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segunda-feira, 16 de julho de 2018

Comunistas, anarquistas e humanistas e a Revolução ou Revolução, Ética e Liberdade.

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Um dos problemas postos por Jonh Gray em torno da Ética, que não crê ser universal, mas relativa é a suposta incompatibilidade existente entre as exigências da paz e as exigência da justiça. A argumentação do autor, aparentemente ao menos, justifica-se tendo em vista duas opções extremistas e excludentes - A do pacifismo crasso, assumida por certo número de Cristãos de boa vontade, e a do revolucionarismo atrabiliário, professado por diversas correntes sociais de vanguarda.

Assim se os primeiros sempre sacrificam as exigências da justiça em troca duma paz não gloriosa e tampouco digna os demais fazem muito pouco caso da paz e da vida. O que segundo Gray, aponta-nos soluções éticas antitéticas, excludentes e inconciliáveis... A situação - ao menos para ele - é esta, e não há solução.

Diante disto a questão proposta por nós assume a seguinte forma - Será possível, do ponto de vista ético, conciliar os interesses da paz com os interesses da justiça? Até quando será possível manter a paz? Quando será necessário sacrificar a paz em nome da justiça ou melhor quando uma virtude deverá ceder espaço a outra? Como pugnar por uma luta ou por uma revolução ética? Será isto possível? Adotada a solução policrática, como conciliar a estrutura de uma organização revolucionária com as exigências da liberdade humana?

Num primeiro momento devemos ter consciência, e mesmo o homem pacífico e bem aventurado, de que a paz é um bem desejável, mas relativo. Na hierarquia de valores há valores superiores a ela e um deles é a justiça. E não é possível aconselhar a alguém que suporte a injustiça em nome da paz. A paz só assume a conotação de um valor absoluto quando identificada com a 'não agressão'. Da mesma forma o pacifismo consistente deve significar sempre 'não agressão', é filho da paz aquele que podendo atacar opta livremente por não faze-lo, como é filho da paz aquele que se defende ou que recorre a violência defensiva. É tão inimigo da paz aquele que ataca quanto aquele que comete qualquer injustiça.

Por isso Ihering define a injustiça como uma profanação da dignidade humana. Todo injustiçado é de alguma forma profanado...

Diante disto como exigir deste homem violado no mais íntimo de seu ser que se conforme???

Apesar disto milhões de Cristãos, mal orientados, declaram que a injustiça é coisa que se deva suportar. Uma vez que o Mestre de todos disse: "Aquele que te bate numa face dá a outra face."

Querendo dizer que jamais é lícito defender-se ou exercer a violência defensiva; e que nos devemos deixar esmurrar em quaisquer circunstância.

Antes de tudo devemos compreender que aquele que é agredido ou esbofeteado repentinamente perde o controle e que ao perder o controle foge-lhe a razão. Ele voa sobre o outro, o outro voa sobre ele, começa ai uma briga e não poucas vezes destas brigas resulta uma morte ou dano mais grave. Já aquele que ao ser subitamente agredido ou atacado logra controlar-se adquire um bem relativamente valioso - O auto controle ou controle de si mesmo, o qual lhe permitirá avaliar a situação com serenidade, e tomar a melhor decisão possível.

É significativo que esse texto seja precedido pela fórmula de talião - Olho por olho, dente por dente. O que nos levaria a concluir que o vício condenado por Jesus é a vingança e não a defesa. Ademais está Jesus referindo-se a conflitos pessoais que sucediam amiúde nos ermos da Judeia, degenerando em brigas... com as consequências que acabamos de descrever acima. Neste caso por que colocar a própria vida ou a vida de outro em risco devido a posse de uma túnica? Se a vida de qualquer homem vale mais do que uma túnica???

Diversa é a situação em que o agredido que logrou controlar-se, deduziu ter sido injustiçado e chamou a polícia ou recorreu a lei - assim em Roma, na Grécia ou nas atuais nações civilizadas. Vinganças, brigas, linchamentos, explosões irracionais de violência, etc parece ser tudo quanto Jesus quisera condenar. Não a busca da justiça por meio das leis numa sociedade civilizada ou o recurso a violência defensiva em casos premeditados.

Claro que a solução dada por Jesus refere-se a conflitos pessoais ocorridos em sociedades demasiado arcaicas ou primitivas. Não a conflitos sociais ou impessoais sucedidos em sociedades civilizadas, e que correspondem a uma demanda pela justiça. Claro que tais situações fogem a 'cena' descrita pelo Mestre e assumem outra conotação.

Aqui importa uma única coisa - O sentido mais profundo da paz enquanto não agressão. Antes de ser aquele que em tese suporta qualquer tipo de agressão como um cordeiro, é o Cristão cordeiro que jamais agride. Assim caso existam Cristãos que agridam a outros Cristãos ou mesmo aos não Cristãos É DEVER DA IGREJA REPRIMI-LOS DURAMENTE, ATÉ A EXCOMUNHÃO. Não é ao agredido ou ao que sofre violência que a igreja deve dirigir sua voz para apaziguar, mas ao agressor, para condenar! E não se trata de reprimir apenas o mais comum dos tipos de agressão, a agressão física, mas de reprimi-la sob todas as formas, inclusive a econômica. A igreja não pode tolerar agressores em seu seio.

Por outro lado a sociedade pluralista não é guiada pela lei ética dos Cristãos. Tolerará ao menos a agressividade sútil, que atingirá cristãos e não cristãos, colocando-os num mesmo plano. Deve aqui a igreja condenar os Cristãos que juntamente com os não Cristãos pugnam pela justiça? Certamente que não, como não pode condenar a guerra justa. Assim, o máximo que a igreja pode e deve fazer é gerenciar essa luta ou essa guerra fornecendo uma diretriz ética que exclua a vingança e a tortura; é o quanto bastará por merecer os aplausos da humanidade. Uma vez que os guerreiros após terem pelejado como leões no campo de batalha, devem tratar os vencidos e prisioneiros com cordialidade e doçura.

Importa que numa crise social todos os recursos possíveis sejam empenhados no sentido de manter a paz sem sacrificar a justiça. Todavia esgotados os recursos, a guerra torna-se justa e enquanto justa boa, e enquanto boa desejável. O Cristão não deve avaliar a violência, a guerra ou a revolução enquanto tais ou fins em si mesmas - a violência pela violência será sempre inaceitável já dizia Sorel - mas como meios ou instrumentais para superar uma situação insuportável de injustiça. A injustiça é que fará delas algo absolutamente necessário. Devemos compreender que os conflitos bélicos e as revoluções acontecerão e fornecer uma critério ou padrão ético porque o Cristão possa julga-las. Este padrão é a justiça.

Em certos casos abster-se é colocar-se ao lado dos iníquos e fortalece-los. O Cristãos sempre combaterá ao lado dos atacados, dos agredidos, dos injustiçados, dos oprimidos, dos explorados, etc Sem se preocupar com as facções ou bandeiras ideológicas. Caso a sociedade em que vive agredir ou atacar alguma outra, então poderá não apenas abster-se de lutar em favor dela mas combater tal guerra por meio da pena e da palavra, exercendo oposição ideológica. Nenhuma guerra de conquista deverá contar com o apoio dos Católicos.

Quanto a própria comunidade o critério mais seguro face a uma Revolução - daí o termo violência defensiva - é a quebra da ordem democrática por meio de um golpe, como acabou de acontecer no Brasil, em 2016, com a deposição da presidente legitimamente eleita. O que equivale a uma situação de agressão e injustiça, justificando a resistência ou a sedição. Quanto a tais situações, chamadas golpe de estado, julgo que haja suficiente clareza, uma vez que se trata de eventos de ordem política. Outras situações não são tão claras, na medida em que envolvem a conjuntura econômica ou negação de direitos por meio de massacres e tortura.

Claro que mesmo uma situação de guerra justa ou revolução, inda que desejável, não basta para despertar o que chamam de entusiasmo. Se as crises correspondem a situações anômalas - como as enfermidades ou doenças na vida de um ser humano normal - as revoluções e guerras só podem corresponde a remédios amargos, cauterizações ou cirurgias... Situações relativamente necessárias, não idílicas. Por isso estamos tão longe do contra revolucionarismo tosco quanto da mística revolucionária. Quando esgotadas todas as outras possibilidades aceitamos as situações de Revolução sem nos deixar iludir ou entusiasmar e sem esperar demais... Não cremos que da Revolução ou de qualquer guerra surgirá uma nova sociedade totalmente diversa da anterior ou um paraíso sobre a terra. Não nutrimos sonhos futuristas ou milenaristas em torno das Revoluções, tudo quando esperamos é uma ordem menos iníqua ou suportável.

Por fim enquanto policratas e simpatizantes com aqueles poucos anarquistas bem informados que sabem ser o anarquismo uma luta pela democracia direta  -  acima de tudo a nível de micro estado ou municipalismo - e pela esfera intangível da liberdade pessoal (mencionada por Rousseau nas primeiras páginas do 'Contrato') temos de nos perguntar a respeito de como será a guerra justa ou a revolução. A pergunta se faz necessária porquanto os nazistas, fascistas e comunistas e todos os demais liberticidas acham-se em seu terreno e os amigos da liberdade política não, quando falamos em militarismo ou em algo do tipo militar, como supõem uma revolução ou uma guerra bem sucedida.

Observemos antes de tudo os conflitos gerenciados pelos anarquistas. Primeiramente aquele tipo individualista chamado propaganda pelo fato. De que resultou uma tempestade repressora por parte do estado burguês. Colocando em risco a causa socialista como um todo e alienando não apenas as massas mas o bom povo quanto a tão justa causa. Caso passemos as conjurações, que os anarquistas tomaram ao jacobinista e totalitário Blanqui através de Proudhon, temos o exemplo malfadado da comuna de Paris. Enfim quanto a Revolução espanhola temos um federação de guerrilhas ou conjurações muito mal coordenadas, cada uma atuando a seu modo... Claro que nenhum desses tipos de 'revolução' poderia dar certo.

As guerras e as revoluções que acontecem no cenário de um macro estado unificado exigem um nível mínimo de coordenação, de um comando centralizado e o que é pior de obediência mecânica ou de submissão, sem os quais não podem sair vitoriosas. No entanto esta obediência mecânica, num nível maior, choca-se tanto com os princípios anarquistas quanto com os princípios cristãos ou humanistas de larga tradição filosófica. As relações militares durante uma guerra são em certo sentido arbitrárias, intuitivas e irracionais... As massas incultas conformam-se com elas sem questionar. O Filósofo dificilmente. Não foi por acaso que Carnéades e seus companheiros foram corridos da Roma militarista pelo grande Catão... De modo geral os belicosos romanos, senhores do mundo, encaravam os gregos, com seu apego a arte e a filosofia, como um 'povo' degenerado.

Amigo algum da liberdade, Cristão, anarquista ou humanista, consciente de sua dignidade pessoal, pode deixar de sentir este dilema como a um espinho na carne. Pois dificilmente estará disposto a curvar-se face ao que julgar não passar de caprichos de seu superior... E no entanto a tática da guerra parece depender disto, deste deixar-se controlar por um superior que conhece melhor o conjunto. O sucesso da Revolução ou da guerra parece depender do mando e da submissão e de um cérebro que esteja acima de todos coordenando tudo... Face as este cérebro os mais deveriam estar paralisados, passando a agir como braços e pernas. É exatamente aqui que surgirão conflitos de consciência e tumultos no caso dos Cristãos... Caso se lhe peça que torturem ou massacrem já prisioneiros, já civis inocentes, coisa que ele não poderá fazer em hipótese alguma. Julgo que alguns anarquistas de boa vontade e humanistas concordarão com eles. Formarão objetores de consciência... Isto terá de ser discutido previamente. De modo a obter-se algum tipo de acordo. Não sendo assim a Revolução ficará comprometida.

Mesmo em alguns outros casos surgirão problemas entre os amigos da liberdade. Pois certamente haverá quem se recusará a massacrar animais. Como quem se recusará a comer carne... O anarquista, o católico, o humanista, dificilmente se deixará padronizar. Já as operações de guerra bem sucedidas parecem depender das massas ou dos homens padronizados e sem vontade própria. Levantemos a hipótese segundo a qual tais homens se deixem controlar caprichosamente apenas durante o período em que durar a Revolução - a qual pode prolongar-se por alguns anos ou mesmo décadas. Quem garante que esta situação não servirá como um treino destinado a amestrar homens livres tendo em vista a instauração de uma ordem despótica ou totalitária. Neste caso não estaríamos a nos adaptar antecipadamente, sacrificando nossos ideias, princípios e valores???

Não quero dizer que as Revoluções devam ser contidas.

Estruturas econômicas, religiosas, políticas, etc entrarão em colapso e criarão situações potencialmente revolucionárias para as quais devemos estar preparados. Daí a necessidade de levantar a discussão, inclusive em torno de uma ética revolucionária. E de indagar sobre como seria o futuro post revolucionário e a distribuição dos poderes... Temos de saber antes de tudo que uma Revolução bem sucedida não ocorre as vésperas, exige tempo, planejamento, armamento, técnica, disciplina pessoal, treino, etc, etc, etc Supõem um corpo de guerrilha preparado... Quase todo discurso revolucionário feito pelos místicos de hoje tem sido leviano e espontaneísta. Nada muito sério. O que nos faz nutrir séria reservas quanto a viabilidade de tais revoluções mais parecidas com as grotescas conspirações blanquistas criticadas por Engels em 1895. Não se faz revolução com drinques, pizza, cigarro, maconha, etc Não se faz mesmo... Os profetas da revolução atual bem fariam ler a vida de Marighela.

As revoluções acontecerão. Mas também poderão abortar ou ser sufocadas por falta de seriedade e comprometimento.

Como poderão dar vezo a surtos de psicopatia e crueldade; assim como resultar em totalitarismo e barbárie...

Comportam riscos.

Por isso dissemos - Elas só serão viáveis em situações de injustiça extrema após esgotados todos os outros meios: Ação parlamentar, greves, protestos, marchas, desobediência civil... Só serão aceitáveis como respostas a um golpe ou a um massacre. Será respostas a determinadas situações ou conjunturas históricas, jamais receitas de bolo ou bulas de remédio.

Certamente a mística revolucionária que anima o Comunista, o nazista ou o fascista não deverá contagiar o Cristão ou o humanista; mesmo o anarquista, na esteira de um Kropotkin ou de um Tolstoi acalentará maior ou menos nivel de reserva face a ela.

Ps.: Reservamos outro artigo para dialogar com G Sorel.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Pelos caminhos traiçoeiros do positivismo

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O supremo 'homem póstumo' do século XX fez muito mais do que desmistificar a sexualidade humana, sendo suas concepções Psicológicas prenhes de ilações Epistemológicas, Antropológicas e Sociais




Nas últimas palavras escritas por nós no artigo anterior salta a vista que o legítimo pai do positivismo, enquanto negação radical e arbitrária da metafísica ou melhor da teodicéia, foi o alemão Kant e não o francês Comte. 

No entanto o que para os alemães, ao menos para os irracionalistas luteranos, jamais chegará a ser novidade, do outro lado do Reno produziu frenesi. Isto pelo fato dos franceses terem tentado, segundo sua tradição cultural, assaltar a Filosofia e produzir uma metafísica ateia e materialista, o que como vimos redundou em total fracasso. Doravante tiveram os francos de se submeter ao império dos germânicos assimilando as doutrinas do sr Kant, tomando-as tanto mais a sério, aprofundando-as e ampliando-as.

Após Kant, Comte assumirá a negação da totalidade da metafísica, incluindo a negação da epistemologia, da gnoseologia, da Ética e da Filosofia como um todo, a qual pretendeu substituir justamente pelo que Hume negará e o alemão restabelecerá, a ciência. Até que ponto Comte foi capaz de perceber que condenando toda metafísica condenava seu guru não o sabemos. Quis ser mais papólico que o papa ou mais kantiano do que Kant e o foi. Desta radicalização de posições surgiu toda essa mística indigesta em torno da ciência e do progresso a que chamamos positivismo... Na Inglaterra o positivismo recebeu o nome de agnosticismo e alguns temperos bretões.

No entanto ao que parece a Filosofia ou melhor a metafísica parece não ter levado em conta a interdição baixada pelos francos e continuou a existir como se nada tivesse acontecido. E isto a ponto de nas Alemanhas um certo Schopenhauer ter definido o homem como um ser essencialmente metafísico. Estranho teria sido caso a sútil disciplina inventada pelos gregos geniais vinte séculos passados, tivesse se submetido aos ímpetos do homenzinho de Koenisberga...

Destarte Comte se suas hostes não tiveram outra saída a não ser denunciar o conhecimento filosófico como relíquia dos tempos pretéritos e passar ao terreno da Sociologia, novo campo da ciência que tendo sido ocupado por eles recebeu toda carga do materialismo mecanicista comum ao tempo, e o que é pior, em termos de ciência. A bem da verdade a própria elaboração das ciências humanas como a História, a Sociologia e a Psicologia, no ambiente cultural do século XIX, foi dramática por ter de se conformar com os dogmas aprioristas do Positivismo ou ser posta fora dos meios acadêmicos, nos quais a ordem do dia era transplantar o método exato, quantitativo ou experimental 'in totum' se possível, para o domínio das Humanidades. A ciência devia ser toda ela não apenas material mas absolutamente matemática, exata e quantificável, ou não ser. Era um pressuposto que não se discutia, pois os positivistas maliciosos ou ingênuos, acreditavam ou fingiam crer que não havia nada além de fato a serem descobertos e que cada um deles caia magicamente seu seu devido lugar sem a necessidade que qualquer aparato conceitual ou esquema predeterminado de mundo. Claro que homem semelhante concepção, que beira o absurdo, foi já relegada a condição de velharia ultrapassada. Os positivistas no entanto, na mesma medida em que reconheciam a existência de um aparato conceitual pré existente em que encaixavam os fatos, abandonavam o querido Kant e aproximavam-se de Hume, indo de um extremo a outro e flertando com o subjetivismo e o relativismo. Outro não foi o roteiro do sr Popper...
Como Agostinho e Lutero que eram religiosos e fanáticos também os positivistas não se detiveram face ao absurdo.

Para nós importa saber que devido ao influxo do positivismo foi o imaterial ou ideal alijado das ciências humanas, as quais tiveram que assumir o aspecto de sistemas fechados a exemplo de uma máquina qualquer. Assim a máquina da Sociedade, assim a máquina da mente... Estava o determinismo mecanicista, enquanto epifenômeno do materialismo, na ordem do dia. Marx tendo lido D Holbach postula uma Sociologia economicista absolutamente materialista segundo a qual a totalidade da cultura, incluindo a cultura imaterial ou ideal, é resultado das relações econômicas de produção. É falso que tenha inventado o materialismo contemporâneo - cuja formulação deve-se antes aos liberais - mas inegável que tenha formulado a primeira teoria social cem por cento materialista. Outras Sociologias buscaram ser mais comedidas ou apenas materiais, sem que no entanto, qualquer uma delas - mesmo a de Weber - tenha ousado situar o fenômeno humano no contesto a que faz jus e reconhecer-lhe a importância. Para a Sociologia o homem continua inexistindo e não pode ser posto, ao lado dos fatos sociais, como uma força doutra natureza.

De modo que a batalha pela recuperação do humano tinha de dar-se noutro terreno, deslindado pelos alemães Th Fechner e Wundt, já em meados do século XIX, Referi-mo-nos a Psicologia, que é a ciência da mente humana. Como a medicina negasse insistentemente o mesmerismo e, por vezo materialista, ridicularizasse tudo quanto lhe era atribuído; após Puysegur, o grande Liebault, Bernhein de Nancy e mesmo J M Charcot puseram-se a estudar a auto sugestão, dando com o inconsciente - P Janet - ou com a mente, o que seriamente não podiam assumir enquanto filhos de um século positivista. De fato estes homens chegaram a fronteira do imaterial ou do ideal, a qual no entanto haveria de ser ultrapassada somente pelo Dr Freud com sua teoria não somática ou não psiquiátrica de neurosa e a Psicanálise, método introspectivo e dialético que fazia lembrar a confissão Católica.

Freud foi quem ousou abrir a tampa que os positivistas haviam colocado sob o alçapão da mente e descreve-la dinamicamente ou como relação de forças/instâncias, enquanto o modelo clássico ou formal compartimentava artificialmente nossas capacidades mentais separando assim o intelectual do volitivo. Freud na mesma linha que Kant, Nietzsche, Dilthey e outros teve esta separação por arbitrária.

Foi S Freud, o ateu, o materialista e o positivista que recuperou o homem todo para a ciência e iniciou a grande Revolução epistemológica e metafísica, o que por si só já nos revela o drama desse gênio sucessivamente apontado como incoerente. Este homem por natureza e cultura é que deveria ter concebido e formulado o behaviorismo ( de J B Watson tbém conhecido como Psicologia rasa ou comportamental devido a seu viés materialista). Mas dá com a Psicanalise. Este homem que deveria ter passado a vida dissecando cérebros descobre a mente ou o elemento imaterial posto de lado desde 1700... Este homem deveria ter se contentando com os fenômenos externos de consciência, mas deduz a existência de um inconsciente ideal. Este homem que não cre em alma ou imortalidade foi quem descobriu a instância do Eu a que não temos acesso. Este homem inicia a exploração de nosso universo interior, de nosso eu... e cria a Psicologia profunda.

Observem quem era Freud e o que fez e deduzirão por sua obstinação e probidade. Eis um homem que se deixou levar por suas pesquisas e constatações contra seus postulados a ponto de converter-se na contradição ambulante.

Em certo sentido até podemos dizer que a Psicologia só se torna Psicologia com S Freud porquanto antes não passava de apêndice da Psiquiatria e por ext da medicina. De fato, todos os 'psicólogos' até J M Charcot investigavam o Psicológico sempre em conexão direta com o Somático ou melhor dizendo com o cérebro, os nervos e a medula. Assim o eminente Paul Broca. E não se cogitava no contrário. Charcot estava convencido de que suas pacientes tinham algum defeito estrutural, orgânico ou físico responsável pela condição neurótica. Teve no entanto de convir que tal defeito não podia estar situado nos membros e foi apenas uma questão de tempo para que seus conhecimentos em matéria de fisiologia o fizessem supor que inclusive o cérebro delas achava-se em ordem, suposição que o molestava enquanto positivista. Seja como for achou por bem colocar de lado toda esta questão e continuar buscando pelas supostas anomalias ou defeitos orgânicos, os quais jamais encontrou. Também, morreu logo depois e Freud é que ficou com a pulga atrás da orelha.

Freud foi ao encalço da pista e pode comprovar que os corpos e cérebros estavam sãos enquanto a mente mesma achava-se deteriorada e deteriorada atuava sobre o corpo, produzindo falsos sintomas ou falsas doenças, as ora chamadas enfermidades psico somáticas, enfermidades cuja gênese encontra-se no eu ou na mente, mas cujos efeitos manifestam-se concretamente no corpo. Eis o que Freud descobriu, que não é apenas o corpo que atua sobre a mente ou o comportamento através de suas glândulas e hormônios. Mas que em contrapartida também essa mente ou esse eu atua sobre o corpo físico danificando-o. Eis o que Freud, o materialista, descobriu.

Desde então forcejou nosso homem por conhecer melhor essa mente, seus recônditos e seus achaques, produzindo dúzias de obras interessantíssimas a cabo de meio século.

Agora eu vos pergunto amigo leitor? Que resultou disto? A conciliação entre Psiquiatria e Psicologia numa teoria realista??? A paz? A concórdia???

Nem bem começamos o século XXI e a paz ainda parece estar muito distante de ser alcançada neste terreno. Terreno em que Psicólogos e Psiquiatras ainda buscam afirmar suas posições radiciais; idealismo crasso aqui e materialismo ali... Os materialistas como já era de se esperar denunciaram a psicanalise como essencialmente charlatanesca e criaram seu domínio que é o do behaviorismo legatário da reflexologia pavloviana. Via de regra os Psicanalistas e psicólogos clássicos - como os da gestalt - folgam ignorar as contribuições elementares do behaviorismo e remetem seus afiliados a psiquiatria. Em diversos contextos culturais psiquiatra e psicólogo ainda trabalham separados e em oposição um ao outro.

Por outro lado não puderam Psicanalise e psicoterapias derivadas continuar sendo supinamente ignoradas pelos meios acadêmicos. Queremos dizer com isto que pela primeira vez na História foi o monopólio acadêmico do positivismo quebrado e uma doutrina que não se reconhece a si mesma como puramente material e menos ainda como materialista, pode enfim obter o justo reconhecimento ao menos de parte da comunidade científica. Isto é claro só foi possível na Psicologia e não nas demais áreas das ciências humanas que permaneceram hermeticamente fechadas a simples possibilidade do ideal. Grosso modo a luta jamais cessou, pelo simples fato de que um Eysenck ou um Silva Mello jamais baixaram a guarda contra o herético da Psicologia. Importa saber que para certo número de psicólogos a psicanalise não é ciência e nada teem de científica. Tal a opinião de K Popper.

O positivista verdadeiro no entanto é exigente, de modo que um deles acaba a escrever a Dawkins negando em alto e bom som o seu caráter de cientista pelo simples fato de ser Biólogo e não Físico ou Químico. Positivista há para quem apenas as duas únicas categorias absolutamente exatas e invariáveis de conhecimento são científicas. Quem pensar então sobre a História? A História é mais técnica do que outra coisa, assim o Direito... Que pensar da Sociologia??? A Sociologia peca por editar simultaneamente um grande número de teorias... E da Psicologia??? A Psicologia lida com um fantasma a que chama mente ou com o inverificável... Enfim tudo isto cheira bem a metafísica. O positivistas completam a medida de seus postulados asseverando que o único tipo seguro e válido de conhecimento é o conhecimento científico... Portanto???

Tudo quanto sabemos de certo se dá apenas em termos de Física e Química... O resto é incerto e duvidoso.

Calculem portanto o ódio votado pelos positivistas a psicologia, a Psicanalise e sobretudo a S Freud por ter ousado ir afronta-los em sua Zona de segurança...

Arrematando:

"Freud teve a grandeza - nem querida, nem procurada, nem percebida por ele mesmo - de introduzir na Psiquiatria um elemento transcendente o qual jamais quis chamar de alma, embora o fosse pois achava-se ao mesmo tempo impregnado de materialismo positivista. E no entanto apesar do materialismo positivista este homem adota uma posição espiritualista. Desde então a psiquiatria e a medicina foram obrigadas a afastarem-se do modelo tradicional do recorte e da abstração forçada da doença para encarar o doente como um pessoa ou como um ser integral, oi que tornou possível o surgimento da teoria Psico somática, a qual vai pelos caminhos da antropologia." Juan Bautista Torello 1961 p 68 sg

"Queremos dizer com isto que a doutrina de Freud é rigorosa e fielmente antropológica e que a a partir dela o enfermo passa a ser encarado como uma pessoa no pleno sentido da palavra? Não. Freud foi um antropólogo a seu pesar. Queria ser apenas Biólogo ou Psiquiatra no máximo, mas há que reconhecer que o enfoque do enfermo como ser racional, livre e íntimo, noutras palavras, enquanto pessoa pertence formal e necessariamente - apesar de suas sugestões em sentido contrário - a concepção psicanalítica da patografia; sem ela Freud jamais teria conseguido compreender ou mesmo descrever 'freudianamente' sequer um de seus neuróticos. Por isso foi dito que com sua obra é que a patologia humana principiou a ser antropológica, depois de ter sido apenas cosmológica." Entralgo 1950 p 124 sgs

Freud por não poder desvencilhar-se por completo da ganga cultural positivista teve de carregar eternamente consigo o estigma da incoerência.

De um modo ou de outro foi ele que abriu a primeira brecha no muro com que o positivismo havia cercado artificialmente nossas ciências humanas e devemos lamentar sinceramente não ter a Sociologia encontrado o seu Freud, rompido com o mecanismo fechado, superado o apriorismo material e recuperado a pessoa humana, até o momento presente encarada como simples peça movida pela engrenagem social.

Todos estes desvios e equívocos começaram a cerca de dois séculos, ocasião em que o homem decidiu fugir da metafísica e voltar as costas para o incognoscível. Deus foi proclamado ultrapassado e a metafísica morta, sem que apesar disto a mística naturalista continuasse a produzir outras tantas entidades não menos exóticas: Assim a meta da Revolução, o ideal do progresso linear, o materialismo dialético, o patriotismo abstrato ou nacionalismo, a estatolatria, o Mercado, o lucro, a pureza racial, etc Cronos não cessa de abater Uranos e Zeus de fazer guerra a Cronos, e os deuses vão se sucedendo uns após os outros...