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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

A miséria da arte moderna.

Resultado de imagem para arte moderna bizarra





Baumgarten, Baumgarten... raramente escrevo sobre Estética.

Aqui, mais do que em qualquer outro campo, escrever é polemizar.

Acusado de ser demasiado progressista (rsrsrsrsrs Nem tanto pois meu progressivismo não vem da 'caixola' mas, creia leitor, do passado - E por isso apresento-me como reacionário ou anacrônico. Jamais como conservador pois não creio que muito do que temos HOJE mereça ser conservado!) em moral, política, economia, etc devo ser classificado como 'conservador' ao menos nesta área, alias nesta única área. Conservador face a realidade estético acadêmica do século XIX, assim anti pós modernista ou mesmo modernista neste campo. Ou, como e caso queiram reacionário, ultra reacionário, caso admitamos que o modernismo está mesmo na berlinda. Odeio o pós modernismo e o modernismo com todas as forças da alma, inclusive na gnoseologia, mas, sobretudo na estética.

Então vamos logo ao 'prato' e que temos ai???

Temos arte dirão nossos amiguinhos pós modernistas e modernistas, eu direi que temos expressões meramente subjetivas preciosas para a Psicologia, mas não arte propriamente dita.

E por que não temos arte???

Não temos arte porque este festival de psicologismo é irredutível a qualquer avaliação objetiva ou exata em termos de técnica ou mesmo de ponderação estética. O que temos aqui é apenas emoção ou emocionalismo irredutível a qualquer padrão ou critério avaliativo exato, seguro ou objetivo. É algo que não se pode valorar com segurança ou a respeito de cujo mérito se chegue a qualquer acordo. Decretar que a arte moderna deva ser reconhecida como meritória por todos ou por toda crítica é rematado absurdo, filho de incoerência. Nada pode obrigar-me a mim ou qualquer outra pessoa a reconhecer valor estético nessa 'arte' reducionista e mutilada.

Ok, dirá você. Acaso a arte não deve contemplar a esfera do sentimento e satisfazer esta demanda?

Tolo seria, de minha parte, discordar de você. Claro que um dos aspectos distintivos da arte ou da estética é mexer com os sentimentos humanos. Claro que a contemplação da arte tem por fim despertar o sentimento ou a emoção estética. A fruição dos sentimentos e emoções faz parte efetiva da produção artística, por meio da qual o mundo externo não é apenas representado, mas, aperfeiçoado, na medida em que encontra seu ideal.

Então qual o problema?

O problema é que a parte não é o todo.

Fixar-se apenas e tão somente no sentimental/emocional, no subjetivo apenas ou no psicológico será sempre reduzir ou mutilar a condição humana. Afinal não é este homem apenas sentimento ou emoção e há nele um elemento de razão e outro de experiencialidade, os quais devem estar em comunhão e ser representados numa arte integral.

Certo, o sentimento deve ser posto na obra de arte. Assim a emoção. E deve ela causar impacto emocional. No entanto essa emoção deve ser expressa em comunhão com o racional e dentro de determinadas normas técnicas de execução que possam ser objetivamente mesuradas. Do contrário jamais poderemos avaliar esta arte.

Após o sentimento ou a emoção deve ser considerada pela crítica o elemento objetivo, racional ou técnico. A harmonia entre as tonalidades de cores, como salientou Van Gogh a respeito das magníficas telas de Millet; a forma do desenho, a perspectiva, etc Como deixar de considerar estes aspectos presentes na natureza???

Dirá você que o inconsciente não conhece normas e que a arte atual é expressão de um mundo onírico isento de regras. Então é apenas uma expressão psicológica de uma vida interior ou emanação das profundezas da mente. Algo que se reduz a psicologia ou fenômeno psicológico... Neste caso para que manter a farsa ou a encenação aparatosa dos concursos e prêmios??? Como distinguir expressões meramente psicológicas ou mentais umas das outras. Se por princípio todas as manifestações do inconsciente tem o mesmo valor (que é meramente subjetivo!) como premiar uma e não outra??? Em que uma simples manifestação da atividade mental ou da imaginação é, em si mesma, superior a todas as outras. Apenas a forma, vazada na técnica, pode comunicar superioridade ou inferioridade... E para a arte moderna e irredutível a qualquer controle externo e objetivo, a forma não é nada. E já não existe norma ou regra que nos permita julgar esta produção, declarando que uma seja melhor ou pior do que todas as outras. O que você tem ai são expressões livres do inconsciente... Como levar tais expressões a um concurso e premia-las como se melhores fossem???

Elaborações meramente subjetivas e fora de qualquer controle objetivo por ausência de normas não podem ser julgadas.

É exatamente por isto que X ou N podem enlatar as próprias fezes ou grudar catarro em folhas de papel e proclamar que é arte, arte moderna...

Mas que há de estético ou de verdadeiramente belo em cocô enlatado ou em escarro espalhado sobre o papel???

Bem se vê que a arte psicologista ou do inconsciente perdeu por completo seu sentido. A ponto de ignorar a contemplação estética de um ideal harmonioso ou a dimensão do belo.

Esta arte se contenta em impactar emocionalmente. Como se a outra, a formal ou acadêmica não contemplasse este aspecto há muito tempo ou a milênios. Como de a contemplação de um Polikleitos ou de um Parrasio não suscitasse absolutamente nada nos homens... Como se alguém pudesse permanecer indiferente face a obra de um Praxísteles ou de um Apeles!!! No entanto, além disto, havia norma e regra, uma técnica de execução a ser objetivamente avaliada ali. E bem se poderia justificar a excelência de um Fídias face a seus rivais sem maiores problemas...

Uma arte que se esgota na emoção ou no sentimento e que se proclama livre ou acima de todas as regras, além de trivial e fácil não pode ser avaliada.

É trivial porque qualquer criança pequenina, a qual seja dada papel e tinta, pode executa-la perfeitamente. Basta espalhar as cores com os dedos sobre o papel, tudo misturando... ou ensaiar algumas formas obscuras ditadas pelo senhor inconsciente. E alí estão as obras primas da arte moderna!!! Executadas por qualquer nascituro... Diante disto como premiar o pintor X ou o escultor N??? Se qualquer moleque recém nascido é capaz de exprimir a mesma coisa???

Mas a ser trivial é esta nova arte fácil e este é seu problema central ou basilar. Posto que não precisa ser estudada ou aprendida. É arte que não demanda esforço algum. Arte que não precisamos beber junto a um mestre consumado.

Admitida a arte sem compromisso da facilidade, a verdadeira arte, que demanda esforço ou aprendizado torna-se vulnerável ou posta a morte e ao desaparecimento e por isso mesmo, a concepção psicologista ou modernista da arte não deve ser encarada como algo inofensivo pelo filósofo mas como algo monstruoso. Afinal de contas por que qualquer artista iniciante haveria de tomar a senda estreita de um Delacroix ou de um Canova, ou de um Thorwaldsen se para obter a glória basta-lhe rabiscar ou bater com o martelo num bloco qualquer?

Dizer que todos são artistas criadores de obras primas é dizer que não há artista algum ou obra prima alguma. Mas... você sempre poderá aprender e criar pautando-se ao menos em algumas regras, o que de fato abre espaço ao talento.

Como sempre a esquerda desorientada adorou a demolição da arte acadêmica ou 'burguesa' - e assim relativa... Pelo simples fato de que todos os homens, especialmente os miseráveis, que não teem acesso ao estudo, a aprendizagem ou a formação, poderem apresentar-se como artistas, dentro de um padrão de igualdade absoluta.

Concedo que o monopólio estético da arte caiu nas mãos desta burguesia sem consciência, e que a arte acadêmica, em sua esfera, foi amiúde acrítica e servil. Que os donos do poder se tenham apropriado da beleza em proveito próprio é fato que deploramos. Aos simples e restou apenas o trabalho bruto e insano, e a criação do que chamam arte popular ou mesmo de massas, a qual nem sempre é alheia a cânones e regras... E nem sempre é feia ou isenta de méritos. Alias é sempre significativa quando a falta de técnica ou preparo aspira por um ideal de beleza a que não tem acesso.
Tal o contesto a partir do qual os comunistas e anarquistas (Sobretudo estes porquanto a URSS conheceu uma arte Realista, em que pese seu engajamento!) passaram a encarar a supressão das normas no domínio da arte como uma espécie de pré revolução ou peristilo da revolução... E tornaram-se eles iguais por essa nova arte antes de se tornarem verdadeiramente iguais quanto a vida social. Foi uma igualdade funesta. Por ter privado parte dessas massas da contemplação da beleza a que por vezes tinham acesso. A qual a um lado serenava e a outro educava... Contemplar a Notre Dame ou o Partenon jamais deixou de ser catártico para quem quer que fosse.

Mas essa ideia pós modernista, que implica encarar todas as manifestações livres do inconsciente como artísticas equivale, no plano da economia, em transformar todos os cidadãos em milionários pelo simples fatos de acrescentarmos alguns zeros a direita dos centavos, convertendo-os em milhões... Seria como nivelar todos pela mesma miséria após ter destruído todas as riquezas. Belo nivelamento, em que todos se tornem iguais pela falta ou pela carência! Quanto valia o título de cidadão romano quando a todos foi oferecido por Caracalla??? Devia valer muito pouco, se é que valia algo! Tornaram-se todos cidadãos por decreto porque a cidadania nada mais significava. Hoje a modernidade reconhece que todos os homens são artistas em estado de natureza justamente porque... Tire suas conclusões enquanto nas tais exposições de arte moderna oferecem fezes enlatadas ou catarro espalhado sobre o papel... Por que não engarrafam peidos???

A arte moderna não vulgarizou ou popularizou a arte. O que demandaria educação, escolaridade, alteração das estruturas, clamor, revindicação, etc A arte moderna demoliu a arte enquanto auto suicídio da arte e só podemos compreende-la a luz da imensa miséria produzida pelo capitalismo, tal e qual o fanatismo religioso, o pragmatismo, o ceticismo... Tudo miséria oferecida pela miséria. É forma de alienação por apartar o homem de um ideal de beleza que o acompanha desde Lascaux e Altamira, e que o fez erguer soberbas pirâmides e catedrais preciosas. A malignidade da avareza apropriou-se deste universo de beleza, a imbecilidade dos modernos negou-o.

Mas se enfim o que este homem moderno deseja é apenas chocar-se ou experimentar sensações análogas aos que experimentam aqueles que se atiram do Bungee Jump... Se objetivo é apenas fruir de sensações cegas e incontroláveis, inconscientes e irredutíveis a razão. Não há o que discutir. O homem se joga em seu próprio vazio, este homem mutilado e sem sentido. O problema aqui seria descobrir que sobre este ou aquele aspecto estas idolatradas forças do inconsciente não são seguras, ou que são destrutivas... Abismos há, ou fossas, cujas tampas só deveriam ser alevantadas num bom consultório de psicologia. Já disse, tais expressões, como exposições de arte moderna, são imensamente ricas (E eu mesmo a elas vou, como estudioso da psicologia humana - Alias sob seu aspecto patológico - ) do ponto de vista psicológico ou da anormalidade mental. Como expressões de arte são apenas o 'nada absoluto' ou a negação.

Sei que meu posicionamento chocará há muitos. Mas sei que serão apenas os psicologistas que satanizam o controle racional e que super valorizam a afirmação de um inconsciente irredutível a normas em todas as dimensões da atividade humana. Como disse não sou nada otimista face a estas forças cegas que se acham do outro lado da porta!

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Judaísmo, Paganismo e Cristianismo ou - O que a Igreja tomou do Paganismo?

Embora ousemos considerar o Cristianismo Católico (Ortodoxo) enquanto Ética e fé, como um fenômeno sobrenatural ou Revelado não podemos negar que esta auto comunicação do Sagrado tenha ocorrido no tempo e no espaço, alias num contesto cultural judaico, do que resultaram uma série de conflitos, um processo religioso e uma condenação, um homicídio.

Pois bem, nós não negamos que esta Revelação sobrenatural tenha ocorrido num cenário natural, e num cenário dominado pela cultura hebraica. O que nós não enxergamos é a suposta harmônia natural entre esta nova fé e a fé antiga. Jesus não nos parece muito bem enquadrado ou situado na Sinagoga. Foi o quanto procuramos demonstrar no artigo precedente.

Acabo de receber um exemplar da Folha universal ano 25n 1366 Ed de 17 de Junho de 2018 e constato, nas pags 04 e 05 que a IURD adotou vestimentas israelitas... Já construíram uma paródia do Templo dos antigos judeus, além de cultuarem menorás, arcas do pacto, estrelas e outros tantos símbolos do judaísmo antigo... Com dois mil anos de atraso. Grosso modo grande número de seitas pentecostais teem judaizado desde o século XIX ou adotado instituições do judaísmo antigo, após seus ancestrais, os 'deformadores' do século XVI, terem denunciado o sacerdócio Cristão como plagio do judaísmo ou do paganismo antigo e assim quase todo ritual, ao menos segundo a corrente dos calvinistas, os quais, surpreendentemente, morriam de amor pelo antigo testamento.

O calvinismo por sinal canonizou e reforçou um erro basilar, do qual a mente protestante jamais logrou furtar-se por completo. Lutero, aproximando-se do grande Marcion e reforçando algumas posturas do Cristianismo medieval - em que pese ter confundido as coisas e anunciado o anti semitismo - tinha consciência de que o Cristianismo e o Judaísmo correspondiam a mentalidades ou crenças diferentes e repudiava portanto uma dependência total do primeiro face ao segundo. Paradoxalmente o irracionalista Lutero não achou prudente alardear a versão tradicional a respeito da 'revogação' do judaísmo, o qual folgava apresentar como uma falsa religião, sem prestar maiores esclarecimentos. Calvino, embora fosse racionalista, abraçou com fervor a opinião corrente a seu tempo, alardeando que o Judaísmo correspondia a uma Revelação ou dispensação divina revogada em benefício de outra, a saber do Cristianismo... Teria assim o Cristianismo substituído o judaismo segundo ainda podemos ler em diversas apologias...

Num segundo momento os calvinistas foram deparando com diversos pactos ou alianças no corpo do antigo testamento, as quais haviam substituído umas as outras até chegarem ao Cristianismo e em tese atingirem sua perfeição final... Segundo declaram os mal orientados houve uma revelação Davídica, uma Noaquica, uma Abraâmica ou patriarcal e uma Sacerdotal ou Mosaica que teria vigorado até ser derrogada em benefício da Instituição Cristã. De modo geral é assim que contam embora hajam outras versões conforme é próprio da imaginação e da fantasia humanas. Os pentecostais tem partido dessas fantasias, menos e bem menos que de Joaquim de Fiore, deduzindo um novo pacto mais intenso, com o espírito santo... E a quem encaixe a suposta queda da Igreja antiga e a manifestação do protestantismo neste mesmo quadro... Afinal se existiram outras tantas revelações e alianças precedentes, todas revogadas e substituídas, quem nos garante que este movimento haveria de cessar? De modo que a Encarnação de Deus fica correspondendo a um evento apenas dentre tantos outros, até perder seu significado único...

O que queria dizer é que para os calvinistas o Judaísmo foi uma espécie de Cristianismo antigo, cujos mistérios haviam sido anunciados simbolicamente ou por meio de linguagem cifrada... Há inclusive quem empregue o termos 'igreja antiga', 'igreja judaica' ou 'igreja de Moisés', e por ai vai... Uma coisa é certa, todo Cristianismo, em termos de doutrina, ai estava, contido alegoricamente na religião do antigo Israel, na Torá, na Tanak, etc

Apesar disto, de par com os supostos elementos doutrinas Cristãos ou alegóricos, havia também diversas normas, regulamentos, estatutos, ensinamentos... Tipicamente judaicos, os quais, segundo pensam os calvinistas, eram igualmente sagrados enquanto produtos de uma comunicação divina. Os calvinistas acreditam que tudo quanto esteja registrado na Tanak ou AT seja divino. Creem portanto que a ordem para exterminar os cananeus partiu indubitavelmente do 'Bom Deus' de Jesus Cristo ou daquele Pai de Amor descrito no Novo Testamento. Eles creem que a legislação dos antigos hebreus, em sua totalidade, seja de origem divina e portanto que o Deus verdadeiro tenha sancionado não apenas a pena de morte e de morte dolorosa tendo em vista certos crimes de natureza civil, mas que tenha inclusive sancionado a execução de dissidentes religiosos e portanto condenado a doutrina do liberalismo religioso. São obrigados a crer que existam 'bruxas' ou feiticeiras como as de Salém e estão obrigados a queima-las sob pena de irreverência! E em outras tantas normas e regras devem crer como aquela que proíbe o corte da barba, que regula a semeadura dos campos, o uso de tecidos diferentes no vestuário, a dieta, etc E ELES CREEM E ALARDEIAM CRER QUE TUDO ISTO É DE ORIGEM DIVINA, MAS... ao contrário dos judeus ortodoxos, não buscam viver tais leis ou coloca-las em prática!

Mas como???

Observe agora a mágica dos calvinistas ou dos protestantes de modo geral...

A primeira coisa que fazem ao cruzar com um espírita é anunciar que a evocação dos mortos foi proibida pela Lei de Moisés no Antigo testamento... E com que empáfia o anunciam!

Dão sorte quando o espírita é de origem simples, se é ingênuo ou mal informado. Do contrário não tardarão a ouvir boa réplica: Ueh naquela mesma lei que proíbe os fiéis de comerem chouriço ou galinha a cabidela??? - Nosso espírita poderia citar centenas de regulamentos mosaístas que nossos protestantes violam sem maior cerimônia como o da tatuagem, o dos tecidos, o da barba, o da exposição a nudez ( e a maior parte de nossos protestantes vão a praia!), etc

A esta altura nosso calvinista, após engolir um pouco de saliva, responderá sem abalar-se muito (ele sequer tem noção do que esta a dizer!) - Acontece que nem todas as leis do antigo testamento permanecem válidas... Aqui atalhará um papista abelhudo - Mas o que do Antigo Testamento não foi abolido a exceção do DECÁLOGO???

Aqui nosso protestante literalmente pira, pois compreende que sua estratégia seletiva foi desmascarada... Afinal quem é que decide o que vale ou não vale do antigo Testamento; digo das leis civis e cerimoniais??? Afinal os incisos da barba, dos tecidos, da semeadura, da terra, etc JAMAIS FORAM POSITIVAMENTE REVOGADOS PELO MESTRE... Estarão todos valendo??? Neste caso por que nossos calvinistas não os cumprem, começando pela reforma agrária??? Deveriam ser todos confirmados ou validados por Jesus? Neste caso só nos resta a parte imposta ao jovem rico, a Lei moral ou o Decálogo, vindo todo resto da Torá abaixo... Aqui nosso protestante fica já desconsertado pois já não pode condenar o espiritismo ou os espíritas sem que sejam também eles fulminados pela 'boa' lei de Moisés, afinal S Tiago é absolutamente claro: QUEM VIOLA UM INCISO DA LEI VIOLA-A EM SUA TOTALIDADE... portanto se uma norma qualquer Lei judaica foi revogada é porque ela jamais fora revelada por Deus, sendo de origem puramente humana. Afinal Lei divina alguma pode ser revogada... Se você violar uma norma ou regulamento divino torna-se impuro ou sacrílego...

Mas os Cristãos jamais foram obrigados a cumprir qualquer lei judaica ou a viver a moda dos judeus, e por que? Porque os Cristãos sempre souberam que a cultura judaica era de origem puramente humana... Os protestantes, mais do que os papistas - logo avançando - é que divinizaram em vão a totalidade da Torá, criando uma tempestade em copo dágua para si mesmos. Afinal se com um raio fulminam os coitados dos espíritas com outro feixe de raios são fulminados pelo jao, no mesmo momento em que comem torresmo ou fazem a barba... Não podem viver atualmente o judaísmo, como nem mesmo os judeus ortodoxos conseguem vive-lo em sua integralidade. Observem os judeus moderados em compreenderão o que estamos falando.

Então seja assim dirá nosso calvinista contrariado. Se é certo que tais regulamentos e normas não valem mais e não regulam a instituição Cristã é certo que vigoraram no passado e que foram revogadas. Aqui o Neo Católico ou o luterano, por piedade ou complacência silenciará ou concordará e mesmo a quase totalidade dos nossos Ortodoxos. 'Nom nobis', nom nobis; pois em boa consciência perguntaremos a nosso calvinista como poderia Deus, sendo imutável e sem sombra de variação, mudar ou substituir uma 'lei' por outra??? E não se diga que ele, Deus, meramente desenvolveu ou ampliou esta lei na mesma direção porque, como vimos, uma autoriza a matança dos dissidentes religiosos - negando o valor da liberdade religiosa - enquanto outra reconhece que os homens são livres para não querer (Eu quis recolher teus filhos como a galinha recolhe o pintinho debaixo de suas asas e tu não o quisestes) e para resistir, sem que Jesus se mostra disposto a fulmina-los com raios, como queriam os Zebedeus! Aqui, onde há Espírito, parece haver liberdade; e mal sabem os Zebedeus por que espírito ou porque valores estavam sendo guiados, mas certamente não eram os valores daquele que disse: Amai-vos uns aos outros como eu vos amei! Ali os sacerdotes assumem o governo secular e comandam o extermínio ou reis são supostamente escolhidos e entronizados por Deus - Aqui a lei ou preceito é totalmente distinto: Daí a Deus o que é de Deus e a César o que é de César. Lá, naquela outra suposta lei divina, é deus quem associa, mistura e confunde... aqui, na Lei divina do Evangelho, a mancebia entre os poderes esta condenada e a teocracia perpetuamente maldita!

São leis totalmente diferentes, dando a antever mentalidades diferentes... Como portanto atribuir ambas as leis a mesma fonte, no caso Deus??? E sustentar ao mesmo tempo, honestamente, que este Deus seja imutável e sem sombra de variação. Quem não percebe que da Torá ao Sermão do Monte a mudança é drástica e alteração clamorosa? Que deduzir sinceramente a partir disto senão que o Verbo Encarnado Jesus Cristo encarava a Lei dos judeus como uma Instituição verdadeiramente humana e não divina? Como poderia ele criticar algo divino sem tornar-se sacrílego ou blasfemo??? Se se opõem, se emenda, corrige, revoga, etc é porque não lhe reconhece a divindade??? Como criticar liberalmente o que é divino? Como selecionar elementos a partir duma Lei revelada??? Todo discurso protestante ou calvinista sobre a matéria mostra-se equivocado e falacioso!

Então prepare-se para o paradoxo!

Pois o judaísmo era uma religião sacerdotal, que atribuía, segundo a Torá, o estabelecimento do sacerdócio a uma iniciativa divina. Pois bem que pensa o Calvinismo sobre o sacerdócio Cristão? Que é uma cópia do judaísmo ou do paganismo... e que o Cristianismo de Jesus - pasme - seja anti sacerdotal!!! No sentido de que Jesus apenas é sacerdote... sem que haja necessidade de outros sacerdotes conectados a ele. E o judaísmo, a que reputam por sagrado e revelado é sacerdotal, obedecendo a um princípio sacerdotal, que eles protestantes condenam!!! Agora como poderia este princípio ter sido divino e vigorado se Jesus é o único sacerdote??? Por conexão, respondem os protestantes. Os sacerdotes judeus representavam e por isso comunicavam algo de Cristo aos antigos judeus... Daí a validade relativa de se sacerdócio. Ueh, mas se o sacerdócio anterior a Cristo, exercido por judeus, podia tomar sua eficácia da conexão, por que raios não poderiam os apóstolos e seus sucessores, que viveram a realidade e na realidade de Cristo, exercer o mesmo sacerdócio ou um tipo análogo por conexão??? Qual o problema??? Não pode - responderá nosso embibliado, posto que a mentalidade de deus é oposta ao sacerdócio ou anti sacerdotal... E haviam sacerdotes no judaísmo antigo cujo sacerdócio era válido... Ao que parece a mentalidade de deus mudou ou sofreu alteração???

Aqui os protestantes, mostrando seu espírito ou viés neo platônico, tomado a Zwinglio, opõem-se tanto ao judaísmo antigo quanto ao antigo paganismo e afastam-se do universo inteiro, por repudiarem o padrão sacerdotal... Mas não ficam por aqui, são ousados, vão além, e negam todo e qualquer aparato simbólico ritual ou litúrgico, opondo-se mais uma vez ao judaísmo antigo e ao antigo paganismo, como neo platônicos que são, a exemplo de Ulrich Zwinglio.

Judeus e pagãos ofereciam sacrifícios sangrentos a seus deuses, e nós não cremos que os sacrifícios dos primeiros ou de quaisquer outros fossem solicitados pela Santa divindade. Mil trezentos e cinquenta anos antes desta Era o faraó Aknaton decretara que os sacrifícios sangrentos fossem substituídos por sacrifícios de flores, frutos e perfumes. Posteriormente foi a vez de Çakia Muni, Sidarta Gautama, Tatagata ou Buda como costumamos dizer, cancelar tais sacrifícios entre as gentes do oriente, substituindo-os do mesmo modo por flores e perfumes... Já o Cristianismo antigo compreendeu que podia ter acesso ao sacrifício de seu fundador manipulando o pão e o vinho, estabelecendo um sacrifício incruento de louvor.

Os elderes do passado, a seu tempo, consideraram que esta quebra do tempo e do espaço ou este sacrifício de pão e vinho era algo demasiado solene para permanecer despojado daquelas cerimônias simbólicas a que a humanidade como um todo atribuía tanto valor. E por isso, guiados pelo Espírito prometido e depois pela prudência e pela sabedoria apropriaram-se do aparato ou linguagem simbólica comum a humanidade, e revestiram este sacrifício de uma pompa e solenidade magníficas. De fato, sabendo que a divindade fosse perfeita, pagaram tributo estético a beleza impulsionando a expressão da arte.

Disto resultou que a exemplo dos queridos hebreus, aos quais não faltava certa noção de reverência, consagraram a Santa divindade as coisas ou objetos que empregavam no culto público e dedicaram-lhe além de altares acessórios e alfaias ou seja cálices, castiçais, turíbulos, vasos, ânforas, cruzes... e toalhas, cortinas, véus... E certas roupas, que vieram a converter-se em paramentos... E cruzes, evangeliários, ícones, etc E templos... e uma arquitetura específica. E instrumentos musicais, como o órgão... E sinos (Jarash)... Tudo com o objetivo de abrilhantar este culto. Mas não se limitaram aos elementos materiais, pensando da mesma maneira na ação humana, em como coordena-la de modo harmonioso e sóbrio. Surgindo a ordenação das preces, os hinos, a poesia... O Calendário litúrgico com as festas do Senhor tomadas ao Evangelho... A regulação do Culto ou liturgia com seus gestos ou sinais simbólicos cada um dos quais contém um ensinamento ou uma mensagem didática a ser comunicada a gente simples - Daí o emprego de cores diferentes para cada tempo.

Tudo isto construiu a mãe igreja com sabedoria e prudência, ao largo dos séculos, servido-se das mais diversas culturas e tentando encontrar elementos comuns. Embora não deixasse de se adaptar a certas particularidades culturais, do que resultaram diferentes liturgias ou ritos numa saudável variedade.

De modo geral os protestantes atribuem a origem de todo este aparato, odioso, ao paganismo antigo e costumam apresenta-lo como uma contaminação, noutras palavras, como a apostasia da igreja apostólica, e isto é necessário para que possam justificar sua reforma i é sua própria existência. Grosso modo os esotéricos como Ledbeater e A Besant, referendam esta versão, aceita por grande parte dos Cristãos Católicos.

Chegando a este ponto temos de fazer algumas observações.

Nem são os atuais judeus neo platônicos ou infensos a simbologia ritual; como seus ancestrais não o eram.

Se é verdade que os antigos judeus não estavam plenamente sintonizados com a imanência - Pelo simples fato de que jao é um ser puramente espiritual e informa que jamais se encarna ou assume aparência humana - seria faltar totalmente com a verdade caso os apresentássemos como totalmente desvinculados dela, a maneira de muçulmanos sunitas ou melhor de neo platônicos e já adiantamos que fé alguma assumiu de tal modo e maneira o ideal neo platônico como o protestantismo de matriz Zwingliano/calvinista.

É verdade que os protestantes esforçam-se por nos apresentar os antigos judeus sob tal prisma pelo simples fato de não poderem confeccionar representações de jao ou mesmo de seus ancestrais, os patriarcas e profetas. Os fariseus, antes dos protestantes, pareciam querer ir em tal direção... No entanto o culto legítimo, autorizado pela escritura ou pela lei deles era oficiado por sacerdotes num templo, o que pressupunha toda uma ordenação ritual bastante semelhante a do Catolicismo ou do Paganismo antigo; não os antigos judeus não fugiam a esta regra e não eram nem um pouco 'espiritualizados' ou neo platônicos, a ponto de olvidar que eram espíritos postos em corpos físicos ou materiais e não espíritos desencarnados.

De fato não possuíam imagens ou representações. O que não tornavam o culto deles menos pomposo ou solene do que o culto pagão. Ficando o culto protestante ou 'espiritualizado' e despojado de símbolos, vagando em mesmo as nuvens da religião a exemplo da sogra de Pedro... Alguns batistas neste sentido assumem de imediato a inusitada pretensão protestante, segundo a qual o cristianismo, em oposição ao judaísmo, ao paganismo e a condição humana, teria inaugurado ou inventando um novo padrão de culto que é só seu e que pode ser definido como um repúdio a todas as formas de aparato simbólico ou mesmo de simples organização ou forma. Não se trata aqui apenas e tão somente de um culto completamente despojado de elementos materiais mas de um culto decididamente espontâneo ou subjetivo conduzido por supostos profetas, videntes ou inspirados... A ponto do culto público protestante nada ter de comum, convertendo-se numa mera associação temporal de cultos individuais - Isto a ponto de cada fiel ajoelhar-se numa direção distinta...

Claro que a pretensão nem é judaica, nem Pagã, nem Cristã, mas protestante e de origem neo platônica. Os antigos judeus como os judeus de hoje possuiam arcas, vasos, tabernáculos, rolos, mantos de oração, menorás, lampadários, trombetas, livros, procissões, gestos, etc Na Sinagoga de Dura, inclusive, representações de seus ancestrais e de outros tantos símbolos que lhes eram caros... Quanto as cerimônias do templo é possível fazer alguma ideia a respeito delas e de sua orientação apenas folheando o antigo testamento. O certo é que muito antes de Cristo os judeus piedosos adicionaram outras tantas festas e criaram um calendário... E que cada uma destas festas possuía simbologia própria, comportando um ritual. Os Salmos que os protestantes tanto estimam (Tehilim) eram o hinário dos antigos hebreus e já se vê por eles que empregavam a repetição ostensivamente... A respeito dos pagãos a regra era mesma e não ficavam atrás dos judeus. Eram tão reverentes a ponto de regressarem ao início de uma cerimônia caso o sacerdote cometesse algum erro mínimo... Como os judeus eles aspergiam seus profitentes com água, ungiam-nos com azeite...

O Cristianismo foi desde o princípio ou desde seu berço que é o Evangelho uma fé sacramental em sintonia com a matéria ou com o corpo físico. Jesus bem podia ter curado o cego com o poder de sua palavra, mas quis empregar barro e saliva - Os protestantes chamem-no de bruxo, mago ou feiticeiro caso queiram. O Certo é que ordenou o uso do pão, do vinho e da água, que são elementos materiais; e isto nos parece muito pouco espiritualizado ou neo platônico. Queiram ou não nossos fanáticos e sectários o batismo e a eucaristia envolvem algo mais do que palavras. A darmos fé ao Evangelista ele também empregou azeite, dizendo que os santos apóstolos ungissem os enfermos e há quem com excelentes razões, nisto veja, o sacramento da unção final. Além disto, segundo lemos no Livro Sagrado, o Senhor quis soprar o Espírito Santo sobre os apóstolos, empregando um gesto... Os apóstolos a seu tempo tomaram alguns dos crentes destinados a funções especiais e impuseram as mãos sobre eles, empregando um outro gesto... Embalde os protestantes fogem aos elementos materiais e ao recurso gestual pois topamos com eles no S Evangelho e cremos que deram origem a cinco grandes ordenanças quais sejam o Batismo, a Eucaristia, a Crisma, a Ordem e a Evkelaion...


Agora por que teria ele empregado livremente tais elementos ou linguagem corporal? Pela mesma razão segundo a qual se fez homem assumindo um corpo físico e uma dimensão material. De modo que a adoração ou o culto, embora partindo do espírito que é a fonte da racionalidade deve englobar a dimensão física do corpo exprimindo por meio de símbolo, e, em se tratando da adoração comunitária de símbolos comuns capazes de unir a congregação num só corpo e numa só mente; o que supõem uma adoração coordenada, sob pena de não ser nem sóbria nem racional. A adoração neo platônica ou espiritualiza foge a tais termos, foge ao judaísmo e foge ao Cristianismo ou ao Evangelho, é um padrão recente e inventado.

Resta esclarecer, a partir do que foi dito acima, que se tomamos muito do paganismo também tomamos aparatos do judaísmo. Assim a túnica preta dos sacerdotes ou batina corresponde a indumentária dos judeus piedosos do tempo do Senhor. Assim os mantos, os turbantes, a Skouphia, etc Assim a túnica habitual ou pastoral a que os latinos chamam batina e nós exorason. A túnica de ofício, alva ou Sticharion é branca porque os sacerdotes tanto judeus quanto pagãos usavam uma túnica branca e acreditasse que os judeus tenham tomado esta costume aos antigos egípcios. Os demais paramentos sacerdotais parecem ter se desenvolvido a partir do antigo vestuário pagão.

O costume de oferecer incenso num turíbulo era comum a todas as religiões antigas. O antigo testamento apresenta-o como uma ordenação divina. O altar Cristão difere tanto do pagão quanto do judaico por ser coberto com alfaias ou toalhas, isto se deve ao fato de não receber sacrifícios sangrentos. As velas ou castiçais são comuns ao judaísmo - o AT atribui essa ordenança a divindade - e ao paganismo antigos; relacionando a divindade com a luz. Os vasos sagrados eram empregados tanto pelo paganismo quanto pelo judaísmo e de tal maneira tidos em conta de sagrados que os judeus atribuíam a morte de Bechurusur de Babilônia ao fato de te-los empregado num festim profano, o que os rabinos diziam sobre Pompeu Magno e Tito Flávio. O calendário como dissemos era comum aos judeus e aos pagãos... A forma ou modelo de nossos templos são associados ora a antiga Basílica pagã, local onde se oficiava a justiça, ora ao templo dos judeus; de modo geral veio a assumir a forma cruciforme. Os sinos (Jarash) substituíram as trombetas empregadas pelos antigos hebreus. O órgão ao que parece era já empregado pelos judeus em seu templo bem como os demais elementos da fanfarra ou banda. Já dissemos que judeus e pagãos faziam aspersões com água e unções com óleo ou azeite. As procissões também eram um costume comum, os judeus no caso carregavam sua arca ou modelos da arca com rolos de livros. Os judeus e pagãos empregavam a prostração, o ajoelhamento e a saudação ou a inclinação em seus atos de culto. A prática de cantar a liturgia ao invés de recitar ou falar foi tomada ao judaísmo ou as religiões orientais.

De modo que nosso aparato simbólico é tributário tanto do judaísmo quanto do paganismo, de ambos os quais tomamos muitas coisas.

O calvinismo, paradoxalmente, mesmo afetando amor intenso pelas instituições judaicas, distorceu a História e buscou apresentar todo aparato simbólico da igreja antiga como pagão na mesma medida em que despojava-se dele assumindo valores neo platônicos. Num primeiro momento o protestantismo apelou ao antigo testamento com o objetivo de julgar e condenar a igreja, já num segundo momento julgou o judaísmo e desprezou tudo quanto possuía em comum com o paganismo e com os catolicismos... De fato o relacionamento dos protestantes ou do protestantismo com aquele livro não foi coerente mas ao que parece marcado pelo oportunismo, o mesmo oportunismo que levou-os a desfigurar os judaísmo antigo e moderno em benefício de um padrão descanado ou espiritualizado que remonta a U. Zwinglio.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Exigências filosóficas e educacionais em torno de um Catolicismo consciente e de qualidade -

"Penso alias que o Cristianismo do futuro virá a ser constituído por um agrupamento de elites. O HOMEM COMUM SERÁ SEMPRE INCAPAZ DE ASSIMILAR ESTA SUPREMA TOTALIZAÇÃO DO MUNDO." Rahner, Karl in 'Viagem aos centros da terra' Horia, Vintila - Verbo, 1972 p 107
 
 
 
O erro de Nina Rodrigues

           Nina Rodrigues - um afro descendente alias - errou gravemente ao declarar que o Catolicismo consciente - com sua alta teologia - era inacessível a nossos negros em função de serem negros i é da raça ou da etnia.
           Qualquer explicação ou teoria que apele a critérios raciais será sempre pífia, artificial e simplória. O racismo implica falta de imaginação e imensa miséria intelectual. Segundo G Santayana e Arnold J Toynbee os alemães, luteranos, forjaram essa xaropada a partir da crença dos judeus na eleição, transplantada ao Cristianismo pela reforma protestante - devido a sua predileção pelo antigo testamento face ao novo (Aqui Maurois - História da Inglaterra) - e mais tarde secularizada. A simples sugestão de terem, eles alemães, merecido a graça divina da reforma protestante bastou para engrandecer-lhes o ego. Eram o Novo israel ou povo eleito, superior a todo os outros.

Errou pois Nina Rodrigues seu alvo, mas não podemos dizer que errou feio. Talvez tivesse chegado a periferia da Verdade e quiçá acertado o alvo caso tivesse levado em conta a situação sócio cultural dos nossos negros, a qual era uma situação de miséria extrema e, consequentemente de falta de instrução. E podia ter dito o mesmo sobre nossos índios e nossos brancos pobres, que não faria qualquer diferença.

Se há uma coisa que o Catolicismo não é e não pode ser é religião de Massas isto pelo simples fato de que as massas incultas e grosseiras não podem assimilar-lhe a beleza dos mistérios e a profundidade da teologia (quanto ao 'Catolicismo' romano ou ocidental excluo as ridículas doutrinas da graça - graça/gracismo - e das penas eternas, que são absolutamente bárbaras e grosseiras, aqui a Ortodoxia e o alto anglicanismo levam franca vantagem!).

Por isso ao ser professado pelas massas incultas o Catolicismo torna-se logo popular ou folclórico assumindo uma feição totalmente diversa de sua feição original e divina. No passado, entre a gente simples do campo, sucedeu algo nesse sentido. Limitou-se porém a certas formas externas e simbólicas já presentes na cultura ancestral pagã, da qual o Catolicismo apossou-se com o objetivo de transmitir sua mensagem. A bem da verdade a gente do Campo em sua maior parte jamais ultrapassou os rudimentos da fé. Sempre alimentou-se de leite, jamais de alimento sólido ou consistente. E no entanto a dinâmica social do campo, que é lenta, conservadora e tradicional, assegurava a manutenção daquele padrão religioso... E enquanto assim foi os Catolicismos puderam sentir-se seguros.

O povo das cidades é mais irriquieto. Multidões de tontos para lá confluem e formam bolsões de massas... E essas fermentam, dando origem a versões degeneradas da fé, assim o Catolicismo popular.


O Catolicismo popular ou degenerado é um culto grosseiro e fetichista em torno de bonecos pintados... Floresce onde quer que hajam massas incultas, no campo ou na cidade. O do campo porém é por tradição submisso, o citadino pode se tornar mais resistente.

Seja como for, podemos definir o Catolicismo autêntico como uma reflexão em torno do Mistério da Encarnação de Deus e suas decorrências, o qual depende necessariamente de uma farta educação Filosófica, clássica e escolástica, sem a qual fica sempre embotado ou frustrado. Da mesma maneira como a formulação teológica dos elementos da fé, implicou por parte dos antigos padres, a assimilação do conteúdo filosófico oferecido pela antiguidade clássica, a apreciação de tais fórmulas ou de tal reflexão demanda certa afinidade com aquela tradição filosófica.

Para o Cristão Católico estudar a Filosofia perene, os clássicos, o pensamento antigo jamais será ocioso.

Ele passa e deve passar pelo vestíbulo ou pórtico da Filosofia. A um lado a compreensão do Catolicismo exige todo um arcabouço intelectual ou preparo. A outro nossa fé estimula e não pode deixar de estimular uma formação cuidadosa e integral em termos de educação. Formar homens para o Catolicismo é formar homens fartamente instruídos e integramente formados.

E esta necessidade de uma educação vigorosa em termos de Catolicismo, suscita e coloca diante de nós um terceiro problema -

Afinal um tal projeto educativo supõem uma sociedade muito bem estruturada, em que prevaleça qualidade de vida não a miséria.

Falemos em termos de tempo - Um tal projeto educativo formativo demanda tempo... Implica que as pessoas trabalhem menos ou que crianças e jovens não trabalhem de modo algum, aprendendo apenas. Uma educação de qualidade não pode ser feita as carreiras, educação feita as carreiras é esta educação formal, meramente tecnicista e acrítica feita para o Mercado. Este tipo de educação não esta de modo algum de acordo com o ideal Católico. Este homem sumariamente educado pelo Mercado e para o Mercado jamais logrará compreender os mistérios da Fé Católica. Por outro lado uma educação humanista e totalizante não poderá deixar de suscitar diversas críticas ao mercado.

Por isso nosso modelo educativo não passa da superfície. Por isso não desmassifica. Por isso jamais emancipa a pessoa humana. Letramos apenas... fornecemos um conteúdo básico ou sumário as pessoas e é o quanto bastará para encaminha-las, como veremos, ao sectarismo protestante ou ao pentecostalismo, que é um sistema irracionalista - i é imensamente pobre em termos de racionalidade - e voluntarista, pelo aspecto do fetichismo. Massas sumariamente instruídas ou letradas jamais poderão assimilar os mistérios do Catolicismo, mas, tampouco se conformarão em viver uma religiosidade demasiadamente determinada... Julgando-se livres e impulsionada por seus interesses precipitar-se-ão nos braços das seitas da prosperidade.

As condições sociais produzidas pelo liberalismo econômico em termos de miséria, injustiça, angústia, desespero, revolta, frustração, ignorância, etc constituem o meio ideal para a proliferação do pentecostalismo. Afinal trata-se de um sistema religioso do qual o mistério e os elementos da Filosofia foram completamente expurgados, e isto a ponto da razão ou da racionalidade ser formalmente repudiada e do pensamento clássico ser condenado como diabólico por sua conexão com o paganismo antigo. Em tais condições o Catolicismo, a menos que mutile a si mesmo, e se reduza, e assuma novas formas de compromisso sempre perigosas, estará sempre em desvantagem.

O homem dos campos, por tosco que fosse ainda podia sentar-se a porta da choupana ao cair da noite, contemplar o céu azulado, fixar seu olhar nas estrelas distantes e refletir a seu modo sobre Deus e a alma... O homem que vive na cidade moderna, sob a sombra dos arranha céus, tem o firmamento sobre si sempre cinza. Chega semi morto a casa e busca dormir, apenas para despertar e tornar a trabalhar no dia seguinte. Nascer, crescer, casar, procriar, trabalhar, descansar, tornar a trabalhar, descansar, tornar a trabalhar... é tudo quanto sabe fazer. Este homem não tem muito tempo para pensar e refletir. E quando lhe sobra algum tempo é natural que busque anestesiar a si mesmo por meio de alguma distração ou diversão. Natural que se dirija a uma taberna, a um baile, a um circo, etc e não a uma Igreja Católica cujo ritual sóbrio e simbólico não foi concebido para 'alivia-lo'. Então onde irá este homem desencontrado do século XXI??? Irá a pseudo Igrejas que reproduziram a mesma atmosfera irracionalista ou emocionalista da taberna, do bar, do baile, do show - Irá a um culto pentecostal onde pessoas repetem palavras de ordem, gritam saltam e fazem piruetas, saindo de lá aliviado, por ter exteriorizado toda sua revolta! Mas, como disse o culto divino Católico não serve para nada pelo simples fato de ser um culto divino e não uma forma de terapia. Ele não foi feito para que o homem esmagado pelas forças impessoais do Mercado exteriorize sua revolta... Não é o culto feito para este ambiente desumano.

O Catolicismo, ao contrário do que dizem muitos apologistas ineptos, seja dito para sua honra, não foi feito para ambientes desumanos. Para sua glória neste ambiente naturalista, economicista e materialista, que não é o seu, agonizará e morrerá. AQUI O SUPREMO PARADOXO DO CATOLICISMO, OU FIEL AO SENTIDO DAS OBRAS, TRANSFORMARÁ O AMBIENTE EM QUE VIVE OU SERÁ DESTRUÍDO POR ELE.

Conviver e viver num ambiente de ignorância e miséria produzido não pela natureza mas pela maldade humana, alias de pessoas que se dizem Cristãs, não poderá. Enganam-se assim os milhões de 'meio' Católicos ou de pseudo católicos que acreditam poder nossa fé conviver pacificamente com o novo mundo produzido e governado pelo Capital ou pelo Mercado. Este mundo foi produzido com o apoio do protestantismo para deleite e desfrute do protestantismo, o qual corresponde a uma forma muito menos imanente ou encarnada de Cristianismo. A uma forma solifideista, descarnada e neo platônica... Irracionalista... Imediatista... Emocionalista. Todos estes elementos encontram-se na Sociedade do capital e na nova forma de 'cristianismo' produzida na Alemanha.

A ideia segundo a qual o Catolicismo possa ou deva conviver socialmente ao lado da miséria e da ignorância é uma ilusão, uma triste ilusão a mais insidiosa de todas as falácias... Elas degenerarão a fé Católica e corroe-la-ão a semelhança de um câncer. Eis porque as massas se protestantizam/pentecostalizam e como venham talvez a islamizar-se. Perdendo nossa cultura toda sua vitalidade. Não a cultura do capital, mas a autêntica cultura Católica, da totalidade, do espírito, do sentido, da vitalidade... a qual morre não morre, desde o século XVI.

De fato nossas massas alienadas pelo mercado, incultas e barbaras, e exasperadas e revoltadas não estão no acesso do Catolicismo (exceto deste Catolicismo modernista e degenerado que assimilou elementos protestantes e sua 'espiritualidade' irracionalista) e sequer no acesso de formas religiosas mais evoluídas como o espiritismo ou o budismo - As massas são feitas e estão postas antes de tudo para o pentecostalismo com sua imensa pobreza. Querem um show, não uma liturgia. Querem milagres, não uma doutrina social. Querem gritar chavões, não assimilar uma ética. Querem vestir camisas com frases bíblicas, não viver o compromisso da fé. Querem bailar, dançar e cantar, não compreender. Querem fugir, não transformar... Recuam decididamente para o céu ou o além túmulo. Aspiram por catástrofes apocalípticas... Assumem um derrotismo instintivo e esperam que este mundo seja consumido pelas chamas!

Não creem, como Lutero não acreditava, numa graça vitoriosa, capacitante ou triunfal, mas numa graça fraca sob o judo do pecado e num homem sempre curvado e fragilizado. Sua soteriologia é pessimista... sua antropologia é pessimista... sua escatologia é pessimista, pois não creem na recuperação do mundo ou no triunfo final do Evangelho. Elas não acreditam que a encarnação de Cristo esteja em fase de ampliação ou expansão na Igreja. Creem no recuo ou refluir da apostasia. Tal a fé ou a cultura dos protestantes assumida por uma multidão de Católicos incoerentes. Os quais aprenderam a conformar-se com o mundo, ao invés de lutarem heroicamente contra ele e conquista-lo e cristianiza-lo.

Nem mesmo a altura dos cultos africanos - nos quais a presença intelectual é igualmente mínima - estão nossas massas produzidas e alimentadas pelo capital. também os cultos afro não tem grande chance de expansão devido a seu elevado conteúdo ritual e simbólico que este homem vulgar de 2018 já não pode assimilar. O simbólico causa mal estar a este homem, pelo simples fato de não poder compreende-lo (Kenneth Clark)

O homem massificado sequer consegue compreender a linguagem estética da arte numa perspectiva clássica, com desenhos e adornos que ele, filho de um século utilitário, julga ociosos. Eis porque o modernismo assumindo a este utilitarismo imposto pelo mercado ou de origem economicista empobreceu a própria arte. Desde então nossas casas e móveis deixaram de ser arte ou de conter algo de artístico, prevalecendo o critério funcional das linhas... Tudo é linha e apenas linha. Tudo é forma geométrica e nada mais, pois a única coisa que importa é a função do objeto. No entanto como disse Theóphilo Gautier - "Se tem utilidade ou uso não é arte.". Por isso nossas joias são obras de arte, porque não tem utilidade alguma... O nível de barbaria é tanto que para este homem desumanizado a própria existência da arte tornou-se supérflua. Jamais tivemos tantos doentes mentais como nos dias de hoje, apesar de termos superado o maniqueísmo e o puritanismo do século XIX... Neste caso porque continuamos enfermos? Talvez porque trabalhemos em demasia... Talvez porque a insegurança em termos de trabalho e estabilidade econômica nos encha de angústia... Talvez porque negando a existência de Deus tenhamos perdido o sentido... Talvez porque já não contemos com o 'conforto' da contemplação estética do belo através da arte... Certamente graças a cada um desses fatores.

Insisto, sequer o islã xiita esta a altura deste homem desumanizado e despersonalizado, e profanado pelo liberalismo econômico. A miséria dos corpos contaminou e atingiu a alma abandonada a suas próprias forças, este homem que é apenas vontade numa perspectiva fetichista alimentada pelo desespero será pentecostal...

A Igreja não esta apta, e jamais estará, para concorrer com o pentecostalismo em seu ambiente. Mudará o ambiente segundo sua ética, conforme seus princípios e valores, a luz do Evangelho e da tradição dos padres ou ficando frustrada, esvaziar-se-a. Os Católicos sinceros, inda que mal orientados, esperam algo de concreto do Catolicismo, teem a intuição de que ao contrário do protestantismo nossa fé e mais do que uma fé... Intuitivamente ainda identificam o Catolicismo como uma Lei, a lei de Jesus Cristo, e portanto como um elemento que inspira e comanda todos os setores da existência e da atividade humanas. O Catolicismo certamente nos abre as portas do céu, mas desde que mantenhamos nossos pés sobre este mundo, em conexão com o próximo, com o semelhante, com o irmão, buscando servi-lo concretamente e minorar seus sofrimentos. Ser Católico sempre será, em última análise, saber identificar-se e compadecer-se. Não se tratá aqui duma mera teoria, mas como disse, de uma postura vital! Bem se vê que é algo totalmente distinto do protestantismo, com sua união direta com deus na perspectiva individual ou egoísta, e do liberalismo econômico, com seu ensinamento de que o outro é sempre nossos concorrente ou rival na luta insana pela vida.

O que nos preocupa sobremodo não é o recuo dos Catolicismos pois em outras conjunturas culturais recuperar-se-iam. A perspectiva de uma sociedade pluralista, tal como foi descrita por Karl Rahner a Vintila Horia (1972) não nos assusta. Ter de conviver com budistas, hinduístas, judeus, neo pagãos, deístas, agnósticos e ateus, numa perspectiva de respeito e tolerância civil não nos exaspera. Caso nosso Cristianismo recobre sua consciência e dignidade, caso nosso Catolicismo se torne mais profundo e comprometido, até teremos lucrado.

O que nos assusta e preocupa sobremodo é a expansão, a afirmação e o predomínio, entre nós, do pentecostalismo ou das formas protestantes Norte americanas... Não estaríamos nem um pouco preocupados caso o romanismo estivesse a ser substituído pelo espiritismo ou pelo budismo. Afinal toda crença trás em seu bojo elementos culturais... E o bojo cultural dos calvinistas e judaizantes de século a século tem sido o sonho de uma Sociedade teocrática em moldes muito semelhantes ao do islã sunita ou salafita com sua sharia. A sharia aqui, para nossos fanáticos, é a torá. E já conhecemos o fim trágico de tudo isto na Alemanha nazista, no Oeste Norte americano... No apartheid...

Aqui negros, indígenas, brancos e mestiços, igualmente tocados e transtornados pela miséria e pela idiotice haverão de ser presas fáceis de uma religiosidade que prima pela miséria em todo os sentidos... Pois não estão, como disse Nina Rodrigues a mais de cem anos, no acesso de uma religião tão elaborada quanto o Catolicismo, como sua alta teologia, com sua escolástica, com sua doutrina social, com seu sentido estético, com seu ritual simbólico, etc Quando a RCC não passa de uma descatolicização do próprio catolicismo ou de sua degeneração interna... é uma protestantização e portanto uma negação e esvaziamento do próprio Catolicismo cujo espírito, na perspectiva do princípío de contradição, é afirmação face a tudo quanto o protestantismo obstinadamente nega. O conflito, mesmo dentro da igreja continua dando-se em termos de espírito entre o principio Católico, positivo e na dependência da Encarnação, e o princípio protestante, negativo e na dependência do judaísmo e do neo platonismo.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O ateísmo, o agnosticismo, a Kalokagathia e a morte da Estética I


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 "Só é realmente belo o que não serve para nada. Tudo quanto é útil contém certa de fealdade." Theóphile Gautier


É a palavra Aesthetica/estética, que remete ao grego aesthesis (sensação), de origem germânica tendo sido concebida por A G Baumgarten em meados do século XVIII. Querendo designar a sensação relacionada com a contemplação/fruição da beleza.

Já a palavra Kalokagathia, era empregada pelos antigos gregos com o objetivo de expressar seu amor pelo quanto fosse Bom e Belo, naturalmente que o Bom e o Belo deviam ser Verdadeiros. Assim por extensão este vocábulo servia para designar um ideal de Bondade, Beleza e Verdade cultivados pela cultura helênica. Tal o tripé sob o qual repousavam todas as demais virtudes encomiadas pelo divino Sócrates e seu Pupilo Platão. Para nossos nobres e excelentes ancestrais o Bom, o Belo e o Verdadeiro eram como expressões da mesma perfeição divina. Compunham uma unidade que não podia ser fragmentada e que era expressa pela Ética, a Lógica e Estética.

Segundo Platão o ideal mais puro de beleza estaria relacionado com os tipos ideais ou isentos de acidentes, presentes na dimensão das ideias e não com os seres reais a que chamava de cópias. Toda cópia é imperfeita e imperfeita devido aos acidentes que produzem as variações. Neste nosso mundo há diversos tipos, no mundo ideal um tipo apenas. Temos então de remover os acidentes do ser concreto para atingir o ser ideal, e mesmo assim a tarefa não era muito fácil. Seja como for os gregos perseguiram-na...

Não se contentavam com a posse de verdades ou com o verdadeiro apenas e nem podiam conceber uma verdade que fosse feia ou isenta de beleza. Examinaram a si mesmo, olharam para dentro de suas almas e nelas descobriram uma sede perene de beleza. O Resultado disto foi o templo de Diana Efesina, o Partenon, o Fórum romano, o Maiseon Carré... A Vitória de Samotrakia, a Vênus de Melos, a Amazona ferida, o discóbulo, o Apolo Apoximenos e todo um novo mundo de bronze e mármore que revestiu a Hélade.

A música de Tirtaeus e Terpandrous, o estro de Homero, as Odes de Píndaro, as peças de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes; o dealbar de uma nova era!

Aristóteles sempre mais realista e prosaico que seu mestre, determinou estabelecer algumas normas ou regras concretas com relação a realidade da Beleza neste mundo, buscando objetiva-la.  E estabeleceu os critérios da Simetria, da Composição, Ordenação, Proposição e enfim do Equilíbrio. Logrando expressar aquilo que se achava não apenas no interior dos antigos gregos mas de todo ser humano, de toda criatura racional. Pois tudo isto está cheio de racionalidade.

Lamentavelmente após o declínio de Roma assomaram os bárbaros, primeiro ao Ocidente e em seguida aos Oriente, estes capitaneados por Mafoma.

Os belos templos em que a beleza era glorificada tornaram-se pastos das chamas. O Fórum juncou-se de ruínas. As telas e painéis converteram-se em cinzas. A glória de Zeuxis e Polignoto foi aniquilada, os bronzes derretidos e as delicadas estátuas de mármore partidas em pedaços com exceção de algumas poucas. Pois como diz Keneth Clark o homem primitivo, bárbaro e grosseiro em sua rudilidade não podendo dar com o sentido do Belo ou sentindo-se frustrado por não poder produzi-lo sente-se inquieto e incomodado diante dele. A beleza exaspera-o, porque reflete um ideal que como disse Platão, está além deste mundo das concretudes, o único mundo conhecido e amado pelo homem simples. Daí ele atirar-se sobre a obra de arte com um furor iconoclástico e com o objetivo de destruí-la.

Dominado por uma ideia elevada a respeito do bem e por certa noção vigorosa de verdade teve o homem Cristão que aproximar-se da beleza ideal ou da estética as apalpeladas, pois estava a princípio dominado pelos preconceitos da cultura judaica ou sêmita com seu eterno desprezo pela Imanência e consequentemente pelas artes plásticas, as quais jamais soube produzir em larga escala e com competência.

Judaísmo e islamismo, enquanto epifenômenos da cultura semítica mutilaram criminosamente a natureza divina, oferecendo a humanidade supostas verdades dissociadas da Beleza. Temeram que a beleza do mundo pudesse ser representada e por fim reverenciada pelos homens ignorando que a Beleza presente no universo e transplantada as obras de arte é atributo do ser divino. Nem podiam tais crenças insistir a respeito da Beleza presente numa Transcendência absoluta, incorpórea e separada do mundo que produziu. A própria divindade acabou sendo despojada da Beleza. É algo que jao ou ala não contém...

Tristemente o Cristianismo herdou tal vezo do judaísmo... Felizmente, devido ao dogma da Encarnação, que é um sinal da Imanência, não tardou a supera-lo e em 787 desta Era, o Concílio Geral, reunido mais uma vez em Nikaia, sancionou a tradição multi secular (A igreja com afrescos de Dura Europos - 240 desta Era é testemunha preciosa quanto a esta tradição bem como as Catacumbas romanas) do culto as imagens, especialmente das pinturas. Desde então as perspectivas da arte Cristã, em termos de pintura e de alguma escultura, tornaram-se ainda mais sólidas, amplas e profundas e a arte desenvolveu-se mais uma vez. Se bem que a puridade dos princípios estéticos greco romanos se houvesse perdido durante a grande calamidade.

O Renascimento artístico ocidental foi uma tentativa mais ou menos feliz de retomar esse ideal. Formalmente foi bastante feliz pois as obras produzidas por seus mestres são formalmente impecáveis e perfeitas, deliciando os olhos de toda gente sensível. No entanto, separado da tradição bizantina, perdeu seus fundamentos históricos ou concretos, mergulhando num mundo de imaginação e fantasia e laborando em monstruosos anacronismos com seus apóstolos e profetas, e soldados romanos trajados segundo a moda do tempo, i é das Idades média e/ou moderna.

Grosso modo a estética em sua puridade formal e a História só vieram a encontrar-se ao tempo do romantismo (chega a ser paradoxal) pelos fins do décimo oitavo século e ao cabo de praticamente todo século décimo nono, embora ao fim deste século já se prenunciasse o 'modernismo'. Foi um interregno bastante curto o do neo classicismo, perdurando por um século apenas, mas um século deslumbrante. Pois trata-se do século de 'La madaleine' de Paris... Quadra em que a Ortodoxia, o anglicanismo e o papismo recobriram mais uma vez a velha Europa com escrínios de mármore e estátuas de bronze agora dedicados a figuras de carne e osso, como Jesus Cristo, sua piedosa mãe, seus apóstolos, os mártires dos primeiros séculos, etc e tudo isto em meio a todo um simbolismo recuperado i é tomado ao paganismo antigo. Isto sem mencionarmos os painéis ou quadros, como os de Ary Scheffer, além é claro de Delacroix, Millet, tão entusiasticamente elogiado por Van Gogh em suas Cartas a Théo, Blake e Kramskoi. No entanto foi apenas um segundo renascimento, e nem neste nem no primeiro foram os fundamentos metafísicos desta produção recuperados. O espírito grego jamais foi completamente reassumido pelos Cristãos, e por um motivo bastante claro - Ali estava Agostinho com sua doutrina de degradação total da natureza, ali está a doutrina da existência pessoal de um Diabo, ali está a doutrina das penas eternas do inferno com seus tormentos tão sádicos quanto mitológicos. Há ali feiura e feiura eternizada. Então eles não podiam aplicar os canones clássicos a essa arte com fidelidade absoluta!

continua

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Um pouco de arte...


Quem tem problemas - e quem não os tem na Sociedade do lucro máximo? - diz o dramaturgo, tem conhaque ou cachaça (rsrsrsrsrsrs perdoem-me pela cachaça). Sem querer excluir o conhaque ou licor - os quais me agradam em demasia - os que estão na fossa ou estressados, ou angustiados, ou deprimidos... acrescente ao aperitivo uma boa dose de música porque é a música narcótico de primeira ordem e um dos principais sedativos da alma. E pode abusar dele que é saudável!

E quanto a nós que cremos que a Beleza - em comunhão com o Bem e a Verdade (a Kalokagatia) - haverá de redimir o mundo tanto mais devemos usar e abusar ao máximo da afinação e da melodia:












domingo, 11 de dezembro de 2016

O que vi em São Paulo





Coisa de três meses sofri um acidente atípico e até patético.

Cerca de um mês antes, havia adquirido um tecido de chamalote numa feira de antiguidades.

No fim de Agosto percebi que alguns de meus livros de uso ordinário estavam com as capinhas bastante mortificadas e decidi dar um trato neles. A ideia era cobri-los com o tecido de chamalote e depois passar uma espessa camada de cola ou verniz.

Para tanto a noite de vinte e oito de Agosto, após ter me acomodado ao leito, principiei a cortar os pedaços do chamalote até o sono vir. A verdade é que eu e Morfeu não nos damos lá muito bem e que só consigo pegar no sono pelas altas madrugadas... e como a briga com a insônia é sempre inglória e perdida optei por adiantar o trabalho de restauração das capas dos livros. E não sei como adormeci cortando-os em meio aos retalhinhos, e pelas altas da madrugadas suguei ou melhor engoli um dos pedacinhos, que me veio ter a garganta.

O tanto quanto posso declarar é que acordei com aquele maldito fragmento de papel preso a garganta e que aquilo foi um drama... Pelo menos acordei, o que não teria se dado caso o aspirasse e fosse ter aos pulmões, do que resultaria, muito provavelmente a morte certa.

No entanto tendo cinquenta contra cinquenta porcento de chances, tive sorte e cá estou... Pelo simples fato do chamalote ter ido pela garganta e não pelas vias respiratórias.

No entanto o maldito fragmento de pano lá ficou preso, e eu, a um tempo sentindo-me bastante incomodado e a outro com receio dos procedimentos a serem adotados pelos médicos no P Socorro optei por ficar em casa ingerindo tudo quanto recomendado era pela experiencialidade popular: Pão, farinha, batata, bolacha, vinagre, suco de limão, etc

Até que transcorreram uns três dias e fui, apesar da irritação, sentindo que o dito cujo ou havia decido ou se achava muito bem preso a gargante e certamente desfazendo-se. Ao cabo desses três dias fui ao médico da família que concluiu ter o pano decido sem maiores problemas embora a garganta estivesse bastante irritada.

No entanto como tinha de 'pagar meus pecados' devo ter cruzado, lá no consultório, com alguém bastante resfriado e como não houvesse tomado a vacina neste ano o resultado foi catastrófico: Contraí uma baita gripe, um verdadeiro gripão após ao qual sucederam-se amigdalite, otite, bronquite, etc tudo quanto tinha direito, pelo espaço de mês e pouco. Tive de pendurar as chuteiras até meados de Outubro quando comecei a recuperar-me... Entrementes o excesso de medicamentos havia acabado com meu estomago (tinha já histórico de gastrite moderada e refluxo) passando a enfrentar refluxos e pirogastralgia contínuos... Fiquei nervoso, estressado, aflito e disto resultou ligeiro aumento da pressão arterial até então controlada... E por fim, qual golpe de misericórdia desferido pelo organismo em colapso, manifestou-se terrivelmente a insônia elevando - por primeira vez na vida - minha taxa de glicose...

Cerca de 15 de Outubro estava a passar por momentos bastante delicados tendo de controlar a pressão e a diabetes (que jamais tivera) e, portanto de controlar a crime de insônia, deflagrada, muito provavelmente, pelas toneladas de medicamentos que havia tomado... Sendo assim não tive outra chance além de marcar consulta com o psiquiatra, o qual só veio a atender-me a 03 de Novembro. Apesar de ter sido atendido pelo convênio médico - como funcionário público de duas instâncias tenho dois convênios - o atendimento foi relativamente breve devido ao colapso do SUS em minha cidade. Do que resultou um aumento da clientela particular e conveniada e digamos, ligeira queda de qualidade no atendimento, que tornou-se mais rápido...

Para resumir receitou-me o dito clínico um hipnótico bastante severo cujos efeitos colaterais resultavam visão dupla, chiado, tonturas, dor de cabeça, lentidão, etc Durante uns quinze dias mais ou menos, senti tudo e até sofri alguns acidentes...

Verti sobre mim mesmo uma caneca com chá fervendo ficando com o abdomem parcialmente queimado, quase cai e rolei de uma escadaria, por pouco não fui atropelado, fiquei com a coluna alterada e enfim, coisa de cinco dias, tropecei - sonolento - e fraturei o dedinho mindinho do pé, que hora acha-se imobilizado... Foi uma verdadeira saga.

Pior é que este fármaco mexia com as vias respiratórias, que haviam sido massacradas após a ingestão do pano...

Até o clínico geral descobri-lo já havia caído na Aminofilina e no Berotec... E a pressão piorado ainda mais. Em meados de Novembro fui obrigado a retomar o uso dos diuréticos para controlar a pressão e portanto a ir ao sanitário mais frequentemente e a não poucas vezes subir e descer escadas com prejuízo da coluna que como disse já estava moída...

Durante todo este tempo, como funcionário público que sou, estive licenciado e sujeito a periciamento médico nos termos da lei.

E como já estivesse afastado do serviço estadual por mais de dois meses lá fui convocado, há coisa de uma semana, para apresentar-me ao DPME (Departamento de Perícias Médicas do Estado) no Glicério ou Várzea do Carmo, ali junto a Avenida do Estado a R Prefeito Passos. A perícia estava marcada para as sete horas da manhã. Cheguei pelas sete e quinze e, ao contrário do que imaginava, fui muito bem atendido pelo perito de plantão e não tenho mesmo do que me queixar. Aproveitei a oportunidade para apresentar algumas súplicas ou reconsiderações e quando deixei o local ainda eram 8:30 da manhã.

Como estava medicado, havia saído demasiado cedo da Baixada e pago vinte e cindo reais de passagem, achei que devia aproveitar um pouco a 'viajem' para conhecer melhor os monumentos históricos de nossa metrópole, em especial as antigas igrejas maravilhosamente descritas na obra de Leonardo Arroyo. Sendo assim dirigi-me até a Capela da providência, sujas torres havia visto da passarela, mas estava fechada...

Foi quando avistei o belo edifício da Igreja Nossa Senhora da Paz e determinei atravessar o viaduto.

E atravessando-o topei com uma simpática feirinha organizada pelos catadores de papelão e pessoas de rua. Cada qual negociando suas coisas na mais perfeita paz e harmonia.

Como sou apaixonado por livros, em especial por livros antigos e antiguidades, lá fui eu bisbilhotar de 'barraquinha' em barraquinha onde garimpei algumas preciosidades e aproveitei para ouvir os negociantes e jogar conversa fora.

Após ter arrematado o que queria - um livrinho de 1817 inclusive - e pagar uma bagatela, despedi dos carrinheiros promentendo voltar antes do Natal pra comprar mais alguma coisinha. Foi quando eles esboçaram um sorriso e disseram: Provavelmente quando o amigo voltar o João Dolar já nos terá removido daqui, ele considera que somos todos ladrões e malfeitores e odeia-nos a não pode mais...

Até então não me havia lembrado dessa coisa. Refiro-me do joão dolár... Uma espécie de amnésia havia bloqueado minha memória e em já nem me recordava das últimas eleições e da vitória desses sujeito.

Passo após passo fui subindo a ladeira e aproximando-se daquela igreja belíssima chamada Nossa Senhora da Paz. Lamentavelmente ainda era muito cheio quando lá cheguei e a igreja estava fechada. O adro no entanto estava literalmente tomado por pessoas de origem africana das quais aproximei-me com o objetivo de perguntar sobre o horário em que as portas da igreja seriam abertas. Foi quando tive mais uma surpresa, a maior parte ou totalidade daquelas pessoas falavam francês. Eram os emigrados haitianos... Troquei com eles algumas poucas palavras em francês perguntando-lhes sobre o horário em que a igreja abriria e fui-me embora. Ao perceber que eram haitianos minha vontade foi observar melhor seus modos, interroga-los, etc mas não quis constrange-los ou quiçá parecer hostil ou suspeitoso, afinal sabemos que os imigrantes devido as situações de discriminação a que estão expostos acham-se inseguros.


http://www.a12.com/noticias/detalhes/paroquia-nossa-senhora-da-paz-acolhe-haitianos-em-sp-editando-falta-entrevista






Ao menos pude observar que a pastoral daquela igreja empenha-se em facilitar ao máximo as coisas para eles, inclusive em termos de assistência social, alimentação, ocupação, etc Pelo que foi bastante gratificante para mim constata-lo.

No entanto não era só isso...


Pois após haver dado um pulinho na capelinha de S Luzia





onde acha-se o painel votivo de Nossa Senhora da Cabeça




e chegado ao Largo de Nossa Senhora do Carmo, no termo da tradicional R do Carmo






topei com os Carmelitas fornecendo lanches e refrescos a população pobre. Passei por ele dirigi-me ao interior daquele que reputo ser um dos antigos templos mais belos da capital, o Convento do Carmo, onde vim a conhecer a servente da igreja, uma senhora muito simpática e acolhedora chamada Isabel. Ao fim da conversa, que versou sobre as pinturas de Fr Jesuíno - uma das coisas mais belas que há para se ver em S Paulo - e a assistência prestada aos mais necessitados, fui presenteado com uma bela publicação intitulada 'Carmo, patrimônio da História, arte e fé'.






Dali segui em demanda da igreja de Nossa Senhora da Boa morte 




com seus característicos degraus de pedra... Tornei a subir a R do Carmo passando pelo antigo prédio do Diário de S Paulo - ora sede de uma organização protestante - cuja metade esquerda fora lamentavelmente demolida e segui até a praça da Sé onde surpreendentemente deparei com os franciscanos e a Toca de Assis prestando assistência a outras tantas hostes de sem teto e carrinheiros, tudo observado de longe pela polícia militar. 

Foi neste momento mesmo, estando diante da majestosa catedral da Sé, que refleti e disse para mim mesmo: Apesar de seu estado calamitoso ainda há vida espiritual na Igreja romana e uma vida rica e bela. Enquanto o protestantismo jaz eternamente paralisado nos domínios da teoria, engessado pelo fetichismo, adormecido nos braços débeis da fé, entorpecido por uma mórbida contemplação de si mesmo, etc a igreja romana, em que pesem seus vícios e defeitos, não só atua como mostrasse solidária. 

Após passar por tantas igrejas onde o povo simples rezava em atitude de recolhimento enquanto do lado de fora, os mais devotos serviam os pobres e ministravam o amor concreto de Deus aos menos favorecidos de nossos irmãos, fui levado a concluir: Aqui há Cristianismo e Cristianismo vivo porquanto Deus é amor e não qualquer outra coisa.

Apesar de não pertencer mais a comunhão romana (todo sabem que sou Católico Ortodoxo) aquela visão em termos de serviço fraterno foi como uma brise leve a refrigerar-me o coração angustiado por testemunhar tanta indiferença e mesmo crueldade por parte dos cristãos nominais...

Passei por um 'Cristão' predestinado ou remido que diante da Sé distribuía seus folhetos e gritava a respeito do Diabo, do inferno, da perdição, etc Desviei meus olhos dele e pousei-os sobre os filhos de S Francisco que ali estavam serenamente distribuindo alimentos, cortando cabelos, limpando feridas e enquanto o sucessor remoto de Lutero estendia-me um folheto (o qual evidentemente sequer toquei) as palavras do Evangelho soaram-me aos ouvidos: Tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber, estive nu e me cobristes... O QUE FIZESTES A MEUS IRMÃOS MAIS PEQUENINOS FOI A MIM MESMO QUE O FIZESTE... Haviam ali na praça da Sé dois Evangelhos rivalizando, mas eu sabia qual era o Evangelho verdadeiro - Este povo me honra com as palavras e a boca mas seus corações estão apartados de mim, considerei ainda; e por fim: Não é aquele que diz Senhor Senhor que entrará no Reino do Céu, mas quem executa a vontade...

Enquanto cogitava a respeito de tudo isto havia já cortado a praça João Mendes e entrado na Igreja de S Gonçalo da qual, após ter feito ligeira prece, parti em demanda do Largo de S Francisco, termo final de minha peregrinação, pois já eram cerca de 11 horas e devia chegar a casa em S Vicente pelas 13. Ali pude contemplar outras tantas pinturas maravilhosas, colírio para os olhos e sobretudo para a alma e adquirir, a porta da igreja, um delicioso pão recheado com frutas passas...

Como estava com pressa limitei-me a atravessa a colunata externa da Faculdade de Direto e a trocar umas poucas palavras com o porteiro... Caso tivesse a tarde livre iria certamente ao Museu do Fórum, ao Líceu de artes e ofícios, a Casa da marquesa se Santos, etc, etc, etc Bem como as Igrejas de S Bento, S Benedito, Rosário, S Efigênia, etc O fato é que minha veneranda e preocupada mãe esperava-me para o almoço e então tive de despedir-me de minha querida S Paulo e de regressar a este triste exílio ou vale de lágrimas que é para mim este abafado litoral...

Senti no entanto ter encontrado uma S Paulo muito mais humana e acolhedora para com seus filhos mais necessitados. Uma S Paulo mais sensível e fraterna. Uma S Paulo em que parte do 'Catolicismo' ou da igreja romana reencontrou o caminho do Cristianismo que é o amor ou o serviço concreto tendo em vista minorar os sofrimentos alheios. 

Igrejas Cristãs, mas do que locais de culto devem ser exatamente isto: locais ou santuários de atividade e serviço social. É o que podemos chamar de prece ou missa contínua, pela qual servindo oramos sem cessar e mantemos nossa comunicação com o Pai das Luzes. Já o Dr Alexis Carrel costumava dizer: Não adianta rezar devotamente pela manhã e viver ao cabo do dia como um bárbaro.

Não existe essa coisa de 'Missa est' A verdadeira Missa, a Missa eterna jamais termina, permanece sempre dentro de nós levando-nos a fazer o bem sem olhar a quem.

Resta acrescentar que não creio nem em visões, nem em revelações individuais, nem em místicos ou misticismos. Mesmo quando ainda era membro atuante da igreja romana, não acreditava nessas bobagens (no dizer do piedoso Arthur Weigall) Meu catolicismo, ainda romano, havia descartado há muito tempo as tolices de Fátima ou mesmo Lourdes e se concentrado na Tradição patrística e na doutrina social e também na escolástica... Pelo que Tereza D Avilla não faz sentido algum para mim, exceto quando corajosamente (face aos inquisidores) que Deus deve ser amado e servido pelo que é - ou seja enquanto Deus mesmo - e não pelo temor de supostos castigos... 

Tereza D Avilla me parece ter sido uma mulher inteligente e até fascinante, mas não creio de modo algum em suas supostas experiências místicas ou comunicações ou em qualquer outra. Tudo isto permanece nos domínios da subjetividade e mesmo se houvesse algo de verdade, estaria no acesso do individuo apenas. A comunidade Cristã deve viver daquilo que é comum: A palavra de Cristo registrada nos Evangelhos e a tradição primitiva e apostólica.

No entanto, e penso que é aqui que o Cristão se distingue do sectário e do fanático, o fato de não crer em Tereza D Avilla ou na mística espanhola, ou na mística carmelitana (com seu culto supersticioso ao escapulário - Arthur Weigall, intelectual Católico) não me impede de modo algum de apreciar a beleza das pinturas do Convento do Carmo ou de atribuir-lhes um sentido espiritual bastante rico. Não preciso crer na veracidade de uma cena pintada para comungar de sua perfeição estética e cuido que o sentido da beleza tenha valor em si mesmo exprimindo um dos múltiplos aspectos do Uno.

Não posso compreender como alguém se exaspere face a beleza e menos ainda que postule sua destruição.

O fato de não crer na temática da pintura não me torna insensível a seus traços delicados, a suas cores, a harmonia dos tons, etc

Por isso sempre disse e digo-o mesmo que um dia viesse a romper com a Ortodoxia jamais deixaria de apreciar a beleza das ícones, do ritual, da música sacra, da arquitetura religiosa, etc Não preciso crer para sensibilizar-me diante da arte ou da beleza, aqui basta sentir. É outra categoria, distinta, de sentimento e de vivência...

Daqui há uma semana lá estarei de novo para ser periciado... 

Uma vez que meu dedinho mindinho esta quebrado e imobilizado rsrsrsrs

Mas nem por isso, após a perícia, deixarei de ir me arrastando e com todo cuidado visitar mais algumas igrejas e monumentos da grande S Paulo. Espaços em que entrarei em contado com o que há de mais nobre em nossa humana condição: o exercício da fraternidade e a presença da Beleza, pois como dizia o literato russo: "A beleza, a beleza, ela salvará o mundo."


quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Tópicos de filosofia grega: adiaphoras ou bens naturais?

Uma das questões mais discutidas pelos filósofos gregos e romanos diz respeito a categoria de coisas a que classificaram como adiaphoras ou neutras moralmente falando.

Assim a saúde, a beleza, a riqueza, a fama, e seus opostos a enfermidade, a fealdade, a pobreza e a obscuridade.

Convém no entanto adiantar que se tratam de coisas diferentes; pois enquanto a saúde e a beleza e seus contrários não dependem da livre vontade, a riqueza conquistada e a glória adquirida pertencem a esfera da atividade livre.

Distinguamos portanto, da saúde, da beleza e de seus contrário a riqueza e a glória e seus contrários, reservando o exame destas duas últimas situações para outra ocasião.

Implica saber se saúde e beleza, enfermidade e feiura correspondem a algum tipo de bem, ou se são de fato coisas neutras, i é, adiaphora.

Para tanto convém esclarecer que até mesmo os adeptos da 'adiaphora', como Crisipo de Soli, admitiam que as pessoas comuns ou sem trato filosófico costumavam referir-se a tais condições dadas como a bens.

Não estamos querendo dizer com isto que tais bens possuam 'valoração' moral ou ética derivada da livre vontade. Não escolhemos nascer saudáveis, enfermos, belos ou feios. Tratam-se de condições dadas pela natureza e dela recebidas. Outro é o caso das enfermidades produzidas por qualquer tipo de excesso relacionado com a fruição dos apetites sensíveis. Estas podendo em certa medida ser evitadas podem vir a possuir uma conotação moral.

Por outro lado não é por pertencer a a esfera da natureza que tais 'elementos' deixam de ser bens. Bens naturais, comuns, remotos e condicionais. Naturais devido a seu caráter não volitivo. Comuns porque saúde ou enfermidade, beleza ou feiura correspondem a estados compartilhados por imenso número de pessoas. Remotos porque não pertencem a esfera superior da moral ou da ética e condicionais porque a ausência deles impede ou dificulta o acesso aos bens superiores ou o exercício da vida virtuosa.

Assim a vida ou a existência é bem primário ou primordial na medida em que concede acesso a todos os outros bens, a plena realização das potencialidades, a aquisição da virtude e a perfeição moral. Neste sentido, enquanto condição 'sine qua nom' aos demais bens não pode a vida deixar de ser encarada com um bem. Um bem de categoria ou caráter inferior, no entanto um bem. Em que pese ser mal utilizado por alguns.

Assim os apetites sensíveis são bens na medida em que concorrem para a conservação da vida.

Assim a integridade física dos sentidos também corresponde a um bem na medida em que nos permite entrar em contato com a realidade e conhece-la. Nem podemos deixar de encarar a falta da visão, da audição, do olfato, do paladar ou do tato, como verdadeiros males na medida em que servem de obstáculo a assimilação da realidade. Uma vez que o fim de nossa existência é a aquisição do saber a cegueira e a surdez não podem deixar de serem males por limitarem nosso acesso ao saber e assim a dor quando intensa e constante a ponto de dispersar a concentração dos sentidos e impedir o aprendizado.

Não se tratam de bens em si mesmos ou de bens absolutos; mas de bens na medida em que servem de acesso a outros bens. Assim de bens relativos. Pois sempre se pode fazer mal não apenas da vida e da saúde mas até mesmo dos conhecimentos relativos a natureza. Por isso que o conhecimento é bem relativo na medida em que esta de acordo com a natureza e não absoluto, pelo fato de sempre poder ser usado para causar dano ou prejuízo ao semelhante.

Tampouco podemos descrever a enfermidade ou a fealdade como males absolutos pelo simples fato de não nos poderem induzir a cometer injustiça ou prejudicar nossos semelhantes.

Antes a dor física em algumas situações tem tido o condão de fazer com que alguns homens descartassem a opinião materialista, aproximando-se do Uno e abraçando a virtude. Ora uma dor capaz de tornar o homem reflexivo e consequentemente melhor merece ser classificada como um bem. Porquanto de algum modo dispôs o sujeito ao sumo bem.

Nem podemos negar que qualquer categoria ou tipo capaz de aproximar os homens da perfeição moral, converta-se ela mesma num bem por conexão ou relação com o bem. Tudo quanto serve de acesso ao bem supremo, merece ser considerado bom. Assim as adiaphoras nada tem de neutras ou de inuteis, antes correspondem a algum tipo de bem quanto a ordem da natureza, e ascendem na escala do bem na medida em que aproximam o homem de seu fim mais excelente que é a posse da virtude.