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terça-feira, 2 de maio de 2017

A 'Sonia' de Crime e castigo...

Ao ler ou reler uma obra como 'Crime e castigo' - A qual bem poderia der relida, 'trilida', e lida novamente, ao cabo da vida - se nos apresentam tantas e tantas impressões...









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Quando pergunto a mim mesmo sobre a personagem predita - Não a mais interessante e sim a predileta, pois são perspectivas diferentes - me vejo pensando em Nastasia, a serviçal dedicada e a única que se importava com Raskolnikoff.

Nastasia
certamente salvou-o de morrer a mingua.

Nastasia parece ser a única a preocupar-se com ele.

Nastasia. Sempre a imagino com aquela xícara de chá ou com o prato de caldo.

Agora que moverá esta esquálida rapariga?

Talvez a religiosidade sincera posta para o serviço fraterno, dirão alguns.

Bem pode ser.

Eu no entanto, sem ser nada romântico, pressinto aqui um amor de moça e amor que envolvido pela timidez jamais se declara ou manifesta.

Estou persuadido de que Nastasia ama Raskolnikoff mas guarda seu amor para si. Sem jamais ter coragem de dizer...

Se estou certo e assim o é - Pois é como o caso da Capitu e do Bentinho, e de todas as coisas incertas - temos mais um drama oculto no grande drama. E Dostoevsky é justamente uma sucessão interminável de íntimos dramas vivenciados pelos mortais. A ponto de se poder dizer com o Buda, que tudo é dor...

Todavia se Nastasia ama é Sonia, que sem nada fazer, obtém o coração do mancebo.

E quando dizemos que Sonia nada faz queremos dizer que muito sofre e que também ela vive seu drama, e que drama...

E é por muito sofrer que ganha o coração do jovem.

Mas quem é Sonia?

Filha de Marmelodoff e órfã de mãe, Sônia é uma adolescente miseravelmente pobre ou paupérrima que se vê na contingência de prostituir-se para sustentar uma madrasta tísica e seus três filhos pequeninos.

Sacrifica assim sua virgindade, reputação e honra com o intuito de minorar o sofrimento alheio e com o dinheiro que obtém por meio das relações ilícitas mata a fome dos pequeninos, da pobre mulher e do pai. Chegando inclusive a dar dinheiro para que este se embriagasse.

Não se trata todavia de personagem vulgar ou insensível...

Filha da época, Sônia trás em si os preconceitos do tempo, e portanto um imenso complexo de culpa entesourado no fundo do coração.

Não ela mesma parece não desfrutar do prazer que comercializa ou tirar proveiro sensível do deleite oferecido. Dir-se-ia que não goza ou que não se permite atingir o orgasmo... Justamente por acreditar que comete um terrível pecado.

Culta, sensível, finamente educada, segundo os preconceitos do tempo; mimosa e doce, Sônia pode ser considerada pura quanto a alma porque se nega ao prazer ou melhor dizendo, porque prostituir-se é uma tortura para ela. Imagine uma mulher que se faz tábua e se deixa estuprar a contragosto, apenas para obter dinheiro. Esta é Sonia e sua desventura não é menor do que a de uma mulher estuprada! E no entanto se não se deixa estuprar e não se vende...

O drama terrível desta personagem consiste justamente em deixar-se poluir ou profanar apenas para obter alguns cobres.

Outra qualquer em seu lugar, como sugere Raskolnikoff teria se lançado ao Neva ou feito suspender-se numa corda. Sônia no entanto, sequer pode cogitar em acabar com a própria vida e, quem sabe, fugindo a vergonha obter a tão cobiçada paz... Mesmo a alternativa da solução final lhe é negada. Pois sem ela, eles viriam a morrer de fome...

O amor impede-a de suicidar-se e obriga-a a viver envolvida pelo lodo até o pescoço. A abnegação impele-a a poluir-se e a profanar-se quotidianamente.

E nem pode suportar a ideia de que morta, a 'irmã' mais nova Polenka tenha de esbater a mesma senda e viver o mesmo drama. A simples ideia de morrer e ser 'substituída' pela pequenina é o quanto basta para aterroriza-la.

Impedida de suicidar-se é obrigada a arrastar-se por uma vida tormentosa, a engolir a própria dignidade, a humilhar-se, a baixar a cabeça, a ser insultada, vilipendiada, malbaratada...

E sendo prostituta sem querer ser, toma, a semelhança do Cristo, o caminho de um calvário a cujo topo ou fim jamais chega. Sua existência insuportável por ser definida como um aproximar-se da cruz sem jamais atingi-la... É uma agonia, um suplício sem sim.

O mundo no entanto não esta nem ai para seu drama...

E passa a seus olhos como miserável prostituta, criatura repugnante e odiosa, filha da luxúria e da devassidão. Embora sua alma seja tão casta - Senão mais - quanto a de uma freira...

Mas que é a alma? Que é a mente? Que é a consciência? Que é a intenção? Para a Sociedade...

Tudo quanto a Sociedade vê é o escândalo... E nada, nada mais.

Para aquela Sociedade, como para a atual, o mal ou o pecado supremo esta sempre relacionado com o sexo, não com a miséria, a fome, a guerra, o morticínio...

E aquela Sociedade, como parte desta, apresentava-se como Cristã!!!???!!!

E colocava o sexo acima da convivência humana, da dignidade humana, da vida humana!

Eis um Cristianismo subvertido, pervertido e invertido, que perdeu por completo o verdadeiro sentido do amor.

Ocorrem-me as luminosas palavras de Henry Miller: "Todo mundo diz que sexo é obsceno. A única verdadeira obscenidade é a guerra."  

Tal o diagnóstico daquele triste tempo.

Sonia a vítima.

E no entanto ela é verdadeira discípula do Mestre amado, justamente porque ama, e imola-se, e sofre.

"Nisto saberão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros."

Sônia bem poderia pensar apenas em si mesma e odiar aquele pai bêbado execrável com seu bafo nauseabundo, aquela madrasta afetada e arrogante e aquelas crianças sujas e ranhentas... Caso quisesse bem poderia odia-los, e até penso que não seria difícil...

Optou pelo amor, assim pelo sofrimento e pela dor.

Quantas moças respeitáveis, a semelhança de Dounia, não se guardavam até encontrar um pretendente rico capaz de pagar pela oferta da virgindade e desposa-las regularmente, com as bençãos da igreja. E no entanto que era aquilo senão vil comércio??? E prostituição reservada a um só...

E quantas não se vendiam por luxo? Por rendas, por jóias, por vestidos, por sapatos... Enquanto ela, embora se vendesse a muitos, vendia-se premida pela fome alheia... Quiçá morresse de fome, fiel aos preconceitos do tempo. Todavia, contemplar aquele pequenos morrendo de fome...

Mesmo quando parte de um pai o juízo de Marmelodoff não deixa de ser justo!

Como Jesus poderia deixar de perdoar aquela que sacrificara seu pudor, sua honra, sua reputação e se converterá em 'pecadora' miserável apenas para salvar a madrasta, os irmãos e o pai beberrão da morte certa?

Reatualizando a pergunta: Que teria Jesus a perdoar em alguém que optou por sofrer moralmente e por imolar-se, movido pelo sentimento mais nobre e elevado de todos, a saber, pelo amor???

Como teria pecado se com o sacrifício sincero e penoso da virgindade tomou a peito saciar a quem tinha fome ou a cobrir quem estava nu?

Como teria ofendido aquele que disse: Vinde a mim as criancinhas... se foi por três criancinhas desamparadas que decidiu subir o calvário?

Deixemos agora, por um instante apenas, a personagem abstrata de Dostoevsky e tornemos a arena da vida vivida, em busca de outras tantas Sonias, feitas de carne, sangue, ossos e nervos de aço.

Observo naquela esquina uma moça vendendo-se para custear o tratamento do velho pai canceroso. O qual lá no seu recanto, outrora feliz, cuida que a filha exerce o respeitoso cargo de secretária em alguma casa de comércio ou repartição pública.

Ouça quem puder a melodia 'Secretária da beira do cais' e compreenderá o que estou a dizer.

Aquela prostitui-se para comprar os remédios do irmão mais moço, sem os quais não pode passar... Aquela outra para impedir que a pobre mãe, já entrada em anos... continue a ralar-se como escrava lavando banheiro de gente rica.

Temos ainda esta outra que expõem-se ao vexame porque tendo perdido o marido, não é capaz de custear a escola ou internato dos filhos...

Não vou dissertar aqui sobre os motivos que podem levar uma moça ou mulher a prostituir-se... Limitar-me-ei a declarar que nem todas aqueles mulheres abraçaram este ofício levadas pelo que a gente 'respeitável' - Que mata, rouba, mente, explora, faz guerra, etc - qualifica como devassidão! Limitar-me-ei a declarar que há ali muito drama... Dar-me-ei por satisfeito em levantar a ponta do véu que oculta muita tragédia... E a solicitar que os virtuosos censores moderem seus julgamento segundo a norma e regra da prudência.

Antes de apontar alguém, de julgar alguém, de condenar alguém, de repudiar alguém... experimente colocar-se no lugar deste alguém ou a imaginar que poderia te-lo feito tomar a decisão que tomou.

Raskolnikoff apesar de te feito 'aquilo' e cometido um erro demasiado grave, conseguiu não só colocar-se no lugar desta moça desprezada - Ou melhor, odiada pelo mundo e pela 'boa sociedade - compreende-la e ama-la... E amando-a veio a ser amado com não menos intensidade. O que veio a ser para ele um princípio de ressurreição após a morte negra da alma... Pois toda ressurreição parte de um amor.

No entanto se tivermos consciência de que tudo quanto parte da miséria - Assim a embriagues, a droga, a prostituição, etc - é pecado social, partilhado por todos nós... Se tivermos a rara percepção de que somos co responsáveis por todos estes males na medida em que não apenas somos insensíveis, mas em que compactuamos com a insensibilidade alheia, ao invés de, como cristãos, indignar-nos... O mínimo que teremos de oferecer as Sonias que cruzam nossas caminhos são palavras de compreensão, conforto e amor; não de juízo, não de condenação. Pois se não sabemos acolher, abstenha-mo-nos de julgar e condenar.

Assim antes de apedrejar as Madalenas que encontra pelo caminho pergunte a si mesmo sobre o que fez ou tem feito para erradicar as situações de fome, miséria, nudez, etc que afligem e angustiam a desgraçada humanidade... Tem alimentado os famintos? Dessedentado os sedentos? Vestido os nus? Caso sua resposta seja negativa não ouse julgar o irmão que caiu por terra esmagado pelo peso da cruz...

Imitemos o gesto aparentemente louco de Raskolnikoff ajoelhado beijando os pés da rapariga... Quem sabe se somos dignos de beijar-lhe o pó dos pés ou a orla do vestido esfarrapado...

Mas porque cometes este ato insensato? Por que beijas os pés de uma devassa ou de uma perdida?

Não, não é os pés de Sonia que eu beijo, não os pés da mulher, não os pés da filha de Marmelodoff o que beijo ali e ali venero 'É o imenso sofrimento humano.' - O mesmo no alto do calvário pregado sobre a cruz, o mesmo na alcova de uma prostituta inconformada, o mesmo no gesto do pai que roubou uma caixa de leite para alimentar o filho pequenino... Em todo lugar a mesma dor e o mesmo drama santificados pelo Cristo.




Ofereço este ensaio ao querido amigo Dr Carlos Seino, o qual como Cristão honesto e sincero não cessa de progredir na luz de Cristo. 


"Assim a senda dos nobres é como a aurora, que vai brilhando, brilhando, até converter-se em dia pleno." ora nosso dia é o Cristo. Jamais cessemos de avançar nele, jamais nos conformemos com o que temos. Porque ele sempre tem mais a oferecermos e nós a tomar de seus tesouros infinitos.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

O sentido mais íntimo de 'Crime e castigo' ou o problema de Raskolnikoff

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Acho irrelevante ficar discutindo se Capitu traiu ou não o Bentinho. É algo que não me adiciona nada.

Adoro a Trilogia machadiana (Digna de um Dostoevsky, de um Dickens, de um Balzac ou de um Eça - Os mestres supremos!) e por isso digo que há muito mais coisa a explorar-se nela - Digo de relevante - do que as aventuras de Dna Capitu e seo Escobar.

Coisa de maior quilate toca a Raskolnikoff. Poucas personagens tão interessantes ou fascinantes quanto ele. Ocorrem-me apenas o Sinuhe de Mika Watari, o Imperador Claudio de Graves, Dna Lola e mana Rosa da Sra Leandro Dupré...

No entanto Raskolnikoff e mesmo Razoumikhine parecem-me ultrapassar a todas.

Durante quase quinhentas páginas a obra toca aos motivos que levaram Raskolnikoff a fazer 'aquilo'... Quero dizer assassinar a agiota ou o 'verme desprezível', mais sua irmã Isabel, a adela, com um golpe de machado no sinciput, estourando-lhe o crânio.

No entanto a resposta é dada apenas na última parte durante a confissão feita a Sônia.

Após sucessivas tentativas... De modo que podemos imaginar uma cebola tendo suas cascas removidas, uma após a outra, em direção do interior.

Assim Raskonicoff vai analisando a si mesmo a partir da consciência até chegar aos meandros mais sombria da inconsciência e fornecer-nos a resposta mais apropriada.

Já no começo da obra nos deparamos com a afirmação de que ninguém conhece melhor o homem do que ele mesmo.

Eis porque o ponto culminante da obra é a introspecção feita pelo filho de Pulqueria Fedorovna no quarto da prostituta...

Antes que alguém mais afoito suponha que lá foi ter o homem com o propósito de obter uma mera noite de prazer ou para transar, adianto que não.

Em que pese a admiração confessa de Freud por sua obra, o clássico russo não é freudiano na plena acepção da palavra. Svidrigailoff tem via sexual desregrada por assim dizer, sem que por isso sua personalidade deixe ser bastante rica e complexa. Ali a sexualidade não assume proporções 'desmesurada' e tampouco a religiosidade; e a vida ou melhor a tragédia humana jamais se diluí em qualquer uma dessas áreas sendo absorvida por elas. Há sexualidade, há religião, mas a vida ou melhor o drama da vida é muito mais amplo e podemos dizer que Dostoevsky esta muito mais próximo de Adler do que do primeiro Freud, i é, do Freud de 1900.

Nem mesmo o economicismo capitalista/marxista toca ao fundo da questão humana na perspectiva do grande Mestre.

Há algo maior, mais amplo e mais profundo para além da fé, da sexualidade ou da economia.

De um modo ou de outro, de uma forma ou de outra, de qualquer maneira este homem quer Ser ou afirmar-se. E esse desejo de ser, de afirmar-se, de poder, de imortalizar-se é que consome o homem. É existencialismo puro porque o drama do homem é existir. Existo. Mas como prolongar esta existência na memória coletiva da humanidade?

Lembra de algum modo a busca de Aquiles e de Alexandre pela glória.

Tomemos porém as falsas pistas.

Por que mataste a velha Raskolnikoff?
A primeira resposta oferecida é trivial -

Matei porque se tratava de uma agiota sem sensibilidade ou coração, um ser inútil, uma parasita, etc O que suscitou meu ódio.

Mas será?

Por que mataste a velha Raskolnikoff?
A primeira resposta conduz-nos a escola social do direito ou da criminologia, tributária de K Marx:
Matei porque era pobre, porque minha condição era miserável, porque sofria privações, porque não tinha o que comer, impelido pela necessidade enfim. Foram as condições sociais que determinaram fazer o que fiz.

Já antes de ter consumado o crime cogitava que não podia deixar de comete-lo.

Alguns dias depois no entanto confessava que a certeza de que não podia deixar de ter cometido aquele crime seria doce para ele.

Pois se é certo que tendo dado largas aos mais nobres sentimentos empenhou parte do dinheiro enviado regularmente pela pobre mãe com o intuito aliviar o sofrimento alheio, experimentando consequentemente uma situação se penúria, não é menos certo que Razoumikhine experimentava as mesmas dificuldades, recorrendo no entanto a traduções de textos e algumas aulas com o objetivo de angariar subsídios.

Conduzido por uma honestidade inflexível para consigo mesmo o irmão de Dounia conclui que bem poderia ter imitado o exemplo do colega de curso. Sente que não havia esgotado todas as possibilidades viáveis no sentido de ter escapado a penúria.

Ademais obtido o dinheiro ou os recursos desejados, acabou ocultando-os debaixo de uma pedra e abstendo-se de fazer uso dele.

Seja com for há situações de miséria, de penúria ou de indignidade que bastam para conduzir o ser humano a loucura. É constatação científica feita há alguns poucos anos. Claro que há pessoas e pessoas, mentes e mentes, temperamentos e temperamentos... E que os limites variam de pessoa para pessoa. Sem que os efeitos sociais da miséria, sobre uma média de pessoas deixem de ser significativos.

Não é o caso de Raskolnikoff por ele mesmo sente que não chegara ao limite, e que a loucura surgira posteriormente, como consequência do ato praticado. E não antes, como causa. Tal o resultado de sua introspecção.

Então por que mataste a velha Raskolnikoff?
Claro que nosso ex estudante de direito, como todo e qualquer ser humano, tentará racionalizar e em certa medida justificar o crime por si cometido.

E por via alguma conseguia arrepender-se do que havia feito.

Sentia-se mal, constrangido, abalado, etc não por ter partido a cabeça da velha e lhe tirado a vida, mas apenas por ter denunciado a si mesmo num momento de fraqueza (???!!!!???).

De fato não fora pego. Pois a tempo fora notificado sobre a morte de Svidrigalioff... 

Mesmo assim num momento de grandeza ou fragilidade denunciou-se.

Havia portanto ocasiões em que se arrependia não de ter cometido seu crime, julgando-se inocente, mas sim de não ter podido conter-se, de não ter podido vencer a si mesmo, de não ter podido manter a constância da alma, de ter se desestabilizado e ido entregar-se a polícia.

Envergonhava-se quanto ao estado de desordem mental a que chegará após a consumação do crime e cuja gênese sequer sabia explicar.

Julgava-se talvez ou muito provavelmente sabotado pelo próprio medo de vir a ser pego.

Quiçá sua cruz fosse a cruz do medo.

O fato é que não conseguia conviver com esta situação de fraqueza.

A fraqueza ou a sensibilidade face ao crime é que exasperavam-no.

Mas por que?

A resposta temos no artigo que publicará alguns meses antes e que fora usado pelo juiz de instrução criminal, Porfírio com o intuito de conduzir as investigações.

Artigo em que nosso estudante de direito, antecipando Nietzsche, sustentava que o homem superior ou super homem - Fosse um Napoleão, um Cesar, um Maomé ou um Newton; não importa quem! - não só podia como devia cometer quaisquer crimes, e sem o menor constrangimento, pelo simples fato de estar plenamente cônscio a respeito de sua genialidade e de seu desígnio, enquanto benfeitor do gênero humano. Aqui matar, roubar ou mentir, se necessário fosse, não constituía apenas um direito mas um dever daquele homem... Já qualquer laivo de sensibilidade ou de arrependimento face ao 'crime' implicaria fragilidade, e portanto vulgaridade.

Ali a vocação para a riqueza ou a prosperidade, segundo Calvino (cf Weber 'A ética protestante e o espírito do capitalismo') indicaria a predestinação. Aqui o arrependimento ou a sensibilidade indicariam a vulgaridade...

Aquele homem especial, genial ou superior deveria ter suas vistas postas apenas sobre o fim, jamais sobre os meios. Pois os fins justificariam plenamente os meios...

O único crime aqui era ser pego, preso, punido, etc Numa palavra: Falhar e não atingir seu fim.

Pois ninguém (Atente aqui a mente sagaz!) ou quase ninguém, increpa como criminoso aquele que extermina milhares ou milhões de vidas humanas nas guerras. Será que chegamos aqui a Timothy McVeigh? 
E estátuas são erguidas a César, Átila, Maomé, Tamerlão, Henrique VIII, Filipe II, Cromwell, etc E nomes de ruas, praças, escolas, etc são conferidos aqueles que dissiparam tantas vidas humanas.

Enquanto aquele que comete um ou alguns assassinatos, estes são tidos em conta de criminosos, punidos, castigados, suplicados...

Por que raios matar alguns é encarado com horror pelas massas, enquanto exterminar povos inteiros é encarado por elas com a mais absoluta naturalidade?

Porque aqueles milhões, guiados por um gênio ou por um homem superior, lutam por um desígnio... Enquanto os outros, tendo sido pegos, e antes disto aminados por um desígnio vulgar como a fome (???) ou a miséria (???) mostram-se inferiores e vulgares.

Em tese, os crimes do home superior ou genial jamais vem a luz porque ele não foi, não é ou não será pego. Podendo, a custa de crimes perfeitos, realizar sua ascensão até o topo.

Tais as doutrinas expostas por Raskolnikoff  postas em sociologuês...

Toquemos porém a alma...

Porque é evidente que tendo colhido em algum lugar esta 'bela' doutrina do homem sem compaixão e desenvolvido-a o nobre moço não pode deixar de perguntar a si mesmo se é ou não é um destes homens superiores...

Sou ou não sou um deste super homens? Pertenço ou não pertenço a essa casta de homens superiores? Que sou eu??? A que rango pertenço???

Aqui o único teste possível é a execução de um crime, crime feito a sangue frio e perfeito.

Raskolnikoff precisa matar, não para obter dinheiro em primeiro lugar, mas para saber que é? Se é dos homens geniais ou dos vulgares...

Antes do crime vive este dilema e precisa resolve-lo.

E se hesita e não comete o crime já vai tendo a si mesmo em conta de vulgar.

Por isso planeja, por isso apropria-se sorrateiramente do machado, por isso vai a casa da velha e por isso da cabo dela. Sem no entanto contar com a aparição da Isabel... A qual se lhe apresenta a consciência como inocente. E já não sabemos que efeito a morte da pobre adela produziu no íntimo de seu ser.

Então por que Raskolnikoff mata, amigo leitor?

Mata, olhe só, para afirmar-se.

Aqui eliminar a vida do outro é espécie de introdução a vida.

Mata para ser.

E até consumar este ato perverso nosso homem estava firmemente convencido de que passaria pelo teste.

Eis a fé de Raskolnikoff: Que mataria e permaneceria o mesmo, ou seja, indiferente.

Era sua fé e tudo empenhou: A mãe, a irmã...

E no entanto mal comete o crime fragmenta-se em dois. O estado de tensão espiritual aumenta e sua sanidade mental deteriora-se. O homem já não é senhor de si e ao cabe de mil e uma peripécias acaba de entregar-se a polícia.

O fato é que após ter cometido o crime e mesmo sem se julgar arrependido sofria... E como sofria. Talvez sofresse mais pelo medo de ser preso... Mas sofria e não deixa de sofrer.

Julgava-se senhor de si enquanto assistia perder o controle de tudo...

E qual o epílogo de tudo isto?

Sucumbindo a tensão o homem é vencido por si mesmo e constata, necessariamente, a luz de sua doutrina, não ser um super homem mas um fracassado. E acredita nisto e sofre sobretudo por isto. Sofre porque convencido de que não era genial ou predestinado. Sofre porque concluir que não passava de um homem vulgar.

A consequência mais prática aqui fica sendo a morte de sua mãe.

Pois a infeliz Pulqueria Fedorovna não consegue suportar a dor da desventura, e sucumbe miseravelmente após ter perdido o uso das faculdades mentais.

O homem acreditava ter ganho o mundo inteiro ou a oportunidade do mundo, e... no fim das contas perde a criatura que mais amava, a mãe.

E tampouco pode assumir seu grande amor, Sônia, pelo simples fato de ter sido condenado ao degredo por oito longos anos...

Evidente que não pretendo postular a monocausalidade do crime. Toda monocausalidade me parece forçada e suspeita. Há crimes e crimes, motivações e motivações...

Há certamente quem mate por ódio ou vingança, como há quem mate para roubar movido por necessidades materiais... No entanto tais motivações não esgotam as fontes do crime. Há outras.

Assim Raskolnikoff mata para ser, para a afirmar-se e até podemos dizer que mata por uma questão de necessidade psicológica.

Mata apenas para sentir que é capaz de matar, que pode matar ou que tem o direito de matar.

Até aqui 'Crime e castigo', até aqui Dostoevsky, até aqui literatura russa, até aqui ficção.

E no entanto este autor é mestre consumado em matéria de psicologia. E até antecipa Adler.
Neste caso que fazer para que a conquista a auto afirmação não se converta em tragédia?

Penso que a resposta aqui esteja no livro que Raskolnicoff tomou as mãos já nas últimas linhas do romance; no Evangelho.

Na sacralidade com que este livro único nimba a vida humana.

Eis a melhor cartilha com que educar nossos filhos e moderar o instinto vital da afirmação.

De fato o homem deve buscar por sua afirmação, realização, fama e glória; mas sempre numa perspectiva Ética, visando não prejudicar ou causar dano, as beneficiar concretamente o maior número possível de seres humanos sem cometer pecado algum.

Tome não o caminho de Hitler, Bush, Pot, Stalin, Napoleão, Ivan, Tamerlão, Átila, César, etc os quais de fato não passaram de criminosos ou de psicopatas; mas o caminho de Buda, Confúcio, Sócrates, Platão, Jesus... S João de Deus, S Camilo de Lelis, Cotolengo, Abbe L Eppé, Braile, Abbe Pierre, Pe Damien Deveuster, Pe Ibiapina, Pe Bento, Irmã Dulce, A Schweitzer, Madre Tereza... O caminho do amor enfim, que é o melhor de todos os caminhos.

Tomando o caminho de Raskolnikoff tomará certamente o caminho da dor...