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segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Os problemas do anarquismo

Se, ao contrário do protestantismo, do capitalismo e do comunismo o anarquismo jamais esteve a ponto de substituir o papismo e de unificar a Europa ou o mundo, nem por isso sua origem e facetas deixam de ser interessantes.

Quem o criou...

Não se pode saber com exatidão - Pois alguns autores apontam os 'Diggers' da Revolução inglesa e outros até mesmo os 'Levellers'. Outros, em termos de continuidade apontam Godwin: Esposo de Mary Wollstonecraft, pai da segunda Mary e genro de Shelley, o qual como Paine e Benthan era democrata, politicamente liberal e miniarquista, mas de modo algum anarquista - Tal o caso dos revolucionários do século XVII: Todos no máximo republicanos exaltados ou jacobinos... Nem os diggers, nem os jacobisnos, nem Babeuff, Paine, Benthan ou qualquer outro jamais concebera o homem abstratamente como uma espécie de ilha ou numa perspectiva não social.

Quem então teria criado o anarquismo...

Atrevo-me a apontar como seu criador o luterano alemão Johann Kaspar Schmidt, de Bayreuth, mais conhecido como Max Stirner, aluno de Hegel e Feuerbach e autor da obra " O uno e sua propriedade". O qual é apontado por muitos autores como precursor do anarco capitalismo e do pós anarquismo. Curiosamente fez ele parte do clube dos livros ou dos jovens hegelianos, juntamente com Marx e Engels (A História tem dessas), merecendo inclusive uma impugnação por parte do primeiro na obra "A Ideologia alemã".

Além de ter antecipado o pós modernismo e o nihilism, Stirner, que era anti católico, anti socialista, anti comunista, anti humanista, anti democrático, etc teve ao menos a ombridade de definir-se como Egoísta, pois argumentava não apenas pela destruição do Estado ou do Macroestado mas da Sociedade ou do convívio humano. 

Esse Stirner exerceu influência decisiva sobre Spooner e Tucker, dentre outros, aqui do outro lado do Oceano e podemos traçar a linhagem até M Rothbard, M Friedman e Ayn Rand. De fato foi ele a matriz de todos os anarquismos individualistas. 

Aqui um aparte, pois embora não conheçamos detalhadamente o luteranismo de Bayreuth, podemos, por via do pietismo, conjecturar que o anarquismo Stirneriano foi, a exemplo, do capitalismo, do destino manifesto ou do nazismo (cf Georges Santayana "O Egotismo na Filosofia alemã") uma secularização da busca por uma redenção individualista, dissociada da igreja, da comunidade ou do outro.

Outro o caso do francês Pierre J Proudhon, o qual escreveu ao cabo de décadas e também é apontado por alguns como pai do anarquismo. Polímata e polígrafo da estatura de um Marx ou de um Weber leu ele toda bibliografia precedente sobre o tema das liberdades, dos direitos, do Estado e da vida política - Por isso é, o conjunto de sua obra contraditório e confusionista ou caótico, pois reflete suas revisões, correções e assunções sobre o assunto. Assim, suas obras iniciais ainda ressentem a influência de Stirner, da qual se vai desprendendo nas obras da maturidade até, já no fim da vida, resgatar as tradições comunais da França campesina. 

Em certo sentido prenunciou o primitivismo, o retorno da História, a não linearidade do progresso, etc - Pelo que mereceu ser combatido tanto pelos positivistas quanto por Marx, na "Miséria da filosofia" - Julgo todavia que J S Mill, com sua economia estacionária, teria simpatizado com ele. 

A partir daí com os nobres russos M Bakunin e P Kropotkin, toma o anarquismo outro caminho, a ponto de podermos já falar em anarquismos: O ocidental, sempre incerto e tributário de Stirner e o Oriental ou russo, de tradição comunal e portanto comunista ou socialista. 

Bakunin por sinal é quem, com sua genialidade, impõem forma definitiva a um anarquismo que podemos chamar de clássico. E o faz orbitar em torno de três pontos: O micro estado, em oposição ao macro estado; a policracia ou democracia direta, em oposição a democracia representativa ou burguesa dos anglo saxões e a miniarquia e oposição ao totalitarismo de então. Quanto a este último ponto cumpre esclarecer que ao contrário de Rousseau - Com sua vontade geral totalitária e absoluta que tudo invade. - Bakunin (Herdeiro do liberalismo inglês) situou o poder coercitivo do grupo na esfera do 'Bem comum' ou daquilo que é propriamente político, reconhecendo que os costumes, a moralidade ou a vida privada não deveria ser objeto de controle. Uma visão avançada e grandiosa, ninguém pode negar.

Aqui é Bakunin que faz retorno ou petição ao passado, retomando o ideal grego da democracia direta e sendo, em certa medida, reacionário, e não futurista inconsequente como Stirner ou Marx. Alias, sobre a 'Ditadura do proletariado' proposta por Marx e seus comunistas, declarou ele "A liberdade jamais procederá da tirania... Devendo não ser dada ao povo porém conquistada por ele."

Era esse Bakunin herdeiro da tradição Blanquista e assim da sedição ou do jacobinismo (E por aqui toca o comunismo de Marx.), noutras palavras dessa mística revolucionária intensa, legada a Lênin por G Sorel, autor das "Reflexões sobre a violência". Já Kropotkin, mantendo o legado de Tolstoi, assume um programa pacifista ou no mínimo tímido e realista face ao emprego da violência. Pelo que repudiou essa mística revolucionária em torno de uma transformação radical da cultura por meio da força. 

Ainda aqui o anarquismo soube ser bem mais refinado que o comunismo. Pois ambas as vertentes - Inclusive a de Bakunin, ao menos enquanto preparação necessária para a Revolução. - russas ou orientais buscaram investir na educação ou na formação da consciência (E por ai já se vê que não eram todos materialistas ou deterministas economicistas.) criando escolas e idealizando uma instrução alternativa e paralela a estatal. Na Espanha e na Itália chegaram inclusive a produzir uma corrente pedagógica, representada por Ferrer y Guardia. 

E no entanto tal projeto foi internamente sabotado e veio abaixo - Sendo vital para nós saber exatamente porque.

Sucedeu com o anarquismo o que já se havia sucedido com o protestantismo ou com o capitalismo. Pois em determinado momento deixou de ser mera construção social e política, para converter-se em metafísica ou mística totalizante, e invadir outros setores da existência como a Gnoseologia\Epistemologia, assumindo opiniões tão corrosivas quanto o ceticismo, o subjetivismo, o relativismo... E desembocando no pós modernismo atual - Chegando inclusive, com P Feyerabend, a querer reformular o método científico. 

Enfim os anarquistas chegaram a concluir que a razão, a racionalidade e o racionalismo eram limitações impostas pelo poder ou uma forma de dominação que também devia ser demolida e levantaram críticas similares (Estas em parte justas face a um ideário positivista que era quase sempre acrítico face ao poder.) a ciência.

O problema aqui é que toda essa história de pós modernismo, por verdade, imaginário coletivo, narrativas, etc desguarneceu a civilização e a cultura face aos ataques do fetichismo, das mitologias e dos fundamentalismos, em especial protestante e islâmico. O que tornou nossa civilização 'mal feita' vulnerável a projetos ainda mais desastrosos, com referenciais postos na Arábia do século VII d C.

Naturalmente que o anarquismo 'político' tornou-se inócuo e despovoado, subsistindo hoje apenas como um resíduo pós modernista e incomodo, tendo em vista nossa resistência as demais culturas de morte circundantes. 

Invadido, em certos setores, por um ideal de linearidade histórica ou evolutiva, e ao mesmo tempo infestado pelo irracionalismo, o anarquismo não mais consegue responder aos principais questionamentos emitidos por seus críticos.

Quero dizer que tal e qual os comunistas, os anarquistas materialistas e de tendência positivista não podem admitir que o protestantismo ou o islamismo > Formas religiosas ultrapassadas, inócuas e inofensivas (kkk) possam tomar posse do poder e ameaçar a 'sifilização' tornando-a ainda pior... 

Diante disto eles continuam - Apesar da intifada fundamentalista que assistimos em quase todo mundo. - sustentando candidamente a abolição do exército e da polícia... Organizações viciadas e indesejáveis, e no entanto, face a realidade atual: Necessárias. Do contrário quem impedirá os pastores ou os ulemás de tomarem o poder pela força e construírem suas teocracias movidas pela Tanak ou pela Sharia... A ameaça é real.

Grosso modo é este problema derivado de outro, a que os anarquistas jamais prestaram a devida atenção: Como manter a soberania do micro estado ou das pequenas aldeias indígenas (Caso obtenham independência ou autonomia política.) face as aspirações imperialistas de macro estados como os EUA... 

Alias os Comunistas da URSS também falharam por completo, apesar das sensatas advertências de um Trotsky, ao tentar manter seu sistema dentro das fronteiras, abdicando 


Conheça também os demais artigos da série 'Culturas de morte': 


  • Americanismo
  • Conservadorismo
  • Positivismo
  • Protestantismo
  • Capitalismo
  • Comunismo
  • Fascismo
  • Pós Modernismo
  • Sionismo 
  • etc







quinta-feira, 22 de julho de 2021

Minha mais recente entrevista - Extratos

Drops -

01) Economia?

Face ao mito positivista do progresso ilimitado, já denunciado por A C Grayling como secularização da escatologia Cristã, sou partidário decidido da Economia estacionária. Vivemos num sistema finito, portanto não dá mais para brincar com essa xaropada de desenvolvimento contínuo, nossos recursos são limitados e a reciclagem uma necessidade embora mesmo a reciclagem não passa de um paliativo. 

02) Anarco primitivismo?

Sim. Nesta altura do campeonato encaro com franca simpatia este ideal apontado por Nisbet como tributário do Cristianismo antigo, já por via do monaquismo beneditino, já por via do franciscanismo. Precisamos redescobrir nossa relação de dependência face ao mundo natural, restabelecer a comunhão com os demais seres e assumir uma perspectiva holística. Temos que nos redefinir como parte do ecúmeno, recriar as pontes que foram derrubadas, rever nossas necessidades e excluir o quanto não seja essencial. Enquanto vítimas de nosso próprio consumismo temos o direito de questiona-lo. 

Para mim, além de Freud, tenho por revolucionário a Scott Nearing, num nível de consciência bem mais profundo que um Blanqui, um Bakhunin, um Lênin ou um Sorel. 

Há quase cem anos foi constatado por V G Childe que a evolução social não se faz conforme o esquema linear adotado pelos marxistas 'ortodoxos' comportando crises ou recuos. Quem sabe não chegamos no momento de recusar conscientemente ou de planejar um retorno? 

Claro que não estou clamando contra o progresso científico. Creio todavia que deva este ser posto sobre bases humanas e humanistas e não sobre a falsa base da máxima lucratividade. 

Sempre que tornarmos ao consumismo irracional, ou ao consumo acelerado tornamos ao vomito. Criamos necessidades artificiais que devem ser revistas e temos de pensar que se cada um dos bilhões de seres humanos aspirarem a acumular o máximo de entidades materiais nosso planeta é que será consumido, nossa casa, nosso lar, nosso espaço.

Temos portanto de moderar o consumo e de limitar o acúmulo com o propósito de salvar o planeta e temos de faze-lo urgentemente, antes que seja demasiado tarde.

Não dá mais para tolerar os caprichos de um sistema econômico individualista, irracional e cego.

Nesse sentido é louvável sim um retorno ao campo, ao padrão agrícola, a uma economia natural, a um padrão de sobriedade... capaz de dizer: Não vou aquecer o mercado, não vou gerar emprego ou renda, não vou comprar isso, não quero aquilo, não preciso disso... Basta! Chega!

03) Tal a solução?

Não. No máximo parte dela ou, creio eu, mero paliativo.

Pois na base de nossos problemas temos um círculo monstruoso: Injustiça social, miséria e angústia a um lado e excesso de população a outro. Precisamos atacar dos dois lados, posto que a miséria parece instigar o instinto da geração. Precisamos tentar atenuar a miserabilidade crônica por meio de investimentos da área da educação, da proteção ao trabalho e da promoção humana. E precisamos, concomitantemente, tentar conter o crescimento da população mundial. Aqui Malthus se faz tão importante quanto Sócrates, Platão e Jesus. Pois qualquer crescimento mínimo quanto a densidade populacional põe em risco nossas conquistas no plano social. Puxa-se de um lado e encolhe-se do outro...

Não basta opor-se aos caprichos do liberalismo econômico, com seu exército de reserva inclusive. Não é suficiente. Pois faz-se mister implementar políticas de controle populacional a nível global, por meio de incentivos inteligentes. 

04) Crê o senhor que a solução esteja no Comunismo?

Jamais acreditei no comunismo, mas nos comunistas ou em parte deles. Cuidando que fossem humanistas e assumissem a causa humanista da justiça social. 

Sei que há comunistas e anarquistas, assim marxistas, de boa vontade e comprometidos com a Ética da pessoa. Oriundos de outros sistemas valorativos e ignorando a doutrina de Marx tem eles certo sentido humano. 

No entanto...

05)  No entanto???

No entanto por defeito essencial é o marxismo um sistema materialista, mecanicista e determinista ou como dizem entre eles etapista - O que põe tudo que é humano a perder. 

Há marxistas excelentes apesar do marxismo ou do comunismo e são os marxistas levianos ou incoerentes.

Assim que se tornam sérios i é que se põem a ler as obras de Marx e assimilar seu pensamento tornan-se os marxistas insensíveis e cruéis. Pois o ideal metafísico da Revolução acaba substituindo por completo aquele ideal de justiça social ou promoção humana acima citado.

A partir daí passam eles a condenar com inaudita ferocidade todas as formas de reformismo social (As quais tem em conta de socialismos heterodoxos ou utópicos.): Assim o ativismo parlamentar, a formação educativa da consciência... 

Pois crendo que a consciência seja absolutamente determinada pelo modo de produção, acreditam que estruturas e homens só serão modificados quando o modo de produção capitalista por transformado pela Revolução proletária. No entanto para que as condições da Revolução sejam dadas é necessário que o modo de produção capitalista se desenvolva livremente e em máximo grau. Portanto, para os comunistas fiéis a Marx, deve o capitalismo ser implantado e desenvolver-se livremente a nível mundial e não ser limitado, contido, precocemente combatido, repudiado, reformado, etc Até que o modo de produção se desenvolva em máximo grau devemos apenas observar ou ficar na expectativa, crentes de que o capitalismo trás em si mesmo, em seu organismo ou em seu bojo os gérmens de sua destruição. É dele, do capitalismo, que partirá sua ruína e a passagem para a redenção cósmica i é para o comunismo. 

É portanto o capitalismo passagem, caminho, porta ou via de acesso ao mundo futuro. Fase ou período necessário dentro daquele esquema evolutivo e linear traçado por Marx. Etapa a que não nos podemos furtar... Conter o capitalismo é conter a revolução, e ser reacionário da pior espécie possível.

Daí os maravilhosos comunistas desconfiarem já dos trabalhadores mais humildes i é dos que mais sofrem e dos camponeses, os quais costumam censurar muito frequentemente acusando de imediatismo, na medida em que se preocupam antes de tudo com seus salários e com a condição do trabalho ao invés de pensar na futura Revolução. 

E pelo mesmo motivo, surpreendem a muitos, quando se unem aos capitães da indústria e campeões do liberalismo contra os interesses dos trabalhadores e os socialistas parlamentares ou reformistas, implementando a política desumana e cruel do 'Quanto pior melhor' com o objetivo de - Pasme leitor ingênuo - impulsionar ainda mais e tornar ainda mais forte o Capitalismo. Vargas foi inimigo odioso porque sancionou leis de proteção ao trabalho que de algum modo coibiam ou continham o capitalismo. Odiaram-no os liberais, herdeiros da velha política. Mas, odiaram-no acima de tudo os comunistas para os quais o céu ou paraíso comunista dependia antes de tudo do inferno liberal. 

De fato todos os analistas marxistas, a começar pelo próprio Marx e sem seguida com Engels e Sorel, supuseram (Demonstrando o quanto eram fracos de espírito e o quanto ignoravam a dinâmica da cultura.) que o parto cósmico aconteceria na Inglaterra, na Alemanha ou nos EUA... Por outro lado não puderam prever que nos países latinos, a partir do liberalismo econômico desbragado, teríamos uma safra de ditaduras... O que foi percebido apenas pelo heterodoxo H J Laski. Surpreendentemente a tal da Revolução acabou vingando num país tão agrário quanto a Rússia, o que fugia por completo as predições e esquema etapista de Marx. Dos problemas planteados por essa estranha Revolução surgiram diversas seitas, correntes e partidos que culminaram em expurgos. Apesar da NEP e dos expurgos conheceu a mesma Revolução significativas idas e vindas, até que por fim tornou ela ao vinagre, após sete décadas de sofrimentos... Outra não foi a sorte das Revoluções Mexicana e Chinesa, igualmente implementadas em países agrários e é claro não protestantes. 

Nas sociedades protestantes, por uma questão de cultura, desenvolveram-se as forças capitalistas de produção, e se acaudalaram, e se avolumaram, e engrossaram de um modo tal sem que no entanto sequer manifestassem mínimos sinais de simples insurreição... 

Raymond Aron, após ter sido ele mesmo marxista, feito já marxólogo, decifrou por completo o enigma dessa esfinge. Portanto nada devemos esperar do Comunismo, pelo etapismo mecanicista, colaborador servil do capitalismo.

05) E quanto o anarquismo, que pensar?

Antes de tudo jamais devemos dizer anarquismo e sim anarquismoS.

Pois tal e qual o Renascimento, a Reforma protestante, o Liberalismo, a Revolução Francesa, o Socialismo (Aos quais bem cabe um S) temos diversas formas de anarquismo bem distintas. 

De fato temos basicamente dois anarquismos:

# O Oriental ou Russo de Tolstoi e Kropotkin, no qual há um elemento humano ou pessoal a par se um elemento estrutural. A partir dessa saudável corrente - Que bem poderia ser chamada de sócio anarquismo, social anarquismo ou mesmo de socialismo anarquista. - foi que parte dos anarquistas passaram a insistir bastante na educação e na formação da consciência e da cultura a par da transformação econômica e política.

# E o ocidental cujas raízes tocam a Godwin e a Stirner e que foi desenvolvido na Europa por Proudhon (Embora Proudhon possa ser classificado como pensador original ou a parte.) e Bakhunin e nos EUA por Tucker e Spooner. Ora esta última corrente embricou com o darwinismo social (Spencer) e com o liberalismo econômico (Bastiat, Molinari, Mises, Rothbard, Friedman, etc) dando origem a ideologia ANCAP, o que já diz tudo. Para nós essa corrente representa um ideal tão sinistro quanto o comunismo. E representa um desenvolvimento natural e orgânico do liberalismo econômico, na medida em que um liberalismo econômico forte tende a descartar a esfera do político sobre a qual até então se apoiará. O reverso desta ideologia é o neo liberalismo irracionalista de Hayek, rebento do velho absolutismo, por meio do qual os reis todo poderosos serviram como capachos a um liberalismo ainda frouxo e temeroso face a Igreja Romana.

Quanto ao anarquismo russo ou oriental, mesmo quando exportado para o ocidente e remodelado, reconhecemos nele diversos valores, assim a superação do materialismo grosseiro, mecanicista, fechado e etapista dos marxistas por um sadio realismo que considera a força do elemento ideal ou imaterial; assim o consequente apelo a formação da consciência, a dinâmica da cultura e a educação, assim um apreço pela estabilidade social e pela paz em maior ou menor nível, assim um vigoroso questionamento face ao mito positivista do progresso incessante, ao progresso tecnológico e ao desenvolvimento econômico, assim o consequente retorno a natureza, a retomada das questões ecológicas... Cada um desses itens corresponde a um valor a ser assumido pelo homem ético do futuro, isto se queremos de fato sobreviver como espécie. Sim, o anarquismo porta em si mesmo certos elementos que são preciosos para todos nós seres humanos. Não Bakhunin com seu pensamento tão raso quanto o de Marx e nem Sorel mas Kropotkin, Tolstoi, Thoureau, Nearing...


06) Portanto não crê no senhor no paradigma da Revolução?

Com e como Bernstein acredito na Evolução e do Evolucionarismo, embora não de maneria simplista ou linear. Não acredito noutro gatilho da cultura além da educação i é de um processo regular de transmissão e reelaboração. Tampouco acredito que um ato de força possa alterar a dinâmica cultura. E menos ainda que as estruturas econômicas um vez alteradas alterem radicalmente a cultura, embora julgue que na atual conjuntura a implementação de reformar econômicas possam beneficiar o processo educativo, bem como as estruturas políticas em termos de qualidade.

07) É o senhor contra Revolucionário?

Sou cético quanto ao sucesso das Revoluções tendo em vista as pretensões dos revolucionários, o que  não significa que seja contra revolucionário ao menos no sentido corrente ou vulgar, segundo o qual seja necessário conter as revoluções por meio da força. Sobretudo quando contam com o apoio da população ou das massas sou contra toda e qualquer tentativa de repressão. Toda tentativa de repreensão a uma Revolução feita 'a posteriori' é burra além de potencialmente cruel. Já disse a exaustão e ainda repito: A Revolução, de modo geral, deve ser contida 'a priori' i é em suas causas ou preventivamente por meio de sábias reformas sociais. Por isso falo sempre em profilaxia das Revoluções. O liberalismo econômico no entanto, sendo irracionalista e cego por natureza converte-se em motor natural de tumultos, distúrbios e revoluções.

Salvo algumas possíveis exceções tenho postulado uma neutralidade absoluta por parte dos autênticos Cristãos e dos humanistas, face a quaisquer Revoluções. Como Berdiaeff só posso encara-las como uma Penitência imposta aos Cristãos por sua escandalosa omissão e por seus pecados sociais, frutos dessa vergonhosa mancebia com o liberalismo.

08) Fascismo?

O fascismo tem uma compreensão mais realista sobre a cultura e o passado, todavia, por não saber maneja-la recorre - Exatamente como burgueses e revolucionários - ao padrão da força até chegar ao militarismo, ao autorismo e ao totalitarismo; tal sua grande miséria, chega perto da solução do problema mas não soluciona nada. Alias dependência de Sorel é manifesta: Tanto o carrasco Mussolini quanto o prisioneiro Gramsci eram leitores acríticos de Sorel e nisto iguais a Lênin. 

Para além disto a antropologia fascista é a mesma antropologia venenosa do integralismo, tributária do pessimismo agostiniano tal e qual a reforma protestante e o jansenismo, em oposição a certas correntes Dominicanas e a escola Jesuíta, o que é para lamentar-se. Devido a tal antropologia anti natural e maniqueísta (Alias abraçada por Sorel.) desconfiam eles do povo, da sociedade e consequentemente da Democracia julgando que a pessoa deva ser contida por essa igreja secularizada que é o Estado, com sua inquisição secular e autos de fé secularizados. 

Enquanto Sócrates fazia uma crítica construtiva não a democracia mas a qualidade dos democratas e a um estruturalismo formal que já se esboçava, os modernos partem para uma crítica ontológica ou essencial cujo fundamento mais remoto é esse tipo de antropologia jamais sancionada mesmo pela Igreja romana com a doutrina da graça forte ou capacitante. O que eu não consigo entender é como a Igreja romana tolera a presença de tais pessoas em seu seio ao invés de remete-las ao luteranismo, ao calvinismo ou ao jansenismo que é o lugar delas. No entanto bem conhecida é a tolerância do romanismo face ao agostinianismo, fonte de todas as nossas tragédias.

A partir de uma petição cega ao padrão da autoridade chegamos pelo militarismo a doutrina perversa da obediência cega, a qual ignorando os preceitos transcendentes da justiça, caí sob as críticas de Sócrates, Platão e Jesus. Pois pouca diferença há entre a doutrina do sacrifício patriótico e as doutrinas da Razão de Estado e da Vontade geral, uma após a outra adversárias do homem e do humano.

Todos esses vícios terríveis se acham presentes nessa cultura de morte.

09) Nazismo?

Abominação da desolação e a mais primitiva das culturas de morte.

10) Democracia?

Não é a democracia que temos a democracia que queremos e tampouco corresponde a nosso modelo grego que era direto mas a um modelo delineado na Inglaterra burguesa por J Locke. 

Temos assim uma estrutura formal bastante precária, que corresponde a um esvaziamento, restrição e perda de qualidade por parte do político, como foi observado por Arendt.

Ademais por ter surgido em tais condições e portar defeitos estruturais foi essa forma 'contemporânea' quase que de imediato cooptada pelo liberalismo economia. O que não significa que todas as formas de Estado, compreendido como forma de organização social e política, tenham tido o mesmo destino ao cabo da História. 

Agora por serem e terem sido tanto mais permeáveis ao gerenciamento econômico por parte da burguesia, foram as democracias contemporâneas denunciadas com veemência pelo anarquismo, até o iconoclasmo. 

Como os comunistas ao fim do curso ordinário das coisas postulam o fim das 'classe' sociais os anarquistas postulam o fim do Estado - Concordaríamos com eles em se tratando do fim da autoridade arbitrária ou abusiva, todavia em se tratando do fim da autoridade em si mesma somos completamente céticos. Para nós ambas as propostas não passam de propostas duvidosas quanto a um futuro incerto. Pois não conhecemos sociedades sem divisão social ou exercício da autoridade. 

Não acreditamos portanto na destruição da democracia burguesa ou formal por qualquer tipo de evento cósmico ou revolução, mas em sua transformação por dentro, a partir de reformas políticas que venham a amplia-la cada vez mais até converte-la numa democracia autêntica, popular e direta, conforme o modelo clássico. Julgamos portanto que a democracia burguesa corresponda a uma passagem institucional para a democracia direta. Claro que para não cairmos numa oclocracia ou num domínio das massas, como advertiu Ortega y Gasset, temos de secundar as reformas políticas com um maciço investimento nos domínios da Educação, assim de criar democratas para o exercício da democracia ou ainda de produzir homens e mulheres a altura das instituições. Jamais devemos dar as costas a formação e produção de consciência enquanto transformamos as estruturas, sob pena de tais transformações serem inúteis. 

11) Implica portanto uma ruptura com o formalismo/estruturalismo democrático de viés positivista?

Sem dúvida.

Impossível falar em democracia, e aqui partimos da França, sem falar em Liberalismo político, e aqui partimos da Inglaterra.

Democracia sem liberalismo político e Ética é como corpo sem espírito ou alma.

Podendo inclusive, a partir da doutrina da Vontade Geral de Rousseau, converte-se num autoritarismo disfarçado e ainda de assumir uma forma totalitária. 

Mesmo sendo direta a democracia continuará pertencendo a esfera do político e portanto a uma esfera por definição, limitada - Posto que pertencente as coisas que são comuns, em oposição ao gênero de coisas que são privadas e que se encontram fora de sua alçada.

Democracia sem liberalismo político torna-se demasiado ampla e indigesta, por ultrapassar seus próprios limites ou suas próprias fronteiras e degenerar. Portanto a primeira baliza conceitual é a do liberalismo econômico.

A segunda é a necessidade de um recheio ou conteúdo Ético portada pelos atores políticos ou pelos democratas. A democracia concede oportunidades políticas a todos. No entanto caso esses todos sejam em sua maior parte canalhas, como estrutura ou forma que é, a democracia não fará milagres. Portanto a par de manter as estruturas democráticas temos também de produzir cidadãos virtuosos ou éticos, comprometidos com princípios e valores humanistas. Sob pena de vermos nossa democracia vir abaixo. A advertência de Sócrates sempre será válida - Democracia para a aristocracia da virtude ou para que os melhores e mais excelentes tenham acesso ao poder. 

Caso não cuidemos do homem e de sua formação a democracia não nos salvará. Não nos enganemos, não nos iludamos. Melhor conhecer bem as limitações de nossa democracia para maneja-la com máxima habilidade. 

Estruturas não salvam ou salvarão a quem quer que seja, por terem de ser ocupadas por homens dignos. Em não havendo homens dignos tudo estará perdido.

12) E as 'cruzadas' ou expedições democráticas feitas pelos EUA?

Pura e simples continuação do espírito jabobino e revolucionário (Este espécie de ponte entre o primeiro modelo revolucionário, protestante, detectado por Sorel, e as revoluções contemporâneas.).

 Para nós é tal prática contraproducente. Posto que cada sociedade ou cultura deve fazer seu próprio caminho. Democracia é algo que deve partir de dentro da própria sociedade como que brotando da consciência e não algo a ser formalmente imposto por um poder externo. Alias nada mais contraditório e anti democrático que impor a democracia... O que chega a ser escandalosamente vergonhoso.

Impossível criar uma vida democrática onde não há espírito democrático. 

Alias a grande tragédia da modernidade já foi descrito por um acurado analista J M de Carvalho em termos de inversão. Na medida em que a criação das instituições e estruturas precedeu a formação do homem e a afirmação dos direitos. É isto criar umas casca ou crosta não conteúdo. 

Tanto pior quando nos EUA é o ideal democrático sordidamente usado com o objetivo de satisfazer necessidades econômicas, assim de pilhar ou parasitar outros países, o que já foi classificado como pirataria democrática. Nada mais comprometedor para o modelo democrático. Com suas agressões, ataques, invasões, etc os EUA, prestam imenso deserviço a vida e ao espírito democráticos.

13) As guerras?

São justas as guerras quando esforço de defesa contra um Estado ou uma Sociedade agressora.

Já as guerras agressivas ou de conquista são execráveis e deveriam ser rigorosamente proscritas e punidas por um tribunal internacional. 

Mesmo o emprego da violência racional e controlada por qualquer sociedade deve ser cuidadosamente ponderada de modo a se evitar possíveis excessos e abusos que porventura tornem ainda mais sofrida a condição do povo, posto que durante as situações de anomia parte dos indivíduos costumam a tirar proveito com o objetivo de praticar crimes, maldades, retaliações, vinganças, etc (Conferir D'Apchon 'O Irenophilo...' o que como disse acima deve ser evitado com máximo rigor.

O próprio Sorel reconheceu que a violência sempre pode sair do controle e o mais que fez foi conjecturar sobre um futuro incerto ou profetizar. De modo que o recurso a força ou a violência deve ser sempre o último a ser empregado, após terem sido esgotadas todas as outras possibilidades face a uma situação de injustiça e crueldade insuportável.  

Já disse, somos totalmente contra qualquer tipo de mística criada em torno da violência ou de qualquer entusiasmo face a seu emprego. É a violência semelhante a um veneno ou a uma droga que deva ser manipulada com todo cuidado e empregada meticulosamente.

14) Culturalismo?

Sem dúvida.

É a cultura que faz o homem pois o homem é prisioneiro da cultura. 

Uma visão realista de cultura considera tanto o poder da matéria ou da estrutura quanto a força do imaterial, do espírito ou das ideias. 

Julgo que tais estâncias sejam quase equivalentes. 

15) Quase...

Parece-me inquestionável  que a dimensão material exerça imensa influência sobre os seres humanos, cria possibilidades e firma condições. Parece alias que a maior parte dos seres humanos ou as massas ainda se movam apenas nesse nível.

Todavia, apesar disso, parece-me que as transformações, as rupturas, o progresso, o avanço, a mudança, a cultura, etc partam de um princípio dinâmico que é a mente, o pensamento, a criatividade, a racionalidade, a livre iniciativa... Assim ao imaterial, ideal ou espiritual, realidade que julgo ser mais forte e capaz de sobrepor-se a influência da materialidade; ao menos em alguns momentos. Momentos que correspondem as grandes transformações que marcam a História. Quando o meio oferece oportunidades ou condições é o ser humano que tira partido deles para supera-las e superar a si mesmo. 

16) Interacionismo...

Inclusive nos domínios da Educação por não ignorarmos o que é dado, e tampouco o fenômeno humano. Pois se admitimos portar um sistema operacional em termos de racionalidade e esquema de linguagem tampouco questionamos o papel do homem como sujeito do conhecimento. 


Continua -


domingo, 15 de julho de 2018

Semiologia ou Semiótica do anarquismo...

Resultado de imagem para pierre joseph proudhon








Entre o anarquismo e o comunismo há uma diferença significativa - alias há várias rsrsrsrs - no sentido de que este sempre se mostrou mais sistemático, orgânico e compreensível, desenvolvendo-se numa linha mais ou menos coerente. Marx e Engels, e especialmente este último, foram pensadores do mais alto quilate, ao menos no plano da economia (E sintetizadores no mínimo interessantes quanto no plano da Sociologia). Julgo que a nível de anarquismo apenas Kropotkin aproxime-se deles, apresentando um padrão de coerência e clareza que não encontramos num Proudhon ou num Bakunin.

Ademais, é notória e perceptível a influência venenosa da metafísica anti estatista francófona e do individualismo alemão mesmo sobre um teórico eslavo como Bakunin. Mesmo porque, segundo lemos em diversas publicações, as constatações de Bakunin não parecem ter partido de qualquer fonte russa ou eslava, mas de Proudhon e mesmo de Max Stirner, e os atuais anarquistas ou anarcóides, mesmo quando afetam socialismo, parecem não fugir a esta regra. Max Stirner parece estar nas bocas de muitos deles, o que nos conduziria a Bastiat, Rand, Rothbart e ao que chama de libertarianismo Norte Americano, e aqui já demos a volta ao parafuso, pois nos encontramos face ao adversário número um do socialismo ou da sociedade política.

Seja como for temos que Bakunin foi capaz de corrigir-se numa perspectiva cada vez mais social e de chegar ao velho conceito de democracia direta quiçá por influência da tradição Nairodinik ou populista da Rússia - forte pelos idos de 1860 - quiçá por ter tido contado com qualquer tradição Suíça relativa a democracia direta ou ao 'landsgemeine', conservada em alguns cantões Católicos. O fato é que Bakunin caso não tenha endossado, criou o que mais tarde veio a ser chamado anarquismo eslavo, de que Kropotkin foi o maior teórico. E devemos compreender que este anarquismo esta em oposição ao anarquismo de matriz francesa - derivado de mais de Voltaire do que de Rousseau - que desenvolvendo-se nos EUA e incorporando elementos de origem protestante ou alemã - via Max Stirner - deu origem ao já citado libertarianismo dos Ancap.

De um modo ou de outro os anarquistas jamais souberam manter um saudável equilíbrio em suas afirmações no sentido de apresentar - o mínimo que se esperaria deles - o capital tão opressor quanto o estado, e fazer guerra a ambos. Já em Bakunin, detectamos este discurso segundo o qual a opressão exercida pelo que chamam Estado é mais forte ou tirânica do que a exercida pelo capital ou pelo reino do dinheiro. Aqui a tese contrário, sustentada pelos marxistas, parece ser muito mais consistente e apoiada pelos fatos tomados a História.

Fato é que nossos anarquistas jamais romperam com este padrão de discurso, mais anti estatal do que anti capitalista e que ele só podia desembocar na tragédia Ancap - na qual o Estado continua sendo o vilão e o capital assume o papel de herói...

Queremos salientar antes de tudo qual o fim de tais discursos numa linha de coerência...

O anarquismo ocidental ou franco estado unidense, digamos assim, jamais negou Max Stirner, embora este - não Bakunin e menos Kropotkin - tenha negado, por primeira vez no curso da História, a Sociedade, a qual opõem a estranha noção de indivíduo isolado, quiçá tomada a J J Rousseau - que mais tarde afirmará a noção de contrato, em sua dimensão social - e que o Bakunin mais velho ou refletido, dirá ser tão falsa e inconsistente quanto a ideia de Deus (Bakunin era ateu virulento - a ponto de assustar Marx e Engels).

O anarquismo oriental, russo ou eslavo, quiçá devido, as mesmas fontes culturais que inspiraram a Nairodnaya, teve como ponto de inflexão, sua marcada consciência social, e a elaboração, como já mencionamos, pelo próprio Bakunin, de uma teoria de democracia direta bastante próxima da velha democracia grega - que girando em torno da cidade estado é municipalista - se bem que mais ampla por incluir mulheres e operários, e isto num tempo em que o sufrágio direto não passava de novidade. Isto é o que constatamos apesar das deficiências presentes no vocabulário anarquista, o qual pelas razões acima expostas, não é uniforme ou sistemático, mas sujeito a variações e o que é pior, a interpretações discordantes.

O que nos leva ao problema do significado.

Relativo ao que Bakunin e os militantes de seu tempo teriam querido dizer.

Teriam querido dizer o mesmo que Proudhon ou Stirner? Há quem sustente esta tese...

A pergunta é vital para nossos dias. Dias em que o anarquismo volta a carga ou melhor a propaganda e nos quais assume diversos discursos. Claro que nos Socialistas, que somos igualmente amigos da liberdade, queremos saber até que ponto um Stirner, um Bastiat ou uma Rand estão presentes nesse discurso, uma vez que estamos e queremos continuar distantes de um Mises, de um Fridman ou de um Hayek, com os quais parte considerável deles acaba conciliando-se nos termos finais, devido a ideia segundo a qual o capital é menos insidioso do que o estado e a dominação econômica mais leve do que a estatal.

No terreno de uma social democracia ou de uma inserção parlamentar, temos sempre de ter diante de nós as advertências de Engels, que na verdade remontam a F Lassalle e a 1860 no sentido de que nenhuma aliança ou pacto seja feito com os elementos da burguesia, ou de que levemos a cabo uma política honesta, noutras palavras éticas, sem que nossos princípios sejam sacrificados ou ideais negociados sob quaisquer alegações. Temos de adotar um padrão estrito de coerência ou, caso contrário, como Bakunin, chegaremos aos pés de Maquiavel, o ídolo da política burguesa, e isto será tido em conta de sinceridade, e até mesmo aplaudido...

A política deverá ser suja, e nós nos deveremos sujar ou poluir...

Importa que nós, socialistas honestos, não nos podemos aproximar dos que sustentam um estado mínimo. E de modo algum trabalhar junto com os que pretendem derrubar este estado 'burguês' para estabelecer uma ordem ainda mais burguesa sem a presença do estado. Os socialistas não obteriam vantagem alguma em destruir o estado político e manter a estrutura de produção capitalista, do que resultaria, creem eles uma tipo de opressão ainda mais duro.

Alias não há sequer acordo a respeito do que os anarquistas definem como Estado pelo simples fato de seu modo de se expressar ser confusionista ou inexato, favorecendo um discurso capcioso.

Tomemos o exemplo dos anarquistas brasileiros, daqueles que atuam entre nós no momento presente, i é, em 2018.

Antes de tudo constatamos, apavorados, quão poucos dentre eles estão familiarizados com os escritos de Bakunin e Kropotkin, os quais amiúde, são citados de segunda mão. Muito do que vemos nos círculos anarquistas brasileiros provém da tradição ocidental, franco estado unidense, o que confere um acento demasiado individualista as seus discursos, favorecendo não poucas vezes uma aproximação com minimalistas e Ancaps, aos quais eles, anarquistas, acreditam estar ligados pela mesma causa comum - O fim do estado ou da autoridade. Para qualquer socialista, que demanda antes de tudo por uma relativa igualdade econômica em torno de oportunidades, esta aproximação é inaceitável.

Basta dizer que em tais círculos a presença de Max Stirner não é incomum e a opinião subjacente entre eles - aqui o nó do problema - é que Bakunin e Kropotkin concordam com ele. Ora quem teve a oportunidade de ler um e outro, seja ou não anarquista, sabe que não há acordo e que os russos demandavam por algo muito mais amplo e profundo do que a mera destruição do que chamavam Estado. Afinal tanto Bakunin quanto Kropotkin, ao contrário do individualista alemão, não identificavam o ESTADO com a SOCIEDADE.

"La Sociedade es anterior al individuo y le sobrevive, como la naturaleza. La Sociedade es eterna, como la naturaleza, mas bien, nacida sobre la tierra durará tanto quanto dure nuestra tierra." M Bakunin

Diz ainda mais:

"Al margen de la sociedad, el hombre hubiera sido eternamente un animal salvaje."


O problema dos nossos anarquistas tupiniquins é justamente este: Tendo tomado M Stirner por guia identificam o Estado com a Sociedade, de modo que aniquilando o Estado nada resta além do indivíduo ou de indivíduos isolados, e portanto do caos, daquele caos previsto por Hobbes, em que homens convertem-se em lobos sanguissedentos, pelo simples fato de nada haver além deles...

Concluindo: Eles não leram uma linha de Bakunin ou de Kropotkin e não estão familiarizados com a terminologia conceitual empregada por eles, do contrário saberiam que não há acordo entre ambos e o alemão Max Stirner. Caso esta consciência sempre estivesse viva e presente entre eles jamais teriam se aproximado de alguém como Ayn Rand ou Mises.

Portanto forcejemos para compreender o que Bakunin e Kropotkin, estavam querendo dizer.

Segundo Georges Lefranc 1960 p 164 'Bakunin se pronuncia en favor de la sociedad en contra del estado.' Tornemos a Bakunin:

"Espero que la organizacion de la Sociedad y de la propriedad colectiva o social, se produzca DE ABAJO ARRIBA, por la via de LA LIVRE ASSOCIACION, Y NO DE ARRIBA ABAJO, POR MEDIO DE LA AUTORIDAD, SEA CUAL SEA."Perceba o leitor que Bakunin estabelece algumas relações que não são muito difíceis de entender. Relaciona o movimento de Baixo para Cima e portanto do povo para o 'comando' com a livre associação, a comuna, o município, uma pequena organização social. E da mesma forma relaciona o movimento de Cima para Baixo, i é um comando exercido por UM ou ALGUNS apenas, com a odiada autoridade.


Temos assim que para Bakunin o Estado corresponde ao sistema da autoridade ou do autoritarismo (ele não gaz diferença entre os dois tipos de conceito) ou de um comando exercido por um ou alguns sobre os demais. Claro que tem em mira antes de tudo a monarquia e também das diversas formas de aristocracia e certamente as democracias artificiais... tudo quanto duponha dominação.


Para ele, o inverso de Estado - com seu esquema de autoridade vertical - é a Sociedade. Na comunidade social não há comandantes e comandados ou governantes e governados porque todos os cidadãos são chamados a participar das decisões políticas que digam respeito a vida comum. Aqui o comando é de todos, e portanto horizontal. Importa saber se no esquema de Bakunin o indivíduo pode colocar-se acimada comunidade social ou das decisões comuns? O próprio Bakunin responde, sem qualquer artifício, que não. Que após a discussão e a deliberação comum, aquilo que foi decidido pela maioria converte-se em lei, demandando submissão por parte de todos os membros do grupo ou dos dissidentes, pelo simples fato de que tiveram a oportunidade de argumentar sobre seus pontos de vista e de convencer os demais. A ideia que anima este ponto de vista é bastante clara; e pode ser assim definida: Duas cabeças pensam melhor do que uma... Claro que isto pressupõem todo um trabalho educativo/formativo, Bakunin não o ignora, supõem-no. Ele crê que ao menos quanto as coisas comuns, a deliberação da maioria é sempre mais segura do que a opinião individual. Exceto, é claro quando temos massas incultas, situação que levaria o grupo a oclocracia.


Que temos de novo aqui no esquema de Bakunin - apresentando sob as vestes de Proudhon como anarquia??? Nada além da velha democracia direta ou da policracia - apenas ampliada - posta em prática nas cidades estados da Grécia antiga...


E embora Bakunin repudie o nome, continuamos tendo autoridade, a autoridade comum do grupo, em oposição ao autoritarismo, arbitrário e caprichoso, exercido por monarcas, déspotas, tiranos, senadores, falsos representantes, etc Aqui temos uma autoridade justa porque compartilhada. O que excluí como já dissemos a oposição individual dos dissidentes, o que admitido levaria o grupo a destruição. Os dissidentes, caso se mantenham, inflexíveis - é Bakunin quem o diz - são colocados fora do pacto ou da proteção oferecida pela comunidade, sendo-lhes franqueado o direito de abandona-la, exilando-se a si mesmos e formando uma comunidade a parte, conforme seus pontos de vista. Uma coisa é certa, permanecer na cidade, causado distúrbios não podem. Bakunin sabe qual seria o fim da oposição individual 'assentida' após cada deliberação e por isso desaprova-a. Sua comunidade não pode ser e não é a comunidade de indivíduos isolados porque uma tal comunidade é inexequível. A comunidade se mantém por laços comuns, o que demanda submissão a decisões comuns, as quais são legítimas quando tomadas pelo conjunto dos cidadãos.

Toda argumentação de Bakunin gira em torno disto e então - posta de lado a questão dos meios ou da social democracia - sou tão anarquista quanto ele, por subscrever 'in totum' seu ideal policrático de sociedade.

Kropotkin, como é sabido de todos, levou ainda mais adiante o princípio da legítima autoridade exercida comunitariamente por uma determinada sociedade e nada sabia a respeito da 'autonomia' de indivíduos isolados vivendo no seio da comunidade. Neste sentido político e social Bakunin e Kropotkin são verdadeiros socialistas, mormente quando no ideário de ambos a produção econômica é planejada e controlada pelo grupo social tendo em vista suas necessidades concretas e não a ambição e o lucro. Eles não situam o econômico fora do político ou do social i é como algo independente e não conferem ao mercado uma existência separada da comunidade.

Claro que aqui, os alemães de modo geral, em especial os que haviam estudado Hegel não partilhavam nem podiam partilhar das prevenções franco estado unidenses, a respeito do estado existente. E se os comunistas mostraram alguma hesitação, o Manifesto de 1848, com surpreendente lucidez, refere a busca pelo sufrágio universal como parte da luta comunista. E Engels, retomando este viés em 1895, admite que Lassalle, tomou aquele ideal e levou-o adiante, até chegar-mos a eleição de Bebel e ao programa de Gotha em 1875. E embora Marx tenha demonstrado alguma resistência na 'Crítica...' especialmente quanto ao caráter nacional do partido socialista alemão, do qual desconfiava. Seja como for, segundo sua filha Eleanor, pouco antes de morrer aderiu aquela solução, e mais ainda Engels, até morrer...

Em determinado momento os alemães, ao contrário dos anarquistas, concluíram pela estrutura neutra do estado recém cooptado pela burguesia e pela possibilidade de, através do sufrágio universal, inserir-se no parlamento e tomar posse dela, desmontando-a por dentro e transformando-a, a longo prazo, na própria 'ditadura do proletariado'. Claro que o mesmo tipo de raciocínio impõem-se no sentido de transforma-la numa policracia ampliando-a ou aprofundando-a por dentro, ao invés de buscar destrui-la por meio de golpes ou sedições. Claro que aqui já tocamos ao problema da instrumentalidade ou dos meios.

Os anarquistas mantiveram sua metafísica maniqueísta até mesmo quanto as palavras.

Esta percepção tanto mais realista já não diz respeito ao Estado enquanto forma de organização essencialmente opressora, mas a diferentes formas de organização social. Uma autoritária ou dualista na qual Estado e Sociedade/Comunidade são compreendidos como entidades distintas e sobrepostas - o que supõem um indivíduo, um grupo ou um setor comandando os demais. Nós, com Bakunin e Kropotkin avaliamos este tipo de governo como indesejável e ilegítimo. Mas há uma outra concepção segundo a qual o Estado corresponde a própria Sociedade por meio da participação direta de todos os cidadãos nas decisões comuns ou da policracia. Claro que é uma questão de termos ou nomes e que para Bakunin isto é impossível, pelo simples fato dele identificar arbitrariamente o Estado com o autoritarismo ou o comando arbitrário.

A questão aqui não é o estado mas sua relação com a sociedade.

E um repúdio a metafísica francesa anti estatal bem como a terminologia bakuninista, francamente confusão, colocaria a questão em termos de democracia direta ou policracia ou da identificação do estado com a sociedade. Neste sentido a solução elaborada pelos marxistas alemães no curso de sua História, até o fim do século XIX, parece imensamente mais rico do que a insistência furiosa de parte dos anarquistas a respeito das conjurações sucessivamente fracassadas. Claro que tudo isto conduz fatalmente a solução social democrática e que a social democracia, já advertia Engels, pode poluir a si mesma por meio de falsos acordos, pactos, negociatas, etc tornando-se vulnerável e perigosa. É coisa que se deve analisar com prudência noutro artigo.