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segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Meira Penna e sua opção preferencial pelos ricos a barra do Evangelho ou Evangelho e riqueza.

Inicio este artigo reproduzindo o que havia já escrito em meu 'Manual de Ética Cristã Ortodoxa': Se com relação a seus mistérios ou os dogmas da fé, foi Jesus enfático e terminante, esgotando necessariamente o assunto e prendendo-nos a literalidade de suas palavras - Sem que possamos fazer inferências ou especulações... quanto a moralidade, forneceu-nos apenas alguns princípios genéricos, sumários e elementares ou seja, alguns fundamentos éticos, a partir dos quais devemos aduzir, por meio de especulações e inferências, as soluções para quaisquer casos futuros. 

Isto porque é a moralidade dinâmica. 

Pelo simples fato de sempre toparmos com novos questionamentos ou problemas causados pelas novas circunstâncias i é pelas mudanças sociais ou pelo avanço geral da técnica. Como Deus Onisciente - Senhor do Tempo e da eternidade. - bem poderia, nosso Jesus, ter escrito ele mesmo uma enciclopédia elencando todos esses problemas que iriam surgir e oferecendo as melhores soluções.

Não foi o que ele fez ou quis fazer - Optando por oferecer alguns princípios bastante sumários as nossas consciências. De modo que através do princípio operatório das razão, possamos sacar as consequência. 

Tais as questões em torno, por exemplo, do fumo, do transplante de órgãos, da fertilização in vitro, do racismo, e de diversos aspectos do capitalismo, tais como: A proteção ao trabalho, o salário, os meios de produção, etc Quanto a estes últimos tópicos, partindo da tradição, do Evangelho e mesmo da Filosofia clássica a igreja romana formulou um corpo de doutrina social face ao qual a Ortodoxia, de modo geral, nada pode objetar mas que, pelo contrário, deve validar.

Seguindo esta linha, buscaremos examinar os principais textos evangélicos alusivos a riqueza e a partir deles confrontar o apologista brasileiro Meira Penna, principal defensor do éthos capitalista em nosso país.

Para tanto devemos examinar em primeiro lugar a questão da Propriedade e seu status face a fé Cristã.

É isto de suma necessidade para que os materialistas ocultos ou não assumidos não aleguem que estamos nós condenando toda posse ou propriedade como legítima, tal qual os anarquistas e comunistas - Pois não é este nosso ponto de vista. 

Com efeito, se a um lado, não podemos subscrever a tese de Proudhon, segundo a qual todo tipo de propriedade corresponde a um roubo, tampouco podemos deifica-la, associando-a a Deus, como fazem os proprietaristas desorientados. Nem divina, quanto a sua totalidade, e tampouco sinônimo de roubo.


Então o que...

Reconhecem os Cristãos a propriedade pessoal (O local em que alguém reside com sua família ou que é usado por uma dada família.) enquanto fruto do trabalho honesto, como algo sagrado, firmado numa Lei natural.

Portanto é, esse tipo de propriedade (Pessoal\laboral). legítima e inalienável. Caindo, todo aquele que dela toma posse por meio da força, sob a condenação inexorável do mandamento divino: Não roubarás e portanto pecando gravemente. Do que temos exemplo já no testamento velho quanto a vinha de Nabot, sancionando esse registro com uma chancela Cristã, posto que contém tal sentido.

Portanto não caí sob a proteção da Lei divina aquele excedente de propriedade que não é habitado ou usado (Como espaço laboral) pelo 'proprierário' e menos ainda o que foi desonesta e pecaminosamente adquirido por quaisquer meios ilícitos. Podendo ela, em todos esses casos, ser expropriada pelo legislador sem maiores preocupações.

Outro o caso dos monopólios ou corporações (Grandes indústrias) que detém meios de produções. Tampouco estes caem sob a proteção da Lei divina, sendo sua expropriação questão alheia a religião ou ao Evangelho, a qual, consequentemente, deve ser avaliada e decidida pelo grupo social em questão tendo em vista o Bem comum. 

Até aqui a propriedade.

Passamos agora a examinar a questão da riqueza ou do acumulo de coisas materiais face ao Evangelho ou as puras palavras de Cristo nosso Deus. 

Todavia convém que antes de iniciar esse exame consideremos que para nós Cristãos, nicenos, atanasianos, Católicos, Apostólicos, Ortodoxos, crentes, submissos e reverentes é Jesus Cristo Deus encarnado e verdadeiro Deus Onisciente, Legislador Todo Poderoso, Mestre infalível, Instrutor perfeito, etc, etc, etc Pelo que, conhecido o teor de suas palavras, não é lícito debater com ele, argumentar, levantar 'razões', etc Nós pura e simplesmente recebemos ou aceitamos os decretos de Jesus Cristo como indiscutíveis e inapeláveis. Por fim nós repudiamos o Livre exame ou a mania de atribuir um sentido arbitrário (Interpretar) como irreverente, e avaliamos essa estratégia ou tática subjetivista como uma fuga do Evangelho.

Então o que...

Examinamos as acepções literais do texto grego e nos conformamos com o sentido, para em seguida sacar as conclusões.

Comecemos então pelo emblemático texto da corda ou camelo (Os fariseus e escribas daquele tempo diziam 'elefante') - o que dá no mesmo pois nem elefante, nem camelo e tampouco corda podem passar pelo fundo de uma agulha. De fato os apóstolos compreenderam perfeitamente a mensagem, e replicaram: Sendo assim, quem se salvará... Posto que na perspectiva da natureza tais palavras implicam impossibilidade irredutível. 

Replica e responde Nosso Senhor e Mestre> É impossível aos homens.

Donde se percebe muito claramente, que ao menos neste texto e contexto, não temos nós a condenação absoluta dos ricos.

Pois do explícito: É impossível aos homens, devemos aduzir: Nada há de impossível para o Santo e Bom Deus e sua divina graça.

E já podemos por a questão noutros termos: Quem é este homem para o qual é impossível salvar-se na riqueza e como pode Deus salvar o homem rico...

Ao que parece a impossibilidade se refere ao homem natural alheio as exortações do Evangelho. Ao que tudo indica o rico não se pode salvar fora da fé no Cristo do Evangelho ou da Revelação divina. Tal o poder devastador da riqueza.

Porém no contexto Cristão, isto é abraçando sinceramente a fé, pode o rico obter e conservar a salvação. Neste caso será salvo dá riqueza ou na riqueza... 

Ouso dizer, que aparentemente autorizou Nosso Senhor que aquele que herdou dos ricos i é que recebeu herança de pais judeus ou pagãos, conservasse sua posse desde que a fosse distribuindo aos pobre ou as obras assistenciais da Igreja, ao cabo de sua vida ou ao cabo de algumas gerações. 

Não serve para impugnar este ponto de vista o exemplo de Zaqueu, uma vez que a origem de suas riquezas é dada por desonesta. Aferida a desonestidade da herança fica impugnada sua legitimidade e decretada a necessidade da reparação, devendo o titular, se Cristão, desfazer-se dela de imediato, doando-a aos pobres, segundo o exemplo de Zaqueu. Portanto estamos nos referindo as riquezas de origem desonesta.

Já quanto ao Cristão que nasceu nesta condição, parece que o direcionamento é doutra espécie: Não junteis tesouros neste mundo, onde a traça destrói e a ferrugem come, de modo que o acúmulo desmedido de bens materiais é proibido. Como é proibida a avareza ou cupidez: Bem aventurados os pobres em espírito i é os que não tem apego as coisas e objetos materiais... 

Terá você a audácia de dizer que aquele que, tendo, como Sócrates, o suficiente para viver com conforto, dignidade e decência; e, sem embargo disso, concentre todas as suas energias para obter mais coisas é desapegado... Ousarás tu alegar que aquele que consagra suas forças em juntar, acumular e enriquecer - Como aquele que disse: Hei de aumentar meus celeiros... é um desapegado... Acaso insistirás que aquele que se aplica freneticamente em obter imensa fortuna é um desapegado. Pois bem, se não és bem aventurado, perseguindo riquezas que Jesus Cristo declara falsas ou ilusórias, é certamente um mal aventurado.

A esse homem avaro, que ambiciona além do necessário e lança sua cobiça para além do que necessita, diz o mesmo Jesus Cristo: Não pode alguém servir a Deus e ao Dinheiro, ou seja, concentrar seu afeto nas falsas riquezas. Devendo conformar-se com a vida sóbria e equilibrada ou com algo próximo do Ariston metron dos antigos gregos ou com a 'Aurea mediocritas' dos antigos romanos. Agora em que consiste essa vida sóbria ou moderada: Já nos referimos a ela pouco acima, dizendo que consiste em conformar-se com uma condição confortável e digna, tendo o que comer, o que vestir, onde habitar e até mesmo algo para distrair... Não uma multidão de terras, casas, celeiros, carros, etc 

É este tipo de atitude - A busca incessante de riquezas pelo Cristão.  - que se refere o apóstolo quando diz: A raiz de todos os males é o amor ao dinheiro. A concentração da mente e das energias em obter o máximo possíveis de coisas materiais e perecíveis ou o poder. Não devemos nós juntar o que não possamos nesta curta existência gastar. Pois em caso de morte não levaremos tais 'bens' junto conosco para a verdadeira vida. Por isso declara Nosso Senhor com acento religioso: Junteis tesouros no céu. Como distribuindo os excedentes com os irmãos, batizados, membros de Jesus Cristo. Servindo e beneficiando a comunidade. Praticando obras de virtude. Sendo solidários, fraternos, amorosos, bondadosos, etc Assim é que se acumula tesouros perpétuos e imperecíveis nos céus e tal é ou deve ser o investimento daquele que nasceu de Cristo e nele está.

Devemos buscar juros não na Bolsa de valores ou nos bancos porém no mundo imaterial e invisível, i é, nos céus, fazendo render a graça de Deus por meio de nossos excedentes financeiros. É nos irmãos, no próximo, no semelhante, no outro... que devemos investir. Então nosso lucro está no além túmulo ou na vida eterna e não neste mundo que passará. 

Quanto aos avarentos, apegados ou buscadores de ouro, prata, pedras preciosas, etc segundo o primo do Senhor, estão já julgados: Porque vossas arcas estão atulhadas... enquanto os pobres choram, após esta vida vós é que haveis de chorar em meio a grande sofrimento. Como aquele Finéias, que buscando riquezas e sendo inferente a sorte do miserável Lázaro foi lançado na Geena de fogo...

Quanto aquele administrador infiel que distribuía os excedentes com os clientes do empório, não nos diz o Senhor que era Cristão ou se era hebreu ou ainda pagão. Pois não distribuiu de imediato porém no decurso da vida as riquezas que eram iniquas. Ganhou amigos nos céus e foi digno de suas intercessões, porém, de modo algum chegou a perfeição a que somos convocados - Pois ao jovem rico foi dito: Vende teus bens e dá aos pobres. É nesta passagem, dois versos mais adiantes que Nosso Senhor classifica toda riqueza como falsa ou ilusória. A do administrador apenas declarou iniquas (Não todas as riquezas de modo absoluto porém apenas as do administrador.) porquanto obtidas com fraude e dolo. A riqueza, de modo absoluto, como falsa ou ilusória.

Acaso devemos buscar o que é falso ou ilusório... 

Caso viéssemos faze-lo quão miserável seria nossa meta!

Devemos buscar o que é verdadeiro i é, o que a traça e a ferrugem não podem destruir, o imperecível, o eterno, o duradouro, a imitação de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aquele desapego, aquela sobriedade, aquela moderação, aquela temperança, etc que são sinais de vida espiritual. De modo algum a avareza, a cupidez, a ambição desmedida, o acúmulo ilimitado de bens, a riqueza, a grande fortuna, etc pois em nada disto vai o Reino de Deus.

Quanto ao Cristão é terminantemente proibido buscar aumentar as falsas riquezas, concentrar-se na fortuna, juntar sem medida, etc Poderá no entanto, sendo descendente de milionários judeus ou pagãos administrar generosamente tais bens, como fizeram os teoforos Basílio e Gregório de Nazianzo, ou ainda os piedosos citados nas cartas de Jerônimo. O que, advirto, deve ser feito com extrema lisura e cuidado, no sentido de não dissipar tais bens consigo próprio ou viver no luxo enquanto os Santos morrem de fome nas sarjetas. Esse excedente de bens fica na mãos dos Cristãos para ser administrado em benefício Santos e não para o deboche. 

Tal a doutrina pura tomada literalmente ao Evangelho, sem distorção, interpretação ou Livre exame. Pois encaramos com sumo respeito as palavras de Cristo nosso Deus. E por elas contatamos que não pode aquele que nasceu de novo concentrar-se na busca de riquezas ou acumular ilimitadamente. E que esse afã pelo poder e pela glória é pecaminoso.

O que nosso Senhor por benevolência concede aos Cristãos é que herdem riquezas acumuladas já por judeus e pagãos e administrem-na em favor da irmandade, partindo e distribuindo ao cabo da vida ou das gerações. Isto quando tais riquezas não sejam notadamente más ou iniquas, como as de Zaqueu ou as do administrador infiel, as quais, neste caso, devem ser distribuídas em sua totalidade e de imediato, pelo simples fato de constituírem roubo e pecado contra a Lei divina.

Por fim devo questionar até que ponto um sistema de Crenças em que a Encarnação de Deus não se dá num palácio ou entre uma família rica e poderosa. Em que o personagem central foi um humilde carpinteiro e não um nababo ou próspero empreendedor. Em que o supremo referencial não dispunha de propriedade pessoal. Em que o foco da fé é supliciado numa Cruz. Cuja lei insiste repetidamente sobre o desapego e sobre a insensatez de perseguir falsas riquezas. Cuja meta é concentrar-se na graça de Deus e na justiça. Cujo ideal de perfeição consiste em desfazer-se de tudo quanto acumulado foi. E cuja hierarquia eclesiástica foi entregue a Rahibes com voto de ascetismo - Poderia compor-se com a busca frenética por bens materiais...

Tudo quanto posso ver aqui é a mais cerrada oposição. Cerrada oposição e antagonismo inconciliável. 

Agora o próprio Meira Pena, admite que o sistema capitalista depende da cupidez ou que é estimulado pela cobiça. Como discorre sobre o desapego e sobre a administração dos falsos bens... Agora como pode negar que constitua avareza a concentração da mente no acúmulo excessivo de falsos bens ou essa dedicação intensa a economia... Como negar que a busca pelo excesso seja avareza ou que a busca pelo desnecessário seja consumismo e consequentemente sinal de vazio interior ou de materialismo...

Como conciliar uma busca frenética sem apego... E como conciliar o Cristianismo ou a bem aventurança com o desapego...


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domingo, 14 de setembro de 2025

O papel do Cristianismo Tradicional... II - Nossa negativa em servir o reino do dinheiro e o fim da '"Opção preferencial pelos ricos" no Evangelho...

E deixo já bem claro que os cristãos tradicionais vão na direção oposta: Certa margem de liberdade nos campos político (Constitucionalismo, democracia, policracia...) e pessoal e prudente controle no âmbito das atividades econômicas por parte do Estado, tendo em vista impedir que o poder econômico exerça a primazia no corpo social.


Ainda que indiretamente (Pois somos contrários a teocracia ou a qualquer tipo de associação entre Deus e César.) a primazia do controle social cabe ao Evangelho, a Igreja ou a instituição Cristã, a qual, por meio da Ética (Determinando princípios e valores.) deve inspirar e nortear todas as ações humanas: Políticas, econômicas, morais... 

Não é para a busca da riqueza, do lucro ou do sucesso financeiro que devem convergir os pensamentos, projetos e ações do Cristão. Todos os esforços do Cristão devem antes convergir para a vida comunitária ou para o convívio com os irmãos, no sentido de beneficia-los. 

Impossível conceber a primazia do espírito como uma busca incessante e obsessiva por mais e mais dinheiro, lucro, fortuna ou riqueza... Não podeis servir a Deus e ao dinheiro - Tal a sentença e veredito do Evangelho. 

Chegado até aqui cumpre mais uma vez não apenas citar, porém confrontar o sábio Meira Penna. 

O qual em seus livro "Opção preferencial pelos ricos" pgs 45 sgs busca relacionar o Catolicismo romano, com o Comunismo e com a Teologia da libertação enfim. Marque isto porque Meira Penna é o apologista mais sólido e bem preparado do liberalismo econômico em nosso país (E como tal dependente, quase que exclusivamente, de panfletários protestantes!). Então ele busca traçar uma linha ou um vínculo de origem e dependência entre as três correntes ou ideologias e para tanto escolhe arbitrariamente um item: O autoritarismo. 

E de fato, foi Fullop Muller (Protestante por sinal) que apresentou a organização do partido comunista como plágio ou paródia do Vaticano. De fato, até ao menos Leão XIII (O papa que reconheceu a Democracia) havia esse traço comum... Mas não único, porquanto havia outros, quiçá mais interessantes, que Meira Penna pôs de lado ou não quis analisar. Pois quer demonstrar aos Ortodoxos e papistas que o capitalismo não é materialista ...

Me parece que Tasso da Silveira (Nos 'Espíritos fonte') tenha sido mais profundo e refinado, ao tocar noutro ponto, embora aludindo não a Igreja Romana e sim a Igreja Russa, que é uma parcela da Ortodoxia. (Porém suas reflexões são mais amplas, pois se estendem até mesmo a Igreja romana.) Se bem me lembro foi num ensaio sobre Maxim Gorki, autor de "A mãe". Convém assinalar ainda que esse Tasso da Silveira era profundo conhecedor não apenas das raízes do movimento Franciscano e dos nossos Evangelhos, mas também da tradição patrística (O que era e ainda é bastante raro entre nós.) e da espiritualidade russa. Portanto aqui - Com muito mais acuidade que Meira Penna ele dá por traço comum entre Comunismo e Cristianismo Apostólico a sensibilidade face a injustiça e a miséria. E tenho para mim que acertou em cheio. Mesmo porque antes de ter aderido ao marxismo era Gorki um Ortodoxo devoto...

Mais - Aprofundando suas reflexões questiona Tasso o porquê de uma Revolução comunista jamais ter estourado num país ou numa sociedade protestante... E dá algumas pistas e levanta algumas hipóteses interessantes: Porque nas sociedades protestantes, marcadas pelo individualismo a cota de empatia, alteridade ou sensibilidade é bastante reduzida. Desorientado pela propaganda atmosfera cultural e pela propaganda, mesmo o Cristão, tende a encarar o pobre não como alguém privado de oportunidade ou injustiçado e sim como um azarado ou mesmo um vagabundo que não aproveitou as oportunidades. 

Efetivamente, por esse caminho, não poucos protestantes e capitalistas (E mesmo romanistas e Ortodoxos.) norte americanos tem chegado inclusive ao Darwinismo social - O qual é uma ideologia congênere, e não ao comunismo ou a qualquer coisa parecida. 

Não é portanto apenas uma questão de poder ou autoritarismo transmitida pela Igreja romana, mas questão de sensibilidade da dor, a angústia, a situações de injustiça e a miséria alheias; que toca aos primórdios da instituição Cristã e ao Evangelho. 

Quero todavia registrar - Por questão de justiça e debate. - que o mesmo Meira Penna, no mesmo livro, pg 141, Cap IV "Opção preferencial pelos ricos." leva a questão ao Evangelho e a Tradição patrística. 

Supreendentemente ali nos deparamos com um diamante de alto quilate ou pérola de imenso valor: "Se você toma uma posição metafísica, como os cínicos, os estóicos e dos santos padres da Igreja, de que o desprezo e abandono dos bens deste mundo incrementam a liberdade espiritual e interior." p 143 

O qual talvez possamos lapidar e fazer brilhar mais, dando por suposto que se o desprezo face aos bens deste mundo ou a moderação nos torna tanto mais livres, a busca excessiva por tais bens nos poderia tornar escravos...

Não vou me estender sobre isso. O quanto quero observar é que Meira Penna (Insuspeito) admite que o legado de Sócrates e a herança de Jesus Cristo parecem convergir ao relacionar a sobriedade e a moderação com a liberdade, a autonomia ou a independência. Ora, não está Meira Penna se referindo aqui a Marx ou Engels, a Lênin ou a Trotsky, a comunistas ou bolchevistas mas ao que melhor temos em termos de pensamento filosófico e espiritualidade. E elas emitem restrições quanto a posse da riqueza ou seu acúmulo... O que parece não estar de acordo com o éthos capitalista. 

Alias um capitalista protestante, incrédulo ou ateu, não hesitaria fazer coro com os comunas e dizer que tudo isso é pura e simples baboseira. O Velho Meira Penna jamais ousaria faze-lo por considerar a si mesmo como apostólico romano (...) Outro como vimos o caso do Kogos e do Chinês ortodoxo com que debati, os quais apelam ao MNI, como excelentes positivistas... Ficando sendo irrelevantes as opiniões dos Padres (E se trata de um opinião comum!) em matéria de economia... (Pelo que devemos dar atenção aos protestantes e ateus rsrsrsrsrs).

Então o Meira Penna desceu da Igreja papal e autoritária dos séculos XV, XVI e XVIII para o século V, situando-se no terreno do catolicismo Ortodoxo > E conhece a posição dos padres da Igreja, alias bastante categórica, face ao acúmulo irrestrito de riquezas, coisa de avaros, dirá o nobre apologista liberal, não de ricos - Pois bem se pode ser rico sem ser avaro. 

No entanto, quanto a esses mesmos padres, prossegue: "os Santos Padres dos primeiros séculos cristãos apenas propunham uma ética individualista que impunha a moderação e o controle na persecução da riqueza, a admoestação de honestidade nos negócios e o conselho de generosidade na esmola e na assistência..." opus cit pg 147

Era de se esperar que um pesquisador tão erudito quanto J O de M P tivesse ao menos folheado o manual de Doutrina Social da Igreja elaborado pelo Pe Pierre Bigo, no qual contam centenas de citações dos antigos padres, algumas bastante enfáticas. Como poderia ter lido a publicação da ed Paulinas "Porque a igreja condena os ricos".

Pois a simples leitura de Tertuliano, Jerônimo, Ambrósio e Crisóstomo índica que ao menos um tipo de riqueza foi irremissivelmente condenada por nosso Senhor, o qual ademais referiu-se a todo tipo de riqueza como falso ou ilusório. Lc 16,11

Os antigos Padres jamais conheceram qualquer coisa mesmo de longe relacionado com o que agora chamamos individualismo. Quiçá poderíamos dizer: Individual, porém a exatidão nos obrigaria a adotar o termo pessoal. Todavia, mesmo empregando tal acepção, a afirmação acima estaria ao menos incompleta, senão inexata.

Seja como for os antigos padres não apenas apenas davam conselhos pessoais sobre a riqueza. Ao menos um deles, S João Crisóstomo, acabou confrontando o poder e sendo martirizado. Pois ousou dizer que os recursos públicos deveriam priorizar o alívio da miséria e não o luxo insaciável (Hoje diria consumismo - Motor do Capitalismo) da imperatriz Eudóxia.

Ele no entanto continua: "Em parte alguma, nos velhos textos, se atribui a pobreza a fatores sociais externos ou forças econômicas sobre as quais não possuímos poder algum."

Mesmo porque não estavam os padres antigos inseridos num regime economicista ou capitalista, ou numa 'ordem' que estimula o acúmulo irrestrito, a cobiça, etc Numa ordem que em que a economia se sobrepunha a religião... Tal não era a realidade dos padres, de modo que não somente não poderiam te-la abordado mas sequer suposto. 

Agora chega Meira Penna ao antigo testamento e, como os judeus, os calvinistas e os adeptos da Teologia da prosperidade e faz uma farta colheita.

Sabe no entanto, por refinamento ou intuição, que não é o Antigo Testamento fonte de doutrina ou manual de práticas, para a Igreja de Cristo e seus filhos... 

Então, finalmente: Do solidarismo, do tomismo, da patrística e de Paulo, passa ao Evangelho, que é a fonte de todas as escolas acima.

E começa a brincar com eles e a de modo respeitoso (sic) folgar de Jesus Cristo: Caso agíssemos assim seriamos doidos, isto é impraticável, aqui o sentido só pode ser alegórico, etc De outros 'cristãos' ouvi que Jesus não tinha experiencialidade quanto ao mundo moderno, que Jesus era um idealista, um ingênuo, um romântico, um caipira, etc Que Jesus não era economista e que não podia legislar sobre o tema - BINET SANGLÉ E OS ANTIGOS JUDEUS FORAM CERTAMENTE MAIS RESPEITOSOS...

E tais blasfêmias saíram de mentes e bocas papistas ou ortodoxas!!!

Também tomba em vulgaridades, ao menos no domínio da exegese. Pois como diversos pilantras costumam fazer, apela ao texto: "Pobres sempre tereis." atribuindo-lhe um sentido abstrato, atemporal ou universal - Como se Nosso Senhor estivesse sermoando, quando as circunstâncias nos indicam muito claramente que estava Jesus estava discursando dentro das circunstâncias de tempo e espaço: Pobres vocês, durante esta geração, sempre terão nesta Judéia não Cristã dominada por Roma... Nenhuma indicação de atemporalidade no sentido de que os Cristãos deveriam, nos tempos futuros ou em todas as épocas encarar a miséria como algo absolutamente natural i é como coisa comum.

Outra tentativa infeliz do nobre embaixador - Com que justificar o éthos capitalista a partir de nosso Evangelho, diz respeito a parábola dos servos inúteis, que enterraram, ao invés de fazer render, os talentos que o senhor lhes havia confiado. 

A partir daí os capitalistas já imaginam Jesus enunciando fundos de investimentos ou promovendo a compra de ações na Bolsa kkkkk O que - Dizendo o óbvio, em termos de História. - sequer existia naquelas priscas eras. 

Num primeiro instante devemos dizer que a parábola em questão limita-se a tomar uma dada realidade social existente (E a realidade a que se refere é a cobrança de juros ou a aplicação do dinheiro em algum negócio - Não em imensas corporações ou monopólios como a Nestlé ou a Nike.) com o objetivo de expressar uma realidade espiritual ou religiosa, SEM EMITIR QUALQUER JUÍZO ÉTICO SOBRE A DITA REALIDADE SOCIAL, seja negativo ou positivo, condenatório ou laudatório... É o que não está em questão na parábola e Jesus simplesmente, ao menos neste momento, não se pronuncia sobre o assunto ou a realidade dada. 

De modo que não se pode fazer uso dela para defender a realidade social e dada, mas somente para o fim a que foi posta: Explicitar uma relação espiritual vigente no mundo invisível. Do contrário, dado que os tais servos fossem escravos, estaria Jesus sancionando e abençoando a escravidão, instituição que sabemos ser essencialmente má e pecaminosa i é algo que o Deus Santo e Bom jamais poderia sancionar. 

Quanto aos textos irrespondíveis, assevera o nobre expositor que certamente referem a avareza ou a ambição desmesurada e patológica. O que não corresponde a realidade, uma vez que não era Jesus comunicador deficiente ou ambíguo, faltando tampouco ao grego, aparato para exprimir a distinção. 

Diz Jesus: Não podeis servir a Deus e ao dinheiro. 

Ora para Meira Penna e os seus o liberalismo econômico não serve ao dinheiro. Serve ao que...

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sexta-feira, 17 de março de 2023

Psicologia, psicanálise, Freud e a questão da multiplicidade de existências - Reflexões sobre a obra de Hermínio C Miranda 'A memória e o tempo' Edicel 1984 - Parte V

 

A reencarnação, o espiritismo prático e o espiritismo doutrinal ou Kardecismo.


            Que pensar e dizer sobre a Reencarnação ou a pluralidade de existência.

             É algo que devemos analisar ou concluir por nós mesmos, uma vez que os espíritos de um e do outro lado da Mancha não estão de acordo - Sendo os espíritos anglo saxões pela negativa...

              Ademais, como declara o sr Hermínio C Miranda - A página 55 da obra em questão - que 'Há tantos neuróticos e psicóticos no mundo póstumo quanto neste de matéria densa.' - E mais adiante (p 56) refere aos traumas, complexos, bloqueios, etc dos desencarnados... Pelo que mesmo sem desejar mentir podem fantasiar ou imaginar, no caso 'vidas passadas' exatamente como nós ou nosso inconsciente. 

             Tornaremos, no capítulo subsequente, a examinar a ideia de uma 'Revelação' comunicada por espíritos desencarnados. 

              Quanto a fé - Cristã, Católica e Ortodoxa - discordamos por completo da opinião descabida segundo a qual a Reencarnação ou pluralidade de existências se choca com a Ressurreição dos mortos ou com o Resgate dos mortais.

               Afinal podemos admitir que todos os humanos ressuscitarão em seu derradeiro ou último corpo ou ainda que todos os humanos obterão um corpo. Outro o caso da Redenção simplista nos termos de um Agostinho, de Lutero ou dos protestantes, que é uma redenção confortável, fácil, amoral e anti Ética. Outro o caso da Redenção Católica ou Ortodoxa posta pelos padres da Igreja e inseparável da crença na reparação do mal.

                No entanto é necessário reconhecer que mesmo estando presente no Evangelho - Segundo as palavras de S Cirilo citadas pelo Pe Maldonado SJ nos Comentários a S Juan: "Os apóstolos lhe fizeram tal pergunta porque acreditavam na doutrina da transmigração." e esporadicamente (Como uma Hipótese) num ou noutro padre da Igreja > Como Agostinho, no prólogo das Confissões, a doutrina da pluralidade de existência não faz parte do que Cognominamos Revelação ou da auto comunicação divina dada por Jesus Cristo. 

                  Forçoso reconhecer que a Reencarnação não faz parte da essencialidade da fé ou da doutrina Cristã - Passando inclusive bem longe do restante do antigo testamento, como declara Jean Prieur no  'Mistério do eterno retorno', o qual, por obra e graça de um judaísmo mais tosco assume a unicidade da vida. 

                   E no entanto concordamos com o Dr R N Champlinn - É a opinião favorável a pluralidade de vidas - SEPARADA DA ÍNFAME DOUTRINA DO KARMA OU DA SAMSARA. (ESTA sim um absurdo monstruoso!) - excelente ferramenta teológica posta a serviço a Divina Revelação assente no Evangelho, tornando-a mais lúcida inclusive, se é que podemos dizer. Afinal por meio dela podemos admitir que todos os seres humanos que viveram nos incontáveis séculos anteriores a Encarnação do Verbo Jesus Cristo e a manifestação da Lei Evangélica, tem ora a chance de ter contato com essa Lei divina e de progredir nos domínios do espírito. Digo o mesmo das pequeninas crianças que morreram demasiado cedo, especialmente as não batizadas ou incorporadas a nosso abençoado Redentor. Posso ainda supor que outros tantos desejam voltar a este mundo sublunar para exercer missões e encaminhar seus irmãos a Jesus Cristo - E EM TODAS ESSAS SITUAÇÕES A PLURALIDADE DE EXISTÊNCIAS NÃO CORRESPONDERIA A UMA GRAÇA OU ACESSO A JESUS CRISTO...

                 No entanto, como disse acima, não pertencem a Reencarnação a fé ou a instrução divina.

                 Excluída qualquer tipo de certeza empírica ou revelada (Credal) só nos resta avaliar a hipótese da Reencarnação (Sempre desvinculada do Karma igualmente postulado pelos Hindus!) do ponto de vista meramente racional, tal e qual examinamos a existência de Deus e a sobrevivência da alma por ser assunto próximo, congênere ou co relato.

                  Que pensar sobre a reencarnação desvinculada de qualquer elemento religioso ou credal...

                  A mim me parece plausível que, admitido o valor da vida como experiência enriquecedora para o espírito, ter a vida ceifada aos dois, cinco, dez ou mesmo vinte anos - E portando na infância ou na juventude! - equivalha a uma desgraça ou infortúnio, inúmeras vezes causado por um acidente ou golpe de azar. 

                   Suponho portanto que em tais casos seja digno da sapiísssima Providência celestial permitir que essas almas vazias retornem a este nosso mundo e adquiram outros corpos com o intuíto de conviver com outros humanos, de obter novas experiências e por meio delas aprender ou adquirir conhecimento. 

                   Há em seguida o caso daqueles que por pura sorte ou azar recebem um corpo físico deficiente, o qual serve de obstáculo a experiência e ao aprendizado - Assim os que nasceram com paralisia cerebral e outros tipos de deficiência. Também me parece justo e digno que renasçam em posse de melhores corpos, de modo a completar seu aprendizado.

                    E há por fim aqueles que por causas de natureza diversa, como a escravidão ou o excesso de trabalho, extrema necessidade, avitaminose, o analfabetismo, etc não progridem no aprendizado, partindo quase como chegaram a este mundo ou ainda num grau assustador de ignorância/alienação. Também a esses me parece acertado que obtenham outras vidas.

                      De modo geral - E posso dize-lo como professor ou educador! -  uma única vida em condições médias ou normais já me parece insuficiente tendo em vista tudo quanto devamos aprender e conhecer. Parece-me portanto bastante plausível que haja pluralidade de vidas e que esta economia natural preceda a economia da graça ou da Redenção, devendo está inserir-se nela e dela servir-se, como já disse como uma graça. 

                        Não vejo portanto a pluralidade de vidas como os hindus, budistas e espíritas ou seja como uma punição pós pecado, e sim como uma ordem natural das coisas. Episodicamente pode e deve servir para reparar - Na comunhão e Lei de Jesus Cristo e sob o termo de 'Penitência. No entanto não parece ser essa sua função primária. Nascemos, morremos e renascemos, pelo menos a maior parte de nós, os medíocres para progredir em conhecimento e virtude. 

                         Portanto os mesmos raciocínios metafísicos ou especulações que me levam a afirmar a existência de uma Consciência Suprema, dum Ser imperecível, dum Espírito Eterno, de uma Lei Universal e de uma Alma do Mundo, bem como da sobrevivência da alma humana após a dissolução do corpo físico, os mesmos e exatos raciocínios me levam a postular a pluralidade de existências. Não a fé Cristã ou a divina revelação e menos ainda a comunicação de espíritos humanos, mas repito, a pura e simples reflexão.

                          Então qual o problema dos espíritas doutrinários ou kardecistas, assim do sr Hermínio C de Miranda... Onde é que nos separamos e por que nos separamos...

                          Nos separamos pontuadamente quanto a memórias de tais vidas na vida presente ou quanto a recordação ou ainda memórias das vidas passadas, mormente quando obtidas artificialmente por meio de Hipnose ou regressão. Pois consideramos tudo isso uma bizarrice monstruosa.

                          Tornamos já a essa temática tão cara $$$ a indústria de romances espiríticos Gasparetto S/A...

                           De nossa parte embora admitamos que, muito provavelmente, a maior parte dos humanos corresponda mais de uma existência, julgamos que quando assumimos uma nova vida a memória ou lembrança das vidas anteriores seja bloqueada por disposição divina tornando-se, via de regra, inacessível - Ao menos a tentativas artificiais no sentido de recobra-las. 

                           Qual o objetivo desse bloqueio... Acaso seria ele arbitrário ou caprichoso... De modo algum. Nós acreditamos que as memórias das ações realizadas numa existência anterior fiquem bloqueadas para evitar situações ou melhor confusões semelhantes aos casos de múltipla personalidade (Tal o caso Sybil). 

                            Naturalmente que tais almas que passaram por outras existências podem portar e portanto trazer para uma nova existência traumas, complexos, hábitos, tendências, etc mas não a memória de ações particulares. 

                             No entanto é perfeitamente compreensível e admissível que entre uma existência e outra, estando isentas de corpo ou desencarnadas, recobrem as memórias de cada existência porque passaram. 

                             Manifesto o engodo de todas essas ridículas tentativas de recuperar tais memórias por meio do que chamam regressão. Isto porque como tem sido cabalmente demonstrado pelos psicólogos é próprio do inconsciente fantasiar, de modo a satisfazer seus desejos. Portanto, caso acalente alguma crença - Como a reencarnação. - tentará o inconsciente dramatizar em torno dela com o intento de justifica-la. 

                               Bom salientar que Freud abandonou a Hipnose justamente por isso, pelo fato do inconsciente fantasiar com demasiada facilidade. Muito antes de Freud, ao tempo de Charcot e da Salpetrière, os críticos de Nancy já o haviam observado, declarando que frequentemente o próprio hipnotizador, Charcot, introduzia a histeria nas pacientes elaborando um enredo a que elas davam seguimento. 

                                Há inclusive diversas produções cinematográficas que apresentam o inconsciente fantasiando ou assumindo o papel de diabos, espíritos, deuses, etc até que se descobre que era tudo humano e demasiado humano, fruto da fantasia. 

                                 Eis porque na maioria quase que absoluta dessas regressões e relatos, raramente alguém foi pobre, obscuro ou feio na vida anterior e quase todos foram princesas, príncipes, reis, nobres, milionários, artistas, atores, enfim; gente bem sucedida e feliz. Tudo Césares, Cleópatras, Teodoras, Carlos V, Maria Antonieta, Carmem Miranda, Edith Piaf... Poucos os mendigos, pedintes, escravos... Pois todo esse enredo é forjado pelo ego tendo em vista a satisfação dos desejos ou a criação de uma vida dos sonhos...

                                  Caso houvesse em tais regressões alguma evidência de prova seria antes de tudo o aflorar de tais memórias numa pessoa que jamais ouviu falar em pluralidade de vidas, num ateu, num materialista ou num fanático religioso totalmente cético quanto a reencarnação. Jamais passou por minhas mãos sequer um relato desse tipo... Inútil mencionar protestantes, romanos, ortodoxos, judeus, etc em tese alheios ou infensos a reencarnação, pois bem podem no fundo simpatizar com ela ou mesmo acreditar, ainda que ocultamente... mencionar espiritas, esotéricos ou ocultistas então é pura deslealdade, afinal por que apenas os que admitem a reencarnação teriam memórias de outras vidas.

                                     O segundo tipo de evidência diz respeito as provas materiais e objetivas - Semelhantes as que os Historiadores e Arqueólogos manejam ao reconstituírem o passado. - que porventura confirmassem um desses relatos de regressão. 

                                     Explico - Quanto as viagens astrais ou melhor dizendo, quanto a pan cognição, temos na literatura metapsiquica ou parapsicológica, relatos controlados e circunstanciais (Provenientes de psicólogos como Freud e Jung dentre outros.) de pessoas que declaram ter abandonado seus corpos, ido durante o sono a lugares distantes e descrito tais locais, como o quarto de uma estalagem. Seria apenas mais um relato qualquer, provavelmente fantasioso, caso o autor da pesquisa não se tivesse dado ao trabalho de contatar as pessoas que estavam naquele local no mesmo momento e constatar que a descrição feita pelo sensitivo correspondia a cena até os mínimos detalhes: Disposição do ambiente, móveis, objetos, pessoas, animais e mesmo as cores das roupas... Isso a ponto de eliminar, estatisticamente, qualquer alegação em torno de coincidências.

                                       Até onde me é dado saber relato algum de vidas passadas obtido por regressão descobriu qualquer coisa de inédita em termos de conhecimento histórico que mais tarde tenha sido confirmado. Tampouco dilucidou qualquer mistério ou enigma importante... E nem sequer uma tumba perdida, como a de Alexandre ou a de Cleópatra foi descoberta graças ao relato de algum Alexandre ou de alguma Cleópatra regredidos...

                                        Repito, nos registros sobre pesquisas psíquicas que envolvem espíritos, fantasmas, assombrações, profecias ou paranormais, por vezes topamos com tais indicações ou evidências concretas que certificam-lhes a veracidade. - Pois contra fatos não há argumentos. Já nos inúmeros relatos sobre regressão não encontramos tais dados ou evidências materiais e tudo não passa de uma narrativa, mesmo quando isenta de contradição, o que por sinal nada prova uma vez que o Inconsciente é esperto.

                                        Quanto ao caso Bridey Murphy, obstinadamente citado pelos espíritas, após termos lido diversos livros e artigos sobre ele, podemos asseverar que há diversas incongruências histórias - Para além disso damos a público o seguinte fragmento:

"
Em Chicago o Rev. Wally White, pastor de um templo que Virgínia Tighe outrora frequentava, aplicou-se à análise cuidadosa das circunstâncias da juventude dessa paciente, conseguindo finalmente atingir as fontes de suas «revelações»…

Verificou, sim, que Virgínia, por muito tempo a partir dos seus sete anos de idade, habitara em Chicago, do outro lado da mesma rua em que residia uma senhora irlandesa denominada Bridie (não Bridey) Murphy Corkell; a jovem frequentava assiduamente a casa dessa pessoa, que oferecia ambiente tipicamente irlandês, onde Virgínia dançava a «jiga» e declamava poesias regionais da Irlanda, reproduzindo até mesmo a pronúncia e as expressões linguísticas dos habitantes desse país; Virgínia aos poucos tornou-se mais e mais interessada por quanto via e ouvia nesse meio irlandês, já que entrou em namoro com o filho de Bridie Murphy Corkell, chamado João (Sean, em irlandês regional); no seu pretenso enredo de encarnação anterior, «Bridey Murphy» chegava a dizer que se casara com Sean MacCarthy! … Ficou outrossim averiguado que aos sete anos de idade Virgínia raspara realmente a pintura de sua cama, e em consequência fora severamente punida (o que lhe causara, por certo, profunda impressão). Os peritos reconheceram igualmente que muitos nomes de pessoas e lugares da Irlanda, assim como certos episódios da vida na Irlanda descritos por Bridey Murphy no seu enredo, haviam sido manifestados a Virgínia pelo contato assíduo que a jovem tinha com a colônia irlandesa frequentadora da casa de Bridie Murphy Corkell. Assim puderam os estudiosos chegar à conclusão de que os pormenores, por vezes tão vivos e realistas, da «pre-vida» de Virgínia Tighe nada mais eram do que noções adquiridas pela paciente no decorrer mesmo da vida atual, tornando-se então inútil e arbitrária a explicação reencarnacionista."

                              Em suma tudo quanto temos aqui é uma elaboração fantasiosa do Inconsciente servindo-se da memória. O que explica os ligeiros equívocos - Tudo muito humano e demasiado humano. 

                               Como ignoro qualquer narrativa de regressão da qual não façam parte ao menos alguns equívocos em matéria de História, Geografia, etc não vou entrar aqui no mérito da questão que planteia a possibilidade de uma narrativa sem equívocos ser produzida pelo inconsciente com base em dados obtidos por meio de capacidades paranormais como a precognição. No entanto caso a pessoa em questão fosse comprovadamente paranormal e partidária da pluralidade de existência temo que a demonstração ficaria comprometida.

                                Resta-nos dizer algo sobre as alegadas memórias de vidas passadas que afloram espontaneamente durante o sono ou nos sonhos. Quanto a estas quero ser tanto mais comedido, mesmo quando sei que o mundo onírico é domínio da vida inconsciente. E no entanto há sonhos que envolvem clarividência rigorosamente comprovados. Diante disso surge a questão: Poderiam os sonhos funcionar como janelas e desbloquear tais memórias... Caso assim fosse deveríamos exigir as mesmas evidências que exigimos quanto as pretensas regressões. São neste caso os sonhos que envolvem supostas cenas do passado mais felizes... Definitivamente não! Pois não tenho que qualquer ponto ou vírgula tenha sido adicionado ao conhecimento histórico por meio de sonhos recordatórios - Ainda aqui nenhum mistério ou enigma resolvido, apenas puerilidades VAGAS E GENÉRICAS.

                                  Por isso digo aos teimosos e obstinados que insistem na tese da recordação: Ofereçam-nos um material menos genérico ou vago, um material tanto mais concreto, sólido e consistente, como a descoberta de um templo, de uma tumba ou de alguma ruína. Caso me ofereçam algo assim tornarei a examinar o assunto com a devida atenção e carinho. Por hora todavia devo dizer que mesmo admitindo a multiplicidade de existências nego que, por quaisquer vias, tenhamos acesso as lembranças relativas a tais existências. 

                                   Por isso, recorrendo como Freud a Mitologia grega, digo que os que renascem são como tivessem bebido as águas do Léthes no reino de Hades. 


                              

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Revolução, violência, razão e Cristianismo.

Poucos temas há, tão polêmicos quanto o tema da violência.

Tema em que se vai da rejeição absoluta ou do pacifismo crasso a aceitação absoluta assim ao odinismo, entre os quais há toda uma série de gradações.

No Evangelho damos ora com Jesus Cristo mandando Pedro embainhar sua espada ora com o próprio Jesus expulsando os fariseus do tempo com um chicote. 

Textos que tem dado o que falar e sido empregados por pacifistas como Tolstoi e por odinistas como Sorel.

De modo geral a Igreja Antiga ou dos padres, ao menos no plano da fé, repudiou decididamente o apoio da força ou da violência. Outro o caso das relações pessoais, onde predominou igualmente o pacifismo, alias crasso. E por fim outro o caso das relações sociais, havendo cristãos pacifistas, cristãos revolucionários e cristãos equilibrados ou partidários do emprego a violência circunstancial ou contida.

Agora por que o mesmo Jesus que empunha o chicote aqui repreende Pedro acolá, mormente quando ele Pedro exercita a defesa enquanto que ele Jesus ataca?

Há quem diga, equivocadamente, que Jesus aqui procede como Deus enquanto que Pedro ali procede como mero homem. Não aprecio todavia esse tipo de interpretação, a qual me sabe a monofisita. Evidentemente que quando perdoa Jesus os pecadores sabemos que tal ação tem seu motor primário na natureza eterna e divina. Agora quando exerce certa violência ou força contra os mercadores sacrílegos não temos como saber com exatidão qual seja o motor primário ou mais remoto de tal atitude. 

Direi então que o motor mais provável dessa ação Cristológica executada pela natureza humana seja a natureza divina, embora não possamos demonstra-la. 

Todavia meu ponto de vista e bem outro e consiste em distinguir que faz Jesus do que faz Pedro. Pois Pedro empunha uma espada que fere e mata. Enquanto Jesus emprega um feixe de cordas (Ev de João 2,15).

Insistirei resolutamente quanto a esta distinção, a ponto de apresenta-la como fundamental: Pedro não empunha um feixe de cordas e Jesus não utiliza uma espada. Pois os partidários de que a violência é sancionada por Deus quanto as coisas profanas costumam alegar que dá no mesmo Jesus ter empregado uma feixe de cordas ou chicote, uma espada, uma lança, uma metralhadora ou uma bomba. Advirto porém que o texto em questão não diz respeito ao emprego da violência no plano social, e sim ao suposto emprego da violência no plano religioso ou da fé, o que acaba por chocar-se contra o conjunto dos ensinamentos de Jesus. O qual a um tempo condenou radicalmente o emprego da violência no plano do ideal e a outro jamais imiscuiu-se em questões formais de sociologia ou política, as quais são indiferentes ao Evangelho.

Ora, justamente por tal narrativa estar vinculada a piedade religiosa não cabe recurso a violência ou mesmo a força. 

Segundo a narrativa sumária de S Mateus Jesus expulsou ou teria expulsado os vendedores, derrubando suas mesas e cadeiras. Agora como fez isto? Onde Mateus silencia S João completa: Valeu-se dum feixe de cordas a guiza de chicote. Donde concluem alguns que teria batido nos cambistas. A narrativa todavia indica que com o chicote espantou os animais que ali se achavam. De que resultou terem as mesas, cadeiras e moedas caído pelo chão (Outras foram derrubadas pelo próprio Jesus) e a fuga de ao menos alguns mercadores devido a surpresa e ao pavor, afinal aquele tipo de ataque era algo atípico e inesperado. 

Teria o Senhor ao menos batido nos animais que ali se achavam com o objetivo de espanta-los?

Também isto tenho por demasiado improvável.

É coisa a respeito de que a letra do Evangelho igualmente silencia e o Redentor sempre poderia ter feito girar e zunir aquele chicote com cordas, bem como bater com ele no chão e nas mesas e cadeiras para assustar os animais po-los em fuga e causar todo aquele tumulto assombroso.

Nada no Evangelho impõem a crença ou ensinamento de que chicoteou Jesus os pobres animais e menos ainda que tenha surrado a sacerdotes e cambistas, e isto sempre será ultrapassar a letra, profanar a divina Revelação e simplificar as coisas.

Nem pode aquilo que sequer se equipara a um chicote ser equiparado a lanças, espadas, machados, revólveres, metralhas e bombas... E apenas alguns cérebros doentios poderiam concebe-lo. Ademais o quanto teríamos aqui seria a aprovação quanto ao emprego da violência no âmbito da fé ou da religião. Sendo assim por que os primeiros Cristãos não partiram para o ataque e conquistaram o império romano recorrendo a guerra e a espada? Deixando-se inclusive condenar injustamente sem esboçar resistência? Acaso não compreenderam o sentido 'oculto' do Evangelho?

Admitia essa versão nada teríamos em Jesus além de um outro Moisés ou Maomé, alias, neste caso Zwinglio e Calvino o teriam compreendido melhor do que quaisquer outros. Tal a versão odinista do Jesus fascista e do Jesus fascista uma vez que os Comunistas ao menos não se importam com ele a ponto de distorcer seu caráter e ensinamentos.

Implica essa constatação admitir que o emprego da violência quanto as relações sociais e políticas não é norteado pela Lei religiosa e ética de Jesus Cristo - A qual obviamente remove-o das relações ou do convívio pessoal. - mas pela experiencialidade e sobretudo pela reflexão. 

Apesar disso há algo desse espírito evangélico que se estande remotamente as relações sociais, como que a guiza de inspiração. Trata-se aqui da condenação do primeiro motor do odinismo ou daqueles que estimulam a agressividade e a conquista associadas a violência. Então a violência para ser lícita deve romper com o paradigma anti Cristão da belicosidade ou da conquista. E circunscrever-se a esfera da defesa. O uso político e social da violência na perspectiva Cristã estará sempre a serviço da defesa, jamais da agressão ou da conquista.

Não pode portanto a violência, no sentido Cristão, servir ao assim chamado imperialismo seja qual for ele.

Tal a única baliza ou exigência ética.

Para além disto temos de conceder que é a violência um fenômeno tão instrumental quanto a estrutura política formal de nossa democracia. O qual por isso mesmo deve servir a algum propósito ideal ou ético. Quero dizer que a violência não pode ser avaliada em si mesma como algo bom (Como fazem os odinistas) ou mau (Como faz o pacifismo crasso.) mas sim quanto a seu fim ou objetivo. Então a pergunta a ser feita é se esse fenômeno pode estar a serviço de algo digno como o bem, a justiça ou a virtude, ainda que circunstancialmente.

Pois não pensamos como os revolucionários i é em acionar qualquer gatilho social por meio dela e assim criar novo homem ou nova humanidade. Eis o que não se pode ou deve esperar da violência, engendrando veleidades místicas. Podemos dizer sim a violência, mas não a sua mística. Não posso ver como a violência em si mesma ou mesmo enquanto meio possa entusiasmar o homem reflexivo.

Nem entusiasmar nem demonizar mas apenas avaliar até que medida podemos usa-la vinculando-a a uma boa causa.

Claro que ao utilizarmos a violência em benefício das crianças, dos idosos, das mulheres, dos deficientes, dos injustiçados, da natureza, etc estaremos fazendo um bom uso dela. 

Importa saber que a violência precisa ser administrada pela razão e assim sempre planejada, contida, limitada, etc 

Nem podemos conceber (Ao modo dos odinistas) a violência ou a força física como as diversas culturas de morte afirmam o mercado, a fé, a política, a ciência, etc i é como algo fora do controle da ética ou acima dela. Simples assim: A estância da Ética deve predominar em todos os setores da existência humana. Daí não estarmos de acordo com um uso irracionalista, cego ou voluntarista da violência.

Ao contrário dos Revolucionários, que imaginam a violência como gatilho ou motor primário da mudança, o quanto pretendemos é usa-la em algumas situações sociais circunstanciais, apenas com o objetivo de substituir umas pessoas por outras, assim as más, egoístas e injustas por outras que sejam éticas e tanto mais dignas. Não pretendemos tocar as estruturas, crendo que tenham elas seu fluxo, e que virão a ser alteradas pelas pessoas dignas e conscientes através dos meios educativos, políticos e sociais. Nós acreditamos na evolução orgânica das estruturas ou em sua transformação interna através do acúmulo de reformas acionadas pela formação ética dos cidadãos. É coisa de cultura não de murros, pontapés e bombas.

É por isso mesmo que não atribuímos as situações de violências, guerras, batalhas e conflitos a solução de todos os nossos problemas. Pois de fato nada resolverão. Limitando-se a criar novas possibilidades de ação, conforme delas resulte a troca dos quadros. É recurso destinado a arejar as estruturas e não passe de mágica que as altere radicalmente e a partir delas a sociedade como um todo. Toda essa mecânica social imaginada pelos metafísicos anarquistas, comunistas, nazistas, fascistas, etc é furada e assim as idéias de revolução e contra revolução.

Continua











terça-feira, 13 de julho de 2021

Socialismos, o espelho do Cristianismo II

Já expusemos honestamente nossa vergonha.

Materialistas, mecanicistas, economicistas e positivistas há que ousam revindicar para si mesmos o título nada honroso de cristãos capitalistas ou liberais mercadistas. Fossem eles protestantes não nos admiraríamos disto - Oh Sancta Simplicitas... Pois é o protestantismo individualista, transcendentalista, livre examinista; sancionando quaisquer distorções subjetivas dos textos sagrados, etc

Incoerente, grave e escandaloso é que Cristãos apostólicos: Romanistas, Anglicanos e Católicos Ortodoxos tenham assimilado tão levianamente esse cipoal de heresias filosóficas e sociais enquanto berram como pegas no cio: Comunistas, comunistas... 

Ora, os comunistas não fazem parte da Igreja e aqueles que simpatizam com algumas de suas visões e métodos equivocados devem ser reorientados com toda paciência pela autoridade eclesiástica, ou, constatada a má fé, disciplinados. Aqueles que de fato se preocupam com os oprimidos e cuidam da justiça não terão dificuldade alguma em submeter-se. Pois é de nossa tradição mover guerra espiritual a avareza e denunciar a opressão sob todas as suas formas. É da Igreja tomar o partido dos fracos e oprimidos e vindicar-lhes a causa. No entanto são nossas fontes espirituais e nossos meios específicos.

Não somos comunistas nem nos fazemos comunistas por denunciar como devemos o pai do Comunismo, o Capitalismo esse filho terrível, afilhado ou enteado do protestantismo. 

O protestantismo, temos sempre de bater nessa tecla, foi quem lançou as sementes venenosas do individualismo ou do egoísmo. Foi ele que (Não estou atribuindo este erro fatal a Lutero! - O qual jamais negou as obras e sim que as obras salvassem!) apartou a Cristandade das obras e da imanência, ferindo de morte o ideal insercionista inaugurado pela Encarnação de nosso Deus. Foi ele que dando as mãos ao neo platonismo criou esse cristianismo descarnado, fantasmagórico ou 'espiritualizante'. Foi ele que por necessidade histórica deitou nos braços do poder estabelecido. Foi ele que tornou-se lacaio do Estado e por meio desse servo de forças econômicas. Foi ele que editou a nova versão 'frágil' do Cristianismo, esse Cristianismo fala mansa ou água com açúcar. Foi ele que converteu o Cristianismo em sedativo e tornou-o socialmente irrelevante ou inútil. Tudo isto fez o protestantismo, acalentando a víbora materialista/economicista em se seio e dando-lhe vida.

Aspiravam os poderes econômicos por semelhante oportunidade. De revindicarem autonomia e assumir a soberania. Demandavam portanto por uma Igreja submissa, sem Bispos, monges, conventos, cruzes e sinos... O protestantismo esvaziou e enfraqueceu o nosso Cristianismo, curvando-o face a outros poderes, quando lhe estava reservado o comando (Indireto ou via Ética) de tudo, assim a direção do processo histórico.

Tampouco pôde o protestantismo com sua petição grosseira a bíblia ou ao antigo testamento, assumir tal encargo ou a missão que revindicava. Impediam-no a divisão em seitas e consequentes disputas, a petição ao exame particular, o viés transcendentalista, etc E só por um tempo o monstro de Genebra, com a Torá entre as unhas, governou a ferro e fogo, fazendo verter torrentes de sangue humano e criando - Segundo Pierre Van Paassen (Com o apoio de Stefan Zweig) - o primeiro campo de concentração da História. Afinal a cegueira bíblica ou judaizante só poderia mesmo prevalecer por meio da força... 

Foi um triunfo efêmero.

O protestantismo fragmentou a igreja cismática de Roma num amontoado de seitas e proclamou altissonante seu triunfo, e sem embargo falhou miseravelmente por não ter sido capaz de substituir a igreja rival. O protestantismo de modo algum tomou a condução dos destinos do mundo mas abriu mão dela, e isto equivale a capitulação espiritual do Cristianismo histórico, esse refúgio na extremidade do 'espírito', nas nuvens ou nas alturas - Pelo simples fato do Deus do Evangelho se ter aproximado do mundo e entrado na História por meio da Encarnação. Com o triunfo do protestantismo e sua alienação ou esvaziamento neo platônico perdeu o Cristianismo sua vocação. 

Por incapacidade do protestantismo mitológico (Por via do antigo testamento) e sectário (Por via das seitas) o Cristianismo perdeu a direção das coisas e cessou de inspirar cada vez mais as ações dos homens imprimindo-lhes um cunho social. 

O protestantismo foi e é recuo, abandono e fracasso. Uma opinião firmada em Agostinho e segundo a qual mesmo em posse da graça o homem sequer pode transformar a si mesmo, devendo desesperar-se por completo do mundo e, necessariamente (Como ocorreu e ocorre) tornar-se catastrofista e apocalíptico, assimilando o derrotismo dos antigos hebreus. Toda essa carga de negatividade e pessimismo existente já na literatura judaica ou judaizante dos primeiros séculos o protestantismo absorveu, e a ponto de criar um lema: O mundo não tem solução.

Agora ao recuar de seu posto, até então ocupado, ainda que sofrivelmente pela igreja romana, mas ocupado, o protestantismo permitiu que um outro tipo de poder, o poder material ou econômico, se instala-se em seu lugar inaugurando um novo ciclo na História da Humanidade, o ciclo das ideologias naturalistas ou das culturas de morte, todas ao menos implícita ou dissimuladamente materialistas até os confins do ateísmo, e relativistas (Quando não negacionistas) quanto aos valores espirituais, e isentas de qualquer sentido metafísico profundo, que transcenda o mercado, a pátria, a raça e outras categorias inferiores senão vulgares da existência. O espírito perdeu seu primado já há muito disputado como jamais perdera nos piores momentos da História antiga...

Como de Ideologia em Ideologia, de cultura em cultura, de mística em mística não chegaríamos a borda do abismo que é a negação e a extinção do homem.

Não foi o Deus, assim o teísmo naturalista dos pensadores gregos e tampouco o Deus encarnado e presente do Evangelho que morreu, bateu botas e apodreceu, mas o homem. Nossa espécie é que ora agoniza e se vê prestes a morrer miseravelmente em meio a águas, ares e terras poluídos e a falta de comida! E isto tudo por falta de Ética, por falta de sólidos fundamentos espirituais... E o caminho disto foi a bíblia, digo e repito, o biblismo, o livre exame, o sectarismo. O protestantismo foi o começo de tudo. Precipitou-nos inclusive no vórtice das Revoluções, outra ilusão, delírio ou quimera perniciosa. Fala-nos mesmo por meio de Kant, Nietzsche, Sorel, etc e sempre para o mal ou para o pior... Por isso ele não nos poderá salvar, e tampouco conter este ciclo de culturas de morte que acionou.

E se você leitor protestante, nada percebe ou vê além do falso dilema papismo/protestantismo desespere de toda salvação e aguarde pela pior das mortes no único e verdadeiro inferno produzido pela avareza, pelo individualismo, pelo egoísmo e pelo mar de irracionalismo, e é claro pela falta daquela Ética filha do Evangelho vivo e redentor.

Agora ao estender meu olhar sobre o corpo da Igreja que vejo em termos de consciência social Cristã, de ideários, planos, propostas, métodos, etc

Contemplo antes de tudo aquela multidão de Cristãos alienados que nada sabem sobre as condições do mundo atual e que tampouco se importam com ele, caminhando como cegos ou zumbis em direção do abismo hiante. Tais os Cristãos que se reproduzem organicamente, os de tradição cultural, os reprodutores, os imitadores, os apenas batizados, etc - Nossas massas, como diria J H Newman. Aqueles que receberam o Cristianismo de seus ancestrais mas que jamais sentiram-no ou refletiram sobre eles. Esses homens sem espírito, sem alma ou consciência; nos quais não brilha o amor pelo bem, pela verdade ou pelo belo. Os Maria vai com as outras. Os que concordam com tudo. Os que aceitam tudo. Os mal formados. Os desinformados. Os incoerentes... Nossas massas, nossa cruz. Porque devemos sofrer e chorar com a mãe Igreja.

Deixados estes formalistas e confortáveis de lado devo mencionar os Cristãos que tem consciência de sua fé, digo os que sabem o que sua fé significa e o que espera deles. Estes como Peguy sabem o que devem fazer... Sabem que o Cristianismo Católico ou Apostólico não se limita a missa de Domingo, as procissões e almoços de família... Sabem que Catolicismo não é esse paraíso burguês fechado em torno do jardim... Sabem que esse mundo artificial encerrado numa cúpula - Com sua atmosfera de intangibilidade, nada tem de Cristão. Quem espera repouso não é sabe que é Cristianismo. Pois é o autêntico Cristianismo a mais heroica das religiões e a única destinada a confrontar o mal ou a afronta-lo audaciosamente. É fé de homens e mulheres audazes e corajosos, que nos primeiros séculos suportaram horrendas torturas. Cristianismo é isto, mesmo para o leigo - Incomodo, desafio, perseguição e trabalhos: Ou não seria cruz! Ao menos a consciência de cada Ortodoxo deve sentir o impacto do desafio!

Não e não. Não se pode permanecer neutro face ao reino do dinheiro, a força do lucro, o poder do capital, a sanha da avareza. São ações e fatos que exigem postura clara e decidida. De que lado está você??? 

Pode você face a tanta fome, ignorância, nudez, enfermidade, violência, etc declarar que a vontade de Cristo se realizou nesta terra pela qual pedimos todos os dias ao repetir: Seja feita a tua vontade na terra e nos céus???

Então bata no peito, faça um junto 'Mea culpa' e em seguida se pergunte sobre o que pode fazer ou sobre qual seja teu dever, o dever do Cristão!

Amai-vos uns aos outros como vos amei, diz o Mestre.

E agora examine sua consciência e indague se aquele que explora, oprime, domine e exerce a injustiça ama!

Tornemos já, do Oriente ao Ocidente ao herói Peguy!

E cessem as relações promíscuas com o Império de Mamon! Que Mamon seja definitivamente expulso dos domínios sagrados de Jesus Cristo, nos quais devem impor-se a solidariedade, a justiça e o amor.

Apresentar nosso irmão batizado e filho de Deus como um rival ou concorrente é atitude essencialmente maligna.

Ignorar o irmão que passa fome, sede, frio, etc é ser insensível e ser insensível é não ser Cristão.

Priorizar relações e investimentos econômicos é pecar e nada mais.

Caso o Evangelho que lemos sem artifícios e atenuantes sacrílegos esteja certo o mundo em que vivemos está demasiado equivocado, e se está equivocado é nossa missão corrigi-lo.

Advertir os que erram é obra de misericórdia imposta pela verdadeira religião. Por isso nossa Sociedade não deve ser acalentada com afagos ou aplaudida mas corrigida. E exorta-la é dever que nos impõem o Evangelho. 

Assim se você se diz súdito do reino celestial por que acumula ou junta tantas tranqueiras na terra?

O melhor médico não é aquele que se dirige ao doente com palavras doces. Mas aquele que determina a dieta ou a morte. E que emprega o bisturi e o cautério. O que corta e extirpa os tecidos putrefatos e saneia o corpo por meio da cirurgia, não o que distribui confeitos...

E no entanto esses meios dizem respeito a mente e a privação das coisas sagradas no seio da Igreja.

Resta-me dizer por fim que mesmo entre os Ortodoxos ou apostólicos romanos que aspiram confrontar e transformar o mundo nem todos estão de acordo quanto aos meios e também entre os nossos há muito que existem os adeptos da ruptura radical e da inserção, da revolução e da evolução, da sedição e da reforma. E já advirto que mesmo admitindo o emprego ocasional ou circunstancial da violência, o Cristão opta certamente pela via da inserção, da institucionalidade e acima de tudo da educação, da formação ou da produção da consciência como algo que não apenas promoverá a mudança estrutural como prepara-la-a. 

É um movimento concomitante de certo modo, posto que o acúmulo das sucessivas reformas terá como resultado uma transformação gradativa. Todavia se considerarmos que os responsáveis por dar impulso as reformas - Sejam meros cidadãos engajados ou políticos de carteirinha. - estão sempre na dependência de uma educação/formação ético pessoal, concluímos que o que aciona o processo social é o espírito ou a ideia. Nem poderia a estrutura material e isenta de vida resistir como muralha invencível a ação humana. Transforma-se a sociedade como transforma-se a estrutura econômica, não magicamente ou por si só, mas sempre por ação de algumas pessoas que se acham a frente de seu tempo, são elas que dentro de limites e medidas levam a sociedade adiante, pois não se move a sociedade por si só como algo a parte, sendo movida pelos atores que moveu e move. Há pois um duplo movimento: Um que parte da estrutura e dá vida a cultura, outro que partindo do homem altera a cultura, recria as estruturas e reinventa a sociedade.

Equivocou-se Marx: Não é o modo de produção que determina a consciência. Determina as consciências das massas e influencia a todos, sendo no entanto influenciado e transformado por certas consciências bem formadas. Que tenham as tais consciências, vinculadas a diversos modelos de cultura tradicionais, resistido as investidas do modelo capitalista e contido tais investidas por séculos a fio foi suficientemente demonstrado por Polanyi e Hobsbawm. Que os efeitos das transformações impostos pela toda poderosa estrutura econômica tenham de ser sancionados pela instância do ideal confessou-o Marx. Que haja interação entre ambas as forças concedeu Engels. Que a instância imaterial tenha produzido uma cultura e que essa cultura, em diversos nichos, tenha resistido as pretensões postas pela estrutura econômica ja havia sido demonstrado por Fustel de Coulanges. Que hajam diferentes formas de constelações sociais cristalizadas em torno de princípios e valores de modo algum econômicos foi demonstrado por Sorokin. 

Se bem que não se tenha equivocado tanto ou como um Lênin. Pois era Marx, o Marx autêntico, Etapista. Fosse quais fossem suas diferenças com Hegel Marx jamais concebeu o processo social ou o fluxo histórico como cera quente. Tinha a História para ele um ritmo, sendo necessário ao Revolucionário conhece-lo bem, de modo a perceber o kairós i é a oportunidade, e atuar em comunhão ou sintonia com esse ritmo. De modo que o Revolucionário, se faz avançar um pouco a História, sempre tem consciência de seus limites. Mesmo o conjunto dos homens ou parte da Sociedade atuam sempre dentro de certos limites dados pela estrutura. 

É somente por essa via que pode a Revolução obter acesso ao poder, alterar radicalmente as estrutura e então, magicamente, alterar toda marcha da sociedade. 

Assim se nem toda Revolução é ou se dá nos termos materialistas de um Marx ou de um Bakhunin e da modernidade que é materialista - Pois como veremos toda Revolução (Como a força ou a violência) é instrumental, ficando sempre na dependência de um conceito chave ou matriz geracional que pode ser ou não ser materialista. - é certo que materialismo e Revolução combinam perfeitamente e que, bem ponderado, o conceito de Revolução conduz facilmente ao materialismo.

Explico. O que Revolucionário algum pretende é transformar a sociedade pela simples mudança em termos de pessoal, ou fica abortado o conceito de revolução. O que ele busca é um elemento chave, material ou imaterial capaz de mudar a cultura e por meio dela as pessoas. O que ele julga ter obtido através de seus estudos é a compreensão de qual seja esse mecanismo responsável pela produção e manejo da cultura. Para em seguida, por meio da violência, tomar posse desse mecanismo e, através desse mecanismo mudar a sociedade.

Importa saber algo.

Que mesmo quando é este elemento imaterial como uma nova fé, o culto a liberdade, etc ele só pode ser manipulado por quem detém o controle da força, o qual depende em última instância de um embate ou confronto físico. Parece que aquele mecanismo a ser acionado está na dependência de alguma estrutura política de poder já em parte material. E que essa estrutura de poder está na dependência de um conflito físico de forças entre corpos e munições. Porquanto o princípio da Revolução ou sua matéria é a violência.

Teríamos assim o seguinte esquema: O confronto físico entre os corpos franqueia o acesso a estrutura em parte física do poder e este por fim ao mecanismo capaz de alterar a realidade social e o comportamento das pessoas. Posso conceber, como fiz acima, uma variante; apenas por trocar o lugar das duas últimas premissas, e conceder que alterando o comportamento das pessoas altero a estrutura da sociedade; e assim atenuo o materialismo, mas não o suprimo. Como não o suprimo ao identificar o mecanismo capaz de transformar a sociedade ou a vontade pessoal com qualquer elemento imaterial. 

O revolucionismo, a metafísica revolucionária, o pensamento revolucionário, deveria, por necessidade, fazer-se marxista porque já nele está contida uma premissa materialista. Uma vez que sua petição secundária é a estrutura política (Tão material quanto a econômica.) enquanto que sua petição primária é a força física. Pois o que faz diferir a Revolução da Guerra não é a matéria mas a forma, porquanto a matéria é a força e apenas se aspira alterar toda uma estrutura ou todo um universo por meio da força física de corpos, armas e bombas, e não por meio da Educação ou da tomada de consciência. Diversos sociólogos intuíram esse aspecto, i é, o antagonismo existente entre o padrão revolucionário da violência (Que descambou no materialismo.) e o padrão evolucionário da formação/educação. Percebeu-o claramente Sorel inclusive. Dando a entender todo um quadro metafísico ou ideológico por trás de ambas as opções.

Exatamente por isso o Cristão, mesmo quando admita - Como eu - a petição a força, jamais pensará a força nos termos de um revolucionário i é como algo algo ampla e profundamente transformador ou princípio de uma nova ordem. Mesmo quando a violência for admitida em sua cosmovisão, o Cristão jamais fará dela ou centro ou o motor dessa cosmovisão, tal como a alavanca de Arquimedes, e a força será apenas um aspecto isolado e circunstancial. 

E será esse Cristão evolucionário, insercionista, institucionalista, reformista, etc mesmo quando partindo da noção perfeitamente Cristã de Guerra, ou de defesa social ou de ordem justa e desejável, admitir que em algumas situações, esgotados os demais meios, cabe e é necessário recurso a violência. Pois a demanda pela justiça institucional só é tolerável até certa medida. Claro que essa situação de violência e conflito que diz respeito a pura e simples troca de pessoas no exercício do poder e que ficará sempre na dependência de relações políticas numa ordem o mais democrática possível, não pode nem deve ser confundida com Revolução. Nem toda forma de violência contra o governo, comporta as ilações metafísicas de uma revolução. 

Tal a questão das estruturas minimamente ou apenas formalmente democráticas. As quais mesmo não correspondendo a um tipo ideal (Que se identifica com a democracia direta ou a policracia.) ou a uma estrutura perfeita, prestam-se no sentido de dar acesso a Evolução ou progresso social, o qual alias se dá nessa estrutura, i é por dentro, devendo partir dela a democracia plena ou resultar ela em democracia direita, mas não por golpe e sim por pressões sociais convertidas em leis. Por isso, ao contrário dos jacobinistas, somos contrários a qualquer sedição ou golpe democrático ou policrático (No cenário de uma democracia formal ou indireta.) e em franca oposição aos primeiros lideres protestantes, que se estribaram no Antigo Testamento, somos decididamente contra qualquer tipo de golpe ou violência religiosa. Somos contra todo e qualquer golpe cujo objetivo seja acionar forças que movam estruturas ou pessoas. Nós não cremos nisto.

Portanto mesmo quando assumirmos o padrão da força lhe daremos outro sentido, assim removeremos pessoas, em beneficio de pessoas mais dignas e melhores. Não acionaremos gatilhos e não buscaremos mudar estruturas exceto por meio da produção de consciência, da educação, da formação, a qual para nós é a chave da cultura. E e claro que o objetivo de toda essa movimentação de consciência tem por fim produzir uma cultura ética e essencial da pessoa humana, valendo-se de nossa herança Cristã que é o Evangelho (Não a bíblia e menos ainda o antigo testamento e seus preconceitos tolos.) e de nossa herança Socrática. 

Eis porque não será o Cristão revolucionário, COMO JAMAIS SERÁ CONTRA REVOLUCIONÁRIO opondo-se ativamente e por meio da força a qualquer Revolução, exceto se religiosa ou credal. 

Por isso no próximo artigo, considerando Sorel, avaliaremos a questão da violência face a razão, para em seguida reforçar nossa oposição ao contra revolucionarismo hipócrita.



sábado, 3 de julho de 2021

Católicos pela democracia e a incredulidade dos integralistas.

Começarei dizendo que os integralistas, com sua ideia fixa de união ou mancebia entre a Igreja e o Estado, enunciam uma igreja frágil e um cristianismo miserando, o que por si só equivale a uma tremenda blasfêmia.

De fato todos os unionistas, integristas, puritanos, etc tendem a admitir que a Igreja de Cristo não se sustenta por si mesma, devendo ser amparada pelo Estado secular. Agostinho, contra os demais padres, aproximou-se desta solução e disto - Paradoxalmente - resultou o que há de pior na igreja romana: O poder temporal do papa, do qual resultou imenso topor espiritual para a dita Igreja. Outro fruto podre derivado desta solução foi a Teocracia calvinista de Genebra com seu rosário de crimes. 

Aqui a ideia é predar o Estado ou tomar posse dele e dele servir-se com o objetivo de manter a Igreja viva ou a Cristandade de pé.

Já disse que a blasfêmia aqui é manifesta, pois aquilo que deve ser sustentado ou socorrido por outrem é porque não pode manter-se por si mesmo.

A conclusão é óbvia: O fundamento da fé e da graça foi substituído sacrilegamente pelo Estado, pois esse fundamento onipotente é a divindade de Jesus Cristo.

Que as instituições de Moisés ou Maomé, os quais não passam de mortais inermes, busquem apoiar-se nos poderes políticos deste mundo é perfeitamente compreensível e desculpável.

Outro o caso da Instituição divina da Igreja, fruto da divindade de Cristo.

Ocioso fornecer a Igreja de Cristo uma bengala ou muleta política da qual ela não carece. Pois está firmada sobre a Pedra angular que é a divindade do Verbo!

Não precisa a Igreja de Cristo de quaisquer servições fornecidos pelo Estado, não precisa do controle secular ou do poder político uma vez que seu domínio é o domínio ético dos espíritos, das mentes ou dos corações. O patamar da Igreja é muito mais alto ou elevado, pois procede da eternidade.

Noutras palavras: O integralismo com seus préstimos políticos toma o Cristo por débil e sua Igreja por esclerosada e incapaz de manter-se por si mesmo.

O integralismo desconfia da economia espiritual da revelação, da graça e da fé que são elementos divinos e despenca nos abismos da profanidade. 

Não pode essa Ideologia suportar que o Bem, a Verdade e a Beleza se possam sustentar por si mesmas como coisas Sagradas procedentes do céu.

Porém, toda petição externa a Igreja, a sua lei e a seus Sacramentos, implica justamente isto: Desconfiança, hesitação e incredulidade face a missão de uma Igreja que se mantém e sustenta por si mesma, núncia que é do Autor e Mantenedor do Universo.

O erro aqui é manifesto: Pois não toma a Mãe Igreja sua vida dos tronos, dos tribunais, das baionetas, das algemas, dos cárceres... como as instituições mundanas e terrenais! É do seio da divindade, da Encarnação, do Evangelho, do Amor, dos Sacramentos, da graça, da fé e dos exemplos de virtude que a Igreja tira toda sua força e vida. Fiel e impassível neste caminho divino a Igreja assistirá todos os Impérios, Reinos e Países que presidem a política deste tempo desfazerem-se, uns após outros, como pó. Firme em sua direção - Como disse Lord Macauly - passados mil ou dos mil anos, seja da África, da Índia ou dos Confins da China, contemplará a Igreja de Cristo as ruínas de nossos castelos, palácios e cidades... num mundo totalmente diverso deste.

Observem como vive ainda a Igreja Assíria nos confins do Oriente, toda cercada pelo islã! Observem como vive a Igreja Siríaca nos confins da Síria apesar da sanha maometana que não cessa de sangra-la ao cabo dos séculos. Observem a Igreja Copta, a Igreja da Cruz e vede como ainda hoje sobrevive e resiste na terra dos Faraós hora assolada pelas hostes muçulmanas. 

Tal a missão e vocação da Igreja, cujos filhos não foram gerados da carne ou do sangue para a espada, a lança ou o fuzil, mas de Deus para a redenção do espírito!

Não quero dizer com isto que o Estado democrático e a Cristandade não tenham interesses convergentes ou comuns. Devendo o Estado democrático, apoiado pela Ética da Igreja, resistir ferozmente ao islã e os filhos da Igreja apoiar ativamente o Estado democrático contra quaisquer aspirações ou manobras teocráticas sejam islâmicas ou calvinistas. Todo e qualquer projeto teocrático de dominação deve ser coibido pelo poder do Estado popular com a participação ativa do povo de Jesus Cristo. Estado e Igreja no entanto devem coexistir como duas instâncias separadas e independentes, uma vez que César e Deus, Deus e César jamais se confundem ou misturam. Pois o Estado deve comportar e tolerar diversas instituições credais numa perspectiva pluralista ou liberal, enquanto que a Igreja uma, em seu terreno, que é o do espírito, deve expandir-se livremente pelo mundo afora.

Não pode a Igreja servir-se do Estado a maneira de um braço secular ou apêndice, pois seu domínio é das consciências livres. 

Quem aspira por uma Murtad que vá a Torá ou ao Corão que o Evangelho repudia tudo isso. 

Ignora a Lei dos Cristãos o que seja Jihad, Djzia ou Murtad. A menos que se trate de uma Igreja islamizada ou judaizada até a médula dos ossos... ou duma Igreja apóstata.

Conhece o Evangelho porta de entrada e saída e não visa prender aqueles que não eram dos nossos, i é, os apóstatas, cujos corações não estavam voltados para a verdade.

Não tem a Igreja servos ou escravos como a sinagoga e a mesquita, apenas filhos, cuja liberdade reconhece.

A dignidade ímpar de Jesus Cristo consiste em ser adorado e servido por homens livres e conscientes animados por um intenso amor e gratidão.

Por isso o poder de atração do Senhor está na manjedoura e na cruz, emblemas de seu imenso amor por nós. A manjedoura e a cruz são tolices para os frívolos, porém para os que honestamente creem são força, poder, triunfo e glória de Deus. Tais os poderes e forças que movem as mentes e o mundo do espírito.

Sinal de fragilidade e miséria seria manter a força os que não mais creem, obrigando-os a farsa de uma adoração formal, a qual não parte da alma ou do coração. Pois a hipocrisia, o fingimento e a exterioridade de modo algum agradam ao Bom Deus.

Nada mais sacrílego do que oferecer ao Cristo uma adoração forçada!

Já quanto ao povo Cristão, para que viva submisso a Lei divina do Evangelho, basta-lhe a excomunhão. 

Ao invés de aspirar manter os heréticos no corpo da Igreja - Ao invés de deixar que partam na direção de suas seitas - o que a Cristandade deve fazer é expulsar para fora de si e lançar os incrédulos e hesitantes para fora de sí, impedindo que se sirvam dos Sacramentos. Destarte, caso amem a verdade e reconheçam o Cristo tais gentes se submeterão. Do contrário sejam tidos em conta de pagãos e publicanos. 

Tendo a excomunhão, que toca ao amor e a reverência, não carece a Igreja de tribunais ou cadafalsos. Sendo ínfame assassinar em nome de Cristo, a exemplo dos anti Cristos Torquemada e Calvino! Pois tal não é o caminho indicado por nosso Mestre e Redentor, o qual não mandou supliciar a quem quer que seja em seu santo nome, mas apenas ofertar a graça que por nós mereceu.

E esta graça não se anuncia com espadas, cordas, lançar ou varapaus mas com obras praticadas na verdade.

A verdade tem seu brilho e poder de atração. E um poder de atração superior a tudo quanto haja neste mundo. E um tal poder de atração capaz de confrontar calabouços, poços e fogueiras. Pois tem a verdade a glória de engendrar mártires - Aos quais parece boa coisa perder o mundo inteiro com todos os seus atrativos, tendo em vista conquistar o reino do espírito, ou seja, os domínios da liberdade, da dignidade, do amor, da justiça e da virtude... Isto apenas é a riqueza do espírito, enquanto que a conversão imposta ou a permanência forçada não passam de indigência.

É portanto saudável para a fé que não possa mais a Igreja entrar por mau caminho, buscando assustar e controlar seus filhos por meio de artifícios temporais. Pois tal restrição, digna e justa, fará com que a Igreja se volte para seus próprios poderes e meios, que são os do espírito. 

Retirada a cana quebrada, muleta ou bengala do poder político, terá a Igreja de apoiar-se sobre si mesma ou melhor sobre o Cristo. Investindo no anúncio destemido da verdade, no serviço fraterno, na promoção humana, no cultivo da virtude, na santa piedade... 

Somente quando tais suportes forem removidos é que a Igreja de Cristo tornará a caminhar sobre seus próprios pés. Quando cessar de ser repartição do Estado para converter-se no que é, ante sala do paraíso, vestíbulo dos céus e germe da cidade divina, e fermento celestial, e semente da imortalidade, e sol do eterno dia... Ora, todas estas realidades foram obscurecidas pela treva da estatolatria e pela politicagem conjuradas pelos integristas sem fé.

Nós afirmamos a liberdade, o secularismo e o pluralismo democrático por acreditarmos numa Igreja viva, triunfante e capaz de reconquistas, e de restaurar o mundo.

Não é de uma Igreja acomodada e enjaulada, comprometida com interesses políticos e seculares, que o mundo dos homens precisa mas de uma Igreja viva, livre e forte, cônscia e de seu poder moral, treinada para o combate do espírito, resoluta, purificada pelo sofrimento, intrépida... Somente uma Igreja assim, restituída a sua condição primitiva, será capaz de fazer frente as diversas culturas de morte, ao islã e antes de tudo ao dilúvio protestante...

A vida democrática corresponde justamente a essa arena capaz de exercitar a mãe Igreja na santidade e na virtude. O pluralismo a seu tempo corresponde a livre concorrência, elemento necessário para estimular a Igreja a conquista por meio de um proselitismo saudável e civilizado. 

Negando a vida democrática e a sociedade pluralista os integristas prestam um deserviço a fé, pois buscam submeter a Igreja a um controle político externo ou buscam submeter o Estado ao controle direto da Igreja - Estabelecendo relações igualmente equivocadas e perniciosas. Pois se não deve a Igreja, no campo que é seu, submissão ao Estado tampouco deve o Estado ser diretamente controlado pela Igreja, sendo tal controle típico da mesquita ou da sinagoga, não da Cristandade.

Nada mais digno do que uma Igreja livre numa Sociedade livre.

Pois formando eticamente os cidadãos poderá a Igreja alterar as estruturas da Sociedade segundo o espírito do Evangelho.

E o serviço da Igreja é este: Formar almas. Não dirigir impérios e humilhar imperadores mas educar e formar almas, plasmar mentalidades, moldar os espíritos.

Coisa que os integristas, muito provavelmente tão materialistas quanto os capitalistas, positivistas e comunistas, não podem compreender. Pois são como que toupeiras no mundo do espírito, e o quanto querem manter ou conservar é uma desordem espiritual avessa aos ensinamentos de Jesus Cristo.

De fato muitos deles não ocultam encarar a Igreja como simples meio com que manter o que chamam de ordem social, alias algo muito próximo do moralismo. São quase sempre uns conservadores toscos que aspiram servir-se da Mãe Igreja com o objetivo de conservar seu mundinho doentio - Bastante infectado pelo protestantismo! - e moribundo. Sinistra missão essa que ousam atribuir a Igreja de Cristo, pois nem tudo quanto há neste mundo demasiadamente protestantizado merece ser conservado, mas sem dúvida demolido até os fundamentos. Eles no entanto aspiram parar a roda do tempo, mumificar a sociedade e embalsamar a história com a ajuda do mesmo Cristianismo que segundo Gibbons promoveu a maior transformação de que temos notícia ao dar cabo do Império romano com sua escravidão e suas guerras.

Podem apontar-me algo mais revolucionário (Não em sentido comunista ou físico!) do que isto?

Pertencemos a uma Religião que, mais do que qualquer outra, alterou os destinos do mundo ao invés de conserva-lo.

E no entanto por demolir o antigo não logrou completar sua obra e construir algo não somente de novo mas de definitivo, por ter sido ela mesma atacada e contida por outras forças.

Ainda por mil anos travou a Cristandade imensos combates por um novo mundo, por um mundo mais nobre, melhor e diferente em comparação com o antigo. S Bento, S Fócio, S Francisco, S Antonio e outros são exemplos lapidares neste sentido...

Todavia após a Reforma protestante com seu individualismo e transcendentalismo cessou a Cristandade de combater por esse novo mundo, cedendo espaço ao liberalismo econômico e demais culturas de morte que o sucederam, perdendo a direção da História e seu significado universal. Para converter-se em repartição de Estado com finalidades moralizadoras ou puritanas. Nada mais abjeto para aquela Cristandade apostólica que confrontou e venceu o Império romano, curvar-se ante as veleidades de uma França, de uma Itália ou de uma Espanha, cessando de fomentar novas transformações Éticas e espirituais.

Diante disto cabe acusar o integrismo de se ter conformado com tal estado de coisas prosaico e indigno. 

Não missão do Cristianismo ser lacaio de reinos e nações mas plasmar a Civilização do futuro. Não é a vocação do Cristianismo antigo diluir-se no ecumenismo agostiniano/puritano, e protestantizar-se, e cindir-se numa multidão de seitas, e é escorar-se em alguma republiqueta obscura... Não, tal não Tal é o desígnio do nosso Cristianismo. Pois o desígnio do nosso Cristianismo é atravessar incólume a borrasca protestante, suplantar todas as culturas de morte e enfim esbater-se com o islã e vence-lo, impedindo-o de conquistar e dominar este nosso pobre mundo. Tal missão Redentora do nosso Cristianismo. E não é sendo lacaio de republiquetas e caudilhos que se preparará para desempenhar sua providencial missão.

Portanto que o Cristianismo dê suporte a civilização democrática, enquanto esta, por meio da Liberdade o exercite e depure. 



sábado, 26 de junho de 2021

Ser Racional ou Predador sem consciência?



Há dois milênios e meio, a sombra dos propileus do Hecatompedon, Sócrates, Platão e Aristóteles, especialmente este último, afirmaram um novo ideal de Homem, o Homem Racional, capaz de pensar, de refletir, de tomar decisões judiciosas e de planejar seu próprio destino.

A sombra de suas Stoas, há cerca de vinte e cinco séculos, alguns gregos conceberam um ideal harmonioso e bem ordenado em oposição ao caos. 

E antes dos albores da Era Cristã esboçaram um ideal grandioso de civilização, de que faziam parte o Canon de Polikleitos, o princípio de contradição, o Teorema de Pitágoras, Pinacotecas, Museus, Universidades - Enfim todo um universo de dourados sonhos, há muito anuviados pela bruma do passado... 

Poucos como Hume, Freud, Marx, Darwin... ousaram desconfiar da proposta grega, supondo-a falaciosa. 

De fato não somos apenas razão, tal nossa cruz e caldeirinha. 

E operam em nós outras forças, poderes e princípios que nos estão conduzindo, como espécie, ao fim.

De fato a vida racional, consciente e ética jamais passou de um projeto, do qual dependerá não somente nossa sobrevivência, caso haja tempo. Projeto grandioso, nobre, belo e excelente, porém projeto e projeto ameaçado. 

Já o sabia Aristóteles como Confúcio. Como o sabiam Buda, Sócrates, Jesus, Paulo, Basílio, e mais tarde: Mably, Morelly, Bouchez, Bloy, Berdiaeff, Maritain, etc - Os quais de um modo ou outro teceram críticas mais ou menos duras a nosso costume de acumular coisas, acumuladores que somos de riquezas inúteis, as quais não poderemos carregar para onde iremos ou levar a tumba.

Ao menos se fossemos egípcios ao modo dos que viveram antes de Cristo, poderíamos acumular para levar a tumba, onde após termos ressuscitado, viveríamos eternamente comendo, bebendo, jogando, etc 

Nós no entanto ousamos dizer que cremos no primado do espírito! Belo primado...

Não me surpreende a incoerência dos ateus e materialistas que denunciam o acúmulo exagerado de bens. Antes surpreende-me muito mais as dissertações com que uma hoste de 'cristãos' defendem este pernicioso vício que faz sangrar a natureza... Quando o Mestre de todos disse em alto em bom som: Não acumuleis tesouros neste mundo! Parte de seus seguidores no entanto não pensa outra coisa senão acumular fortuna ou enriquecer... E quando os denunciamos com o Evangelho nas mãos, principiam a gritar: Comunista! Comunista!

É o que está acontecendo exatamente agora neste país enfermo que a propósito de tudo imita a cultura podre dos Estados Unidos da América do Norte, envenenada pelo individualismo protestante.

E no entanto, apesar de reconhecermos a importância de Marx e a justeza de suas críticas a um sistema que está, efetivamente, conduzindo nossa espécie a um suicídio certo, não precisamos dele ou reconhecemos sua necessidade. Aristóteles foi mais profundo, Freud mais agudo, Scott Nearing mais coerente e nosso Jesus, ah nosso Jesus, foi bem mais insidioso ao dizer que tal como a corda não passa pelo fundo da agulha rico algum entrará em seu reino. 

Reino Comunista?

Respondendo com Paul Valery e com Julien Benda, direi: Não, reino do Espírito, reino da excelência, da beleza, da profundidade do Ser.

Tornemos a Confúcio: O que só se preocupa em comprar e vender, ou seja, em lucrar, é um ser vulgar que não entende coisa alguma.

O materialismo está muito mais no sentido rasteiro da avareza do que nas teorias sofisticadas do judeu alemão, o qual, como disseram alguns 'padres', limitou-se toma-lo ao liberalismo econômico ou ao positivismo. Marx apenas assumiu o materialismo reinante que ainda ai está e que nada tem de socrático ou de aristotélico e menos ainda de Cristão.

Torno a Aristóteles, o qual muito antes de Freud já havia enunciado a tolice que é acumular ilimitadamente num sistema que já se sabia finito, e que, fora da ficção científica ainda o é.

Uma hora chegaríamos a exaurir a mãe natureza...

Esse belo sistema, que partindo de uma falaciosa dicotomia, é apresentado como nosso melhor face ao tenebroso comunismo.

Muita treva há no Comunismo, no Nazismo, no Fascismo, no Anarquismo... Não há menos treva porém oculta por trás de um sistema que estimula ao máximo um princípio que todos os Mestres da Ética, unanimemente, apresentaram como um veneno, a avareza... Assim a beldade a que chamamos capitalismo.

Se o capitalismo é o que temos de melhor, melhor perder toda esperança de redenção, aceitar a destruição inevitável e cruel da espécie e adiantar-se a ela.

Deixe-me dizer em alto e bom som: É feio, é feio, e feio porque mais do que o comunismo, o anarquismo, o fascismo e mesmo o nazismo conduziu-nos todos as portas da destruição. 

Enquanto escrevo estas despretensiosas linhas prepara-se a ONU para editar (Em 2022) um relatório em que descreve com vivas tintas as condições a que o lindo capitalismo conduziu nosso Planeta.

Será algo semelhante a Filme de terror, em que as vítimas serão as diversas espécies de animais e vegetais que a evolução tem demorado centenas de milhões de anos para produzir, o que cognominamos 'Extinção em massa'. 

Torno a Aristóteles: Não é possível explotar ilimitadamente um sistema finito, exaure-se. 

A flora e fauna exaurem-se...

A constatação é da ONU... 

Não do PC soviético!

Face a tal estado de coisas escora-se a cultura Norte Americana no fundamentalismo protestante, instilando a baba pútrida do conspiracionismo por toda parte... Tendo ela se convertido em dilúvio no Brasil...

Para os empresários e seus fiéis escudeiros, os pastores, transformou-se a ONU em valhacouto do Comunismo...

E comunistas são José Bonifácio, Vargas, o Papa romano, etc tudo quanto não se solidariza com o liberalismo econômico ou apoia-o ativamente. 

Critica-lo então equivale a formar fileiras com Marx e Engels, como se as palavras de Jesus tivessem sido proferidas por eles, o Evangelho escrito por eles ou o sentido oposto ao que costumamos ler.

É vezo do livre exame.

Os protestantes leem o Evangelho e atribuem o sentido que querem ou o que mais lhes agrada.

E fica Jesus sendo mega empresário, banqueiro, milionário... como poderia ficar sendo até um pizza.

Pouca seriedade, respeito e sacralidade...

Enfim vozes que destoem desta mediocridade são imediatamente condenadas.

Bem, ainda que não tivesse o Capitalismo, conduzido-nos a borda do precipício, nos teria indubitavelmente - Dirá um conservador desanimado do mundo como T S Elliot, um poeta como Valery, um prosador como Hermann Hesse, etc - ao reino da vulgaridade ou aos confins dessa coisa sinistra chamada arte moderna, assim a rasteira cultura das massas.

Antes de converter-se em algoz da espécie humana foi o liberalismo econômico, como não podia deixar de ser - Por ser materialista e utilitário - algoz da excelência ou da cultura refinada.

Resta dizer que nada há de racional em acumular riquezas ou bens materiais. 

E que não passa de um impulso irracional advindo das zonas obscuras que Freud analisou.

Não sei exatamente porque Scott Nearing pôs fim a sua vida. 

Alguns dizem que suicidou-se por ter 'descoberto' em que esse impulso nefando transformou aquele ser racional idealizado pelos antigos gregos há dois mil anos e meio, e em que esta metamorfose transformou nosso planeta...

Sei no entanto que numa de suas obras relacionou a febre ou delírio consumista de que padecemos com o medo da morte. Da vida nada levamos em termos materiais, privando-nos a morte de tudo... Para negar a morte apega-mo-nos aos objetos ou as coisas, e passamos a junta-los, como se garantissem nossa permanência definitiva por aqui...

Pelo temor da morte o ter chegou a triunfar do ser. 

Combateu-se a metafísica do ser, e criou-se uma nova metafísica, uma falsa escolástica, uma outra mística - A do lucro, a do capital, a do dinheiro, a da riqueza, a da fortuna a do acúmulo.

Curioso - Caso você acumule gravatas é acumulador e neurótico ou doido, caso acumule dinheiro, como o tio Patinhas em sua Caixa forte, é são e não apenas são mas modelo de empreendedor.

Desde que deu com tal fator na gênese psicológica do acúmulo Nearing passou a cultivar na mais alta intensidade o desapego, por meio de uma vida sóbria. E como se tal não bastasse decidiu ele mesmo desfazer-se da vida, quando lhe parecesse conveniente. E a natureza colaborou, fazendo com que atingisse cem anos.

Nearing pode enfim desprender-se ou suicidar-se. Pois teve uma vida longa e digna. Havia combatido o bom combate ou semeado o bem. Havia pugnado pela Ética e se colocado ao lado da justiça. Um homem assim bem pode sair da existência quando quiser, pois pagou seu tributo a civilização ideal ou república de Santos e Filósofos.

Cada qual tem sua consciência e conhece seus límites. 

Quero morrer como o comandante daquele navio holandês que enfrentou e venceu a fúria do Kakratoa, com suas ondas de cem metros! Morrer amarrado ao Timão do Barco e resistir até a derradeira gota de sangue pelo combate da civilização ideal, da civilização Ética... Em comunhão com a fauna e com a flora... em sintonia com a mãe natureza.

Enquanto houver capitalismo tal será impossível.

Pois devorador algum pode ser sustentável.

Por outro lado se deve ser limitado ou contido, lamento, não é mais liberalismo econômico ou capitalismo. O capitalismo pleiteia total ausência de controle ou liberdade absoluta para as atividades econômicas. É xipofago do cientificismo positivista e irredutível a um controle Ético/ideal, o qual coloque sobre si e acima de si direitos inalienáveis a pessoa humana. 

Daí economicismo, cientificismo, etc e não humanismo.

Resta-nos descrever que espectro Nearing teria antevisto, ao menos segundo alguns críticos.

 Ao que parece anteviu ele justamente aquilo que o citado relatório da ONU reserva a nossos olhos e que com tão vivas tintas pintou... 

Em que nos transformou esse pecado (Pois o Evangelho e toda Tradição Cristã - Abandonada pelo Protestantismo - apresentam-no assim), o pecado da avareza? - Que é a alma do capitalismo...

A comparação é chocante...

Porém não é obra da fantasia cavoucar o homem a terra em busca de minérios abrindo-lhe uns túneis ou fístulas e furando o ventre que nos trouxe a luz...

E tampouco deixa de ser verdade que, ao menos nos grandes centros urbanos (Em que impera o capitalismo) nos movemos num ritmo que chega ser alucinante - Ocorreu-me agora o delicioso Playtime de Jacques Tati. da casa ao trabalho e do trabalho a casa ou as lojas...

E também nos nutrimos da fauna e criamos para abater, e introduzimos mudanças mais do que discutíveis nas teias alimentares ou no mundo natural. 

Bem, por tudo isto e mais um pouco (Pois há muito mais e há quem queira torturar animais em laboratórios ou caçar baleias!) Nearing tería dito a sua esposa que este mundo não passa de uma Carniça infecta ou nauseabunda e que nós, os seres racionais do estagirita e caniços pensantes de pascal, não passamos de uns vermes ou larvas a pulular sobre a carniça...

Após testemunhar pessoalmente a especulação imobiliária exercida no local em que vivo - De que resultou a quase total destruição do mundo natural! (Isto para não falar na sacrílega destruição de nossa memória representada pelo Patrimônio Histórico.) A destruição do Pantanal. O tráfico de madeiras nobres na Amazônia. O envenenamento de onças... etc, etc, etc seria temerário duvidar de Nearing...

Parece que o impulso do acúmulo - Deflagrado pelo medo da morte ou pela pobreza interior do ser. - a que chamamos avareza transformou muitos de nós ou mesmo a maioria de nós em vermes ou gusanos... Aos quais não restou pingo de alma ou espírito. A ponto de usarem o Natal e a Páscoa, com o pretexto de comprar coisas, de consumir, etc exaurindo mais e mais a mãe natureza e acelerando a destruição de tantas e tantas espécies que vieram a luz ao cabo dos séculos... A isto chamam aquecer o Mercado, uma população que se tendo tornado irracional ou mesmo louca, não cessa de se multiplicar...

Quanto aos remédios amargos de que ainda dispomos o primeiro deles corresponderia, já o dissemos, num rigoroso controle populacional em termos de limitação de natalidade. Projeto sempre sabotado pelas grandes religiões com sua sede de poder... quem conta com dezenas de milhões de adeptos ou contribuintes ou dizimista mais quer que suas ovelhas façam sexo irresponsável e se multipliquem...

Do outro remédio Nearing mesmo tomou: Trata-se de um decidido retorno a vida simples e natural, em que os objetos sejam degradáveis ou recicláveis. Não dá mais para tanta gente continuar fazendo uso de alumínio ou plástico... Há que se voltar a madeira, ao barro e outros elementos do tipo. 

Outra atitude a que a mãe natureza daria boas vindas seria o vegetarianismo ou melhor dizendo o semi vegetarianismo, em que há espaço para o consumo de mel, ovos, leite e moluscos, isto é, de quaisquer seres vivos desprovidos de sensibilidade neuronal e consciência. 

O que todavia ficaria sempre na dependência da redução da natalidade. Do contrário jamais haveria espaço para tanta plantação de cereais e árvores bem como para a conservação das florestas. Por mais que reflitamos topamos sempre com a necessidade de planejar a família e reduzir a natalidade, e isto sim deveria ser estimulado pela ONU, com a recusa de quaisquer programas de ajuda ou benefícios sociais aos países que fugissem a esta regra ditada pela necessidade.

Para que retomemos um ritmo saudável de vida, no qual cada família possa ter seu pomar, sua horta, seu quintal, seus bichos, bem como um pedaço de mata por perto é imperativo reduzir a população humana. Para que a população seja humana e viva humanamente terá de ser menor ou reduzir-se.

O que chamamos de progresso não passa de escatologia Cristã secularizada. Não nos levará ao paraíso na terra mas a destruição da terra, ao único e verdadeiro inferno que nos espera e aos mais acerbos sofrimentos numa planeta seco, sujo e sem água limpa. 

Caso seja isto que você deseja para seus filhos, netos e descendentes meus parabéns!

Sinta-se um arquiteto ou construtor do inferno.

Pois o sistema que você defende com unhas e dentes continua a estimular, através das religiões sem consciência, a propagação irresponsável da espécie, apenas para manter um exército de reserva e controlar o preço do trabalho. 

Aqui a ambição e o fanatismo associam-se para lançar mais uma pá de cal no cadáver fedorento da mãe terra...

Não. Eu nem me desespero, nem me sinto ou me assumo como um destes vermes. Pois tenho tomado por regra de vida as autênticas e fiéis lições do Evangelho, de  Sócrates, de Buda, de Confúcio, de Francisco de Assis e sobretudo deste novo Francisco de Assis que foi Scott Nearing. Pois decididamente não acredito na explotação infinita de um sistema finito, na mística furada de um progresso técnico incessante, em regras imanentes ao Mercado, em milagres ou na necessidade de uma catástrofe que facilite a segunda vinda de Jesus... O qual a meu ver impos-nos o dever de criar um mundo melhor e de lutar por isso com unhas e dentes. 

Sem compactuar com os erros do Comunismo e demais culturas de morte tampouco direi que está tudo bem ou que estamos em posse do melhor sistema social em termos de possibilidade. Não, não me conformo. Sou dos oponentes ou dos críticos os quais acreditam num tipo ideal, mais humano, mais racional e mais excelente. Sou dos que apostam em algo Ético, assim superior a ciência, a técnica e ao mercado... Em meio a tantos vermes rastejantes tento caminhar com Cristo e manter-me humano.