Mostrando postagens com marcador Militares. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Militares. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 10 de outubro de 2023

O cerco contra a educação


Os primeiros esforços significativos em prol da educação no Brasil remontam a assim chamada era Vargas e foram, em sua maior parte, implementados pelo então ministro Gustavo Capanema.


Antes disso, já em 1932, foram estabelecidas as aulas de 'Canto orfeônico'.

De 1932 a 1971, i é, por quase quatro décadas ou ao cabo de quarenta anos, obtivemos amplos resultados por parte desse esforço educativo.

Desde então, 1971, principiaram os ataques, a desconstrução, o sucateamento, etc a princípio tímido, e em seguida vertiginoso e voraz - A ponto de podermos falar numa Cruzada massificadora.

De fato nos últimos cinquenta anos os esforços do poder constituído traduziram-se em massificação, com o Estado de São Paulo a frente desse processo vergonhoso.

E quero deixar bem claro que o empenho em produzir massas alienadas e acríticas é intencional e consciente. 

Desarticulado porém, partiu de diversos setores da sociedade brasileira - Cada qual com um propósito ou motivo peculiar...

Para começo de conversa quero citar os 'bondadosos' militares, endeusados por tantos e tantos imbecis - E aqui a conversa é velha pois o papo remonta a Sócrates e seus detratores Anito, Licon e Meleto. e toda a essência da Filosofia ou do pensamento crítico.

Começaram os ditadores, em 1971 (LDBN) abolindo as aulas de música e diluindo esse conteúdo no curso de arte. E desde de então, pelo espaço se meio século, não temos tido aulas de música ou formação musical de qualidade. 

Oportuno indagar sobre as causas da ascensão do pagode, do sambão (Não estou falando no Samba bahiano dos Caymmi ou dos Demônios da garoa.) e enfim do rock pauleira, do Funk e do gospel... E mais ainda dos ideólogos que se empenham em defender a estética elevada do Funk ou do pagode em suas investigações 'sociológicas' - Pobre Sociologia pessimamente normativa...

Em São Paulo a educação musical permaneceu no Currículo até cerca de 1986, quando foi cancelada pelo PMDB i é pela vanguarda democrática das Diretas já e quanto a isso podemos adiantar que neste estado ou província a nova democracia foi ainda mais insidiosa que os milicos no sentido de tornar a escola em algo absolutamente inócuo, até converte-la em mero depósito de jovens que pouco ou nada aprendem. Enfim a pá de cal lançada na Escola pública do estado de S Paulo foi o Novo ensino médio - Do golpista temeroso, e isso foi um desígnio...

A questão dos militares é que receiam quanto a formação do ser humano integral e quanto a implementação de uma cultura humanista. Como Cálicles e Trasímaco eles acreditam, quiçá honestamente, no padrão da força bruta e consequentemente da obediência cega, o que de modo algum se ajusta com a racionalidade, a capacidade reflexiva, o pensamento crítico, etc que eles encaram como ameaçador e subversivo. 

Por isso Sócrates, ao questionar os mitos, a arbitrariedade das definições - Inclusive da justiça... e tantas outras coisas tornou-se perigoso, e teve de beber cicuta. Já antes dele Pitágoras, Zenon, Anaxágoras, etc  e depois dele Aristóteles, Epicteto, etc envolveram-se em tais conflitos e levaram a pior... 

O dilema continua até os dias de hoje - Pois de modo geral policiais e militares tendem a assumir esse padrão de cultura irracionalista e autoritário, e a desconfiar dos professores e dos filósofos. 

Isso se reflete inclusive na dinâmica da violência, porquanto os autoritários e seus aliados tendem a apoiar toda sorte de abusos e excessos como perfeitamente naturais, enquanto que os cidadãos éticos e críticos encaram-nos sempre como violação de direitos.

Há no entanto outros atores sociais nesse cenário anti educativo ou deseducativo, uns e outros já representados na trama histórica do Areópago - Pois além do chefe militar ali estão, não menos firmes, o demagogo político, o fanático religioso e o capitalista, patrão ou investidor... Cada um mais ou menos delineados.

Ali, cerca de 399 a C, assassinaram Sócrates... Hoje impedem que Sócrates renasça ou 'reencarne' em cada cidadão - Pois teem medo dele e receiam da liberdade.

Outros diriam que o ódio é potencializado pelas atitudes daqueles que cultivando a autonomia, despertam a inveja e o rancor nos submissos e os submissos são rancorosos mesmo... 

Tornemos porém aos personagens - O Demagogo... Inserido no sistema democrático!

O demagogo chega a ser pior do que o déspota ou que o tirano.

Ao menos no Brasil ou em S Paulo foi e tem sido.

O demagogo concluiu que a ignorância propicia o acesso ao poder, através dos sufrágios oferecidos por toda gente massificada.

Pão e circo é seu lema e ele depende de que hajam consumidores de churrasco e cerveja - Ou cachaça... - Potenciais vendedores ou traficantes de voto. É necessário reproduzir esse tipo de pessoa ou personagem... O que só é possível fazer destruindo o que chamamos instrução, pois o fim da instrução ou da educação é produzir um cidadão consciente, que participe, que denuncie, que mobilize; e que jamais se venda ou venda seu voto.

Para que hajam corruptores ou vendedores de voto é necessário que o ensino ou a escola falhem miseravelmente e por isso o demagogo encara todo e qualquer sucesso educativo como perigoso.

Naturalmente que a imposição do voto obrigatório é um dos fatores mais tóxicos.

No entanto é absolutamente necessário que o eleitor constrangido seja perfeito idiota, porque se for consciente e tiver mínima ideia sobre a importância de militar e mobilizar, além de votar... O perigo será o mesmo.

Urge portanto converter a escola pública numa fábrica de zumbis, de palermas, de otários, de tontos, de imbecis, de idiotas, etc E lamentavelmente tal tem sido feito em âmbito institucional.

Todas as vezes que me deparo com a propaganda babosenta do PSDB na televisão e com o esforço heroico em desprender-se da Hidra bolsonarista ou da canalha anti democrática, quase me urino de tanto rir. Pois sei que essa Horda liberticida sendo composta por mentes massificadas ou vazias, alimenta-se de ignorância... Agora, quem fabricou a ignorância com que se banquetearam...

Reportemos a inditosa ou desditosa memória do governador PSDBesta Mário Covas... O mesmo governante que desmantelou o investimento mais do que secular, de nossas Ferrovias públicas, que acabaram sucateadas - Do que resultou a tirania dos caminhoneiros, a rede dos pedágios, o aumento do custo dos alimentos e de tantos outros produtos, etc 

Mário Covas fez algo muito pior e superou a si mesmo ao desmontar as bem estruturadas escolas padrão do estado de S Paulo, outro investimento de cinco anos destinado a recuperar a qualidade das escolas deste estado. As salas ambiente foram desfeitas, os laboratórios desativados e todo aquele material disperso, uma calamidade. Era o ano de 1995. 

Ali o militar, aqui o demagogo... produtor da oclocracia.

Dois adversários implacáveis do ensino ou da escola pública de qualidade.

Não os únicos - Pois temos ainda o Mercado, os patrões ou os investidores, os quais atacam a escola por motivos de diversa monta. Os patrões, a exemplo dos milicos, desejam que seus servidores, os operários, sejam totalmente submissos ou dedicados. Querem que se dediquem ou consagrem a uma causa que não é deles > O enriquecimento alheio a custa do lucro. Quanto mais idiota ou estúpido for o operário melhor: Bom que saiba ler, soletrar, calcular, puxar umas alavancas, etc Importa que ele jamais questione a realidade que lhe é dada ou imposta... Um operário demasiado crítico ou questionador jamais é bem visto, pois poderia recusar a ser o que é ou a contentar-se com o pouco que tem, chegando inclusive a fazer greve, o 'pecado original' dos proletários.

Tal a perspectiva dos patrões... Que temem a escolarização ou a produção de cidadãos conscientes.

Há no entanto algo ainda mais soturno nesse setor do liberalismo econômico.

Tais os potenciais investidores, com suas reservas e o desejo de investigar em alguma coisa.

Agora não basta que tal coisa seja monetarizada ou precificável... Deve ser algo lucrativo, logo algo privado. 

É o ideal funesto das privatizações ou da tal desestatização, o qual deve ser bastante ponderado a luz da História. Pois quando nossos ilustres ancestrais, atacaram a ferro e fogo, com ferocidade e violência, a Igreja antiga, o objetivo foi sequestrar uma série de serviços, como a saúde e a educação, com o intuito de que, desvinculados da fé, se tornassem acessíveis a todos os homens e mulheres. Os ideais norteadores, ao menos da maioria dos teóricos, parece ter sido melhorar a acessibilidade e a qualidade de tais serviços, no caso gerenciados por um Estado (Como parte do que chamamos bem comum.) mais ou menos democrático.

Paulatinamente a ideia, até certo ponto saudável, de concorrência, introduziu a iniciativa privada em quase todos esses setores. Desde então apareceu e tomou corpo, toda uma rede de serviços privados, no acesso dos que pudessem pagar e fora do acesso dos que não podem arcar com os custos. Isso em nada prejudicou o atendimento dessa clientela, incapaz de pagar, pois sempre puderam recorrer aos serviço público e gratuito. 

E as redes de serviço pública e privada floresciam lado a lado, a primeira mantida pelo Estado (A custo de impostos.) tendo em vista a clientela mais simples ou humilde, composta por sinal, pela grande maioria dos trabalhadores pertencentes ao setor privado. 

Até que cerca de 1989, por meio do Consenso de Washington, os EUA, visando fortalecer seu poderio ou império financeiro, impuseram aos países Latino Americanos uma série de medidas inspiradas no modelo capitalista - Dentre as medidas preconizadas estavam o assim chamado controle fiscal, compreendido como teto de gastos e redução de investimentos em áreas não consideradas como essenciais, o que atingiu de cheio inúmeros programas sociais. 

Num primeiro momento Educação e Saúde foram excetuadas, agora a tendência - Vigente no governo Bolsonaro. - é incorpora-las, expondo os mais vulneráveis a morte e a indignidade inclusive, como assistimos durante a epidemia de Covid. O resultado desse tipo de política economicista, desumana e cruel foi suficientemente exposto nos documentários de Michael Moore como Sicko ou SOS saúde. 

Em seguida vinha a cereja do bolo i é as Privatizações ou desestatizações i é a passagem dos serviços públicos e gratuitos, tomados a Igreja pelos jacobinos, ao setor privado ou ao Mercado, com a necessária monetarização... Sem que subsista qualquer nicho público e gratuito a que os mais humildes possam recorrer, donde resultam - Por pressão econômica em situação de doença ou impossibilidade. - uma série de abusos repelentes como empréstimos a juros exorbitantes, hipotecas, etc E no final do túnel quem lucra, a custa da dor e do sofrimentos alheio, são as grandes instituições financeiras. E aqui, não nos enganemos, por meio de tais medidas (Como a bela desestatização.), os interesses individuais (O lucro ou ganho) sobrepõem-se ao ideal precipuamente ético e político de BEM COMUM, o qual sai de cena... Tal e qual a fé religiosa, como relíquia do passado.

Tolerável que haja alguma privatização em alguns setores periféricos, sempre calculada, dirigida e fiscalizada. Outro o caso dessa mística da privatização que aspira devorar a Educação e a Saúde, direitos primários e essenciais de todos os cidadãos brasileiros senão de todos os seres humanos. Do contrário porque tirar os serviços essenciais a Igreja velha... Para passar as mãos dos particulares ou de indivíduos ambiciosos, movidos por interesses meramente financeiros... Caso tenha sido essa a intencionalidade reconheçamos com o Mestre Garrett, que cometemos um erro fatal. Então temos que evitar o abismo e manter a todo custo o serviço público, de caráter universal, aberto e gratuito> O SUS e a escola pública, principal alvo do desmantelamento.

Não nos enganemos. 

Não nos iludamos.

Não nos enredemos.

É necessário remover a qualidade da Escola pública ou impedir que seja eficiente para que se possa argumentar a favor da gestão privada. E isso é intencional.

Políticos há, postados a favor do grande capital e do capital estrangeiro ou estado unidense, que sabotam a educação e a saúde públicas. Aspiram desmonta-las com o objetivo final de vender ou leiloar em hasta pública a quem mais oferecer... E esperam colocar toda essa grana nos bolsos, pois são vendilhões...

Pugnam os interesses privados contra a qualidade da Escola pública - Pois há milionários ou afortunados que desejam converter hospitais e escolas em empresas, querem investir, dizem eles. Desconfio que queiram lucrar... Saúde e Educação até podem ser economicamente exploradas, desde que haja um espaço reservado para o poder público - Ao que se opõem o Consenso de Washington com a ideologia da desestatização, alias em grau absoluto ou com abertura para o que chamam capital internacional > E o ideal aqui é que as empresas Norte Americanas comprem todas essas estruturas a preço de bananas com o propósito extrair imensas fortunas, transferidas em parte para a grande República anglo saxã. 

De comboio no controle fiscal, na privatização e na abertura ao poder econômico imperialista ou estrangeiro; temos ainda a proposta de uma Reforma fiscal destinada a desonerar os mais ricos - E consequentemente de desamparar o Estado ético ou humanista de Bem estar social (Bem comum) e por fim a desregularização do mundo do Trabalho i é um decidido retorno a maravilhosa Inglaterra liberal anterior a 1870. Eis todo o pacote de malignidades, etiquetadas com os rótulos de econômicas.

Após o Militar, o Demagogo e o Capitalista ou Patrão tem a escola e quiçá o Hospital, um outro grande inimigo. Não o homem ou a mulher religiosos, que cultivam uma espiritualidade qualquer. Nem, julgo eu, o rabino, o bonzo, o médium ou mesmo o padre romano. Porém o pastor protestante, fundamentalista, bíblico, sectário, etc nos exatos moldes do 'made in EUA' - Não menos que o Ulemá sunita > É o mesmo espírito tacanho e farinha do mesmo saco...

Charlatães, cobram por curas pseudo miraculosas que de modo algum realizaram, e depreciam os verdadeiros heróis: Médicos, enfermeiros, etc assim tratamentos, hospitais, etc E já foi dito que se existissem curas divinas ou miraculosas, a sra economia nos mandaria investir em pastores ou pagar dízimos... 

Tanto pior o caso das Escolas, da instrução, da formação racional, do pensamento crítico, etc 

Basta lembrar o processo do macaco, nos EUA, sofrido pelo heroico prof Th Scopes. 

Tanto a presença de primitivos mitos no Antigo testamento quanto a crença continuísta na existência de milagres no tempo presente - E portanto um éthos mágico fetichista. - fazem com que os pastores sejam os mais denodados amigos da ignorância e adversários do pensamento reflexivo.

Não podendo dominar e usar a escola numa perspectiva confessional o pastor aposta em sua perda de qualidade. É outro personagem que, como o militar e o demagogo, aposta na ignorância humana, na imbecilidade e na massificação para tirar proveito próprio. Talvez, mais do que todos os outros o pastor dependa da falência da escola ou do sistema educacional.

Outro aspecto danoso a ser considerado com relação a este último personagem é o moralismo (A simples moralidade mecânico formal.) ou o puritanismo em oposição ao pluralismo escolar e o consequente liberalismo moral que tanto exaspera os bíblicos. Para eles a escola pública e laicista é uma aberração por não aderir a moralidade tosca do pentateuco ou mesmo os preconceitos legados pelo paulinismo. O fanático não sabe conviver com a liberdade e aquele todo aquele que escapa ao sistema de opressão do qual ele faz parte converte-se numa ameaça, ou, como dizem num mau exemplo - Daí desejar ele o insucesso da escola. 

Eis porque jamais houve medida destinada a sucatear a educação pública ou a prejudica-la que não contasse com o decidido apoio da sinistra Bancada Evangélica. 


Continua





quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Algumas considerações sobre o declínio da República romana e a 'Pax augusteana'

Embora Montesquieau, Gibbon, Sismondi, Ferrero, Villa e tantos outros tenham buscado analisar e compreender a queda do Império romano, compreendida como seu progressivo colapso de Comodo (190) a tomada da cidade por Alarico, os teóricos renascentistas, por identificarem-se com a forma republicana - vigente nas cidades do Regnum Italicum desde 1085 - concentravam suas inteligências buscando compreender o declínio da República e a retomada da forma monárquica sob Júlio César.

Maquiavel, num golpe de gênio, intuiu que para compreender o que estava sucedendo as repúblicas italianas de seu tempo ou a sua idolatrada Florença, devia voltar-se para o passado e estudar o declínio da República romana, buscando suas causas. E no final do 'Discorsi' (1525? - Maquiavel com objetivos oportunistas costumava alterar as datas de suas obras) acaba por abraçar a tese polibiana - ora Spengleriana - em torno dos ciclos de civilização. Segundo a qual, ao modo dos homens, as civilizações nascem, crescem, enfermam e morrem.

Já nos referimos diversas vezes a esta construção. No entanto, como repetir é a um tempo ensinar e fixar ou reaprender: Todas as cidades eram governadas por príncipes, as vezes eletivos ou mesmo provisórios. Num determinado momento tais príncipes fizeram-se hereditários e a hereditariedade, naturalmente, descambou em tirania ou despotismo. Desde então principiaram a conspirar os aristocratas, até que efetivamente tomam o poder. Passadas algumas gerações converte-se a aristocracia numa oligarquia opressora. O povo no entanto, por ter retido na memória a felonia dos nobres ou optimates, derruba a oligarquia e converte-a em democracia ou governo popular, o qual não tarde em degenerar, transformando-se em oclocracia, demagogia ou anarquia... condições em que a monarquia é restaurada. Iniciando-se um novo ciclo.

Antecipando uma possível pergunta sobre a melhor solução possível quanto a retardar este processo degenerativo e prolongar a estabilidade, a sugestão, aprimorada por Aristóteles, encontra-se no Diálogo platônico 'As leis' e consiste no afamado governo misto ou republicanista. O qual o filósofo com suma prudência declara ser o melhor de todos. Implica ele fugir as formas puras e misturar monarquia, aristocracia e democracia. E já se divisa uma espécie de poder moderador inserido numa estrutura bi cameral. O rei, cônsul ou presidente - eleito periódica ou vitaliciamente - encarna o princípio monárquico, o pequeno senado a forma aristocrática e o grande conselho de cidadãos ou o comício a forma democrática e já se vê que temos diante de nós a Constituição da República romana, ainda mais favorecida por instrumentos como o plebiscito e o referendo, além do tribunato.

Satisfeita a possível pergunta devo tornar a desilusão maquiavélica e a petição que faz ele em torno da História para advertir que Guicciardini, seu jovem amigo e antagonista intelectual, antecipa as críticas de um Dilthey, de um Winbeldand, de um Eucken ou de um Marrou em torno de um processo histórico mecanicista, estrutural, rígido, formal, inelutável e absolutamente previsível quando não determinista. Sem negar que haja um ciclo civilizacional inelutável, Guicciardini insiste que certos atos ou fatos, quer repercutem nesse quadro, procedem do acaso ou da ação livre dos homem, não podendo ser compreendidos como resultantes de uma Lei fixa e rígida. Dentro deste quadro há considerável variação ou diversidade.

Em certo sentido Guicciardini - perdoem o anacronismo - parece insinuar o paradigma da compreensibilidade, tendo em vista a ação de elementos estocásticos ou humanos que fogem a rigidez monolítica da Estrutura. E antecipar a noção de tendências predominantes, face a noção de Leis imutáveis.

Agora tornando a república romana, sendo provida duma estrutura tão arrojada e eficaz, por que teria colapsado?

Autores de diversa lavra e separados por séculos uns dos outros - assim Bruneto Latini, Mussato, Salomonio... e mais próximos a nós: Polanyi, Arendt e mesmo Durkheim - referem-se a avareza, a busca pela riqueza privada, o aumento da desigualdade social, enfim, algo em torno das finanças ou da economia.

Para Durkheim as relações financeiras ou econômicas tendem a isolar socialmente os homens ou a afasta-los. Arendt gasta farta quantidade de papel e tinta com o objetivo de demonstrar que a expansão da esfera do econômico ou privado ocorreu as custas da diminuição da esfera do político ou público com a consequente perda de qualidade. Para Polanyi o economicismo contemporâneo destruiu os laços de solidariedade existentes nas culturas antigas e primitivas. John Gray, Roger Scruton e Russell Kirk tiveram de admitir, de bom grado ou a contra gosto que o liberalismo econômico punga contra o sentido comunitária presente nas culturas e civilizações tradicionais, o que por sinal já havia sido demonstrado fartamente por R Guénon.

No que diz respeito a Roma e o eclipse das virtudes republicanas a questão da concentração da riqueza por particulares, do luxo e da suntuosidade já havia sido apontada por mestres clássicos como Salústio e Juvenal, a quem seguiram Latini, Mussato, Salomonio, etc Alias, esta sugestão já havia sido desenvolvida por Agostinho e enfim por Ibn Khaldun num sentido que faz lembrar a Sócrates. Mesmo porque as civilizações antigas eram basicamente militares.

De fato os romanos assomam a História como um povo agro pastoril, cujos hábitos eram frugais, sóbrios ou quase ascéticos, e que por isso mesmo, ameaçados a um lado pelos poderosos e refinados Etruscos - que lhes impuseram a realeza até 509 a C - e a outro por oscos, samnitas, etc tornaram-se belicosos. O ambiente político da Itália, sua instabilidade e insegurança, definiu as qualidades militares dos antigos romanos.  E estes jamais cessaram de expandir-se pela península até domina-la.

E assim correram as coisas até as guerras púnicas ou ao menos até 146. 146 é uma data chave na História da civilização romana. Pois foi neste ano de Cipião, vencendo Anibal em Zama, conquistou e destruiu Cartago. Enquanto L Múmio destruia a soberba Corinto e conquistava a Grécia. Desde então escravos e riquezas inimagináveis afluíram a Roma e ela jamais foi a mesma. Pois como diria o já citado Juvenal, os romanos entrando em contato com outros, povos 'mais avançados' se deixaram conquistar pelos hábitos deles. Abandonando a frugalidade ancestral do mingau e das azeitonas, e tornando-se ainda mais ambiciosos.

No entanto eles ainda aspiravam por lutar e por conquistar as joias da coroa, assim a Síria e o Egito, antigos principados helenísticos e as nações mais ricas da terra, com exceção talvez da longínqua Índia... E de fato vieram a conquistar a Síria em 63 sob Pompeu Magno e o Egito em 31, após Augusto ter vencido Marco Antonio - em Accium - e fechado o circuíto do Mar mediterrâneo, agora 'Mare nostrum' ou lado privado dos latinos.

Agora consideremos as consequências de tudo isto.

Se já era difícil congregar o povo em comícios para decidir a respeito da cidade ou da Península como governar um Império gigantesco recorrendo ao povo e em tese a um povo romano espalhado por todo este Império? Se Salutati, Bruni, Patrizi e muitos outros referiam amiúde ao desafio que era congregar o povo de Florença, que dizer dos cidadãos do Império romano? A estrutura do macro estado associada a precariedade dos meios de transporte e comunicação, tornou o exercício do poder popular impensável. Sartori redefiniu nossa situação nos mesmos termos em meados do século XX. Mas estamos falando do século I a C... Sendo assim temos de admitir que um governo centralizado condizia melhor situação geográfica ou espacial do Império. Mesmo os atenienses do século V a C ou os humanistas italianos do trezentos ou do quatrocentos admitiriam a distinção... Diante disto que sacrificar? O Macro estado ou as formas democráticas?

Outra consequência - a somar-se com a econômica e com a política - é de origem militar. Mais conquistas e escravos demandavam mais guerras e mais guerras demandavam maior efetivo militar. Nos últimos cem anos da República foi Roma uma nação em campanha... E como sabemos o éthos militar - cf Nisbet - nada tem de democrático. Os Filósofos gregos e os primeiros Cristãos sabiam-no muito bem... Uma situação de conflito prolongado numa dimensão democrática não tarda a engendrar duplicidade. Por isso que das Revoluções procedem regimes autoritários (Nisbet). Tal o caso de Roma, desde o momento em que prolongou o comando dos ditadores. A partir de então alguns generais passaram a conviver por anos a fio com as mesmas tropas, a ponto destas converterem-se em clientes, lacaios ou cabos eleitorais seus. Não é por acaso que Caio Mario e Sila tiveram exércitos seus, com fidelidade jurada. E servindo-se deles puderam subverter a república, a este tempo convertida em aristocracia de poltrões senatoriais, com exclusão do povo. Por isto Sila ao penetrar o recinto da cúria com suas tropas acusa os senadores de covardia e declara que o povo nem os amava nem choraria ou lutaria por eles.

Júlio César com seus dedicados veteranos esta apto para colher o fruto maduro i é o poder Imperial, restabelecendo a monarquia.

Pois as elites estavam completamente corrompidas pelo luxo ou amolecidas.

Enquanto o povo, antes aguerrido, temos em Juvenal, passou a ser controlado pela política do 'panem et circenses'. Desde as vésperas da conquista de Cartago, pugnavam os plebeus - a gente comum - por um parte mais significativa no 'butim' ou saque que os romanos levavam aos povos vizinhos. Assim, no ano 123, sob Caio Graco, obtiveram a suprema igualdade e a redução do preço do trigo. E desde 59 pela lei Clódia, passam a ser alimentados pelo Estado, com a distribuição de rações de trigo. Desde então o Senado se sente completamente seguro. Pois o povo se acalma por completo, e abandona a arena da política.

Garantidos alguns diretos básicos e o alimento quotidiano acomodou-se a plebe.

Desde então puderam os líderes militares mais espertos, com a ajuda de suas tropas, exercer o poder sem quaisquer objeções.

Augusto foi um homem esperto, que soube colher os frutos semeados por seu tio, e em comunhão com a elite militar, completar as ansiadas conquistas e exercer um poder discreto. Foi o homem de seu tempo. Pois o declínio da República, iniciado por Mário e Sila, antecipou o caos que haveria de ser o século III d C, o qual teria antecipado o fim do Império. Prolongando-se indefinidamente o conflito entre os generais pelo comando supremo do Império. Os próprios militares do tempo de Augusto devem ter dado conta disto. No entanto nem o povo nem o senado estavam dispostos a lutar pelas antigas liberdades. Como as barrigas e os cofres estavam cheios tudo quanto eles queriam era paz e sossego ou estabilidade para gozar a vida. E como ninguém mais estivesse disposto a combater, os militares, juntamente com Augusto puderam assumir o poder, mantendo, ao menos em princípio as aparências.

A República havia declinado, indubitavelmente, mas não o poder romano. Pois por duzentos anos manteve-se o Império e até conquistou, em que pese a derrota de Teutberga, sob Varus. Ao menos até Cômodo, foi o Império um período de estabilidade e assim de recuperação, após o ocaso vergonhoso da República. Claro que não podemos compara-lo com os tempos dos Mânlios, dos Camilos ou dos Cipiões... No entanto após Mario, Cina, Sila, César, Crasso, Pompeu, Brutus e Cássio foi ele um refrigério.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

As formas de alienação periférica

Resultado de imagem para alienação




A pedido elaborarei um breve artigo sobre as formas de alienação periférica, principiando pela distinção entre as formas de alienação:

  • Alienação periférica é a que busca ocultar, manipular ou distorcer a realidade
  • Alienação ideal ou essencial é a que busca ocultar as verdadeiras causas dos problemas encontrados na realidade.

Quanto as principais formas de alienação periférica podemos citar:

  1. O isolamento espacial. Tal a forma de alienação escolhida pelo poder com o objetivo de cooptar os oficiais do exército, criando vilas militares ou mantendo-os aquartelados em condições totalmente diferentes daqueles que vigoram no âmbito da Sociedade civil ou oferecendo-lhes um modelo que funciona e fazendo com que acreditem que este modelo é comum a todo pais e portanto que todos os civis vivem maravilhosamente bem e que os descontentes certamente não passam de criminosos ou desajustados. Caso tenhamos em vista que autênticas dinastias de oficiais são criados e educados neste realidade artificial intencionalmente criada fica fácil perceber porque costumam ser essencialmente conservadores, afinal não pode aspirar mudar aquilo que funciona tão bem e tendem a conceber e julgar o mundo a partir da realidade em que vivem. Por isso os militares de até meio século atrás antes de serem 'vilões' constituiam um bando de alienados produzidos pelo Estado segundo suas necessidade de controle formando um eficiente aparelho repressor.
  2. A realidade artificial. Referi-mo-nos aqui não apenas a realidade mas a própria cultura produzida e imposta pelos meios de comunicação de massa diretamente controlados, no caso do Brasil, pela alma burguesia. Nada diferente do 'pão e circo' ou pão e espetáculo dos antigos romanos. Entre nós particularmente, a seleção e manipulação de informações associada a produção de necessidades artificiais atingiu um tal nível de refinamento que sequer precisamos distribuir gêneros - pão, carne, vinho e mudas de roupas - como entre os antigos romanos. Nossos cidadãos deixam-se hipnotizar por simples ideias ou teorias como uma galinha diante de um risco. Queremos que haja inimizade ou ódio entre nós e os argentinos, introduzimos este ódio cego no futebol e os Norte americanos agradecem... Queremos afastar as massas dos Cristianismos Católicos devido a sua consciência social mais acurada e aproxima-los do protestantismo com seu conteúdo individualista, apresentamos uma versão unilateral de Inquisição e ninguém se dará ao trabalho de questionar, passando o protestantismo por santo, apesar de todas as suas atrocidades... Queremos paralisar a reflexão política e social ou qualquer outra movimentação que nos esteja incomodando ai vem o carnaval com moças negras de periferia arreganhadas e a goles de muita cerveja... Queremos promover a visão ingênua de que o trabalho honesto a base de salário enriquece, colocamos este conteúdo da novela da Globo... Queremos fazer o povo idiota acreditar que a falta dágua no estado de S Paulo corresponde a um castigo enviado por um deus irritado devido aos nuances da vida sexual contemporânea colocamos o Malafaia ou o Feliciano sob os holofotes. Queremos evitar que o povo questione o sistema pela crise econômica colocamos na telinha um filme qualquer contra os russos (URSS) ou com mensagens subliminares... Ao invés de ensinar a juventude a encarar a sexualidade de modo natural permitimos que mídia dela se aproprie e a venda como único objetivo da vida... Quando estamos dispostos a nos inserir, a militar e e exercer a cidadania a mídia nos bombardeia com o tema da corrupção até produzir a mais intensa angústia... Preciso continuar insistindo para demonstrar que a mídia esta sempre a postos no sentido de selecionar seus conteúdos tendo em vista determinada necessidade calculada em termos de intencionalidade. Noutras palavras esta sempre buscando produzir reações favoráveis ao sistema, blinda-lo, protege-lo, etc A ideia aqui é que apenas um conteúdo especifico concentre a atenção das massas fazendo com que esqueçam-se de todo o resto.


    Resultado de imagem para alienação


Continue acompanhando esta série de artigos sobre as formas de alienação ideais e a fuga e nossos demais ensaios neste Blog e caso encontre sentido neles ou aprecie-os faça a gentileza de matricular-se entre nossos seguidores e de recomenda-lo a seus amigos, colegas e alunos. Toda colaboração e crítica ponderadas são bem vindas!