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domingo, 16 de abril de 2017

Leon Metchnicoff - A civilização e os grandes rios históricos

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Contribuições há, feitas a História, que não podem permanecer esquecidas, devido a sua continua, para não dizer eterna, atualidade.

Assim a de Leon Metchnicoff, irmão dos igualmente célebres Ellie e Ivan, na humilde e ao mesmo tempo colossal obra 'A civilização e os grandes rios históricos' dada a imprensa, post mortem, em 1889. O autor havia falecido no ano anterior 1888.

Trata-se a meu ver de uma dessas obras imortais e que marcam época a exemplo da Decadência do Império romano de Gibbon (Assim as obras QUASE homônimas de Sismondi e Ferrero) da História da conquista da Inglaterra pelos Normandos de Aug Thierry, da História dos Gauleses de Amadeu Thierry, da História do direito de Savigny, da História do povo alemão de Jahnsen, da História das Cruzadas de J F Michaud, da História da Reforma na Alemanha de Doellinger, da História da conquista do México, História da Conquista do Peru e da História do reinado de Fernando e de Isabel, a Católica por W H Prescott, dos Tempos pré históricos de John Lubbock, do Regime municipal do Império romano no século V de Guizot, da História dos monges no Ocidente de Montalembert, da História do helenismo de Droysen, da Sociedade antiga de L H Morgan, da História dos Papas de Leopold Von Ranke, da Cidade antiga de Fustel, da História das perseguições religiosas no Império romano de Paul Allarddos Primeiros habitantes da Europa de Arbois Jubainville, do Marco Aurélio e o fim do mundo antigo de E Renan, da História da Civilização na Inglaterra de Buckle, do Fim do Paganismo e da África romana de Gaston Boissier, dos Gauleses de André Lefevre, do Espírito do Capitalismo e a Ética protestante de Max Weber (Dentre todos o primeiro!), das obras de Denifle e Grizar sobre Lutero, da História da Igreja antiga de Louis Duchesne, da Historia da Literatura latina na Africa de Paul Monceaux, do Maomé a Carlos Magno de Pirenne, do Amanhecer da consciência de Breasted, da Sociedade Feudal e da Apologia da História de M Bloch, da História da incredulidade no século XVI e da Europa: gênese da civilização de Lucien Febvre, do Outono da idade Média de Huizinga, da Trilogia de V G Childe, do Renascimento de Edith Sichel, da História da riqueza do homem de Huberman, do Feudalismo de Ganschoff, da História social da criança e da família e da História da morte no Ocidente de Aries, das Fontes democráticas nas ordens religiosas da Idade Média de Leon Moulin, do Processo civilizatório de Norbert Elias, da Trilogia de Duby (1976/1978/1981), do Novo conceito de Idade Média de Le Goff, do Mediterrâneo de F Braudel, da Civilização do Renascimento por Jean Delumeau, da Conquista da América por Todorov, do Cristianismo, tolerância social e homossexualidade e Uniões do mesmo sexo na Europa pré moderna de John Boswell, de Como os irlandeses salvaram a civilização por Th Cahill, da Democracia bizantina de Kaldellis, etc

Assim A civilização Egea e a Cidade grega de Gustav Glotz, a História de Roma por Mommsen bem como os estudos subsequentes de Leo Homo e Pierre Grimal; Os aztecas de Solustelle, as obras de Paul Lemerlle e Runciman sobre Bizâncio, as de Christopher Hill sobre a Revolução Inglesa, as de Lamartine, Thiers, Sybel, Jaures, Soboul e outros sobre a Revolução Francesa, as de Robert Darnton sobre o iluminismo e as brilhantes sínteses cultuais elaboradas por Christofer Dawson e Butterfield.

Isto só para lembrar algumas leituras clássicas indispensáveis em termos de compreensão Histórica.

Há muito que se falar, debater, dialogar e discutir sobre cada uma delas.

No entanto, para este Domingo, escolhemos a obra de Metchnicoff justamente por ser pouco conhecida e divulgada entre nós. Apesar de contar já com mais de século.

Assim se Le Goff revolucionou o conceito de Idade Média, evidenciando que as tais 'trevas' - Saídas da pena protestante, logo partidária ou preconceituosa - não passavam de fábulas, se Elias salientou as teias de interdependência cultural, se V G Childe mantendo a ideia de um progresso linear e contínuo admitiu a existência de recuos, durante as crises; além de descrever a ampliação do círculo da cultura no Oeste da Europa, se Breasted cunhou o termo 'crescente fértil', se Max Weber conceituou as afinidades eletivas, o mérito de Metchnicoff consiste em ter relacionado a propagação da cultura com o meio, postulando certas 'rotas' culturais.

E nem poderia ter sido mais exato, preciso e ponderado pelo simples fato de que antes dos romanos terem estabelecido suas estradas por toda Europa - investindo em meios de transporte e comunicação enquanto disseminadores da cultura a serviço do poder - já os persas haviam construído sua estrada real, que ligava o gigantesco Império de Susa, junto ao golfo Pérsico, a Sardes na Ásia menor, cortando cerca de 2.700 Km. A cuja extensão haviam associado um primitivo serviço de malas postais ou Correio, idealizado por Dário, o grande.

Já os gregos, habituados, por tradição, a navegação, espalhavam-se, a exemplo de seus predecessores fenícios e Minoicos, pelas bordas do Mar, acompanhando o litoral do Mediterrâneo ou do Mar negro, e semeando-os com inúmeras cidades ou colônias.

Faz pleno sentido que assim tenham procedido quando as vias para o interior ainda não haviam sido franqueadas na Europa Ocidental. Naturalmente que sempre existiram veredas ou caminhos, semelhantes aos que eram percorridos por nossos índios aqui na América antes da chegada do Europeu. E até caminhos mais largos e bem cuidados, a exemplo do nosso Peabiru. Rotas, como a do âmbar ou das conchas, existiam desde os tempos imemoriais.

Não de trata no entanto, de vias suficientemente amplas e cuidadas a ponto de permitirem um tráfego de carros rápido e eficiente; ou a rápida marcha de um povo, montado ou desmontado. Bem como o transporte de bens materiais e tecnológicos em quantidades relevantes. Tal só se deu após a conquista romana.

Fica posto o problema dos meios de transporte ou das comunicações - e portanto da transmissão e dilatação da cultura - onde não haviam rios caudalosos o suficiente para permitir a navegação.

Via de regra as grandes migrações pré históricas, as maiores, ao menos, devem ter acompanhado os cursos dos grandes rios navegáveis, fossem o Danúbio, o Pó, o Garona, o Ebro, o Tejo; as primeiras vias de transporte fornecidas pela própria natureza, e as primeiras rotas de cultura.

Penso que não seja preciso insistir muito a respeito de que as primeiras grandes civilizações do Velho mundo: Egipcia, Sumeriana, Indiana e Chinesa desenvolveram-se todas, no final da Idade Primitiva, junto aos grandes rios, sejam o Nilo, o Tigre e o Eufrates, o Indo e o Ganges ou o Huang Ho.

Não porque pudessem explorar o potencial hidráulico de tais correntes, mas porque podiam explora-lo tendo em vista a irrigação das terras ribeirinhas, aumentando a produção de alimentos, e consequentemente o acumulo de suprimentos. De que resultou singular benefício: Que alguns elementos daquelas sociedades não precisassem plantar, colher ou pastorear, podendo exercer outros misteres e, consequentemente especializar-se. Tais os albores da ascensão artística e científica característica da Revolução Urbana.

Desde então alguns puderam ser pedreiros, marceneiros, oleiros, tecelões, sapateiros, médicos, padeiros, cervejeiros, cantores... Recebendo em paga por seus serviços uma determinada quantidade de alimentos.

Esta dinâmica nos ajuda a compreender porque as primeiras vilas ou cidades tornaram-se tão atrativas aquele homem recém saído no neolítico. Porque havia oferta de serviços até então desconhecidos e portanto vantagens ou benefícios em termos de qualidade de vida. Ali apenas havia acesso a uma série de produtos ou serviços - quais fossem sapatos, vestimentas, pães, cerveja, medicamentos, etc - especializados e portanto executados com maior esmero. Bastando para adquirir tais produtos ou serviços estar em posse de algum excedente em termos de suprimento, ou recebe-los como pagamento oferecido pelo sacerdote rei.

Alias nada mais promissor do que dominar alguma espécie de saber ou aprende-lo. Pelo simples fato de poder empregar-se no palácio, antes de tudo uma enorme oficina e depósito de produtos administrada pelo rei sacerdote.

Devido a tudo isto a cidade, desde sua invenção, converteu-se no objeto dos sonhos das populações mais afastadas e rudimentares fossem sedentárias ou não. Todos aspiravam habitar nela de modo que elas atraíam multidões cada vez maiores, e se alargavam, e cresciam junto as margens dos grandes rios.

Isto a ponto de no Egito, pelos idos de 3500 a C coligarem-se em diversas federações, em dois reinos mais ou menos extensos - O do Norte ou baixo e o do Sul ou alto Egito - os quais acabaram unindo-se pelos idos de 3000 a C sob o cetro de Menés ou Narmer, o primeiro Faraó. Evidentemente que antes disto, e bem antes - Ao tempo do rei Escorpião (Alto Egito - 3200 a C) - a administração dos grandes reinos, do Sul e do Norte, exigiam já a formulação de um código escrito.

Afinal a produção ou coleta - o primitivo imposto - bem como a distribuição - o primitivo salário - precisavam ser anotadas e controladas de modo que o pagamento dos serviços jamais superasse a arrecadação produzindo 'deficit'. Daí a necessidade de medir, contar, pesar e classificar... Sem a qual, um tipo tão complexo de organização social não podia manter-se.

Mesmo nas cidades autônomas, e sem embargo grandes, da Suméria, do Indo e da China, um tal tipo de controle se fazia indispensável e por isso, a partir de tal necessidade, nos deparamos com a formulação de códigos linguísticos escritos - os primeiros do planeta - aparentemente, sem que houvesse qualquer relação de dependência.

Ainda hoje as escritas Egipcia, Sumeriana, Indiana e Chinesa aparentam ser diferentes umas das outras e não inter relacionadas.

Alias ao tempo em que vieram a luz - cerca de 3200, 3000, 2500, 2200 a C pouco antes ou depois - achavam-se tais pólos de cultura mais ou menos isolados; a exceção talvez do Egito e da Suméria.

A maior parte dos assiriologistas e sumerólogos considera que quando estabeleceram-se relações comerciais entre as cidades Sumerianas e as cidades do Indo (Harapinas) por volta de 2400 a C, ja ambos os modelos de escrita achavam-se elaborados. Podendo-se dizer o mesmo sobre o Vale do Indo e o Vale do Huang Ho, separados ou melhor dizendo, isolados por cordilheiras e desertos ao tempo em que ambas escritas haviam sido inventadas.

Atualmente a tese da difusão, da origem comum e da inter dependência dos primeiros modelos de escrita torna-se cada vez mais vulnerável e indefensável.

Seja como for, por volta de 2000 a C senão antes, estamos diante de quatro civilizações letradas ou polos difusores de cultura.

Quanto a Mesopotâmia apenas, devemos considerar diversos elementos, indispensáveis ao avanço posterior da Civilização como um todo. Assim o arado, a roda, a roda do oleiro e talvez o Bronze, seja como for procedente daquele entorno.

Quanto ao Egito temos o vidro, o papel, a medicina...

Tocando a tais elementos culturais é que chegamos a Metchnicoff. O qual nos oferece a melhor ferramenta para compreendermos porque a Europa Ocidental chegou a ser o que é ou porque o Mediterrâneo foi o que foi.

Para tanto faz-se necessário acompanhar os cursos destes grandes rios ou a direção que cada um deles percorria. Porque a cultura acompanhou tal direção e disseminou-se a partir das fozes de tais rios, e as vezes até a partir das nascentes.

Assim o caso do Eufrates ou Puratu, o qual era facilmente navegável contra corrente até Kish - Logo por toda Suméria - e relativamente navegável até Mari, cidade cujo Reino, chegou a estender-se até as proximidades de Halab a atual Alepo, já as portas da Ásia menor.

De fato a saída cultural sumeriana foi dupla e a princípio, ao menos aparentemente sua cultura foi despejada no Golfo Pérsico já em Dilmun, já no Elam. Embora alguns escritos deem a entender o sentido oposto i é de Dilmun - possível ponto de partida ou origem dos misteriosos 'cabeças negras' - e/ou Elam para a Mesopotâmia e desta, indo contra corrente, a Assíria, ao Reino de Mari, a Síria, e enfim - Di-lo Sargão - ao Chipre e a Anatólia, já na Ásia menor.

Sargão por sinal, orgulha-se de ter lavado sua espada nas águas do grande Mar, ou seja do Mediterrâneo.

Temos aqui uma direção cultural bastante esclarecedora, que partindo da Suméria ou mesmo - Quem o sabe? - de Dilmun e Susa, atinge a Ásia menor, em cuja costa Ocidental haviam de se estabelecer os Jônios, corridos pelos Dórios cerca do século XII a C. Estamos portanto ao lado da península balcânica ou da Grécia.

Indiretamente, assumido e levado adiante por babilônicos, assírios, sírios, palestinos, hititas e fenícios sucessivamente o legado cultural dos antigos sumérios acabou por impor-se no que chamamos atualmente de Turquia, enfim no espaço que mais tarde viria a ser ocupado pelo tronco grego dos jônios.

Perguntemos agora que rumo tomou o patrimônio cultural do antigo Egito?

Se a um lado atingiu Meroé e Sudão, dissipando suas energias na África negra até ser removido pela islamização, a outro pela foz, atingiu a costa leste ou oriental do Mar Mediterrâneo, irradiando-se pela Palestina, até dar com a Fenícia, onde encontrou-se com a cultura sumeriana, trazida pelo Eufrates.

Primeiramente através dos minoicos, depois indiretamente, através dos fenícios e enfim diretamente por iniciativa dos próprios gregos chegou esta cultura até a Ásia menor e Península balcânica, onde misturando-se a cultura mesopotâmica deu origem a primeira grande síntese cultural elaborada pelos gregos. Síntese que foi contributo particular ou específico do gênio grego, quiçá ensaiada já pelos fenícios... Não foram estes que legaram-nos o alfabeto? De fato não sabemos o quanto nós ou os gregos devemos aos antigos fenícios, posto que só temos conhecimento do quanto  produziram através dos gregos, seus sucessores e rivais.

Seja como for a grande alavancada proporcionada por essa convergência - Alias coisa única no mundo - entre duas culturas magníficas, aconteceu na Grécia. O que herdaram dos egípcios e sumérios, eles levaram adiante ou desenvolveram. Se não arquitetaram esta síntese - Hipótese em que teriam-na recebido dos Fenícios - ao mesmos tornaram-se dignos depositários dela tornando-a fecunda.

Já as culturas chinesa e indiana, seguindo os cursos de seus caudais e atingindo mares geograficamente isolados, perderam-se por eles e jamais puderam encontrar-se. A espacialidade geográfica impossibilitou que tais culturas convergissem para o mesmo ponto e formassem brilhante síntese. Tal e qual a cultura egípcia refluindo pelo interior da África, diluíram-se e perderam-se assim as culturas Indiana e chinesa, mesmo considerando que tenham civilizado diversas Ilhas. No caso da China por sinal Japão e Coréia. No caso da Índia o Ceilão, as Filipinas e a Indonésia.

Que teria produzido um síntese entre ambas as culturas, Chinesa e Indiana, tal a pujança de cada uma, é o que jamais viremos a saber?

Foi no Mediterrâneo que Eufrates e Nilo despejaram o legado cultural de dois povos essencialmente criadores: Babilônia e Egito...

Como já dissemos acontecimento único e singular proporcionado pelo meio.

A partir da Jônia, passou este legado a Península Balcânica, onde já havia sido ensaiado muito provavelmente pelos fenícios.

E a partir da Península balcânica, como já dissemos, no dorso das naus de casco negro, os gregos foram disseminando tal espírito ou cultura por todo circuíto do mediterrâneo de Trapezunt a Emporiae passando evidentemente por Massilia.

E foi a partir de tais cidades que os conquistadores romanos, adotando como sua a cultura helênica, levaram-na - em termos de idioma comum, filosofia, ciência, teatro, etc - até a coração da Europa, civilizando-o. Também empreenderam-no na África até os confins do Saara. Em todo circuíto do mediterrâneo. A partir do qual, com os Portugueses e Espanhóis, ao fim da Idade Média, despejou-se pelo Mar Oceano, ou pelo Atlântico, atingindo o Novo Mundo e propiciando outras sínteses culturais não menos interessantes no México, a partir de um substrato Azteca bastante rico e mais ainda no Peru e adjacências, onde encontrou-se com a multi milenar e ultra sofisticada civilização peruviana, contributo de diversas culturas quais sejam Chavim, Paracas, Nazca, Mochica, Chimu, Wari, Inca, etc

Foram caudais de culturas desembocando uns nos outros sempre a partir dos grandes rios, seguindo seus cursos e precipitando-se primeiramente nos mares e depois nos Oceanos até dilatarem-se pelo mundo afora. Encontro de que resultou não poucos conflitos, mas, cremos nós, numa perspectiva futura e global, propiciou também a chave para o progresso das Sociedades humanas, o qual só se faz pela troca de experiências culturais.

Este fascinante caminho, provido pelo meio ou pela sorte, foi devassado, a menos de cento e trinta anos pelo brilhante cientista Leon Metchnicoff em A civilização e os grandes rios históricos, leitura ainda hoje proveitosa que a todos recomendamos.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Cultura européia, cultura norte americana e cultura islâmica II

A gestação da cultura de morte: protestantismo, capitalismo e cultura Norte Americana

Helenismo e Cristianismo ou se preferirem Socratismo e Catolicismo antigo, lançaram na Europa os fundamentos de uma cultura humanista. Todavia o desenvolvimento desta cultura foi bruscamente atalhado pelas invasões germânicas e pelo advento do islamismo. Apenas no contesto da civilização Bizantina houve relativo desenvolvimento.
A partir do ano 1200 houveram diversas tentativas de restauração, umas mais outras menos felizes. Por este tempo no entanto o Catolicismo já havia perdido dua puridade. Melhor dizendo a igreja romana afastara-se um tanto do Catolicismo, transformando-se numa monarquia com ambições teocráticas. Como já fizemos questão de assinalar noutro artigo, a luta entre o semi pelagianismo ortodoxo e o agostinianismo ascendente dispersava as forças da igreja. A fixação do dogma das penas eternas corresponde a um instante dramático e decisivo. 

No entanto, apesar de suas quedas e desvios, a igreja romana retinha ainda - como ainda retém (se bem que menos) - uma parcela do espírito Católico, alimentava um cultura humanista e sustinha um ideal de virtude.

Haviam problemas sérios no âmbito da fé. A cultura no entanto matinha-se, ao menos em parte, fiel aos padrões greco cristãos. 

Foi quando a partir do século XVI sucederam-se dois grandes abalos, aos quais seguiu-se a ruptura e a produção de uma cultura totalmente nova.

O primeiro grande abalo, a nível da consciência Cristã, foi o triunfo do agostinianismo por meio da reforma protestante. Até então estivera o organismo do Cristianismo enfermo. O triunfo do agostinianismo significa a morte do humanismo cristão e de modo geral uma perda de consciência.

No entanto ainda após a reforma, o surgimento das novas unidades eclesiais e o Concílio de Trento. Este novo padrão de fé e de cultura que se afirma não consegue arrancar, da noite para o dia, os elementos católicos presentes na cultura. Assim se as ordens religiosas são extintas, a Inglaterra mantem-se fiel aos Bispos e muitos destes fiéis a tradição. Permanecendo de pé as torres, calvários e cruzes, e viva a memória das terras comunais! Já na França para onde quer em olhem os reformados deparam-se com os símbolos e instituições da antiga e odiada fé.

Aspiravam os sectários pela produção de uma nova cultura. Todavia o velho mundo esta impregnado de simbologia católica.

A solução foi buscar solo virgem com o intuito de criar a tão sonhada república bíblica, sem sinos, cruzes ou bispos. Tal o ideal sonhado pelos puritanos que embarcaram-se no Mayflower.

Como os santos muçulmanos de hoje eles não estavam dispostos a viver ao lado dos odiados anglicanos e papistas. Os anglicanos e papistas a seu tempo não estavam nem um pouco dispostos a curvar-se perante as exigências da Torá.

Melhor expulsar os índios de suas terras. Seria bem mais fácil uma vez que anglicanos e papistas possuiam asmas de fogo e os índios não!

Assim, deste ideal mosaísta, puritano, huguenote, sectário ou fundamentalista, surgiu a grande república do Norte, a que chamamos Estados Unidos.

A proposta era fazer desta província ou pais uma nação protestante, ou como dizem, bíblica.

Ignoravam no entanto que todo reino dividido trás em si uns germes da morte.

Multiplicaram-se as facções, seitas, partidos... pois após os calvinistas chegaram os congregacionalistas, anabatistas, quackeres, metodistas, luteranos, unitários, etc os quais puseram-se logo a combater uns aos outros... produzindo espaços ou nichos de incredulidade.

De modo que em 1776 os indiferentes, que não eram poucos, tendo em vista seus próprios interesses - alias os mais saudáveis - e a condição pluralista da sociedade norte Americana, vibraram rude golpe ao fundamentalismo, separando a religião do Estado ou as fés da política.

Por este tempo o deísmo já circulava na Inglaterra a mais de século, a fé minguava nos corações, os Bispos perdiam sua autoridade e a Igreja Anglicana - ao cabo de cento e cinquenta anos de luta - conhecia sua segunda grande derrota. A Revolução Industrial havia sido concretizada e já um novo ideal, materialista, economicista ou capitalista; norteava as ações humanas produzindo uma nova cultura.

Reviveria no entanto o humanismo na Inglaterra, ja por meio do papismo que mais uma vez alastrava-se pelo pais, do alto anglicanismo revigorado e da mais ampla gama de socialismos secularizados, das utopias de Owen ao Comunismo. Destarte, apos seu zênite ou idade de ouro, o liberalismo econômico inglês conheceu significativo declínio. Ficando a fera enjaulada até ser libertada mais uma vez pela 'Dama de ferro'.

Os EUA no entanto eram terra Virgem. Jamais fecundada pela cultura greco romana. Sem uma História medieval. Sem qualquer tipo de tradição humanista. Sem raízes deitadas no solo do Catolicismo ou Cristianismo antigo. Sem consciência, sem memória, sem passado em termos de promoção humana ou justiça social.

De modo que eliminado o éthos religioso ou a inspiração credal. Mais do que na Inglaterra o éthos materialista economicista foi capaz de criar raízes, fomentar caráteres, produzir cultura e criar estruturas sociais. Em recando algum do mundo moderno o capitalismo conseguiu encarnar-se em termos de estruturas sociais e impor-se como nível de consciência senão dos EUA.

Na Europa também conseguiu em maior ou maior medida criar estruturas. Estas no entanto - exceto na idade de ouro do liberalismo inglês - jamais lograram desenvolver-se por completo ou esgotar suas potencialidades e absorver os demais setores da sociedade subordinando-os a seus interesses. Havia sempre algum limite ou medida imposto pelas monarquias, pelos catolicismos, pelas tradições ou pelos socialismos seculares. Barreiras políticas, religiosas, sociais ou ideológicas que o economicismo jamais conseguiu destruir por completo. Permanecendo assim sempre incompleto!

Pode ter surgido na Europa enquanto ideologia. No entanto esta ideologia européia encontrou sua máxima expressão apenas na grande República do Norte.

Pelo que a cultura norte americana e a cultura européia não são uma e a mesma coisa.

Na cultura européia sobrevivem, numa massa heteróclita, elementos religiosos ou seculares que precedem em séculos ou milênios o advento do capitalismo e que se lhe opõem.

Assim o ideal de liberdade e democracia direta tão caro aos antigos gregos, igualmente presente nos cantões suíços desde a Idade Média e em diversas partes da Escandinávia. Assim o ideal socialista alimentando pela consciência Católica o qual, mesmo após sua secularização, obstina-se em afirmar-se no contesto europeu. Assim as tradições campesinas sempre infensas ao novo ritmo de vida. Um certo sentido do homem e do humano afirmado desde os tempos de Sócrates. Um certo sentido da arte e do intemporal e contraposição ao imediatismo e consumismo vulgares....

Os Norte americanos mais do que ninguém assumiram os ideais do capitalismo e por assim dizer deram-lhe um corpo ou uma existência social. Chegando a criar um sistema de pirataria internacional com o objetivo de pilhar riquezas. De que resultaram infinitas guerras.

É um tipo de imperialismo diverso de qualquer outro. Todos os imperialismos antigos - do romano ao inglês - conheceram uma contrapartida cultural até certo ponto positiva. Os romanos e seus sucessores folgavam em estabelecer colégios, acadêmias, museus e instituições culturais nas regiões economicamente dependentes ou periféricas. Os EUA jamais se preocuparam em fundar escolas, museus, termas ou pinacotecas as unidades políticas que pilhavam...

A cultura que os EUA implantam nas regiões dependentes é inteiramente superficial ou destinada ao consumo. Redes de fast food, bonés, tênis, camisetas... Não existe qualquer elemento unificador como na filosofia grega ou no cientificismo anglo francês. Os romanos diga o que se disser, amalgamaram-se aos demais povos porque eram capazes de ve-los como seres humanos. Os EUA jamais conseguiram enxergar além do próprio umbigo. Por isso criaram e criam apenas laços econômicos de dependência.

Como sói suceder no entanto, tais relações carregam ou transportam sempre algum conteúdo cultural. Lentamente as regiões economicamente dependentes convertem-se em províncias culturais do centro dominante. Assim o modo de vida Yankee transbordou, por assim dizer, e ocupou a maior parte do planeta. Inclusive a Europa.

E por ser esta cultura mais antiga e mais sólida, este assumir novos modos de vida, não pode deixar de produzir um impacto bastante significativo após o pós guerra. Os mais velhos sobretudo mostravam-se escandalizados face a conduta dos mais novos, cada vez mais 'norte americanizados'. No que diz respeito ao vestir, ao comer e sobretudo aos gostos musicais pode-se dizer que os EUA produziram um sistema global e que a moda passou a ser ditada por eles. Nem Roma, nem Paris, nem Londres mas Nova Yorque!

E como já houvesse uma disputa ideológica na Europa entre os elementos anteriores ao advento do capital e os elementos favoráveis a nova ordem, os elementos culturais provenientes dos EUA, associados ao éthos consumista, converteram-se em fiel da balança, fazendo o caráter daquela sociedade inclinar-se decididamente para a nova ordem. Isto desde os anos 50 mas especialmente após os anos 80 e o colapso das Repúblicas comunistas do Leste. Os anos 90 foram decisivos para o triunfo da ordem capitalista na Europa enquanto produtora de cultura!

Bem antes disto, no entanto, os esquerdistas radicais, haviam desconsiderado a questão da variedade cultural na Europa, e apresentando tudo como uma coisa só.

Eles jamais foram capazes de discernir onde encontravam-se as fontes de seu próprio modelo ou padrão de pensamento.

Alienaram-se completamente quanto a dinâmica cultural e o conhecimento da cultura.

Por mais importante que seja a crítica científica de Marx ao capitalismo (compreenda-se que me refiro unicamente ao 'Capital' e não a suma metafísica comunista posta para o futuro ou o 'como deve ser') é sempre bom lembrar que sua crítica atinge apenas a estrutura material do capitalismo.

Sempre poderemos aprofundar sua crítica atingindo o espírito éthos do Capitalismo. Para tanto convém resgatar um Morelli, um Mably, um Morus, um Campanell, um Aquino, os padres da Igreja, Paulo, e Jesus, e Aristóteles, e Sócrates... mergulhando nas raízes ancestrais da nossa cultura.

Portanto se hoje, em 2015, a cultura européia de modo geral, inclinou-se decididamente na direção do modelo Norte Americano a ponto de ameaçar a existência do Estado de bem estar, devemos reconhecer que se trata dum fenômeno bastante recente. E que em menor medida, os elementos dissonantes ainda estão lá merecendo ser examinados e reaproveitados.

Mesmo tendo criado raízes no organismo europeu o câncer americano ou americanista não conseguiu eliminar por completo a resistência em termos de sobrevivência cultural.

Em que pese a malignidade infundida pela cultura de morte e a sombra do capitalismo não nos podemos esquecer de Sócrates, perder de vista um Ambrósio, minimizar a existência de um Morus ou de um Bloy! É uma escuridão em que brilham diversos focos de luz.