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sexta-feira, 17 de outubro de 2025

O abismo pós modernista

Aqui algo de ao menos parcialmente novo.

Pois se no papismo, no protestantismo (Apesar de seu conteúdo cético!), capitalismo, comunismo, anarquismo, conservadorismo e fascismo temos a afirmação de algum conteúdo, com o pós modernismo> Ceticismo, subjetivismo e relativismo, chegamos as portas do nihilismo ou ao nada absoluto.

Até o iluminismo, empirista ou materialista, tínhamos ainda alguma fé, fosse mais forte com a ortodoxia, o episcopalismo ou o papismo, mais fraca com o protestantismo, absoluta e cega com as seitas... havia fé.

Restou-nos por pouco tempo a Filosofia ou Metafísica, de pronto abatida por Hume, na Inglaterra, por Kant (Arauto de Lutero) na Alemanha e enfim por Comte na França... Cerca de 1840\50 removeram-nos o racionalismo.

Porém, desde Condorcet restou-nos a Ciência, com suas douradas e paradisíacas promessas para o futuro. Até a explosão das duas grande guerras... E foi-se a ciência. Todavia, ao menos no Leste, restavam a velha mística em torno da ciência, associada ao comunismo e suas visões futurescas - O que perdurou até a queda do mudo de Berlim em 1989 e ao colapso da URSS no ano seguinte.

Então o nada> A negação da realidade, a pós verdade, o domínio das narrativas, o 'imaginário coletivo', a 'construção social'... 

Sucessivamente foram as ilusões (Em torno de alguma verdade) caindo, uma após outra> Fé\Religião, Filosofia (Ética e Estética), Ciência e Revolução... A ponto do insuspeito Nietzsche contemplar uma Europa coberta por escombros e ruínas.

Parece que o comunismo e o positivismo não deram cumprimento a suas promessas, tal e qual haviam falhado o capitalismo e o protestantismo antes deles. 

Mas a questão aqui não é essa...

Pois apesar das sucessivas infidelidades e desmoronamentos sempre havia alguém disposto a coletar os cacos e construir um novo castelo ou fortaleza: Smith, Marx, Condorcet, Comte, Proudhon, Bakunin, Maurras, Mussolini... 

E era a utopia levada adiante...

Até que com Stirner, Nietzsche, Derrida, Foucault, Rand, etc chegaram os demolidores.

Após os quais restaram apenas escombros e ruínas, ou mesmo algum pedaço de carne fresca que o gusano ateísta busca devorar ou consumir com voragem... Referi-mo-nos aqui ao livre arbítrio ou da livre vontade, atacada com ferocidade por Skinner, Pinker, Roth, Sapowsky... Com efeito a neurociência dos 'ateistas' opõe-se decididamente a existência do livre arbítrio por ter dificuldade de explica-lo a partir de sua ideologia ou metafísica podre.

Assim, se o livre arbítrio não se encaixa muito bem como nosso materialismo mecanicista tosco, bora repudia-lo... 

Portanto - Mesmo no escuro reino do nihilismo, expandem-se as negações, sendo a negação dada por verdade...

Nada de novo debaixo dos céus - Há dois ou três séculos os céticos encantam os idiotas ao por tudo em dúvida, exceto o ceticismo, a que se apegam como um dogma. 

Aqui, sem sermos materialistas temos de admitir que, ao menos em certa medida, a atmosfera social exerce relativa influência sobre o mundo das ideias. 

Um franco realismo obriga-nos a admitir que quando uma sociedade está a progredir, avançar, a evoluir, etc Cria ou produz ideologias com um conteúdo bastante rico ou ideologias de afirmação, de certeza, de posse; enfim ideologias otimistas.

Outro o caso das sociedades quando abaladas por alguma calamidade social ou das sociedades fracas e decadentes. As quais tendem a abraçar, reproduzir ou criar ideologias de negação postas para o desespero.

O que já sucedeu mais de uma vez.

Assim os séculos IV e III a C > Período em que os planos de Aristóteles, assumidos por Alexandre, principiaram a dar errado, na medida em que Diadocos e Epígonos disputavam os restos de seu império e mergulhavam toda aquela parte do mundo num mar de fogo e sangue - Debutou o ceticismo de Pirro.

E novamente, quando o Império romano veio abaixo, tivemos o florescimento da Teurgia i é da feitiçaria ou da bruxaria (Com Jâmblico) em plena academia de Platão! E era isso o neo platonismo, ao menos em sua derradeira fase... E temos no campo da Teologia, o maniqueu Agostinho de Hipona, com seu pecado original e sua corrupção total da natureza, enquanto é Roma conquistada por Alarico e seus Godos...

Assim se Orígenes é o Teólogo otimista daquela Roma ainda forte e segura sob Aureliano, Agostinho...

Mesmo nos domínios da infidelidade islâmica, Gazail fez seu ataque a razão, aos racionalistas mutazzilas e aos escolásticos quando o califado estava já sendo estraçalhado pelos mamelucos fanáticos desde 909, culminando esses desastres com a ascensão de Al Haquim e enfim com a destruição da casa da Sabedoria de Bagdad em 1258. Foi este período um período de crise política, dissolução, violência, guerras, etc o qual resultou na consolidação definitiva do fideísmo irracionalista acharita.

Fácil compreender que para a Europa contemporânea, foram das duas grandes guerras mundiais, eventos similares aos conflitos que marcaram o período helenístico, a queda do império romano ou a dissolução do califado abássida, isto do ponto de vista do impacto psicológico. Se a guerra dos Trinta anos abalou a fé Cristã e as guerras napoleônicas atingiram a fé romana, as duas grandes guerras além de terem abalado mais uma vez a fé romana, destruíram da noite para o dia a fé positivista na ciência e ainda conseguiram respingar alguma lama sobre a fé capitalista... 

Daí a ascensão do ceticismo, do relativismo e do subjetivismo, enfim do modernismo e do pós modernismo enquanto doutrinas de negação. O quanto restava do outro lado do muro, como já sabemos, desabou pelos idos de 1989, provocando outra onda de desapontamento ou de ceticismo, entre os ocidentais.

Disto resultou, a partir dos anos 90 e nas duas primeiras décadas do terceiro milênio na afirmação do pós modernismo ou da pós verdade, etc, etc, etc

Parece que no fim das contas não havia mais sinal de esperança nos domínios da cultura ocidental. Por fim a construção das ideologias cessou, e parece que o nazismo foi a última delas. O quanto basta para demonstrar como a construção degenerou... Talvez muitos tenham concluído que era já a hora de parar. E que essas elaborações metafísicas ou racionais eram uma autêntica calamidade.

A impressão que se tem é que as grandes guerras produziram uma aversão a qualquer tipo de proposta ou ideário mesmo que suavemente reformista supostamente derivado da reflexão. Os conservadores de matriz agostiniano ou luterano tornaram a apontar a razão ou o racionalismo como sendo o vilão... Os resistentes do positivismo editaram mais uma vez o discurso em torno da 'coisa dada'... E todos os demais abraçaram o novo credo iconoclástico e vazio do pós modernismo, alegando que tudo quanto existia ou sobrevivia era o discurso, a narrativa, o imaginário coletivo ou a construção social, enfim a pós verdade...

Em seguida, o dilúvio...

Abriram-se as velhas comportas cerradas há séculos com portas de aço, e desde então, sem concorrência alguma, foram entrando os fios e as ondas do fundamentalismo religioso, espantando para a periferia do mundo.

Na conta do pós modernismo, com sua negação da verdade, seja científica, metafísica ou religiosa, devemos creditar a afirmação e expansão da treva fundamentalista no ocidente, seja ela protestante (Nos EUA e na América) ou islâmica, na Europa. 

Afinal que poderíamos opor nós as falsas verdades alegadas pelos fanáticos de plantão... Narrativas, discursos, versões... kkkk A moeda falsificada só se pode opor com sucesso a moeda verdadeira. 

Por mais que o pós modernismo negue, é fato que o intelecto humano está posto para a verdade, que pugna por ela e que ela apenas o satisfaz. 

Inútil oferecer coisas reformadas para a contemplação do intelecto racional, como intentou o protestantismo. Verdade seja dita quem se deleitaria  com com um sapato, uma camisa, uma moto ou mesmo uma casa reformada, podendo ter uma nova?

Nem mesmo comida requentada ou refeita apreciamos, quanto mais verdades divinas requentadas ou reformadas. 

Tanto pior para nós a ausência ou negação da verdade. Naturalmente que uma bananeira ou um limoeiro não se podem sentir frustrados caso não frutifiquem ou deixem bananas ou lições.

Outro o caso da criatura, ao menos em parte racional e sensível, que desespera de obter algum conhecimento válido e consistente. Negado ao Homo Sapiência o conhecimento, tudo quanto lhe resta é a decepção. Seguida pela frustração, pela angústia e enfim, por vezes, a alienação mental e o suicídio. 

Pois não existe o ser humano para o nada ou o vazio porém para a posse. 

E sua condição não se conforma por completo com a ausência.

A posse de ao menos algumas poucas e elementares verdades certas, válidas, indubitaveis e consistentes é indispensável a sanidade mental e a construção de uma personalidade forte.

Nem é possível constatar se a proliferação das doenças mentais no mundo contemporâneo é um sintoma ou uma das causas dessa calamidade. 

O problema crucial é que a falta da verdade pode produzir compulsão. A ponto da pessoa angustiada aceitar qualquer coisa, aliás duvidosa e infundada. Como mitos religiosos de talhe fetichista, conhecimentos alegadamente reformados ou enfim ensinamentos anti éticos ou mesmo bárbaros.

Não nos surpreende portanto que um cético ou negacionista radical passe facilmente ao extremo oposto i é a aparência de uma verdade totalitária que estimule a intolerância.

Afinal todos sabem muito bem como se comportam, a maioria dos humanos após longo período de fome ou jejum...

A Europa atual, desnutrida e famélica, por conta da brincadeira pós modernista, chegou já a esse ponto... De regastelar na lavagem do fundamentalismo árabe...

Então você já sabe perfeitamente bem o que produziu o avanço e potencial triunfo do califado islâmico na Europa> O pós modernismo, com sua leviana negação da verdade e repúdio ao conhecimento.

Creio porém que ainda haja tempo para fazermos uma arqueologia dos saberes ou regressão da cultura, recuperar nossos fundamentos e por assim dizer 'salvar' este projeto de civilização que ainda se não concretizou.

E é claro que não estou me referindo a protestantismo ou capitalismo, os quais representam o desvio quase inicial e o início da 'crise' porém a nossas raízes clássicas: Socrático/Aristotélica e talvez, ao Cristianismo antigo ou episcopal. 

Reflitamos...

Conheça também os demais artigos da série 'Culturas de morte': 


  • Americanismo
  • Protestantismo
  • Conservadorismo
  • Positivismo
  • Anarquismo
  • Capitalismo
  • Comunismo
  • Fascismo
  • Sionismo 
  • etc







sábado, 27 de outubro de 2018

O pai e o avô do Leviatã... e o Cristianismo II - A Inglaterra hobbesiana...

 


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Homem algum produz ideias a partir do nada... As ideias de um homem são resposta sua a problemas existentes no meio em que vive. E como o homem busca superar ou solucionar o problema podemos compreender as coisas em termos de 'oposição' a um dado modelo social...

Já vimos como as coisas se passaram com Platão. Cuja obra maior é por assim dizer, uma reação face a anomia produzida pela corrupção do ideal democrático. Sem querer justificar Platão ou concordar com ele podemos tentar compreende-lo e não apenas a ele mas a Hobbes, a Rousseau, a Marx, a Freud, etc Com certeza, a busca desta compreensão tornará nossa inteligência mais sólida!

No entanto se em Platão damos com alguém que delineia um possível futuro, em Hobbes damos com alguém que em certa medida ao menos reporta ao passado e a um passado não muito distante. Uma vez que Hobbes escreve cerca de 1651 mas nasce em 1588. Portanto meio século após a morte de Henrique VIII. De fato após o pequenino Portugal converteu-se a Inglaterra no primeiro Estado unificado da Europa e logo num Estado total ou absoluto, como Portugal jamais fora ou seria. Sem ter sido feudal teve Portugal seus cavaleiros a combater os Mouros, teve a Igreja romana com sua poderosa hierarquia e teme inclusive cortes e liberdades municipais. De modo que o poder do soberano luso estava longe de ser absoluto...

Willian no entanto, após conquistar aquela Ilha, exigiu juramento de submissão a cada senhor. Tampouco havia o municipalismo romano ou como querem, a Djemaa árabe, naquele pais. A velha nobreza fora em parte dizimada pela recente guerra entre as duas rosas. O quanto restava fora de controle na Inglaterra as vésperas da reforma protestante eram as universidades, as guildas e acima de tudo a toda poderosa Igreja romana, com seus mosteiros espalhados por todo pais, de modo que o poder do monarca, inda que substancioso, não era absoluto ou ilimitado. De fato por poderoso que fosse, especialmente após o fim da guerra das rosas, Henrique VII sequer podia sonhar com o poder que um dia seria acumulado por seu segundo filho.

Antes de prosseguirmos sejamos justos. Henrique VIII jamais foi protestante ou reformador como declaram ridiculamente algumas publicações romanistas. Separando-se de Roma ele jamais rompeu com a fé Católica e se mandou dissolver os mosteiros é porque eram a um tempo fiéis a Roma papal e a outro imensamente ricos. Teólogo, jamais compactuou com os princípios canonizados por Lutero ou Zwinglio os quais encarava como hereges pestilenciosos e não hesitou em remeter os luteranos e zwinglianos ou protestantes de modo geral,a fogueira. Uma anedota refere que folgava amarrar um protestantes e um romanista no mesmo poste e incendia-los juntos. Diante disto não poucos concluíram que na verdade não passava de um incrédulo, o que por sinal é bem possível. Formalmente foi o que os papistas costumam classificar como cismático, o que aproxima-o de nós Católicos Ortodoxos... Tudo quanto ele fez foi aproveitar-se das condições provocadas pela reforma para separar a Igreja inglesa da igreja Romana, sem que com isto altera-se nimiamente sua estrutura. E permaneceu não apenas Católica quanto a fé, mas episcopal e hierárquica.

Teólogo como já dissemos ele certamente estava muito bem informado a respeito de Justiniano e dos demais basileus que tentaram usurpar o poder eclesiástico em Bizâncio. Tais seus modelos. E foi mais bem sucedido que eles, obtendo do clero inglês, com algumas poucas exceções, uma submissão reverente. Submetendo a Igreja nacional converteu-a em repartição de Estado, tal e qual descreve Hobbes no Leviatã. Desde então teve sua inquisição espanhola. E pode controlar não apenas as guildas e universidade como o Parlamento, convertendo-o em quintal seu. A partir daí exerceu um poder absoluto e inconteste, e tantos quantos ousavam objetar qualquer coisa perdiam a cabeça.

Sintomático que tenha feito passar mais leis pelo Parlamento do que todos os seus predecessores. Ele de fato tudo aspirava controlar. Assim sua filha Maria, a sucessora desta Isabel e por fim Tiago I, teórico absolutista. Todos estes monarcas avançaram na direção apontada por Henrique, embora Isabel tenha mostrado mais prudência ou pudor. Seja como for, desde Henrique as leis inglesas atribuíam tal poder ao monarca.

Enquanto os reis absolutos comandaram a Inglaterra contaram com o decidido apoio da Igreja Anglicana ou Anglo Católica e com a oposição marcada de dois grupos bastante ativos: Os romanistas, representantes da antiga religião e os protestantes, já calvinistas, já anabatistas chamados de modo geral não conformistas. Ambos os partidos assacavam constantemente as fileiras anglicanas buscando desfalca-las e obter a hegemonia. Os romanistas temiam a preponderância dos sectários não conformistas e os sectários não conformistas temiam a influência dos romanistas. Os anglicanos ou realistas eram considerados aliados dos protestantes pelos papistas e dos papistas pelos protestantes embora de modo geral fossem por si mesmos. Segundo diversos autores o grupo anglicano era mais político do que religioso e muito pouco sincero e comprometido, enquanto que os extremistas - de um lado e do outro - eram movidos por convicções fortes.

O quanto de pode dizer a respeito daquele tempo e do que aconteceu é que os anglicanos, que até então formavam o Centro, foram sendo paulatinamente conquistados pelos papistas e pelos protestantes, disto resultando um profundo desequilíbrio. O rei, a corte e a alta nobreza pendiam cada vez mais ao partido do papa, a burguesia ao calvinismo e pelo menos parte dos mais pobres ao não conformismo. Até que o próprio anglicanismo viu-se cindido entre as duas correntes: Alta ou anglo Católica e baixa ou puritana, reproduzindo-se a mesma cisão fora da Igreja oficial. Cerca de 1625 achava-se a Inglaterra cindida entre as duas facções extremistas. A partir daí romanistas e anglo Católicos a um lado (realistas) e sectários ou revolucionários do outro iniciaram as hostilidades que levaram a Guerra civil ou a assim chamada Revolução, contando Hobbes com cerca de trinta e sete anos. Esta situação prolongou-se até no mínimo 1660 - i é seja por cerca de trinta e cinco anos - ou, segundo outros até 1688, ou seja, até a deposição do rei Jaime.

Foram cerca de sessenta anos de turbulência e instabilidade. Período muito semelhante aquele que fora vivenciado por Platão de 404 até sua morte, em Atenas. Até o advento da Reforma protestante achava-se a Europa espiritual ou religiosamente unificada, enquanto separava-se politicamente. Após o advento da Reforma, interpretado por muitos como a decadência do Cristianismo ou ao menos do Cristianismo ocidental ou latino, a separação entre as nações europeias tornou-se total, i é a um tempo religiosa e a outro política.

Particularmente no que diz respeito a Inglaterra, o advento da Reforma protestante propício as circunstâncias necessárias para cimentar a Unidade Política e respaldar o Absolutismo. Pois o sagaz Henrique VIII, tornando-se 'cismático' (sic) sem tornar-se protestante, logrou, pela espada ou pela força extinguir as dissenções religiosas e manter o reino espiritualmente unido em torno do trono e do anglicanismo episcopal, o que foi um golpe de mestre. A bem da verdade Henrique VIII tirou proveito da politicagem que envolvia o papado aquela época, a qual desagradava inclusive parte dos Católicos. No entanto a partir do momento em que os tutores de Eduardo introduziram os princípios protestantes no pais os próprios Católicos fossem romanos ou anglicanos tornaram-se mais comprometidos. Desde então um grupo opoz-se tenazmente ao outro.

E este estado de oposição entre consideráveis minorias Católica e Protestante amortecidas por um anglicanismo ou episcopalismo formal jamais cessou. Isabel no entanto, reeditou com sucesso a solução de compromisso de seu pai, apelando já a espada, já ao patriotismo... E mais uma vez obteve a conciliação entre os partidos, embora não na mesma medida que seu pai, alias mais intolerante. Henrique certamente encarava os extremistas papistas e protestantes como fanáticos, enquanto estes encaravam-no como um incrédulo ou oportunista, o que talvez não fuja a verdade. Izabel era do mesmo tipo, conciliatória e sagaz, quiçá descrente.

No entanto durante todo seu reinado e durante os dois que se seguiram os 'comprometidos' ou crentes foram não cessaram de concentrar-se nos 'extremos' debilitando cada vez mais aquele centrão anglicano e predispondo a sociedade ao conflito iniciado em 1620. Desde então as facções Católicas - Romana e anglicana - congregadas sob o signo do realismo, e protestantes, chegaram as vias de fato, e a Inglaterra conheceu o inferno. Praticamente todo século XVII foi isto.

Alguém que, imaginemos Th Hobbes, ama-se a paz e a tranquilidade odiaria viver na sociedade Ateniense do seculo V, na sociedade romana do século I a C ou do século V d C, na Sociedade europeia dos séculos X e XI ou na Inglaterra do século XVII... Conhecendo a fundo as causas das situações problema enfrentadas por estas Sociedades nosso homem construiria soluções na direção radicalmente oposta. E como cada uma delas remete a dissolução e ao conflito nossos críticos promoveriam a unificação e a paz, pagando tributo a autoridade.

Platão incriminou a democracia e por isso delineou um estado despótico, em que os vigilantes exercem rigoroso controle sobre os demais setores da Sociedade, comandando-os. Hobbes face a turbulência promovida pela religião chegou, muito provavelmente a uma incredulidade que a seu tempo não era prudente assumir. Recriminou não apenas o protestantismo por ter canonizado o livre exame - Método que brilhantemente relacionou com a discórdia e a confusão doutrinal - mas o próprio sentido universal ou Católico da fé Cristã, o qual encarou como uma finalidade política e anti estatal inadmissível.

Hobbes deve ter pensando do Cristianismo o que a maior parte de nós hoje pensa sobre o Mercado. Que equivale a uma espécie de besta fera a ser enjaulada. Para ele a anarquia social de seu pais era fruto de uma religiosidade ou fé que fugira ao controle. Portanto Hobbes só pode conceber o Cristianismo como uma instituição submetida ao poder estatal ou seja nos mesmos e exatos termos que Henrique VIII ou Isabel reinados cujo histórico ele bem conhecia e para os quais suas vistas estavam voltadas, como que para uma Era de ouro.

Escrupuloso Hobbes tende a desconfiar, em menor medida, de todas as comunidades ou associações não políticas ou intermediárias, dando por certo que elas debilitam o poder do soberano, ameaçando, consequentemente a paz. A existência de guildas, universidades, colegiados, etc só pode ser admitida quando estritamente necessária e a guiza de concessão ou seja enquanto algo autorizado pelo soberano. De 'per si' não teem tais comunidades direito a existir. Frente ao Estado, corporificado no soberano, existe apenas o indivíduo, nenhum outro tipo de entidade.

Agora como justificar metafisicamente tal estado de coisas?

Diante do que testemunho no curso da primeira metade do século XVII, concluí Hobbes que o homem seja um lobo, um predador, uma fera; sempre disposto a devorar o outro homem. Como o Freud da maturidade ou da velhice, o totalitário inglês, postula que o homem é dominado por um impulso de agressividade. Onde estiver mais de um indivíduo a tendência será o conflito, não mero conflito classista, como queria Marx. Para o autor do Leviatã o conflito é individual e inevitável...

E no entanto este homem, e damos com Freud novamente, agressivo, aspira pela paz e pela tranquilidade.

Como chegar até ela?

Por meio do contrato as partes, tendo em vista este bem maior, que é a paz, devem abrir mão de suas liberdades e entregar-se a tutela de um soberano forte. Uma vez que todos sejam controlados com mão de ferro pelo soberano e nivelados pela submissão, o conflito generalizado cessará.

Encarado deste modo não é o Leviatã algo mau ou indesejável, mas algo verdadeiramente bom e desejável, enquanto caminho único para a aquisição da paz social ou da estabilidade. Da submissão ou obediência ao Estado e suas leis é que advirá o equilíbrio. Da servidão voluntária resultará a harmonia. A partir da qual a pessoa humana poderá cultivar suas habilidades. Já o exercício do que chamamos liberdade produzirá inevitavelmente a discórdia ou a guerra, a qual impedirá que o homem de realizar-se enquanto tal. Aqui uma espécie de denominação comum face a Platão: Qualquer situação de liberdade ou democracia resultará, necessariamente, em anomia, anarquia ou conflito. Diante disto a alienação da liberdade e o recurso a autoridade absoluta são requisitos exigidos por uma sociedade bem ordenada.

Por ai se vê que podemos discordar de Hobbes mas de modo algum duvidar de sua sinceridade ou negar a coesão de seu pensamento.

Nem podemos estar totalmente certos de que em situações sociais semelhantes as que ele ou Platão vivenciaram discordaríamos deles. A menos que nos presumamos mais habilitados ou inteligentes...




terça-feira, 17 de julho de 2018

Dialogando com G Sorel

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Em G Sorel desembocam diversas tradições ou correntes de pensamento, as vezes demasiado afastadas uma da outra. A ponto de Lênin classifica-lo como um pensador embrulhado ou como diríamos confuso. De fato, a impressão que temos ao lê-lo é que sobrepôs um amontoado de ideias sem se preocupar com a coerência e ainda aqui carrega o vezo de Nietzsche e do anarquismo. Era honesto, e apresentava-se como irracionalista, para ele a tônica da vida era o mito. Não a razão, alias, racionalismo, intelectualismo, institucionalismo, pacifismo; e tudo quando temos em conta de civilizado era para ele decadente; e aqui encontra-se com O Spengler.

Há nele uma forte influência Católica ou mesmo agostiniana, que apesar da esperança, faz com que tema um futuro sombrio. Como Rosa Luxemburgo ele não é imune a hipótese da barbárie. Há um forte conteúdo conservador tomado a De Bonald, De Maistre, Tocqueville e outros que lhe infunde um ódio insuperável a democracia burguesa ou meramente formal e ao capitalismo; enfim ao conjunto que costumeiramente chamamos liberalismo, para ele essencialmente corrupto. É um homem, que acima de tudo, abomina a forma democrática vigente. Sera sucessivamente conservador ou melhor reacionário e marxista heterodoxo, flertará com o integralismo da 'Ação francesa' - aproximando-se de Ch Maurras (outro pensador bastante rico quanto perigoso), até namorar com Mussolini e o fascismo jamais renunciando a seu ódio anti liberal. Há nele um conteúdo Marxista, mas heterodoxo, posto que repudia o materialismo dialético, pelo simples fato de conhecer o valor das ideias e o significado do determinismo mecanicista. E nem aqui se esgota, pois há também nele um conteúdo anarquista que o leva a forjar o 'mito' da greve geral e a dissertar sobre o emprego metódico da violência. Pelo conteúdo marcadamente Ético, encontra-se com P Kropotkin e opõem-se já a Maquiavel, já a seus cultores sejam Bakunin ou Lênin, Marx ou Engels.

Como se vê este homem é um caudal de 'varia doctrina'.

Ademais os títulos de suas obras são por si mesmos significativos - "O processo de Sócrates" onde defende a condenação de Sócrates pelo areópago. "As causas da dissolução do comunismo", "A decadência do mundo antigo" e finalmente as "Reflexões sobre a violência" que é seu 'Magnum opus'.

Também escreveu, em 1889, uma obra sobre a Bíblia em que manifestava certa predileção pelo Antigo Testamento devido a seu conteúdo 'heroico' ou seja a seu caráter violento. O próprio Nietzsche em algumas de suas passagens parece ter esboçado o mesmo tipo de sentimento a respeito da excelência do antigo testamento face ao Evangelho e Wulfilas, o primeiro Bispo dos alemães, já havia deduzido por esta similaridade entre os livros dos antigos judeus, especialmente Reis e Crônicas, e o caráter do primitivo povo alemão sob o paganismo.

Assim na 'Decadência' não poupa críticas aos antigos gregos - ou aos romanos helenizados - com seu ideal de civilização racional, político e jurídico ou institucional, que encara como decadente ou degenerado. Para ele, Sorel - e aqui temos de pensar em O Spengler e no Nazismo - as fases mais grandiosas da civilização correspondem justamente aos momentos de crise e tensão, nos quais predomina a violência. Assim o antigo israel, a Germânia ante Cristã, a baixa Idade Média... períodos em que ele enxerga a apoteose do heroísmo, na esteira de Carlyle. Aqui temos a expansão da energia criadora, ali uma contensão ou negação desta energia que equivale a um estado vegetativo ou comatoso.

Há portanto, entre nós ele, uma contradição marcante em torno do progresso - que ele com certa razão, em termos técnicos, encara como utópico ou mitológico (crítica que vale para os positivistas) - pois o que encaramos como o ápice da civilização ele encara como decadência e o que encaramos como crise e decadência, ele encara como apogeu. Com efeito, o ideal deste irracionalista não podia estar na Grécia Clássica ou na Roma dos Antoninos e a Roma que ele glorifica é certamente a Roma imperialista e expansionista da República, a Roma de Scipião Afer e Múmio, a Roma que venceu Cartago e devastou Corinto!
Já dissemos - Com Catão, este homem expulsaria Carnéades e seus companheiros de Roma e subscreveria o Édito de Domiciano, enviando Epicteto e demais filósofos ao exílio. E ele não disfarça seu ódio pelos intelectuais de gabinete, responsáveis por falsear a História.

Apesar deste lamentável exagero, que malbarata a paz e sua consequência, que é o progresso artístico, literário, religioso, científico... Sorel não deixa de ensinar-nos grande e perigosas verdades. Homem de inteligência acurada não deixa de antever que a par da violência física responsável pelo derramamento de sangue há outras formas de violência, e de uma violência dissimulada ou oculta, que trás em si um germe de morte! Refere-se destarte a nosso pacifismo não poucas vezes hipócrita - que oculta covardia e decadência! - e a maldade com que é a institucionalidade manipulada e oprime o homem. O que este homem genial soube captar foi a pior forma de abuso sob a qual tem caído nossas instituições - A jurisprudência e o parlamento - no sentido de (Em nome da paz e da segurança) exercerem uma opressão dissimulada e hipócrita. Face a qual as massas institucionalmente oprimidas ficam completamente indefesas. Assim o fórum, o parlamento e até mesmo o púlpito servindo a dominação econômica ou a plutocracia; sutilmente é claro...

Sem atingir as instituições, cremos nós, Sorel demonstrou que elas não são imunes a um abuso deplorável por parte de muitos, e que o discurso em torno da paz e da civilização, da racionalidade e da institucionalidade, pode comportar uma intencionalidade essencialmente má, ignominiosa... Podemos usar dos conceitos e formas de civilização para dominar, oprimir e explorar mais eficazmente. Portanto temos de, sem condenar as instituições ou a civilização em si mesma - caindo no extremo de Sorel, e chegando aos confins do Nazismo - examinar muito bem o discurso e compara-lo com a realidade. Já Freud dissera com razão que no futuro as pessoas avaliarão a civilização em termos de acesso a ela mesma i é em termos de acesso ao prazer, face aos sacrifícios empenhados. E se nos parece que um ideal de civilização restrito, em que umas poucas pessoas privilegiadas tenha acesso a maior parte dos bens enquanto os demais ficam a chupar os dedos não se manterá para sempre...

Os benefícios da civilização devem ser paulatinamente estendidos a maior parte de seus membros, de modo que ela valha a pena. Por isso como o velho Keynes temos de falar em qualidade de vida ou em bem estar, em justiça social ou no bem comum de Aristóteles. São discursos indispensáveis e metas que temos de buscar atingir. Do contrário a civilização, encarada como mero Slogan, não resistirá as críticas honestas de um Sorel ou aos ataques, nem sempre injustos de um Marx ou de um Engels, de um Tolstoi ou de um Kropotkin, ou até mesmo de um liberal como J S Mill.

Outro aspecto demasiado interessante, que Sorel tomou a Nietzsche, e que precisa ser aprofundado diz respeito a mística no pacifismo ou mesmo da não agressão, a qual sempre pode ocultar fragilidade e covardia, malbaratando-lhe todo valor. Os Católicos mais esclarecidos concordam que a opção pela paz ou pela não agressão só tem valor quando assumida por alguém que é capaz de agredir, de atacar, de exercer a violência, de lutar e de vencer; jamais quando assumida por fracos e covardes a guiza de disfarce, o que amiúde tem ocorrido no terreno do Cristianismo. Massas degeneradas afetando pacifismo.

O martírio de nossos ancestrais, os pioneiros da fé, só teve valor porque em qualquer tempo podiam renunciar livremente a sua fé ou a seus ideais, e salvar suas vidas. Podiam escapar, podiam lutar e vencer, como declara Tertuliano, mas preferiram morrer por e com seus ideais. Aqui a força das ideias ou como quer Sorel, do mito - que ele mesmo tenta restabelecer. Aqui a força mais poderosa, a força interior e espiritual, a força do caráter ou da personalidade, que leva de arrasto a força meramente física. Mais forte é aquele que podendo lutar, combater e vencer se deixa supliciar por uma ideia. Quem mais controlado, disciplinado e vitorioso do que este homem??? Por outro lado o simples ato de deixar-se matar sem poder escapar ou ter forças para lutar, como no caso dos Romanov, não tem valor algum. Só é martírio se existe a opção de salvar-se por meio da abjuração. É a liberdade que mede a força do martírio, o qual implica em sair da vida voluntariamente. Hora quem vence o amor pela vida é capaz de vencer qualquer coisa.

Há aqui, no verdadeiro martírio que mostra-se indiferente face a morte, o adversário mais temido pelo gênero humano, uma força ou um poder que nem Nietzsche nem Sorel puderam aquilatar devidamente. Como há valor no autêntico pacifismo assumido por quem sendo forte poderia lutar e defender-se. E como há valor na não agressão por parte de quem poderia atacar ou lutar. Por outro lado Sorel não deixa de ter razão quando se refere aos degenerados que sendo covardes ou fracos assumem um pacifismo oportunista. É uma situação real e o mínimo que cada um deveria fazer é examinar a si mesmo antes de afetar aparências e profanar o Evangelho. Se é fraco ou covarde que assuma sinceramente suas limitações... É o mínimo que se espera de um Cristão devoto.

Destarte não é o pacifismo um valor absoluto, mas algo que será avaliado a partir de certas condições ou circunstância. E tampouco é absoluto, como já dissemos, face as exigências da justiça. Por isso concordamos com Sorel no sentido de que haja uma violência necessária e desejável, quando posta a serviço da justiça ou da vida humana, que são valores de ordem superior. Apenas acrescentamos, por questão de prudência, a seguinte restrição: O recurso a violência defensiva ou ao que chamam revolução só deve ser aplicado após se esgotarem todos os demais recursos quais sejam: A ação parlamentar, a greve geral, a mobilização, os recursos judiciais, a desobediência civil... Aplicados e esgotados todos os recursos não só podemos como devemos recorrer a violência. Não a violência pela violência, mas tendo em vista um objetivo ético, como a concretização da justiça.

Justiça seja feita, Sorel também condena a violência pela violência e denunciou como absurdas as execuções feitas pelos jacobinos durante a grande Revolução. Como certamente, apoiando Kropotkin e Martov, condenaria o recurso a tortura por parte dos bolcheviques. Não apadrinha psicopatas, inda que seu discurso contenha um entusiasmo imoderado do qual não partilhamos. Pois não nutrimos maiores ilusões a respeito da tal Revolução violenta, não a encaramos como uma panacéia e menos ainda como o ápice da civilização. Com todos os abusos e defeitos que cremos, devam ser eliminados, nós preferimos o ideal grego de civilização. Com olhos críticos, ainda assim optamos pela institucionalidade e pelo modelo racionalista, afinal também a Revolução pode degenerar e a violência sair do controle, resultando em algo tão funesto e monstruoso quando foi o nazismo. Ademais a teocracia, seja protestante ou islâmica, reforça também ela a apologia da violência, escarnecendo do Evangelho e seu ideal de paz relativa ou não violência.

Diante de tudo quando escrevemos vale a pela ler as 'Reflexões' de Sorel, mas da maneira como ele mesmo desejaria que as lessemos ou seja criticamente. Certamente uma leitura crítica de sua obra lhe seria muito mais honrosa do que uma leitura religiosa, tipo de leitura que ele, com travo de amargura, atribuía aos leitores de Marx e Engels... Portanto dialoguemos com Sorel ao invés de concordarmos mecanicamente com ele. E boa leitura!