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sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Resposta as objeções de Hume - Uma ética essencialista/humanista

Este artigo tem por objetivo responder, de modo claro e sucinto, as objeções lançadas contra o essencialismo Ético ou realismo moral (subentenda-se ético) por David Hume e reforçar a defesa do padrão humanista.

A tarefa é de suma importância uma vez que segundo o há citado J Rachels "Pensamos que a escravidão corresponde a uma injustiça e que aqueles que pensem de modo diverso estejam errados... MAS NÃO É FÁCIL DEFENDER O PONTO DE VISTA DO SENSO COMUM."

Todavia em lugar de ESCRAVIDÃO - assumido o ponto de vista de Hume ou dos céticos - você pode ler qualquer coisa: Estupro, tortura, assassinato, pedofilia... que tudo continua sendo opinião defensável. Noutras palavras, as pessoas que discordam de nossa opinião negativa, a respeito do estupro, da tortura, do assassinato, etc não devem renunciar a tais desejos por estarem erradas, mas apenas e tão somente abster-se de coloca-los em prática tendo em vista sua criminalização pela lei e o risco de serem presas pela polícia e encaminhadas as autoridades.

Agora imagine amigo leitor que fariam tais pessoas caso as condições - assim o poder ou a posse das riquezas - as colocasse acima da lei ou as impedisse de serem descobertas ou pegas?

Noutras palavras, sendo incapaz de convencer ou de persuadir internamente o sujeito, a convenção social depende sempre de constrangimento externo ou força física para forçar o comportamento. A convenção supõem sempre a existência se polícia, comarca, exército e estado para manter-se e portanto de condições ideais. Em casos extremos de anomia, como revoluções, guerras, epidemias, catástrofes naturais, etc a moralidade cética da convenção desaparece e o homem converte-se em lobo do outro homem. Pois falta-lhe qualquer critério exterior a si mesmo e ao estado.

Não, não é fácil defender o ponto de vista do senso comum segundo o qual a escravidão ou o estupro correspondem a males essenciais e não a males relativos ou subjetivos. MAS CORRESPONDE A UMA NECESSIDADE IMINENTE ou teremos uma Ética ilusória e aparente.

Daí a necessidade de darmos uma resposta contundente aos problemas levantados pelo epistemólogo inglês -

Então vamos a eles:

  • Problema ontológico ou atinente ao ser: Será que existem fatos morais?

"Caso realizemos um inventário a respeito do quanto encontramos no mundo damos com pedras, árvores, átomos, estrelas, etc ... mas não encontramos o bem ou o mal, a justiça ou a injustiça, etc"

É evidente que aqui estamos diante do vezo materialista, e miseravelmente defendido pois certamente não chegamos a encontrar todas as entidades materiais que existem no universo. As quais existem mesmo sem que tenhamos qualquer conhecimento delas.

No entanto falamos bastante a respeito do bem e do mal, apenas não os localizamos em qualquer lugar ou ponto do universo. Justamente porque não se tratam de objetos, coisas ou elementos materiais.

Diante disto principiamos concedendo e sem maiores dificuldades que não existem fatos morais ou que a ética esteja dentro dos objetos ou das coisas enquanto parte deles.

O Juízo moral é julgamento que parte sempre de seres livre e racionais ou de seres humanos tendo em vista uma relação que encontra-se fora deles.

É um juízo que parte de princípios e valores existentes no interior do homem e direciona-se para eventos ou fatos que acham-se fora dele.

Isto por que os juízos verdadeiramente éticos, incidem sempre sobre as ações de outros seres humanos ou a interação entre seres humanos e seres humanos bem como a interação ser humano e determinado objeto.

É juízo, e portanto ato interno e mental, não externo e material, que incide sobre uma relação humana qualquer e não sobre objetos ou coisas. É juízo que tem por fim julgar as ações postas em prática por outros seres humanos.

Evidentemente que este juízo depende de um ser material, racional e livre para existir. Donde o juízo ético é fenômeno psicológico ou mental existente no ser humano e que tem por escopo levar este mesmo ser a posicionar-se face a atuação alheia igualmente racional e livre.

Portanto o que existem são fatos externos ou relações externas ciadas pelo homem, as quais são objeto de avaliação por outros seres humanos, avaliação que se dá a nível interno de consciência.

Quanto valorativamente avaliado por alguém é que as situações externas de relação adquirem um 'status' ético. Não se convertem em fatos éticos mas ficam sendo sempre atos humanos relacionais eticamente considerados. Assim a relação é sempre um fato e fato material: Pedrinho matou o gato, e o juízo moral, fenômeno mental e igualmente factual: Ana julga que Pedrinho cometeu um ato condenável. Este juízo imaterial existe verdadeiramente na consciência de Ana.

 “Pense-se em qualquer ação malévola: um assassínio premeditado, por exemplo. Examinemo-lo sob todos os prismas e veja-se se conseguimos a questão de facto ou a existência real para aquilo a que chamamos vício. Seja qual for o modo como a ação foi executada apenas encontraremos certas paixões, motivos, volições e pensamento. Não existe qualquer questão de fato neste caso." continua Hume
Se o fato é um assassinato, podemos defini-lo objetivamente como supressão da vida humana. É justamente este fato de suprimir a vida alheia que é objeto de juízo ético ou valorativo, não o modo ou a forma como a vida é tirada, mas por sinal o simples desejo ou intenção de suprimi-la. O malignidade incide sobre a ação externa, real e positiva de eliminar a vida alheia. Se a vida deve ser encarada como um bem e fonte de todos os demais bens, é evidente que sua eliminação corresponde a um mal...



  • O problema epistemológico - Como identificar os tais fatos morais?


"Em ciência distingue-se a existência de coisas pela observação e experimentação, ou talvez através da inferência a partir de observações e experiências. Em matemática há demonstrações. Na vida comum confiamos na percepção comum. Mas os factos morais não são acessíveis através de qualquer um destes métodos familiares..."

Uma vez que os fenômenos avaliados pela ética são sempre fenômenos humanos de relação, todos são perfeitamente observáveis e acessíveis aos sentidos.

Assim "Hitler mandou massacrar seis milhões de Judeus." ou "Eduardo Cunha mentiu sobre as contas existentes na Suíça." são fenômenos de relação, pois Hitler matou alguém e Cunha mentiu a Alguém. 
Aos atos relacionais segue a avaliação ética em torno de determinados princípios e valores. A confecção ou elaboração de um juízo ético pela consciência.


  • O problema da motivação ou da intencionalidade.


    Segundo Hume enquanto a razão é um princípio neutro, a Ética é levada a influenciar a vontade. Donde se segue que sua fonte é o sentimento ou a emoção e não a razão. As regras da moral não procedem da razão.


    Curioso que os kantianos, neo kantianos e 'modernistas' continuem a reproduzir as lições psicológicas fornecidas por Hume cem anos antes de que a Psicologia se converte-se em ciência.

    De fato a teoria dos setores compartimentados e coordenados da mente ao menos em certo sentido, baixou a sepultura com a psicologia clássica e ainda que não tenha sido completamente substituída pela psicanalise teve de ceder lugar a reformulação elaborada por Kofka e Kohler nos termos tanto mais realistas e complexos da gestalt.

    Aqui Kant deitou e rolou e mesmo Aristóteles concedeu sem maiores dificuldades que a razão deve ser exercitada ou educada para não ceder levianamente aos apelos da vontade. Sem no entanto declarar que os sentimentos são sempre e necessariamente irracionais. Tal o problema análogo da Intuição, que já foi definida como operação racional inconsciente e por isso mais acelerada.

    Agora consideramos que o juízo ético tem por objeto as ações alheias.

    Digo das ações livre e conscientes. Pois o que não foi realizado consciente e livremente não possui qualidade ética.

    O que julgamos são as atitudes alheias com base em determinados princípios e valores.

    Importa saber se tais princípios são arbitrários e irracionais, enquanto resíduos de cultura ou resultado de convenção, ou racionais enquanto tomados a vida.

    Nós somos pela racionalidade dos princípios Éticos bem compreendidos.

    Agora por que bem compreendidos?

    Chegamos aqui ao nervo da questão que é a distinção entre Ética e moral.

    (Nós mesmos empregamos ambas as expressões como equivalentes, seguindo o senso comum ou opinião popular)

    Lamentavelmente muita poeria tem sido lançada sobre o tema com o premeditado intuito de obscurece-lo.

    Mas ficaremos com a definição corrente e mais divulgada: A moral diz respeito a costumes, ex: Tirar o chapéu diante dos mais velhos, descobrir-se a mesa, usar garfo e faca, não chamar nomes, evitar usar roupas curtas ou expor certas partes do corpo, etc

    E CONCEDEMOS QUE A MORAL É CONVENCIONAL, CAPRICHOSA, ARBITRÁRIA E IRRACIONAL...
          Por isso que não estamos abordando o tema da moral ou dos costumes, o qual para nós é abso-
          lutamente irrelevante.

          O que estamos a discutir aqui são conceitos éticos ou seja princípios e valores expressos pelos             termos: Bem e mal, certo e errado, justo e injusto; e assim pelas virtudes do bem, da verdade, 
          da justiça, etc E por certas ações humanas atinentes a vida e ao trabalho: assassinato, roubo,
          traição, mentira, etc É a respeito de tais conceitos, virtudes e ações que falamos e não sobre 
          costumes ou modos externos de ser.

          Assim se avaliamos as ações humanas por meio de determinados princípios e valores que a 
          reta razão afirma como excelentes, nada mais justo e ainda racional, que mover a vontade para
          por em prática as mesmas virtudes e valores. Pois o princípio da coerência também emana da
          razão.

          Ademais se consideramos que este ou aquele princípio procede da reta razão, é perfeitamente             normal que busquemos consagrar-lhe todos os aspectos da personalidade e assim a afetividade.
          Assim o que é racional é bom e o que é bom deve ser amado. Por isso vemos com absoluta na-
          turalidade a virtude atrair os sentimentos e os sentidos fixarem-se na virtude. Nada mais con-
          forme a natureza do que a razão despertar o afeto, o amor, simpatia, e trazer jungido a seus
          pés o império da vontade.

          Os homens buscam viver eticamente justamente porque estão convencidos de que os princípios
          e valores que norteiam a ética são racionais, reflexivos, essenciais, verdadeiros e não arbitrários
          como as normas e regras impostas pela moral.

          Por fim é a Ética lei universal presente na consciência humana com o objetivo de regular a
          vontade livre direcionando-a para aquilo que é bom e virtuoso. Dai seu caráter normativo - 
          I Kant diria de "Imperativo categórico" - e não meramente descritivo e a gosto dos positivis-
          tas. Uma Ética meramente descritiva seria simplesmente impossível uma vez que sua tarefa é
          a elaboração de juízos de valor, de juízos ideais sobre aquilo que deve ser. 

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Ciência, necessária sim, suficiente não - A miséria do cientificismo

Processo experiencial através do qual o homem obtém novos conhecimentos e dilata seu entendimento a respeito do Universo ou ainda da realidade que o cerca. Tal nossa despretensiosa definição de ciência.

Problematizemos.

Quando nossa espécie principiou a alastrar-se pela face da terra há algumas centenas de milênios nosso conhecimento era incipiente.

Claro que ainda resta muito a aprender e que sabemos muito mas muito pouco em comparação com o quanto ignoramos.

Não temos a vã pretensão de tudo saber mas sabemos algo, alguma coisa...

Caminhamos, caminhamos, caminhamos... ao cabo de alguns milênios e nosso saldo é positivo.

Temos assim a lei da gravidade, a lei da conservação da matéria, a seleção natural, a relatividade, a clonagem, etc

Em termos puramente ideais e em contraposição ao estado de ignorância, a obtenção de qualquer tipo de conhecimento é um bem.

Consequentemente a própria ciência, enquanto processo experimental que conduz-nos a aquisição de determinado tipo de conhecimento, é um bem em si mesma.

Enquanto meio que nos permite ultrapassar o estado de ignorância não podemos negar que a ciência seja um bem e um bem de grande importância para a humanidade.

A menos que encaremos a ignorância como um bem não podemos deixar de fugir a semelhante conclusão.

Assim humanista algum pode deixar de reconhecer o benefício da ciência.

Agora uma coisa é reconhecer a ciência como Bem e outra, totalmente, diversa, afirma-la como bem supremo e superior a todos os outros bens existentes.

E é exatamente aqui que o humanismo se separa, decididamente do positivismo ou do cientificismo.

Ideologia ou mística negadora da Ética (bem como da Filosofia) e para a qual a ciência possui o apanágio de produzir consciência. Erro fatal a respeito de que fôramos alertados pelo gênio imortal do Filósofo ateniense... Mas que ressurgiu das cinzas ao cabo do século décimo nono.

Pois se o conhecimento ou a obtenção do conhecimento é um bem em si mesmo o uso que dele se faz nem sempre é um bem.

Implica admitir que a ciência ao tornar-se técnica possa sofrer abuso recebendo uma orientação ou um direcionamento oposto a vida e a dignidade humanas.

Assim o átomo é partido e a partir deste conhecimento produzem-se bombas... Assim células são cultivadas e em seguida comercializadas...

As próprias experiências e pesquisas com 'material ou elemento' humano nem sempre se tem guiado pelos princípios da transparência e da honestidade.

Não o conhecimento puramente teórico obtido pela ciência não corresponde ao fim último da atividade humana mas de um estágio posto para a técnica ou para o uso.

Portanto este uso precisa ser regulado.

No entanto a mesma ciência que franqueou-nos acesso ao conhecimento é de todo impotente e inepta para regular o uso que dele se faz.

A ciência que produz o conhecimento jamais questiona cientificamente o uso que dele se faz.

Sendo assim já sabemos porque a 'ciência' que se nega a vida Ética - ou seja a ideologia cientificista - jamais questiona as exigências do Mercado e termos de justiça ou bem comum. Uma vez que justiça e bem comum não são entidades materialmente perceptíveis através da experiência. Donde o positivismo vem a questiona-las ou mesmo a nega-las (ou a classifica-las como preconceitos) para servir docilmente aos interesses do capital, sem fazer questionamentos mais abrangentes e profundos.

Como o positivismo não reconhece outra realidade além da material ou factual perceptível por meio da experiência e o capitalismo faz parte desta realidade, o positivismo adapta-se. Descreve o que a Sociedade é, mas recusa-se a julga-la e a condena-la, por considerar que tudo quanto esteja para além da experiencialidade pura seja meramente subjetivo e portanto relativo. Como valor algum é objetivo os juízos ideais ou valorativos jamais deixam de corresponder a opiniões discutíveis e assim toda Ética e perspectiva humanista.

Parta o cientificismo crasso os conceitos de bem, fidelidade, bondade, amor, justiça, alteridade, solidariedade, sensibilidade, etc não correspondem a qualquer coisa de real mas apenas e tão somente a preconceitos bobos e opiniões infundadas. De modo que a ética não sendo nem empírica nem científica nada tem de válida ou de verdadeira.

Assim sendo como não há Filosofia, Metafísica ou Deus e mesmo Ética ou valores essenciais, o próprio método cientifico ou a ciência por assim dizer acaba ocupando o lugar dessa Ética ou o lugar de Deus, convertendo-se ela mesma numa deusa e numa deusa redentora uma vez que se propõem a brindar a Sociedade contemporânea com aquilo que a Religião e a Filosofia jamais puderam brinda-la: o progresso 'humano' e a paz Social. Pelas níveas mãos da deusa ciência, seria a civilização Ocidental conduzida ao paraíso e este paraíso seria construído aqui mesmo na terra. Pois esta ciência produziria consciência como a laranjeira produz laranjas e a figueira produz figos!

Nada mais curioso do que observar essa mesma ciência que folga dirigir palavras azedas não apenas as religiões mas mesmo a Filosofia antiga, está sempre pronta a colaborar com os interesses do capital, tornando-se não apenas vendável mas sobretudo lucrativa... Que não hesita empregar seres humanos como cobaias em seus experimentos... E que sabe empestear a mãe terra quando não convém arrasa-la com suas bombas...

No entanto apesar dos sinais e evidências nossos ancestrais engoliram a isca, caíram no logro e quando abriram os olhos tiveram de enfrentar duas tremendas guerras mundiais, as piores calamidades já registradas pela História. De fato a ciência ou melhor o cientificismo conseguiu substituir a Filosofia e o Catolicismo com relativo sucesso.. O que não conseguiu foi evitar a ascensão do Comunismo, do Fascismo, do anarco individualismo e do Nazismo; pelo simples fato de jamais ter produzido consciência e de sempre ter colaborado ativamente com o capitalismo sem ousar brinda-lo com a mínima crítica!

Assim ao triunfo da técnica correspondeu uma era de crise e declínio moral, representada por uma economia falaciosa, por uma política maquiavélica e pela efervescência de conflitos sociais. Porque o cientificismo não fora apto para produzir solidariedade, solidariedade e justiça; princípios sem os quais qualquer civilização se dissolve. Como dissolveu-se o Ocidente em princípios do passado século. Desde então a técnica, posta em mãos de psicopatas, canalhas, cafajestes, degenerados, etc converteu-se em martírio.

"A grande tragédia é que o homem adquiriu o conhecimento do mundo externo a si ou do universo antes de ter obtido o conhecimento de si mesmo!" declarou A Schweitzer pondo as vistas de todos o diagnóstico do nosso tempo, a 'Era de ouro' da técnica, do positivismo ou do cientificismo.

O erro foi por a ciência acima de tudo quando ela mesma precisa ser orientada.

Crer que a ciência produziria Ética foi um engano fatal, pois constituem reflexões distintas.

Crer que seria possível ao homem viver sem Ética, isto foi delírio mesmo.

No entanto, devido a assuntos de natureza ideológica, alguns quiseram acreditar realmente nisto, temendo que a reflexão fosse desdobrada.

Temiam e ainda temer que a Ética seja essencial ou metafisica ou que nos remeta a metafísica.

Percam-se os preconceitos do homem 'emancipado', precisamos de Ética pata viver como precisamos de ar e sacrificar a vida Ética bem poderia levar-nos a extinção.

Sei que Ética remete a limites e que a deusa ciência ou melhor alguns cientistas que se julgam deuses sentem-se molestados por viverem num planeta que é finito e por terem de considera-lo.

Aqueles que teem pretensões infinitas e tão arrogantes quanto as dos líderes religiosos a que tanto criticam haverão se sentir-se desconfortáveis face a realidade finita que nos cerca. No entanto não podemos fugir a realidade que nos cerca. A magica poderá acenar com isto, a ciência jamais.

Compreendeu o leitor por que a Ética tender a quebrar o falso brilho, a mágica ou o feitiço que o charlatão positivista lançou sobre a ciência?

Advertindo-nos de que num mundo finito a finitude deverá ser sempre levada em consideração.

Então ai esta ela como um 'espinho na carne' ou melhor na alma do feiticeiro ou xamã da modernidade, a incomoda-lo.

Lamento mas não será a ciência ou o conhecimento tomado a um mundo material e finito que satisfará nossa sede de infinitude. Neste sentido cumpre devassar outros horizontes, quiçá superiores.

Tudo quando queremos ou quisemos ressaltar neste pequeno artigo foi o primado de Ética como conhecimento orientador de toda atividade humana.

Ciência é necessária sim e é boa, mas não é suficiente. É necessário adicionar-lhe outro tipo de reflexão para que o sentido da existência seja devassado por completo e saibamos com exatidão o que devemos fazer ou como devamos aplicar os conhecimentos científicos.



segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O lugar da Ética no espaço escolar> Instrução ou educação? Parte I


I - Condição extra escolar - O universo da ética fora da Escola.




Jamais se falou tanto de Etica quanto no tempo presente.

Fosse pela abundância do discurso seríamos levados a crer que estamos vivendo a Idade da Ética ou um florecimento da consciência humana no mais alto grau.

Apesar disto civilização alguma parece ter sido tão menos ética do que a nossa.

Assim se os assírios machavam suas mãos com sangue humano e também os maias e aztecas parece que a humanidade presente com suas mãos 'limpas' tem um coração de pedra - completamente indiferente as necessidades alheias - ao invés de um coração de carne. E isto nos parece bem mais grave (Sheley). Ultrapassamos a crueldade primitiva por meio da insensibilidade.

Pois se os antigos pareciam sentir prazer em torturar suas vítimas e desafetos, paradoxalmente não eram menos habéis em identificar-se com aqueles que sofriam...

Em nós homens do tempo presente sobejam as belas palavras e minguam as atitudes concretas.

"O homem que se gasta em palavras: raramente se gasta e ações" no dizer do Dr Gustave Le Bon

Tal o fundamento ontológico de crise porque passamos: Mais moral ou ético do que técnico, material ou econômico.

Toleramos vergonhosamente essa chaga chamada capitalismo e nos curvamos perante o ídolo do Mercado. Julgo no entanto que as profundezas do mal toquem as fontes mesmas de nossa consciência e caráter pelo simples fato de sobrepormos o TER ao SER.

Nós - E me refiro sobretudo e antes de tudo ao Cristão (Aquele que foi convocado a amar e a auxiliar, a servir e a perdoar, a beneficiar e a favorecer) mas (numa perspectiva naturalista) também ao socrático - aceitamos muito facilmente a dinâmica mecanicista e inumana do mercado e não soubemos resistir-lhe como deveríamos. Assim, graças a nossa indiferença e comodismo o Mercado estendeu seus tentáculos sobre toda face da terra e estabeleceu uma nova ordem, econômica, não humana.

E nós aquiescemos...

Aquiescemos...

Concordamos, cedemos, negociamos e acreditamos poder viver dignamente sob a tutela de um Mercado financeiro!

Evidentemente que temos de abordar - numa perspectiva econômica - os defeitos estruturais ou internos do sistema capitalista e expor claramente a falácia da auto regulação. É caso de necessidade! No entanto precisamos ir mais além, questionar e buscar saber por que nos identificamos tão apressadamente com este sistema e optamos por viver conforme suas leis apesar de conter defeitos tao notórios.

Até que ponto é, a aceitação do capitalismo e dos demais exemplos de cultura de Morte (nazismo, fascismo, comunismo, etc) corresponde a uma queda em termos de ideal, a uma crise de consciência e a um obscurecimento Ético e o que é que levou-nos a esse entorpecimento...

Acompanhemos para tanto os caminhos da Ética no curso da História.

Durante séculos de séculos, a cabo de milênios infindos, ao dealbar de Eras de eras permaneceu a Ética atrelada as crenças religiosas. Assim durante toda a Idade primitiva, assim entre as civilizações egípcia, sumeriana, indiana, chinesa, assíria, babilônica, fenícia, hitita, etrusca, etc em suma, até o florescimento da civilização helênica. Nicho de cultura em que pela primeira vez a reflexão sobre os valores foi desligada do elemento religioso - deixando de corresponder a um monopólio sacerdotal - para vir a ser objeto de reflexão ou de consideração racional sob os auspícios dum saudável naturalismo.

De fato a religião antiga ou a suposta religião revelada, esta permaneceu sob a tutela dos padres. Não a queriam os pensadores, pois o critério adotado por eles era o emprego da razão e não desejavam confundir as coisas. Tal a perspectiva de um Demócrito e de um Aristóteles. Alguns como Platão ainda tomavam empréstimo ao sagrado em busca de uma linguagem alegórica que os aproximasse mais da gente simples. Outros não. Admitiam o valor da religião, mas como algo distinto da reflexão filosófica, a qual agregavam a questão dos princípios e valores.

Foi um ensaio de emancipação que nem por isso deixou de atrair a atenção colérica e rancorosa de sacerdotes como Diopeites e da mentalidade conservadora representada a um tempo por Licon, Anito, Melito, etc

Seja como for o choque foi atalhado por uma interpretação simbólica ou alegórico dos mitos, pela falta de um aparelho repressor organizado e pela tendência da própria religião em tornar-se ritualista. Por fim a religião manteve a aparência externa dos ritos sancionada pela tradição da cidade e a Filosofia coube a reflexão sobre os atos humanos.

Tal revolução no entanto não representou mais do que um relâmpago a iluminar as trevas duma noite escura.

Assim após o colapso da Civilização antiga e a queda do Império romano, passou a ética, mais uma vez ao domínio da religião, se bem que sob uma forma mais avançada ou evoluída no caso o Cristianismo.

No entanto a medida em que o mundo contemporâneo de sia tornando mais democrático e pluralista impunha-se a separação e a elaboração de uma ética comum do ponto de vista puramente natural.

Importa saber que a construção desta Ética não foi e não é, por assim dizer, algo de fácil execução.

Especialmente se levarmos em consideração que da relação existente entre Ética e religião e da consequente negação da religião resultou a negação da própria ética por parte de não poucos pensadores modernos.

Concomitantemente sugeriu-se mais uma vez que a instrução ou a própria ciência seriam capazes de substituir a Ética ou de produzi-la. Sugestão que de certo modo já havia sido denunciada por Sócrates. Referi-mo-nos ao cientificismo segundo qual os princípios e valores ideais seriam determinados pela própria pesquisa científica.

Os gregos não conheceram o dilema religião e ciência ou religião e ateísmo forjando por assim dizer um teísmo racional ou deísmo naturalista destinado a dar suporte a ideia de uma lei universal e a uma Ética essencialista. Não cogitavam apelar a códigos supostamente sagrados ou revelados como os antigos hebreus, mas também não prescindiam de um legislador ou duma consciência universal enquanto fundamento objetivo do bem e do mal.

Podemos definir sua Ética - de modo geral e atendo-nos as escolas de Sócrates, Platão e Aristóteles, bem como as figuras de um Diógenes de Apolônia, Parmenides, Anaxágoras, etc - como não religiosa ou naturalista, teísta ou deísta (como queiram) e essencialista ou objetiva. Teleologicamente sua ética estava posta para a convivência harmoniosa no seio da Polis, para a unidade social e virtudes cívicas, isto a ponto de terem percebido e afirmado a pessoa, sem no entanto terem ousado coloca-la ao lado do Estado ou da Pólis. Haviam apreendido as noções de pessoa e liberdade mas sempre em estado de maior ou menor sujeição face as necessidades da Polis.

Assim para eles a lei natural compreendia um princípio absoluto (Transcendente/Imanente), uma dimensão social bastante clara e uma unidade pessoal destinada a observa-la.

A ideia de que os próprios indivíduos correspondesse a tarefa de legislar ou de criar leis válidas para si mesmos lhes parecia incompatível com aquele ideal de comunhão que era a Pólis e destinado quiçá a dissolver todos os liames da vida social sem os quais não podiam conceber a existência.

Por isso buscavam algo de comum, um elemento comum, um vínculo comum de que resultasse os fundamentos de uma lei comum a todos os homens. E este elemento redescoberto por nossos deístas durante o iluminismo era a Ideia de uma consciência ou mente suprema capaz de legislar tanto física, quando imaterial ou moralmente.

Os gregos jamais saíram disto e jamais cogitaram em produzir uma ética ateística ou materialista embora nem por isso sua ética fosse sobrenatural ou religiosa mas como já dissemos pautada na reflexão e portanto naturalista. Segundo os gregos a lei natural não precisava ser revelada por Deus ou pelos deuses porque estava no acesso da razão humana. Por isso não dependiam de sacerdotes ou de livros mas apenas e tão somente do exercício dialético, por meio do qual acreditavam ser possível alargar e aprofundar seus conhecimentos.

Tal o ponto a que chegaram e a síntese elaborada por eles.

Este ponto de equilíbrio no entanto foi como que quebrado ou fragmentado pelo homem moderno após sua drástica ruptura com a religião e a solução - da parte de alguns ao menos - pelo ateísmo e pelo materialismo. Já dissemos que alguns destes optaram por sacrificar a ética ou por coloca-la de lado. O que é tapar o sol com a peneira, na medida em que a Sociedade demanda, mais do que nunca por soluções éticas e que a falta delas corresponde a tremenda crise porque passamos.

Muito tem de discutido sobre como o materialismo e o ateísmo seriam capazes de fornecer-nos uma ética objetiva e essencialista capaz de servir de barreira as culturas de morte que nos cercam. Serão o ateísmo e o materialismo capazes de ultrapassar, em termos de ética, os limites do subjetivismo, do relativismo e do individualismo e de propiciar-nos um elemento comum e unificador no terreno dos princípios e valores ou teremos de nos contentar para sempre com opiniões individuais e preconceitos oriundos da cultura ou das culturas???

Claro que todas estas questões precisam ser levantadas e discutidas com serenidade.

Kant levantou todas estas questões e após ter 'demonstrado' que era impossível demonstrar a existência de Deus na "Critica da razão pura" retomou-a sem maiores problemas na tão odiada ou depreciada "Crítica da razão prática" enquanto fundamento do mundo Ético ou moral. E com os gregos admitiu ser impossível ou melhor absurdo postular uma Lei Universal ou natural prescindido de um Legislador inteligente. Do contrário, inexistindo uma lei natural ou universal, torna-se o indivíduo única lei ou padrão de ética para si mesmo. E estamos no terreno do individualismo crasso.

A um lado temos a ética objetiva e essencialista fundamentada na ideia de um elemento unificador, seja mente, consciência, energia, etc ao menos em parte Transcendente face ao gênero humano e a outro uma ótica individualista segundo a qual cada homem é padrão de bem e mal para si mesmo.

Haverá alguma solução intermediária entre estes dois extremos????

Entre a ideia de uma lei universal ou natural por princípio de coerência vinculada ao teísmo e a ideia, assustadora de uma ótica individualista houve quem buscando um meio termo postulasse a ideia de sanção social, Neste caso a lei a ser observada não teria seu ponto de partida nem num Deus supremo nem no indivíduo isolado mas no consenso social democraticamente obtido ou na sociedade.

É solução precária primeiramente porque existem diferentes tipos e formas de Sociedades, o que nos levaria a um imenso número de leis e o que seria permitido de um lado dos alpes já não seria permitido do outro... E a simples mobilidade do ser humano propiciaria intermináveis conflitos. Tanto pior se considerarmos o fato de que as Sociedades ou Estados não parecem infalíveis em matéria de ética ou moral. Substituído Deus ou o individuo pelo Estado temos preparado o caminho da estatolatria e do totalitarismo representados pelo nazismo, pelo fascismo e pelo comunismo. Aqui bom é o que beneficia o poder, a raça ou o partido e mau o que opõem-se as diretrizes e ambições do poder, da raça ou do partido! Face as quais as vidas humanas pouco ou nada significam...

Remete-nos esta ideia ou este critério de ética aos campos de concentração, expurgos, gulags, pogrons, extermínios em massa, etc

E se nos parece que o Estado possa ser orientador tão discutível quando o indivíduo em termos de ética.

O indivíduo arroga-se o direito de matar???? O Estado com mais razões ainda. O indivíduo alega ter o direito de torturar??? Certas sociedades ainda com maior empenho... E como a Sociedade ou o Estado comporta um número bem maior de indivíduos até o estrago acaba sendo maior.

Admitido e aceito que tudo é opinião individual e que o indivíduo é supremo critério em termos de Ética estamos no inferno de Hobbes e sem Leviatã que nos valha! Admitida a solução da estatolatria, converte-se a Sociedade mesma em divindade suprema e estamos nos domínios de Hitler com sua barbárie organizada...

Aqui todo esforço para ocultar ou disfarçar o problema ou sua gravidade é inútil.

Por considerações 'teóricas' ou intelectuais de vária lavra tem alguns homens combatido ferozmente o simples conceito ou ideia de Deus em termos naturalistas e por simples ódio a religião (Nem negamos que parte delas mereça este ódio). E eles nem podem, como os antigos gregos, separar a ideia de Deus da ideia de religião ou fé... E fazem-se paladinos abnegados do ateísmo, postulando inclusive que esta opinião ou teoria - por si só ou associada ao cientificismo - será capaz de produzir um tipo de consciência ética mais elevado.

Nós no entanto temos um demanda prática diante de nós e clamamos por uma solução eficaz.

Precisamos, repito, resgatar a antiga noção de Lei natural e comum (ou universal) ou de uma ética objetiva e essencialista capaz de condenar irremissivelmente todos os totalitarismos.

É portanto direito que nos assiste perguntar aos adeptos do ateísmo e do materialismo: Que tipo de ética vocês tem a oferecer-nos??? Serão vocês capazes de deduzir ou de extrair de seus postulados teóricos esta ética objetiva, essencial e unificadora???

Porque se nos apontam para o indivíduo na perspectiva de um Stirner ou de uma Ayn Rand tememos que o arguto Hobbes tenha já tirado das devidas conclusões. Nem podemos nos deixar iludir pelas conclusões românticas de um Russeau vivendo num universo volitivo deslindado por Freud...

Agora se algum liberal ingênuo nos aponta para o contrato social devemos considerar que este contrato, mesmo quando policraticamente implementado, permanece sempre falível. Sócrates não foi condenado pelos caprichos de um Mussolini mas pelo tribunal de Atenas segundo as formas policráticas de então! Jesus não foi condenado arbitrariamente pelo Sumo Sacerdote Caifás mas pelo órgão classista do Sinédrio. As leis de segregação racial vigentes em diversos estados dos EUA foram democraticamente baixadas! Democracia é bom no que diz respeito ao espaço do político, mas não pode substituir eficazmente o padrão da consciência implantado no universo pessoal.

Quantas vezes a objeção de consciência e a desobediência civil não representou o que havia de mais nobre e virtuoso. Enquanto as leis referendadas pela maioria mostravam-se opressoras???

Aqui uma conclusão salta a vista: As perspectivas puramente imanentes do individualismo e do estatismo ou socialismo não parecem resolver o problema ou oferecer critério seguro a vida ética. Daí dirigirmos aos ateus, materialistas e de modo geral a todos os adversários do teísmo naturalista esta pergunta que não quer calar:

O que vocês nos tem a oferecer de concreto em termos de ética????

Porque esta é a grande pergunta do tempo presente.

E temos de encontrar uma resposta para ela.