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domingo, 19 de março de 2023

Psicologia, psicanálise, Freud e a questão da multiplicidade de existências - Reflexões sobre a obra de Hermínio C Miranda 'A memória e o tempo' Edicel 1984 - Parte VIII



 Parapsicologia e Epistemologia



            Agora imaginem os leitores - Se o advento da autêntica Psicologia (James E Dittes sequer precisou ser genial ao relacionar Thouless com Freud - Embora pudesse relaciona-lo do mesmo modo com Wertheimer, Kohler, Koffka e toda Psicologia profunda.) espantou os ideólogos materialistas, imaginem então a aparição de um conhecimento precipuamente empírico ou experimental... 

            Foi essa nova área do conhecimento cognominada Psicologia supranormal por Enrico Morselli, metabiologia ou psicobiofisica por F Cazzamali, Metapsíquica pelo prêmio Nobel Charles Richet e enfim Parapsicologia por Max Dessoir com o posterior Placet de J B Rhine. 

            
Vejamos agora em que circunstâncias surgiu. Pois por si mesma é a História da Parapsicologia bastante curiosa.

             Ao que parece o interesse por esse tipo de fenômenos e investigações foi acionado pelo  austríaco Franz Anton Mesmer um dos pioneiros quanto a exploração de certas técnicas de controle ou manipulação psicológica como a auto e a hétero sugestão, esta última por meio do sono hipnótico.
             

             Do quanto realizou esse Mesmer podemos dizer que parte dos fenômenos ou resultados obtidos eram reais e que a etiologia em questão veio a receber posteriormente o nome de Psicosomatose. Quiçá houvessem também alguns fenômenos parapsicológicos por assim dizer residuais. 

               Já em 1778 Mesmer solicitou que as curas por ele realizadas fossem verificadas pela Sociedade Real de Medicina de Paris, obtendo a negativa por meio de seu diretório. Contrariando o princípio científico do exame os sábios recusaram-se a examinar o que Mesmer - Supondo um fluído sutil. - cognominava Magnetismo animal. Mesmo assim ele recorreu a diversas outras instituições, obtendo sempre a mesma resposta: Os cientistas recusavam-se a ir contra os princípios admitidos e assumindo uma postura dogmática recusavam-se a investigar. Devo dizer que o mesmo se havia sucedido em Viena. 

                Afinal eram os tempos em que os materialistas De Holbach, Clothes, Helvetius, Cabanis La Metrie pontificavam na França. 

                Por fim a 18 de Setembro de 1780, a Faculdade de medicina de Paris, em sua Assembléia geral, repudiou as opiniões de Mesmer com animosidade e desdém, chegando inclusive a excomungar o Dr D'Eslon, por se haver discípulo seu. Redarguiram os apoiantes de Mesmer acusando os adeptos da medicina tradicional de terem condenado o curandeiro austríaco apenas porque ameaçava tirar os pacientes ou clientes que não conseguiam curar. Stengers, 1995 fala numa estratégia de desqualificação.

               Finalmente em 1784 uma Comissão da Academia de Paris, nomeada pelo próprio Rei e formada por Bailly, Sallin, Borie, D'Arcet, Le Roy, Bory, Lavoisier, Francklin e Guillotin repudiou a tese dos fluídos - Porque não era perceptível aos sentidos humanos, dizia Bertrand já em 1826 - Mas reconheceu a sugestão. Da mesma maneira a Comissão da Sociedade Real de Medicina - Composta por Poissonnier, Caillie, Mauduyt, Andry Jussieu
 repudiou a existência dos fluídos - O grande Jussieu o entanto admitiu as curas e relatou situações de hiperestesia ou mesmo de telecinesia corporal. 

                  Temos aqui que, por primeira vez na História das ciências, o reconhecimento oficial de um fenômeno psico somático produzido pela sugestão - Tal o veredito do redator Bailly: "É a imaginação, essa potência ativa e terrível, que opera os grandes efeitos que se observa com espanto nos tratamentos físicos." (1826/2004a ps 111 e sg)


               Por sinal o fato de que as origens mais remotas da Psicologia e da Parapsicologia remontem a figura controvertida de Mesmer - O qual, segundo algumas fontes, veio a tornar-se charlatão. - tem servido como motivo para os positivistas ou cientificistas argumentem contra ambas e repudiem a cientificidade delas. 

                Esqueceram-se esses péssimos estudantes de História que a origem da Astronomia foi a astrologia, que a origem da Química foi a Alquimia e que a origem da medicina foi o embalsamamento de caráter religioso ou o curandeirismo - Sem que qualquer uma delas deixe de ser Ciência, de modo que a origem de uma Ciência ou área do conhecimento é absolutamente irrelevante.

                 Tornemos porém a Mesmer. Pois os fenômenos obtidos por ele principiaram a ser estudados seriamente pelos idos de 1807 pelo Sr Mqs de Puysègur na monografia "Du magnétisme animal..." a qual se seguiram mais quatro publicações. 

                               Segundo o historiador Henri Hellenberger "Puységur foi um dos grandes contribuidores esquecidos para História das ciências psicológicas." (1970, p 72) Pois reconheceu como principal agente do mesmerismo a vontade do magnetizador. Ele estudou o sonambulismo juntamente com Deleuze, o qual testemunhou sua gratidão para com ele no prefácio de uma de suas obras editada em 1825 sic - (1826)

               Já em 1813 são editados as "História crítica do magnetismo animal" Mame, Paris - 2 Volumes do naturalista François Deleuze, o qual em 1834 editou umas memórias "Sobre a faculdade da previsão"  talvez o primeiro estudo sério sobre a pre cognição e portanto o primeiro estudo na área da Parapsicologia, matéria que até então - Por polêmica que era. - ficará a margem daqueles estudos.


               Em 1818 o Dr Martorelli, auxiliado pelo Barão Du Potet realiza a primeira extração dentária indolor em paciente hipnotizado e experimenta diversos outros procedimentos dolorosos sem que os pacientes sintam mínima dor.

               Já em 1821 são os estudos em matéria de Psicologia retomados com toda força pelo futuro presidente da Academia Real de Medicina, Henri. Marie Husson, Alexandre Bertrand J C Anthelme Recamier - Com Du Potet e Robouam - assistidos por outros trinta médicos. Esses relatos de experiências são frequentemente encontrados em diversos livros de Psicologia, destinados a exemplificar a psico somatose. Como resultado dessas pesquisas Bertrand publica, em 1823, o "Traité du sonambulisme et des différentes modifications qu'il presenté" foi este sucedido pelo "Êxtase" editado três anos depois i é em 1826. - Tais os primeiros estudos verdadeiramente científicos sobre esses fenômenos até hoje postos em dúvida por alguns opinões. 

                 Nas décadas seguintes Du Potet foi interessando-se cada vez mais pelos fenômenos estranhos ou pela Parapsicologia, isso a ponto de - A exemplo de muitos outros como: Nus, Mirville, Vesme, Figuier, Grasset, etc - propor uma História natural da magia. 

                  Em 1837 G P Billot publicou suas investigações e sua correspondência com o citado Deleuze. 

                   Aqui um importante aparte, pois convém observar que o arguto Schopenhauer opinou ter sido a descoberta de Puységur uma das descobertas mais importantes para a História das ideias humanas. 

                   Do outro lado do Reno tais investigações principiaram quando, em 1830, o médico alemão Justinus Kerner, publicou - No livro intitulado "Die Seherin Von Prevorst..." (A vidente de Prevorst.) - um estudo de caso (Feito desde 1825) sobre os fenômenos estranhos que acometiam a sonambula Frederica Hauff. Foi seguido pelo Barão de Riechenbach o qual publicou seu relatório sobre os fenômenos estranhos em 1845.

                    Até aqui a maior parte das explicações propostas eram de teor naturalista embora, não materialista e giravam em torno de um suposto magnetismo, da força Od ou ódica, etc 

                     Quase que imediatamente após a fase mesmérica ou magnética -E cerca de trinta anos após as primeiras investigações na área da Psicologia e da Parapsicologia. - inaugurou-se a assim chamada fase espírita, ainda que não doutrinária. (Pelo simples fato de ser anterior a Edmonds e a Kardec). Começou ela no ano de 1848, em Hydesville (EUA), com as irmãs Fox. A princípio eram apenas umas batidas que correspondiam a Sim ou Não. Posteriormente o sr David S Fox associou o alfabeto a tais batidas, o que corresponde a origem mais remota do tabuleiro de ouija.

                        Cerca de 1849, pelos idos de Novembro, principiam as mesas a dançar, dando início a uma nova fase a das 'Table moving' ou Tables tournantes', as quais não tardaram a ser investigadas por Mirville, Roubaud, Thury, Chevreul, Babinet, Faraday, Baragnon, Gentil, De Gasparin, Eugène Nus, Guldenstubbé, Forni, Pellegrini, D'Ourche, Mapes, Hare, R N Wallace, A Morgan, F C Varley, Barkas, Chambers, Gully, Chevillard, Vacquerie, Mme Girardin, Victor Hugo, Owen, Sardou, etc

                     
A esse tempo, apesar da atribuição de tais eventos a ação de espíritos desencarnados e da existência de mensagens, era o espiritismo adoutrinário. Principiando a doutrina a ser criada no ano de 1853, ocasião em que o juiz W Edmonds juntamente com T Dexter publicam a obra intitulada 'Spiritualism' em N Y. Apenas quatro anos depois (Em 1857) Allan Kardec publicou o seu 'Le livre des spirits.' em Paris. Na verdade tanto Edmonds quanto Kardec foram precedidos por Andrew Jackson Davis ('Livro dos espíritos' 1848) L A Cahagnet ('Vida futura, arcanos desvelados' 1848) - 

                      A partir daqui é importante estabelecer aqui uma preciosa distinção - Naturalmente que os pesquisadores ou investigadores: Sejam eles metapsíquicos ou espíritas estão de acordo quanto o óbvio i é quanto aquilo que é sensível, manifesto ou empírico: A realidade dos fenômenos ou se preferem - Na expressão de Amadou (Da parte dos parapsicólogos) - ao menos de alguns raros fenômenos que fogem ao que comumente chamamos normalidade. Divergem porém, via de regra, quanto a explicação etiológica ou causal dos mesmos, pois enquanto os espíritas postulam - Acriticamente - quase sempre a intervenção de um agente espiritual ou espírito desencarnado, os parapsicólogos - Por vezes, acriticamente, como o Pe Quevedo SJ - postulam a suficiência de poderes ou forças mentais i é a uma origem natural (Naturalista).

                         Há no entanto preciosas exceções -
                         

                         Assim o profo Whately Carrington de Cambridge, após ter realizado as primeiras investigações sobre telepatia com desenhos que demonstraram a realidade da pre cognição, veio a admitir, por inferência lógica, a sobrevivência post mortem. Assim o extremamente crítico e exigente Harry Price concluí pela mesma hipótese, sugerindo inclusive a possibilidade de que tais mentes possam possuam as mesmas capacidades que possuíam em vida, sendo portanto capazes de influenciar outras mentes e de atuar no mundo físico. Samuel Soal da Universidade de Londres chegou a mesma conclusão após examinar o som das vozes dos sensitivos incorporados. Por fim J F Rhine, que nos anos 60 havia opinado negativamente, em obra posterior - O Novo mundo da mente, acabou por admitir que ao menos alguns fenômenos demandam a existência ou ação de uma entidade extra corpórea consciente. 
                         
                         De minha parte, quero esclarecer que após ter examinado, ao cabo de trinta anos, as obras de Richet, Bozzano, Aksakoff, Sudré, Warcollier, Amadou, Heredia SJ, Silva Mello, Rhoden, Granja, Imbassahy, Rhine, Quevedo SJ, Lepicier, Sagan, etc além das memórias específicas de Flamarion (As casas mal assombradas A morte e seu mistério), G Delanne (Aparitions matérialisées des vivants et des morts - Paris 1909), Gurney, Myers e Podmore 'Phantasms of de living, London, 1882), etc assumi uma posição intermediária - De Rhine - a qual expressei já diversas vezes: A prevalência
 
majoritária - Mas de forma alguma absoluta. - de causas naturais ou mentais (Explicação), sem excluir no entanto, que ao menos alguns fenômenos, bastante raros (E de comprovação um tanto problemática.) tenham sido provocados por espíritos. 

                            Portanto, tal e qual alguns autores romanos e protestantes, considero que ao menos alguns dos fenômenos verificados e descritos não podem ter sido produzidos por humanos (Exceto se admitimos a doutrina aberrante do inconsciente coletivo ou da pan cognição absoluta.) sendo manifestamente sobrenaturais e portanto, segundo meu ponto de vista, causado por humanos desencarnados. 

                             Agora a questão principal não é esta, pertinente a interpretação ou a compreensão e a causalidade, e sim a questão atinente a realidade dos fenômenos ou a metodologia de pesquisa, a experiencialidade e o controle. Eis o ponto, por assim dizer, crucial. Pois implica optar por falsos princípios metafísicos ou ideologias queridas ou pela empiria i é a sensação, a a percepção, a observação, a experiência. 

                              "Contra fatos não há argumentos." é confissão que partiu do próprio pai do positivismo Auguste Comte. E assim o é - Lealdade absoluta a experiência e as favas com as opiniões, inda que emitidas por grandes cientistas, pois continuam sendo opiniões.

                               No caso a única via de escape para os cientificistas são o Kantismo ou o ceticismo, com os quais flertam já a um bom tempo - Criando mais uma mixórdia ou panaceia modernista. Nada animador... Haja visto que um deles acaba de fazer "Mea culpa" reconhecendo que essa beleza de ceticismo cientificista tem alimentado movimentos como o negacionismo vacinal...

                                Então o que temos de fazer e de honestamente fazer é muito, muito simples: Decidir entre o empirismo ou o materialismo i é entre fatos observáveis e uma Ideologia. E pouco importa caso esses senhores aleguem que parapsicologia não é ciência, pois pessoa alguma precisa ser parapsicóloga ou cientista para observar ou compreender a seriedade de um teste. 

                                 O quanto devemos saber é que temos três prêmios nobeis dedicados a esse tipo de investigação - W Croockes, Oliver Lodge Charles Richet, como se vê nenhum beato ou imbecil. E que seus críticos, os negadores da Parapsicologia, também costumam a impugnar a História, o Direito, a Filosofia, a Psicologia, a Sociologia... e tudo quanto ultrapasse a Química, a Física e a Biologia. Portanto não atribuamos maior valor a esse arremedo de Vaticano, cúria romana ou partido comunista...

                                   Principiam como sempre criticando a metodologia. Naturalmente...

                                   Porém se a metodologia de Croockes, Lodge, Richet, Kerner, Deleuze, Grasset, Gibier, Rhine, Soal, etc é defeituosa e falha quanto as pesquisas no campo da parapsicologia, por que não haveria de ser igualmente falha, displicente e ineficaz nos campos em que ordinariamente trabalharam e obtiveram tantos resultados e premiações... Afinal não são os mesmos agentes operatórios... Se foram tão ruins, idiotas ou ainda perfeitos imbecis quanto o controle das experiências metapsíquicas como poderiam ser sábios, prudentes, profícuos e bem sucedidos no controle das demais experiências que realizavam... Gostaria que alguma sumidade em cientificismo me explicasse isso...

                                    Acaso as balanças, medidores, etc não eram muitas vezes os mesmos...

                                    Ademais os observadores pertenciam a praticamente todas as áreas do mundo científico: Pois haviam psicólogos  e psiquiatras como Freud, William James, James Hyslop, Thouless, N Fodor, Cazzamali, Geley, Tamburini, Morselli, Srenck Notzing, Jung. Médicos como J R Buchanan, Osty, B Wiesner, Gurney, Roubaud, Th Bret, R Tischner, J Maxwell, Lombroso, P Baragnon, Paul Gibier, Richet, G Forni, Grasset, Baraduc, Kerner, etc Filósofos como Aksakoff, Hodgson, F Paronelli, Owen, Myers, E Boirac, Vezzani, E Bozzano, Carl du Prel, Ballou, Hartmann e Driesh. Biólogos como A R Wallace, J B Rhine Ochorowicz. Químicos como Robert Hare, Butlerov. Warcollier, Chevreul e W. Croockes. Físicos como Zollner, Finzi, M Thury, Ermacora Oliver Lodge. Astrônomos como Flammarion, Schiaparelli Gerosa. Matemáticos como Augustusde Morgan, Schepis, Dellane e De RochasPedagogos como Robert Tocquet. Literatos como Erny, Mirville V Sardou. Um nobre como o Barão de Guldenstubbé. O político Agenor de Gasparin.

               Apenas para ser suscinto cito aqui os nomes de quase sessenta intelectuais atuantes nos mais diversos campos do saber - O que é absolutamente relevante devido aos diferentes nuances de visão! - os quais, em que pesem as diferenças de compreensão, admitem todos, sem exceção, a realidade dos eventos que classificamos como paranormais ou metapsíquicos. 

                No entanto, para os cientificistas e positivistas, da escola dos srs Max Dessoir, Heuzé, Randi Dennett... Não passam, todos eles, de um bando de ingênuos ou tontos enganados por alguns espertalhões semi analfabetos.


                 Continua -  



sábado, 18 de março de 2023

Psicologia, psicanálise, Freud e a questão da multiplicidade de existências - Reflexões sobre a obra de Hermínio C Miranda 'A memória e o tempo' Edicel 1984 - Parte VII


UM AMONTOADO DE PRECONCEITOS - O MATERIALISMO, O DOGMATISMO E A RECUSA.


           Certa vez o conselheiro Aksakoff assim se expressou a propósito dos fenômenos paranormais ou 'heterodoxos': "Os fenômenos correm atrás dos cientistas e os cientistas fogem dos fenômenos.". Já a mistagoga Blavatsky referiu-se a certos acadêmicos como "Psicofobos" talvez parafraseando Platão. 

            Ao contrário do que se poderia pensar não era a importância do cérebro e sua conexão com o pensamento ignorada pelos antigos. Bastando para tanto mencionar Herófilo de Kalkedon e Eresístrato de Chios. Eresístrato no entanto, juntamente com os hormônios ou fluídos cerebrais um Pneuma que pode ser compreendido como força vital ou espírito.

              Efetivamente uma teoria materialista ou atômica foi elaborada pelo pensador Demócrito de Abdera, mas não com base empírica ou pautada em observações fisiológicas em torno do cérebro. 

              No entanto, ao que parece, a ideia de que o pensamento corresponde a uma espécie de secreção produzida pelo cérebro, surge apenas na segunda metade do século XVIII. Impõem-se no entanto a alguns cientistas como dogma ou princípio fundamental e indiscutível.

               Sobre a primeira síntese materialista contemporânea, o "Sistema da natureza" (1770) do Barão de Holbach temos duas apreciações que falam por si mesmas: A primeira é a do Marquês de Sade (A respeito do qual disse o ultra insuspeito Michel Onfray "Fazer de Sade um herói é intelectualmente bizarro.") segundo o qual era esse livro - Que lera seis vezes e de cujo sistema se considerava um 'mártir' - um "Livro de ouro" que "Deveria estar em todas as bibliotecas e cabeças."

               Necessário dizer que o Sistema de De Holbach sendo determinista e mecanicista excluía por completo a noção de livre arbítrio ou de liberdade. Eis porque, para Sade, imoralidade e crime eram palavras vazias uma vez que todas as ações humanas eram fruto da necessidade, assim o estupro, a tortura, a agressão, o assassinato, etc

               Afinal, como ensinava o profo Carus, o materialismo "sendo mecanicista por necessidade, tudo explica por combinações e agrupamentos de átomos. Sendo assim todas as variedades de fenômenos existentes: O nascimento, a morte, etc não são senão o resultado puramente mecânico das composições e decomposições, mera manifestação externa de átomos que se agregam e separam." Não há portanto outras opções ou possibilidades e tudo, absolutamente tudo, inclusive o crime - Como ensina Sade - torna-se não apenas necessário mas inevitável. 

               Vejamos agora que diz o grande Goethe sobre a obra prima de De Holbach: "Quintesência da velhice enfadonha e insípida." 

                Moleschott no entanto concorda perfeitamente com De Holbach e Sade "Caso uma razão ou personalidade dirigisse a matéria a um determinado fim, A LEI DA NECESSIDADE DESAPARECERIA da natureza, e cada fenômeno seria apenas possível."

                Agora demos a palavra a Pierre Cabanis: "Vemos as impressões chegarem ao cérebro por intermédio dos nervos; elas se acham, então, isoladas e sem coerência. O órgão entra em ação, age sobre as impressões e as reenvia metamorfoseadas em ideias que se manifestam, exteriormente, pela linguagem da fisionomia ou do gesto, pelos sinais da palavra ou da escrita. Concluímos, com a mesma segurança, que o cérebro DIGERE, DE ALGUM MODO, ESSAS IMPRESSÕES; E QUE REALIZA A SECREÇÃO DO PENSAMENTO." Eis o que diz o homem... e o que dá por demonstrado - Sem que o seja.

             Completa-o Carl Vogth "Os pensamentos tem com o cérebro a mesma e exata relação que a bílis tem com o fígado e a urina com os rins." só faltou completar: E as fezes com os intestinos...

              Ouçamos agora a Broussais: "Desde que eu soube, pela cirurgia, que o pus acumulado à superfície do cérebro destruía nossas faculdades, e que a saída desse pus lhes permitia o reaparecimento, não as pude considerar mais de outras forma, as ideias, como produtos do cérebro vivo, mesmo sem saber que era cérebro e que o que era vida." Testamento.

               Observem agora a lógica desse senhor - Tens um revólver que não funciona porque está enferrujado, removes e ferrugem, ele funciona... pronto, o tiro é produzido apenas pelo revólver, se necessidade de uma gente humano que lhe puxe o gatilho...

                Demos no entanto a palavra a Moleschott: "O pensamento não é mais que um fluído, assim como calor e som, é um movimento, uma transformação da MATÉRIA CEREBRAL, a atividade cerebral é uma propriedade do cérebro, tão necessária como a força, por toda parte inerente a matéria, de que é caráter essencial e inalienável. É IMPOSSÍVEL QUE O CÉREBRO INTACTO NÃO PENSE, COMO É ABSOLUTAMENTE IMPOSSÍVEL QUE O PENSAMENTO SEJA LIGADO A OUTRA MATÉRIA QUE NÃO O CÉREBRO." 

                     E noutra parte continua: "Bem sabeis que a abundância excessiva do líquido céfalo raquidiano produz a idiotice, a apoplexia é seguida pela aniquilação da consciência, a inflamação no cérebro causa o delírio, a síncope - Que diminui a circulação do sangue, no cérebro provoca a perda do conhecimento, a afluência de sangue venoso provoca alucinações e vertigens, uma completa idiotia é efeito necessário e inevitável da degeneração dos dois hemisférios cerebrais; enfim toda a excitação nervosa na periferia do corpo só desperta sensações conscientes no momento em que repercute no cérebro." Até aqui Moleschott.

                   
Passemos a palavra ao Dr H Tutlle "Tudo - diz ele - desde a lagarta que dança aos raios de sol até a inteligência humana que EMANA DAS MASSAS MEDULOSAS DO CÉREBRO, é submetido a princípios fixos, isso pelo simples fato de inexistir um deus." 

                    Ouçamos também a Dubois Reymond "O pensamento nada mais é além de matéria em movimento."

                    "Esse negócio de espírito nada mais é do que uma força da matéria que resulta imediatamente de atividade nervosa - Mas donde provém... Do éter em movimento nos nervos." assevera Hermann Schaffle.

                   Tudo perfeitamente aceitável, como Filosofia ou especulação Metafísica.

                   Como dado científico, tudo perfeitamente discutível. 

                   Inclusive para pensadores ou cientistas honestos como Bruchner, o qual assim responde a seus companheiros: 

                   "Em que pese o MAIS ESCRUPULOSO EXAME, não podemos encontrar analogia entre a secreção da bílis ou da urina e o processo porque se forma o pensamento no nosso cérebro. A urina e a bílis são elementos materiais palpáveis, ponderáveis e visíveis; e mais ainda, são matérias excrementícias que nosso corpo usou e agora rejeita. O pensamento, o espírito, a alma, pelo contrário, nada têm de material, não são substâncias, mas o encadeamento de forças diversas que formam unidades, o efeito do concurso de muitas substâncias dotadas de força e de qualidades.
                       Quando uma máquina feita pela mão do homem produz um efeito qualquer, põem em movimento seu mecanismo ou outros corpos, dá uma pancada, indica a hora ou coisa semelhante, esse efeito considerado em si mesmo é coisa essencialmente distinta de certas matérias excrementícias que ela produz, talvez, durante essa atividade.
                         Assim é o cérebro, princípio, fonte, ou melhor dizendo, causa única do espírito ou do pensamento; mas não é por isso seu órgão excretor. Ele produz algo que não é rejeitado, que não perdura materialmente e que se consome no momento mesmo de sua produção. O trabalho ou atividade dos rins ou do fígado se realiza sem que o saíbamos... mas a atividade do cérebro não pode existir sem que dela haja consciência completa..." 

                           
O que o nobre professor Bruchner jamais logrou esclarecer - Como lhe foi solicitado pelo Dr Janet no "Materialismo dos dias atuais, uma crítica ao sistema do Dr Bruchner" - é como o cérebro, sendo um agregado de células materiais, produziria pensamentos imateriais ou o fenômeno da consciência... 

                             Mais adiante de Moleschott foi o professor Bayson que para demonstrar que o cérebro produzia ou excretava pensamentos dava-se ao trabalho de pesar todos os sulfatos e fosfatos que consumia por meio da alimentação, após o que dedicava-se a algum trabalho mental e por fim contabilizava a quantidade de sais presentes em suas excreções i é fezes, urina e suor, visando demonstrar que a quantidade de sais excretados aumentava após qualquer trabalho intelectual...

                              Meio século passou-se até que um outro Nobel, e portanto para que um pesquisador sério, Henri Bergson repudia-se expressamente a doutrina ou ensinamento segundo a qual é a mente humana produto do cérebro ou que o pensamento seja exclusivamente elaborado por ele. O espírito, declara ele, não é matéria e não está demonstrado que seja ele mera função do cérebro. 

                              Todavia, como não houvesse um Bergson a Ideologia materialista impregnou de tal modo a ciência e suas instituições ao cabo dos séculos XIX e XVIII, que elas chegaram a substituir o Vaticano e a Inquisição com suas denuncias por heresia, excomunhões, interditos, etc enfim com seus meios de controle.

                               E já veremos como Mesmer teve seus pedidos de pesquisa ou análise aprioristicamente negados por tais Instituições, o que por si só é comprometedor. Posto que é dever dos cientistas e instituições científicas investigar.

                               Todavia, tanto mais se apegavam a certos princípios apriorísticos ou metafísicos, tanto mais esses acadêmicos temiam a realidade e suas manifestações - Justamente por não se enquadrarem em seus sistemas. Do que resultava a recusa ao exame... 

                                Os tais sábios limitavam-se a cruzar os bracinhos e declarar: Tal coisa não pode ser real - Determinando se algo podia existir ou não, conforme o esquema de mundo vigente.

                                 Foi atitude que vigorou por mais de século e infectou vários homens ilustres, a começar por Lavoisier o qual, apelando a tais e tais princípios, tachou os camponeses de simplórios ou imbecis, por insistirem que pedras caiam do céu. Feito isso compôs a famosa memória contra a existência de meteoritos e enviou-a a Academia, onde foi ovacionada pelos guardiães da ciência. Trinta anos depois tiveram os mesmos guardiões que dar razões aos camponeses imbecis - Que apesar disso tinham olhos e sabiam observar! - e admitir a existência de meteoritos! 

                Passado um século foi a vez de Th Edison, após ter apresentado seu Phonógrafo, quase ser agredido por um acadêmico francês, o qual aos gritos de - Não passais de um ventríloquo! - buscava desmascara-lo.

                Tais os tempos.

                O mais grave no entanto era a peremptória recusa, por parte de alguns, a investigar. 

                De fato, quando o fenômeno das mesas girantes chegou a França, Foulcault, no "Journal des debats" apelando a determinados princípio, não apenas negou o fenômeno, como após ter declarado que era absurdo e impossível, declarou que sequer deveria ser examinado por um cientista sério.

                 No entanto passados mais de cento e vinte anos, pudemos ler com gosto num Carl Sagan que todo e qualquer fenômeno, por insólito que fosse - A exemplo dos discos voadores ou OVNIs - deveria sim ser investigado, sendo dever faze-lo. 

                  Muito antes de Sagan, tanto o estadista Agenor de Gasparin quanto o poeta Victor Hugo - Legítimos expoentes do pensamento crítico e científico. - deram competente resposta ao grande físico -

                   "Substituir o exame pela zombaria é muito cômodo, mas bem pouco científico. O fenômeno da velha trípode, como o da atual mesa, tem, tanto quanto qualquer outro, direito a observação." Hugo in "William Shakespeare

                    "Não, eles não lerão essas coisas, mas julgarão! Julga-las-ão sem mais nem menos, do alto de suas cátedras e apelando a um argumento irrebatível: Não creio porque não creio - Simples, fácil e peremptório. Não admito tais coisas porque são impossíveis. Sendo assim perdeis vosso tempo transmitindo tais narrativas!" De Gasparin
in "Des tables tournantes, du surnaturel en général et des esprits." 

                   Acho absolutamente válido discutir teorias, explicações, hipóteses, etc discutir, por em dúvida ou negar a atuação de espíritos... Postulando a Hiperestesia, a objetivação de tipos ou a Prosopopese metagnomia, os resíduos mentais ou tulpas, desdobramentos psíquicos, etc desde que fatos não sejam aprioristicamente negados e pesquisas seriamente realizadas desdenhadas, pois aqui topamos com a desonestidade. E o fruto da desonestidade e da negação dos fatos será o descrédito da própria ciência, mormente num tempo em que os fundamentalistas e ocultistas buscam desacredita-la.

                        
                                
               



                  

             

quarta-feira, 15 de março de 2023

Psicologia, psicanálise, Freud e a questão da multiplicidade de existências - Reflexões sobre a obra de Hermínio C Miranda 'A memória e o tempo' Edicel 1984 - Parte I

Ao passar por uma Banca de Jornais - Esta convertida e Bazar enquanto outras tantas foram convertidas em mini Shoppings por obra e graça do mundo digital. - avistei uma pilha de livros velhos, da qual extraí um bom número de volumes interessantes, dentre eles uma brochura esverdeada, de umas cento e cinquenta páginas e intitulada 'A memória e o tempo'. Nem é preciso advertir de que a comprei e também os mais volumes interessantes, num total de vinte e poucos.

Havia, dentre eles, a Biografia completa do sr Kardec por Zeus Wantuil em três alentados volumes, dos quais eu havia tido um só e perdi há muitos anos. Diversos volumes de Parapsicologia, alguns volumes do Herculano Pires, um do Bozzano, etc E como disse fiz a ceifa.

Quiçá alguns tenham já concluído: Quanta baboseira ou que desperdício... Julgo porém que, ao contrário do genial Karl Sagan, diriam a mesma coisa da Odisseia de Homero, do Teatro de Sófocles ou da República de Platão. Refiro-me aos materialistas crassos, aos positivistas inveterados e aos cientificistas a exemplo do falecido Mário Bunge, enfim de toda essa gente que jamais fora capaz de escrever uma opereta medíocre ou um draminha satírico - Gente tão alienada quanto a outra gente que tanto gostam de criticar.

A exceção das baboseiras esotéricas - Que se embrenham pelos campos da História, da Geografia ou da Astronomia. - divulgadas por Churchward, Posnansky, Braghine, Donnely, etc leio praticamente tudo. 

Há mais de trinta anos tomei por divisa está pequenina frase: "Examinai tudo e ficai com o que proveitoso é." e dela não me aparto. Tanto isto é verdade que, mesmo não sendo adepto das Ideologias ateísta e materialista, bem como da mística positivista. contínuo a ler diversas publicações congêneres tendo em vista garimpar algumas coisas boas e formular uma visão de mundo, quanto possível mais equilibrada.

Naturalmente que leio muito Freud, o qual apesar de seus erros, alguns dos quais aberrantes - ainda me encanta. E Darwin, e Marx, e Weber, e Malthus, etc na medida em que a leitura dos clássicos me permite. Nada do quanto seja humano ou mesmo natural me é indiferente...

Claro que a exceção da fé Cristã não respeito Ortodoxia ou sistema algum - Embora admire certos construtos como o de Sócrates, o de Aristóteles, o de Malthus e o de Max Weber - pelo simples fato de saber que não existem seres humanos infalíveis... Sou sinceramente Católico Ortodoxo por julgar que tal sistema, quanto a sua parte mais íntima (A dogmática) seja divina ou Revelada por Deus. No campo da própria Teologia sou já rebelado e portanto suspeito...

Portanto não creio em ortodoxias, sistemas fechados, místicas secularizadas ou igrejolas humanas... 

Concordo portanto com os agnósticos, filhos de Huxley, quando apresentam o ateísmo e o materialismo como são i é como elaborações metafísicas e tão metafísicas quanto o teísmo e o espiritualismo, pelo simples fato de ultrapassarem os dados imediatamente sensíveis em sua rude simplicidade. Excluída a reflexão racional (Metafísica) impugnada pelo rude escocês, só nos resta silenciar sobre todos esses assuntos ou calar a boca...

E não concordo menos com os espíritas, quando apontam o materialismo dos cientificistas, como igualmente ideológico e não como científico. Especialmente no que tange os domínios da Psicologia - Aqui o estrago e a tragédia são muito maiores! 

Podemos admitir sem maiores problemas que a exceção da Psicologia, a ciência ou as ciências são materiais pelo simples fato de que o campo devassado por elas é a materialidade. Cumpre-nos repetir aqui a lição do agnosticismo: Uma coisa é ter a ciência, de modo geral, como material e outra por materialista; pois ali cumpre com seu escopo> Investigar a matéria, enquanto aqui, ultrapassa a si mesma e a seu escopo, predicando - Sem mínima legitimidade! - que nada há para além da dimensão material do ser, predicação que foge tanto ao empirismo como a ciência...

Criticam os marxistas quando invadem o campo das ciências humanas, a começar pela História e pela Geografia, introduzindo sua Ideologia grande parte ideativa ou metafísica (Weber!) e sem embargo disto, imitam-nos - O Dawkins, o Harris, o Dennett e outros - invadindo o campo de ciências que por definição são exatas ou naturais e introduzindo opiniões metafísicas como se empíricas fossem ou como tivessem dado com o princípio materialista na gema do ovo ou com o ateísmo na partícula do Argônio... Mas onde encontraram e isolaram tais 'elementos''... E como os formularam sem o auxílio da 'razão' impugnada por Hume.

Bem aventurados os materialistas e ateus que não se fantasiam como cientistas, céticos ou positivistas assumindo o caráter metafísico de suas crenças mais queridas. No entanto em tempos nos quais é a Filosofia sistematicamente repudiada e a honestidade escasseia tal postura se torna rara.

Ateísmo e teísmo, materialismo e espiritualismo, etc não são questões religiosas - Que se resolvem por meio da fé ou de livros autoritativos. - e menos ainda questões científicas a serem solvidas num gabinete científico ou laboratório e sim questões de ordem metafísica a serem examinadas e julgadas por cada pessoa com máxima liberdade > Embora para tanto deva haver preparo i é investigação, pesquisa, estudo ou leitura.

Vender tais lucubrações por elementos científicos, como faz a ralé positivista até os dias de hoje, é pura e simples falta de caráter.

Por isso os espíritas e alguns romanos tem plena razão ao denuncia-los, respirando indignação inclusive.

Tanto pior o resultado dessa falsa propaganda no campo daquele tipo de conhecimento que é por assim dizer o único que foge ao estrito campo das demais ciências: A Psicologia...

Principiou a falsa ciência 'materialista' na França, com o ideólogos De Holbach, La Metrie e Clothes, dentre outros... Asseverando que NÃO HAVIA imaterialidade alguma e que a existência do espírito era falsa. Tudo quanto havia era matéria ou materialidade... Tal o materialismo crasso, formal e mecanicista dos quais muitos teóricos acharam por bem desprender-se no decorrer do século XIX quando a barquinha começou a fazer água.

No entanto os resistentes ou 'ortodoxos' asseveravam, de geração em geração, que na geração seguinte, a inexistência do espírito ou a fábula do imaterial seria rigorosamente demonstrada num laboratório. 

O primeiro foi Broussais, o francês... o qual chegou a declarar - Como Branly um século depois - que caso testificasse qualquer evento de natureza imaterial NÃO ACREDITARIA rsrsrs Após ele foi a vez do comunista Joseph Dietzgen, o qual tendo declarado que a ciência havia demonstrado experimentalmente o princípio do materialismo, foi advertido e corrigido pelo próprio Engels. Pouco depois Engels declarou que os comunistas não eram materialistas formais ou crassos pelo simples fato de não negarem a existência do imaterial e sua interação com o material inclusive. Por fim assomou o inteligente Lênin, o qual numa obra de inegável valor 'Materialismo e empiro criticismo' e opinou que não tardaria muito tempo para que o princípio materialista fosse empiricamente demonstrado.

A questão é que desde aquele tempo, a geração de Engels, os dois campos tiveram que reformular o conceito de materialismo tendo em vista sua sobrevivência no âmbito das ideias. Pois conforme a ciência progredia se tornava cada vez mais difícil o óbvio, que era a existência de um elemento imaterial ou espiritual. Eram os tempos de Ch Darwin, o qual demonstrou o princípio da Evolução no campo da biologia, abrindo novas perspectivas, das quais se aproveitaram diversos pensadores, como um Spencer por exemplo. 

A recomposição deu-se justamente nesse sentido, da evolução - A princípio existia, apenas o elemento material (Daí monismo materialista.) o qual, a cabo de um lento processo evolutivo, se foi depurando ou tornando menos denso (Espiritualizando...) até dar origem ao espírito ou ao imaterial... Portanto se havia algo de imaterial ou espiritual no mundo esse algo teria se originado a partir do elemento material, pelo que o material seria a origem de tudo. Creio que tal construção remonte inclusive a Lucrécio, mas não sei exatamente.

Em meio a tantas revoluções ou transformações o conhecimento da mente não pode deixar de cindir-se em duas correntes não apenas distintas mas rivais: O que ora chamamos Psiquiatria e a que ora chamamos Psicologia... sabendo que está última remonta a Th Fechner e Wundt e que a primeira não teve dificuldade alguma em ser reconhecida como legítima ou científica. 

Outro o caso da segunda....

Importante salientar que ainda hoje, em pleno século XXI, há ideólogos - Positivistas, cientificistas, materialistas... - que repudiam não apenas a parapsicologia, como a psicanalise e até mesmo a psicologia não colonizada ou não behaviorista, como construtos semelhantes as diretrizes comunistas ou a astrologia... Um sujeito de rara inteligente como Popper, inclusive, enredado por Hume, lançou a Psicanálise, a parapsicologia e a Evolução das espécies no mesmo balaio que a astrologia e as diretrizes marxistas, o que nos possibilita antever o caráter sectário desde tipo de mentalidade.

Outros positivistas lançam ainda História, a Filosofia, a Jurisprudência... no mesmo balaio, de modo que só seria ciência o que eles querem e do jeitinho que querem, e isso mais de século após W Dilthey ter pulverizado seus preconceitos sectários. 

Para que a crença querida do materialismo seja científica toda ciência precisa ser materialista...  Portanto caso o campo científico em questão - Pelo simples fato de ser humano e não sideral, mineral ou vegetal. - destoe do materialismo cessa por isso mesmo de ser científico ou respeitável. Engenhoso não...

Que pensem assim os físicos e químicos e ainda alguns naturalistas por serem reducionistas e paladinos da monocausalidade com as bençãos do capelão Ockhan bem se compreende. Agora que tais prejuízos se tenham afirmado no campo da Psicologia, que é uma ciência da mente, é bem outra coisa...

Durante a segunda metade do século XIX, o conflito não estourou abertamente devido as personalidades conciliadoras e respeitáveis dos já citados Fechner e Wundt. Tratava-se de um conflito apenas latente, em que a Psicologia nascente era muito mal vista e encarada com suspeição enquanto a Psiquiatria era muito bem acolhida pelos líderes cientificistas. 

Assim até os idos de 189... ou até a última década do século XIX. Período em que, após a morte de J M Charcot, a controvérsia Salpêtrière - Nancy tendia a serenar. Foi no entanto quando justamente tornou-se universal. Pois junto a Charcot estava um jovem ateísta e presumidamente materialista, S Freud, e do outro lado do Reno, Wagner Jauregg e Emil Kraepelin. 

O quanto podemos dizer é que nesse período - Ao menos até a criação do behaviorismo por Watson! - surgiu um divisor de águas entre Psiquiatria e Psicologia que possibilitou a plena expressão da última. E tal se deve, paradoxalmente, a S Freud. É com Freud que a Psicologia desprende-se, como deveria, da psiquiatria ou da determinação somática unilateral para postular a existência de fenômenos psicosomáticos. 

Até hoje, um século depois, ainda podemos testemunhar a rivalidade existente entre essas duas áreas - Psiquiatria e Psicologia, as quais para o bem dos seres humanos, deveriam caminhar juntas. A resistência no entanto é quase sempre mais viva nos domínios da Psiquiatria, partindo obviamente dos cientificistas, animados pela ideologia materialista. O resultado disto é a rejeição seja da Psicologia ou da Psicanalise por eles, e o reconhecimento exclusivo - Por motivos que nos parecem óbvios. - dessa Psicologia esvaziada e aparente chamada behaviorismo.

O behaviorismo é sempre bem vindo por qualquer psiquiatra pelo simples fato de negar a mente e por extensão qualquer coisa de imaterial ou espiritual. 

Antes da criação desse ente aberrante chamado behaviorismo, era a Psicologia repudiada em bloco por parte significativa de psiquiatras.




sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Contraponto ao cientificismo, incongruências...

Esta o cientificismo para a ciência como uma Hipertrofia.

Nada mais é ele do que a última barreira posto por alguns entre o conhecimento e o ceticismo crasso.

Afinal após se ter voltado contra a fé religiosa e julgado te-la esmagado voltou-se essa construção metafísica contra a Filosofia, julgando poder por limites a razão e estabelecer o paradigma do empirismo crasso ou da experiencialidade pura. O que de fato foi insinuado por Kant e canonizado por Comte e seus adeptos os positivistas. As objeções já de início foram insidiosas, já porque a epistemologia ou a gnoseologia não são parques de diversões ou tendas circenses... Monstruosa a simples suposição de uma experiencialidade pura a parte da dedução racional que sempre a acompanha. Mas por que raios a razão deve servir apenas de dama de companhia?

Os céticos optaram preferencialmente por nega-la. Creio ter sido mais digno e respeitoso. A fé já converterá, insolentemente, a razão em serva. Eis que agora é ela, a fé, imitada pelo novo credo cientificista...

E no entanto é este homem, o homem moderno ou o homem de ciências moderno, mera abstração. Antes foi filósofo natural, e como bem diz Koestler, tal diz muita coisa. Não se faz teoria cosmológica sem aparato racional... Pois queiram ou não é exercício metafísico. Teorias gerais tem sido proclamadas como construções metafísicas por Popper inclusive. O qual, bem ao modo de Hume, lançou-as todas as urtigas, inclusive o evolucionismo biológico, assim o freudismo e o marxismo em sua totalidade... nivelando-as a astrologia. E esse Popper querido não media, não pesava, e tampouco contava - Era epistemólogo... Tão querido dos empiristas crassos. Todas estas relações não deixam de ser divertidas.

Isto porque, para escapar ao ceticismo e impor-se como conhecimento válido e verdadeiro, deve a ciência descer a arena da gnoseologia ou a epistemologia. As quais não são ciências, nem produto da experiência ou do empirismo, mas exercício especulativo executado pela razão pura. E não se surpreenda que Kant ao analisar o conhecimento ou o saber e aquilatar sua validade a partir de sua razão purinha foi ele mesmo um metafísico, não um cientista. Alias se alguém professa o materialismo ou o empirismo não pode evitar ser classificado como metafísico. De fato meus amiguinhos não é a crítica da ciência feita pela própria ciência em termos empíricos (Isso não existe!) mas pela Filosofia, segundo o método abstrato da dedução lógica!!! Filosofia da ciência é mera especulação ou metafísica, e não indução... Dispensa-se o laboratório para elabora-la. É coisa de gabinete. Que bem poderia ser feita na ágora de Atenas.

Mas os cientificistas parecem não saber nada disto...

Não é que parecem não saber. Não sabem mesmo, posto que não estudam ou conhecem Filosofia! Proclamando-a ociosa ou inútil. De fato não estão aptos a discutir sobre epistemologia ou gnoseologia, e por isso escrevem tantas e tão monstruosas aberrações. Diante disto podemos dizer que continua faltando Filosofia... O trágico enfim converte-se em comédia quanto a isto tudo adicionam uns temperos de ceticismo. Chegando aqui temos acabada a obra do Dr Franknstein...

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

J. J. Rousseau, o pedagogo.

Poucos sabem que é na verdade este Blog. O qual não passa de um Diário íntimo, bloco de anotações ou resenha de leituras. O qual escrevo antes de tudo para mim mesmo, tal e qual as madames D Stael e Swetchine.

Como um culinarista, perfumista ou decorador tudo vou misturando de modo a produzir novos pratos, coquetéis ou ambientes. Por isso vou combinando o que leio com o que já li e busco salientar os elementos comuns que existem nos diversos autores. De fato associar e comparar os componentes de toda esta bagagem é meu passa tempo predileto.

E cá vou misturando Tasso, Afrânio Peixoto, Humberto de Campos, Brito Broca, Rodó, S Hipólito, Orígenes, Diógenes Laércio, Dielz, Mondolfo, Sciacca, Bloy, Mounier, Maritain, Berdiaeff, Belloc, Laski, V G Childe, Woodlock, Gray, Kirk, Dawson, Van Paasen, R B Downs, Nisbet, Q Skinner, Papini, A Piccarollo, Munford, Ashley Montagu, Calmon, Crane Brinton, De Rugiero, etc Platão, Aristóteles, Agostinho, Erigena, Aquino, Marsiglio, Vitória, Las Casas, Erasmo, Descartes, Bodin, Cervantes, Shakespeare, Hobbes, Spinosa, Defoe, Swift, Beccaria, Moliere, Verri, Voltaire, Browson, Herbart, Mill, Spencer, Marx, Wundt, Droysen, Wellhausen, Darwin, De Vries, Freud, Jung, Otto, etc E vejam que sopa ou salada...

Hoje o prato do dia é o merecidamente celebre genebrino J J Rousseau, a respeito de cujas opiniões políticas escrevemos já inúmeras vezes.

Recordo ter lido o primeiro ensaio sobre Rousseau logo após minha conversão a Igreja de Roma e portanto pelos idos de 1992 ou 93, quando tinha dezessete ou dezoito anos, curiosamente dizia respeito a Educação e ao psicologismo, assim as correntes pedagógicas contemporâneas, traçando paralelo com o freudianismo. Focava ainda no tema dos castigos e punições, assim dos castigos físicos, havendo um nítido ranço agostiniano que já me causará mal estar. A insistência no falso conceito de pecado original, em seu sentido ontológico ou metafísico era marcante e sabia aquela pedagogia jansenista descrita por Hubert na História da Educação...

Em seguida i é alguns anos depois, li um artigo sobre o mesmo tema composto por um autor espírita, este bem mais equilibrado. Seja como for não retenho mais os nomes de tais críticos ou expositores. Os demais artigos - De Nisbet, Piccarollo, Mosca, etc eram antes de tudo políticos e consagrados ao Contrato social e conceito de vontade geral, pouco havendo ali de propriamente pedagógico.

Li menos Rousseau do que Voltaire. Afinal li "Deus e os homens" em sua totalidade. De Rousseau havia lido apenas o primeiro capítulo do Contrato, o Ensaio sobre as artes as ciências e o progresso da humanidade e alguns capítulos do Emílio, isto porém em meus tempos de universitário. Desconhecendo quase que por completo as obras de Pestalozzi, Claparede, Ferriere, Piaget e outros, assim o significado do escolonovismo, como poderia avaliar tão importante obra?

E no entanto faz-se mister ler o Emílio em sua inteireza. Embora antes talvez seja bom ler um manual de História da Educação como os de Luzuriaga ou F Mayer. Isto para fazer as devidas conexões - Não é por acaso que J. Piaget e P. Viver eram suíços e Claparede e A. Ferriere eram genebrinos. O que remete a tradição pestalozziana, de Yverdon, a mesma Yverdon por onde passará Rousseau então perseguido.

Da simples leitura do Emilio ressaltam os fundamentos mais remotos do escolonovismo com sua insistência na empiria ou no modelo científico experimental.

Assim a ideia tão cara aos piagetianos de que errar faz parte do processo e que a forma ou hábito do conhecimento se da sempre por acerto e erro. Ideia está atrelada aquela segundo o qual o verdadeiro educador não deve despejar o conhecimento teórico no aluno a faze-lo decorar fórmulas ocas mas gerenciar ou produzir situações problemas, que estimulem a curiosidade do educando e o façam refletir. Aqui o papel é mais orientar do que fornecer ou discursar.

É bastante provável inclusive que este tipo de postura reflita a postura do grande Sócrates, o qual duvidava bastante da formação teórico discursiva oferecida pelos sofistas e propunha um método dialético que considerasse a bagagem do educando e sua capacidade racional para compreender. Alias Rousseau destacou se justamente por, a exemplo de Sócrates e Platão, ter compreendido o papel fundamental do processo educativo para qualquer tomada de consciência. E é claro que estamos falando duma educação ativa e não bancária (Freire).

Da mesma maneira pode Rousseau perceber que a cognitividade humana conhece determinadas fases naturais, posteriormente classificadas por Decrolly, Wallon, Piaget e Vigotsky.

Continua.

Éticas ou Ética...

Num dias destes, proseando com um amigo, atalhou-me ele para postular a existência de diversas Éticas ou de Éticas diferentes, contrárias, etc tal e qual sucede a moralidade ou aos costumes, de fato relativos ao tempo e ao espaço.

Bem sei que eu que a par de diversas revelações ou grupos religiosos, existe certo número de predicações valorativas que revindicam ser Éticas. Revindicar porém não é ser, e devemos investigar os fundamentos.

Como Socrático e humanista que sou, julgo ela existência de uma única Ética autêntica ou bem fundamentada. As demais teorias e sistemas que revindicam este título seriam tão equivocadas quanto as moedas falsificadas.

Nem poderiam ser opostas e verdadeiras ao mesmo tempo. Declarar aceitáveis diversas éticas contraditórias equivaleria renunciar a verdade, e a contentar-se com aparências ou palavras.

Remeto meus críticos ou objetores ao princípio da contradição.

E diante dele dirijo-me aqueles que compreendendo a importância vital do tema estão dispostos a investigar e a descobrir qual seja a Ética verdadeira.

Você pode demonstrar por qualquer meio (Que não o religioso é claro!) que a Ética deva contemplar a espécie ou a sociedade ao invés do indivíduo??? Nada na natureza obriga o indivíduo a ceder lugar ao grupo. Nada, em absoluto. A empiria esta a favor dos individualistas. Aqui concordamos com eles, e chegamos, pelo que é ou a observação dos fatos, ao individualismo... Com todos os problemas subsequentes.

Kropotkin demonstrou que os animais costumam a auxiliar uns aos outros. Certo, é fato. Mas o que temos de indagar aqui é em que circunstâncias ajudam-se ou se ajudam-se mesmo com prejuízo de si mesmos e de seus interesses, i é, se os animais de imolam pelo outro e se isto é habitual entre eles. Quanto a este tipo de consciência gregária, quanto a imolar-se pela espécie, não tenho qualquer notícia entre os animais. Observo-o nos homens, mormente quando instigados por alguns credos religiosos. Ademais em situações ou circunstâncias anormais ou desfavoráveis tendem os animais a 'pensar' somente em si mesmo ou em termos individuais, exceto talvez da prole (inda que com reservas!) que é a continuação deles mesmos.

As Éticas empíricas não tem podido ultrapassar o abismo do individualismo.

Podem escapar ao abismo do utilitarismo chão???

Pode você leitor demonstrar-me, partindo do que é ou da experiência, que devamos construir princípios e valores que transcendam a utilidade ou aquilo que seja útil ao individuo, cogitando sofrer prejuízo em nome da justiça, como tantas vezes foi cogitado por Sócrates?

A simples vivência irrefletida e irredutível a razão jamais ultrapassa o ponto de vista de Trasímaco, inda que este, qual Morfeu, mude de feições com o passar das gerações. Excluído o elemento comum da reflexão metafísica ou do arrazoado racional, sustentará o homem a busca pelo seu prazer sem cuidar de outra coisa. Moral ou Ética sera sempre fruição de vantagens, benefícios, prazer, etc e não se sai disto. Assim a política será apenas uma questão de poder ou força, a serviço não do bem comum, mas da fruição individual... E atrelado a fruição do prazer e do poder teremos a posse de bens materiais até o abuso, garantindo acesso ao poder a ampliando o acesso ao prazer. E tudo fica nisto: Prazer, poder e fortuna em termos individuais.

Este tipo de 'Ética' sequer nega mas simplesmente despreza ou ignora a existência de seres sofredores, enfermos, escravizados, dominados ou injustiçados; pois os outros só existem para ele enquanto meios para se obter ou consolidar o próprio bem estar. O outro aqui é sempre um objeto ou uma coisa a serviço dos interesses individuais e não uma outra pessoa ou um igual, com o qual nos devemos solidarizar. A empiria não cobra essa equalitarização porque não observa a igualdade na ordem do mundo mas a desigualdade, a qual encara como natural e irreformável. Não se questiona a realidade porque inexiste o padrão ideal posto pela razão ou pelo exercício da metafísica.

Por isso considero apenas uma Ética como autêntica ou legítima em seus fundamentos: A Ética racional, que parte de uma problematização e reflexão profundas, construindo seus princípios e valores em termos de algo tão abstrato como a humanidade, face a qual todos são iguais em termos de relação. Este elemento comum ou 'elo de ligação' universal só se apresenta a razão, não a experiência, e é com base nele que disciplinamos o convívio, dando-lhe uma conotação marcadamente social a um tempo e abstrata ou ideal a outro.

Apenas esta reflexão, que ultrapassa a mera observação dos fenômenos materiais e cogita naquilo que é abstrato e social, poderia ter criado na noção de Bem Comum. Ora a noção embrionária de bem comum, afirma-se teoricamente com o Estagirita, embora esteja já presente em Platão, Sócrates ou na mentalidade da polis grega enquanto busca. E quando dizemos busca, dizemos busca racional.

O conceito em questão não foi apenas formulado pelos grandes sistemáticos do pensamento clássico, mas também provido de fundamentos estáveis ou essenciais.

Por este motivo quanto escrevo Ética, escrevo em singular e quero dizer sempre esta Ética que remonta a Sócrates, passa por Platão e é por assim dizer 'acabada' por Aristóteles, ao menos quanto a seus elementos mais relevantes.

As demais são aparências de Ética, muito mal construídas.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Positivismo e pós modernismo, uma conjuração contra o homem.

Aparentemente é o pós modernismo uma reação ou protesto face ao credo positivista. Uma erupção subjetivista ou psicologista face ao objetivismo chão arvorado pelo positivismo. A negação do sistema concebido por A Comte.

E no entanto há um traço comum entre eles: O repúdio a razão, a reflexão ou enfim ao que definem como racionalismo e comparam a religião, e a sua atividade metafísica. É o empirismo crasso anti metafísico. Assim o ceticismo, o relativismo e o subjetivismo crasso ou psicologismo.

O empirismo crasso por negar a idealidade.

O psicologismo contemporâneo por negar a objetividade seja da percepção ou do raciocínio.

O 'Loci commune' aqui é o repúdio a metafísica enquanto capacidade ou possibilidade.

Honesto, o cientificista ou empirista do século XIX, acompanhando Littré - Comte era demasiadamente influenciado pelo 'Catolicismo' - repudiou a Ética por confundi-la com a moralidade ou com a fé religiosa.

Desde então foi o homem convidado a contentar-se com o que é e a repudiar o que deve ser i é a idealidade, equiparada a imaginação ou a fantasia, e lançada a esfera das coisas individuais ou relativas.

Hoje no entanto adoramos falar em Ética, ainda que levianamente, devido ao preconceito anti metafísico canonizado por Kant e Litree. Mas é como discursar sobre uma casa sem paredes... A Ética além de ser ela mesma um esforço metafísico, carece em última análise de um reforço gnoseologico ou metafísico. Afinal de que serviria ao homem uma Ética que não fosse verdadeira ou que fosse relativa se estamos a falar na convivência?

Fique claro que por isso não produzimos ou temos uma Ética consistente, apenas um discurso vazio, logomaquia ou verborragia... A critica católica ou humanista já havia abalado o discurso anti Ético do positivismo no final do século passado. O delírio não durará mais do que vinte ou trinta anos. Mas foi o quanto bastou para que mil Trasímacos sem consciência pensassem conflitos mundiais. Os quais eclodiram vinte anos depois.

Por falta de espírito crítico, idealidade ou Ética o cientificismo positivista colaborou imensamente para que o novo espírito materialista, economicista ou capitalista invadisse e se assenhorasse das sociedades católicas. E seu conformismo ou solidariedade disfarçada foi ainda mais danoso do que a inação Cristã.

Após terem estourado duas grandes guerras, com o saldo de milhões e milhões de mortos, a solução positivista teve de ser revista. Afinal, caso a ciência produzisse Ética seus representantes não apelaram ao pragmatismo ou ao utilitarismo com o objetivo de advogar o uso de animais em experiências, o que nada significa além de colocar se acima do bem e do mal, e, com a mesma arrogância das seitas religiosas, o que vem a expor o caráter místico do cientificismo. Tal foi e é o caso das armas de destruição maciça ou da Bomba atômica...

Estreitamente empírica, por necessidade, a ciência não pode dar Ética que por definição critique a realidade dada e proponha um padrão ideal. Pelo critério do que é não se chega ao que deverá ser... Diante disto só restará ao cientificista ou positivista do pós guerra servir-se do pragmatismo ou do utilitarismo os dois únicos sistemas de Ética ensaiados pelo ateísmo e pelo materialismo.

O problema aqui é justamente que a partir do que é dado ou do que é não nos parece convincente ou terminante que este utilitarismo deva ser social, como queria J S Mill e não individualista. E empiricamente não percebo, nem creio ser demonstrável que Ayn Rand esteja equivocada... É até me parece que ela é seus pares tenham alguma razão quando alegam que Mill tomou remendos sociais ou gregários ao Cristianismo ou a cultura...

Os cientificistas e positivistas há tempos que prometem uma Ética própria e favorável ao homem, mas... Não tem podido cumprir a palavra. É por que? Simples, porque a Ética é um exercício essencialmente racional ou metafísico destinado a romper com a realidade dada, a nega-la, a ultrapassa-la, etc tendo em vista um padrão ideal. Além disto as pretensões da Ética são atemporais, universais e absolutas i é em torno de alguns princípios e valores comuns a todos os seres humanos ou unificadores. Não John Gray não está enganado ao por o pensamento seminal dos antigos gregos em tais termos. É nossa herança!

Não é menos verdade que foi já o positivismo demolido pelo pós modernismo e por ele substituído enquanto moda ou fetiche do momento. Sem que no entanto houvesse qualquer mudança significativa em termos de Ética. Já porque o pós modernismo costuma ser ainda mais feroz que seu predecessor em sua crítica à objetividade de qualquer valor ou princípio universal. O ideal aqui, quando existe, é sempre fragmentado ou individual e nada transcende a esfera do individual.

O primeiro retirou-nos a razão é o segundo a experiência ou percepção. Até que nada restasse ao homem ocidental em termos de 'comum' e ele se converte-se numa ilha ou universo incomunicável, onde a identidade e a comunhão tornaram-se impossíveis. Perdemos a verdade Ética e em seguida a Verdade ontológica. Que nós restou? NADA... apenas o vazio, sinônimo de miséria cultural e civilizacional. Andamos para trás e podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que o pós modernismo não corrigiu mas ampliou e aprofundou o erro essencial do positivismo. De um extremo a outro da gnoseologia contemporânea nada lucramos.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Porque sou metafísico...


Embora não tenha nada contra os ateus, especialmente aqueles que são oriundos de outro universo cultural ou conversos ao ateísmo, não partilho deste ponto de vista e já digo porque.

Impossível dissociar os diversos aspectos da realidade, que é orgânica ou integrada. Não podemos simplesmente declarar-nos ateus ou materialistas em metafísica ou teodiceia sem partir de pressupostos epistemológicos e tirar consequências no campo da Ética. Ora eu julgo tanto os tais pressupostos epistemológicos quanto as ilações Éticas como sumamente discutíveis senão problemáticas.

Como educador eu me preocupo antes de tudo com o problema do conhecimento humano i é com epistemologia e gnoseologia, em segundo lugar com o comportamento humano ou com a Ética. Certamente o tema de Deus vem em terceiro lugar, mas não o vejo desvinculado das questões principais e quanto penso em Filosofia penso num sistema orgânico, 'sistemático' rsrsrsrs, coerente e que tenha sentido. Minha perspectiva ou ponto de vista nada tem de pós moderno.

Fosse cético - Episteme - como Pirro, Timon ou Enesidemo e Hume enfim; ficaria em absoluto silêncio nada declinando sobre tais assuntos (cf Victor Brochard 'Céticos gregos'). Não poderia duvidar dos primeiros princípios e tecer juízos no campo da Filosofia.

Fosse empirista crasso ou meio cético como Kant ou Comte adotaria a solução de Huxley que é o agnosticismo, o qual afirma-se como inepto para decidir-se a respeito do tema da existência ou da inexistência de Deus a partir da experiencialidade pura e simples. A honestidade e coerência nesta postura. Suspensão de juízo quanto a tudo quanto possa estar além da pura e simples empiria. Nem negação, nem afirmação. Tal a postura de J S Mill e de H Spencer, dentre tantos.

Mas eu, seguindo a tradição humanista e otimista dos antigos gregos - temo que haja algo semelhante a pecado original ou agostinianismo em toda e qualquer epistemologia pessimista ou negativa, que nos remeta a uma antropologia negativa - sou pela validade da razão, da reflexão ou do raciocínio que esteja em íntima conexão com a empiria i é com a experiencialidade e que dela parta. Sou portanto, em matéria de conhecimento, 'dualista' cartesiano ou conceitualista, postulando ser ele um processo que envolve, num primeiro momento, os sentidos, a percepção ou a experiencialidade - e penso nossos sentidos como algo que informa e não como algo que engana ou distorce - e num segundo momento um processo reflexivo comum a todos os homens que produz conceitos; esta operação perceptiva racional capta e descreve objetivamente parte da realidade que nos envolve. Não a cria, descreve (realismo epistemológico).

Evidente que esta concepção tributária de Parmênides, Anaxágoras, Platão e Aristóteles, dentre outros, nos conduz a validade da metafísica, em que pese a metafísica racionalista anti racionalista (sic) do alemão Kant, o qual negou a capacidade natural da razão humana com o objetivo de exaltar a fé cega (fideismo) influenciado como era pela religião Luterana e pela epistemologia negativa e irracionalista luterânica, a qual reporta a Agostinho de Hipona. Kant foi o Filosofia portátil de Lutero e transplantou para o terreno da Filosofia um aspecto pessimista ou negativo de procedência religiosa, seja Luterana ou agostiniana como queiram. Os gregos naturalistas não conhecem qualquer limitação antropológica em termos de aquisição do conhecimento, o próprio Pirro, tomou sua tese ao budismo na ìndia enquanto acompanhava Alexandre. É paradoxal que a epistemologia empregada pelos ateus com o objetivo de remover o tema de Deus da Filosofia para a fé, seja de origem religiosa, o que em termos filosóficos implica contaminação, uma vez que a Filosofia é inteiramente distinta da religião, tomando por veículo a razão. A epistemologia fiel ao naturalismo, clássica não foge ao tema Deus i é a metafísica.

É verdade que Kant também tentou a um tempo corrigir Hume - salvando assim o conhecimento científico atinente aos fenômenos - e a um tempo dialogar com ele. Foi muito mal sucedidos em todos os sentidos e por isso após os delírios positivistas os pós modernos tornaram a Hume, chegando K Popper a reintroduzir sua perspectiva na Filosofia da ciência, resultando disto o triunfo do relativismo, do subjetivismo...

Seja como for, por mera conveniência, parte dos pensadores, apegaram-se a Kant como um Papa e a seus preconceitos anti metafísicos como a um dogma, o que até certo ponto corresponde a lei do menor esforço. Exige a metafísica segura, domínio de inumeros conceitos da mais alta complexidade: Axioma, princípio de identidade, princípio de causalidade, princípio de contradição, categorias, ato, potência, matéria, forma, etc o que exclui da reflexão os menos aptos ou esforçados i é os imbecis. Hoje todos podem discutir e opinar sobre qualquer coisa sem conhecimento de causa, e isto é fruto do irracionalismo reinante. É como a arte moderna, psicologia e sem regras, e sem normas e isenta de racionalidade - daí poesia sem rima e métrica, melodia sem composição e harmônia, pintura sem perspectiva, etc Tudo isto está inter relacionado e ligado ao irracionalismo. Que é a negação da objetividade das formas.

Ora eu me oponho a tudo isto e assumo-me metafísico, aderindo a metafísica teísta, em oposição a ateísta, por parecer-me mais consistente, coerente e conforme os princípios da racionais a que aludi. Cagando e andando para Kant, devo lembrar que seu pupilo Schopenhauer - o qual detestava o grande Hegel - definiu o homem como um ser metafísico que faz metafísica naturalmente, mesmo quando negam-na, como no caso dos ateus que ultrapassam os limites da demarcação empírica, julgando poder saber com certeza, o que segundo Kant, Comte e Huxley, esta para além do acesso dos sentidos e do conhecimento seguro. Mesmo após Schopenhauer diversos pensadores - como Lotze, Hartmann, Brentano, Scheller, etc continuaram a elaborar sistemas metafísicos nada desinteressantes. Foram continuados neste século por - James Jeans, Eddington, Samuel Alexander, Overstreet, Anscombe e sobretudo pelo brilhante A N Whitehead, filio-me a esta corrente cognominada panenteísta. Sou portanto panenteísta.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Analisando o roteiro do positivismo ou a afirmação do materialismo nas ciências humanas


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Os antigos, queremos dizer os pensadores greco romanos, não tinham qualquer problema em busca fragmentos ou pedaços da mesma verdade por três vias diferentes: A fé religiosa, a especulação filosófica ou metafísica e a investigação científica.

No compreensivo e vasto esquema do divino Aristóteles há espaço para a investigação cientifica em termos de experiencialidade - princípio largamente aplicado no Liceu - para a reflexão filosófica e até mesmo para a religiosidade. Bom lembrar das clássicas passagens em que o perípato pondo em dúvida a possibilidade de demonstrar a imortalidade da alma humana por via de demonstração racional (em oposição a Platão e ao próprio Kant) assegurava abraça-la por via da religião. Equivocam-se aqueles que, guiados por Afrodísias alegavam que a mortalidade da alma - demonstrada pela razão - podia ser negada no campo da religião, e que ambas as teses podiam ser professadas pelo mesmo indivíduo em que pese a contradição existente entre elas.

Não a texto algum de Aristóteles em que se encontre a afirmação de que a inexistência ou destruição da alma fosse racionalmente deduzível. A posição dele a respeito da imortalidade em termos puramente racionais parece equivaler a dos agnósticos, os quais nada pretendem afirmar, negar ou saber; daí socorrer-se da fé religiosa quanto a este tema.

Embora alguns Filósofos como Alexandre, Evemeros e Diagoras fossem não apenas irreligiosos mas inimigos da religião e sobretudo de seu aspecto mágico/fetichista, de modo geral, os grandes Filósofos como Sócrates e Platão, Antístenes, Zeno, Cleantes e Crísipo mostraram-se receptivos a algumas verdades religiosas de caráter universal ou comum. A oposição ou fragmentação não foi generalizada no contexto da antiguidade em que pesem inúmeras divergências a respeito do fetichismo, do politeísmo, da superstição, etc Aqui o mal estar não degenerou em ruptura e por isso os primeiros Cristãos e os padres da igreja puderam recorrer com bastante sucesso ao testemunho dos antigos Filósofos com o objetivo de promover seu monoteísmo revelado.

Quanto ao contesto Cristão devemos observar a existência de certas prevenções anti filosóficas e anti científicas localizadas - desde Tertuliano ao menos - no setor latino ou ocidental da igreja, cuja antropologia foi tornando-se cada vez mais problemática e negativa até Agostinho. O qual certamente nutria dúvidas bastante sérias face ao conhecimento humano ou a capacidade cognitiva do homem e certo desprezo pelo mundo externo e material. As invasões bárbaras e a destruição das escolas, museus, bibliotecas só farão acentuar ainda mais este tipo de mentalidade.

Outra no entanto era a situação do Oriente. Poi se Justiniano haviam mandado fechar os antigos institutos filosóficos atenienses, já dominados pelo irracionalismo neo platônico e, pasme leitor, pela teurgia ou pela magia (de fato os derradeiros escolarcas como Porfírio, Hierócles, Jâmblico e outros eram 'bruxos' ou magos, da mesma cepa que um Eliphaz Levi ou um Aleister CrowleyMarciano e seus sucessores fundaram a Magnaura, o segundo complexo universitário da antiguidade ou se preferirem da Idade Média, sob os auspícios do Cristianismo. E lá se conservavam os registros científicos do passado e dava-se continuidade a reflexão filosófica, de que temos exemplo em Eustátio de Tessaloniki, nos criadores da Suda, em Psellos, etc Em Bizâncio, em que pese o declínio da produção científica, Filosofia e Teologia caminhavam lado a lado.

De modo geral, os antigos padres e doutores da igreja, por uma questão de fluxo cultural, abraçaram ao platonismo e depois ao neo platonismo, aqui certamente com graves prejuízos em todos os sentidos. Afinal quando o Cristianismo principiou a afirmar-se decididamente entre os gentios, pelos idos do ano 100 desta Era, a partida já esta vencida e tanto o materialismo epicurista (embasado nas lições de Demócrito de Abdera) quanto o realismo aristotélico (em que pese suas realizações prodigiosas) - para não falarmos nos ceticismos - esmagados pelo platonismo com toda sua carga idealista.

Alias a questão crucial em termos de platonismo - e não nos devemos iludir a respeito - não implica saber se os tipos ideais ou proto tipos eram materiais ou ideais. Inda que fossem materiais ou realistas estavam situados noutro plano, para o qual - EM DETRIMENTO DA VIL CÓPIA QUE É NOSSO MUNDO - deviam convergir nossas atenções. Importa saber que o platonismo desviava os olhares desta realidade para outra direção...

Tal a escola filosófica com que o Cristianismo encontrou-se e com que ligou-se por séculos a fio, e é de se imaginar que seu viés anti científico fosse antes tributário desta visão idealista - que já havia massacrado o realismo aristotélico do que - que da própria cultura judaica. O contato certamente foi prejudicial ou danoso, mas os preconceitos partiram do platonismo. Ele é que bem antes do advento do Cristianismo havia se negado a olhar para este nosso mundo e se apegado a tradição anti sensorial dominante como a uma tabua de salvação.

O que devemos ressaltar aqui é o surpreendente e quase miraculoso renascimento aristotélico promovido na grande e antiga igreja por S João Damasceno, um de seus principais teólogos. A bem da verdade o Aristotelismo fermentava já entre os assírios e siríacos desde os seculos VI e VII desta Era, sendo as obras do Filósofo estudadas e copiadas nas acadêmias médicas do grande império persa.

Curiosamente o salutar movimento teológico/filosófico iniciado na Igreja Bizantina haveria de ser assumido e desenvolver-se no terreno de uma igreja latina ou romana já socialmente recuperada e em franco desenvolvimento a partir do século XI e mais ainda a partir do século XIII. No contexto Oriental reproduziu-se novamente o velho conflito Platão ou melhor neo platônicos versus Aristóteles agora no plano da teologia, sendo o escolasticismo ancestral e até certo ponto os fundamentos racionais da patrística, arrasados pelo palamismo o qual corresponde a uma corrente neo platônica que remonta ao livro do pseudo Dionísio, a Evágrio e a João Clímaco. Todos estes homens tomaram o caminho inverso ao da imanência, ao da Encarnação e do realismo epistemológico, embora mantivessem a excelente doutrina da Theosis.

A principio também os latinos apegados a Platão e o que é muito pior, a Agostinho, os latinos repudiaram a doutrina de Aristóteles como perniciosa. Assim em 1270 Estephanus Tempier arcebispo de Paris lança um interdito em torno dos escritos de Aristóteles. Evidentemente que naquela altura do campeonato sequer podiam distinguir o Perípato do árabe Ibn Rodh como o próprio Ibn Rodh não conseguia distinguir o comentarista (Alexandre de Afrodísias) do Perípato uma vez que a crítica textual era incipiente e tudo se achava misturado de modo que Siger de Brabante - o 'averroísta 'cristão' de Ernesto Renan - acaba aceitando tudo e, tendo em vista a salvaguarda da fé ou da teologia cristão, formulando a doutrina relativista da dupla verdade.

De um modo ou de outra após os sucessivos renascimentos: Literário, Filosófico e Científico ao cabo dos séculos XII, XIII, XIV e XV as letras clássicas, a reflexão filosófica e a retomada da produção científica, obedecendo a um projeto unitário e grandioso, vão caminhando juntamente com a fé Cristã Católica, a teologia e religiosidade; como que formando um todo ou uma visão integrada e total da existência. Foi um tempo no mínimo interessante pela simples busca de um esquema compreensivo, amplo e abrangente que conciliasse todos os meios de conhecimento, o religioso, o filosófico e o científico além das linguagens literária e artística. Clássicos são os estudos ou analises históricas, geográficas, sociais, culturais, etc em torno do espírito universalista característico do século XIII.

Não, não sou dos ingênuos que pretendem ocultar as trevas e a sujeira debaixo do tapete. Claro que não era a igreja como um todo que apoiava este direcionamento, mas haviam muitos eclesiásticos relacionados com ele, assim Nicolau de Cusa e Marsiglio Ficcino... Claro que o número de pessoas toscas e ignorantes era colossal, claro que haviam massas incultas e lideres religiosos fanáticos, claro que haviam controladores oportunistas, místicos embiocados, agostinianos, sectários, judaizantes, gentes da bíblia, inquisidores desmiolados, e toda uma turba multa de anões e paraplégicos do espírito. O que não elimina o espírito reinante e significativa adesão por outra parte da igreja, a melhor e a mais lúcida.

A tentativa como disse, de manter o são equilíbrio entre as três vias do conhecimento humano, segundo a velha tradição romana, representava um ambicioso projeto arquitetônico, que veio a ruir e a desabar fragosamente no dealbar dos séculos XVI e XVII, enchendo a Europa de ruínas no campo do espírito, rompendo o equilíbrio, fragmentando a cultura e engendrando a crise. Desde então a civilização ocidental combate entre si, dispersa suas energias e dissolve-se. Pois há quem queira pura e simplesmente destruir a religião, como há quem queira substitui-la pela Bíblia ou pelo antigo testamento, como há quem faça guerra a metafísica até os catões da ética. Desde então Filosofia, Religião e Ciência travam entre si a mais pavorosa e insensata das batalhas, perdeu-se definitivamente a compreensibilidade e o resultado mais dramático aqui foi - e é onde queremos chegar com este ensaio - o falseamento do quanto chamamos Ciências humanas ou do homem.

Lançando um primeiro golpe de vista poderíamos nós supor que a quebra da paz ou a ruptura partiu dos ateus, materialistas ou incrédulos. Bom lembrar que - cf Lucien Febvre 'O problema da incredulidade no século XVI' - ao dealbar do século XVI inexistiam ateus e materialistas na plena acepção da palavra. Haviam quiçá alguns sujeitos na periferia da Igreja ou nos confins da Ortodoxia, alguns revoltados, heterodoxos, etc Não materialistas, positivistas, cientificistas ou místicos da técnica.

Neste caso de quem é que parte a ruptura???

Para compreendermos o sentido da ruptura e seu significado imenso para a cultura temos de lançar nosso olhar sobre um cantão tanto mais atraso ou primitivo da Europa, ao menos em comparação com a Itália ou a França. Refiro-me ao Império Germânico ou a Alemanha, onde o Imperador Maximiniano acaba de baixar a sepultura, enquanto iniciava-se uma briga de monges travada entre Dominicanos e Agostinianos em torno da doutrina das indulgências, uma doutrina bastante problemática formulada alguns séculos antes pelo grande fabricante de novidades Alexandre de Alés, quiça inventor da fé romana ou papista, digo de seu conteúdo específico.

Não nos importa aqui entrar nas minudências do conflito Tetzel Lutero, alias bastante conhecido de todos. Nem nos importa entrar nas minudências da doutrina luterana ou das origens da fé protestante. Sintomático aqui é que Tomás de Aquino também foi lançado ao fogo junto com as decretais do Papa romano logo após a condenação das Teses fixadas a porta da Igreja de Wutemberga. E com Tomás de Aquino lá vai Aristóteles. 
Desde as priscas Eras de Orígenes com seus 'Princípios' buscava a Igreja oferecer aos que pediam as razões de sua bela esperança ou expor o conteúdo da fé revelada em termos racionais criando o que chamamos de teologia, postura que veio a ser vital no momento em que a Filosofia viria a recobrar sua importância. Pois ela surge e ressurge a princípio como Ancilla da Teologia, i é como serva, escrava ou auxiliar. Caso predominasse o 'Esta escrito' e tudo fosse resolvido através de citações 'bíblicas' a Filosofia teria permanecida em seu limbo... A teologia latina ou escolástica como demonstram Gilson e Grabmann é que veio a resgata-la. Gostem ou não os incrédulos é pura verdade ou como se diz fato.

Desde então a igreja romana, em que pesem seus erros e equívocos, buscou apresentar sua fé em termos de sistema teológico coerente e acessível a razão, buscando superar certas contradições e sempre servindo-se do aparato lógico de Aristóteles, aproximando-se na mesma medida de sua orientação realista, compreensiva e favorável a um diálogo com a imanência em termos científicos. Daí a ciência ser cada vez mais cultivada e as investigações ampliarem-se mais e mais desde Alberto Magno, Roger Bacon, John Buridan, Robert Grosseteste e outros. Caso lancemos nosso olhar sobre a sociedade Cristã da Itália, nos séculos XIV e XV, se nos parece estar contemplando a Bizâncio dos séculos XI e XII com os Cristãos dispersos pela imanência demonstrando interesse por literatura clássica, botânica, zoologia, mineralogia, economia, geográfica, etnografia, etc. Sim há monges, há teólogos, há homens de fé e o mais surpreendente é que não são infensos a este movimento na medida em que as próprias celas dos mosteiros convertem-se em oficinas artísticas, escritórios ou laboratórios rudimentares.

O efeito do contato efetivado entre a teologia Católica com a Filosofia aristotélica foi fecundo no sentido de despertar parte dos letrados e inclusive dos clérigos para o valor da imanência. Impondo-se cada vez mais a exótica figura de um Willian de Baskerville i é do padre ou monge cientista, artista, inventor - assim Mendel no século XIX e Lemaitre no século  XX - Claro que dessa dispersão ou divisão de forças ressentiu-se o campo religioso propriamente dito, sentindo-se como que desfalcado e nem todos os homens daquele tempo podiam compreender o que podia levar um monge, um padre ou mesmo um devoto a gastar tanto tempo observando animais, plantas ou mesmo estrelas.

A reação a este tipo de secularismo religioso provocado pela Teologia escolástica e sobretudo pela doutrina de Aristóteles foi captada perfeitamente por Lutero e assumida pela Reforma protestante. Para tanto devemos compreender que não poucos Católicos receberam a doutrina de Aristóteles nos moldes tradicionais da religião, tomando-o por papa ou guia infalível a propósito de absolutamente tudo, e numa época em que sequer se sabia com certeza o quanto fora escrito por ele... Naturalmente que este tipo de postura suscitou a princípio críticas justas e em seguida criticas cada vez mais destemperadas e radicais por parte dos próprios Católicos e de alguns religiosos. Críticas que foram levadas aos campos da epistemologia e da gnoseologia, resultando disto uma retomada dos princípios ou preconceitos agostinianos; assumidos declaradamente pelos franciscanos, dentre os quais W de Ockham um dos principais críticos do Filósofo e promotores da visão 'tradicionalista' ou fideísta.

Os místicos em especial tomaram este caminho, devassado igualmente pelo Dr Gabriel Biel, cujo Manual de Teologia prevalecia em diversas escolas alemãs ao tempo de Lutero. Mesmo na França Erasmo não poupava cargas contra os monges, os escolásticos e os aristotélicos obtusos...

Importa saber que a negação de uma única doutrina é suficiente para desestabilizar o sistema Católico, o único existente até então e dentro do qual fácil era argumentar numa linha de coerência. Lutero no entanto havia reassumido - como Fulgêncio de Ruspe, Goteschalk e Wicleff - os pressupostos agostinianos em sua integralidade, e não podia faze-los concordar com a doutrina oficial da igreja romana ou com seu sistema teológico razoavelmente bem articulado. Quando esboçou a doutrina da salvação pela fé somente, que é a sua contribuição individual a reforma protestante, sua posição tornou-se insustentável nesse quadro. E no entanto, seguindo Aristóteles e buscando conduzir Lutero ao absurdo, os teólogos Católicos apelavam dramaticamente a lógica, a razão, a coerência, etc Queriam sobretudo demonstrar que a doutrina da salvação pela fé somente não se podiam conciliar com os demais elementos do sistema Católico posto que havia ali contradição formal.

Lutero não era bobo. Sabia muito bem que todo aquele discurso em torno da coerência, da concordância, da lógica ou da racionalidade estava fundamentado na Filosofia aristotélica. Assim no mesmo instante em que aderiu formalmente ao fideísmo de Agostinho, rompeu com a Teologia latina e canonizou o irracionalismo principiou a atacar furiosamente ao 'pagão' Aristóteles e a sua Filosofia e ataca-la com o mesmo empenho com que atacava o Papa. A razão passou a ser apresentada como uma louca ou uma bruxa e a Teologia - ao menos durante algum tempo - substituída pela Bíblia e pelo estava escrito na dimensão subjetivista que tão bem conhecemos. Ao menos durante a vida de Lutero o luteranismo e o protestantismo nascente assumiram uma feição notadamente anti aristotélica, fazendo-se herdeiro e porta voz de toda aquela crítica precedente. Assim se os aristotélicos e racionalistas apegaram-se a igreja romana os irracionalistas abraçaram entusiasticamente a nova forma de Cristianismo.

Desde então podemos dizer que houve um retorno a 'fé' - compreendida como fé cega ou fideismo ingênuo - ao livro (ou ao princípio do Sola Scritura), a cultura judaica, a religiosidade mórbida e fechada, etc Por fim a própria doutrina da igreja invisível, da união imediata com Deus (sem sacramentos), da presença simbólica, do repúdio as obras, enfim quase tudo no sistema protestante cheirava a ruptura com a imanência - desde já encarada pelos protestantes como pagã - a platonismo, a neo platonismo, a uma espiritualização ou a elaboração de um Cristianismo cada vez mais transcendente e separado do mundo a exemplo rabinismo e do islã. Zwinglio por exemplo, é apresentado por diversos teólogos contemporâneos como um aluno de Plotino ou neo platônico, a orientação no entanto é geral e se manifesta até mesmo no repúdio as imagens e no desprezo pela simbologia cultual. Todo sentido de lei Cristã e a consciência social do Cristianismo sai de cena passando o matrimônio a ser encarado como mero caso de polícia ou política. Toda direção religiosa, todo sentido, toda orientação volta-se para o outro mundo, para o além túmulo ou para o invisível enquanto busca frenética por uma salvação mágica.

Com a Reforma protestante no século XVI, o Cristianismo por assim dizer desencarna-se e desprende-se do mundo para refugiar--se nas alturas do céu. Nada mais platônico ou neo platônico. Até certo ponto devia o próprio leigo comportar-se como um monge as antigas e dedicar-se apenas a oração, ao culto, a leitura da bíblica e as discussões doutrinais i é a teoria, ao invés de ocupar-se em observar o mundo material. Sintomático aqui que Lutero tenha arremetido furiosamente contra Copérnico, o diácono da Igreja que se dedicara a observar o orbe estelar. Para ele os médicos eram embusteiros e o único meio de obter a cura para os males físicos era a fé, a oração ou o milagre. O afastar-se de Aristóteles e o aproximar-se de Agostinho ou Plotino implicou na deserção do mundo material ou natural por parte da Cristandade européia do século XVI. Foi uma passagem da curiosidade incipiente quanto ao mundo para a Bíblia, um exílio espiritual, um retrocesso em todos os sentidos, um imenso e colossal atraso.

Mas e quanto a Igreja romana i é a outra parte da Cristandade ou da Sociedade européia, que aconteceu?

Deflagrada a reforma, enunciados os novos princípios e produzido o novo modelo cultura nada tornou a ser como antes. Nem em termos de política, pois a igreja antiga achava-se enfraquecida, nem em termos de contato com o mundo, porquanto havia sido deflagrada uma guerra e ela, a igreja antiga, achava-se desfalcada em seus quadros. Desde então o quadro de monges e padres dedicados a produção cultural ou científica reduziu-se consideravelmente na medida em que foram sendo deslocados de setor ou mobilizados com o objetivo de entrar na controvérsia religiosa suscitada pelos reformadores. Veja que a partir da reforma protestante e ao cabo de uns cem anos a Europa como um todo a absorvida pela questão religiosa mergulhando de cabela na polêmica Católico/protestante. Diante deste fenômeno singular há quem, e Católicos inclusive, se deixe tomar pelo entusiasmo face a todo este delírio religioso, encarando-o como um efervescer de espiritualidade. E no entanto o que temos aqui são as fastidiosas controvérsias bíblicas, quase sempre de teor subjetivo até a chicana... 

É uma controvérsia inglória, um dispersar de energias, um afã estéril que nada viria a produzir de concreto senão mais e mais incredulidade, materialismo e ateísmo.

O que era de fato importante em termos de Cristianismo. Projeto sócio econômico, elaboração de uma ética essencial, produção artística, pesquisa científica, promoção humana, etc Tudo quanto realmente vale foi abandonado em benefício desta polêmica insana. Por cem anos a Reforma desviou a Europa de sua rota. Interrompeu bruscamente uma linha de progresso iniciada três séculos antes e abandonou o campo da imanência. Levando parte dos papistas a fazerem o mesmo.

É verdade que a partir do século XVII a pesquisa científica vai sendo paulatinamente retomada na Europa, mesmo no contesto protestante, na mesma medida em que as pessoas vão se cansando da Bíblia, das controvérsias e da religião. De modo que ao contrário da Idade média, a pesquisa e produção científica já não são assumidas por homens sinceramente religiosos, mas cada vez mais e numa escala mais larga por homens irreligiosos, e enfim pelos materialistas e ateus, alguns dos quais aspiravam destruir a própria religião.

A ideologia e a cultura no entanto eram Cristãs, formalmente Cristãs e portanto espiritualistas ou abertas a imaterialidade. Aqui a ruptura foi quiçá mais intensa do que aquela outra representada pela passagem do paganismo ao Cristianismo. Pois o homem moderno, o homem irreligioso não conseguiu elaborar uma espiritualidade irreligiosa como o homem antigo havia elaborado uma religiosidade monoteísta. Parte cada vez mais considerável deste homens irreligiosos mostrou-se incapaz de cultivar uma religião natural, a exemplo dos antigos Filósofos gregos, abraçando com fervor não apenas a tese do materialismo, mas inclusive a do ateísmo uma perspectiva combativa. E é evidente que a adoção a priori da tese materialista - por simples ódio ou repúdio a religião - fechou todas estas mentes para a simples possibilidade do imaterial presente na materialidade. Para nossa cultura pós reforma protestante a imaterialidade converteu-se em tabu, ficando relegada ao setor religioso.

A princípio esse aparelho conceitual materialista e ateu - ora assumido aprioristicamente, a semelhança de um credo, não apenas pelos cientificistas mas por muito cientistas (Mesmo no campo das ciências humanas) com a maior boa fé - inexistia, precisando ser fabricado. A nós cabe compreender a fabricação deste credo materialista em termos de epistemologia ou melhor de metafísica, para poder avalia-lo com máxima justeza, sabendo que não corresponde ele mesmo a um dado empírico, sensível e observável mas uma formulação conceitual, produto da especulação filosófica ou da metafísica que eles mesmo arrenegam hipocritamente, permitam me dizer.

O aspecto mais angustioso do materialismo é justamente sua recusa desonesta e terminante em assumir-se a si mesmo como aparelho conceitual ou ideológico e não como fenômeno observável.

A princípio os ingleses, segundo sua tradição empirista - que como vimos deita raízes na Idade Média - dedicaram-se a investigar a capacidade do aparelho sensorial e da percepção, e da experiência, tendo em vista construção do conhecimento humano. Assim F Bacon ao tecer suas criticas, até certo ponto justas, aos aristotélicos obtusos. Assim Locke ao retomar o esquema Aristotélico da Tábua rasa. Tal e qual na antiguidade, a partir do enfoque empirista, chegou a Filosofia contemporânea a Davi Hume, o qual não tornou-se seu Copérnico, justamente por alienar-se dela, digo da Filosofia. Afinal, segundo V Brochard (cf Céticos Gregos) o ceticismo crasso é antes de tudo uma recusa ao dialogo e a Filosofia. Hume é o patriarca do ceticismo contemporâneo enquanto afirmação contraditória em torno de uma dúvida absoluta ou enquanto simples negação do discurso e de todo discurso. Claro que Hume se tornou famoso, mas jamais conquistou a adesão geral dos pensadores, e isto mesmo em tempos de crise (O ceticismo é um dos sintomas da crise).

Devido a seu paralogismo fundamental nem pode afirmar-se como Filosofia, quando não assume o lema da Epoché ou da ataraxia, tomada por Pirro de Elis a fé búdica. Para por ai e por ai fica enquanto apologia da inércia.

Diante disto outros caminhos, e bastante radicais no âmbito da Filosofia, tiveram de ser deslindados e quase que paralelamente, se quem que seguindo tradições totalmente distintas. Assim na França Católica da Universidade de Paris, centro universal da escolástica. Assim na Alemanha Luterana e anti escolástica.

Os franceses juntamente com os ingleses se vão pela via do empirismo, chegando demasiado cedo ao sensualismo crasso com Condillac e ao materialismo epicurista com P Gassendi. Curioso aqui é que tanto Condillac quanto Gassendi eram padres e ao que parece sinceros em suas convicções religiosas. Afinal não é nesta mesma França que deparamos com um grupo de 'céticos' Católicos ou melhor dizendo de agostinianos puros, tradicionalistas, filo luteranos... representados por Gentian Hervetius (Um dos campeões na luta contra o protestantismo) e sobretudo M Montaigne autor dos famosos Ensaios??? Então a que propósito vem escocês Hume, a pouco citado?

Hume por não ter religião ou fé era um cético completo. Os franceses eram céticos quanto a tudo, os sentidos, a razão... mas não quanto a fé. M Montaigne é a seu tempo reprodutor de monumentos antigos e sobretudo consumado literato. Hume é quem aprofunda e amplia as reflexões céticas contribuindo com algo de propriamente seu por ser posterior ao grande Locke e poder expô-lo ao crivo da crítica, bem como ao velho F Bacon.

Herdeiros deste espírito escolástico essencial alguns iluminados franceses é que por primeira vez levarão a cabo o plano ambicioso de novamente inserir o materialismo e por primeira vez inserir o ateísmo nos domínios da Filosofia produzindo por assim dizer uma metafísica materialista e ateia. Diga-se deles que estavam equivocados mas nunca e jamais que foram desonestos. Assim D Holbach, La Metrie e o Dr Pierre Cabanis os quais formularam seus sistemas conforme os princípios da Metafísica pelos fins do décimo oitavo século.

Enquanto isso pelas Alemanhas, mais precisamente na pitoresca Koenisberg, alguém estava decidido a vindicar sua fé ancestral e a levar os preconceitos irracionalistas, anti escolásticos e anti aristotélicos os domínios da Filosofia. Tais os planos do sr Immanuel Kant. O qual além de ser profundamente ilustrado - basta dizer que era geógrafo - possuia conhecimento incomuns e matéria de lógica e de pura lógica aristotélica. A princípio parece ter lido algumas linhas em termos de escolástica, no entanto pouco mais tarde desejou queimar toda produção medieval, julgando ter sido acordado ou iluminado pelo iconoclástico Hume, o qual tampouco lograva satisfaze-lo por duvidar de absolutamente tudo e nada deixar ao homem.

Hume precisava ser consertado e Lutero glorificado. Kant era aquele que elaborando o idealismo crítico deveria fazer uma e outra coisa, estabelecendo as fronteiras do conhecimento e negando metafisicamente a metafisica. Metafisicando estabeleceu Kant que só podíamos conhecer ou ter acesso aos fenômenos através da querida ciência com seu paradigma da materialidade. Já o que se achava por trás dos fenômenos nada se podia saber de concreto ou definitivo, devendo o homem abster-se de afirmar e conformar-se com sua ignorância. Fé religiosa ou cega e ciência era tudo quanto tínhamos. A metafísica e por ext quase toda Filosofia (inclusive suas investigações epistemológicas, gnoseológicas e éticas) não passavam de opinião ou de fantasia e o raciocínio, a lógica, a dedução, separados da experiencialidade pura para nada serviam.

Tal o idolatrado Kant da Razão pura. 

A princípio houve quem o aplaudisse entusiasticamente por ter degolado o monstro repugnante do Deísmo. No entanto quando o outro lado percebeu que também a metafísica negativa ou ateística dos iluminados franceses era igualmente repudiada, e que Kant nas entrelinhas, antecipava o agnosticismo insonso de Comte e Huxley os aplausos foram cessando. Doloroso e sumamente doloroso para os ateístas terem se ouvir que Kant sendo agnóstico condenada sua metafisica tão arrevezadinha repetidamente surrada por escolásticos, aristotélicos, deístas, platônicos, ecléticos, etc E o grande Kant não lhes podiam socorrer. Mas como se Kant, a exemplo de Aristóteles quanto ao tema da alma, afirmava a existência de Deus com base na fé???

O fato é que havia coisa ainda mais séria ou pior para os produtores desta ideologia ou aparelho conceitual apriorístico.

Kant, que era muito dado a refletir ou a metafisicar com seus botões estava destinado quase que a ser revisionista de si mesmo. Pois quando postula a impossibilidade do conhecimento metafísico esta a bem da verdade fazendo um recorte e por metafísica querendo dizer Teodicéia. Tudo quanto ele quer dizer é que a existência de Deus não pode ser provada dedutivamente. Metafísica do conhecimento ele mesmo faz santo Deus! Acaso não esta ali escrevendo resmas e resmas de folhas sobre Epistemologia e Gnoseologia??? Pois bem agora na 'odiada' - um dos livros mais sabotados e odiados de todos os tempos - Razão Prática, que fará ele?

Eis que agora eu desdigo o que digo ou desminto o que falei...

Afinal, por conhecer de passagem as páginas monumentais de Vitória, Soto, Bañes, Cano e Suarez ele bem sabe que não é possível haver ética essencial e objetiva da pessoa humana nos termos de um Sócrates ou de um Platão sem postular uma Lei natural, como sabe do mesmo modo que é impossível postular a existência de uma lei natural, universal e imperativa sem admitir, necessariamente, a existência de um Legislador ou princípio Supremo ou transcendente. Mais ainda, sendo muito bem informado, Kant como V Brochard sabia que esta fora a cruz do ceticismo antigo e que o ateísmo e o materialismo não dariam uma ética essencial da pessoa tal e qual um boi não dá leite e galo não deita ovos.

Deu, merda e no campo da Ética o genial e arguto Kant afirmou exatamente o que negará no campo da teodicéia. É como se o alemão dissesse: Teodicéia é bobagem e não podemos atingir em si mesma a existência de Deus ou demonstra-la, no entanto no campo metafísico da Ética, relativo ao comportamento e interação social entre os seres humanos é absolutamente necessária a existência de um padrão externo, universal e objetivo ou seja de Deus. Morto ali ei-lo por absoluta necessidade ressuscitado aqui.

Que concluir a partir disto?

O grande público imparcial e objetivo conclui sem mais pela genialidade ímpar do Kant do primeiro livro e pela boçalidade extrema do Kant do segundo livro, o qual certamente já devia estar gagá ou esclerosado como os ex ateus Litreé e Flew antes de terem morrido.

Para fazer um justo juízo sobre Kant deveríamos ler ambas as obras, mas, os emancipados ateus e materialistas não leêm a 'Crítica da razão pura' o verdadeiro patinho feio da Filosofia.

Até aqui vimos que Kant não prestou lá grandes serviços a ideologia ateística, chegando a ultraja-la por sinal, em que pese ser considerado o mais arguto dos filósofos contemporâneos. Vejamos agora os serviços que prestou no campo do materialismo, do cientificismo, da ciência e da materialidade.

Continua -