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sábado, 4 de fevereiro de 2023

Considerações em torno do que seja Sociedade.




Vez por outra, de quando em quando, costumo ler algum 'manuel', digo, Manual de Sociologia - Também leio os de Filosofia, de Psicologia ou de Pedagogia > E há alguns muito bons (Guido de Rugiero, Jaspers, Thonard... Th Ribot, Wundt... Herbart, Comenius, Backheuser, etc). 

Por hora estou lendo "El hombre y la gente" de Ortega Y Gasset - Revista de Ocidente, Madrid, 1958, juntamente com a edição das Epístolas de Caio Cecílio Segundo, o 'Plínio' Jovem ou Jovem Plínio - Estranha mistura ao que parece... Se bem que não da para confundir o escritor latino com o humanista espanhol. 

Todos sabem que considero Gasset um dos nomes mais representativos em termos de genialidade, juntamente com Freud, Adler, Darwin, Weber, Malthus, Sorel, Decrolly, Hitchcock, Valéry, Horney e Goodall. 

Quem quiser adicione o nome de Marx. Sua crítica foi positiva mas, penso eu, sua construção positiva ou 'solução' de muito pouco valor, e o comunismo se nos parece tão desastrado quanto o capitalismo.

Outros desejarão adicionar um Einstein ou um Fermi, aos quais de fato não faltou genialidade.

No entanto, confessadamente socrático, penso ser patético ou até calamitoso, o caniço pensante explorar o universo - Das partículas elementares as grandes estrelas, passando pelo fundo dos oceanos. - sem conhecer suficientemente a si próprio ou explorar a mente que dita nosso comportamento e tudo comanda.

Sim, em tempos de Ética, de crise e de suicídio comum (Em termos de espécie.) temos que questionar absolutamente tudo, inclusive a prioridade em termos de conhecimento.

Pois controlar a força contida nas partículas sem comandar a si mesmo pode ser algo bastante perigoso.

Tal reflexão foi que me fez por optar pelas Humanidades e não pelas ciências exatas ou pela técnica, tão queridas a ideologia positivistas e tão lucrativas. 

Necessário registra-lo. 

Pois em nossa cultura degenerada quem opta por ganhar menos traduzindo clássicos como as Antiguidades romanas de Dionísio de Halicarnasso ou a História geral de Diodoro Sículo, ao invés de tornar-se físico ou químico, i é partidor de moléculas ou analista de substâncias é tido em conta de inepto, incapaz ou imbecil.

Chega de divagação e prolixidade, como dizia minha saudosa mestra Isamar Alcover do Amaral Loureiro> Sr Domingos, o sr é prolixo e tão prolixo como Rui - Quem me derá ser a metade ou um quarto de um Rui... Mas tornemos a Gasset, nosso Ortega.

Antes porém devo dizer que já havia lido, e há um bom tempo, A unidade social, de P A Silvestre, São Paulo, 1956, obra atualmente bastante rara sobre a percepção social em Tomás de Aquino e, por ext. nos escolásticos e contratualistas.

Curiosamente Gasset define o associacionismo com precisão: "... Que assim fosse mera combinação ou resultado de outras realidades, como os corpos são 'na realidade' mais do que combinações de moléculas e estas de átomos." p 22 a qual, substituindo-se moléculas e átomos por tecidos e células, teria sido absoluta.

Importa saber que o ilustre pensador espanhol após definir avalia: "Se como sempre se tem crido... é a Sociedade uma criação dos individuos... que se congregam e portanto se não é ela mais que uma associação, a Sociedade não tem própria e autêntica realidade e não precisamos de uma Sociologia." p 22

E foi um pensador genial, um Ortega Y Gasset, quem o disse, como que copiando trivialidade repetida nos manuéis ou manuais de Sociologia. 

Achei digno de nota ou reflexão a assertiva do Ortega.

Afinal nossos corpos são agregados de células e tecidos. O que não os priva de existência real.

Curioso isso - Que aquela treva chamada positivismo tenha produzido há um tempo introduzido materialismo mecanicista no campo da Psicologia e Metafísica muito mal feita no campo da Sociologia. 

Mais - Agregado sim, agregado e agregação. Nem por isso uma célula sozinha se converte em tecido ou corpo, menos ainda o corpo ou o tecido numa única célula. Pois de modo algum a existência do agregado basta para confundir o agregado com o todo e vice versa... A simples existência particular da célula no conjunto do tecido não a transforma a célula particular em tecido e vice versa.

Sucede porém que a simples união da célula em tecido, órgão ou corpo confere a cada um desses agregados novas propriedades, as quais não se encontram presentes em cada célula separada mas comente nos agregados: Tecido, órgão e corpo. E conforme o tipo ou forma de união assume diferentes formas é natural que cada forma possua propriedades diversas - Assim que o corpo possua propriedades que não se acham presentes no órgão ou no tecido. 

Naturalmente que há algumas propriedades comuns a todo fenômeno vivo. Como certamente há propriedades diversas na célula, no tecido, no órgão e no corpo - Pois unidade não significa identidade. Por isso dizemos que o agregado tecido difere da unidade particular célula na medida em que apresenta atributos ou propriedades diversas. Pois só pode apresentar propriedades novas e diversas na medida em que sua estrutura difere da unidade particular.

Observe que toda essa comparação estabelecida pelos positivistas em torno de fenômenos biológicos está totalmente equivocada.

Pois o considerar o corpo humano em sua totalidade como agregado de agregados - Cujo elemento mínimo seria a célula! - não reverte a Biologia, a medicina ou a realidade em citologia. Um corpo mais desenvolvido olha, ouve e fala. O corpo ouve, fala, olha, pensa, etc por meio dos tecidos e células. Há tecido apto para ativar a audição. Posso dizer no entanto que esse tecido ouve ou que células olhem ou falem - Mesmo quando pertencentes a tecidos relacionados com a visão ou a fala posso eu dizer que tais células enxergam ou falam...  O caso é que as células não possuem sistema nervoso central... E nossos corpos o possuem... E pensam...

Percebe como sendo formado por células ou sendo um agregado de tecidos o corpo não é irredutível a células ou tecido, por possuir outras propriedades e corresponder a uma estrutura diversa. Como a medicina - a Mesma medicina que reconhece ser um corpo um agregado de células é irredutível a mera citologia...

Diante disto, o quanto podemos afirmar é que a Sociedade, a modo do corpo físico, não é uma fusão de células ou pessoas, e portanto algo essencialmente diverso dos agentes que a compõem. 

Agora se não estamos diante de um novo ente ou fenômeno, produzido por fusão, só nos resta concluir que ligação entre as pessoas, a modo da ligação entre as células, se dá por conexão ou contato. 

Essa percepção é importante porque nos impede de imaginar a Sociedade como algo a parte dos agentes que a compõem ou como um organismo essencialmente distinto deles. 

E no entanto ela, a Sociedade ou melhor as diversas Sociedades, da mais elementar a mais difusa, apresentam propriedades que não se encontram nos agentes.

Impõem-se aqui outra pergunta ou questionamento, muito comum nos compêndios de Sociologia.

A qual é posta nos seguintes termos.

Se a Sociedade ou as Sociedades apresentam propriedades com que não nos deparamos nos agentes que a compõem é justamente porque a natureza do agente e da Sociedade são distintas. 

Claro que há alguma diferença entre os agentes e a Sociedade.

Será no entanto uma diferença essencial ou ontológica, no sentido de que a Sociedade seja algo totalmente diversa dos agentes ou alguma outra coisa ou apenas um estado diverso apresentado pelos agentes.

Teríamos assim o indivíduo hipoteticamente isolado do corpo social ou num Estado pré social (Quiçá ante histórico ou primitivo!) - Veremos que o homem não social, em qualquer momento histórico, é uma ilusão - e o humano em Estado social tal como o conhecemos. 

Ocioso dizer que o 'social' precede a própria existência do fenômeno humano. Porquanto nossa espécie aparece já num contexto social ou num contexto social pré humano legado por outras espécies de primatas. 

Jamais houve Homo ou Homo Sapiens a parte de uma organização social, exceto se confundamos, maliciosamente, a Sociedade com o Estado.

O homem de Rousseau, bem se vê, é um ser imaginário, se, como se pensa ou crê, postulou a existência de indivíduos isolados ou separados uns dos outros antes de um contrato que tenha dado origem ao grupo social mais primário. Rousseau só cessa de ser perfeito idiota caso consideremos que seu contrato da origem ao Estado ou a Sociedade política...

Podemos portanto supor ou presumir que a questão sequer toque a forma ou a estrutura do conjunto ou grupo social mas apenas AO MODO E EXTENSÃO DO CONVÍVIO: As Sociedades apresentam propriedades diversas entre si e ausentes no 'indivíduo' conforme o contato seja mais íntimo ou mais extenso. 

Então não temos porque imaginar uma transformação essencial.

Nem por isso fica a Sociedade sendo irrelevante e menos ainda a Sociologia, pelo simples fato de que apresenta propriedades com as quais não nos deparamos nos humanos que tentam, em certa medida, viver a parte delas. 

A conclusão aqui já foi antecipada pelos sociologistas de Comte e também de Durkheim, este por sinal um homem de grande mérito. Tinham esses autores - Sobretudo o segundo em sua acirrada polêmica travada com Gabriel Tarde.- receio de que caso a Sociedade não formasse um ser essencialmente diverso dos seres que a compõem, reverteria a algum tipo de Psicologia, marcadamente em Psicologia social. E esse temor, mais ou menos fundamentado no século XIX, refletiu em toda essa construção, no sentido de afirmar-se que a Sociedade constituía um organismo totalmente a parte de seus agentes pessoais. 

Bom bater nessa tecla, sobre os estragos feitos pela Ideologia positivista no campo dos conhecimentos humanos ou das humanidades - Cujo valor científico e objetivo contínua sendo negado por seus janízaros até nossos dias > Mais de século após a morte de Wilhelm Dilthey (Esse gigante do Espírito!!!). O epílogo dessa invasão da psicologia pela Ideologia materialista (Sob o termo de positivismo ou ciência.) foi essa pasmaceira chamada Behaviorismo > De Watson e Skinner até G Roth  e o queridinho dos ateístas (Dalkins, Denett, etc) S Pinker. 

Certo é que a destruição ou negação da mente equivale a destruição ou suicídio da Psicologia, pela simples negação de seu objeto de estudos, que é a mente (cf Fechner, Wundt, etc). Caindo a psicologia nos domínios da Biologia e revertendo a Psiquiatria. Pois tudo no Behaviorismo conduz a Psiquiatrismo...

Outro o caso dos sociologistas, os quais sempre temeram que admitido qualquer nível de influência da pessoa não diretamente associada na 'engrenagem' social ou como se queira, nos fatos ou fenômenos sociais, ficava comprometida a própria Sociologia. 

E no entanto essa mesma pessoa capaz de interagir com o construto social e de altera-lo é ela mesma, grande parte, resultado de interações sociais e um ente social e não um indivíduo isolado, porquanto a existência de um indivíduo isolado, que nada deva ao grupo social, é um ente abstrato e ilusório. 

Perceba-se o óbvio - A Sociedade ou o grupo social plasma a condição de todos os seres humanos e todo ser humano é em parte resultado de interações sociais diretas e indiretas. Por outro lado algumas pessoas, satisfazendo certas condições sociais dadas e externas a sim, são capazes de alterar essas condições ou de interferir na dinâmica social. E é justamente essa intervenção ativa de alguns humanos que altera as estruturas sociais, as quais doutra forma sendo externas, formais e mecânicas seriam fixas, constantes e irreformáveis - A exemplo das reações físicas e químicas. A Sociedade se transforma justamente porque não é engrenagem fechada e impermeável a ação humana.

Por mais que atribuamos esta ou aquela propriedade específica aos diversos grupos sociais seria absurdo admitir que os grupos sociais possam alterar a própria dinâmica ou transformar a si mesmos, impondo novos sentidos, a parte dos agentes que lhes conferem existência. 

A Psicologia social caberá investigar o quanto o fenômeno humano recebe do corpo social. A Sociologia Pessoal como e em que condições um agente humano qualquer é capaz de alterar a dinâmica social e a Sociologia examinar as propriedades dos grupos ou fatos sociais em si mesmos bem como a estrutura dos grupos citados.

Tais as reflexões que me foram suscitadas pela leitura de Ortega Y Gasset.





terça-feira, 3 de março de 2020

A manipulação/exposição do corpo, o carnaval e a revolução.

Já há algum tempo estava para escrever algo sobre este tema. Fui protelando já por ser complexo, já por ser polêmico.

Até que a reação dos comunistas, anarquistas e cia ao desfile da mangueira (2020) forneceu-me a devida ocasião.

Creio ser dever meu, como articulista e formador de opinião, adiantar que esta análise, como de praxe, não será nada convencional ou destinada a agradar qualquer rebanho, seja o dos conservadores, puritanos, moralistas, fanáticos... seja o dos pós modernistas, sexistas, radifens, etc Por pensar criticamente não acompanho bandos. Penso por mim mesmo, a partir é claro de minhas fontes, sempre vastas...

Em tempos de maniqueísmo/puritanismo mostrar o corpo ou ainda manipula-lo tinha acentos sociais e políticos. Por isso Freud, Atrino, Ellis, etc, em meados de 1900 foram revolucionários... E meio século depois veio a Revolução que prepararam, já a sessenta anos.

Desde então a maior parte de nós pode assumir uma identidade sexual e paralelamente ter acesso e manipular o próprio corpo. Devemos nós considerar tal acontecimentos como um dos mais significativos da História humana, mesmo quando em diversos cenários passamos ao extremo oposto: A deificação do corpo ou da aparência física e uma sexualização exacerbada... De fato fomos de um extremo a outro, daí esperarmos por uma equilibração - Momento em que a sexualidade será encarada apenas como natural ou como parte significativa da vida (Não como seu centro ou foco).

Sabe o leitor que nossa posição face a sexualidade advém da cultura clássica. Portanto sendo reacionária por definição é igualmente progressista e livre. Somos favoráveis aos relacionamentos abertos e contra o controle ou manipulação da sexualidade pelo assim chamado 'parceiro' (s). Isto não quer dizer que sejamos libertinos ou sexistas a moda do Marquês de Sade. O quanto queremos dizer é que o corpo/sexo tem valor, um valor positivo e que a vida sexual tem significativa para o homem. Nossa mensagem tem sido sempre esta: Que a sexualidade ou o corpo sejam encarados com naturalidade não com hostilidade ou pessimismo a exemplo do passado.

Não partilhamos portanto da opinião daqueles que encaram a sexualidade como o supremo valor da existência humana, os quais costumamos chamar sexistas. Somos humanistas... Nosso feminismo diz respeito apenas a igualdade de direitos entre homem e mulher ou a condenação do machismo. Quanto ao ao valor da pessoa somos humanistas! Nem agostinianos, nem puritanos, nem sexistas... Quando nos alinhamos com os trabalhadores é apenas por questão de justiça - Tal o sentido do recorte trabalhista. Mas para além de feministas ou trabalhistas ou de qualquer rótulo - Mesmo o de Cristão Católico - o que pretendemos ser é humanistas. Nada em Sócrates, Aristóteles, Confúcio, Buda ou Jesus indicam-nos que a sexualidade corresponda ao supremo valor da existência humana, mas, uma fonte de prazer a ser corretamente gerenciada.

Não apreciamos um ou outro extremismos.

A luz do que acima registramos podemos dizer que em determinados contestos expor o corpo pode ser pessoalmente libertador, e para isto há espaços de nudismo ou naturalismo. Para além disto cada qual é livre para trajar-se como quiser, a luz de sua própria personalidade. Outra coisa e bem distinta é imaginar que sua própria nudez ou sexualidade seja social ou politicamente relevante, e este é o foco deste artigo. O problema é uma determinada pessoa ou mesmo um determinado grupo de pessoas pretender que a exposição de seu corpo seja revolucionária sessenta anos após a Revolução sexual e numa situação de reconhecida liberdade.

Reconheço seu direito de trajar-se como bem quiser ou se expor seu corpo publicamente ou ficar completamente nu. O que questiono é que semelhante atitude seja revolucionária ou melhor perigosa para o sistema. Penso ou julgo que aqueles que são ou foram perigosos para o sistema: Lamarca, Mariguella, Herzog, Chico Mendes, Dorothy Stang, Patrícia Acioli, Marielle Franco, etc estão mortos! Isto é ser socialmente relevante ou revolucionário.

A Psicologia indica muito claramente que as pessoas que tem algo a mais a oferecer não costumam cobrir ou desnudar por completo o corpo, mas vestir-se com naturalidade e equilíbrio. De minha parte ouso dizer que desconfio dos homens e mulheres que costumam ostentar os membros do corpo, cultivar doentiamente a forma física ou vangloriar-se da beleza, salvo é claro como fonte de renda. Para mim tais pessoas mostram a única coisa que possuem. O ser humano todavia é bem mais do que um corpo sarado ou escultural. E há a dimensão da ética, da inteligência e até da elegância... Tais elementos fazem um ser humano completo, centro de uma personalidade rica e atraente.

Claro que um corpo bonito pode ser um valor. Desde que em conexão com outros valores já citados. O materialismo crasso apenas concordaria em declarar que é o ser humano apenas um corpo a ser ostentado e nada mais... Pois, lamentavelmente a beleza corporal degrada-se com o passar do tempo, cedendo lugar ao que chamamos de feiura: Flacidez, estrias, linhas, manchas, etc A posse de princípios e valores saudáveis (Como o amor a justiça), de inteligência cultivada, de bom humor, elegância, etc são dons perenes, que jamais passam...

Para mim a exposição do corpo apenas denota um profundo vazio em termos de outros valores humanos, e nada tem de social ou politicamente relevante, menos ainda de revolucionário. Ainda aqui ouso discordar veementemente de um pós modernismo que perdeu o trem da História. É verdade que os europeus - prevalencendo-se de certa presença moralista - adoram balançar suas bundas caídas ou flácidos glúteos... No entanto, salvo a existência de concomitante greve, paralisação, etc as bundas para nada servem. Não intimidam seja o patrão ou o governo. Mobilizações, passeatas, greves, boicotes, etc intimidam os patrões e governos mesmo sem nudez ou bundas caídas. Assim você sempre poderá mostra sua buzanfa... Mas não atribuir-lhe uma conotação político social relevante.

Quer que sua nudez seja revolucionária ou relevante? Ostente-a no Iran ou em qualqer país muçulmano do Oriente Médio. No Brasil exposição do corpo não choca porque é já corriqueira...

No país do Carnaval, grosso modo, as coisas são ainda mais exóticas ou esquisitas...

Pois aqui não apenas se mostra o corpo ou ostenta a nudez, mas canta-se, dança-se... (Também se bebe cerveja aquecendo-se essa indústria ou o mercado). As pessoas exaltam-se e pulam, gritam, chacoalham o corpo, etc O que é de praxe... É o carnaval... E temos de reconhecer que faz parte de uma cultura igualmente descompassada. Posto que não vivemos mais numa sociedade fechada e repressora que dependa de uma válvula de escape... Mas como já o disse - Compreende-se.

O que não compreendo é que se atribua qualquer relevância política ou caráter revolucionário a tal festividade, especialmente quando gerenciada por essas colossais agremiações chamadas escolas de Samba, alias subvencionadas pelo poder estatal i é verba concedida pelas prefeituras ou mesmo por agremiações empresariais... Mesmo o Carnaval popular, realizado pelos blocos de rua, com suas marchas, degenerou em comércio de bebidas! Há alguns anos quando subimos a S Paulo para protestar contra o vampiro golpista Michel Temer, demos com um bloco de rua muito aminado e marchinhas satíricas... Foi muito divertido acompanha-lo. Sabido é no que resultou essa muito animada reunião... Em nada! Cantamos, pulamos, gritamos, dançamos... e o Temer lá continuou no poder. Mesmo algumas escolas de samba do pais satirizaram o vampiro, assim os trens elétricos do Nordeste... Mas a situação ficou na mesma.

O que quero dizer com isto é que é da condição ou da cultura do Brasileiro rir ou tirar sarro de tudo, brincar, pular, dançar, cantar, gritar, ostentar o corpo... Fazer carnaval. E se fica eternamente nisso. E disto não resulta absolutamente nada de concreto! Quando o Carnaval com suas sátiras conquistou algo para o povo??? Não, não se passa disso... E os políticos ou demagogos bem sabem (Daí injetarem dinheiro nas Escolas de Samba). Por mais que a esquerda caricata e pós modernista aclame o desfile da Mangueira como revolucionário os políticos não tem receio ou medo dele, pois sabem que ao chegar a quarta feira de cinza os sambistas estão em suas casas curtindo a ressaca do dia anterior ou se recompondo, não com coquetéis molotovs ou fuzis em mãos!!! E disto não sai ou saíra revolução... Passada a febre do carnaval sobe a maré do conformismo...

Ulisses Guimarães já o dizia: 'Político tem medo do povo nas ruas...' [Com pedras ou paus nas mãos e fazendo greve geral.] - os parentéticos são nossos. Não de massas chacoalhando-se no sambódromo. Lá também estão os políticos nos camarotes, degustando caviar, bebendo champanhe e paquerando as filhas do homem trabalhador...

Tal a realidade e nada do que a mangueira fez ou fizer para ganhar troféu e prêmio vaio mudar isto.

Encarar a mangueira, qualquer escola de samba financiada pelo poder público ou time de futebol, como organizações revolucionárias não é menos ingênuo ou tolo do que encarar a Assembléia de deus ou a CCB como organizações revolucionárias...

Querem curtir o Carnaval, beleza... Só não me venham dizer que os políticos vão se sentir ameaçados ou ter medinho das passistas seminuas ou do passista tinindo sua cuica... Pois é isto o cúmulo da alienação.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Observando o fenômeno religioso contemporâneo - Salmos, Evangelhos, seios, bundas e finalidade...


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Enquanto faço meu passeio vespertino cruzo com uns seios túmidos ou turbinados cobertos com uns versículos bíblicos tomados aos Salmos.

E como não poderia deixar de ser semelhante contemplação suscita meu senso crítico. Creio-me semelhante a diabetes que minha meu organismo, a qual me faz beber e logo em seguida ir ao vaso despejar... a semelhança do tonel das danaides... Na mesma medida em que leio, estudo ou observo sinto a necessidade de produzir algo, de registrar, de escrever ou mesmo de comunicar, embora a prioridade seja escrever para mim mesmo, e observar as futuras variações.

Por isso os tais seios cobertos por palavras que se creem divinas ou sagradas suscitaram minha reflexão.

Num mundo em que os fanáticos religiosos adoram bater na tecla da finalidade sexual - Em termos de uma estrita ortodoxia - penso que não seja honesto, mas leviano, restringir a tal finalidade a esfera da sexualidade humana. A coerência nos obrigaria a aplica-la as demais esferas da existência, assim a própria fé e seus veículos.

A leviandade e a incoerência no entanto parecem ser os pecados originais deste triste tempo.

Antes de tudo, quando contemplei aqueles seios, que muitos consideram como belos e que noutros tantos suscitam impulsos eróticos, e li as palavras gravadas sobre eles - Que bem poderiam ser: "Quem tem sede vem a mim e beba.", "Minha carne é verdadeira comida." ou qualquer frase isolada tomada aos Santos Evangelhos - não pude pensar em bundas, pênis ou vaginas... Órgãos contra os quais nada tenho em absoluto, ao contrário dos neo maniqueus.

Tudo quanto pensou Deus e chamou a existência, digno e puro é.

Pelo que não haveria maiores problemas, ontologicamente falando, em gravar tais versos, inclusive as palavras do Verbo Jesus sobre os panos ou tecidos que cobrem tais partes. Isto não me indignaria mais do que ve-las gravadas sobre os tecidos que ora cobrem peitos, barrigas ou costas... Para mim dá tudo no mesmo e não há diferença alguma. Se se pode ou deve gravar as palavras divinas sobre determinada peça de roupa destinada a cobrir uma certa parte do corpo pode-se revestir qualquer parte do corpo com tais peças, uma vez que o corpo assumido pelo Verbo Jesus é sagrado em sua totalidade e não há nele parte suja ou menos digna.

Claro que não me refiro aos Salmos ou a qualquer parte aleatória do antigo testamento, pelo simples fato de não ser judaizante ou partidário de um 'corão' cristão... A maior parte dos seios por sinal são mais puros, dignos e belos do que a maior parte das passagens da Tanak ou da Torá, inclusive dos tais Salmos. Não pelos Salmos... Pois como o grande Camilo Castelo Branco - autor do "Amor de perdição" - não os aprecio nem faço caso deles, a exceção daqueles que reportam-se profeticamente ao advento do Messias Jesus. Há por certo um sentido existencial nessas produções judaicas, há religiosidade sincera, grandeza e lirismo, o que por certo faz delas uma obra prima da literatura universal. Não o podemos negar... Todavia como Cristão, Católico e Ortodoxo prefiro e creio mais excelente a produção hinográfica do Cristianismo nascente ou medieval, assim as produções de Efraim, Ambrósio, Romanos, Prudêncio, Damasceno, Germano, André, etc O Simeron, o Akatistos, o Adeste, o Exultet, etc Em tudo isto vejo mais providência, presença do Espírito Santo, significado Cristão e fartura espiritual. Após o Evangelho é a hinografia Cristã primitiva que alimenta meu espírito. Pois o panorama ideal ou ético destes Salmos, em seu quadro geral, é bastante baixo, vulgar e grosseiro, haja visto os tais Salmos deprecatórios, cujo objetivo é amaldiçoar ou fazer mal aos inimigos, quando o abençoado Redentor obriga-nos a abenço-los, a suplicar por eles, a ama-los e a estar disposto a perdoa-los... Ora tais, Salmos, acham-se em franca oposição a este ideal sagrado e por isso, a exceção dos que apontam profeticamente para o Senhor Jesus Cristo, repito - Não faço caso deles, ao contrário dos fanáticos...

Pouco se me dá que sejam impressos em tecidos e ostentados sobre quaisquer partes do corpo humano, sejam elas bundas, barrigas ou seios. O problema aqui restringir-se-a aos fanáticos que encaram tais partes como sujas e irreverentes e os tais Salmos como divinos. Já vimos todavia que a coerência não é padrão para tal tipo de gente ou para as massas.

Outra coisa são as palavras de Jesus Cristo ou as passagens do Evangelho, as quais tomo a sério como coisa preciosa ou como regra de vida. Reconheço, como Liberal convicto, o direito de tais pessoas gravarem versos do Evangelhos ou as palavras Sagradas de Jesus sobre tecidos ou peças de roupa e cobrirem com elas quaisquer partes de seus corpos, mas, discordo resolutamente da prática, na qual não vejo qualquer sentido religioso ou espiritual. Claro que por uma questão de coerência ou de justiça, estendo esta crítica a moda, assumida pelos neo católicos ou carismáticos - Sempre levados a imitar ou assimilar práticas protestantes! - de imprimir as figuras de Jesus, da Virgem ou dos Santos sobre suas camisas ou camisetas, o que dá no mesmo. E como os católicos tendem a ser tanto menos complexados ou incoerentes há cerca de uns vinte anos ou mais, foi publicamente lançada, no programa da falecida Hebe Camargo, uma linha de roupas íntimas ou cuecas que traziam estampadas sobre si as figuras de Jesus Cristo e da Santa Virgem sua mãe. Nesse momento os mesmos puritanos hipócritas que a muito ostentavam as 'Sagradas ícones' sobre seus túmidos seios ou barrigas flácidas, puseram-se a gritar como loucos. Mas... por uma questão de princípios, cara a racionalidade católica, tinha de chegar onde chegou... Tal a imprudência e leviandade dos neo católicos que assumem práticas protestantes e julgam poder conte-las arbitrariamente em seus estreitos limites. Difícil conter os católicos, especialmente os moderados, já habituados a pensar criticamente o quanto não seja dogma...

O que quero dizer é bastante simples, a ponto de qualquer protestante sumariamente letrado ou de qualquer católico nutrido nos elementos do catecismo poder entende-lo ou até de aceita-lo, caso tenha boa vontade. Nada no Evangelho nos indica que as palavras do Mestre Jesus devessem ser impressas sobre tecidos com o objetivo de enfeitar peças de roupas destinadas a cobrir o corpo humano. Não foi certamente com este objetivo, cobrir ou enfeitar os corpos dos crentes, que o Senhor comunicou expressamente seus ensinamentos. O objetivo da palavra escrita é ser conservada fielmente, lida, meditada e enfim posta em prática. Outro não foi nem é o objetivo da palavra ou das cenas de nossa Redenção pintadas nas paredes de nossos tempos, tal o Evangelho dos analfabetos... Tudo isto, estendendo a pregação oral do Verbo foi posto para a leitura, a reflexão e a vida, não para adornar nossas vestes externas e corporais fazendo aparência.

As palavras do Mestre Jesus deveriam ter passado da oralidade original ao papel, as paredes dos templos e dai ao espírito ou ao fundo dos corações, para que se tornando vivas e operantes transformassem este nosso mundo. A modernidade superficial e leviana deu-lhes um novo e estranho caminho: Os corpos e peças de roupa!!! Convertendo-as em modas e pasme, marcas... A partir das quais se toma lucro! Os sectários protestantes já se precipitaram neste abismo farisaico, a ponto de comercializar peças de roupa marcadas com o 'nome' adorável... Aqui nossos amigos ateus, materialistas, agnósticos, budistas, xiitas, etc que por estes e outros motivos descartaram a fé Cristã tem pleno direito de rir, e nós, que ainda temos alguma esperança e que com esperança nostálgicas contemplamos o passado, temos o direito de deplorar e de chorar este hiante abismo de incoerência e leviandade, através do qual o repisado discurso sobre a finalidade,apressadamente traído por seus partidários. Talvez, com Voltaire, seja melhor rir, apenas rir, pelo fato de retermos alguma esperança.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

O sentido psicológico do luto


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Insuspeito muito admiro as sociedades judaicas Chevra Kadisha destinadas a confortar os enlutados.

Deploro veementemente a falsa piedade dos neo Cristãos que com base na doutrina da ressurreição dos corpos repudiam o luto e criticam os que choram por seus mortos.

Sobretudo os neo católicos mostram-se deploráveis pelo desprezo que votam aos rituais de sepultamento legados pela tradição. Não nos esqueçamos que os neandertais sepultavam seus mortos na posição fetal e lançavam tinta ocra sobre eles, querendo simbolizar um segundo nascimento ou um nascimento espiritual.

Incoerentes, não poucos dentre eles - i é entre os neo católicos - tem abraçado as opiniões dos fanáticos para os quais não se deve chorar pelo morto ou dar mostras de qualquer tristeza pelo simples fato de que permanecem vivos em espírito, porque haverão de ressuscitar ou porque o Cristo ressuscitou.

Essa gente tosca não compreende que a tristeza e o choro são sinais de saudade tendo em vista a ausência física daquele que partiu.

Concordo que o Cristão Ortodoxo não deva gritar, berrar ou fazer escândalo a exemplo dos que não tem esperança alguma, ignorando a imortalidade e a ressurreição. Pois a certeza de que a vida continua noutro plano ameniza a dor da separação.

Decerto aqueles que morreram segundo a carne entraram na posse da verdadeira vida e tendo vivido piedosamente ou segundo a Lei do Evangelho repousaram de seus trabalhos, depuseram seus fardos e obtiveram a paz.

Sabendo que estão felizes não é por eles que choramos, mas, em verdade, por nós mesmos que aqui ficamos. Não é pelo morto que ficamos tristes mas por nossa própria solidão, abandono e desamparo. Pranteamos porque já não temos aqueles que amamos fisicamente próximos de nós. Derramamos lágrimas de saudade porque de algum modo a ligação entre nós foi cortada e já não nos podemos comunicar. Não é o pranto sinônimo de descrença mas de saudade, tendo em vista a ausência...

Chorar pelo que já não mais se encontra junto a nós não é sinal de dúvida mas de afeição ou carinho.

Não é o desaparecimento que supomos é a separação que deploramos. Não espiritual é claro, pois cremos na comunhão dos Santos e consequentemente que nossos queridos velam por nós junto do Verbo Jesus Cristo. No entanto não somos nós espíritos puros ou descarnados, mas espíritos em posse de corpos, espíritos encarnados. Temos uma dimensão corpórea, a qual não pode nem deve ser ignorada. Fisicamente esta comunhão plena ou física, significada pela presença, é rompida e esta ruptura não pode deixar de produzir um impacto no homem normal.

Aquele que ama folga estar sempre perto do objeto amado, o que em termos humanos significa também proximidade física. A morte do corpo no entanto torna impossível esta proximidade e destrói esta convivência. E se aquele que amamos segue avante em demanda de Cristo e dos irmãos que já se foram, aquele que ama e por aqui permanece não pode deixar de sofrer algum abalo. Crendo o não crendo sentimos a separação física, uns menos outros mais. O fato é que todos sofremos ao enfrentar situações de perda, mesmos sabendo que esta perda é provisória.

Assim antes de julgar o descrente que desmaia ou grita desesperadamente na hora em que o caixão é fechado, antes de apontar, condenar ou ridicularizar coloquemo-nos no lugar dele e perguntemos a nós mesmos a respeito de como estaríamos sem a certeza da imortalidade... Antes de julgar, apontar, condenar, ridicularizar, etc busquemos tentar compreender. Assim como Jesus colocou-se como homem coloque-mo-nos no lugar do outro!

Antes de zombar e escarnecer do irmão ou amigo que pranteia seu ente querido, assumindo um heroísmo frio que nada tem de Cristão, pranteemos com ele, juntemos as lágrimas na mesma piedade, aprendamos com os judeus que assim o fazem dando mostras de humanidade. Não aspiremos ser sobre humanos uma vez que nosso Deus se fez homem. Pois quiçá nos tornemos desumanos. Confortemos com ternura aos que choram ao invés de apontar, julgar e condenar. Se você é forte e não chora, busque a máxima perfeição, abstendo-se de exigir do outro a mesma postura, pois cada um tem seu jeito de enfrentar a morte. Se você se controla ou faz das tripas corações, o mérito é seu, agora só não venha julgar os demais, pondo seus méritos a perder. Afinal há mais merecimento na fragilidade que se compadece e irmana do que na força que desdenha e julga.

Tomemos em tudo por padrão e medida a sunah ou exemplo do Senhor Jesus Cristo. O qual sendo Deus verdadeiro - Pai dos corpos e dos espíritos - e tendo se tornado verdadeiro homem  - Em tudo semelhante a nós menos no pecado - não quis conter suas lágrimas diante do túmulo do amigo Lázaro. Por isso o menor verso do Evangelho é dos mais grandiosos, por registrar que Jesus, sendo humano, chorou - E Jesus chorou... Mas por que chorou? Por que é próprio dos homens e natural chorar em tais circunstâncias. Porque chorar de modo algum é pecado. Porque chorar um morto nem é inoportuno, nem é inconveniente. Eis porque chorou o autor da fé, a verdade suprema, o Criador de todas as coisas.

Então por que aspiras tu ser mais que Jesus? Por que condenas tão levianamente aqueles que a exemplo do divino Mestre choram a separação física? Por que repreendes os que manifestam a dor e a saudade por meio das lágrimas? Tendo o Senhor de todos chorado junto ao túmulo de Lázaro já não posso dar-te razão. O que exiges de teus irmãos, essa conformidade heroica, é cruel e desumano. Caso acredites que semelhante postura te faz bem, nada tenho a declarar. Só não te faças medida de todas as coisas ou de todos os homens, porque a medida de tudo e todos é Jesus Cristo.

Altamente sofisticada é a percepção dos judeus face ao mistério da morte e de uma acuidade admirável. Pois corresponde o tempo do luto a uma necessidade imperiosa, que brota de nossa personalidade.

Por experiência digo que o luto conforta e reconforta.

Não me tomem por cruel ou zombeteiro.

Cerca de um mês, pouco menos, perdi uma parenta muito querida, uma prima que era como uma irmão mais velha. Pessoa de imensa delicadeza sempre presente em nossas vidas. Pessoa solidária, útil e prestimosa. Por motivos de ordem superior não pude eu mesmo presidir os ritos de sepultamento ou encomendar-lhe o corpo, pois tive de 'distrair' minha mãe, tia da falecida, que se achava bastante comocionada... Apesar disto tributei a sua memória, discretamente, copiosas lágrimas e preces. Me abstive de distrações, fechei-me em minha residência e parti para um encontro comigo mesmo... do qual saí mais forte e revigorado apesar da saudade.

Passados menos de quinze dias veio o grande baque. Como roguei acima, não me levem a mal... Pois refiro-me a morte de meu gato, o Et. Para ser breve direi que este gato e eu construímos uma relação 'sui generis'. Desde bebê - e eu o vi nascer em meu quarto - ele me conquistou e acabei tomando-o por um filho do coração. Era tratado como alguém da família... Meu gato era tudo para mim e eu o amava na mesma medida em que ele me amava. Era um animal adorável, um felino encantador. E já estava para castra-lo quando a tragédia aconteceu e ele atacado e mordido por um cão morreu na porta de casa.

Foi uma acontecimento tenebroso, para o qual não me achava preparado, mas que tive de suportar. A dor foi grande a ponto de anestesiar-me. E no entanto posso dizer que caso ele tivesse sumido ou desaparecido eu teria ficado louco. O simples fato do corpo não ter sido atropelado, esmagado ou destroçado - o corpo estava praticamente normal - e de pode-lo sepultar no jardim causou uma imenso alívio em meu coração. Assim saber que não havia sido envenenado ou torturado por um humano... O fato dele ter morrido de circunstâncias até certo ponto naturais - Gatos são atacados e mortos por cães desde a aurora do mundo - e de ter podido recuperar seu corpo e sepulta-lo foi para mim um imenso benefício. O segundo - não me levem a mal pois julgo que os animais ou suas almas são tão imortais quanto as nossas - foi poder jejuar e comungar por ele no mesmo dia... Poder rezar por sua bela alma e encaminha-la a paz e ao repouso.

Continuei a rezar pela alma do meu gato dia após dia e a chorar sempre que sentia saudades. E ainda sinto. Credo que ele esta bem e que nos haveremos de reencontrar um dia obtive o conforto esperado. Não se trata aqui de esquecer mas de conviver... Temos de aprender a conviver com a dor e o luto é um excelente exercício introdutório. Considero esse tempo de retido e de reflexão muito importante...

Sepultar significa entregar nossos queridos ao Pai do céu e aceitar que se foram. Retirar-se da vida por algum tempo ajuda a compreender melhor este sentido da perda ou da separação. É um período ou momento necessário. Período de abrir mão, período de aceitar, período de encarar a nova realidade que se impõem. Reflete, insisto, uma necessidade psicológica e avanço dizendo que, se observado, poderia o luto servir como uma espécie de profilaxia da depressão. Deprimi-mo-nos porque não nos é dado um tempo para vivenciar a perda... Nossos queridos partem e continuamos a viver, a trabalhar, a brincar, a produzir, a sorrir... como se nada tivesse acontecido. O subconsciente não perdoa semelhante indiferença... O resultado será a tristeza crônica. Melhor assumir a tristeza de imediato e compreende-la, até que se vá amenizando. Tal o sentido do luto...



terça-feira, 3 de outubro de 2017

No 'inferno' do 'Amar é'




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Levante a mão quem ainda se lembra do álbum de figurinhas 'Amar é'.

Caso você seja dos anos setenta ou mesmo oitenta certamente ainda lembrará do simpático casalzinho castrado...

Época da Sarah Kay, da menina moranguinho, dos animais fofinhos, etc tudo muito bonitinho e encantador. E é claro que os namoradinhos do 'Amar é' não podiam fugir a regra...

Exatamente por isso eram desenhados muito moralmente ou seja sem os 'asquerosos' órgãos sexuais. Nem o menino tinha pênis nem a menina tinha vagina, eram ambos completamente lisos ou tapados, i é, sem buraco algum.

Orifício por onde fizessem o número um ou o número dois não havia e ficamos lá pensando se comiam ou bebiam qualquer coisa, e por onde saiam os refugos - Pela boca? Pelo nariz, ou pelas orelhas? A pergunta bem pode ter ocorrido a qualquer criança do nosso tempo (anos 80) e premiada lá com algumas palmadas por parte desses pais educadores que já não usavam a 'vara de marmelo'.

Eu como menino 'bíblico' ou crente só pude conhecer a 'Amar é' através de meus amiguinhos pagãos, que costumavam cola-las em seus cadernos e - pasmem, pasmem sim - havia sido orientado a não fixar os olhos em tais figurinhas, pelo simples fato de ostentarem corpos nus!

E como disse não havia ali sequer vestígios de órgãos sexuais ou qualquer coisa que insinuasse um pênis ou uma vagina! Era ambos castradíssimo e sem embargo disto, 'imorais'. Ao menos para parte da boa Sociedade.

Jamais pude esquecer o comentário feito por uma velha senhora diante de uma banca de jornais em cuja parte externa o proprietário havia colado um cartaz promocional das figurinhas:

-- Viu Minguinho (tal meu apelido de menino) a que ponto chegou esta sociedade (nem sabia o que era sociedade)? No meu tempo não se ostentavam corpos nus desse jeito, vou falar com o seo Morgado para não colar esse tipo de coisa na Banca.

Tá certo que a senhora em questão era de outro tempo... Tão certo quanto o menino e a menina serem lisos e castrados, e não haver qualquer sinal de, digamos, 'malícia' nas figurinhas. Exasperou no entanto muita gene mais nova e não estou convencido de que ainda hoje não exaspere algumas pessoas, especialmente os fanáticos religiosos... Sempre em guarda contra o corpo, a nudez e a sexualidade humanas.

Nem estou suficientemente convencido de que parte da Sociedade atual seja ainda mais fechada do que aquela dos anos 80...

Reeditado o álbum 'Amar é' em nossos dias, será que venderia mais??? Será que não fariam autos de fé pelas esquinas. Alegando que o casalzinho de castrados é decididamente imoral ou pecaminoso...

Uma coisa é certa meu senhor. Há quem se sinta incomodado com as simples linhas ou com o esboço pictórico de um corpo nu. No passado dizia-se nu artístico e não me parece que fizessem tanta bulha em torno dele quanto hoje...

Problema aqui é que não se tratam de casos isolados ou de pessoas psicologicamente desajustadas. Aparentemente essas pessoas melindradas são normais. O que temos aqui é a produção intencional de uma certa cultural maniqueísta ou puritana...

Dirá você que estou fazendo tempestade em copo dágua uma vez que a produção desse tipo de cultura anti corporal ou assexuada é produção que remonta há séculos.

Indubitavelmente meu querido, indubitavelmente. Consideremos no entanto que vivemos num mundo pós freudiano direcionado cada vez mais para a aceitação do corpo, do sexo e da nudez, não em termos de valores supremos (como querem muitos), mas certamente como algo natural.

Consideremos que o passado século, em que pesem exageros e abusos, foi um tempo de avanço. A tendência a que me referi acima era um agregado persistente, mas condenado, ao menos a longo prazo, a desaparição. As tendências mostravam isto...

Portanto o que me assusta ou incomoda é a retomada feroz desse tipo de discurso ou dessa produção cultural na mais larga escola. O que estamos assistindo, ao menos aparentemente, é a retomada de ideais e modelos maniqueus e puritanos que não só confinam com islã como preparam seu advento em nossas sociedades ocidentais. Há todo um discurso negativo ou pecaminoso em torno da nudez ou da sexualidade e cujo objetivo é produzir um generalizado sentimento de culpa entre as pessoas, especialmente entre as mulheres... o fim desse discurso é que após o corpo experimentar certa degradação ou a beleza declinar sucede o arrependimento, a conversão e por fim túnicas, icabs, burkas, shadores, etc como forma de penitência.

Que tais pessoas optem por ocultar seus corpos decrépitos deveria ser assunto de ordem privada. Lamentavelmente no entanto, assistimos a toda uma reação contrária ao direito dos demais membros da sociedade exporem seus corpos ao menos por parte de algumas dessas pessoas 'convertidas' a alguma religião qualquer... De fato elas não estão nem um pouco convencidas de que a tais pessoas assista o mesmo direito que assistiu a elas durante a juventude. Não é simples questão de arrependimento mas também de egoísmo inconsciente expresso pela forma clássica: Se não ouso mais mostrar meu corpo ninguém mais deveria poder faze-lo. Em tais situações as pessoas que ousam mostrar seus corpos passam a ser odiadas e quando não insultadas ou agredidas.

A parte da sociedade que se esconde o corpo e a sexualidade parece não se dar bem com a outra parte, seja a sexista ou a que busca viver com naturalidade, tornando-se ativamente hostil. Assim entre os que não vão a praia devido a questão da nudez costumam sentir-se molestados porque os demais vão e isto pelo simples fato de serem influenciáveis, covardes e não terem coragem para fazer o que querem. A pessoa que assume um princípio moral ou crença sinceramente e que busca vivencia-lo em máximo grau, via de regra não se preocupa com o comportamento alheio, apenas com o seu. A preocupação com o comportamento alheio em termos de Psicologia, denota sempre um insatisfação subjacente, desconformidade, insegurança e, é claro rancor. Rancor por achar-se obrigada a viver uma vida que não gostaria de viver.

Em termos de cultura no entanto o ponto de partida desta postura intolerante é a produção de um sentimento de culpa, relacionado com a retomada de um discurso maniqueísta ou puritano cujo objetivo é satanizar o corpo físico, a nudez e sobretudo a sexualidade humana. O que me suscita minha reflexões não é a sobrevivência circunstancial desde discurso enquanto mero agregado persistente mas sua decidida retomada em alguns contextos da sociedade brasileira, do que resultou toda esta polêmica assustadora em torno do homem nu lá no Masp.

Lamento por Fernando Sabino, autor impagável da Crônica 'O homem nu' já não estar mais entre os vivos para escrever um segundo conto ambientado lá no Masp...

Afinal, desta vez ao menos, é o mesmo povinho que leva os filhos no colo, durante os carnavais, para assistirem 'mulatas' (a expressão aqui é mesmo para despertar choque) semi nuas ou nuas em pelo, rebolando e se arreganhando na passarela... E quem se choca???

Tudo bem que pela primeira vez cobriram a globeleza com um vestido...

Homem branco rebolando nu em pelo foi o que a Globo jamais cogitou por.

A simples imagem da mulher negra nua, pobre, favelada, sem oportunidade na vida... estar ali se arreganhando diante de um montão de machos caucasianos com seus filhinhos impecáveis nos colos, é tão perversa que me faz lembrar as velhas vitrines de zoológico em que colocavam tipos humanos primitivos.

Se é mulher, negra ou morena, pobre, etc rebolando em cima de uma garrafa pode, é bonito... Agora basta expor a nudez de um homem branco, simplesmente sentado num lugar fechado para produzir exasperação... Meu Deus onde estamos???

Ah mais haviam crianças lá....

Ok, mas foi a exposição realizada para esse tipo de público?

Quem levou? Quem são os responsáveis? Que pretendiam eles? São seus filhos???

E se os pais quiseram levar as crianças ao evento para familiariza-las com a nudez, segundo a opinião deles, o que você tem a ver com isto??? São seus filhos??? Então você quer total liberdade para educar e criar seus filhos, surrando-os com a vara ou espancando-os por qualquer motivo e para os outros pais liberdade alguma???

Digo isso porque criança alguma foi posta ali pelo produtor do evento ou raptada!

Estavam ali porque foram conscientemente conduzidas até aquele lugar pelo poder paterno que vocês tanto endeusam em causa própria.

Alias quando o menino Bernardo foi assassinado pelos pais após ter procurado ajuda, qual a exasperação de vocês??? NENHUMA???

Vejam a disparidade!!!

Claro que a lei bem poderia, e é alvedrio seu, fixar uma idade mínima para a assistência do evento. Agora proibi-lo pelo simples fato de contar com a exposição de um Nu, de modo algum, de forma alguma. Não existe nada, absolutamente nada no nu que cause dano ao outro e se alguém adota o ponto de vista contrário não vá a exposição, não compre 'Amar é', não manuseie material pornográfico as ocultas, etc Uma vez que aqueles que encaram a nudez com naturalidade ou como parte da vida assiste o direito de contempla-la livremente.

Mas a contemplação da nudez é um pecado ou uma imoralidade.

OPINIÃO SUA.

Não minha, nem de outros tantos milhões de cidadãos honestos e trabalhadores que não teem problema algum de aceitação com relação a seus corpos.

Agora se pensa assim conduza-se de modo coerente, ao invés de pretender comandar os outros porque ainda há cidadãos livres nesta porra dispostos a não se deixar comandar por gente autoritária e controladora como você.

Se a questão é as crianças, que a justiça estabeleça um limite de idade quanto ao acesso a tais eventos. Claro que todos os cidadãos e todos os pais deverão obedece-los, como você deve obedecer a lei menino Bernardo e cessar de espancar seu filho ou apodrecer na cadeia. Se a questão é a lei, comece cessando de educar seu filho com a vara de marmelo ou de tortura-lo.

Agora quanto a exposição e acesso a nudez, cidadãos adultos e maduros não precisam ser tutelados por zelosos moralistas de fancaria. Vão viver seu azedume e sua amargura sem importunar os outros!

Não pensem que estou defendendo, como os esquerdopatas sem causa, a dimensão artística deste nu ou deste exposição de arte moderna, a qual deploro como psicologista, relativista, subjetivista, estúpida, etc Não sou nem pretendo ser partidário dessa arte degenerada a que chamam de moderna, sou pelo clássico, decididamente. E em questão de nu prefiro uma Vênus de Milos.

A questão a ser ponderada não é repito, a dimensão artística da produção, a qual bem pode ser negada ou questionada. Não sou dos que iriam a uns exposição de arte moderna, mesmo para ver o Gianecchini em pelo, palavra não iria. O foco da questão é a nudez e a aceitação do próprio corpo, pressuposto absolutamente necessário para a construção de um personalidade normal, sadia e equilibrada. A negação do corpo, da nudez e da sexualidade é o ponto de partida para o desenvolvimento de uma série de neuroses e distúrbios psicológicos, e francamente este mundo já esta cheio de anormais e de seres sem consciência explorando a anormalidade alheia com propósitos financeiros...

Comecei lembrando das coleção 'Amar é' com o simples traçado de corpos nus lisos e tapados. E termino formulando a seguinte pergunta: Será que no Brasil de 2030 alguém terá coragem de criar algo semelhante ou de reeditar o velho 'Amar é'??? Eis uma pergunta aparentemente tola que demanda nossa reflexão urgente! Que rumo estamos tomando e como será o Brasil do futuro?

sábado, 13 de maio de 2017

Por uma teologia da corporalidade


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Uma das poucas mudanças positivas (Dentre um aluvião de negativas) implementadas pelo 'concílio' (sic) do Vaticano II cumpre apontar a substituição da expressão 'Salvação da alma' - Lida e compreendida não poucas vezes como salvação apenas da alma ou incorpórea - por expressões tanto mais exatas como 'Salvação do homem' ou simplesmente da pessoa.

A mudança é pertinente e esta de acordo com a piedade legitimamente pautada no Evangelho e na mais pura tradição da Igreja.

Sempre bom lembrar, a luz da doutrina da Ressurreição da carne, que salvação sem redenção do corpo é sempre incompleta e imperfeita. Não sou eu quem o diz mas o escolástico, no tema - Razões porque devem os mortos ressuscitar, alias reproduzido em parte pelo Grande Catecismo Tridentino.

Antes de aduzir as razões porque devam os mortos ressuscitar na forma (Não no mesmo corpo mas na forma) do corpo, exporei as consequências contidas neste artigo de fé. Com efeito, se o homem deve ressuscitar mesmo após ter se 'salvado' em espírito é porque esta ordem de existência, de salvação incorpórea, é inferior a ordem posterior, fixada pela ressurreição dos corpos, esta apenas perfeita, aquela imperfeita.

Tendo vívido como uma Unidade corpórea e realizado suas ações virtuosas no corpo físico deve o homem ser recompensado também no complemento material deste corpo. É exigido pela justiça, determinado pela perfeição e fixado por Deus desde toda eternidade.

Assim salva-se o homem todo, e não apenas a alma ou o espírito imaterial. A salvação da alma ou imaterial não passa de estádio provisório e como tal não é perfeita. Todos os Católicos conscientes e instruídos deveriam estar perfeitamente cônscios a respeito disto.

Passo agora as razões aduzidas pelos escolásticos em favor da ressurreição dos corpos.

  • É o Deus Cristão, Deus encarnado e 'de bem' com os elementos materiais. Estando já 'presente no mundo' como declara o quarto evangelista ou melhor o mundo, que é finito, presente nele.
  • A condição humana foi ela mesma assumida por Deus no ato de sua encarnação e santificada pelo contato seu.
  • Os Homens, pelo batismo, são chamados a intimidade divina em seu máximo grau, tornando-se filhos adotivos de Deus.
  • Tornando-se filhos adotivos de Deus passam a ser receptáculos ou tabernáculos do Logos ou da consciência divina.
  • Imitando a Jesus Cristo pela obediência tornam-se participantes de sua ressurreição.

Assim é o corpo humano elevado a mesma dignidade que aquele que costumam atribuir a ela.

Então porque raio dizem alguns que a alma é superior ao corpo físico e em que sentido podemos dize-lo.

Observe que nem a matéria nem o corpo físico propriamente dito possuem consciência de si mesmos. Temos consciência de ser corpo por uma consciência que não é propriamente corpórea, que esta no corpo, que se manifesta por meio do corpo, mas que não é o corpo no sentido de que não se resume ao corpo. A consciência estando no corpo transcende ao corpo... O corpo esta nela e com ela, sendo percebido por ela e mesmo assim ela sabe que é algo a mais.

No homem apenas a consciência se desenvolve a ponto de tornar-se racional e livre. Racionalidade e liberdade são apanágios da consciência, não do corpo físico. Correspondendo a princípios operatórios destinados a comandar ou reger o corpo físico. Assim o corpo é relativamente inferior no sentido de que é dirigido ou comandado pela consciência, a qual é nosso princípio operatório.

É a consciência ou a mente que determina as ações executadas pelo corpo físico, o qual por assim dizer obedece o comando ou a determinação que parte dela.

Não somos consciências comandadas por corpos, mas corpos comandados por consciências.

Evidentemente que nossos corpos tem certas necessidades físicas que devem ser satisfeitas e as quais não podemos fugir. Com relação a tais necessidades não somos livres. No entanto mesmo quanto a satisfação de tais necessidades existem aspectos que não são necessários, exceto em determinadas circunstâncias. Assim se posso alimentar-me de batata, aipim ou abóbora posso já escolher de que alimentar-me, e se posso vestir linho, algodão ou canhamo, também posso escolher de que vestir-me... E vão surgindo os nichos de escolha e liberdade, que fogem a determinação.

Claro que podes optar por um determinado regime com base na determinação sensorial do sabor. Mas também podes optar por um alimento que sabes ser mais saudável ou mesmo por consumir determinado alimento para agradar a determinada pessoa, como podes recusar-te a faze-lo.

Assim dentro de determinados limites somos livres.

E nossas opções determinadas pelo princípio operatório da consciência.

Assim a tão decantada superioridade espiritual é puramente relacional e de forma alguma essencial.

Pois se o corpo físico é dirigido e comandado pela alma não é menos verdade que a mente dependa do corpo para manifestar-se neste mundo, para comunicar-se e para viver.

A existência terrestre só pode existir na dimensão do corpo e em comunhão com o corpo.

Portanto se esta dimensão da existência tem algum propósito ou valor da mesma forma o corpo físico, órgão do espírito e órgão absolutamente necessário a sua expressão.

Sem o complemento do corpo a mente inexiste para o mundo e o mundo para ela. 

Morto o homem perde totalmente seu vínculo com eles mundo, exceto em algumas situações especiais.

O corpo físico é órgão concedido a alma para atuar no mundo material, adquirir experiencialidade, conviver e aprender a partir dele.

Caso esta vida tenha significado ou tenha sido disposta conforme um sábio plano os corpos de que dispomos e sem os quais não nos é dado frui-la são de importância capital.

Isto porque quando a mente aparece neste mundo aparece apenas quanto a forma ou organização estrutural, não quanto a um conteúdo determinado qualquer. Quando se manifesta neste mundo é a mente uma tábua rasa quanto as informações ou conhecimentos propriamente ditos. Nascemos em estado de ignorância.

Por meio do corpo é que percebemos o mundo físico/natural que nos rodeia. Através dos sentidos é que percebemos a realidade. Através da dimensão corpórea é que entramos em contato com os outros, nos comunicações, nos informamos, interagimos e elaboramos nossa personalidade e construímos nossos conhecimentos. Pois a experiência do mundo externo e do outro nos é dada pelos sentidos presentes no corpo, sem os quais nada poderíamos perceber.

Se temos de viver neste mundo precisamos de um aparelho capaz de explora-lo e este aparelho é o corpo físico. Providos de um corpo físico podemos cumprir nossa trajetória. Desprovidos de corpo deixamos de existir para este mundo. Rompida a unidade existente entre corpo e mente por meio da morte, ao menos para este plano cessamos de existir e já não pertencemos a esta realidade.

Portanto caso esta condição ou forma de existência tenha sido ou seja querida por Deus, e se corresponde a uma via de acesso a perfeição, temos de admitir que a dimensão da corporalidade é um bem. Se o espírito para ser cultivado ou receber seu conteúdo carece de um corpo, não pode ser essencialmente superior a ele. Assim se a mente comanda o corpo também depende dele, e temos uma via de mão dupla. E já podemos concluir que o espírito foi planejado para o corpo e o corpo para o espírito, de maneira que atuem conjuntamente. Ficando estabelecida a igualdade essencial dos dois modos de ser.

Daí a necessidade de falarmos não numa redenção descarnada da 'alma' apenas, nas numa redenção total, completa e integral, salvação do homem e mais, salvação da sociedade, salvação do gênero humano, salvação do planeta, reconciliação completa, de todos os seres com o Espirito Supremo, Alma do mundo e princípio operatório do universo material; enfim com o 'Nous'.








terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Religiões: Sintomas de vida e morte... A agonia do Cristianismo e o fim da civilização humanista - Conclusão

Há mais de século tem o liberalismo moral Católico pugnado heroicamente contra o moralismo puritano assumido pela igreja. Juntamente com o liberalismo moral protestante tem suportado o repuxo das seitas bíblico puritanas. Tem assistido inclusive a formação de um moralismo difuso de origem naturalista ou secular. Em termos de convergência o liberalismo moral Cristã tem enfrentando uma reação sem precedentes.

É todo um esforço consciente ou inconsciente no sentido de identificar o Cristianismo com o moralismo e apresenta-lo como um sistema repressor destinado a policiar a sociedade e manter a 'ordem' estabelecida em termos de costumes.

A todo instante o moralismo lança seus ataques contra aqueles que tiveram a audácia ou a coragem de rebelar-se buscando desacredita-los e apresenta-los como não cristãos. Neste sentido contam igualmente com a solidariedade dos neo ateus, materialistas e incrédulos, os quais não esforçam-se menos para apresentar os cristãos anti maniqueus ou anti puritanos como ingênuos e incoerentes.

O resultado desta campanha é um esvaziamento progressivo em termos de número por parte do liberalismo moral.

Especialmente em seus principais centros que são a Europa e o Norte dos Estados Unidos. Isto porque o liberalismo moral encontra-se na dependência de uma cultura teológica elevada e esta na dependência do grau de instrução vigente numa determinada sociedade, noutras palavras do refinamento cultural.

Em certo sentido o liberalismo moral tem sido reforçado por uma posse tradicional da cultura cristã e por uma reflexão levada a cabo por sucessivas gerações. Tira suas forças dum processo histórico e experiencial que demanda tempo. Não é algo que surge do nada ou de improviso.

Dai sua ocorrência e predominância em centros tradicionalmente nimbados pela cultura Cristã há séculos ou milênios.

No entanto como após o abandono das formas litúrgicas e a deterioração da teologia a passagem dessas populações - pressionadas pelo moralismo 'Cristão' - para a incredulidade e para o materialismo tem sido cada vez mair rápida podemos observar uma defasagem cada vez maior do liberalismo Católico face as aspirações puritanas.

O que estamos assistindo no dealbar do século XXI é justamente a afirmação de um 'romanismo' ou papismo cada vez mais conservador, maniqueísta, moralista, puritano e intragável; ao menos para as populações esclarecidas do Norte.

De minha parte não desespero quanto a reconquista das populações do hemisfério Norte pela cultura Católica, desde que sejam satisfeitos os seguintes requisitos:

  • A restauração das antigas formas de culto (como expressão de contra cultura anti americanista) pré tridentinas, tridentinas, etc 
  • A adoção de uma teologia objetiva, sóbria, refinada, etc sob o influxo direto dos padres da igreja, especialmente dos padres gregos, e a consequente revisão de certos pontos quais sejam:
  1. O infernismo ou a doutrina das penas eternas
  2. O agostinianismo ou doutrina do pecado original e depravação total com todas as suas decorrências
  3. A monarquia papal ou infalibilismo
  • A superação do padrão maniqueista/puritano

Este último item é de importância capital tendo em vista suas ilações práticas.

Os ocidentais mais instruídos sempre serão capazes de assumir a ética do Evangelho e sua moral sumária em torno do Decálogo ou do Sermão do Monte.

No entanto jamais virão a abraçar, ao menos enquanto Sociedade, os modos de vida de um Moisés ou de um Calvino mesmo quando apresentados e impostos em nome do Cristo. O Cristo será sucessivamente repudiado e combatido porquanto estes fardos esmagadores não pertencem a ele.

Foi a imposição deste padrão estreito e irracional que tornou o nome de Cristo odiado por parte da população Ocidental determinando o esvaziamento paulatino da religião Cristã.

Assim o ponto de partida para a recristianização da Europa contemporânea deverá ser a revisão daquilo que chamamos moral Cristã.

Diria que é chegada a hora. Pois enquanto há vida (espiritual inclusive) há esperança, de abandonarmos os fundamentos primitivos e ultrapassados da moral judaica - enquanto puro e simples resíduo cultural - e elaborar uma moral 100% Cristã fundamentada no Evangelho ou seja nas palavras e ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. É o único caminho viável para a Cristandade futura mas implicará romper com o padrão maniqueísta ou puritano pelo simples fato de não esta fundamentado no Evangelho.

Quanto mais os líderes Cristãos insistirem em afirmar e impor os elementos da cultura proto israelítica e das tradições rabínicas ao povo de Jesus Cristo mais fortalecida saíra a incredulidade na medida em que a instrução avançar.

No entanto o cenário que estende-se diante dos papistas não é nada bom.

Uma vez que suas hostes avançam cada vez mais na África e na Ásia, além de conservarem-se ainda na América. Culturalmente falando a África é um celeiro de conservadorismo moral pelo simples fato de que a maior parte de suas sociedades, em maior ou menor grau, sofreu certa influência por parte do islã. Os africanos que aderem já crescidos ou adultos a fé Católica trazem para dentro da igreja sua moralidade e esta moralidade é quase sempre uma moralidade maniqueísta e puritana que ao menos em parte toca ao islã. Quando o Cristianismo atinge as tribos mais afastadas a moralidade livre e natural dos ancestrais extinguiu-se já devido a pressão social externamente exercida pelos povos arabizados.

A vida do islã e seus ideais de estrita moralidade alastram-se com mais rapidez do que a fé muçulmana e ao cabo deste roteiro vem desaguar na Igreja romana, islamizando-a a partir das igrejas locais existentes na África. Disto resulta a posição ultra conservadora assumida pelos cleros africanos (alto e baixo) em torno dos temas familiares e sexuais. Em tais tradições particulares de origem recente machismo, adultismo e homofobia são como que palavras de ordem.

Esta visão é completada entre eles pela teologia calvinista do Corão Cristão. Para as Cristandades do terceiro mundo a abordagem da cultura parece não fazer qualquer sentido... E seus Bispos e Padres continuam citando Paulo ou o que é pior a Torá como se fossem palavras de Jesus. Para eles a moralidade protestante ou muçulmana equivale a palavra de Deus! Não, eles não estão a altura do centralismo evangélico ou da soberania Evangélica, por simples questão de educação. A cultura em que estão inseridos não lhes permite compreender a realidade cultural da 'Escritura' em termos de variedade e complexidade. Ali tudo se resolve em termos de inspiração plenária ou linear e duma moralidade puritana, de que os africanos fazem-se campeões.

Outra não é a realidade de certas Sociedades asiáticas tradicionais como a chinesa e a nipônica com suas tradições igualmente patriarcais, machistas, adultistas, etc Que eles folgam ver reproduzidas na Tanak dos judeus e buscam reforçar quando aderem aos padrões católicos reforçando a reação moralista. Tal a perspectiva dos Cristãos indianos, que por rancor ou ódio, criaram uma moral de oposição marcada ao hinduísmo e portanto fortemente maniqueista, puritana e repressora.

Tal a situação alarmante em que se acham as freguesias 'Católicas' orientais, que a partir de tais posicionamentos, não podem deixar de encarar os diversos graus de liberalismo moral presentes nos Catolicismos ocidentais como uma 'heresia' formulada por homens brancos contaminados ao menos em parte pelo materialismo e o ateísmo. Entre as Cristandades niponizadas e islamizadas o liberalismo moral parece ser sempre índice de incredulidade.

Na medida em que o romanismo cresce em tais regiões sou levado a temer que se torne mais e mais conservador em termos de moral, interrompendo sua evolução e vindo a somar forças com o fundamentalismo protestante e o islamismo tendo em vista a afirmação de uma moral maniqueísta e autoritária. Ele tem diante dos olhos o luminoso exemplo do anglicanismo, do espiritismo, do budismo, etc No sentido de reconciliar-se com o corpo, a sexualidade, a vida, a ciência, etc E o triste exemplo das massas cooptadas e escravizadas pelo pentecostalismo e o islamismo...

Qual direção haverá de tomar???

Fica difícil calcular...

No entanto seja qual for ela não poderá deixar de influir poderosamente sobre diversas Sociedades.

Por isso esperamos que a igreja romana afaste-se cada vez mais do moralismo e do puritanismo, assumindo posicionamentos cada vez mais humanos, ditados pelo Evangelho de Cristo e pela rica experiencialidade presente em sua consciência histórica.

Expulsar o moralismo farisaico do corpo físico e visível da igreja histórica, tal o exorcismo que precisamos!

Que vá de retro o espírito essencialmente maligno do maniqueismo, pelo simples fato de apresentar como mau aquilo que esta em Deus porque Deus quis chamar a existência. 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Religiões: Sintomas de vida e morte... A agonia do Cristianismo e o fim da civilização humanista I

Definições necessárias:

  1. Maniqueísmo: Ideologia que encara negativamente a matéria, o corpo, a nudez e a sexualidade.
  2. Moralismo: Ideologia que coloca a moral, ou os costumes individuais, acima de tudo.
  3. Puritanismo: Moralismo exacerbado.

Moralmente falando o Catolicismo jamais foi uniforme. Destarte podemos dizer que ao menos em parte não era um sistema moralista ou de moralidade estreita. Embora nele houvessem moralistas e um setor moralista. No entanto até e dealbar da Reforma protestante este setor moralista enquistado no Catolicismo não foi hegemônico.

A crítica posta pela reforma protestante no entanto foi em grande parte moralista e moralizadora.

Paradoxalmente nem Lutero nem Zwinglio eram moralistas. Lutero por sinal como 'solifideista' era anti nomiasta e contrário a própria lei moral, bem como a vida ética. Ao menos não salientava a existência de quaisquer vínculos essenciais entre religião e virtude e afirmava um salvação no pecado, jamais do pecado.

A maior parte da reforma no entanto segui a opinião, tanto mais saudável, de João Calvino o qual não só era moralista ou melhor puritano, como buscava a fontes de sua moralidade na cultura judaica ou seja na Tanak ou na Torá, do que resultou uma moralidade sectária e judaizante até o legalismo. E todo conteúdo dessa reformação lança raízes no terreno do maniqueísmo.

Nesta perspectiva eram os Católicos de modo geral, e em especial aqueles cujos costumes eram ainda medievais, encarados como mundanos e permissivistas pelo simples fato de beberem sobriamente, de ouvir música, de dançar, de praticar algum esporte, de vestir roupas consideradas demasiado 'curtas' ou coloridas, etc

E ai no calvinismo damos com as fontes do farisaísmo pentecostal e desta religiosidade externa cujo foco é a comida, a bebida, a sexualidade, o traje, etc

Agora se contemplamos atentamente a situação da igreja romana percebemos que desde os séculos XVIII e XIX, e mais ainda hoje, a balança vem pendendo para o lado do moralismo.

Pelo que temos de nos perguntar: Será isto bom???

Em termos de História e Sociologia a resposta já esta formulada: O florescimento ou assunção de uma religião qualquer da-se em termos teológicos ou especulativos e seu declínio e morte em termos de moralismo.

A igreja romana foi teológica no primeiro milênio desta era enquanto parcela do Catolicismo Ortodoxo e ainda após o cisma, durante quase toda Idade Média e mesmo alguns séculos após o advento da reforma justamente devido a polêmica travada com os protestantes. No entanto após o Concílio do Vaticano II optou por mergulhar ainda mais no pântano do moralismo... Desde então sua teologia entrou em crise ou eclipse e o moralismo assomou em todos os setores em que pese a resistência e a atuação de um setor marcadamente liberal.

E com que guarra os Católicos afetando lemingues cerram as fileiras do moralismo insípido de par com os ministros protestantes!

De fato eles não são capazes de perceber que esse reducionismo moralista implica o empobrecimento da religiosidade e sua destruição. E concentrando-se apenas na vontade, bem ao sabor do agostinianismo, vemos que o papismo abandonou por completo os setores do intelecto e da estética... bem como o da ética ou da doutrina social. Deixou de ser espírito e vida para converter-se em receita de bolo comportamental...

Falaciosa é a interpretação tradicional que apresenta a 'contra reforma' como um movimento de oposição ao espírito protestante, quando foi no mínimo um movimento de conciliação. A maior parte dos Católicos confrontados com a metralhadora bíblica do protestantismo (mosaica e paulinista) não tardaram por entrar em crise e fazer um dramático 'mea culpa'. Sob um dilúvio de citações imbecis tomadas a Torá chegaram a ponto de reconhecer que seus ancestrais não passavam de uns vis depravados.

E assumiram uma 'reformação moral' na perspectiva dos maniqueus e puritanos. Tal a perspectiva de Trento, da qual o papismo jamais viria a afastar-se nos quatro séculos subsequentes. Foi um acolhimento receptivo da crítica protestante e uma incorporação atenuada de princípios protestantes. Tal o motor da moralização que se seguiu. E a orientação foi o abandono das alegrias mais inocentes relacionadas com os sentidos, a ocultação do corpo e a adoção de um código sexual cada vez mais exato e estreito.

Desde então o papismo passou a insistir obstinada e desastrosamente em temos como: a perenidade do matrimônio, o patriarcado masculino, a monogamia, a heteronormatividade, a vinculação prazer sexual - procriação, a separação dos sexos na sociedade, a adoção de figurinos ou trajes 'sóbrios', a condenação sistemática da gula e da embriagues, a 'satanização' da música profana bem como das danças... O que de algum modo remete-nos a 'santa Genebra' do assassino e ditador Calvino com as centenas de leis, normas, regras e dispositivos de controle postos para a uniformização do comportamento externo, e consequentemente para a criação ou reprodução de cópias humanas.

Surpreende-nos que o papismo tenha engolido esta isca feita com confeitos tomados ao judaismo antigo e lançada pelo reformador francês. A bem da verdade os católicos não apenas engoliram como degustaram o confeito calvinista até o deleite...

Por volta do século XIX a igreja romana era uma instituição marcadamente puritana e os liberais em matéria de moralidade um seleto grupo de rebelados mantidos sob vigilância. No entanto ainda havia alguma vida teológica. Porque ao menos no setor doutrinal e ritual havia oposição face ao protestantismo. O puritanismo no entanto é sempre conciliador, de modo que sem perceber a igreja romana foi engolindo mais e mais linha até aproximar-se mais e mais do protestantismo e assimilar outros tantos princípios e valores seus. E aqui esta a fonte do relativismo ecumênico, da RCC e de todas as sucessivas desgraças que abateram a infeliz igreja romana.

A porta de entrada de todas as bruxas foi a absorção do moralismo puritano. Não foi em vão que a igreja romana converteu-se em baluarte da causa no século XIX e numa Colônia do protestantismo cem anos depois (1960). A maior parte dos Católicos assumiu um sentimento de culpa que não era seu e desde então, ao menos inconscientemente, passou a admitir que de certo modo ou de certa forma - por ter provocado a contra reforma e a reformação moral - que a Reforma protestante havia salvo a Igreja romana (!!!). Surpreendente conclusão!

Agora se é mesmo assim por que vossos papas não canonizaram os reformadores ou melhor os salvadores da Igreja ao invés de terem-nos excomungado e anatematizado???

Aqui os Papa infalíveis não tiveram gota ou pingo de bom senso ao excomungar homens providenciais, digo os heroicos reformadores...

Então eles vieram prestar bons serviços a igreja demolindo toda sua vida sacramental e o culto mariano???

Mas quem é que ensinou os neo Católicos que uma mesma fonte pode deitar água doce e salobra ou que uma mesma árvore pode dar figos e espinhos???

Perceba-se a que situação vexatória o moralismo conduziu a antiga igreja romana???

E ela não pode sair deste abismo hiante porque mesmo os decantados tradicionalistas assumiram no mais alto grau este ideário protestante, post reformado, moralista e puritano...

E como a igreja assume padrão de autoridade, veio o moralismo a tornar-se legal ou a institucionalizar-se. Desde então a resistência liberal adquiriu 'status' de marginalidade.

Curiosamente tal não se deu no seio da corrente rival, o protestantismo. Ja por ser um sistema subjetivista e individualista. O que possibilitou a sobrevivência da tradição luterana ou antinomiasta em alguns setores e diversas tentativas de conciliação entre a fé e a moralidade natural contemporânea, ao menos na Europa e EUA. No protestantismo, devido ao livre examinismo, tais setores não ficaram marginalizados.

Na igreja romana, desastrosamente, a emenda saiu pior do que o soneto pelo simples fato de não oferecer outras opções de 'moralidade' como o protestantismo. Desde o século XIX, logo ela que possuia um lastro de moralidade liberal ou como dizem hoje de 'imoralidade' e contra cultura fundamentado nas idades Média e Antiga, passou a ser identificada como o que havia de mais reacionário e atrasado na Sociedade européia.

Continua