Mostrando postagens com marcador Roma. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Roma. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 22 de maio de 2017

O sentido da cidade de Deus em Agostinho e Paulo Orósio

O ano: 410




Resultado de imagem para augustine of hipona picture



Jerônimo de Stridon arrasta-se entre lágrimas pelo chão de sua caverna nas proximidades de Belém...

Outros estavam firmemente persuadidos de que o Cristo não tardaria a aparecer no alto dos céus rasgando as nuvens.

Outros ainda alegava que os homens estavam enfrentando a fúria dos deuses tutelares, os quais, desde Constantino e Teodósio, já não eram alimentados com sacrifícios rituais.

Tudo porque o comandante Gôdo Alarico havia invadido e pilhado a antiga capital do Império, Roma, a 'Cidade eterna'...

Afinal a última invasão havia ocorrido oito séculos antes a 18 de Julho de 390 a C.

Desde então Roma jamais fora invadida ou conquistada, nem mesmo pelo grande Anibal.

Tornara-se inexpugnável e convertera-se em mito.

Para as massas a Cidade de Roma, coração do Império e capital do Mare Nostrum era impossível de ser conquistada.

Por isso que as vésperas de sua queda, centenas de milhares de cidadãos, vindos de todos os cantos da Itália, lá se achavam apinhadas e julgando-se protegidas pelas multi seculares muralhas.

Tanto o fantoche imperial Honório, filho de Teodósio, o grande; quanto as famílias senatoriais da mais alta nobreza, haviam sido arrogantes e mais do que isto, imprudentes, por terem dado morte a Estilicão.

Disseram a Alarico que havia muita gente na cidade.

Respondeu o Gôdo, declarando que estando densa e grossa a erva, achava-se pronta para ser cortada.

Solicitou uma montanha em ouro e prata... Foi quando os orgulhosos senadores perguntaram-lhe:

Que nos restará então? E ele respondeu-lhes: Vossas vidas!

Optaram os romanos pro bromar...

Alarico retirou-se em demanda de Ravena, a nova capital, onde se achava Honório. Os pântanos no entanto fizeram-no recuar e tornar a antiga capital do Império.

Após alguns dias de saque, a fome e a peste fizeram com que os próprios cidadãos abrissem a porta Salária.

Era Bispo de Roma Inocente I, o qual impetrou ao godo alguns lugares de refúgio. Alarico concedeu-lhe as duas Basílias dos Apóstolos - S Pedro do Vaticano e S Paulo, fuora muri.

Evidente que não abarcavam a toda população da cidade, alias engrossada pelos refugiados.

Os jardins de Salústio foram incendiados pelo invasor e certo número de patrícios passado a fio de espada. O saque foi feito 'casa a casa' e acompanhado por uma sucessão de estupros e torturas...

De modo geral Roma sofreu bem mais dos vândalos e ostrogodos...

O primeiro saque foi relativamente ameno, porém traumático.

Pois significava o fim de um mundo, e o começo de outro.

Apresentaram-se então uma série de questões:

  • Por que o Império romano havia caído?
  • Por que caiam os impérios?
  • Haviam os romanos sido punidos pelos antigos deuses?
  • Por que havia Deus permitido que os Cristãos fossem molestados de um tal modo?
  • Que pensar sobre as freiras que tinham sido estupradas e ainda sentiam complexos de culpa?
  • Que se sucederia após o fim do Império?
  • Acaso a destruição do império não significava que o mundo estava prestes a acabar?

Agostinho de Hipona na "Civita Dei" (Encerrada em 425) pretende responder a tais questões focalizando a História da própria Roma servindo-se para tanto do que havia de melhor em termos de fontes, as obras de Terêncio Varrão sobre as origens do Império.

A obra demorou longos quinze anos para ser concluída e adotou um viez moralista, refinado a seu tempo pelo maometano Ibn Khaldun nos 'Prologomenos'.

Não é que a análise de ambos seja totalmente falsa ou equivocada, limito-me a classifica-las como superficiais.

A tese geral de Agostinho é que os impérios e civilizações, sendo contingentes, nascem, morrem e sucedem-se uns aos outros.

Havendo vislumbre desta lição já no livro judaico atribuído a Daniel.

Resta saber quais sejam as leis que presidem o nascimento e a morte dos Impérios.

Segundo o hiponenses, os primeiros romanos eram cultivadores da terra - Aqui faz eco a Catão, o antigo - e portanto homens operosos, exercitados, treinados e portanto aptos para serem bons soldados.

Não é ocioso advertir que antes da invenção das armas de fogo, o aparato bélico era bem mais pesado e portanto dificil de ser transportado.

Com certo sabor de Sócrates nos "Ditos memoráveis", Agostinho alega que a parcimônia, a simplicidade, as privações, a sobriedade enfim, imposta pelo ambiente rural transformaram o primitivo romano no soldado por excelência. Assim a precariedade da vida correspondia a uma espécie de ascese ou disciplina natural.

Ainda acompanhando os sucessores do velho Catão e testemunhas do declínio imperial, o Bispo africano conclui que a expansão do Império, a afluência de recursos a Península Itálica e a consequente adoção de hábitos civilizados, refinados ou urbanos pelos antigos romanos acabou por amolece-los. Tendo sido abandonado o trato da terra com sua ascese natural seguiu-se a degeneração dos costumes, definida como a busca pelo prazer, dos banquetes, bebedeiras e orgias...

Obviamente que este homem dado a prazeres requintados, coberto de seda, bem nutrido, perfumado, ostentando anéis e colares de ouro não haveria de ser bom soldado, intrépido, valente, corajoso; pelo simples fato de que a vida havia deixado de ser penosa e se tornará apetecível para ele.

Assim os mártires do Cristianismo antigo, foram o que foram porque eram antes de tudo ascetas, ou seja, jejuadores, abstinentes, sóbrios e morigerados. A ascese seja natural, social ou mística é o que torna a vida humana indesejável. A amarga e destrói as fontes de vida. Eis porque os ascetas são sempre os melhores soldados e os melhores mártires, os melhores matadores e os melhores a serem mortos...

É claro que Agostinho nem poderia pensar em algo assim, como não foi suficientemente profundo para relacionar este amolecimento das massas e da sociedade em geral com o 'Pão e circo', com a inviabilidade das guerras, com a falta de mão de obra escrava e com a produção de bens e a inflação, atingido as causas mais profundas do colapso.

Para além de Roma, Ibn Khaldun é levado as mesmas constatações que Agostinho, embora de modo mais preciso, na medida em que relaciona a ascese natural com o meio e com a mobilidade dos povos.

Refere assim que os locais mais rudes como montanhas e desertos, já devido ao labor que envolve a subsistência, propendem a estimular o deslocamento de suas populações ou seja o nomadismo, que o nomadismo, bem mais do que o sedentarismo, torna o homem exercitado, treinado ou preparado; a ponto deste homem, face a civilizações urbanas e refinadas, tornar-se um predador por excelência.

Vislumbra o conflito ancestral entre as primeiras civilizações urbanas, altamente desenvolvidas, e as culturas nômades porque foram sucessivamente engolidas e destruídas. A apreensão da realidade aqui é bem maior.

Seja como for o escritor africano ressente a limitação de seu trabalho e solicita que seja ampliado por outros. Cerca de 417 o presbítero hispalense Aulus Orósio compõem sua estimada "História contra os pagãos", obra que veio a converter-se em clássico durante a Idade Média. Afinal trata-se da primeira História do mundo escrita por um Cristão ocidental - Sexto Júlio Africano, Hipólito romano e Mar Eusébio de Cesáreia já haviam escrito suas crônicas mundiais nos século III e IV (em grego), sendo a Eusébio (Alias 'Pantodape Historiae' ou História mundial ) traduzida para o latim pouco antes que Orósio completasse a sua.

Orósio segue o esquema limitado do pseudo epígrafe de Daniel - dito livro do Profeta Daniel - com os quatro reinos representados pelos animais míticos. Em Daniel os tais reinos seriam: Neo babilônico, Medo, Persa e Macedônico ou grego, desconsiderando assim, por ignorância os impérios mais antigos: Sumério, Egípcio, Babilônico e Assírio, dentre outros (Pois poderíamos acrescentar o indiano, o chinês, etc). Já noutra parte o autor de Daniel refere quatro reinos distintos: Neo babilônico, Persa, Grego e Romano, entrando em contradição consigo mesmo.

Talvez por isto, tendo observado a variação, Orósio esforça-se por compendiar a História de quatro reinos: Babilônia, Grécia, Cartago e Roma, omitindo o reino dos Persas (Certamente por ignorar a Pérsica de Ctsias de Cnido) e pondo Cartago em seu lugar.

A partir daí o teólogo espanhol vai pintando com as mais negras cores - E no entanto absolutamente reais - a sucessão de atrocidades cometidas por cada um destes Impérios até chegar ao Romano, focalizando com maior interesse as guerras e invasões e salientando a crueldade com que eram levadas a cabo pelos antigos. Então imaginem só que prato cheio teria sido para este cronista o conhecimento do antigo império assírio, cujos reis, a exemplo do grande Assurbanipal deliciavam-se lendo bons livros e cortando as orelhas e narizes de seus prisioneiro de guerra.

O que ele pretende assinalar é que graças ao predomínio do Cristianismo, em meados do século IV d C, as invasões, guerras e saques haviam se tornado bem menos calamitosas. Já Agostinho referia na citada obra que sob a égide do Cristianismo as basílicas e igrejas das cidades invadidas eram tidas em conta de asilos invioláveis pelos próprios inimigos e que as vezes até mesmo a visão dos Bispos, clérigos e monges entoando litanias era suficiente para moderar a ferocidade de conquistadores cruéis. O que nos faz recordar o encontro entre Leão, o grande e Átila, rei dos hunos, ocorrido quase meio século depois...

A bem da verdade a própria Filosofia pagã muito havia contribuído para suavizar o flagelo tremendo das guerras entre os helênicos e mais ainda entre os romanos, devido aos militares influenciados pelo estoicismo.

No entanto sua contribuição mais interessante parece ter sido a naturalidade com que encarou a sucessão dos Impérios, considerando que a partir das ruínas de um surge outro.

É o quanto basta para saltarmos no tempo até o século XVIII com Volney e suas ruínas... E ao século XX com Spengler, Huizinga e Toynbee com suas teorias sobre o nascimento, maturidade, declínio, morte e sucessão das civilizações.

Com Vico temos a ideia de um corso, pautado em três fases - Divina, heroica e humana - (O que nos leva a classificação tripartida de Comte) - e num ricorsi ou numa recorrência cíclica dos corsoS. Terminado um iniciasse outro... Claro que Vico não podia estender este ciclo para sempre, uma vez que sendo Católico devoto, admitia a consumação de todas as coisas e a segunda vinda de Cristo. Hegel estendendo este ciclo infinitamente, tende a encarar este processo histórico e esta sucessão rítmica e hierárquica de impérios, como um enriquecimento ou construção da própria consciência divina. Por fim, após ele, Nietzsche pode reeditar a teoria do 'eterno retorno'...

A Alemanha do século XIX a cidade do homem é que adquire conotação de uma cidade divina.

E como isto esta longe do conceito de 'cidade de Deus' formulado por Agostinho, aqui ao menos, quanto a este ponto, fiel a tradição Católica.

Assim para Agostinho o princípio que regula a cidade de Deus não procede deste mundo.

Não é que ele negue ou repudie a presença de Deus no mundo ou melhor do mundo em Deus.

Não é o caso, pois como Cristão ele bem podia ler no primeiro quarto Evangelho: ESTAVA JÁ NO MUNDO QUE FOI FEITO POR ELE...

Nem poderia a divindade onipresente deixar de estar neste mundo ou este mundo físico de estar nela.

Havia porém aqui, neste mundo, um elemento volitivo e livre que livremente afastara-se Deus de si mesmo. Não estando mais a divindade presente no coração do homem.

Daí a necessidade da presença divina fazer-se ainda mais saliente ou perceptível neste mundo por meio da Encarnação. Mistério por meio do qual a divindade reaproxima-se do homem com o objetivo de recupera-lo ou de reconquista-lo. Manifestando-lhe todo seu amor por meio da presença solidária.

Temos aqui no mistério da Encarnação um novo elemento, um novo princípio, uma nova relação face aos seres humanos, de que resulta a implantação de uma 'Cidade divina' neste mundo.

Claro que é novo e inusitado apenas para nós seres humanos, do ponto de vista da consciência divina estamos diante de um plano anterior a organização deste universo e por assim dizer eterno. Não de um improviso.

Neste sentido a ideia de uma cidade divina implantada neste mundo adquire uma conotação atemporal, que deixa raízes na eternidade.

Já presente nas mais antigas culturas enquanto esperança, promessa e anúncio profético esta cidade tem seus fundamentos concretos lançados lá no monte calvário, quando o Espírito Eterno, em seu corpo de carne, foi suspenso na cruz.

Pois bem essa cruz é semente, como sementes são as palavras daquele que nela foi suspenso e semente é a pregação da Igreja por ele fundada.

No entanto, quando semeada era a Igreja apenas uma cidade ideal e futura, não plenamente encarnada mas vislumbrada apenas pela fé.

Principia como cidade de fé e não enquanto cidade visível.

No entanto consideremos que a igreja deve fazer o mesmo caminho que seu fundador.

O qual sendo imaterial e invisível tornou-se material e visível ao fazer-se homem.

Assim a igreja, enquanto cidade de Deus, deve seguir o mesmo trajeto e encarnar-se no mundo material e visível reformulando-o por completo a luz de Cristo, da Cruz e do Evangelho. Implica destruir as estruturas maléficas e substitui-las pela ética Cristã que é a mesma lei eterna reguladora do universo. Implica estabelecer novos padrões de convivência. Implica dar início a uma nova ordem e por isso a Igreja principia sua trajetória conflitando com o Império romano, cuja 'desordem organizada' ou a falsa ordem, pautada da escravidão e na guerra, deve aniquilar, e com ela o próprio império, o qual não pode subsistir sem suas bases e tampouco, naquele momento da História encontrar outra qualquer.

Fundamentado sobre a injustiça e tendo por base a opressão, deve o Império dos césares desabar fragosamente. Embora não deva ser destruído por completo.

Assim tudo quanto havia nele de útil, bom, nobre, excelente e proveitoso deve ser mantido pela Igreja e incorporado ao novo império em construção que é a cidade de Deus. Entidade através da qual o Cristo vai se encarnando mais e mais neste mundo e transformando-o a sua imagem e semelhança, enfim gestando uma sociedade Cristã, inspirada e guiada por princípios Éticos tomados ao Evangelho. Tal o ideal grandioso e perene do Catolicismo: Ampliar a Encarnação de Cristo, até que toda sociedade humana seja assumida por ele em sua mais absoluta plenitude.

Não imaginemos porém que tal operação será executada a maneira judaica, por meio de uma teocracia nacional ou universal, através da qual a própria Igreja ou seus clérigos, Bispos e Patriarcas passem a controlar diretamente o poder político. Nada mais absurdamente oposto ao pensamento Cristão, segundo o qual a função da Igreja - Enquanto fonte de ensinamentos Éticos destinados a normatizar a convivência humana - restringe-se a inspirar a conduta do fiel Cristão, homem Cristão, do cidadão Cristão...

Não cabe a Igreja, em hipótese alguma, assumir a tutela do governo secular ou dele tomar posse, mas orientar a conduta dos Cristãos e dos cidadãos numa perspectiva democrática, de modo que procedam sempre conforme a Ética tomada aos Evangelhos, tendo o Verbo encarnado por referencial supremo em todas as coisas.

Atingirá a Igreja tão alto escopo?

Se empregamos o tempo futuro é porque, lamentavelmente, tal escopo ainda não foi atingido.

Devido a seríssimos acidentes ocorridos no percurso da História...

Retomará ela tal programa, fugindo ao comodismo idealista/fetichista ou ao veneno solifideista???

Pela fé, somos constrangidos a confessar que sim.

Neste caso o domínio da Igreja prolongar-se-a indefinidamente neste mundo pela eternidade?

Sim e não...

Mas como sim e não.

Não por que haverá um evento cósmico e certa ruptura ou alteração brusca correspondendo ao retorno de Cristo e a ressurreição dos mortos. Cessando a economia temporal marcada pela liberdade e pela mutabilidade.

Sim porque Cristo instalar-se-a visivelmente, em seu corpo glorificado de carne, nesta terra renovada com os santos ressuscitados eternizando a cidade que com ele construímos.

De modo geral podemos dizer que a segunda vinda de Cristo não tem por escopo a destruição de sua cidade, mas apenas uma mudança de estádio. A cidade plantada aos pés do calvário, o ofício da Igreja, o prolongamento de Encarnação de Cristo tendo chegado a sua plenitude é introduzido numa nova realidade, a realidade das coisas eternas, tornando-se estável, fixa e imutável pelos séculos dos séculos.

Não é ciclo que se repete e perdura eternamente enquanto movimento que encontra seu fim em si mesmo, mas ascensão que atinge seu apogeu e atingindo-o entra em repouso, conservando-se assim para todo sempre.

Tal a cidade de Deus delineada pelo Bispo de Hipona, face a sucessão efêmera dos Impérios humanos, os quais nascem, crescem e morrem como os homens que os criaram, apenas para se convertem em pó... Assim todos os Impérios, reinos e civilizações que não forem atingidos, tocados e transmudados pelo Cristo, por seu Evangelho, por sua ética; passarão como estes céus e esta terra, enquanto que as palavras e ensinamentos dele jamais passarão, enquanto a Lei do amor jamais passará!

Ora o amor é o fundamento desta cidade e suas colunas o bem, a verdade e a beleza.

domingo, 16 de abril de 2017

Leon Metchnicoff - A civilização e os grandes rios históricos

Изображение



Contribuições há, feitas a História, que não podem permanecer esquecidas, devido a sua continua, para não dizer eterna, atualidade.

Assim a de Leon Metchnicoff, irmão dos igualmente célebres Ellie e Ivan, na humilde e ao mesmo tempo colossal obra 'A civilização e os grandes rios históricos' dada a imprensa, post mortem, em 1889. O autor havia falecido no ano anterior 1888.

Trata-se a meu ver de uma dessas obras imortais e que marcam época a exemplo da Decadência do Império romano de Gibbon (Assim as obras QUASE homônimas de Sismondi e Ferrero) da História da conquista da Inglaterra pelos Normandos de Aug Thierry, da História dos Gauleses de Amadeu Thierry, da História do direito de Savigny, da História do povo alemão de Jahnsen, da História das Cruzadas de J F Michaud, da História da Reforma na Alemanha de Doellinger, da História da conquista do México, História da Conquista do Peru e da História do reinado de Fernando e de Isabel, a Católica por W H Prescott, dos Tempos pré históricos de John Lubbock, do Regime municipal do Império romano no século V de Guizot, da História dos monges no Ocidente de Montalembert, da História do helenismo de Droysen, da Sociedade antiga de L H Morgan, da História dos Papas de Leopold Von Ranke, da Cidade antiga de Fustel, da História das perseguições religiosas no Império romano de Paul Allarddos Primeiros habitantes da Europa de Arbois Jubainville, do Marco Aurélio e o fim do mundo antigo de E Renan, da História da Civilização na Inglaterra de Buckle, do Fim do Paganismo e da África romana de Gaston Boissier, dos Gauleses de André Lefevre, do Espírito do Capitalismo e a Ética protestante de Max Weber (Dentre todos o primeiro!), das obras de Denifle e Grizar sobre Lutero, da História da Igreja antiga de Louis Duchesne, da Historia da Literatura latina na Africa de Paul Monceaux, do Maomé a Carlos Magno de Pirenne, do Amanhecer da consciência de Breasted, da Sociedade Feudal e da Apologia da História de M Bloch, da História da incredulidade no século XVI e da Europa: gênese da civilização de Lucien Febvre, do Outono da idade Média de Huizinga, da Trilogia de V G Childe, do Renascimento de Edith Sichel, da História da riqueza do homem de Huberman, do Feudalismo de Ganschoff, da História social da criança e da família e da História da morte no Ocidente de Aries, das Fontes democráticas nas ordens religiosas da Idade Média de Leon Moulin, do Processo civilizatório de Norbert Elias, da Trilogia de Duby (1976/1978/1981), do Novo conceito de Idade Média de Le Goff, do Mediterrâneo de F Braudel, da Civilização do Renascimento por Jean Delumeau, da Conquista da América por Todorov, do Cristianismo, tolerância social e homossexualidade e Uniões do mesmo sexo na Europa pré moderna de John Boswell, de Como os irlandeses salvaram a civilização por Th Cahill, da Democracia bizantina de Kaldellis, etc

Assim A civilização Egea e a Cidade grega de Gustav Glotz, a História de Roma por Mommsen bem como os estudos subsequentes de Leo Homo e Pierre Grimal; Os aztecas de Solustelle, as obras de Paul Lemerlle e Runciman sobre Bizâncio, as de Christopher Hill sobre a Revolução Inglesa, as de Lamartine, Thiers, Sybel, Jaures, Soboul e outros sobre a Revolução Francesa, as de Robert Darnton sobre o iluminismo e as brilhantes sínteses cultuais elaboradas por Christofer Dawson e Butterfield.

Isto só para lembrar algumas leituras clássicas indispensáveis em termos de compreensão Histórica.

Há muito que se falar, debater, dialogar e discutir sobre cada uma delas.

No entanto, para este Domingo, escolhemos a obra de Metchnicoff justamente por ser pouco conhecida e divulgada entre nós. Apesar de contar já com mais de século.

Assim se Le Goff revolucionou o conceito de Idade Média, evidenciando que as tais 'trevas' - Saídas da pena protestante, logo partidária ou preconceituosa - não passavam de fábulas, se Elias salientou as teias de interdependência cultural, se V G Childe mantendo a ideia de um progresso linear e contínuo admitiu a existência de recuos, durante as crises; além de descrever a ampliação do círculo da cultura no Oeste da Europa, se Breasted cunhou o termo 'crescente fértil', se Max Weber conceituou as afinidades eletivas, o mérito de Metchnicoff consiste em ter relacionado a propagação da cultura com o meio, postulando certas 'rotas' culturais.

E nem poderia ter sido mais exato, preciso e ponderado pelo simples fato de que antes dos romanos terem estabelecido suas estradas por toda Europa - investindo em meios de transporte e comunicação enquanto disseminadores da cultura a serviço do poder - já os persas haviam construído sua estrada real, que ligava o gigantesco Império de Susa, junto ao golfo Pérsico, a Sardes na Ásia menor, cortando cerca de 2.700 Km. A cuja extensão haviam associado um primitivo serviço de malas postais ou Correio, idealizado por Dário, o grande.

Já os gregos, habituados, por tradição, a navegação, espalhavam-se, a exemplo de seus predecessores fenícios e Minoicos, pelas bordas do Mar, acompanhando o litoral do Mediterrâneo ou do Mar negro, e semeando-os com inúmeras cidades ou colônias.

Faz pleno sentido que assim tenham procedido quando as vias para o interior ainda não haviam sido franqueadas na Europa Ocidental. Naturalmente que sempre existiram veredas ou caminhos, semelhantes aos que eram percorridos por nossos índios aqui na América antes da chegada do Europeu. E até caminhos mais largos e bem cuidados, a exemplo do nosso Peabiru. Rotas, como a do âmbar ou das conchas, existiam desde os tempos imemoriais.

Não de trata no entanto, de vias suficientemente amplas e cuidadas a ponto de permitirem um tráfego de carros rápido e eficiente; ou a rápida marcha de um povo, montado ou desmontado. Bem como o transporte de bens materiais e tecnológicos em quantidades relevantes. Tal só se deu após a conquista romana.

Fica posto o problema dos meios de transporte ou das comunicações - e portanto da transmissão e dilatação da cultura - onde não haviam rios caudalosos o suficiente para permitir a navegação.

Via de regra as grandes migrações pré históricas, as maiores, ao menos, devem ter acompanhado os cursos dos grandes rios navegáveis, fossem o Danúbio, o Pó, o Garona, o Ebro, o Tejo; as primeiras vias de transporte fornecidas pela própria natureza, e as primeiras rotas de cultura.

Penso que não seja preciso insistir muito a respeito de que as primeiras grandes civilizações do Velho mundo: Egipcia, Sumeriana, Indiana e Chinesa desenvolveram-se todas, no final da Idade Primitiva, junto aos grandes rios, sejam o Nilo, o Tigre e o Eufrates, o Indo e o Ganges ou o Huang Ho.

Não porque pudessem explorar o potencial hidráulico de tais correntes, mas porque podiam explora-lo tendo em vista a irrigação das terras ribeirinhas, aumentando a produção de alimentos, e consequentemente o acumulo de suprimentos. De que resultou singular benefício: Que alguns elementos daquelas sociedades não precisassem plantar, colher ou pastorear, podendo exercer outros misteres e, consequentemente especializar-se. Tais os albores da ascensão artística e científica característica da Revolução Urbana.

Desde então alguns puderam ser pedreiros, marceneiros, oleiros, tecelões, sapateiros, médicos, padeiros, cervejeiros, cantores... Recebendo em paga por seus serviços uma determinada quantidade de alimentos.

Esta dinâmica nos ajuda a compreender porque as primeiras vilas ou cidades tornaram-se tão atrativas aquele homem recém saído no neolítico. Porque havia oferta de serviços até então desconhecidos e portanto vantagens ou benefícios em termos de qualidade de vida. Ali apenas havia acesso a uma série de produtos ou serviços - quais fossem sapatos, vestimentas, pães, cerveja, medicamentos, etc - especializados e portanto executados com maior esmero. Bastando para adquirir tais produtos ou serviços estar em posse de algum excedente em termos de suprimento, ou recebe-los como pagamento oferecido pelo sacerdote rei.

Alias nada mais promissor do que dominar alguma espécie de saber ou aprende-lo. Pelo simples fato de poder empregar-se no palácio, antes de tudo uma enorme oficina e depósito de produtos administrada pelo rei sacerdote.

Devido a tudo isto a cidade, desde sua invenção, converteu-se no objeto dos sonhos das populações mais afastadas e rudimentares fossem sedentárias ou não. Todos aspiravam habitar nela de modo que elas atraíam multidões cada vez maiores, e se alargavam, e cresciam junto as margens dos grandes rios.

Isto a ponto de no Egito, pelos idos de 3500 a C coligarem-se em diversas federações, em dois reinos mais ou menos extensos - O do Norte ou baixo e o do Sul ou alto Egito - os quais acabaram unindo-se pelos idos de 3000 a C sob o cetro de Menés ou Narmer, o primeiro Faraó. Evidentemente que antes disto, e bem antes - Ao tempo do rei Escorpião (Alto Egito - 3200 a C) - a administração dos grandes reinos, do Sul e do Norte, exigiam já a formulação de um código escrito.

Afinal a produção ou coleta - o primitivo imposto - bem como a distribuição - o primitivo salário - precisavam ser anotadas e controladas de modo que o pagamento dos serviços jamais superasse a arrecadação produzindo 'deficit'. Daí a necessidade de medir, contar, pesar e classificar... Sem a qual, um tipo tão complexo de organização social não podia manter-se.

Mesmo nas cidades autônomas, e sem embargo grandes, da Suméria, do Indo e da China, um tal tipo de controle se fazia indispensável e por isso, a partir de tal necessidade, nos deparamos com a formulação de códigos linguísticos escritos - os primeiros do planeta - aparentemente, sem que houvesse qualquer relação de dependência.

Ainda hoje as escritas Egipcia, Sumeriana, Indiana e Chinesa aparentam ser diferentes umas das outras e não inter relacionadas.

Alias ao tempo em que vieram a luz - cerca de 3200, 3000, 2500, 2200 a C pouco antes ou depois - achavam-se tais pólos de cultura mais ou menos isolados; a exceção talvez do Egito e da Suméria.

A maior parte dos assiriologistas e sumerólogos considera que quando estabeleceram-se relações comerciais entre as cidades Sumerianas e as cidades do Indo (Harapinas) por volta de 2400 a C, ja ambos os modelos de escrita achavam-se elaborados. Podendo-se dizer o mesmo sobre o Vale do Indo e o Vale do Huang Ho, separados ou melhor dizendo, isolados por cordilheiras e desertos ao tempo em que ambas escritas haviam sido inventadas.

Atualmente a tese da difusão, da origem comum e da inter dependência dos primeiros modelos de escrita torna-se cada vez mais vulnerável e indefensável.

Seja como for, por volta de 2000 a C senão antes, estamos diante de quatro civilizações letradas ou polos difusores de cultura.

Quanto a Mesopotâmia apenas, devemos considerar diversos elementos, indispensáveis ao avanço posterior da Civilização como um todo. Assim o arado, a roda, a roda do oleiro e talvez o Bronze, seja como for procedente daquele entorno.

Quanto ao Egito temos o vidro, o papel, a medicina...

Tocando a tais elementos culturais é que chegamos a Metchnicoff. O qual nos oferece a melhor ferramenta para compreendermos porque a Europa Ocidental chegou a ser o que é ou porque o Mediterrâneo foi o que foi.

Para tanto faz-se necessário acompanhar os cursos destes grandes rios ou a direção que cada um deles percorria. Porque a cultura acompanhou tal direção e disseminou-se a partir das fozes de tais rios, e as vezes até a partir das nascentes.

Assim o caso do Eufrates ou Puratu, o qual era facilmente navegável contra corrente até Kish - Logo por toda Suméria - e relativamente navegável até Mari, cidade cujo Reino, chegou a estender-se até as proximidades de Halab a atual Alepo, já as portas da Ásia menor.

De fato a saída cultural sumeriana foi dupla e a princípio, ao menos aparentemente sua cultura foi despejada no Golfo Pérsico já em Dilmun, já no Elam. Embora alguns escritos deem a entender o sentido oposto i é de Dilmun - possível ponto de partida ou origem dos misteriosos 'cabeças negras' - e/ou Elam para a Mesopotâmia e desta, indo contra corrente, a Assíria, ao Reino de Mari, a Síria, e enfim - Di-lo Sargão - ao Chipre e a Anatólia, já na Ásia menor.

Sargão por sinal, orgulha-se de ter lavado sua espada nas águas do grande Mar, ou seja do Mediterrâneo.

Temos aqui uma direção cultural bastante esclarecedora, que partindo da Suméria ou mesmo - Quem o sabe? - de Dilmun e Susa, atinge a Ásia menor, em cuja costa Ocidental haviam de se estabelecer os Jônios, corridos pelos Dórios cerca do século XII a C. Estamos portanto ao lado da península balcânica ou da Grécia.

Indiretamente, assumido e levado adiante por babilônicos, assírios, sírios, palestinos, hititas e fenícios sucessivamente o legado cultural dos antigos sumérios acabou por impor-se no que chamamos atualmente de Turquia, enfim no espaço que mais tarde viria a ser ocupado pelo tronco grego dos jônios.

Perguntemos agora que rumo tomou o patrimônio cultural do antigo Egito?

Se a um lado atingiu Meroé e Sudão, dissipando suas energias na África negra até ser removido pela islamização, a outro pela foz, atingiu a costa leste ou oriental do Mar Mediterrâneo, irradiando-se pela Palestina, até dar com a Fenícia, onde encontrou-se com a cultura sumeriana, trazida pelo Eufrates.

Primeiramente através dos minoicos, depois indiretamente, através dos fenícios e enfim diretamente por iniciativa dos próprios gregos chegou esta cultura até a Ásia menor e Península balcânica, onde misturando-se a cultura mesopotâmica deu origem a primeira grande síntese cultural elaborada pelos gregos. Síntese que foi contributo particular ou específico do gênio grego, quiçá ensaiada já pelos fenícios... Não foram estes que legaram-nos o alfabeto? De fato não sabemos o quanto nós ou os gregos devemos aos antigos fenícios, posto que só temos conhecimento do quanto  produziram através dos gregos, seus sucessores e rivais.

Seja como for a grande alavancada proporcionada por essa convergência - Alias coisa única no mundo - entre duas culturas magníficas, aconteceu na Grécia. O que herdaram dos egípcios e sumérios, eles levaram adiante ou desenvolveram. Se não arquitetaram esta síntese - Hipótese em que teriam-na recebido dos Fenícios - ao mesmos tornaram-se dignos depositários dela tornando-a fecunda.

Já as culturas chinesa e indiana, seguindo os cursos de seus caudais e atingindo mares geograficamente isolados, perderam-se por eles e jamais puderam encontrar-se. A espacialidade geográfica impossibilitou que tais culturas convergissem para o mesmo ponto e formassem brilhante síntese. Tal e qual a cultura egípcia refluindo pelo interior da África, diluíram-se e perderam-se assim as culturas Indiana e chinesa, mesmo considerando que tenham civilizado diversas Ilhas. No caso da China por sinal Japão e Coréia. No caso da Índia o Ceilão, as Filipinas e a Indonésia.

Que teria produzido um síntese entre ambas as culturas, Chinesa e Indiana, tal a pujança de cada uma, é o que jamais viremos a saber?

Foi no Mediterrâneo que Eufrates e Nilo despejaram o legado cultural de dois povos essencialmente criadores: Babilônia e Egito...

Como já dissemos acontecimento único e singular proporcionado pelo meio.

A partir da Jônia, passou este legado a Península Balcânica, onde já havia sido ensaiado muito provavelmente pelos fenícios.

E a partir da Península balcânica, como já dissemos, no dorso das naus de casco negro, os gregos foram disseminando tal espírito ou cultura por todo circuíto do mediterrâneo de Trapezunt a Emporiae passando evidentemente por Massilia.

E foi a partir de tais cidades que os conquistadores romanos, adotando como sua a cultura helênica, levaram-na - em termos de idioma comum, filosofia, ciência, teatro, etc - até a coração da Europa, civilizando-o. Também empreenderam-no na África até os confins do Saara. Em todo circuíto do mediterrâneo. A partir do qual, com os Portugueses e Espanhóis, ao fim da Idade Média, despejou-se pelo Mar Oceano, ou pelo Atlântico, atingindo o Novo Mundo e propiciando outras sínteses culturais não menos interessantes no México, a partir de um substrato Azteca bastante rico e mais ainda no Peru e adjacências, onde encontrou-se com a multi milenar e ultra sofisticada civilização peruviana, contributo de diversas culturas quais sejam Chavim, Paracas, Nazca, Mochica, Chimu, Wari, Inca, etc

Foram caudais de culturas desembocando uns nos outros sempre a partir dos grandes rios, seguindo seus cursos e precipitando-se primeiramente nos mares e depois nos Oceanos até dilatarem-se pelo mundo afora. Encontro de que resultou não poucos conflitos, mas, cremos nós, numa perspectiva futura e global, propiciou também a chave para o progresso das Sociedades humanas, o qual só se faz pela troca de experiências culturais.

Este fascinante caminho, provido pelo meio ou pela sorte, foi devassado, a menos de cento e trinta anos pelo brilhante cientista Leon Metchnicoff em A civilização e os grandes rios históricos, leitura ainda hoje proveitosa que a todos recomendamos.