Algumas fés ou religiões tem mostrado certa sensibilidade face as exigência de nossa condição. Outras tem sido depositadas, desde que nasceram, no berço impuro do ceticismo.
Assim o Catolicismo tomou por divisa as palavras do Apóstolo Pedro: Fornecei aqueles que vos solicitarem as RAZÕES de vossa esperança.
Não se trata aqui de admitir que os itens de nossa esperança ou artigos de fé, seja diretamente acessíveis a natureza. Certamente foram comunicados por Revelação Sobrenatural i é pelas palavras de Jesus Cristo, consignadas nos assim chamados Evangelhos.
No entanto como o objeto desta Revelação sobrenatural era o gênero humana, necessário era que esta Revelação se conforma-se em certa medida com o caráter de seus destinatários. A exceção da Santíssima Trindade - o primeiro de todos os Dogmas, concernente a natureza íntima de Deus - todos os dogmas são por assim dizer racionais pelo simples fato de que, nenhum deles, ultrapassou os limites da razão humana, contrariando-a.
Não é que saibamos como Deus executou-os. Operacionalmente são mistérios porque não sabemos ou saberíamos como como faze-los. Formalmente porém, sabemos que não conflitam com as exigências do intelecto humano. Nossos dogmas nada tem de idiotas ou de loucos.
Por isso a Virgem sábia prudente, na posse da verdade revelada, do Evangelho, das tradições legítimas e do método; não pode temer as virgens imprudentes e toscas, sendo a primeira delas o protestantismo. Este sim nasce, com Lutero, negando a razão, questionando a experiências e castrando a teologia. O catolicismo não teme a razão e mesmo a Filosofia ou a Ciência. O protestantismo apenas nasce solifideista em todos os sentidos.
Desespera o protestantismo da razão e assume seu irracionalismo manifesto, fazendo apologia da loucura, porque é incoerente e assistemático. Jamais satisfazendo as aspirações racionais e sistemáticas de nossa condição.
E no entanto a inoculação do veneno irracionalista no corpo do Cristianismo, alias Católica, antecede em cerca de um milênio o protestantismo, pelo simples fato de estar em sua base ou de ter sido canonizado por ele. O protestantismo tomou e deu seguimento a tudo quanto havia de pior, de mais miserável e bárbaro na religião papalina; assim o gracismo/agostinianismo, assim o infernismo, assim a judaização... Foi abismo do abismo e precipício que chamou precipício. Não solucionou os problemas do mundo Ocidental, agravou-os, potencializou-os, piorou-os...
O ex maniqueu Agostinho de Hipona foi quem por primeira vez insinuou, já velho, a inoperância da razão face a fé. Principiou, como ex maniqueu que era, maldizendo a natureza humana e classificando como depravada ou essencialmente corrupta, deduzindo, logicamente, a inexistência do livre arbítrio e desbancando, por meio da predestinação 'judaica' no fatalismo mais abjeto. As ulteriores conclusões tirou-as apenas de leva, ficando portanto para serem referendadas por seus sucessores e continuadores. O certo é que desde então parte dos Cristãos católicos (do Ocidente) puseram-se a suspeitar da razão e a refugiar-se numa fé cega.
Mesmo Paulo, que é aleivosamente revindicado por eles - Paulo jamais ensinou o dogma abominável da transmissão do pecado adâmico - explicitou bastante claramente, que a existência de Deus é manifesta a razão a partir dos elementos do mundo. Apoiou a teologia natural de Sócrates, Platão e Aristóteles, repudiando de antemão ao que cognominamos 'teologia' (em sentido próprio) tradicionalista, no caso tributária do agostinianismo e condenada apenas em 1870 pelo 'concílio' (sic) do Vaticano I.
Concebendo a falsa doutrina da depravação total da natureza humana, Agostinho logrou abalar os fundamentos humanistas do Cristianismo, fundamentos porque o Cristianismo antigo ou pré agostiniano e semi pelagiano, assumia os pressupostos otimistas e aspirações pagãs a respeito da natureza humana, do racionalismo e da educabilidade. Agostinho lança tudo isto as gemônias e proclama um Cristianismo bárbaro, magico e fetichista. É a consagração do determinismo religioso, mas também do irracionalismo. O qual fica implícito em sua abordagem.
Temos aqui a aparição do homem frágil ou do coitadinho que tanto desfigurou e obscureceu o Catolicismo no Ocidente. Mesmo sem ser propriamente Católica mas agostiniana ou maniqueísta.
Importante salientar sua retomada pela mística franciscana nos séculos XIII e XIV. Pelo simples fato de que os primeiros franciscanos, procedendo das camadas mais baixas da população, não eram apenas teologicamente incultos, mas incultos de modo geral.
Lamentável é que um varão atilado como Ockham tenha ido nesta direção buscando justifica-la! Sem discutir sua epistemologia defeituosa, da qual passaremos a largo, cumpre mencionar dois dogmas seus: O tradicionalismo teológico, segundo o qual a existência de Deus não pode ser objeto de demonstração filosófica, metafísica ou natural, constituindo objeto de divina Revelação (!!!???) e o Irracionalismo, doutrina segundo a qual os dogmas do Catolicismo podem conflitar coma razão.
Aquino, ainda que defeituosamente, assume o legado transmitido pelo perípato. W Ockham não. A fé para ele é tudo e a razão nada...
Recomendo ao amigo leitor as obras publicadas pelos Jesuítas e dominicanos espanhóis, em especial os salmanticenses. Nas quais fazendo arqueologia das doutrinas, conseguiram estabelecer diversas relações causais e traçar a genealogia do ceticismo, do fideísmo e do irracionalismo desde Agostinho a I Kant - "O filósofo portátil de Lutero." - analisando cada elo desta corrente. Não se trata aqui de opinião subjetiva e arbitrária, mas de trabalho histórico, em que se recorre as fontes, apontando as afinidades e dependência dos autores uns para com os outros.
Não foi diretamente de Agostinho que o irracionalismo chegou a Lutero. Epistemologicamente, o monge saxão, é tributário do irracionalista e tradicionalista Gabriel Biel e este de Ockham. Tais os intermediários situados entre o Bispo de Hipona e o esposo de Miss Kate. Tais os professores e instrutores de Lutero com que pensam poder flertar impunemente nossos Católicos de 2017...
"Sancta simplicitas."
Tais princípios já foram plenamente desenvolvidos pelo 'reformador' contra o sentir da Igreja antiga!
Então o que vocês pretendem tomar de bom a esses mestres infectados pelo pessimismo antropológico agostiniano. Ser meio agostiniano não dá... Assim racionalidade e livre vontade perecem juntas e com elas a dignidade do homem como um todo, restando apenas a fé cega ou o fanatismo; em sua crueza e plenitude, infenso a reflexão teológica. O fim disto tudo tem de ser mesmo a Add ou a CCB...
Pura perda de tempo fixar nossa atenção em Lutero. Pelo simples fato de toda pessoa medianamente instruída em matéria de teologia saber que referiu-se a razão humana como a uma louca ou a uma prostituta - Assim a consciência - e que classificou Aristóteles como réprobo, pagão, corruptor, falso profeta, Mestre infernal, etc e isto pelo simples fato de ser o pai da Lógica, linguagem que Lutero por assim dizer abominava.
Quem desejar conhecer todo este palavreado grosseiro e vulgar há edições completas do rebelado alemão, sejam as de Wiemar ou as de Erlangen.
O Luterano Kant foi quem forjou o derradeiro elo desta cadeia anti humanista ou pessimista, com o objetivo de 'exaltar' a fé, compreenda-se o fideismo e abater a razão, compreenda-se o irracionalismo. O ceticismo já estava ali presente em todas as teologias agostianianas, bastando ao teórico alemão, transplanta-la aos domínios da Filosofia e negar a capacidade da razão em seu próprio terreno. Inviabilizando a metafísica, em especial a teodicea, e a demonstração racional da existência de Deus. Em detrimento de Aquino, Aristóteles e Platão, e de acordo com o sentir de Lutero, Biel e Ockham aos quais havia tomado por mestres.
Aos Católicos mal informados é necessário informar que Agostinho, Ockham, Biel, Lutero e Kant formam uma unidade doutrinal ou um continuo.
Querer quebrar esta corrente e isolar os elos é esforço inútil, que redunda em benefício do protestantismo ou da infecção luterana.
Alimentar os pressupostos negativistas do agostinianismo é alimentar a rebelião protestante até o pentecostalismo crasso.
É dever dos Católicos, sejam anglicano, ortodoxos ou papistas, tomar o caminho oposto e afirmar com os antigos filósofos e pensadores clássicos, a dignidade da condição humana ou seja a capacidade da razão e a existência da liberdade.
Não há outro caminho possível.
Estar com Agostinho ou Kant ou Ockham é postar-se ao lado de Lutero contra a Igreja, sua alta teologia e a Filosofia.
Pois o que temos aqui é pura e simples questão de pessimismo antropológico.
Se a percepção distorce ou disfarça a realidade, enganando o homem ao invés de informa-lo é porque há algo errado nele. A incapacidade da razão implica defeito no homem. Seu estado de ignorância insuperável pressupõem sempre desconforto ou mesmo punição...
O estado real do homem - supondo-o enganado pelos próprios sentidos - choca-se com suas aspirações ou com um ideal irrealizável de perfeição.
Não é apenas imperfeito, mas incapaz de perfeição...
O que nos levaria a questionar o caráter ou melhor a conveniência da própria criação.
Enfim só um mergulho na fé cega poderia 'explicar' as objeções que a própria fé cega levanta, arbitrariamente, contra a razão.
Tornando-se a fé onipotente, soberana, inquestionável.
Nada mais sedutor aos olhos dos fanáticos e de tantos quantos pretendam controlar despoticamente os homens em nome da fé.
Questão de pessimismo que se converte ou transforma em questão de oportunismo ou poder.
De fato eles estabelecem limites arbitrários ao exercício da razão - quando não chegam a nega-la sem maiores cerimônias - em nome da incapacidade humana. E fica o homem sendo incapaz...
Mas por que não é capaz?
Por que Agostinho, colorizando o velho maniqueísmo, proclama que em virtude de um certo 'pecado original' concebido em termos de transmissão, a natureza humana foi completamente transtornada ou corrompida em seus atributos, tornando-se inoperante ou incapaz.
Quem não percebe que esta gnoseologia pessimista ou negativa assumida por Kant supõem ou pressupõem um acidente de percurso ou um evento trágico como o pecado original, concebido nos termos colossais de um Agostinho, de um Ockham, de um Lutero ou de um Kant.
Nada que se possa postular em termos de natureza ou em termos puramente naturais. Do ponto de vista da natureza a percepção deve servir para informar-nos sobre a realidade externa ou para por-nos em contato com o mundo... Do ponto de vista da natureza a razão ou a lógica servem para estruturar, classificar, cruzar, analisar ou trabalhar as informações fornecidas pelos sentidos. Do ponto de vista da natureza não pode existir responsabilidade ou mérito sem liberdade. Simples assim...
Tal o pensamento dos antigos gregos e romanos, segundo nos foi negado pelos estudos clássicos.
A parte dos sofistas, preocupados apenas com o mecanismo do discurso, a Filosofia antiga, afirma uníssono a capacidade do Homo Sapiens para conhecer e até o define como um 'animal racional' i é marcado pela capacidade de raciocinar.
Mesmo os apóstolos Pedro antes de tudo, mas mesmo Paulo até certo ponto, não se separam dos antigos gregos. Este admitindo, no primeiro capítulo da carta aos Romanos, que a razão é apta para demonstrar a existência de Deus. Aquele declarando que há algo de racional em nossa bela esperança.
Sintomático que aos paulinistas luteranizados ocorra apenas a sentença segundo a qual: "A sabedoria dos homens é loucura para Deus." não porque nossos dogmas sejam irracionais, loucos ou imbecis mas porque Deus encarnou-se num homem humilde e morreu numa cruz. O que, mal compreendido, parece denotar insanidade... O próprio Jesus Cristo, alegara que este mistério - segundo qual Deus manifestou-se aos pobres e pescadores e não aos saduceus e fariseus de Jerusalém - permanecia oculto aos PODEROSOS (i é a elite econômica dos judeus). Não querendo dizer com isto que a ignorância ou a boçalidade servissem de introdução ao Cristianismo, mas que o Cristianismo fora destinado a emancipar e resgatar a dignidade dos mais pobres e humildes.
A questão aqui, e ainda em Paulo, é de pobreza ou miséria materiais, não de incapacidade intelectual, burrice ou estupidez.
Os pobres e humildes estavam mais aptos para identificar a manifestação de Deus na Carne, porque melhor do que quaisquer outros homens poderiam avaliar e compreender seu sentido, partindo a situação de angústia em que se achavam. O que permite aos pobres compreender o mistério de Cristo não é a incapacidade intelectual mas experiência do desespero, a miséria material e da angústia... Eles, muito mais do que os ricos, precisam de um libertador e consolador que lhes de sentido a vida, irmanando-se ou mostrando-se fraterno.
Os ricos e poderosos não precisavam de um Deus fraterno, e portanto não estavam aptos para compreende-lo. Tendo acesso a todos os prazeres que a riqueza e o luxo podem proporcionar, bem podiam contentar-se com um Deus espiritual e distante, entronizado sobre as nuvens dos céus. Os pobres apenas precisavam de um Deus vivo, presente, encarnado, solidário e sofredor até a cruz. Esperavam por um Deus sofredor ou companheiro.
É o que possuíam a mais, e por isso se achavam a dianteira dos outros.
A questão aqui é sobretudo se situação social e não de capacidade intelectual, esta jamais negada pelo Cristo, por Pedro ou mesmo por Paulo. Tal a perspectiva dos padres da igreja em sua luta contra o paganismo antigo. Foi todo um esforço para mostrar a irracionalidade e estupidez do sistema antigo, retomando os argumentos já emitidos pelos Filósofos fossem Sócrates, Platão, Demócrito, Aristóteles, etc e um simples repisar da critica naturalista dos antigos Filósofos já a religião precedente, já ao ceticismo arvorado pelos sofistas.
Agostinho foi quem guiado por um sentimento trágico e pessimista da existência, transtornado por suas experiência pessoais e subjetivas e influenciado inconscientemente pelo maniqueismo, elaborou um ensaio de crítica destemperada a razão... Multiplicando os mistério sem necessidade.
Curioso que o islã o tenha compreendido e assimilado, antes do próprio Cristianismo. Refiro-me a crítica fideista ou tradicionalista, elaborada pelos imames Achari e Gazali no século XII, desta era e que serve até hoje de base a ortodoxia sunita e a idolatria corânica. No islã, a demolição da Filosofia, conduziu a sociedade a um colapso social e estado de inércia ou prostração do qual jamais viria a sair. No Cristianismo, duzentos anos após Lutero, patrocinou uma reação naturalista, empirista, racionalista, semi cética, materialista e ateística que prossegue até nossos dias.
Afinal como poderiam os homens admitir um padrão de Cristianismo pessimista, negativo, obscurantista, solifideista, arbitrário e anti humanista para sempre?
Foi assim que de um extremo passamos a outro, e ao meio ceticismo editado pelo cristianismo agostiniano, luterano e protestante, passamos ao ceticismo crasso ou completo do tempo presente. O ceticismo religioso foi apenas um preâmbulo...
Parte da cristandade no entanto, preferiu abraçar outras certezas, não tão amenas ou consoladoras mais ou menos 'certas', a exemplo dos já citados materialismo e ateismo, do deísmo ou de outras formas religiosas. Nem todos puderam arcar com o ônus do ceticismo, fosse religioso, como o de Montaigne, ou irreligioso ou naturalista como o de Hume.
Tudo quanto podemos dizer é que este ceticismo religioso batizado por Agostinho, crismado por Ockham e santificado por M Lutero foi que introduziu o Ocidente nos caminhos dos diversos naturalismos subsequentes. Em termos católicos, propiciou e alimentou a apostasia, e continua alimentando-a até hoje. Pois alegar que o homem é um coitadinho, frustrado ou incapaz jamais saberá a uma 'Boa nova'. É uma nova maligna, um anti Evangelho.
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terça-feira, 11 de abril de 2017
Empírico racionalismo, ceticismo e Catolicismo
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quarta-feira, 16 de setembro de 2015
O 'espírito' da democracia ou afirmação da objetividade moral
Topei na "Nova Idade Média" de Berdiaeff com uma crítica bastante acida ao formalismo democrático, parte da qual reproduzo:
"A Democracia reveste-se ela mesma de um carater puramente formalista, ela própria ignora sua essência e, nos limites do princípio que afirma não tem consistência alguma... A democracia é indiferente a direção e a essência da vontade do povo, não dispõe de critério algum... para definir o valor da vontade... A democracia permanecer indiferente ao bem e ao mal.... é indiferente pois perdeu a fé na verdade... A democracia é cética e filha de um século cético.... Ela não pode admitir que a vontade do povo possa dirigir-se para o mal; que a maioria possa ser pelo erro e pela mentira, e que a verdade e o bem possam subsistir no seio duma pequena minoria... ela tem fé e cre que a maioria sempre acerta." 231
Considero trágicas tais palavras, mas imensamente atuais, geniais e profundas. Especialmente para mim que sou Policrata ou adepto da democracia direta.
Os democratas acima de todos devem ser honesto buscando compreender as limitações da democracia e estudar seus problemas. Críticas não deveriam apenas ser esperadas mas bem vindas.
Eu não tenho esta fé. No sentido de que a maioria acerta sempre.
Todavia no que diz respeito as coisas comuns e a esfera do político encaro a democracia como o sistema menos imperfeito ou mais seguro: todos enganam-se porém é muito mais facil que individuos isolados enganem-se e mais provável de que o coletivo acerte. Desde que haja ampla discussão!
Apesar disto a reflexão de Berdiaeff leva-me a duas conclusões:
"A Democracia reveste-se ela mesma de um carater puramente formalista, ela própria ignora sua essência e, nos limites do princípio que afirma não tem consistência alguma... A democracia é indiferente a direção e a essência da vontade do povo, não dispõe de critério algum... para definir o valor da vontade... A democracia permanecer indiferente ao bem e ao mal.... é indiferente pois perdeu a fé na verdade... A democracia é cética e filha de um século cético.... Ela não pode admitir que a vontade do povo possa dirigir-se para o mal; que a maioria possa ser pelo erro e pela mentira, e que a verdade e o bem possam subsistir no seio duma pequena minoria... ela tem fé e cre que a maioria sempre acerta." 231
Considero trágicas tais palavras, mas imensamente atuais, geniais e profundas. Especialmente para mim que sou Policrata ou adepto da democracia direta.
Os democratas acima de todos devem ser honesto buscando compreender as limitações da democracia e estudar seus problemas. Críticas não deveriam apenas ser esperadas mas bem vindas.
Eu não tenho esta fé. No sentido de que a maioria acerta sempre.
Todavia no que diz respeito as coisas comuns e a esfera do político encaro a democracia como o sistema menos imperfeito ou mais seguro: todos enganam-se porém é muito mais facil que individuos isolados enganem-se e mais provável de que o coletivo acerte. Desde que haja ampla discussão!
Apesar disto a reflexão de Berdiaeff leva-me a duas conclusões:
- Devemos traçar e muito bem os limites de nossa democracia estabelecendo o que lhe pertence e o que não lhe pertence para que não se torne 'totalizante' ou totalitária. Sim, pois uma democracia direta ou não também pode tornar-se totalitária, despótica e inadequada.
- Devemos reconhecer que há algo acima das democracias ou para além delas. Para não criar um estatismo democrático.
Na idade média as coisas eram bem mais fáceis e comodas. Havia um papa e este papa pensavam por todos e arbitrava sobre todas as coisas; inclusive sobre política, constituindo uma espécie de árbitro superior. Era o meio porque a esfera da religião sobrepunha-se a esfera imanente do poder temporal. No antigo oriente ou no Leste este meio era o concílio ecumênico.
Mudaram os tempos. Concílios tornaram-se impossíveis de serem congregados e os papas romanos passaram a ser apresentados não só como faliveis mas como usurpadores do poder secular ou viciados. Hoje temos uma ONU, a qual continua sendo falivel... Assim se é certo que o Papa romano procedendo por cálculo exorbitou seus poderes não é menos certo que os homens buscaram nele e na fé que representava uma espécie de tribunal superior capaz de revisar os atos políticos necessariamente falíveis.
Após o papa os protestantes tomaram por árbitro um livro: a Bíblia. Aqui a situação tornou-se ainda mais calamitosa porquanto a Bíblia sendo um livro ou amontoado de papéis desprovidos de vida e razão, é sempre incapaz de interpretar a si mesma. Interpretaram-na os homens, cada qual a sua maneira. Fermentaram opiniões, hipóteses, palpites, crenças, credos em grande quantidade, uns em oposição aos outros. Diversos Cristianismos e diversas seitas... O protestantismo com suas variações ou divergências interpretativas falho miseravelmente, perdendo a religião sua primazia em termos de Ética.
Foi, como já dissemos noutros textos nossos, tal primado diretor, assumido pelo elemento comum da razão humana inaugurando-se o período do racionalismo ou das luzes. E toda uma Ética, destinada a direcionar as relações humanas - fossem sociais, políticas ou econômicas - foi elaborada. Uma Ética firmada na transcendência (Conceitos de lei natural e Legislador Supremo) mas já naturalista veio a luz. A unificação foi iniciada com relativo sucesso... antes de estar concretizada no entanto apareceram Hume e Kant este proclamando a morte da metafísica.
Mudaram os tempos. Concílios tornaram-se impossíveis de serem congregados e os papas romanos passaram a ser apresentados não só como faliveis mas como usurpadores do poder secular ou viciados. Hoje temos uma ONU, a qual continua sendo falivel... Assim se é certo que o Papa romano procedendo por cálculo exorbitou seus poderes não é menos certo que os homens buscaram nele e na fé que representava uma espécie de tribunal superior capaz de revisar os atos políticos necessariamente falíveis.
Após o papa os protestantes tomaram por árbitro um livro: a Bíblia. Aqui a situação tornou-se ainda mais calamitosa porquanto a Bíblia sendo um livro ou amontoado de papéis desprovidos de vida e razão, é sempre incapaz de interpretar a si mesma. Interpretaram-na os homens, cada qual a sua maneira. Fermentaram opiniões, hipóteses, palpites, crenças, credos em grande quantidade, uns em oposição aos outros. Diversos Cristianismos e diversas seitas... O protestantismo com suas variações ou divergências interpretativas falho miseravelmente, perdendo a religião sua primazia em termos de Ética.
Foi, como já dissemos noutros textos nossos, tal primado diretor, assumido pelo elemento comum da razão humana inaugurando-se o período do racionalismo ou das luzes. E toda uma Ética, destinada a direcionar as relações humanas - fossem sociais, políticas ou econômicas - foi elaborada. Uma Ética firmada na transcendência (Conceitos de lei natural e Legislador Supremo) mas já naturalista veio a luz. A unificação foi iniciada com relativo sucesso... antes de estar concretizada no entanto apareceram Hume e Kant este proclamando a morte da metafísica.
Consolaram-se os doutos com a posse da ciência numa perspectiva nitidamente material ou materialista. Desde então o primado das relações humanas foi assumido pelo econômico (capitalismo e comunismo) ou pelo político e /ou étnico (fascismo, nazismo). Nada mais sobrepunha-se a máquina, ao mercado, ao estado ou ao parlamento convertendo-se tais instituições em deuses. Sem fé, papa, Evangelho ou a simples razão edificou-se uma ciência sem consciência! Até que a própria ciência e toda objetividade foi abatida pelos pós modernos. Restando apenas Estado, Nação e Mercado; fascismo, nazismo e capitalismo; e o pobre homem indo de uma a outra destas fúrias!
Após a falência da razão, o desaparecimento da Ética e o triunfo do ceticismo o econômico e o político converteram-se em 'tetos' da atividade humana. Teve como disse o escritor russo, a democracia de tornar-se meramente formal pelo simples fato de negar a existência de qualquer conteúdo objetivo exterior a si e, em certos contextos de regular por inteiro as vidas dos cidadãos. Invadindo os domínios questionáveis (???) do pessoal, o santuário do Ser.
Alias, quem poderia definir qualquer verdade objetiva exterior a atividade política do corpo social? O papa, o Evangelho, a razão, a ciência??? Após Hume, kant e os pos modermos a transcendência, a racionalidade ou a objetividade material unificadora foram substituídas por um vácuo. Nada restou acima do econômico e do político; do mercado, do parlamento ou da nação!
As pretensões do mercado, do parlamento e da nação tornaram-se abusivas e opressoras a ponto de desumanizar o homem. Apareceram as dinastias dos Stalines, dos Mussolinis, dos Hitleres, dos Bushes, etc Até mesmo as democracias cederam a tentação de ultrapassar a demarcação e legislar a respeito do que diz respeito apenas e tão somente a esfera partículas da personalidade e não ao espaço comum. Espremidas pelo liberalismo econômico algumas formas de liberalismo político ou democracia chegaram a ameaçar a matriz de todos os liberalismos: o liberalismo pessoal ou moral!
Quiçá não haviam lido ou compreendido as primeiras páginas do "Contrato social" onde esta muito bem escrito que certos direitos inerentes a pessoa humana não podem ser cancelados ou restritos nem mesmo pelo grupo social ou democraticamente. Mesmo que diretamente aprovada por todos os habitantes duma determinada Vila a confiscação de uma propriedade qualquer, fruto do trabalho de um de seus companheiros continuaria sendo um crime imperdoável. O máximo que a comunidade poderia fazer é indenizar o proprietário em questão se tal fosse de fato exigido pelo bem comum. Pois se tal não fosse rigorosamente exigido pelo bem comum, nem a título de indenização poderiam tomar posse de tal propriedade enquanto fruto do trabalho pessoal.
Tais os juízos que se fazem sobre a vida humana cujo valor é incalculável.
Mesmo quando aprovados diretamente por uma maioria.
Ocorre-me a condenação de Sócrates pelo Aeropago e a condenação de Jesus pelo Sinédrio: houve alguma discussão, houve voto, houve decisão da maioria e mesmo assim clamorosa injustiça! Por isso não creio na infalibilidade da maioria! Por isso não admito pena de morte exceto em caso de crises cometidos por fanáticos religiosos (uma vez que estes costumam assumir seus crimes e vangloriar-se deles).
Por isso precismos considerar o que esta fora e o que esta acima do político, mesmo sob sua forma democrática. Pois nem mesmo o grupo social tem o direito de regulamentar o comportamento pessoal ou o que esta fora do espaço comum ou da vida pública. A democracia não é nem pode ser totalizante e totalitária. Deve reconhecer seus próprios limites com absoluta precisão. Não pode fabricar autômatos como o fascismo ou a teocracia. Não pode legislar sobre todos os elementos da cultura.
A democracia para ser democracia deve conhecer as fronteiras da pessoa. Não os caprichos dos individuos que pretendam exercer domínio sobre o que é comum ou público. Mas os limites internos da pessoa.
Sob pretexto algum poderia a maioria democraticamente determinar que a totalidade dos cidadãos preferisse Coca Cola a Guaraná, que optasse pelo Verde ao invés do amarelo, que ouvisse gospel ao invés de rock, que comesse arroz no lugar de macarrão, que contraíssem matrimônio com fulano ou beltrano... pois são decisões que não dizem respeito algum a esfera comum do político mas as esfera particular da vontade pessoal. Em termos de preferências dietéticas, estéticas, sexuais, musicais, ideológicas (aqui até certo ponto) não cabe juízo político, mesmo sob a forma democrática. Alias seria essencialmente anti democrático pretender faze-lo.
Queremos dizer com isto que não existe liberdade social ou liberalismo político que possa sobrepor-se aos direitos da pessoa humana. Direito a vida, a conservação de sua integridade física, ao execício da liberdade alheia, a tolerância, a igualdade, a justiça, etc Bem pode o político estabelecer preconceitos como direito na forma da lei. Neste caso devemos preferir o bem e a justiça, mesmo quando fossem o machismo, o adultismo, a homofobia, o racismo, etc sancionados pela totalidade dos cidadãos da República. Neste caso deveríamos ficar com o que esta para além do político e da própria democracia: com a dignidade humana.
Implica reconhecer não só a forma democrática, que sempre poderia ser preenchida por qualquer coisa e reproduzir os erros da estatolatria nazista. Implica reconhecer a existência de um espaço Ético para além da democracia e do formalismo político. Implica reconhecer um espírito ou ideal de justiça que não pode ser tocado ou transtornado pelas mãos humanas.
Não podemos todavia chegar até aqui sem ressuscitar uma dama chamada razão. Elemento comum e unificador de todas as mentes. Não podemos nem queremos ressuscitar o papado. Não podemos mais tomar por critério o Evangelho profanado pelo livre exame. Não podemos tomar por guia as tradições particulares do Cristianismo Católico (em termos sociais). Uma Sociedade pluralista, laicista e democrática só poderia tomar por critério o elemento imanente e comum do raciocínio. O qual exercido em comum, mesmo sem chegar a ser infalível, será sempre seguro.
Levantamos a ponta do véu...
Para escapar aos monstros do capitalismo, do nazismo, do fascismo... da estatolatria... da teocracia... do formalismo político ou democrático temos de inserir ou insuflar um espírito dentro desta forma. Como um corpo sem alma não passa dum cadáver a democracia meramente formal, apartada do bem, da verdade e da beleza não passa duma casca. Receberá este espírito e viverá quando desprezar os profetas da modernidade e restaurar sua crença na capacidade da razão, elemento comum destinado a congregar a espécie humano em torno do mesmo ideal ético.
Recebendo este espírito de ideal ético converter-se-a a democracia formal num organismo vivo destinado a abarcar a sociedade humana como um todo. Mantida como simples formalismo desvinculado da cultura deixará de existir. Caso tal se suceda a civilização entrará em colapso e o mundo, mais uma vez, ver-se-a juncado de ruínas.
Alias, quem poderia definir qualquer verdade objetiva exterior a atividade política do corpo social? O papa, o Evangelho, a razão, a ciência??? Após Hume, kant e os pos modermos a transcendência, a racionalidade ou a objetividade material unificadora foram substituídas por um vácuo. Nada restou acima do econômico e do político; do mercado, do parlamento ou da nação!
As pretensões do mercado, do parlamento e da nação tornaram-se abusivas e opressoras a ponto de desumanizar o homem. Apareceram as dinastias dos Stalines, dos Mussolinis, dos Hitleres, dos Bushes, etc Até mesmo as democracias cederam a tentação de ultrapassar a demarcação e legislar a respeito do que diz respeito apenas e tão somente a esfera partículas da personalidade e não ao espaço comum. Espremidas pelo liberalismo econômico algumas formas de liberalismo político ou democracia chegaram a ameaçar a matriz de todos os liberalismos: o liberalismo pessoal ou moral!
Quiçá não haviam lido ou compreendido as primeiras páginas do "Contrato social" onde esta muito bem escrito que certos direitos inerentes a pessoa humana não podem ser cancelados ou restritos nem mesmo pelo grupo social ou democraticamente. Mesmo que diretamente aprovada por todos os habitantes duma determinada Vila a confiscação de uma propriedade qualquer, fruto do trabalho de um de seus companheiros continuaria sendo um crime imperdoável. O máximo que a comunidade poderia fazer é indenizar o proprietário em questão se tal fosse de fato exigido pelo bem comum. Pois se tal não fosse rigorosamente exigido pelo bem comum, nem a título de indenização poderiam tomar posse de tal propriedade enquanto fruto do trabalho pessoal.
Tais os juízos que se fazem sobre a vida humana cujo valor é incalculável.
Mesmo quando aprovados diretamente por uma maioria.
Ocorre-me a condenação de Sócrates pelo Aeropago e a condenação de Jesus pelo Sinédrio: houve alguma discussão, houve voto, houve decisão da maioria e mesmo assim clamorosa injustiça! Por isso não creio na infalibilidade da maioria! Por isso não admito pena de morte exceto em caso de crises cometidos por fanáticos religiosos (uma vez que estes costumam assumir seus crimes e vangloriar-se deles).
Por isso precismos considerar o que esta fora e o que esta acima do político, mesmo sob sua forma democrática. Pois nem mesmo o grupo social tem o direito de regulamentar o comportamento pessoal ou o que esta fora do espaço comum ou da vida pública. A democracia não é nem pode ser totalizante e totalitária. Deve reconhecer seus próprios limites com absoluta precisão. Não pode fabricar autômatos como o fascismo ou a teocracia. Não pode legislar sobre todos os elementos da cultura.
A democracia para ser democracia deve conhecer as fronteiras da pessoa. Não os caprichos dos individuos que pretendam exercer domínio sobre o que é comum ou público. Mas os limites internos da pessoa.
Sob pretexto algum poderia a maioria democraticamente determinar que a totalidade dos cidadãos preferisse Coca Cola a Guaraná, que optasse pelo Verde ao invés do amarelo, que ouvisse gospel ao invés de rock, que comesse arroz no lugar de macarrão, que contraíssem matrimônio com fulano ou beltrano... pois são decisões que não dizem respeito algum a esfera comum do político mas as esfera particular da vontade pessoal. Em termos de preferências dietéticas, estéticas, sexuais, musicais, ideológicas (aqui até certo ponto) não cabe juízo político, mesmo sob a forma democrática. Alias seria essencialmente anti democrático pretender faze-lo.
Queremos dizer com isto que não existe liberdade social ou liberalismo político que possa sobrepor-se aos direitos da pessoa humana. Direito a vida, a conservação de sua integridade física, ao execício da liberdade alheia, a tolerância, a igualdade, a justiça, etc Bem pode o político estabelecer preconceitos como direito na forma da lei. Neste caso devemos preferir o bem e a justiça, mesmo quando fossem o machismo, o adultismo, a homofobia, o racismo, etc sancionados pela totalidade dos cidadãos da República. Neste caso deveríamos ficar com o que esta para além do político e da própria democracia: com a dignidade humana.
Implica reconhecer não só a forma democrática, que sempre poderia ser preenchida por qualquer coisa e reproduzir os erros da estatolatria nazista. Implica reconhecer a existência de um espaço Ético para além da democracia e do formalismo político. Implica reconhecer um espírito ou ideal de justiça que não pode ser tocado ou transtornado pelas mãos humanas.
Não podemos todavia chegar até aqui sem ressuscitar uma dama chamada razão. Elemento comum e unificador de todas as mentes. Não podemos nem queremos ressuscitar o papado. Não podemos mais tomar por critério o Evangelho profanado pelo livre exame. Não podemos tomar por guia as tradições particulares do Cristianismo Católico (em termos sociais). Uma Sociedade pluralista, laicista e democrática só poderia tomar por critério o elemento imanente e comum do raciocínio. O qual exercido em comum, mesmo sem chegar a ser infalível, será sempre seguro.
Levantamos a ponta do véu...
Para escapar aos monstros do capitalismo, do nazismo, do fascismo... da estatolatria... da teocracia... do formalismo político ou democrático temos de inserir ou insuflar um espírito dentro desta forma. Como um corpo sem alma não passa dum cadáver a democracia meramente formal, apartada do bem, da verdade e da beleza não passa duma casca. Receberá este espírito e viverá quando desprezar os profetas da modernidade e restaurar sua crença na capacidade da razão, elemento comum destinado a congregar a espécie humano em torno do mesmo ideal ético.
Recebendo este espírito de ideal ético converter-se-a a democracia formal num organismo vivo destinado a abarcar a sociedade humana como um todo. Mantida como simples formalismo desvinculado da cultura deixará de existir. Caso tal se suceda a civilização entrará em colapso e o mundo, mais uma vez, ver-se-a juncado de ruínas.
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