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terça-feira, 13 de julho de 2021

Socialismos, o espelho do Cristianismo II

Já expusemos honestamente nossa vergonha.

Materialistas, mecanicistas, economicistas e positivistas há que ousam revindicar para si mesmos o título nada honroso de cristãos capitalistas ou liberais mercadistas. Fossem eles protestantes não nos admiraríamos disto - Oh Sancta Simplicitas... Pois é o protestantismo individualista, transcendentalista, livre examinista; sancionando quaisquer distorções subjetivas dos textos sagrados, etc

Incoerente, grave e escandaloso é que Cristãos apostólicos: Romanistas, Anglicanos e Católicos Ortodoxos tenham assimilado tão levianamente esse cipoal de heresias filosóficas e sociais enquanto berram como pegas no cio: Comunistas, comunistas... 

Ora, os comunistas não fazem parte da Igreja e aqueles que simpatizam com algumas de suas visões e métodos equivocados devem ser reorientados com toda paciência pela autoridade eclesiástica, ou, constatada a má fé, disciplinados. Aqueles que de fato se preocupam com os oprimidos e cuidam da justiça não terão dificuldade alguma em submeter-se. Pois é de nossa tradição mover guerra espiritual a avareza e denunciar a opressão sob todas as suas formas. É da Igreja tomar o partido dos fracos e oprimidos e vindicar-lhes a causa. No entanto são nossas fontes espirituais e nossos meios específicos.

Não somos comunistas nem nos fazemos comunistas por denunciar como devemos o pai do Comunismo, o Capitalismo esse filho terrível, afilhado ou enteado do protestantismo. 

O protestantismo, temos sempre de bater nessa tecla, foi quem lançou as sementes venenosas do individualismo ou do egoísmo. Foi ele que (Não estou atribuindo este erro fatal a Lutero! - O qual jamais negou as obras e sim que as obras salvassem!) apartou a Cristandade das obras e da imanência, ferindo de morte o ideal insercionista inaugurado pela Encarnação de nosso Deus. Foi ele que dando as mãos ao neo platonismo criou esse cristianismo descarnado, fantasmagórico ou 'espiritualizante'. Foi ele que por necessidade histórica deitou nos braços do poder estabelecido. Foi ele que tornou-se lacaio do Estado e por meio desse servo de forças econômicas. Foi ele que editou a nova versão 'frágil' do Cristianismo, esse Cristianismo fala mansa ou água com açúcar. Foi ele que converteu o Cristianismo em sedativo e tornou-o socialmente irrelevante ou inútil. Tudo isto fez o protestantismo, acalentando a víbora materialista/economicista em se seio e dando-lhe vida.

Aspiravam os poderes econômicos por semelhante oportunidade. De revindicarem autonomia e assumir a soberania. Demandavam portanto por uma Igreja submissa, sem Bispos, monges, conventos, cruzes e sinos... O protestantismo esvaziou e enfraqueceu o nosso Cristianismo, curvando-o face a outros poderes, quando lhe estava reservado o comando (Indireto ou via Ética) de tudo, assim a direção do processo histórico.

Tampouco pôde o protestantismo com sua petição grosseira a bíblia ou ao antigo testamento, assumir tal encargo ou a missão que revindicava. Impediam-no a divisão em seitas e consequentes disputas, a petição ao exame particular, o viés transcendentalista, etc E só por um tempo o monstro de Genebra, com a Torá entre as unhas, governou a ferro e fogo, fazendo verter torrentes de sangue humano e criando - Segundo Pierre Van Paassen (Com o apoio de Stefan Zweig) - o primeiro campo de concentração da História. Afinal a cegueira bíblica ou judaizante só poderia mesmo prevalecer por meio da força... 

Foi um triunfo efêmero.

O protestantismo fragmentou a igreja cismática de Roma num amontoado de seitas e proclamou altissonante seu triunfo, e sem embargo falhou miseravelmente por não ter sido capaz de substituir a igreja rival. O protestantismo de modo algum tomou a condução dos destinos do mundo mas abriu mão dela, e isto equivale a capitulação espiritual do Cristianismo histórico, esse refúgio na extremidade do 'espírito', nas nuvens ou nas alturas - Pelo simples fato do Deus do Evangelho se ter aproximado do mundo e entrado na História por meio da Encarnação. Com o triunfo do protestantismo e sua alienação ou esvaziamento neo platônico perdeu o Cristianismo sua vocação. 

Por incapacidade do protestantismo mitológico (Por via do antigo testamento) e sectário (Por via das seitas) o Cristianismo perdeu a direção das coisas e cessou de inspirar cada vez mais as ações dos homens imprimindo-lhes um cunho social. 

O protestantismo foi e é recuo, abandono e fracasso. Uma opinião firmada em Agostinho e segundo a qual mesmo em posse da graça o homem sequer pode transformar a si mesmo, devendo desesperar-se por completo do mundo e, necessariamente (Como ocorreu e ocorre) tornar-se catastrofista e apocalíptico, assimilando o derrotismo dos antigos hebreus. Toda essa carga de negatividade e pessimismo existente já na literatura judaica ou judaizante dos primeiros séculos o protestantismo absorveu, e a ponto de criar um lema: O mundo não tem solução.

Agora ao recuar de seu posto, até então ocupado, ainda que sofrivelmente pela igreja romana, mas ocupado, o protestantismo permitiu que um outro tipo de poder, o poder material ou econômico, se instala-se em seu lugar inaugurando um novo ciclo na História da Humanidade, o ciclo das ideologias naturalistas ou das culturas de morte, todas ao menos implícita ou dissimuladamente materialistas até os confins do ateísmo, e relativistas (Quando não negacionistas) quanto aos valores espirituais, e isentas de qualquer sentido metafísico profundo, que transcenda o mercado, a pátria, a raça e outras categorias inferiores senão vulgares da existência. O espírito perdeu seu primado já há muito disputado como jamais perdera nos piores momentos da História antiga...

Como de Ideologia em Ideologia, de cultura em cultura, de mística em mística não chegaríamos a borda do abismo que é a negação e a extinção do homem.

Não foi o Deus, assim o teísmo naturalista dos pensadores gregos e tampouco o Deus encarnado e presente do Evangelho que morreu, bateu botas e apodreceu, mas o homem. Nossa espécie é que ora agoniza e se vê prestes a morrer miseravelmente em meio a águas, ares e terras poluídos e a falta de comida! E isto tudo por falta de Ética, por falta de sólidos fundamentos espirituais... E o caminho disto foi a bíblia, digo e repito, o biblismo, o livre exame, o sectarismo. O protestantismo foi o começo de tudo. Precipitou-nos inclusive no vórtice das Revoluções, outra ilusão, delírio ou quimera perniciosa. Fala-nos mesmo por meio de Kant, Nietzsche, Sorel, etc e sempre para o mal ou para o pior... Por isso ele não nos poderá salvar, e tampouco conter este ciclo de culturas de morte que acionou.

E se você leitor protestante, nada percebe ou vê além do falso dilema papismo/protestantismo desespere de toda salvação e aguarde pela pior das mortes no único e verdadeiro inferno produzido pela avareza, pelo individualismo, pelo egoísmo e pelo mar de irracionalismo, e é claro pela falta daquela Ética filha do Evangelho vivo e redentor.

Agora ao estender meu olhar sobre o corpo da Igreja que vejo em termos de consciência social Cristã, de ideários, planos, propostas, métodos, etc

Contemplo antes de tudo aquela multidão de Cristãos alienados que nada sabem sobre as condições do mundo atual e que tampouco se importam com ele, caminhando como cegos ou zumbis em direção do abismo hiante. Tais os Cristãos que se reproduzem organicamente, os de tradição cultural, os reprodutores, os imitadores, os apenas batizados, etc - Nossas massas, como diria J H Newman. Aqueles que receberam o Cristianismo de seus ancestrais mas que jamais sentiram-no ou refletiram sobre eles. Esses homens sem espírito, sem alma ou consciência; nos quais não brilha o amor pelo bem, pela verdade ou pelo belo. Os Maria vai com as outras. Os que concordam com tudo. Os que aceitam tudo. Os mal formados. Os desinformados. Os incoerentes... Nossas massas, nossa cruz. Porque devemos sofrer e chorar com a mãe Igreja.

Deixados estes formalistas e confortáveis de lado devo mencionar os Cristãos que tem consciência de sua fé, digo os que sabem o que sua fé significa e o que espera deles. Estes como Peguy sabem o que devem fazer... Sabem que o Cristianismo Católico ou Apostólico não se limita a missa de Domingo, as procissões e almoços de família... Sabem que Catolicismo não é esse paraíso burguês fechado em torno do jardim... Sabem que esse mundo artificial encerrado numa cúpula - Com sua atmosfera de intangibilidade, nada tem de Cristão. Quem espera repouso não é sabe que é Cristianismo. Pois é o autêntico Cristianismo a mais heroica das religiões e a única destinada a confrontar o mal ou a afronta-lo audaciosamente. É fé de homens e mulheres audazes e corajosos, que nos primeiros séculos suportaram horrendas torturas. Cristianismo é isto, mesmo para o leigo - Incomodo, desafio, perseguição e trabalhos: Ou não seria cruz! Ao menos a consciência de cada Ortodoxo deve sentir o impacto do desafio!

Não e não. Não se pode permanecer neutro face ao reino do dinheiro, a força do lucro, o poder do capital, a sanha da avareza. São ações e fatos que exigem postura clara e decidida. De que lado está você??? 

Pode você face a tanta fome, ignorância, nudez, enfermidade, violência, etc declarar que a vontade de Cristo se realizou nesta terra pela qual pedimos todos os dias ao repetir: Seja feita a tua vontade na terra e nos céus???

Então bata no peito, faça um junto 'Mea culpa' e em seguida se pergunte sobre o que pode fazer ou sobre qual seja teu dever, o dever do Cristão!

Amai-vos uns aos outros como vos amei, diz o Mestre.

E agora examine sua consciência e indague se aquele que explora, oprime, domine e exerce a injustiça ama!

Tornemos já, do Oriente ao Ocidente ao herói Peguy!

E cessem as relações promíscuas com o Império de Mamon! Que Mamon seja definitivamente expulso dos domínios sagrados de Jesus Cristo, nos quais devem impor-se a solidariedade, a justiça e o amor.

Apresentar nosso irmão batizado e filho de Deus como um rival ou concorrente é atitude essencialmente maligna.

Ignorar o irmão que passa fome, sede, frio, etc é ser insensível e ser insensível é não ser Cristão.

Priorizar relações e investimentos econômicos é pecar e nada mais.

Caso o Evangelho que lemos sem artifícios e atenuantes sacrílegos esteja certo o mundo em que vivemos está demasiado equivocado, e se está equivocado é nossa missão corrigi-lo.

Advertir os que erram é obra de misericórdia imposta pela verdadeira religião. Por isso nossa Sociedade não deve ser acalentada com afagos ou aplaudida mas corrigida. E exorta-la é dever que nos impõem o Evangelho. 

Assim se você se diz súdito do reino celestial por que acumula ou junta tantas tranqueiras na terra?

O melhor médico não é aquele que se dirige ao doente com palavras doces. Mas aquele que determina a dieta ou a morte. E que emprega o bisturi e o cautério. O que corta e extirpa os tecidos putrefatos e saneia o corpo por meio da cirurgia, não o que distribui confeitos...

E no entanto esses meios dizem respeito a mente e a privação das coisas sagradas no seio da Igreja.

Resta-me dizer por fim que mesmo entre os Ortodoxos ou apostólicos romanos que aspiram confrontar e transformar o mundo nem todos estão de acordo quanto aos meios e também entre os nossos há muito que existem os adeptos da ruptura radical e da inserção, da revolução e da evolução, da sedição e da reforma. E já advirto que mesmo admitindo o emprego ocasional ou circunstancial da violência, o Cristão opta certamente pela via da inserção, da institucionalidade e acima de tudo da educação, da formação ou da produção da consciência como algo que não apenas promoverá a mudança estrutural como prepara-la-a. 

É um movimento concomitante de certo modo, posto que o acúmulo das sucessivas reformas terá como resultado uma transformação gradativa. Todavia se considerarmos que os responsáveis por dar impulso as reformas - Sejam meros cidadãos engajados ou políticos de carteirinha. - estão sempre na dependência de uma educação/formação ético pessoal, concluímos que o que aciona o processo social é o espírito ou a ideia. Nem poderia a estrutura material e isenta de vida resistir como muralha invencível a ação humana. Transforma-se a sociedade como transforma-se a estrutura econômica, não magicamente ou por si só, mas sempre por ação de algumas pessoas que se acham a frente de seu tempo, são elas que dentro de limites e medidas levam a sociedade adiante, pois não se move a sociedade por si só como algo a parte, sendo movida pelos atores que moveu e move. Há pois um duplo movimento: Um que parte da estrutura e dá vida a cultura, outro que partindo do homem altera a cultura, recria as estruturas e reinventa a sociedade.

Equivocou-se Marx: Não é o modo de produção que determina a consciência. Determina as consciências das massas e influencia a todos, sendo no entanto influenciado e transformado por certas consciências bem formadas. Que tenham as tais consciências, vinculadas a diversos modelos de cultura tradicionais, resistido as investidas do modelo capitalista e contido tais investidas por séculos a fio foi suficientemente demonstrado por Polanyi e Hobsbawm. Que os efeitos das transformações impostos pela toda poderosa estrutura econômica tenham de ser sancionados pela instância do ideal confessou-o Marx. Que haja interação entre ambas as forças concedeu Engels. Que a instância imaterial tenha produzido uma cultura e que essa cultura, em diversos nichos, tenha resistido as pretensões postas pela estrutura econômica ja havia sido demonstrado por Fustel de Coulanges. Que hajam diferentes formas de constelações sociais cristalizadas em torno de princípios e valores de modo algum econômicos foi demonstrado por Sorokin. 

Se bem que não se tenha equivocado tanto ou como um Lênin. Pois era Marx, o Marx autêntico, Etapista. Fosse quais fossem suas diferenças com Hegel Marx jamais concebeu o processo social ou o fluxo histórico como cera quente. Tinha a História para ele um ritmo, sendo necessário ao Revolucionário conhece-lo bem, de modo a perceber o kairós i é a oportunidade, e atuar em comunhão ou sintonia com esse ritmo. De modo que o Revolucionário, se faz avançar um pouco a História, sempre tem consciência de seus limites. Mesmo o conjunto dos homens ou parte da Sociedade atuam sempre dentro de certos limites dados pela estrutura. 

É somente por essa via que pode a Revolução obter acesso ao poder, alterar radicalmente as estrutura e então, magicamente, alterar toda marcha da sociedade. 

Assim se nem toda Revolução é ou se dá nos termos materialistas de um Marx ou de um Bakhunin e da modernidade que é materialista - Pois como veremos toda Revolução (Como a força ou a violência) é instrumental, ficando sempre na dependência de um conceito chave ou matriz geracional que pode ser ou não ser materialista. - é certo que materialismo e Revolução combinam perfeitamente e que, bem ponderado, o conceito de Revolução conduz facilmente ao materialismo.

Explico. O que Revolucionário algum pretende é transformar a sociedade pela simples mudança em termos de pessoal, ou fica abortado o conceito de revolução. O que ele busca é um elemento chave, material ou imaterial capaz de mudar a cultura e por meio dela as pessoas. O que ele julga ter obtido através de seus estudos é a compreensão de qual seja esse mecanismo responsável pela produção e manejo da cultura. Para em seguida, por meio da violência, tomar posse desse mecanismo e, através desse mecanismo mudar a sociedade.

Importa saber algo.

Que mesmo quando é este elemento imaterial como uma nova fé, o culto a liberdade, etc ele só pode ser manipulado por quem detém o controle da força, o qual depende em última instância de um embate ou confronto físico. Parece que aquele mecanismo a ser acionado está na dependência de alguma estrutura política de poder já em parte material. E que essa estrutura de poder está na dependência de um conflito físico de forças entre corpos e munições. Porquanto o princípio da Revolução ou sua matéria é a violência.

Teríamos assim o seguinte esquema: O confronto físico entre os corpos franqueia o acesso a estrutura em parte física do poder e este por fim ao mecanismo capaz de alterar a realidade social e o comportamento das pessoas. Posso conceber, como fiz acima, uma variante; apenas por trocar o lugar das duas últimas premissas, e conceder que alterando o comportamento das pessoas altero a estrutura da sociedade; e assim atenuo o materialismo, mas não o suprimo. Como não o suprimo ao identificar o mecanismo capaz de transformar a sociedade ou a vontade pessoal com qualquer elemento imaterial. 

O revolucionismo, a metafísica revolucionária, o pensamento revolucionário, deveria, por necessidade, fazer-se marxista porque já nele está contida uma premissa materialista. Uma vez que sua petição secundária é a estrutura política (Tão material quanto a econômica.) enquanto que sua petição primária é a força física. Pois o que faz diferir a Revolução da Guerra não é a matéria mas a forma, porquanto a matéria é a força e apenas se aspira alterar toda uma estrutura ou todo um universo por meio da força física de corpos, armas e bombas, e não por meio da Educação ou da tomada de consciência. Diversos sociólogos intuíram esse aspecto, i é, o antagonismo existente entre o padrão revolucionário da violência (Que descambou no materialismo.) e o padrão evolucionário da formação/educação. Percebeu-o claramente Sorel inclusive. Dando a entender todo um quadro metafísico ou ideológico por trás de ambas as opções.

Exatamente por isso o Cristão, mesmo quando admita - Como eu - a petição a força, jamais pensará a força nos termos de um revolucionário i é como algo algo ampla e profundamente transformador ou princípio de uma nova ordem. Mesmo quando a violência for admitida em sua cosmovisão, o Cristão jamais fará dela ou centro ou o motor dessa cosmovisão, tal como a alavanca de Arquimedes, e a força será apenas um aspecto isolado e circunstancial. 

E será esse Cristão evolucionário, insercionista, institucionalista, reformista, etc mesmo quando partindo da noção perfeitamente Cristã de Guerra, ou de defesa social ou de ordem justa e desejável, admitir que em algumas situações, esgotados os demais meios, cabe e é necessário recurso a violência. Pois a demanda pela justiça institucional só é tolerável até certa medida. Claro que essa situação de violência e conflito que diz respeito a pura e simples troca de pessoas no exercício do poder e que ficará sempre na dependência de relações políticas numa ordem o mais democrática possível, não pode nem deve ser confundida com Revolução. Nem toda forma de violência contra o governo, comporta as ilações metafísicas de uma revolução. 

Tal a questão das estruturas minimamente ou apenas formalmente democráticas. As quais mesmo não correspondendo a um tipo ideal (Que se identifica com a democracia direta ou a policracia.) ou a uma estrutura perfeita, prestam-se no sentido de dar acesso a Evolução ou progresso social, o qual alias se dá nessa estrutura, i é por dentro, devendo partir dela a democracia plena ou resultar ela em democracia direita, mas não por golpe e sim por pressões sociais convertidas em leis. Por isso, ao contrário dos jacobinistas, somos contrários a qualquer sedição ou golpe democrático ou policrático (No cenário de uma democracia formal ou indireta.) e em franca oposição aos primeiros lideres protestantes, que se estribaram no Antigo Testamento, somos decididamente contra qualquer tipo de golpe ou violência religiosa. Somos contra todo e qualquer golpe cujo objetivo seja acionar forças que movam estruturas ou pessoas. Nós não cremos nisto.

Portanto mesmo quando assumirmos o padrão da força lhe daremos outro sentido, assim removeremos pessoas, em beneficio de pessoas mais dignas e melhores. Não acionaremos gatilhos e não buscaremos mudar estruturas exceto por meio da produção de consciência, da educação, da formação, a qual para nós é a chave da cultura. E e claro que o objetivo de toda essa movimentação de consciência tem por fim produzir uma cultura ética e essencial da pessoa humana, valendo-se de nossa herança Cristã que é o Evangelho (Não a bíblia e menos ainda o antigo testamento e seus preconceitos tolos.) e de nossa herança Socrática. 

Eis porque não será o Cristão revolucionário, COMO JAMAIS SERÁ CONTRA REVOLUCIONÁRIO opondo-se ativamente e por meio da força a qualquer Revolução, exceto se religiosa ou credal. 

Por isso no próximo artigo, considerando Sorel, avaliaremos a questão da violência face a razão, para em seguida reforçar nossa oposição ao contra revolucionarismo hipócrita.



quinta-feira, 27 de abril de 2017

A ideologia de Pedro Loujine e o 'Dar metade da capa a quem pedir'

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Não poucas vezes a alta literatura brinda-nos com a feliz oportunidade de refletir sobre diversos assuntos quais sejam religião, sociedade, economia, política, etc

Autores há cujas páginas oferecem-nos a possibilidade de abordar as mais variadas áreas do conhecimento humano. Tal a vastidão e profundeza de suas obras...

Felizmente escritores há, que a semelhança de Midas, tudo quanto tocam convertem em ouro fino e precioso.

Que dizer então se o próprio tema é de elevado quilate?

Assim Machado de Assis e Lima Barreto entre nós brasileiros. Eça entre os lusitanos. Flaubert, Balzac e Mauriac entre os franceses. Dickens, Swift e Defoe entre os ingleses. Os dois Sinclair (Upton Beal e Lewis) Melville e Jakc London nos EUA. Tolstoi e Dostoevsky entre os russo; mas, dentre todos os escritores este último. Entre os românticos: Swell, Bronte, Austen e Stowe. E entre os históricos Watari, Graves e Gore Vidal. Tais os clássicos, dentre os clássicos. Mas leiam Também Edgard Allan Poe. 

Era o predileto de Nietzsche e também de Freud com os quais aqui, estou de pleno acordo.

Preciso dizer que a acuidade psicológica do mestre russo é inexcedível?

Alias sendo 'Épico' por natureza e certamente tolstoiano, não posso deixar de curvar-me face ao moderno mestre universal da tragédia, e em cujas obras topamos com aquele sentido trágico tão peculiar a humana existência, tão patético e tão marcante.

A propósito de qual seja sua obra prima há variedade de opiniões. Assim uns são pelos irmãos Karamazov, uns pelas notas do subterrâneo, alguns por recordações da casa dos mortos, havendo ainda quem seja pelo grande inquisidor ou pelo idiota. A maioria dos críticos no entanto parecer ser por Crime e castigo, obra cujo lançamento acabou de completar século e meio no ano passado uma vez que foi publicada em 1866, no Diário russo, uma publicação mensal.

Uma coisa no entanto é certa - Ao ler qualquer escritor busque uma tradução que reporte ao original e não uma tradução de tradução.

Assim quanto a Crime e castigo não faça regateios e se possível for adquira a tradução feita por Pedro Petrovitch em 1930 e publicada pela Editora Americana. É integra, literal, absolutamente fiel, em que pesem ligeiros errinhos quanto ao vernáculo i é ao português, devido quiçá a edição. Há alguns dias lí um anúncio em que pediam trezentos reais por uma delas. Direi que se trata de um investimento...

Se puder ler antes ou se já leu "Recordações da casa dos mortos" ou "Memórias do sub solo" melhor. Delicie-se então.

Delicie-se porque aquilo é um desfolhar da alma humana, tocando a suas fibras mais íntimas.

Os períodos são imensos, gigantescos, colossais... Fazendo jus a complexidade do objeto.

É uma introspecção após a outra:

"Ignoro assim quais sejam as causas mais remotas a que aludi; porém o amigo deve conhece-las. É homem inteligente e sem dúvida deve já ter analisado a si mesmo."
Analise-se e se reconhecerá em algum de seus personagens seja Raskolnikoff, Razoumikhine, Nastasia...
Quando a mim, neste pequeno artigo, desejo focalizar o Pedro Petrovitch Loujine, noivo de Dounia, futuro genro de Dna Pulqueria e cunhado de Raskol...
Pretendo na verdade focalizar um dos 'discursos' de Pedro Loujine assente a pg 156 (e sg) da citada tradução.

A qual vale a pena reproduzir:

"Não, isto não é um lugar comum! Se me disserem: "Ama teu próximo." e eu queira realizar este conselho, que resultará daí? Respondeu Loujine. Rasgo minha capa e dou metade ao próximo e? Ficamos ambos si - nus... Assim a ciência, a seu lado, mandam-me atender somente a minha pessoa, já que tudo neste mundo baseia-se no interesse pessoal. Aquele que segue esta doutrina, cuida convenientemente de seus próprios interesses e fica com a capa inteira para si. Acrescenta a economia política que tanto mais sólida e feliz será uma sociedade qualquer, quanto maior for o número de fortunas particulares ou de capas inteiras dentro dela mesma. Logo trabalhando apenas para mim, trabalho, pela mesma razão, para todos os outros, do que resulta vir meu próximo a receber mais do que a metade de uma capa; e isto não a merce de liberalidades individuais; mas em consequência de um progresso geral. A ideia se me parece bastante simples; infelizmente levou muito tempo para propagar-se e suplantar a quimera e o devaneio; e no entanto não me parece que seja necessária uma inteligência acurada para compreende-la." 
Já a primeira vista percebemos que se trata de um parágrafo prenhe de considerações ou teorias religiosas, filosóficas, sociológicas...

Há coisa que se explorar ai.

Arqueologia para se fazer.

Ossos para desenterrar.

E hoje, a semelhança dos pós modernos - Pois não há quem erre sempre e apenas erre - vou iniciar minha análise de ponta cabeça ou começando pelo fim.

Quem não compreende o enunciado acima, no caso Jesus e os Cristãos (Especialmente os Católicos ou Ortodoxos) é perfeito idiota. Pois não é necessário ser um gênio ou ter um Q I elevado para atinar com sua 'excelência'. Merecendo o conceito de alteridade ou empatia ser lançado ao mundo das fábulas ou quimeras...

Noutras palavras: Amar o próximo, identificar-se com ele, denotar qualquer nível de sensibilidade, ser solidário, etc Não passa de tolice!

Por cerca de vinte séculos ou de dois mil anos tem este planeta, em sua maior parte, sido povoado por uma imensa cambada de estúpidos ludibriados por um galileu tosco de nome Jesus. O qual ao invés de ensinar-nos a ignorar o próximo, ensinou-nos a ama-lo. Mas que pateta esse galileu... Como demoraram tanto para crucificar um charlatão desses?

Todavia como não podia a verdadeira luz permanecer encoberta e posta debaixo da cama ou da mesa, em algum momento da História teve ela de brilhar.

Acontece que apesar da patética trivialidade enunciada pelo autor a luz só veio mesmo a brilhar com todo seu esplendor a partir do século XIX.

Mas onde?

Em que espaço privilegiado pairou tão fulgurante luz?

"Como nós russos nos deixamos fascinar por opiniões alheias."
Bem se vê por ai, que a luz não surgiu lá na pobre Rússia e nos confins da América Latina... Paragens habitadas exclusivamente por bestas... Não é assim?

Divino Dosto dai-nos tua luz?

"Sim. Por que razões haveria ele de emprestar se sabe que o senhor não o paga? Por compaixão? Mas Lébéziatnikoff, apóstolo das ideias novas, explicou-nos há dias que atualmente é a compaixão condenada pela ciência, e que é esta a doutrina corrente lá na Inglaterra, onde a economia política é o que o senhor bem sabe." p 17

Bingo! A luz resplandeceu em Albion, digo na Inglaterra ou Grã Bretanha e iluminou o mundo espancando as trevas do Evangelho e do amor... Coisa e gente parva e sem instrução.

O livro é de 1866. Passando-se a cena no mesmo no ou, quiçá, no ano anterior, 1865.

Vejamos então que se esta passando em 'Merry England' a esse tempo...

Temos a "Origem das espécies" publicada pelo grande Darwin em 58. Mas... Até ai tudo bem, Darwin, jamais e até o fim da vida, ousou aplicar a doutrina da seleção natural a organização das sociedades humanas. Não era Darwin darwinista social, pois o que ele pretendia explicar por meio da seleção natural era a evolução dos seres vivos em termos biológicos.

No entanto desde 1862 ou mesmo antes Herbert Spencer (Especialmente no "Sistema de Filosofia sintética") divulgava já suas teses sobre o Darwinismo social (A expressão propriamente dita viria a ser cunhada mais de meio século depois) distorcendo o pensamento do naturalista evolucionário. E cunhando termos inexatos como o 'triunfo do mais forte', enquanto para Darwin o mais apto não era necessariamente o mais forte, mas aquele que possuía um aparelho ou instrumental físico mais sofisticado.

Mesmo antes de Spencer alguns pensadores ingleses como Benthan haviam já esposado uma ética utilitarista. Ideia retomada e reformulada por Stuart Mill num sentido mais social.

Nietzsche viria a tonar-se porta voz de todas essas ideias vinte anos mais tarde. Delas resultando a doutrina do super homem, para o qual a ideia de compaixão para com os fracos, ineptos ou desajustados socialmente falando, é uma aberração.

Nem podemos nos compadecer daqueles que a dinâmica social marcou com o insucesso mas consentir que sejam aniquilados pela dor sem soltar um suspiro sequer!

Não se trata aqui de aniquilar ou de exterminar como queriam os nazistas (Os quais deram um passo mais a frente) mas apenas e tão somente de não se compadecer, de não interferir, de não tentar minorar ou suavizar a condição daqueles que foram vencidos pela existência.

Tal a doutrina formulada pelos ingleses em seus círculos sociais pelo idos de 1860, e a qual alude Pedro Loujine.
Continua -









terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Os que não quiseram ser salvos... A História de uma mulher anônima e de um professor judeu que souberam ser imitadores perfeitos de Jesus Cristo





Ontem a noite estava refletindo sobre uma conversa que tive com o estimado professor Absolon, o qual dignou-se vir até a casa para trocarmos algumas ideias.

Centralizei o pensamento no sermão do monte, mais especialmente neste trecho:

"Bem aventurados os misericordiosos, porque obterão a misericórdia."

E refiz a pergunta como foi relatada pelo nobre amigo:

"Quem é o bem aventurado?"

O que tem fé? O religioso? O devoto? O remido? O igrejeiro?...

Não. De modo algum. A bem aventurança aqui é reservada ao misericordioso.

Agora - Quem é o misericordioso?

O ateu? O budista? O protestante? O espírita? O papista? O judeu? O Ortodoxo? O agnóstico?

Misericordioso é aquele que exerce a misericórdia...

Simples assim.

De fato qualquer um pode ser misericordioso: O branco, o negro, o vermelho, o amarelo, o rico, o pobre, o cristão, o judeu, o budista, o irreligioso, o velho, o novo, a mulher, a criança...

E aquele que é misericordioso é bem aventurado.

Mas e a fé? Como pode ser isto? Como alguém pode ser bem aventurado sem a fé?

Vai perguntar pra Jesus?

Então a fé já não é tudo?

Caso a fé fosse tudo não haveriam oito bem aventuranças, mas uma apenas: Bem aventurado quem tem fé...

A fé até pode ser alguma coisa, mas também existem outras realidades.

Daí o oráculo divino: "Na paciência salvareis as vossas almas!"

Como se vê a fé nem é a única realidade religiosa em termos de Cristianismo e tampouco basta ou salva sozinha...



Alguns se aproximam do Senhor de modo mais íntino por uma fé viva ou a adesão a verdade doutrinal associada a Caridade. Outros se aproximam doutros modos... mas também se aproximam.

Por outro lado só podemos comparar um Ortodoxo ou um Católico sem caridade, misericórdia, senso se justiça, etc aos mestres judaicos que passaram a largo do homem ferido...

Pois eles - apesar da fé - não foram designados como bons pelo divino Mestre. Bom mesmo foi o samaritano, isto é, o cismático ou herético sensível e compassível.

Aqueles, o sacerdote, o levita e o fariseu eram portadores da religião teórica ou superficial. Porque não é a verdade que atinge e toca o que há de mais profundo e nobre no ser humano... O samaritano apenas, inda que na ignorância da verdade, era representante da religião pura e sem mancha diante do Pai celestial: "Socorrer o órfão, o estrangeiro e a viúva em suas necessidades."

Claro que uma coisa não exclui a outra. Pouco no entanto são aqueles que logram concilia-las... Sendo assim, melhor ficar com o essencial que é a caridade, a benignidade, o amor a justiça, a sensibilidade, a humanidade...



Destarte quando penso em um padrão elevado de religião só posso pensar no Pe Maximiniano Kolbe, em Oscar Schindler, em Alexander Schmorell, em Madre Maria Skobtosova... a respeito dos quais escrevi já diversas vezes.

Hoje quero adicionar mais dois heróis a esta gloriosa galeria, dos quais sobre um nada sabemos em termos de fé, já o outro era judeu.

Penso se necessário registrar isto pelo simples fato de que todos estão perfeitamente cônscios a respeito de minha opinião a respeito do judaísmo enquanto cultura ou melhor da cultura semita como um todo pois minhas críticas tocam igualmente a cultura árabe e até com maior intensidade. Jamais ocultei - e não tenho porque oculta-lo - minha posição a respeito da notação e valor da cultura, meu repúdio marcado ao relativismo cultural, meu apresso e apego a cultura greco, romano, cristã, etc

Sempre tenho afirmado a inferioridade e miséria das culturas semitas em comparação com a cultura européia> greco, romana, católica, francesa...  Sempre tenho defendido a superioridade de nossos valores ancestrais como a democracia, a ética justicionista, o humanismo, a noção de bem comum, a liberdade sexual, a liberdade pessoal (esta afirmada pelos catolicismos), o conceito de alteridade, o jusnaturalismo, etc Os quais para mim correspondem a valores essenciais, imperecíveis e perenes. Neste sentido a contribuição das culturas semitas, religiosamente obcecadas em termos de formalismos religiosos, parece-me nula.

O próprio construto sincrético da religião judaica não me parece majestoso, embora não deixe de ser interessante. Ao menos até o advento daquela espiritualidade farisaica que tudo envenenou e que posteriormente veio a instalar-se nos domínios do Cristianismo... A exceção de certos elementos de ética contidos nos profetas e no Pirké abbot não nutrimos qualquer simpatia para com a fé dita abraâmica.

Todavia o foco de nossa crítica são os cristãos - em especial Católicos - que aderem a fé judaica e sobretudo aqueles que sem romper com a fé judaizam adotando os costumes do antigo testamento.

Ademais concordamos com o pronunciamento dos rabinos Ortodoxos segundo o qual ambas as fé não precisam misturar-se para tolerarem uma a outra.

Para além disto nossa opinião, ditada pelo liberalismo religioso, é suficientemente conhecida: Os judeus tem todo direito de professar sua fé ancestral e de manter seus costumes. Já Alexandre e Augusto haviam deixado isto bem claro e não somos doutro parecer. Como todos os homens - a exceção dos que santificam e abençoam a violência do como os muçulmanos sunitas - são credores de nossa tolerância e respeito, ponto e basta.

Por mais que detestemos as fés judaica, protestante e xiita reconhecemos que seus profitentes são seres humanos e que os seres humanos devem ser sempre acolhidos, compreendidos, amados e servidos; não odiados, nem oprimidos, nem perseguidos. Odiar as doutrinas e amar os homens deve ser nossa diretriz.

Ouso declarar enfim se um judeu entrega sua vida por amor de seu próximo também ele é imitador do Verbo Jesus Cristo e certamente herdeiro da bem aventurança e da paz espiritual, pois Jesus Cristo não é Senhor mesquinho e acanhado mas generoso e benevolente. Todo aquele que ama seu semelhante seja judeu, grego, chinês ou indiano esta na comunhão de Jesus Cristo, inda que jamais tenha ouvido falar dele, pois Jesus Cristo já o atingiu e incorporou a si ao assumir a natureza comum.

Ou não sabes que muitos daqueles que ouviram falar a respeito dele e fingem professar a fé desonram seu nome ensinando doutrinas de ódio, julgando, condenando, oprimindo, excluindo... Então se trata de um conhecimento inútil e duma fé para o juízo.

Feitas estas ressalvas passo a narrativa:




Não sei em que livro li esta narrativa, mas não poucas vezes, nas noites sem lua, tenho pensado sobre ela.

É uma historinha na plena acepção da palavra e no entanto uma das mais impactantes que já li ou ouvi.

Diz respeito ao famoso Transatlântico Titanic afundado a pouco mais de um século no fatídico ano de 1914.

Há tantas narrativas insipidas toscas a respeito dele, como aquela segundo a qual deus exercerá vingança sobre o navio devido a uma tirada feita por um dos proprietários ou pelo comandante, Esta predileta dos fanáticos...

Há algumas narrativas comoventes como a dá orquestra que não cessou de tocar até o instante final...

E há esta que segue e que para mim é a mais impactante de todas:

"Enquanto aquele navio imenso ia mergulhando nas gélidas águas do Oceano os botes iam se enchendo de gente.

Claro que as mulheres e crianças tinham a preferência e eu, que pertencia a esta última categoria, acabei testemunhando um evento a respeito do qual jamais haverei de esquecer enquanto viver.

Como alguns botes haviam sido lançados com poucas pessoas os que restavam estavam apinhados, inclusive o nosso.

O limite de ocupantes havia sido atingido e já não havia lugar para uma alma sequer.

Foi quando os homens aproximaram-se trazendo uma mulher cujos filhos haviam sido embarcados noutro bote e cujo esposo encontrava-se nos Estados Unidos, e já não restava lugar para ela.

E como a mulher chorasse e suspirasse eu vi uma jovem, uma mocinha levantar-se e dizer: Sou jovem solteira e sem filhos, ela é esposa e mãe, cedo meu lugar. E dizendo isto levantou-se e tornou ao navio prestes a adernar. O que quero dizer é que aquela jovem menina caminho para a morte certa e que entregou sua vida por uma desconhecida.

Por um bom tempo a voz daquela jovem soou nos meus ouvidos como um sino de ferro enquanto nosso bote se afastava e aquela mocinha tornava ao convés do navio.

Ela certamente morreu e eu jamais vim a saber quem fosse, qual era seu nome, sua origem, sua idade... "

Não meus senhores, não amigo leitor que me ouve, não se tratava duma pessoa idosa, vivida, enferma, frustrada, desgostosa mas duma menina, duma jovem, duma adolescente que mal começara a viver. E que mesmo assim num gesto de amor e nobreza aceitou morrer no lugar de uma mãe de família, de alguém que sequer conhecia...

Que significado imenso contido num evento tão breve.

De modo que eu, a semelhança daquela que presenciou este evento tão singular, pego-me não poucas vezes a imaginar qual fosse seu rosto, seu nome, sua origem, sua idade, suas ideias, esperanças, crenças, temores... E sobretudo em que pensava ela no instante crucial da decisão! E sobre qual teria sido o motivo que levou-a a abdicar da salvação em benefício de outra pessoa...

São justamente eventos como estes que me fazem questionar a crença ou fé materialista e a exemplo do grande Pascal apostar decididamente num Deus bondadoso em cujo Ser tais eventos são perpetuados e se tornam eternos, ao invés de tombarem no mais frio esquecimento.

E não tripudio afirmar que após os elementos deste planeta terem sido consumidos, que após todas as partículas deste sistema terem se dispersado, que após as galáxias e o próprio universo terem se dissolvido a memória desta ação permanecerá incólume a nível de consciência, duma consciência universal.

Certamente nem toda a imensidão deste universo material é digna de sentimentos tão elevados.



"Nós não estamos aqui para refletir teoricamente sobre os problemas sociais no espírito da ortodoxia mas para unir nosso pensamento social inspirado pela ortodoxia a vida do trabalho."

"Para muitos daqueles que frequentam a igreja nós estamos demasiado a esquerda, mas para os esquerdistas somos demasiado religiosos..."

"Guerra eterna e esse novo paganismo chefiado por um louco (Hitler) que precisa ser enfiado numa camisa de força e lançado numa sala forrada com cortiça de modo que seus uivos bestiais não destruam a paz do mundo."

"Erro essencial, não existe questão judaica mas questão Cristã porque toda questão de vida e morte é Cristã.... no fundo toda batalha que questiona o dom da vida é travada contra o Cristianismo? Se nosso Cristianismo fosse autêntico todos portaríamos uma estrela. A Idade dos mártires chegou."



"Se alguém aparecer por aqui buscando por judeus eu os levarei até o ícone da Mãe de Deus." Madre Maria Skobotzova, mártir imolada pelos nazistas

O segundo exemplo diz respeito a um professor e educador Janusz Korckzac judeu polonês de Varsow. Não vou falar agora sobre suas ideias acuradas e iniciativas geniais como a Escola ou pedagogia democrática suficientemente avaliada por Piaget... Afinal as ideias por geniais que sejam passam. Limitar-me-ei a narra sumariamente como também ele recusou-se a ser salvo. De fato enquanto cuidava dos órfãos do Dom Sierot no gueto foram-lhe oferecidas no mínimo duas oportunidades de fuga, uma por Newerly e outra por Maria Falska. Optou no entanto por não abandonar seus educandos e companheiros. E com eles em Agosto de 1942 foi conduzido ao matadouro de Treblinka onde veio a perder a vida. Segue-se o melhor comentário possível: Ninguém tem amor maior senão aquele que entrega a vida por seus irmãos!

Quando crianças, mulheres, velhos, enfermos e deficientes são assassinados não é questão de ideologia mas de psicopatia ou crueldade!