Jesus nasceu. Não ele não nasceu no ano hum (10). Dionísio o pequeno calculou erradamente a data e hoje sabemos que Jesus deve ter nascido no mínimo cerca de cinco anos antes do ano hum (01) desta Era uma vez que Herodes, o tirano, faleceu no ano 04 a C...

Há quem cogite ter ele nascido no ano 06 ou mesmo no ano 07 a C e não temos como decidir a questão sendo ocioso transcrever as diversas opiniões.

Seja como for o Natal, até bem pouco tempo, ainda remetia as consciências a natividade do Mestre dos Mestres e reportava os pensamentos a Jesus.

Durante toda idade Média foi uma festa ou cerimônia espiritual comemorada liturgicamente na Igreja e a tais eras remonta o 'Adeste Fidelis'.

Em certos lugares a Festa do Natal chegou a eclipsar as festas da Paixão e da Páscoa que são as mais importantes do calendário Cristão e as vezes a ideia um tanto romântica de um Deus menino e indefeso envolto nas palhas e aquecido pelos animais falava demasiado alto aos corações dos crentes e arrebatava as multidões mais do que a morte e a ressurreição de Deus...

Em certas paragens outros símbolos de origem pagã como o pinheiro - adorado pelos germânicos foi incorporado a festa. Pois S Winefrido (Bonifas) havia podido observar a consternação dos pagãos após a derrubada do carvalho dedicado a Thor. E passou a ser visto como simbolo de Jesus Cristo.

Segundo o costume a árvore sagrada era enfeitada com guirlandas e com oferendas ou presentes ofertados aos deuses. Desde então os enfeites e guirlandas foram substituídos por símbolos Cristãos como a estrela anunciadora, a cruz, medalhas de santos, etc E os falsos deuses da gentilidade substituídos pelo presépio ou lapinha onde Jesus nasceu com Maria Santíssima, S José, os seres espirituais, os pastores, os animais, etc Ficando este a sombra do pinheiro. Os presentes continuaram a ser pendurados ou depositados aos pés do pinheiro e do presépio mas destinados aos pobres ou aos familiares.

Eu, particularmente acho o presépio (sua ícone) suficiente e a árvore desnecessária. Não é de fato essencial a piedade Cristã.

No entanto há quem aprecie, fiquem com ela. Mas não percam de vista os símbolos da nossa fé ancestral e em especial o presépio que é a memória do aniversariante do dia, Jesus Cristo!

Durante séculos as coisas transcorreram deste modo e sem maiores alterações.

Em alguns lugares também a memória do abençoado Nicolas Bispo de Mira também era reverenciada e consagrada aos pobres e as crianças que ele em vida costumava socorrer com donativos. Daí a pia fraude segundo a qual S Nicolas visitaria e presentearia as crianças virtuosas e obedientes no dia da natividade do Senhor. Lamentavelmente noutras paragens foi a figura do Santo Bispo associada a de uma figura mitológica: o pai Natal ou pai Noel com seu carro guiado por renas... E aos poucos esta criatura híbrida foi substituindo a figura do meigo nazareno e tomando seu lugar.

Aqui, se a igreja merece ser censurada por ter tolerado o culto tributado a esse personagem, é justo dizer e declarar que ela jamais santificou ou abençoou o tal papai noel ou pai natal. Mostrou-se simpático ao culto popular tributado ao Bispo de Mira com suas vestes de Bispo ou túnica, não ao homem de calças vermelhas e gorro conduzido por renas. Não a igreja não canonizou o papai noel!

Canonizou-o o Mercado ou o Capital porque Jesus Cristo não rendia lucros!

De fato é o mistério do Natal potencialmente revolucionário caso tenhamos em mente que o Deus do Universo munificente e rico fez-se homem pobre desejando nascer num estábulo, quando poderia ter se manifestado aos ricos e poderosos num palácio suntuoso!

Aos homens cobiçosos, avarentos e sempre dispostos a acumular riquezas o Deus Todo Poderoso manifesta-se como pobre entre os pobres. Pois nasce duma fiandeira e adotado por um artesão e torna-se ele mesmo artesão de madeira segundo Justino na "Apologia".

E não apenas nasceu como cidadão humilde ou remediado - não rico - como assim viveu ao cabo de prováveis quarenta anos. A ponto de dizer que não possuía uma pedra sobre a qual reclinar a fatigada fronte. Não foi num corcel branco que entrou na cidade santa para padecer mas numa jumenta ou como diríamos hoje num carro velho ou num fusquinha! E nem mesmo tumba possuía tendo sido inumado num túmulo emprestado pelo Senador Jose de Arimateia. Até a mirra e os aloes com que foi embalsamado aquele santíssimo corpo martirizado foram ofertadas por outro Senador Nicodimos Ben Gorion. Tudo quanto Jesus teve como seu foi a túnica inconsútil e a cruz em que morreu como pobre.

Como homem humilde nasceu, viveu e morreu, cercado por pescadores galileus!

Penso que tudo isto tenha sido mais do que suficiente para desiludir dos senhores do capital e da mídia.

Não a figura do Deus que se faz pobretão jamais foi interessante ou produtiva para o sistema e por isso Jesus tinha de ser posto de lado e a festa esvaziada de seu sentido para converter-se na apoteose do mercado e do capital.

O aniversariante do dia tinha de ser esquecido e seus ideais de serem ocultados para que a comemoração de 25 de Dezembro se tornasse lucrativa.

Era necessário obscurecer o sentido espiritual da festividade para converte-la em festa do ventre, do bucho ou do estomago.

Urgia encontrar uma figura capaz de destronar o nazareno pobre dos corações dos seres humanos e a figura escolhida foi a do gordo pai natal... o qual distribui presentinhos a quem por eles pode pagar e jamais se lembra dos pobres.

Jesus jamais receberá quaisquer presentes além daqueles que lhe haviam sido ofertados pelos magos da Pérsia. E tampouco era ele um distribuidor de presentinhos. Os únicos presentes que ele distribuía eram de natureza interior ou imaterial: o sentido da vida e a paz da consciência. Nada mais.

De fato ele jamais exigiu quaisquer contribuições, taxas, prebendas, ofertas, pagamentos, dízimos, tributos em troca das benesses que a todos dispensava, mas disse: De graça recebestes, de graça daí!

Não ele não cobrava qualquer coisa, não buscava lucros, não capitalizava, não corria atrás da fortuna e seu único investimento era o Ser humano, a criatura racional e livre que convocava para uma vida mais elevada e nobre.

Tudo quanto pedia aos que o cercavam era a dádiva do coração.

Corações a serem enriquecidos, eis tudo quando o divino Mestre Jesus pedia aos homens!

Então para o capitalismo, sistema que sobrepõem o TER ao SER, Jesus não era uma figura atraente e expressiva.

Não, essa figura era o pai Natal bebendo coca cola...

Substituída a figura do aniversariante foram substituídos os princípios e valores.

Na Idade Média, ao menos na Alemanha, durante a ceia de Natal uma das cadeiras em volta da mesa eram deixada vazia com prato e talheres. Era o lugar reservado ao pobre! Porque segundo acreditavam eles o Salvador poderia bater-lhes a porta na figura de um pobre faminto cabendo alimenta-lo. Noutras paragens ofereciam-se banquetes aos pobres tanto no Natal quanto na Páscoa e por ocasião de Batizados, Crismas e matrimônios... Pois os pobres eram os embaixadores ou representantes do Cristo. "Aquilo que fizestes a qualquer um destes pequeninos foi a mim que fizeste!"

No entanto da perda do referencial resultou a perda da consciência.

E de festa dos pobres e humildes o Natal converteu-se na festa de aniversário do Papai Noel e portanto em festa de ricos, de industriais, de empresários, de banqueiros e de burgueses, esvaziando-se de seu conteúdo original. Jesus foi esquecido e seu nascimento obscurecido...

Desde então compra-se, vende-se, presenteiam-se, empanturram-se e embriagam-se no dia de seu nascimento. Porque não se trata mais de reverenciar a entrada de Deus na História como excluído, mas de reverenciar a vaidade, a glutonaria, o luxo, a avareza; enfim o ego.

Hoje o espírito do Natal é espírito do economicismo materialista, espírito de ostentação, espírito de lucro enfim. É aniversário de Mamon, não mais de Jesus Cristo. É espírito arqui mundano e não espírito de amor, fraternidade, justiça, bondade, serviço, compromisso, benignidade pois este sistema iníquo de coisas tudo contaminou, poluiu e profanou, e não mais nos lembramos do pobre, do faminto, do sedento, do nu, do encarcerado... Não nos sensibilizamos mais face a dor e o sofrimento alheio e nossos corações estão completamente endurecidos.

Natal foi profanado pelo espírito do lucro, da avareza, da ambição, da cobiça e desnatalizado. Perdeu seu sentido, seu referencial, sua conotação religiosa. E tornou-se data de vendilhões e traficantes, os quais dominaram o templo e instalaram-se no santuário de Deus tudo corrompendo e fomentando os maus costumes.

Desnatalizou-se o Natal desde que converteu-se em Natal ou festividade dos shoppings, das lojas, dos comércios, dos objetos, das coisas, das peças... dos enfeites exteriores, dos brilhos exteriores e das falsas luzes que não procedem do coração.

Apesar disto não nos desesperemos! Sempre é possível fazer um Natal Cristão e verdadeiro com o retrato do presépio, com as preces tradicionais, com liturgia (onde há liturgia), com disponibilidade, com esmolas, com doações, com ofertas... Com o coração cheio de amor voltado para o mistério de Jesus Cristo e papa o próximo.