Mostrando postagens com marcador Neurose. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Neurose. Mostrar todas as postagens

domingo, 15 de outubro de 2017

O futuro de uma ilusão (S Freud) - A caminho da frustração e da desesperança.

 Resultado de imagem para desespero




Enquanto Adler, tanto mais realista, limitou-se a ver no homem um instinto para a afirmação ou para a realização pessoal Freud - fortemente influenciado pela primeira grande guerra com seu estouro de violências - encarou este instinto (descoberto originalmente por Adler) como um instinto de agressividade. cf 'Para além do princípio do prazer' 1919.

Julgo que essa constatação foi muito mais dramática para a Psicologia e a Psicanálise do que a descoberta do princípio do prazer e da sexualidade infantil, o qual nada tem de sujo ou de negativo como pressupõem arbitrariamente a 'sifilização' maniqueísta ou puritana. O prazer e a busca pelo prazer, inclusive na dimensão sexual, nada tem de aberrante. Outro é o caso de um instinto de agressão ou violência. Aqui é Freud por outra via que se aproxima do maniqueísmo e paradoxalmente da doutrina Agostiniano/calvinista do pecado original. Pois se o homem porta em si mesmo um princípio de agressividade inata ou um princípio anti social que pensar sobre a origem deste homem?

Seja como for transita Freud, a partir dos anos 20, de um monismo sexista ou pansexual para um dualismo em termos de Eros e Tanatos, dois princípios opostos e conflitantes em torno dos quais desenvolve-se a personalidade humana e a própria civilização, esta concebida literalmente em termos de choque ou luta entre os dois princípios antagônicos - o do amor, cuja matriz é a sexualidade e o da morte/agressividade que conduz a dissolução. Um faz perpetuar já a vida biológica e já transfigurado (objeto inibido) a vida social, o outro busca dissolver a vida biológica e também a social.

Quanto a dissolução da vida Biológica Freud bem sabe que nada podia ou poderia ser feito de efetivo nem nutre qualquer esperança em termos de uma sobrevivência post mortem. Aqui o triunfo da morte sobre o indivíduo é completo, restando apenas sua continuidade noutro ser distinto de si, mas ao mesmo tempo semelhante quanto a certas estruturas e capacidades. Já em termos sociais, ao menos em sentido lato, não logra o instinto de morte a prevalecer totalmente face a cultura e destruir a civilização. Importa saber que ele jamais retirou-se da arena ou abandonou a luta, e que continua a matricular multidões de descontentes em suas fileiras. Freud não apenas não esta matriculado entre as fileiras dos descontentes ou rebelados, os quais encara como vítimas de um jogo urdido pelo sentimento de culpa, como faz-se paladino da civilização tendo em vista a atividade científica de que decorre, em última instância, um melhoramento das condições de nossa existência ou uma diminuição de nossos sofrimentos, o qual víria a compensar todas as limitações impostas tendo em vista a implementação deste ideal, a civilização.

Em 'Futuro de uma ilusão' Sig já se mostra cônscio quanto a forma economicista de nossa civilização - Ocidental ou melhor Norte Americana - e seus problemas e isto a ponto de fazer-se apreensivo. Uma civilização que produz multidões de descontentes num ritmo tão rápido parece por a si mesma em grande perigo. "Uma medida constante de descontentamento se imporá no seio desta cultura, o que poderá fomentar rebeliões perigosas." pondera ele. E arremata melancolicamente: "Não devemos esperar uma interiorização de proibições culturais por parte dos oprimidos, muito pelop contrário, eles não estão dispostos a reconhecer tais proibições, mas empenhados em destruir a cultura e, eventualmente, até em abolir seus pressupostos... Não é preciso dizer que uma cultura que deixa insatisfeito um número considerável de seus membros e que incita-os a rebelião não tem perspectivas de se conservar perpetuamente E SEQUER O MERECE."
Assim se suas críticas o sistema não são tão contundentes quanto as de um Marx - pelo simples fato deste estar situado no plano da economia - ou de um Berdiaeff, nem por isso deixam de ser menos enfáticas. É como se Freud não desejasse por as mãos em lodo tão sujo ou analisar em si mesmo ao modelo capitalista, sendo até possível que ele estivesse convencido de não estar a altura deste desafio. Talvez não estivesse mesmo e por isso lança toda carga de sua crítica contra as instituições religiosas, prestando muito pouca ou quase nenhuma atenção ao problema da Ética da essência e depositando suas esperanças moribundas sobre os altares da ciência. Tal a dinâmica de o Futuro de uma ilusão.
Freud até cogita piedosamente, e tenta oferecer aos homens algo melhor do que a religião ou o que é mais dramático ao teísmo naturalista; tenta ter alguma esperança... Mas veremos que não consegue e que a dar por certas as críticas formuladas neste opusculo só nos restaria aceitar a frustração propiciada pela razão nos termos de um Camus, a dar-nos por totalmente iludidos e a perder toda esperança. Sem cogitar a respeito da religião sobrenatural ou da fé, dou-me por satisfeito com o afirmar que com a impugnação do teísmo racional, nos termos dos pensadores gregos, particularmente de Sócrates, Platão e Aristóteles, nada nos restaria, a nós homens em termos de civilização, cultura ou esperança.

O valor de Freud aqui é, a partir do que ele mesmo constatou, deslindar um drama ainda maior, um drama ético, um drama cósmico.

O primeiro aspecto do problema foi em parte levantado no artigo precedente, pelo que vamos aborda-lo bastante superficialmente. Esta ele relacionado com a crítica endereçada a Freud pelo sábio francês Roman Rolland e diz respeito a um suposto instinto ou tendência religiosa existente em todos os homens ou ao menos em parte deles. Em parte porque muitos como Freud e os irreligiosos alegam não estar em posso dele. Sig por sinal declara-o explicitamente no primeiro capítulo do Mal estar. No entanto, admitidas as premissas do próprio Sig i é a psicanalise, não seria nem um pouco prudente contentar-nos apenas com o testemunho da consciência, ao menos quanto a este aspecto da personalidade. Tal o sentir de K G Jung, bem como do Pe Victor White os quais dedicaram-se a elencar evidências e argumentos favoráveis a tese de Rolland dando Freud e seus partidários como recalcados ou como pessoas que em virtude de determinados traumas não foram capazes de lidar com o sentido religioso, lançando-o fora da consciência, mas não da mente, no fundo da qual subjaz, mal resolvido e enquanto possível fator de neuroses... Há portanto outras versões no terreno da própria psicanalise.

Freud, quiçá racionalizando (para ele apenas os outros racionalizavam) arquiteta uma bela tese segundo a qual Rolland e os demais seres humanos, que se declaram em posse de um sentido religioso (inda que desvinculado de qualquer forma ou instituição), representam um tipo de Mente estacionada numa fase anterior ao desprendimento do Ego face ao mundo externo, possuindo juntamente do Ego desprendido resíduos de um outro ego tanto mais rudimentar ou primitivo, digamos assim de um proto ego. A hipótese é engenhosa, embora sua finalidade, refutar a tese de Rolland e sobrepor-se narcisisticamente ao rival, salte a vista. Ele Freud acaba sempre estando em posse de uma mente normal e equilibrada enquanto seus contraditores... Freud piedosamente lhes remove toda culpa ou malícia, juntamente com a normalidade/sanidade que reserva para si mesmo. Jung e White limitam-se a dar-lhe o troco supondo-o desajustado ou incapaz de lidar com o problema religioso devido a alguma sequela porque tenha passado na infância ou na juventude.

O problema aqui é que o desajuste individual face a esta tendência a religiosidade - que muitos vinculam externamente a cultura - não a elimina nas outras pessoas e isto a ponto de Freud - o qual como Plutarco e Heródoto deve ter levado em conta a presença da religiosidade em absolutamente todas as culturas do Planeta, sem exceção - postular uma neurose coletiva em termos universais. Tanto a religiosidade não determinada transcende a relatividade da cultura que o próprio Freud, que com os antropólogos de fancaria poderia ter tentado resolve-la no plano da cultura (Postulando a existência de sociedades irreligiosas ou ateias), é obrigado a transferi-la para o domínio interno e comum da mente e reconhecer sua universalidade embora como neurose. É uma neurose coletiva, não cultural e tampouco individual; pois esta presente e difusa em todas as Sociedades humanas. Mas é transmitida pela educação. Afinal a educação produz essa tendência religiosa difusa ou limita-se a comunicar-lhe uma forma?

Freud mesmo, num momento de lucidez em que pugna contra si mesmo, parece intuir a resposta:

"Se o senhor deseja eliminar a religião de nossa cultura européia, isso só poderá acontecer MEDIANTE A ADOÇÃO DE UM OUTRO SISTEMA DE DOUTRINAS, E ESTE ASSUMIRIA DESDE O PRINCÍPIO TODAS AS CARACTERÍSTICAS PSICOLÓGICAS DA RELIGIOSIDADE... O senhor precisará de alguma coisa desse tipo para corresponder as exigências da cultura e não poderá renunciar a tanto..." O futuro de uma ilusão cap IX

Talvez Freud ainda não se houvesse dado conta mas enquanto escrevia estas linhas em 1925, em Viena, na Austria, ali mesmo ao lado, no Norte da Alemanha, a religião protestante luterana, cada vez mais secularizada, estava - sob os auspícios de Hegel, During, e outros - assumindo o aspecto de uma nova mística secular, o nazismo. Haviam no entanto outras tantas místicas seculares, engendradas em sociedades irreligiosas e sem embargo disto herdeiras da religiosidade ou da tendência inata a religião. E quem diz nazismo diz fascismo, comunismo ou mesmo capitalismo, afinal por trás de cada uma delas damos com uma mística em torno de elementos naturais seja a raça, o estado, o partido ou o capital. Crane Brinton é apenas um dos que - em sua monografia sobre a Anatomia das Revoluções - relaciona essas místicas secularizadas ou religiosidades profanas com o sucesso das Revoluções.

Posteriormente as próprias culturas de morte ou místicas seculares - a exceção do capitalismo, pelo simples fato de distorcer nosso sentido de afirmação ou realização - exauriram-se. Nem por isso tem cedido espaço, a uma sociedade absolutamente irreligiosa ou ateia (A Sociedade Escandinava é o que temos de mais próximo no sentido de uma sociedade irreligiosa no sentido de que a religiosidade permanece em seu estado natural ou informe, e no entanto mesmo nela o ateísmo compreendido segundo a acepção da palavra é apenas residual), mas cada vez mais a expansão do islã. Assim essa mesma Europa com relação as quais os ateus e agnósticos acalentavam os mais belos sonhos no sentido de criar-se uma Sociedade emancipada, ateia e irreligiosa após a erradicação do Cristianismo tem, paradoxalmente, abraçado a forma mais arcaica, fetichista, irracionalista e virulenta de religião, a saber o islamismo sunita salafita. O que não nos surpreende nem um pouco.

Uma coisa é certa, nem o ateísmo crasso ocupou o lugar antes ocupado pelo Catolicismo ou pelo protestantismo; nem a irreligiosidade parece ter se imposto definitivamente no contesto europeu, mas apenas provisoriamente enquanto passagem para o islã, o que nos reporta mais uma vez ao estagirita: "Os extremos se tocam."

Ora toda argumentação assumida por Freud no Futuro de uma ilusão sabe a esse falso dilema posto entre os extremos de uma religiosidade cega e primitiva com seus delírios fetichistas e a irreligiosidade - compreendida em termos de um ateísmo crasso - proposta pro ele. Aqui, para S F não há qualquer escala ou meio termo. Nosso homem desconsidera-as intencionalmente e como tantos e tantos paladinos do ateísmo ele não parece estar nem um pouco disposto a dialogar com os expoentes de uma alta teologia Católica ou mesmo com os deístas, sucessores dos antigos filósofos gregos e paladinos da religião natural. A impressão aqui é que Freud ainda esta preso ao modelo arcaico, primitivo e grosseiro de divindade formulado por seus ancestrais, o qual parece encarar como a obra prima do pensamento religioso. Parece ter feito sua opção e só é compreender a divindade em tais termos, afinal é a que melhor serve a seus propósitos e cai-lhe como a mão a luva. Freud como quase todo o ateu, precisa de um espantalho para surrar facilmente e por isso vai ao mercado e escolhe o pior tipo de deus, da-lhe uma sova e em seguida declara ter esgotado o conceito...

Mas e o Deus de Anaxágoras e Sócrates? E o Deus de Platão? E o Deus de Aristóteles, de Erigena, de Davi de Dinant, de Amauric de Benne, de Spinoza e Whitehead??? E o Deus de Descartes e Bacon??? Destes todos passa do largo, se bem que os conheça e sinceramente declare não pode refuta-los - Isso mesmo, nobre leitor, o campeão do ateísmo, confessa sinceramente não poder atingir ao Deus dos Filósofos e da religião natural:

"Com efeito se vossas ideias religiosas se restringirem a afirmar a existência de um Ser Supremo de caráter espiritual cujas qualidades são indefiníveis e as intenções sumárias, ELAS SE TORNARÃO INVULNERÁVEIS FACE AS OBJEÇÕES DA CIÊNCIA, mas certamente os homens é que perderão seu interesse por elas." O futuro de uma ilusão. Cap X

Mas acaso os nomes acima citados não são nomes de homens ou de seres humanos? Acaso eram tais pensadores minerais ou vegetais? Tal o Deus tal o homem Dr Freud... Tal a condição do intelecto humano tal o Deus Dr Sig. Assim o problema não em Deus mas no conceito ou ideia que dele se faz e certamente há certo número de ideias relativamente distintas a respeito da divindade. Entre a concepção mágico fetichista escolhida pelo senhor e a inexistência vai ao menos alguma outra coisa intermediária que o senhor parece ter descartado sem examinar atentamente. Claro que o homem do povo ou o homem comum tendo em vista sua presente condição não pode interessar-se pelo Deus de Anaxágoras ou pelo Deus de Aristóteles, ponto pacífico... Devemos admitir então que os homens sempre serão assim? Uns imbecis ou idiotas dominados por seus impulsos? O senhor mesmo Dr Freud reservou a si mesmo o direito de acalentar a esperança de que nem sempre fosse assim, e de que num futuro próximo ou distante este homem assumisse um caráter tanto mais racional e distinto daquele que o qualifica no tempo presente.

Admitido que os homens alcancem este estádio tornando-se tanto mais críticos e reflexivos por que motivo seria impossível mostrarem algum interesse num Ser Supremo espiritual no moldes acima descritos? Por que entre a ideia ultrapassada e a negação total não poderiam optar por uma terceira via ou por uma ideia mais depurada e digna de Deus? Por que teriam de aderir necessariamente ao ateísmo sem ao menos examinar a proposta do deísmo ou da religião natural? Tudo quando posso perceber ou antever aqui é preferência preconcebida pela solução radical do ateísmo... Claro que o ateísmo precisa ser examinado e considerado mas em comparação com o deus fetichista da fé ancestral e o Deus legislador da alta teologia ou do deísmo. Cada hipótese deve ser atentamente examinada pela criatura racional e livre, de modo que sua opção seja ainda mais consciente.

Afinal admitida a existência de um instinto egoísta voltado para a agressão e a morte - ou ao menos duma distorção cultural sofrida por ele - bem como de um primado da vida inconsciente ou dos impulsos (Trieb) como poderíamos estabelecer normas ou regras de convivência válidas e aceitas por todos??? Admitida a relatividade absoluta da cultura, no sentido que lhe é dado por Freud, como fazer valer universalmente os valores inerentes a pessoa humana ou mesmo postular valores inerentes sob a forma de direitos? Como poderia a relatividade da cultura vencer instintos universalmente arraigados no âmago mesmo da pessoa??? Alias como superar a força titânica do Tanatos sem recorrer a comunhão com esse poder difuso por todo Universo??? Como esperar vencer o Tanatos a partir de uma cultura fragmentada??? Como evitar que a cultura humanista a que chamamos civilização dissolva-se por completo nas culturas de morte??? Como encontrar uma força ou poder capaz de vencer o poder do lucro ou do capital??? Como garantir a afirmação do Ser sobre o Ter? Como preservar a própria racionalidade do desgaste por parte de uma crítica insidiosa??? Como impedir que a ciência seja lançada ao fogo juntamente com a religião e a Filosofia???

Ao terminar este ensaio devo advertir o leitor de que este mesmo Freud, que em 1925 ao escrever O futuro de uma ilusão reportou-se diversas vezes a palavra esperança apresentando-a como um valor, foi, durante os quinze anos subsequentes de sua vida, perdendo- a por completo, até mergulhar no total desesperança e no pessimismo absoluto. Basta dizer que pouco antes de morrer já se refere a ela, a esperança, tal e qual referia-se a religião, ou seja, nos termos de uma neurose coletiva. De certa forma Freud chegou, pelo messianismo, a vincular a esperança a religião. Claro que se trata de esperanças falsas e artificiais. Nos outros campos, da natureza ou da imanência, passou a concebe-la tal e qual Camus e alguns outros existencialistas chegaram a encarar a própria razão - enquanto promotora de um sentido que não existia - ou seja como uma espécie de verme que corrói a mente.

Afinal, como filho do positivismo - e apesar da segunda grande guerra mundial - ele apostará no poder redentor da ciência. A qual além de se ter inclinado facilmente ao poder do capital e do Deus Mercado, tornou o segundo conflito ainda mais mortífero e medonho. A segunda grande guerra demonstrou cabalmente que ciência não produz consciência e que o poder de Tanatos era colossal por assim dizer. Eros foi mortalmente abatido e com ele as esperanças de Sig.

Outra aposta errada foi na razão. Não na razão enquanto razão, a qual para todos nós tem imenso valor ou até mais valor do que para ele Freud na medida em que rechaçamos as críticas de Kant e Hume continuando a praticar a velha metafísica, da qual a Ética é um setor. O problema aqui é a credibilidade da razão. A qual após Hume e Kant tornou-se tão vulnerável quanto a religião. Levaram a guerra até ela e como aludimos acima chegaram a encara-la como um verme. Assim se Freud nos diz que resta algo, o escocês dirá que nada nos resta em absoluto e o alemão que nos devamos contentar com aparências.

Apostou que após o fim da fé chegaríamos as portas do paraíso, mas, desde que a fé entrou em crise com a pseudo reforma protestante, chegamos as portas da geena conduzidos pelas mãos de seu substituto, o Capital. Apostou que após o fim do delírio religioso sobreviria a normalidade mas o que sobreveio a ele foi nazismo, fascismo e comunismo...

Apostou na afirmação da incredulidade e vemos o santuário de nossa cultura ancestral assaltado pela forma mais rude e grosseira de religião, o islã. Isto ele, Freud não precisou testemunhar para perder toda a esperança.

No entanto estes quinze anos que transcorreram de 1925 a 1939 foram cruciais para que o pai da Psicanalise, se certificasse de que a extinção da fé ou da religiosidade não redundaria em maiores benefícios para a pobre humanidade e de que sendo assim deveríamos abdicar de todas as esperanças quanto ao futuro da humanidade, aceitar nossa própria frustração e quiçá concluir que o próprio surgimento do fenômeno humano equivale a uma tragédia cósmica. Agora poderá o homem engolir resignadamente tais verdades sem ópio, narcótico ou anestesia??? Tudo quanto sei é que não poucos daqueles que tragaram até o fundo o mesmo cálice que o Dr Freud optaram por tirar a própria vida, seja como ato concreto de desesperação e impotência face um mundo irracional e despido de significado, seja lentamente por meio da bebida ou da droga; afinal quem não sente vontade de fugir face a um universo tão hostil em que a dor é por assim dizer insuperável. Buda ainda pode oferecer a seus profitentes a esperança do Nirvana, Freud após ter destruído a fé religiosa que nos oferece??? Nada, absolutamente nada, apenas a desesperação.




terça-feira, 2 de maio de 2017

O 'deus' deste mundo; sua majestade o relógio

               

Resultado de imagem para ditadura do relogio




                                        "De fora do bolsinho direito pendia uma grande corrente de prata, com uma
                                          maravilhosa máquina na extremidade. Pedimos que tirasse do bolso tudo que se
                                          achava preso a corrente, e pareceu-nos ser um globo parte de prata e parte de 
                                          metal transparente. Pelo lado transparente vimos certas figuras esquisitas traça-
                                          das num círculo; julgamos que lhes poderíamos tocar, mas os dedos foram repe-
                                          lidos pela substância luminosa. Aplicamos a dita máquina ao pé dos ouvidos.
                                          Fazia um ruído contínuo, semelhante ao de um moinho d'água e conjecturamos
                                          que, ou é qualquer animal desconhecido, ou, então,  A DIVINDADE QUE ELE  
                                          ADORA; no entanto nós nos inclinamos mais a esta última opinião, porque nos
                                          afirmou (Se nós assim o compreendemos, pois se exprimida muito imperfeita-
                                          mente) QUE RARAMENTE FAZIA QUALQUER COISA SEM CONSULTA-LO
                                          CHAMAVA-LHE OU SEU ORÁCULO, E DIZIA QUE ELE DETERMINAVA
                                          TODAS AS AÇÕES DE SUA VIDA." Swift, Jonathan; 'As Viagens de Gulliver'
                                          trad Henrique Martins Junior. S Paulo, ed Cultura, 1945



Embora literariamente as viagens de Gulliver reportem a 1699, alias a quatro de Maio. A obra foi posta em sua forma definitiva em 1735. Nem tenho acesso a primeira narrativa, editada em 1726. Atenho-me pois a edição padrão de 1735, a qual tem servido como ponto de partida para todas as traduções subsequentes.

Estamos assim a um passo da Revolução industrial seja seu inicio datado de 1760 como querem uns ou de 1740 como querem outros. Ou mesmo em seu desenrolar caso coloquemos seu início em 1710 ou 20. Reportando ao uso do carvão por Abraham Darby.

Importa saber que a Revolução industrial implicava redistribuição do espaço e do tempo.

Pois antes dela a matéria prima era entregue ao artesão para que fosse trabalhada ou transformada - em manufatura i é 'Algo feito a mão' - em sua casa. Mormente famílias inteiras trabalhavam juntas na oficina do lar.

Disto resulta que significativa variação quanto ao ritmo produtivo. Pelo simples fato de que o produtor, no recinto do lar, controlava este ritmo segundo uma hierarquia de necessidades definida por ele mesmo.

Quero dizer que se o filho precisasse estivesse doente e precisasse de cuidados o trabalho era posto de lado. Quero dizer que se a carne estivesse a queimar no fogão o trabalho era momentaneamente interrompido. E que podia ser frequentemente interrompido na medida em que o artesão julgasse necessário interrompe-lo. Inclusive quando julgava ter obtido a quantia necessária para manter-se.

Era ele, o artesão, que administrava o tempo de trabalho e a aquisição do dinheiro, tendo em vista suas necessidades, e não as da produção.

O horário estava sob seu controle e também a vida, porque não era escravo dessa estranha máquina de metal e vidro chamada relógio.

O artesão do século XVII no recinto da sua casa era ainda senhor de seu tempo e de sua vida, conforme o critério de suas necessidades.

No entanto esta tradição imemorial estava com os dias contados.

Pois com o advento das máquinas, propriedade do patrão, surge um novo espaço: As fábricas, tal o 'local de trabalho' separado do lar.

Desde então teve o operário enquanto manipulador de máquinas, de deixar o recinto do lar e dirigir-se a um locar específico em que se encontravam as máquinas para lá trabalhar e consequentemente ter o tempo de trabalho administrado não por si, mas pelo patrão... Cabendo e este determinar o ritmo da produção, servindo-se do relógio.

Evidentemente que o patrão esperava dos operários máximo emprenho na produção.

Deveriam portanto permanecer presor aquele local e trabalhar sem interrupção.

Desde então nada mudou...

Curioso é que toda este gente que vive falando em lar ou família, empenhando todo um discurso idealista e romântico até a exaltação mórbida, não tenha se dado conta que foi a Revolução industrial, promovida pelo liberalismo econômico que sacrificou a família as necessidades econômicas ou ao mercado, na medida em que aprisionou o operário e em seguida a operária no recinto da fábrica - Até a completa exaustão de suas forças - deixando o lar, compreendido como a prole, no maior abandono.

Resultando desta transformação hedionda o fenômeno onipresente dos meninos ou das crianças de rua. Assim quem não tem avós, tio, irmão muito mais velho, etc

Outro problema, não menos grave e alarmante, diz respeito a impossibilidade dos pais, exauridos pelo ritmo de trabalho (Então alucinante pois chegava a dezoito horas diárias) cumprirem com suas obrigações não apenas instrutivas, mas até mesmo educativas. Imagine só o amigo leitor que na Inglaterra protestante do século XVIII não haviam monges ou frades, ou clérigos dispostos a instruir e educar gratuitamente tantas crianças. Que o Estado ainda não havia criado a instrução pública. E que os pioneiros do proletariado sequer tinham recursos suficientes para comprar um quartilho de vinho ou pedaço de pão, quanto mais para contratar professores particulares...

O resultado deste terrível dilema foi a massificação, a par da pauperização.

Os ideólogos liberais, rematados mestres em matéria de hipocrisia, só sabiam arremeter contra a odiada Idade Média papista, enquanto a população urbana inglesa ensaiava entrar na mais abjeta fase porque já havia passado, isto já na Era vitoriana...

Nem precisam ler os odiados Marc Ferro e Eric Hobsbawm e gritar que não passam de comunistas desonestos e mentirosos a manipular sordidamente a História se temos o testemunho insuspeito e substancial do consumado literato Charles Dickens. Leiam Dickens e apenas depois de terem lido suas obras venham discorrer sobre as excelências do liberalismo econômico...

Ainda recorrendo aos testemunhos de Hobasbawm e Karl Polanyi fazemos observar que antes que sucedessem todas estas calamidades, lá nos primórdios desta funesta Revolução, parte dos plebeus pareceram ter intuído ou adivinhado o 'futuro' que lhes estava reservado, a si ou a seus filhos. Até onde eu saiba a crônica desta visão antecipada do seria a escravidão contemporânea ainda não foi escrita ou pintada com todas as cores.

Uma coisa no entanto é absolutamente certa. Não passaram plebeus do recinto familiar ao rígido controle das fábricas, suavemente ou como um bando de carneiros, por uma simples questão de tradição e cultura. Eles bem sabiam que estavam prestes a converterem-se em escravos do relógio e do patrão e a ter suas vidas esvaziadas e empobrecidas.

Daí a resistência feroz e titânica que prolongou-se por quase um século, até os idos de 1820. E o rancor dos ludistas face as máquinas, as quais atribuíam a alienação do homem quanto a seu espaço, o lar. Destruíam as máquinas não porque fossem tolos, mas porque perceberam que a nova ordenação do espaço de trabalho fora determinada pelo advento delas, e portanto que elas haviam sido responsáveis por tirar-lhes ou reduzir-lhes drasticamente o tempo. Isto no entanto correspondeu ao epílogo da cena... Uma vez que após o cancelamento das leis de subsistência e da lei do milho, tiveram os plebeus de precipitarem-se nas fábricas ou morrer de fome juntamente com seus filhos.

As leis tiveram de ser quebradas, como salienta Marx, o assistencialismo humanitário ou cristão desmantelado e a fome manipulada sem misericórdia, para que as massas angustiadas tivessem sua resistência quebrada e se precipitassem nas fábricas concordando em satisfazer todas as aspirações do patrão. Foi toda uma política cruel, insensível, maquiavélica e execrável; sem quaisquer escrúpulos, que manipulando situações da mais extrema indignidade humana, consolidaram a desordem institucionalizada da opressão...

Este foi um aspecto da grande revolução ainda hoje saudade por muitos...

O outro foi formativo ou educativo.

Pois além de aterrorizar economicamente as massas para que se submetessem a nova ordem, da fábrica, da jornada, do controle, etc Era necessário educa-las e forma-las, segundo a dinâmica da cultura, para que se adaptassem ou habituassem. E isto foi feito, mas com que sutileza...

A quem desejar obter mais pormenores sobre esta Revolução cultura, recomendamos o estudo das obras de Michel Foucault, a cuja epistemologia relativista, todavia, nos opomos marcadamente. Quanto a este aspecto da realidade no entanto, reconhecemos os méritos de sua obra, a que nos reportamos.

Estamos diante de nada muito complexo.

Basta dizer que o relógio tornou-se onipresente ou que (Vide texto acima de Swift) converteu-se numa espécie de deus e senhor da vida humana.

Para que a fábrica ou o patrão pudessem estabelecer com sucesso a nova ordem, pautada pela ministração regular do tempo e pela administração das horas e minutos passados na fábrica tendo em vista a consolidação de um ritmo cada vez mais ligeiro foi necessário inserir a máquina em quase todas as instituições sociais, até então mais ou menos marcadas pela irregularidade temporal.

Assim se é verdade que os primeiros relógios foram instalados nas torres das igrejas desde S Eustórgios de Milão em 1309, não é menos verdade que eram destinados mais a regular os exercícios religiosos (As horas canônicas) atinentes a vida monacal, do que a regular por completo as vidas dos Cristãos, em especial dos leigos, os quais sequer tem obrigação de recitar as Trindades ou o Angelus pelas seis, doze ou dezoito horas do dia. Se é certo que os homens piedosos deviam rezar, a exemplo do profeta Daniel três vezes ao dia, ou manhã, tarde e noite, não é menos certo que oficialmente hora alguma havia sido imposta aos Cristãos.

Quanto aos monges no entanto, em função da vida regular que levava, era a situação bem outra. Daí a conveniência de marcar as preces por meio do relógio. Daí a origem curiosa da palavra Relógio, a qual remonta justamente ao Horolongion ou livro de horas da Igreja grega. Del orologio, tal a expressão de a partir do século XIV passou a designar um dos mais hábeis montadores e a partir dele o próprio mecanismo. Não houve todavia qualquer tentativa de 'relogizar' as relações sociais e humanas ao cabo de quatro séculos e como dissemos, em tais sociedades jamais se passou das 'Trindades' ou do 'Angelus' recitados por algumas pessoas piedosas.

O mistério da vida permaneceu temporalmente falando, a fluir irregularmente. Ao menos até a Revolução industrial, quando tempo converte-se em dinheiro e o patrão aspira converter-se em senhor e dispensador do tempo.

A partir de então é necessário, sob os mais variados pretextos, introduzir o relógio nas mais diversas instituições sociais: Assim na escola - desde 1833 - e no Hospital, foi introduzido o relógio. De modo a regular a vida dos estudantes e enfermos e em certo sentido adapta-los a uma administração mais rígida do tempo, tal e qual era imposta pelo ambiente fabril.

Se tempo era verdadeiramente dinheiro e o patrão aspirava obter lucro máximo, era necessário administrar e controlar o tempo que o operário passava na fábrica. Coibindo alias os atrasos, sob quaisquer pretextos e convertendo a pontualidade, até a neurose, em virtude quase divina. Mesmo padres e pastores acabaram embarcando na onda e enfatizando a necessidade de chegar as cerimônias pontualmente... ficando a pontualidade canonizada; até adquirir conotações místicas!

Eis porque o capitalismo consagra o relógio como a máquina mais importante da idade da máquina, a ponto de não só controlar o tempo consagrado pelos escravos a rotina do Mercado, mas de converter-se ele mesmo em produto, especialmente a partir de 1850 (O auge do sistema econômico liberal em Inglaterra), quando passa a ser produzido e comercializado em massa. Desde então converteu-se na primeira máquina a adquirir certa importância social nas vidas dos seres humanos. Bem antes do rádio, da TV e do computador...

Quais as consequência desta relogização da vida, contada desde então não mais em horas mas em minutos e segundos, i é, em cada instante?

O mínimo que se pode dizer é que a precisão da divisão temporal, associada a formação do homem e temperada pela mística da pontualidade, acaba convertendo os homens em relógios em ponteiros, pelo simples fato de abarcar todos os setores da vida humana, tornando-os regulares, rotineiros e previsíveis. Os homens convertem-se em monges profanos e regulam todos os atos da existência tendo em vista o ritmo da produção ou do trabalho.

Todas as ações tornam-se sequenciais, porque uma sucede a outra e um atraso aqui resulta outro acolá, atingindo o horário do trabalho e pondo em risco o emprego. Assim uma das principais preocupações do homem atual é jamais chegar atrasado ao trabalho! Preocupação que alastrando-se pelos demais setores da vida torna-se compulsiva, arrastando nosso homem a neurose ou a alienação mental.

É aqui que a vida perder sua naturalidade e espontaneidade para tornar-se artificial, rotineira, massante e desagradável, convertendo-se num fardo insuportável. O homem se sujeita ao tempo, não é senhor de seu tempo e não mais dispõem dele. E sua vida passa a ser controlada inteiramente por outros tendo em vista objetivos que não são seus e a negação de seus objetivos. Já não restando tempo para si, para a família, para o lar e para tudo quanto ama.

Feito senhor do tempo e do espaço converte-se o patrão, por meio do relógio, num deus... e os proletários em criaturas ou servos sem determinação própria.

Importa gastar o tempo produzindo. Importa alienar-se da família. Importa alijar-se do bem, da verdade e da beleza a cuja contemplação dou destinado; e em bestializar-se. Não podendo administrar seu tempo degrada-se este homem... degenera, corrompe-se.

O dilema é cruel: Ou abdica do tempo e do espaço e portanto da liberdade e da vida; ou morre de fome, experimentando situações de miséria. Premido pela tensão posta entre o ideal e o material este homem enferma, e se desespera, e morre...

Isto porque, como adivinharam os minúsculos liliputianos de Swfit o relógio é o deus dos tempos modernos... Não o Deus amoroso e benevolente dos Santos Evangelhos, mas um deus maléfico e iracundo. Durga ou Jagrenate não chegam a ser tão egoístas e cruéis... E nem seus adoradores enfrentam situações tão aviltantes. Tais os resultados do novo culto...

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Psiquiatria e Psicologia - A busca pela Interação

Durante as aulas de teoria é bastante comum nossos alunos formulares a seguinte questão: Professor, qual a diferença existente entre a Psiquiatria e a Psicologia?

E tenho para mim que não seja pergunta de pouca importância.

Como de costume partiremos das raízes gregas para formular a resposta.

Psiquiatria é expressão de origem grega formada por duas palavras: Psique compreendida como alma ou mente e iatria ou medicina. Temos então medicina da alma.

Psicologia também é expressão de origem grega formada por duas palavras: Psique e Logia ou estudo e temos então 'estudo da alma'.

Aparentemente seria tudo a mesma coisa uma vez que não podemos curar a mente sem antes estuda-la e conhece-la muito bem.

Nada mais distante ou afastado da verdade pois em termos atuais estamos diante de duas abordagens, ideologias ou visões de mundo que aspiram ser bastante diferentes uma da outra ou mesmo rivais.

O psiquiatra assume quase sempre uma postura materialista.

No sentido de que todo e qualquer problema mental ou neurológico possui uma origem somática, física, material, orgânica ou corporal.

Segundo esta corrente todos os estados anormais da mente humana são causados ou provocados por algum defeito ou dano relativo a estrutura cerebral ou ainda por carência ou excesso de determinados hormônios.

E não pode haver enfermidade e sintoma sem que haja mal conformação dos órgãos ou disfunção hormonal.

Consequentemente - se a causa do problema esta no corpo - o psiquiatra recorrerá invariavelmente a uma terapêutica material ou seja a intervenções cirúrgicas, choques, drogas, etc

Já o Psicólogo considera que ao menos algumas doenças ou parte delas não são causados pelo corpo físico mas pela própria mente ou por sua parte inconsciente. 

No caso o corpo físico estaria perfeitamente bem e isento de qualquer defeito estrutural. Tendo a enfermidade sua origem na mente.

Segundo algumas estimativas 70% das doenças que afligem a pobre humanidade seriam psico somáticas.

Evidentemente que admitido tal pressuposto a terapêutica sofre alteração.

Convertendo-se no que chamamos de terapia ou analise.

Terapias existem várias: laborterapia, arteterapia, pet terapia, psicodrama, etc

Análise corresponde abordagem característica do psicólogo i é a conversa, ao diálogo, ao desabafo... a partir do qual ele elabora o diagnóstico e recomenda a terapia.

Isto de modo geral.

Feita tal distinção, segue-se a segunda pergunta:

Qual das duas estaria certa professor?

Minha resposta: Como somos dotados de mente e corpo penso que ambas estejam corretas.

Explico: Há enfermidades cuja causa encontra-se certamente no corpo físico e todos conhecemos muito bem o exemplo de Phineas Gage . E enfermidades cuja causa encontra-se na mente, como as que eram 'curadas' por F A Mesmer e estudadas mais tarde por J M Charcot, Bernheim e pelo grande Liébeault. 

Do que resulta a necessidade de uma ação coordenada entre o psiquiatra e o psicólogo, ou ao menos de um diálogo entre estes dois profissionais. O que por preconceito ideológico infelizmente não se dá. Arcando os enfermos com o prejuízo, que é imenso.

Evidentemente que nos referimos a realidade brasileira, em que ainda predomina a rivalidade.

Basta dizer que entre nós o número de psicólogos ainda é exíguo, e o acesso em termos financeiros dispendioso. Isto a ponto do SUS contar com pouquíssimos psicólogos e mesmo psiquiatras.

É também questão de cultura e já foi dito que o brasileiro investe mais nos dentes do que no cérebro.

Outro aspecto da cultura predominante é que psiquiatra e psicólogos são médicos de louco, do que decorre certo receio, certa distância e não poucas situações de preconceito.

Para algumas pessoas cogitar em procurar o psiquiatra ou o psicólogo já é um drama...

Por isso que fecham-se em si mesmas e ficam amargando seus problemas até o suicídio. 

Agora quando a pessoa procura algum destes profissionais muitas vezes o faz porque já se considera louca!

Via de regra a pessoa costuma procurar um psiquiatra, o que esta certo. Pois somente após a avaliação física por meio de exames é que se pode excluir a causalidade orgânica e postular uma causalidade psíquica.

Diante disto qual deveria ser a atitude comum a nossos psiquiatras?

Interrogar o enfermo sobre o estado geral do corpo, algum possível acidente, pancada, etc e solicitar exames de RMN, tomografia, Raio X, sangue, etc

Disto resultará a existência ou não de algum defeito ou disfunção orgânica.

Comprovada a existência do defeito em questão, segue-se o diagnóstico e o tratamento segundo a praxe psiquiátrica. Dispondo-se o caso a cura ou ao menos a eliminação dos sintomas.

Verificada a inexistência de qualquer defeito ou disfunção orgânica seguir-se-ia o encaminhamento ao psicólogo...

Tal o roteiro a ser seguido.

Pelo que chegamos a terceira e última pergunta: Procedem assim os nossos psiquiatras, digo, a maior parte deles???

Escusado responder que não.

E por que?

Primeiramente por que alguns psiquiatras, dominados pelo preconceitos materialistas, não admitem a existência de enfermidades psico somáticas e tampouco que a psicologia seja uma Ciência.

Evidentemente que para tais profissionais toda e qualquer enfermidade mental esta relacionada com algum problema estrutural ou hormonal em termos físicos, devendo resolver-se em seus consultórios.

E quando após a realização de todos os exames a causa física não é encontrada?

Neste caso supõem sempre que exista embora permaneça desconhecida e inacessível devido a precariedade do aparato tecnológico...

Neste caso que fazem eles?

Receitam invariavelmente algum hipnótico com que dopam o paciente 'suprimindo' os sintomas ou parte deles. E desde então fica ele lento ou lerdo como dizem... E sem perspectiva de cura. Tais os casos perdidos da psiquiatria e não são poucos.

Outro problema não menos sério diz respeito aos exames, que sendo bastante complexos são igualmente custosos e em alguns casos não cobertos pelo convênio...

Aqui é que conhecimento geral que boa parte dos psiquiatras não solicitam os tais exames da cabeça ou os tais exames hormonais, como seria de esperar-se...

Talvez por sofrer pressão por parte dos planos de saúde...

E damos ainda aqui, mais uma vez, com os hipnóticos ou com a sedação.

Na maior parte dos casos ir ao psiquiatra equivale a ser sedado...

Pouquíssimos dentre eles após terem percorrido o roteiro indicado e realizado todos os exames - em caso de não terem detectado qualquer causa somática - encaminham parte de seus pacientes a algum psicólogos. No entanto os que assim procedem é que estão salvando vidas e cumprindo com sua função!

Isto porque tanto no caso de possíveis causas somáticas não detectadas devido a não solicitação de exames, quanto no caso de prováveis causas psíquicas o recurso sistemático a hipnóticos ou sedação implica ocultação das causas por eliminação ou atenuação dos sintomas e consequentemente a permanência da enfermidade que deveria ser extirpada. Tanto do ponto de vista médico quanto do ponto de vista Ético estamos diante de problema muito sério.

Pois ocultar atenuar sintomas com o objetivo de ocultar enfermidades jamais será curar. Ademais a enfermidade permanecendo latente e e não tratada tende a evoluir e a tornar-se ainda mais resistente na medida em que vai minando as estruturas do corpo ou da mente. E de curável pode até vir a tornar-se crônica e quem o sabe... até letal.

Isto devido aos preconceitos, a incúria ou a subserviência de determinado profissional...

Evidentemente que não estou a generalizar ou a acusar 'todos' condenando toda uma categoria de profissionais. 

No entanto é manifesto que hajam abordagens deste tipo.

E prejuízos ou danos que só Deus sabe...

Em termos de Brasil urge aproximar dos dois profissionais, psiquiatra e psicólogo, desde a formação. Possibilitando que trabalhem juntos, colaborem e dialoguem desde o 'campus' universitário. É uma questão de formação e o mínimo que se espera do poder público é que examine o problema e busque reeducar a ambos os profissionais, i é, não só psiquiatra mas também o psicólogo. Assim cabe o psicólogo remeter ao psiquiatra todo o enfermo que não foi examinado por ele... Aqui o único caminho a ser seguido é o da interação na perspectiva do homem global!

Pelo visto não são poucos os obstáculos financeiros, logísticos, profissionais e educativos a serem superados. Mas temos de dar os primeiros passos, pois já estamos em 2016 e mais do que na hora de começar a cuida do cérebro, sem deixar de cuidar dos dentes é claro...