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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O convidado que chegou atrasado ou dialogando com Roger Scruton (Como ser um conservador) I - Como me defino eu> Um sócio conservador kkkk







Após ter lido Russel Kirk e a "Anatomia" de John Gray eis que estou a ler o recentemente falecido Roger Scruton (Como ser um conservador, 12 Ed, Record, 2020) e consequentemente a dialogar com ele, posto que toda leitura crítica é um diálogo e a única leitura reverente ou acrítica que faço é a do Evangelho (Não disse bíblia ou antigo testamento ou mesmo Novo Testamento, mas apenas e tão somente Evangelho i é as palavras de Jesus Cristo). 

No entanto antes de iniciar meu dialogo com o sr Scruton desejo fazer algumas observações bem humoradas sobre mim mesmo e sobre o conservadorismo, assim sobre o conservadorismo brasileiro.

Principio registrando que a sociedade brazundanga adora falsos dilemas, radicalidades inúteis, extremismos tolos, etc 

De modo que faz eco das inanidades 'made in EUA' (E de Scruton)> Quem não é capitalista é um comunista ou bolchevista e quem não é bolchevista deve ser, necessariamente um entusiasta do liberalismo econômico (Nome científico do Capitalismo - Afinal os cientistas não dizem 'Limão' porém 'Citrus limonum' e tampouco 'gato' mas 'Felix catus'). Para nossos 'civilizados' brazundungas, encantados pelos pastores yankees, não há socialismos, ou anarquismo ou mesmo algo próximo de uma doutrina social da igreja, porém apenas liberalismo econômico e comunismo diabólico e se você se recusa a admitir o batismo e canonização do lib. econ. naturalmente que está do lado do capeta...

Naturalmente que não me enquadro nesse esquema simplório e dualista, fruto de mentes rasas e infantis. 

Comunista não são por diversos motivos, especialmente devido a tal ditadura do proletariado. Quanto a isto tenho é - Ainda que leves e críticas. - tendências anarquistas (Lamentavelmente Scruton não preparou capítulo com o título: 'A verdade no anarquismo') e consequentemente repudio todo e qualquer tipo de ditadura, tirania, despotismo, etc  seja de direita, esquerda, centro, etc E concordo com Scruton e outros quanto a liberdade corresponder a um valor essencial e inegociável que nos foi legado pela civilização. E quando me refiro a liberdade no seu contexto político me refiro a democracia e ao liberalismo político, com as decorrentes limitações éticas impostas pelos direitos essenciais da pessoa humana.

Nem creio que possam, a justiça ou a liberdade, serem outorgadas, dadas ou concedidas por qualquer elite, grupos, quadros, etc 

E tampouco creio em qualquer tipo de Revolução iconoclástica capaz de alterar a dinâmica da cultura por meio da violência ou da força. Admito sim a aplicação controlada da violência, atrelada ao conceito de sedição, ou na eliminação de uma ordem insuportável e cruel. Não a mística de uma violência desbragada com poderes mágicos quanto as estruturas culturais estabelecidas, e quanto a isto sou um cético absoluto. As revoluções são todas falaciosas - Desde a revolução primordial, i é, o protestantismo, até as mais recentes, i é, o comunismo. - já devido ao montante humano sacrificado (Vejam só o Paul Pot citado por Scruton) já porque revertem. Portanto a questão do custo benefício é especiosa, mesmo quanto as mais bem sucedidas, como a francesa e a russa.

O que não quer dizer que não venham a acontecer. Sendo quase que inevitável sua afirmação. Não por culpa dos revolucionários malévolos, como talvez suponha o sr Scruton, e sim por culpa da ordem precedente e de seus vícios insuportáveis. De modo que se, como dizem foi a dita reforma protestante (Eu discordo) uma resposta a condição do papismo na Europa ocidental, com mais razão foi o comunismo uma amarga resposta a uma ordem ainda mais amarga i é a do liberalismo econômico em seu auge. (E aqui eu concordo).

Por não crer na Revolução não sou anti revolucionário no sentido de fazer oposição ou dar combate violento a qualquer revolução. Creio na profilaxia social, toda a revolução se evita com sábias e oportunas reformas - Já dizia o sábio chinês Confúcio... Outras até merecem adesão e apoio, não porque se creia em seus objetivos gerais, certamente utópicos, mas apenas por se oporem a uma ordem excessivamente injusta e cruel. Há quem aqui prefira a neutralidade, eu no entanto me recordo da lei grega de Sólon sobre os que não assumem facção ou tomam partido.

Seja como for não creio em Revoluções e as tenho por trágicas, assim a guerra de modo geral, embora não a possamos evitar tendo em vista as exigências da justiça.

Outro aspecto que me põem em acordo com Scruton é que essas místicas sociais ou ideologias, adotam um modelo social geométrico, com propósitos demasiado abstratos e uniformes além de planos que implicam uma hierarquização e centralização excessivas ainda quando pretendem das combate a alguma tirania e até mesmo conquistar certas liberdades. Tudo muito burocrático e metódico, a parte da estrutura ou da realidade social e na dependência de um futuro aparelho repressor.

É o quanto me basta para incompatibilizar com o comunismo, mesmo quando alguns de seus membros aspirem sinceramente pela redenção do homem, i é, pela erradicação da injustiça social, pela supressão da miséria, pelo fim da exploração assassina, contra a desumanização, a alienação, a massificação, etc Ainda que nosso objetivo fosse similar, como declara o profo Lizandro de la Torre, nossos métodos seriam sempre distintos, senão opostos. É o que diz Scruton sobre os esquerdistas companheiros de seu pai: "As queixas de meu pai eram reais e bem fundamentadas, mas as suas soluções eram fantasiosas." Op cit pag 13.

É exatamente isto que distingue e separa as inúmeras correntes socialistas (O termos remonta a Owen ou Leroux) - Entre as quais me situo no plano da economia ou da produção e distribuição de bens. - do comunismo, por mais que a opinião pública desleal e o próprio Scruton busquem oculta-lo ou mesmo nega-lo, tudo lançando debaixo da senha 'esquerdista'.

É por isso que gosto de Dietrich Von Hildebrand, o qual dissertou magnificamente sobre quão vaga é a senha direita e esquerda. Naturalmente que há quem se encaixe perfeitamente na caixinha, se adapte e fique contente. Todavia bem pode o homem superior ser de direita aqui e de esquerda acolá, e em diversos nichos variar de posição... Tal o meu caso. E já o veremos.

Analisemos brevemente a questão econômica que cinde a humanidade em dois campos> Liberalismo econômico ou capitalismo e Socialismos. 

Analisemos isto com a seriedade que bem merece.

E o façamos a partir dos pressupostos teóricos do liberalismo econômico, cujos fundamentos foram lançados - Ainda que doutro modo (Diz Scruton na abertura do capítulo II, intitulado 'Começando de casa' aludindo a obra mal querida de Smith "Teoria dos sentimentos morais")  - por Adam Smith e, posteriormente por Ricardo, Petty, Bastiat, Molinari, etc Qual a linha condutora, o primeiro princípio, a ideia geradora, etc nesses teóricos... A ideia da não intervenção social e\ou política nas operações econômicas, dando espaço ao que chamam de livre iniciativa.

Naturalmente que os primeiros teóricos, como Smith, tiveram em mira aquele amplo conjunto de regulamentos arbitrários e caprichosos legados já pela idade média ou pelas monarquistas absolutas, que de fato travavam uma saudável iniciativa social no plano da produção e distribuição de bens. No entanto desde logo surgiram reivindicações e propostas no sentido de que não houvesse limitação ou controle algum desse setor ou seja em torno de uma ilimitação ou de um descontrole absolutos, como seja a produção econômica constituísse um setor a parte da sociedade ou mesmo da humanidade.

Nem temo dizer que o ANCAP é decorrência ou desenvolvimento natural deste tipo de pensamento.

A ideia aqui, e o ideal de sociedade perseguido, era o de uma não interferência absoluta por parte da sociedade ou do poder político no setor da economia e de uma independência total. O que de pronto se situa nos termos de uma utopia, como o comunismo, o anarco individualismo. 

Podemos portanto, ao menos teoricamente, e com toda justiça, definir como Socialismo, qualquer ideologia ou proposta que exerça oposição ao ideal acima descrito, que admita qualquer nível ou grau de interferência externa no plano econômico e a simples existência de leis destinadas a regular o Mercado (Como por exemplo a Lei antitruste - No Brasil n 12.529 - 2011), o recolhimento de impostos ou as relações de trabalho, ainda que de número bastante reduzido. 

A própria existência de um ministério da economia ou de um Banco central, com decorrente emissão de moeda, choca-se com o ideal livre economicista em sua puridade.

Destarte a simples concepção de um liberalismo econômico ou de um capitalismo controlável externamente em qualquer medida é antitética ou contraditório. 

Propor um capitalismo externamente controlável pelo poder político ou pela sociedade, como capitalismo ou como terceira via é algo inteiramente desonesto. As expressões terceira via ou Estado de bem estar social, cunhadas para batizar as soluções derivadas do Keynesianismo são de fato falaciosas. O que temos na doutrina de J M Keynes é também socialismo, gostem ou não os defensores do salvador do 'capitalismo'. Keynes nada salvou na medida em que foi contratado pelo Estado mais próximo do modelo liberal economicista tendo em vista um plano de intervenção estatal e decorrente legislação, que salvasse o monstro agonizante> E o que Keynes fez, foi justamente criar regras tendo em vista uma ação externa manobrada pelo Estado.

Conclusão: Tudo quanto foge a utopia liberal economicista da ilimitação absoluta não pode ser visto como capitalismo ou liberalismo econômico, mas como um tipo de socialismo, variando apenas o nível, o grau ou a forma de intervenção. 

É o que se sucede desde os tempos das reformas sociais implementadas desde Urukagina de Lagash, há quase quarenta e cinco séculos, passando por Faléas da Calcedônia (Citado por Aristóteles na Política), até chegarmos aos padres romanos Mably e Morelly no século XVIII, sem falar em S Tomás Morus e no Padre Th Campanella. Tais os socialismos sagrados ou de matriz religiosa, totalmente alheios a cepa materialista criticada pelos papas romanos e outros líderes religiosos.

No entanto é tudo, repito e insisto, o mesmo socialismo: O modelo bizantino, o modelo ocidental controlado pela igreja romana (Que proibia por Lei a cobrança de juros), o modelo inca, o modelo dos padres franceses acima citados, os modelos que os comunistas ferretearam como 'utópicos' e os de 'água benta' iniciados por Von Ketheller de Magúncia e continuados por Darboy de Paris, Daens, E Mc Glynn, Ireland, Mercier de Malines, Mother Jones... até as doutrinas de fundo tomista, pautadas na noção aristotélica de Bem Comum, legadas pelos escolásticos da Idade Média, em particular por Aquino e que inspiraram a Rerum novarum de Leão XIII, a qual, por sua simples existência, implica em categórica negação das pretensões liberais economicistas. Aos quais se juntaram mais tarde a proposta de Maritain, a de Bastos de Ávila, com o solidarismo, o comunitarismo, o cooperativismo, o distributivismo de Belloc e Chesterton, o já citado georgismo de Henry George, o personalismo de Mounier, etc 

Quanto a outras propostas de vária inspiração temos as de Leroux, J Jaurés, L Herr, Nitti, L Blum, De Gaulle, Marcel Deat, etc, O fabianismo dos Webb, que contou com o apoio de Shaw, Wells, Lodge, Ellis, Russel, etc Todas são socialismos, a começar por Keynes ou passando por ele. Pois o que há de comum a todos esses pensadores é que há algo de profundamente errado com o conceito de ilimitação e sua prática - O que alias, o próprio Sidwyck observou e constatou.

Portanto lançar todas essas ideias riquíssimas, destinadas a combater uma efusão de injustiças e crueldades agravadas pelo novo modelo econômico a cabo de mais de século, na mesma sarjeta que o comunismo, com sua ditadura do proletariado e mística revolucionária, me parece o cúmulo da desonestidade intelectual, coisa digna apenas de pastores ignorantes ou fanáticos que buscam satanizar o outro. Declarar que é tudo o mesmo 'esquerdismo' de inspiração residual anarquista é algo que não se pode dar por sério ou aceitar.

Neste sentido - Face a repulsa pelo modelo capitalista ou pela ideologia do liberalismo econômico (Não de um mercado relativamente livre> Regulado porém livre.) posso declarar-me socialista, ou social democrata, ou socialista religioso, ou socialista humanista, ou, caso o termo aterrorize alguém, posso declarar-me fabianista, georgista, solidarista, comunitarista, distributivista, etc

Não porque defenda a extinção da propriedade privada pessoal (A qual considero de direito natural e portanto sagrada) e sim porque questione sua origem, uso, acumulo, limite... (Quanto a posse dos bens de produção, considero a questão neutra, assim quanto a questão do regime assalariado). De modo a que possa, esse modelo de propriedade (Pessoal) ser democraticamente ampliado e consolidado ou porque busque sua disseminação.

Mas sobretudo porque seja partidário decidido da regulação do trabalho por um Estado cada vez mais democrático. Isto por considerar indesejável o quanto sucedeu na Inglaterra na Idade de ouro do que chamamos liberalismo (O que sabemos ter sido o mais próximo possível do ideal da não interferência) e foi descrito pelo talentoso e honesto Ch Dickens, o qual, até onde sabemos, não tinha qualquer relação com o partido comunista ou com a revolução bolchevique. Basta dizer que alguns escritores avaliaram a situação dos trabalhadores de Manchester e dos principais núcleos industriais ingleses daquele período (1830 a 1880) como pior ou sensivelmente mais grave do que a dos escravizados africanos no Brasil. 

O que não logro entender é porque tantos conservadores tardam em perceber ou jamais percebem (Deveriam ter lido "A grande transformação" de Karl Polanyi) que tudo quanto dizem amar intensamente: A micro sociedade, a paróquia, a piedade religiosa, a arte, o artesanato, o patrimônio histórico, o folclore, a família e até mesmo a própria natureza, a puridade dos ares, águas, etc a vida dos animais e vegetais, foi destruído sem misericórdia ou melhor triturado por esse poder econômico que se queria colocar acima de todas as leis e que por isso mesmo transformou-se num outro padrão cultural, chamado economicismo, no qual, como diz Scruton, nada tem valor intrínseco porque tudo tem preço e etiqueta para se comprar ou vender. 

Grande a cegueira dos ditos conservadores em sua maior parte, quando a esse aspecto da ação de um mercado todo poderoso e descontrolado, até alterar o ritmo ou a dinâmica das relações sociais e destruir aquela cultura ancestral que todos amamos - Eu em primeiro lugar, aquela cultura dos quadros de Paul Nash que nos preservava do tédio, da angústia e da depressão.

Amigo Scruton, esteja onde estejas, devo dizer-te> Aquele mundo foi votado a morte antes de tudo pela reforma protestante, mas, sobretudo pelo modelo capitalista. 

Foi ele que removeu os camponeses de suas terras, onde bem ou mal viviam em certa proximidade com a natureza e junto aos túmulos e relíquias de seus ancestrais, mesmo quando faziam suas manufaturas ou bordavam seus panos. 

Antes de tudo, em todos os lugares a que chegou a ideologia de mercado, onde quer que existissem terras comunais, sejam egidos ou rocios, foram estas terras vistas como fontes de renda e sujeitas a especulação para que servissem como pastos ou granjas modelos em que animais fosse criados intensivamente para serem devorados pelas massas empobrecidas, aumentando ao máximo o lucro dos granjeiros - Isto a custa dos pobres que foram expulsos a força, da natureza que foi destruídas e dos animais torturados e mortos, sobrando a terra poluídas pelos resíduos, muitas vezes venenosos dessa produção que objetivava ter por ter...

Para o conforto dos empreendedores, os quais instalaram suas fábricas nas proximidades das minas, foram os operários i é os co produtores da riqueza, instalados em 'cidades' não planejadas a parte do mundo natural e desumanizados ou despersonalizados tanto pelo contato prolongado com as máquinas quanto pela separação forçada dos animais e vegetais que até então formavam seu entorno e tornava a rotina da vida menos penosa. Nem puderam mais pescar algum peixinho, a sombra de uma macieira, junto a ribeirões de água cristalinas, passando a viver cercado por fétidos canais cheios de esgoto.

Presos a máquina por um período de tempo não regulado e sujeitos ao controle mecânico do relógio, passaram essas multidões a ser de tal modo drenadas pela dura rotina de trabalho que só lhes sobravam mínimo tempo para dormir. Como poderiam dedicar-se ao artesanato, ao lazer ou mesmo as atividades da paróquia, acabaram-se portanto, para esse homem apanhado pelo mercado livre, os feriados, as diversões, as tradições e a vida religiosa ou paroquial. Foi o operário e ainda hoje o é - Apartado da vida paroquial: Das confrarias, das procissões, das rezas e ofícios, etc chegando a empobrecer e alterar tremendamente a vida espiritual da Igreja.

E nem mesmo a família, como constataram Le Play e seus sucessores, escapou inume a sanha das máquinas e de seus proprietários sedentos por mais e mais lucro. Pois sendo o chefe ou pai da família remunerado apenas para sobreviver e inexistindo o que ora chamamos 'salário família' (Uma conquista dos rebeldes socialista e não um presente dos simpáticos empreendedores.) tanto a esposa\mãe, quanto os avós e os filhos, todos enfim, deviam fazer turno da fábrica para complementar a renda doméstica. Ficando alienados uns dos outros durante a maior parte do tempo e só se encontrando no momento de dormir, quando estavam em frangalhos e tomados pelo sono. Então deveria ser excelente e estimulante convívio...

Agora imagine o sr Scruton, que com razão, repito com razão, ficou horrorizado com as condições de vida no Leste europeu, controlado pela URSS, por serem infensas a liberdade de pensamento e de expressão, a condição de seus conterrâneos ingleses de cem anos passados, os quais não tinham leis, logo não tinham justiça e por não terem justiça não tinham pão - Quero dizer, o mínimo para viverem com dignidade e pensarem nas maravilhosas liberdades inglesas. Pois ali, entre os operários ingleses que viviam sob a nova realidade ('promissora') da liberdade do mercado, o que faltava não era algo abstrato (Concedo, essencial, porém abstrato) como a liberdade (Pela qual certamente devemos lutar e morrer!) mas comida, roupa limpa, espaço, saúde, distração, normalidade mental... enfim absolutamente tudo. Sendo aquele mundo áureo do liberalismo econômico ou do capitalismo um mundo de miséria e crueldade como raramente foi visto na história humana (Digo, quanto a ação intencional dos seres humanos.).

Onde penetrou esse poder ou essa força de uma economia descontrolada ou soberana todo esse idílio do sr Scruton em torno das pequenas comunidades em comunhão com o meio e dotadas de vida espiritual acabou-se, dando lugar ao cenário de horror, descrito com precisão e vivacidade pelo renomado autor de "Um conto de Natal". Pois não pode a bela 'Lei comum' fazer frente aos Scrooges da vida, e não houve final feliz. E de fato não puderam as leis antigas e tradicionais fazer frente a esta catástrofe ou diluvio de calamidades pelo simples fato de não poderem oferecer qualquer resposta a um fenômeno social (O liberalismo econômico) que até então inexistia - Não preciso ler Cujas ou Savigny para saber que a Lei não pode solucionar um problema a seu tempo inexistente. E é exatamente por isso sr Scruton que precisamos de novas leis, para solucionar os problemas causados pelos novos fenômenos sociais que simplesmente surgem. 

As leis tradicionais podem nos fornecer pressupostos para as novas leis, porém se mostram inevitavelmente inoperantes face a qualquer novo modelo social que venha a surgir. Daí a necessidade de que aparecesse - Não os comunistas ou a tropa revolucionária de Marx e Engels ou melhor de Lênin. - desde Davi Ricardo (Possivelmente ele próprio) ou Leroux, essa turba multa de intelectuais de classe média, religiosos ou racionalistas, que movidos por algo a que ora chamamos empatia ou alteridade, se compadeceram do operariado e, assumindo o nome de socialistas, combateram politicamente nos parlamentos para que tal condição fosse radicalmente alterada, digo a condição do trabalho - Lançando ao vinagre as pretensões dos empreendedores e seus fâmulos (Os teóricos) em torno do dogma da não intervenção ou do caráter 'imexível' da produção e distribuição das riquezas.

Acontece, nobre escritor, que até hoje, os paladinos do livre mercado, ainda não se conformaram com a realidade da restrição externa (A Tatcher foi um perfeito exemplo disto) jamais cessando de tentar reverte-la, inclusive financiando a eleição de agentes políticos (Por meio do Lobby) ou comprando-os, enquanto simultaneamente continua a destruir nossos maiores tesouros: O patrimônio histórico (Por meio da especulação imobiliária > Veja o triste exemplo da Avenida Paulista na capital do Estado de S Paulo em que as mais belas construções do Brasil foram criminosamente demolidas apenas para serem substituídas por horrendas caixas de sapatos!), o patrimônio cultural (Rezas, procissões, confrarias, etc) e por fim o patrimônio ecológico ou natural (Escuso dar eu a lista de animais e vegetais extintos devido a explotação!)... 

Ao contrário da maior parte dos conservadores não posso encarar o liberalismo econômico ou o capitalismo como algo inocente ou como algo menos perturbador do que a objeção comunista. Do contrário o que teria de mim seja um tonel de Danaides...

Caso de fato queremos manter ou conservar o patrimônio estético, tradicional ou cultural e ecológico legado por nossos ancestrais tendo em vista fruição de nossos descendentes não há como deixar de analisar criticamente a ideologia economicista da ilimitação, jamais posta de lado pelos teóricos do sistema, alias açulados pela ideia nada racional ou melhor bastante passional de um progresso científico ou econômico ilimitado (Uma das místicas mais destrutivas já produzida por nós). Pois há espectros do positivismo ou do cientificismo cercando-nos, apesar de J S Mill e sua economia estacionária, único modelo realista e racional de que dispomos.

Por todas essas razões por mais que tenha os mesmos sentimentos de conservação que os conservadores quanto a todas essas coisas, não me encaro como um e não posso deixar de ser, antes e acima de tudo, um socialista de água benta ou 'pequeno burguês' saudosista, como dizem os sectários comunistas. E assim o é. De fato os radicais até me classificam como 'conservador', posto que estou com vocês conservadores quanto a questão da cultura e o repúdio ao relativismo cultural, criado ou concebido não pelos comunistas, mas por liberais ou semi anarquistas como Boas, Benedict e Herskovits. Como estou com vocês e até os ultrapasso quanto a questão da objetividade estética e a repulsa ao modernismo, o qual encaro (Não menos que os odiosos e odiados nazistas) como uma degeneração. E estou ainda com vocês contra o relativismo metafísico ou contra toda essa pseudo filosofia contemporânea de procedência Alemã, e assim ao primado do subjetivismo, do solipsismo ou do ceticismo, posto que partidário decidido da Filosofia clássica ou perene da escola de Sócrates e enfim da do estagirita. E naturalmente que estou com os mais ajuizados de vocês quanto a sociedade secular ou quanto a objeção a qualquer forma de teocracia (islâmica ou protestante\calvinista) como fundamento pétreo da civilização.

Temos muitas, muitas coisas em comum, em que pese minha adesão ao socialismo e repúdio decidido ao liberalismo econômico, por encara-lo com destruidor do quanto amamos e desejamos conservar tendo em vista o deleite das gerações futuras.

É como disse, junto com um mundo livre, aspiro também, como Sócrates na República e contra Trasímaco, por um mundo justo, e limpo, e belo, e digno... Liberalismo é importante, necessário, fundamental, porém insuficiente. 

Termino este artigo confessando que para mim Conservador é um termo ainda mais vago que socialista ou esquerdista.

Conservar o que de que época ou de que lugar...

Conservar tudo ou a sociedade paralisada, sabemos ser impossível.

Então que valerá a pela ser conservado e transmitido. Que selecionar para ser conservado.

Aqui nos separamos talvez.

Pois acho banal um brasileiro, lusitano ou latino querer adotar ou conservar qualquer coisa de inglês ou pior de Norte americano, dada a diversidade da cultura.

Sem constrangimento algum encaro alguns aspectos da cultura europeia como objetivamente superiores face a aspectos de qualquer outra cultura e assim a Filosofia clássica ou perene de um Aristóteles ou a Ética socrática ou ainda o ideal estético grego, assim o direito romano, assim o que chamamos de Cristianismo apostólico. 

Outro o caso da cultura Norte americana derivada da rebelião individualista protestante e do liberalismo econômico, que é sua extensão. E não vejo, por coerência, como um brasileiro se possa dizer conservador de um modelo cultural que não é seu e que não lhe pertence.

Não vejo pingo de coerência em ser um conservador brasileiro e adotar um repertório iankee ou mesmo inglês.

De fato capitalismo não faz parte de nossa cultura ou pensamento social e econômico, protestantismo ainda menos.

Teríamos aqui, por força da coerência tornar as fontes e valorizar o que é nosso. 

Naturalmente que nem tudo é possível ou mesmo desejável, como a atrocidade do escravismo ou as agressivas relações que estabelecemos com os povos originários. Naturalmente que tais equívocos devem estar fora da pauta e devemos tornar a noção essencialmente cristã e católica de um direito natural inerente a pessoa humana (Segundo a forma de Francisco de Vitória). Temos que direcionar nosso conservadorismo as fontes humanas e humanistas de nossa cultura, o que nos separará do iankee e de sua cultura.

Para mim esse conservadorismo de improviso focado na 'American way of life' que incluí o modelo yankee do século XX com o imaginário calvinista de uma guerra fria (Alias tendo a Rússia, não mais comunista, como vilã) e o universo capitalista não tem sentido algum no Brasil. Pois não faz parte de nossa experiencialidade histórica ou de nossa realidade. Outro tipo de conservadorismo pelo qual tenho vivo horror é o modelo moralista individualismo ou puritano, frequentemente associado ao fundamentalismo religioso, uma vez que aderindo a corrente de pensamento Cristão sistematizada, em certo sentido por Vitória e desenvolvida até os teóricos do iluminismo, adiro firmemente os direitos essenciais da pessoa humana em sua escala mais amplas. Por fim deploro igualmente qualquer padrão político ingênuo de conservadorismo como o daqueles monarquistas que julgam poder mudar radicalmente a sociedade ou faze-la retroagir por meio de uma solução monárquica. Hoje nada tenho a objetar quanto a uma monarquia constitucional desde que esclarecida e progressista, porém não acredito em qualquer possibilidade de alteração cultural significativa e encaro essa postura dos monarquistas como algo bastante próximo do misticismo revolucionário dos comunas e anarcos.

Como disse as vezes o termo conservador me parece vago e movediço, tipo qualquer um decide conservar o que deseja ou o que quer. Portanto um conservadorismo acrítico sempre poderia ser portador de valores exógenos a nossa cultura, como o modelo iankee e quanto ao que tem de pior: O Capitalismo, ou até mesmo o protestantismo. 

Talvez por isso, apesar de ser progressista no campo da moralidade e da ciência e conservador no campo da arte ou da estética e mesmo da epistemologia, quiçá no campo da política (Com a policracia ou democracia direta e do socialismo) prefira dizer que sou reacionário. Fujo a banalidade. Escapo a caixinha em que tantos estão fechados ou ao sectarismo. Assumo-me como eclético - Não como sincrético e quiçá seja não uma metamorfose ambulante porém certamente um mosaico ambulante no qual existe uma presença objetivista, realista e conservadora bastante forte, e eu me orgulho dela. Há em meu peito ou em minha alma um conteúdo conservador, mas não coaduna com o que percebo no conservador brasileiro médio, antes conflita com ele conflita.


quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Algumas reflexões sumárias sobre a economia yankee e sobre a doutrina social Cristã legada pela tradição apostólica.

Tais movimentos e interações culturais são sobremodo interessantes. Enquanto papismo e comunismo se digladiavam, o protestantismo e o americanismo tiravam proveito, ampliando seus poderes e influências. Curioso: O comunismo, ao debilitar a igreja papa, até certo ponto, criou, sem perceber, as condições necessárias a sua destruição. Pois a igreja neo romana do Vaticano II, atolada no ecumenismo e posta a serviço do ideário protestante, tornou o discurso anti comunista ainda mais virulento.

De fato o fogo da polêmica romana, antes disperso, i é, voltado parte para o protestantismo, parte para o liberalismo e parte para o positivismo, sob a influência do protestantismo e do americanismo voltou-se unicamente contra o comunismo. Desde então o papismo, tornou-se aliado indispensável, servo ou agente útil na guerra ideológica que levou a URSS ao colapso. Noutras palavras, pós Vaticano II, por meio do ecumenismo a igreja modernista foi lançada pelos Yankees contra o bolchevismo. 

Dez anos depois o resultado era bastante claro, tanto pujante igreja papa quanto o quase onipotente partido comunista não passavam de duas sombras opacas cujos nichos culturais estavam destinados a serem ocupados pelo americanismo, o que não todavia não se tornou realidade na Rússia graças a Ortodoxia e a Putin. Outro o caso das sociedades papistas, sempre mais e mais 'modernizadas' na direção do protestantismo, logo do americanismo, do capitalismo, da urbanização acelerada, etc

Curioso observar como o ainda hoje aclamado papa romano João Paulo II - Amigo das seitas e pastores, inimigo da Tradição e adversário do culto divino, serviu como cera quente nas mãos dos líderes D Reagan e M Tatcher, em que pese a absoluta incompatibilidade entre a postura assumida por eles - Em favor da auto regulação do Mercado e em oposição aos direitos do trabalho. - e a doutrina Social da Igreja romana, cujos fundamentos foram lançados por Von Keteller, assumidos por Leão XIII (Na Rerum Novarum) e ampliados, e desenvolvidos pelo tomista Mercier, Bispo de Malines, da escola social Belga.

Nos anos 80 toda esta rica tradição, sujos fundamentos mais remotos tocam o Evangelho, os escritos apostólicos e a herança dos mais primitivos padres da Igreja, foi praticamente jogada no lixo, em benefício de um liberalismo econômico cada vez mais radical, o qual inclusive, veio a tomar o nome de neo liberalismo.

Curioso perceber no neo 'catolicismo' ecumênico o fortalecimento da base comum agostiniana entre os neo romanos e sobretudo das tendências puritanas ou moralistas inauguradas pela dita 'contra reforma' - Que de contra, muito pouco teve... e consolidadas na Era vitoriana. Ao empobrecimento quase que imediato da Teologia protestante e sua substituição, já por mitos judaicos, já pelo moralismo puritano, já pelo fetichismo crasso e enfim, pela incredulidade manifesta, seguiu-se a queda da teologia romana pós Vaticano II, a qual deixando de concentrar-se nos Mistérios de Cristo, na Cristologia, na Encarnação, etc mergulhou de cabeça na temática sexual e repressora - E foi de fato a troca da primogenitura por lentilhas esse abandono ou troca da Metafísica por um moralismo tosco de origem judaícas e acentos maniqueístas.

Já E Westermarck alertara o público religioso de que o ápice da vida religiosa constitui-se em torno de elaborações metafísicas enquanto que seu declínio é indicado pela concentração em moralidades ou costumes. Seguindo os passos do protestantismo, por via do ecumenismo, tombou o neo romanismo na mesma miséria, e, diante disto, como admirar-se de que tenha engolido a isca da RCC, movimento marcadamente judaizante ou fundamentalista, fetichista e portador de tantos elementos da cultura norte americana, devido a sua origem exógena ou pentecostal. 

Foi a RCC que de fato introduziu a tendência pentecostal na mente dos apostólicos romanos, até então infensos a essa reedição ainda mais virulenta do montanismo. Foi uma espécie de propedêutica ou de curso de introdução ao pior tipo de protestantismo, planejado sabe-se lá por quem e com quais intenções lá nos EUA...

Claro que a ideia ou a intenção principal era contrapor algo aquele outro desvio - Infinitamente menos danoso que a RCC. - post Vaticano II chamado Teologia da libertação. A questão aqui é que enquanto a TL parte de fundamentos Cristãos, como a redenção total e ética posta pelos antigos padres e pela doutrina social da Igreja a RCC parte do que há de mais podre e deletério no protestantismo... E sequer seria possível traçar qualquer comparação - Por meio desta lograram os 'imbecis úteis' introduzir K Hagin (!!!), enquanto aquela preconizava a adoção de um vocabulário marxista completamente desnecessário e por vezes alguns métodos duvidosos. 

Por mais que os 'conservadores' acríticos (Porque sou absolutamente conservador face aos autênticos MISTÉRIOS DE JESUS CRISTO ou DOGMAS DE FÉ.) movam suas mãos contra Darwin (Outro elemento comum entre esses tontos e o protestantismo.), Malthus, Freud, Marx ou Weber... o Seymour da rua Azuza nos coloca, em absoluto, noutro plano e num plano certamente mais baixo, que é o da RCC.

De fato foi ela criada pelos professores neo romanos da Universidade de Duquesne, os quais se atreveram a receber imposição de mãos dos blasfemadores pentecostais, declarando terem recebido o 'Espírito Santo' o que implica (Da parte deles.) admitir que não estava ele em posse ou no interior da igreja papa, mas, na posse daqueles que negam a presença real do Senhor na Eucaristia e a Virgindade Perpétua da Mãe de Deus, dentre outras tantas coisas... E a mensagem é suficientemente clara> Os protestantes devolveram o Espírito Santo a igreja romana... Agora veja se, para quem tem alguma massa cinzenta dentro do crânio, não equivale isto uma declaração de que o protestantismo sempre esteve correto e de que ele, e não nossas igrejas apostólicas, corresponde a religião verdadeira.

Ao introjetar semelhante heresia ou blasfêmia no seio da igreja romana, os Yankees nela introjetaram o vírus mortal da dúvida e uma convocação sutil a debandada e ao ingresso em suas seitas. 

Contavam eles ainda com a possibilidade de, no reboque da falsa profecia de Fátima sobre a conversão da Rússia, atrair - Após a queda da URSS. - aquela nação ao uniatismo para em seguida latiniza-la, ocidentaliza-la e com o adjutório da tal RCC atrai-la a órbita da cultura Norte americana e transforma-la em quintal. Eram as esperanças acalentadas nos confusos anos 90. Por sorte os russos tiveram tino suficiente para retornar a fé de seus ancestrais i é a Ortodoxia, permanecendo alheios não somente a igreja neo romana e sua RCC mas a propaganda das seitas protestante Norte americanas e enfim ao americanismo. O que no momento presente desperta a fúria dos imperialistas...

Desde então, a equilibrada e estimada doutrina social da igreja romana, como que saiu por completo de cena, seja nos EUA ou no velho mundo. E neste cenário, tanto no interior da tal RCC como até mesmo entre tradicionais, tradicionalistas e sedevacantistas, começaram a pulular adeptos do livre mercado ou mesmo do anarco capitalismo! O que no século XIX ou mesmo nos tempos de Pio XII seria algo inconcebível num papista praticante medianamente esclarecido. 

Eu mesmo tive o infortúnio de deparar com um Ortodoxo ANCAP pertencente ao grupo pré calcedoniano. Tratava-se de um chinês converso e tive de travar dura polêmica com ele - Pois Bispo fosse o teria excomungado... Eis porque conheço bastante bem o discurso do romanista Kogos, o qual, entre nós, Cristãos apostólicos brasileiros, procura vender, digo, introduzir, esse modelo econômico protestante.

Abusando da doutrina da demarcação (M N I) - Cujos fundamentos remontam a Galileu e Campanella. - alegam eles que é, a economia, uma ciência tão autônoma quanto a Física, a Química ou a Biologia e que portanto não deve estar ela atrelada a tradição ou aos julgamentos emitidos pelos padres da Igreja. 

De fato esta palinodia faria sentido caso, como quer W Pareto, fosse a economia uma ciência exata similar a matemática ou ao menos uma ciência natural, como a Biologia, o que esta bastante longe de ser verdade, uma vez que ela, a economia, refere não apenas a produtos produzidos pelo ser humano em condições humanas, mas a produtos produzidos para os seres humanos tendo em vista, inclusive, sua sobrevivência.

E embora não possamos dizer levianamente que tal seja o objeto próprio ou foco da Revelação divina, devemos afirmar, em alto e bom som, que ao menos remotamente ou de maneira elementar e sumária incide ela sobre a moralidade e sobretudo sobre aquela Ética que deve comandar todas as ações humanas realizadas em quaisquer campos. Traduzindo para o português claro: Sendo a atividade econômica uma atividade humana e não abstrata ou puramente exata, caí, ao menos em alguns pontos, sob o juízo da Revelação divina e da fé Cristã regulada pelo ensino comum dos Padres ou pela tradição eclesiástica. E nega-lo denota um espírito anti Católico ou nada Ortodoxo!

O mais escabroso aqui é que os mesmos elementos que buscam emancipar a economia, que repito é atividade ao menos em parte humana, da Revelação divina ou da tradição eclesiástica, buscam subordinar-lhe a Biologia, sustentando o mito judaico fetichista (Porque os protestantes substituíram a unidade pessoal do Cristo ou a Presença real do Senhor na Eucaristia.) do criacionismo... Isso quando - Por ser de fato um conhecimento puramente natural. - a Biologia, de fato, goze de autonomia face a Revelação divina ou a Religião. 

Observem portanto que subversão fazem as ideologias no campo da fé...

Do mesmo modo corresponde a outra aberração lógica ser liberal ou ultra liberal em economia e conservador em moralidades. Uma vez que historicamente, as alterações no campo da moralidade (Como a decomposição da organização familiar tradicional.) são produzidas ou causadas por alterações de caráter econômico, como a urbanização ou o ritmo do trabalho. Impossível ter uma economia acelerada ou descontrolada que supostamente se auto regule e uma sociedade moralmente estável ou fixa. 

Efetivamente o convívio tradicional, marcante nas civilizações agrárias ou campesinas, difere bastante do tipo de convívio com que topamos nas grandes cidades contemporâneas e mal planejadas. E difere mais acentuadamente ainda nos conglomerados carentes situados nas periferias dessas cidades, espaços insalubres em que pessoas em situação de miséria ou vulnerabilidade vivem amontoadas. Muitas vezes é a moralidade questão de espaço e o espaço em tais locais parece ser infenso as formas de moralidade oriundas dos vilarejos.

Nos vilarejos pode até faltar alimento ou fartura em algumas situações derivadas do clima. Pode-se enfrentar escassez porém jamais a fome continua. Ademais no campo tem um espaço que é seu. Tem condições mínimas de higiene. Tem contato com a natureza. Enquanto num espaço urbano mal planejado nada disto encontra... Portanto quando buscamos os inimigos da moralidade tradicional devemos identificar os responsáveis por tais condições, pelas condições que lhe são hostis - E esses responsáveis são: A miséria, a ignorância, o esgotamento físico e mental, a falta de espaço, a falta de tempo, a falta de higiene, a enfermidade... Derivadas da especulação imobiliária e da remuneração insuficiente ou seja de um sistema econômico que não é regulado externamente pela sociedade ou pelo poder político e que permite ao patrão acumular a quase totalidade dos recursos.

Necessário, de fato, disseminar a propriedade suficiente e pessoal, fruto do trabalho. Tal o preceito do distributivismo Cristão. Sem embargo disto, fica ele, o distributivismo, sendo letra morta caso o legislador não toque a questão do trabalho, valorizando-o e protegendo-o, até erradicar a miséria ou impedir sua propagação no corpo social. O que nos leva ao salário família, repouso dominical remunerado, férias, licença gestante, décimo terceiro salário, etc

O que observamos no sistema solto ou não regulado é o oposto: O acúmulo irrestrito ou ilimitado da propriedade, que leva a concentração ou monopólio por parte de uns poucos, lesando a fruição dos demais membros do corpo social ou do que chamamos Bem comum, pois bem comum supõe proximidade ou uma relativa igualdade, na diversidade. No regime individualista e descontrolado, legado pelo protestantismo, tudo conduz a uma desigualdade social demasiado grande, que compromete não somente a paz e a concórdia da republica como a própria democracia, a qual se tornando formal passa a ser apenas questão de polícia ou poder alheia ao Bem comum.

O quanto temos nessas democracias meramente formais, associadas ao liberalismo econômico é, repito um mecanismo de controle que tende a suscitar cada vez mais críticas e questionamentos na medida em que se limita a assegurar o ''status quo" de quem já o tem, ignorando por completo as aspirações dos grupos por assim dizer, mais pobres. Pelo que sequer podemos falar em real participação popular ou cidadania, uma vez que as massas se limitam a escolher que as dominará e não quem alterará significativamente as condições em que vivem.

E sequer abordamos a questão dos desempregados. Os quais, neste padrão desorganizado, são convencionalmente chamados 'mercado de reserva' cumprindo alias uma dada função, diretamente relacionada com a Lei da oferta e da procura - O que o torna desejável, embora estejamos falando sobre pessoas que, privadas de uma fonte de renda segura, bem podem estar ou ficar privadas, igualmente, da propriedade ou mesmo de suprimentos alimentares vitais, supondo a não intervenção do poder público.

Sobre essa questão - Da miséria necessária, dos extremos ou da desigualdade já nos estendemos além do desejável -

Toca, no próximo artigo ou página, chegar a Malthus e a questão do aumento da população mundial e aos problemas dele decorrentes, os quais estão diretamente relacionados com o modelo econômico desregulado e que são seríssimos. 

Conheça também os demais artigos da série 'Culturas de morte': 


  • Americanismo
  • Conservadorismo
  • Positivismo
  • Protestantismo
  • Capitalismo
  • Comunismo
  • Fascismo
  • Pós Modernismo
  • Sionismo 
  • etc


sexta-feira, 22 de setembro de 2023

Garrett surrando o Sardinha ou deslindando a toxidade, não da democracia ou da liberdade, mas do Economicismo ou do ethos burguês.






Em apoio do quanto registramos no artigo precedente reproduzimos abaixo as profundas considerações do ilustre literato português sobre o velho estado religioso ou confessional, sem duvida deteriorado pelo estatismo e absolutismo, em comparação com o um Estado Político de trânsito ou passagem para a treva economicista e portanto contendo os germes que o haviam de fazer enfermar, agonizar e morrer no tempo presente. 

Atentem que a visão acurada de Garret, falecido em 1854, era bem mais acurada que a do Sardinha (Nascido em 1887 - Portanto mais de trinta anos depois.) o qual, preso de estranha paranoia, pouco ou nada presumia do capitalismo ou do mercado e do protestantismo - Exatamente como os neo romanos ou tortodoxos de fancaria, títeres da cultura de morte protestantes ou da sifilização norte americana.

Substituam a expressão 'barões' por 'burgueses' por 'capitalistas' e a atualidade do texto saltara as vistas:

"Frades... Frades... Não, não gosto deles. Como os temos visto neste século, como os conhecemos hoje, não gosto deles e não os quero para nada, moral ou socialmente falando.

No ponto de vista estético porém, o frade faz muita falta...

Nos campos o efeito era ainda maior: Eles caracterizavam aquela paisagem, poetizavam a situação mais prosaica do monte ou vale; e sem tais necessárias e obrigadas figuras aquele painel não é já o mesmo.

Além disso, o convento no povoado e o mosteiro no ermo, amenizavam e davam grandeza a tudo: ELES PROTEGIAM AS ÁRVORES, SANTIFICAVAM AS FONTES e enchiam a terra de poesia e solenidade.

O que não sabem, podem ou querem fazer OS BARÕES AGIOTAS que os substituíram.

É muito mais poético o frade que o barão.

O frade era, até certo ponto, o Dom Quixote da Sociedade antiga.

O barão é, sob quase todos os aspectos, o Sancho Pança da sociedade nova...

O barão é pois USURARIAMENTE revolucionário e revolucionariamente usurário...

Por isso brigamos muito tempo, afinal vencemos nós, e assentimos em que os barões corressem com os frades da terra. No que fizemos uma SANDICE como nunca se fez outra. O BARÃO MORDEU NO FRADE, DEVOROU-O E ESCOUCEOU-NOS A NÓS DEPOIS...

Sim, o frade não nos pode compreender a nós e por isso morreu, e nem nós pudemos compreender o frade, e por isso constituimos esses barões que nos conduzem a morte e fazem morrer.

São a moléstia deste século; são eles e não os jesuítas, a cólera morbus da sociedade atual são os barões. Nosso amigo Eugênio Sue errou feio em seu 'Judeu errante', o qual precisa ser refeito.

Decerto foi o frade que errou primeiro em não querer compreender a nós, a nosso século, a nossas inspirações e inspirações; com que falseou sua posição, isolou-se da vida social e fez de sua morte uma necessidade por assim dizer infalível e sem remédio.

Assustou-se com a liberdade, que era amiga sua, e que o havia de reformar, e associou-se ao despotismo, que de modo algum o amava, senão relaxado e vicioso, para dele servir-se e servido ser.

Nós também erramos em não entender o tolerável erro do frade e em lhe não dar outra direção social, e EVITAR ASSIM OS BARÕES, QUE É O MAIS DANINHO BICHO ROEDOR...

E eu que sou da liberdade e do progresso antes prefiro a oposição dos frades de ontem a dos barões de hoje...

O progresso e a liberdade perdeu, não ganhou.

Quando me lembra tudo isso, quando vejo os conventos em ruínas, os egressos a esmolar pelas ruas e os barões de berlinda, sinto saudade dos frades, não dos frades que foram mas dos que podiam ter vindo a ser."

Não era democracia ou liberdade em si mesma como fim mas, democracia de ocasião, de passagem ou trânsito para o mercado, para o acúmulo irrestrito de bens, para um novo ethos, para uma nova cultura, para uma cultura exógena, para o economicismo. E foi a ruína e transtorno do nosso universo seja ele grego, latino ou medievo - Nem o Rei e menos ainda o Povo ou os cidadãos mas o barão i é o burguês, o patrão ou o empresário > E Sim, este novo mundo saiu muito pior do que os antigos!

Já não há decerto o monstro infame das inquisições, colossalmente inchado ou engordado pelos 'liberais' ingênuos ou safados... Que nem todos os frades eram queimadores de gente (E a maioria não era!) como foram cruéis e insensíveis e assassinos os barões ou patrões do século XIX já na Inglaterra, já na Alemanha e quiçá na própria França...

A figura desse empreendedor santificado pela imprensa moderna. A figura desse empresário sem consciência. A figura do bancário avarento foi historicamente muito mais danosa que a do inquisidor, a do rei ou a dos Revolucionários, ao menos quanto a extensão do poder. Apenas a figura do empreendedor conta com advogados contratados que lhe emprestam as mais róseas tintas, e fica como um macaco maquiado... 

Porém foi ele que poluiu e polui a terra, que exterminou e extermina animais, que aniquilou e aniquila florestas não sem ter feito trabalhar a mulher grávida, o idoso e a criança de seus quatro anos em troca de um mísero naco de pão...

Essa História já foi muito bem escrita e registrada não por Marx, Engels ou Lênin ou ainda por seus embiocados seguidores mas pelo Cristão Charles Dickens - A tinta negra ou vermelha brota do cálamo de Dickens o qual nos revela o feito desses barões que prostituíam nossa democracia e nosso liberalismo puro tal e qual haviam prostituído a fé nos tempos da infeliz reforma protestante...

Sardinha, cego pela ideologia ou pelos amores que dedicava a anglos ou germânicos, não pode percebe-lo, mas percebeu-o o velho Garrett, que lhe dá uma aula.

O frade romano ou ortodoxo lá estava, no quadro ou contexto, do campo e da Vila em comunhão com a mãe natureza, convivendo ou comungando com animais, e árvores, e fontes - A exemplo do seráfico pai S Francisco ou de S Serafim de Sarov... E os defendiam, guardavam e protegiam... Mantendo e conservando aquele ambiente pintado pelo pincel de Millet - Em que ao por do Sol os lavradores dobravam os joelhos sobre a negra terra que os nutria e recitavam a Ave Maria a mãe de seu pobre Deus enquanto dobravam os sinos... 

Havia trabalho duro e fatigante, sim havia. Mas também havia sentido para quem era senhor de seu pequenino torrão, para aquele que em sua choupana era aguardado pela esposa devotada e pelos filhinhos saudosos... Congregados em torno de uma mesa onde havia pão cheiroso tirado do forno, azeite, queijo e vinho. E flores plantadas e torno a pequena casa. E o cão e o gato abanando suas caudas.

Parte deles não era constituída por proprietários ou donos de terra. Havia que se lhes ter dado terra e não movido a cidade. Pois já não há terra para dar... E sequer trabalho nas grandes cidades - Menos ainda trabalho digno. E menos ainda liberdade. E lhe tiraram a esposa - Que hora também trabalha como uma burra! - e os filhinhos (Postos na creche), e as flores, os animais... Tudo enfim. Até que esse homem e essa mulher, pelas mãos do barão ou do burguês, conheceram a angústia e o desespero, uma escravidão oculta ou disfarçada.

Sim, o tempo do Frade era menos ingrato.

Não nos enganemos - Não considero esse modelo ideal ou perfeito, antes muito mesquinho... Porém em comparação com o mundo urbano do assalariado é e era paraíso.

E não adianta dizer ou clamar que o capitalismo que pinto não é mais o mesmo, que transformou-se também e tornou-se mais humano e suportável, e desejável em tempos em que um governo inspirado. Tal devemos agradecer aos anarquistas, fabianistas, trabalhistas, católicos, etc que moveram céus e terras para criar uma legislação protetiva que jamais cessou de ser ameaçada pelos economicistas ou capitalistas.

Nem a concederam de bom grado, nem jamais se conformaram com ela.

Daí a atividade frenética do governo anterior, liberal economicista ou capitalista - Não fascista como quer a esquerda pós modernista desmiolada. - no sentido de destruir essa legislação e fazer o Brasil recuar ao século XIX, inglês, por sinal... Quadro social a respeito de que, diziam alguns analistas, era ainda mais cruel do que a escravidão negra em nosso país. Pois o cenário urbano na Inglaterra e na Alemanha do século XIX foi monstruoso... E o ideal economicista jamais se desprendeu dele, clamando a todo instante pela ilimitação ou pela restrição do Estado, ainda quando democrático ou popular.

Para as populações rurais de toda Europa foi o liberalismo econômico autêntica porta sobre o qual bem se poderiam fixar as memoráveis palavras: "Vós que aqui entrais perdei toda esperança de sair." 

Não, o frade jamais fora tão cruel e mesquinho quanto o patrão e os mosteiros até ofereciam escolas, enfermarias, dispensários, asilos, etc O que jamais se viu ser oferecido em larga escala pelos maravilhosos empreendedores do século XIX.

Parece-me, como a Garrett, necessária, a passagem do regime confessional ou credal ao político e laicista, de modo algum a passagem ou trânsito do Estado político ao estado Econômico, empresarial ou economicista - Como já é abertamente defendido por certos panfletários ANCAP oriundos dos EUA. No entanto se tal passagem, do puramente político ao econômico corresponde a um fenômeno inelutável, então laboramos em erro grave e devemos reconhecer que os conservadores totais ou ''católicos" atidos ao modelo medieval estariam certos. 

Pois nossa democracia, a democracia que queremos não é a dos EUA ou da Inglaterra por não ser mínima quanto a qualquer coisa mas ampla (Dentro do espaço do Bem Comum) o suficiente para proteger o trabalhador, a ecologia, a natureza, as plantas, os animais, o mar, o solo, etc Nosso projeto é tão amplo quanto ao do frade de outrora uma vez que nosso olhar político e cidadão se inspira nos mesmos valores. 





quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Os erros e acertos do Sardinha (Antonio in 'Glossário dos tempos' 1942) II


Agora damos que esse Sardinha, que tanto censura os demais por terem assumido ideais estrangeiros ou galicanos (Franceses), não pode deixar de citar seu guru francês que é o excomungado Charles Maurras, criador da Ação francesa e pai do integralismo.

Crítica os ancestrais lusos reprodutores de Rousseau, Barras, Robespierre, etc - E copia outro francês...

E assim caminha a pobre e infeliz humanidade, de abismo em abismo - Abyssus...

Trágico é que o pobre Sardinha copia muito mau o seu guru francês.

O qual vivendo nas Gálias bem podia observar muito de perto o que sucedia nos cantões da majestade luterana i é do Kaiser Guilherme...

Justiça seja feita ao velho Maurras, como proto fascista tinha ele certa compreensão realista da cultura (Não era um Weber é claro mas não lhe faltava gênio!) e perfeito entendimento - Tal e qual o insuspeito Comte e muitos outros - quanto ao significado do protestantismo e a cultura produzida por ele. Da qual absolutamente nada esperava.

De fato esses franceses, geniais mesmo quanto equivocados, como Comte, Maurras, Gaxotte, etc muito teriam a dissertar sobre os EUA, o norte americanismo, o protestantismo e o tempo presente, quiçá superando o velho Tocqueville. Já o pai de Montaigne e sobretudo Guilherme Postel haviam percebido diversos aspectos do éthos protestante quando este ainda dava seus primeiros passos.

E todavia a pobre humanidade e os franceses de hoje, e os latinos, parecem se ter esquecido de tudo, de tudo...

Sendo velho o mal...

Como podemos detectar no Sardinha, patriarca dos integristas lusitanos - Muito mal orientados... Pois com que incredulidade não lemos, á página 74 do citado Ensaio, seus votos pela vitória do imperialismo alemão. Para ele a humilhação de uma França politicamente liberal e laicista pelo império luterano alemão representaria a regeneração da Europa... Não era simples questão de reprochar os excessos anti clericais de uma França desorientada por Clemenceau, mas questão de admirar o éthos Alemão pautado na submissão passiva do cidadão a qualquer lei ou mesmo decisão do líder - Submissão cega e irracional de que resultaram mais tarde os nefandos crimes do nazismo.

Éthos inseparável do luteranismo ou de um calvinismo reinante, ou ainda de um jansenismo que jamais se impôs a França - Tudo derivado da antropologia podre de Agostinho, do irracionalismo e da negação da liberdade, negação em nome da qual os senhores luteranos, desde 1525, impuseram - Aos camponeses ou servos! - um regime mais rigoroso e estreito do que o vigente na odiada Idade Média romano papal. Desde então foi a vontade tomada ao povo alemão, e converte-se este num boneco ou naco de cera sempre submisso ao poder.

E Sardinha, sem investigar fontes e causas, admira a disciplina dos cidadãos ou soldados alemães. Morre de amores, esse luso tão confuso, pelos pais daqueles que mecanicamente sujeitos a uma ordem ou palavra exterminaram sem inibição aldeias inteiras na Grécia, Itália, França, Rússia, etc metralhando milhares de mulheres, crianças, idosos ou mesmo animais, todos inocentes... Exatamente como no adorado velho testamento. Tudo em nome desse culto supersticioso e horrendo a obediência cega e a ordem, o qual foi e é um verdadeiro flagelo.

Sem jamais ter lido uma palavrinha do quanto escreveram os insuspeitos pastores protestantes Monod, Wagner, Viénot e Monnier sobre as atrocidades cometidas pelos soldados do Império Germânico em conexão com o éthos protestante, a sardinha lusitana vê em tudo isso Redenção!!! Como os europeus latinos e sulistas de hoje, Sardinha é angelical, e nada desconfia do protestantismo alemão... Ele que ufanava ser bom católico - Tal e qual os 'bons' católicos (Ou Ortodoxos) de hoje, alinhados com os EUA ou o americanismo. De século a século o engano é o mesmo...

Ora aliados dos Alemães ou dos Norte americanos vão os romanos sacrificando suas tradições e cultura a interesses políticos ou econômicos, pelo que se tornam súditos desses países protestantes, apaniguados de sua cultura e por fim conquistados...

Outro aspecto curioso deste ensaio integralista foi ter carregado fortemente contra o liberalismo político francês sem ter tocado mesmo de leve nos problemas muito mais sérios e graves do liberalismo econômico inglês ou mesmo Norte americano ou ventilado que aquele poderia corresponder apenas a simples passagem de qualquer modelo tradicional para este último. Noutras palavras - Que as transformações políticas bem podiam ter por objetivo e fim a criação de uma sociedade econômica ou economicista em que os bens e serviços violentamente tomados a igreja de Roma em nome do laicismo bem poderiam vir a ser, em qualquer momento, adjudicados a indivíduos ambiciosos, como sucede hoje por meio das assim chamadas privatizações ou da tal desestatização.

Bem se percebe que Sardinha não fez qualquer contribuição relevante neste terreno, sendo incapaz de superar o tosco padre Murillo, o qual tendo olhos apenas para o liberalismo político não quis ou pode ver senão a pontinha do iceberg. 

Hoje, quando apregoam a passagem do político ou estatal para o privado ou individual podemos contemplar, ao menos na imaginação, o corpo do iceberg.

Querem que no futuro, absolutamente tudo seja pago $$$... Ao menos o quanto os padres, monges e freiras faziam era oferecido a todos, inclusive aos mais humildes e não apenas aos ricos ou a quem podia pagar. Havia vícios e defeitos... Aos montes... E por isso o poder político, alegou tomar posse de tais instituições e oferecer tais serviços sempre com a ideia de torna-los mais e mais universais por meio da gratuidade. 

Eis que agora, os descendentes daqueles que, em nome da acessibilidade e da igualdade, tomaram tais bens e serviços a velha igreja romana, pretendem vende-los a particulares de modo a autoriza-los a converter tais bens e serviços em fontes de lucro, com exclusão dos que mais necessitam. Que lógica há nisso...

Já vimos o mesmo embuste e falso enleio, no berço da reforma protestante. Quando o povo, acreditando nas promessas dos reformadores, apoiou o confisco dos bens eclesiásticos, por acreditar que obteria parte deles...  O que aconteceu depois disso já foi descrito por Janssen e Cobbett. Os príncipes e nobres amealharam tudo e os pobres ficaram ainda mais desassistidos, não tendo a quem recorrer.

Parece que a passagem do religioso para o político e sobretudo a atual tentativa de passagem - Exigida pelo Mercado todo poderoso - do político para o econômico (Por meio das tais privatizações) reflete um tipo de movimento análogo, se bem que mais sútil.

Apenas consumada a afirmação dessa sociedade econômica por meio do esvaziamento do político e da, consequente, dominação absoluta do poder econômico, poderíamos dar razão aos tradicionalistas e avaliar a passagem do religioso ao político, por passageira, como danosa. 

Naturalmente não nos foge a memória que nos reinos ibéricos, ao tempo em que a América foi ocupada, admitiu-se a participação da iniciativa privada em certos setores da atividade humana. Mas não na Educação e tampouco na Saúde... Setores essenciais eram retidos pela coroa e permaneciam em suas mãos, uma vez que a religião, a ela unida, era espécie de repartição de Estado. 

Posteriormente, tiveram os Estados de assumir a exploração das riquezas naturais, comunicações e transporte - Ao menos em grande parte. - por considerar que eram setores vitais ou estratégicos. E de fato a questão premente é se a totalidade de tais serviços ou mesmo parte deles deva passar a mãos de particulares e ser geridos objetivando apenas e tão somente a aquisição do lucro.

Quanto ao transporte e comunicações não nos opomos a participação da iniciativa privada sob a fiscalização efetiva e rigorosa de um Estado popular ou democrática, agora quanto a extração das riquezas naturais e sobretudo quanto a Educação e a Saúde, temos que devam permanecer nas mãos do poder público e oferecidas por ele observando rigorosos critérios de qualidade. Postulamos uma gestão pública ou democrática sob a égide de determinados postulados éticos. 

Pois quando se tem em vista o lucro acima de tudo é absolutamente normal que se proponha sempre a contenção de gastos ou a economia sem seu sentido estrito e chão, o que nos domínios da Educação e da Saúde são sempre funestos, pelo simples fato de que determinado aluno ou paciente, cuja condição implique excesso de gastos, vir a ser encarado como causa de prejuízo. Estamos acompanhando esse tipo de problemática - Mais comum do que se imagina - no Seriado Norte Americano 'The good doctor', transmitido alias pela Rede Globo. Não é produção de Michael Moore financiada pelos comunistas porém relato insuspeito sobre o gerenciamento privado da saúde nos EUA.

Tivemos aqui em Santos um caso acontecido nos anos 90 em que o Hospital Beneficência portuguesa, por questões de ordem financeira, não achou conveniente trocar uma peça do aparelho destinado a Radioterapia - Conclusão, por anos a fio, os pacientes cancerosos foram submetidos a um tratamento inócuo ou assassinados porquanto o câncer não foi debelado.

Posteriormente tivemos o caso da Prevent Senior em que, tendo em vista minimização de gastos, tais e tais tratamentos custosos eram recusados a pacientes idosos cuja condição fosse demasiado grave. Eu mesmo testemunhei cenas chocantes nas assim chamadas retaguardas de certos Hospitais privados desta região, as quais não hesitaria qualificar como criminosas. 

Quando um diretor de Hospital ou sua equipe consideram como prioridade o lucro e não a recuperação do paciente, ainda que onerosa, tais instituições convertem-se em autênticos açougues. 

Outra não é a situação das Escolas. Há escolas privadas que a preço de ouro oferecem educação esmerada, como ferramenta de poder, as elites. Tais o Dante Aligheri ou o Bandeirante... Como há diversas Instituições de Ensino superior que vendem diplomas... Situação que se vai tornando cada dia pior. 

Mesmo porque as pessoas, em geral, atribuem maior valor a vida do corpo físico do que a vida do espírito, que é a Educação. Do que resulta ser, o espaço da saúde, fiscalizado com mais intensidade e atenção. O Hospital é certamente muito mais cobrado que a Escola... E nele não toleraríamos jamais o que toleramos nela... Resulta tal menosprezo numa cultura de mortos vivos ou zumbis a que chamamos massas, associada a abominável oclocracia.

Mesmo quando refere as Danaídes, Sardinha, não percebe que ajustar os modelos sociais, políticos, morais, etc ao novo modelo econômico criado pelo protestantismo, i é, ao capitalismo, equivalia a uma utopia como outra qualquer. Pois como verificou o insuspeito Le Play as relações de convívio familiar que suportam aquele tipo de moralidade são as primeiras a serem destruídas no contexto urbano implementado pelo capitalismo.

A tão acalentada moralidade é moralidade de pequenas comunidades camponesas, agrícolas ou interioranas, e como tal infensa a um ambiente urbano em que o ritmo do trabalho, sendo alucinante, absorve a totalidade das energias e ocupações humanas.

No ambiente urbano, sob a égide das relações de mercado, política, comunidade e família cedem passo a produção de bens de consumo e são trituradas pelas engrenagens do capitalismo. Pai e mãe desertam do lar, abandonam a prole e a partir daí a cultura antiga desaba ruinosamente. O afeto se perde, o calor humano se acaba, o convívio desparece, os corpos se alienam, o educação se obscurece e o espírito entorpece... As pessoas se despersonalizam e os humanos se desumaniza. 

Não foi qualquer ideologia posterior que destruiu a família tradicional com seu modelo de moralidade, foi o liberalismo econômico!!! 

Não se pode conservar tudo e liberalizar apenas a economia como querem os tradicionalistas do Plínio C de Oliveira... O conservadorismo só seria viável em bloco, conservando o modelo econômico medieval. Os neo romanos no entanto, e por mero oportunismo, estabelecem compromissos levianos com o liberalismo econômico, ponta de lança do americanismo, que é um modelo de cultura protestante.

Scruton percebeu-o claramente no fim de sua vida, assim como nosso Jorge Boaventura... E ai temos o mitológico tonel.

Não acredito num conservadorismo total - Que ultrapasse o domínio da fé. - como D Lefebvre, mas admiro lealmente a honestidade de seus defensores. Quanto as soluções de compromisso são todas grotescas... Admitido o liberalismo econômico os modelos sociais legados pela antiguidade ou pela I Média estão condenados - Impossível salva-los.

Impossível evitar a mudança - Viver é transformar-se.

É no entanto, perfeitamente possível, orientar a mudança imprimindo-lhe direção. 

A direção imposta pelo capitalismo está errada, pelo simples fato de que após ter destruído diversas formas de convívio dignas de terem sido conservadas, ameaça a natureza, o planeta e a sobrevivência da própria espécie.

O fim do paraíso bucólico ou do idílio campestre era algo que talvez pudesse ter sido suspeitado por Sardinha como o foi por T S Elliot, Bernanos, Valéry, Hesse, Wolf, etc mas não o foi... 

O lusitano bisonho desconfia tanto dos tentáculos do capitalismo quanto do luteranismo germânico, o qual saúda como aurora dedirósea da civilização...

Abominável inversão tão comum em nossos dias - Concede-se máxima e irrestrita liberdade ao Mercado enquanto se lança pedras a liberdade política ou a democracia, bem como ao liberalismo moral (Por parte da hipocrisia moralista.)... Diante disso como não dar total razão ao verso do Evangelho: A luz manifestou-se aos homens e eles preferiram as trevas! Ainda preferem...

E o Antonio Sardinha foi um deles, como são seus leitores e os do pobre Corção, e os do Olavo... Como Marta, eles escolheram a pior parte... a parte mais infectada ou podre da modernidade.











Os erros e acertos do Sardinha (Antonio in 'Glossário dos tempos' 1942) - Prólogo





Sempre interessados pela literatura - Tanto quanto nos interessamos pelas ideias... e portanto em Gil, Camões, Bernardes, Vieira, Garrett, Herculano, etc resolvemos folhear 'O testamento de Garrett (Opus cit p 53).

E ao folhear topamos ali com a costumeira mistura de luz e trevas com que topamos e toda obra humana ou ideológica. Posto que os criticantes, como Sardinha, presumem estar muito acima dos criticados como os liberais políticos, constitucionais ou democratas ou, em termos atuais, os comunistas e anarquistas. 

Porém, considerando tudo em seu conjunto, ou como sistemas fechados, acabados e prontos, Comunismo, Anarquismo, Fascismo e Capitalismo são praticamente a mesma coisa, embora acredite eu que o último ou quarto modelo seja o mais tenebroso, eu que em POLÍTICA, sou ultraliberal intransigente ou policrata.

Já expus em diversos artigos aquilo que alguns teóricos chamam liberalismo, em singular, não existe ou é grosseira ficção construída por ideólogos e panfletários. Existem liberalismoS, como existem renascimentoS, ReformaS e SocialismoS... Alias liberalismos em conflito como assinalaram Polanyi e Arendt dentre outros, tendendo o Liberalismo econômico, a restringir o espaço do Liberalismo essencial - O político - e a reduzir-lhe a qualidade, por onde, com sua educação ineficaz, a miséria e o fundamentalismo religioso chegamos a OCLOCRACIA e jamais a democracia.

E de fato muito do que os autoritários ou fascistas, e comunistas, e outros liberticidas tem criticado e combatido, não é democracia (E menos ainda policracia.) mas pura e simples oclocracia ou comando de massas acríticas manipuladas por uma elite econômica sem consciência.

Sócrates combateu, não a democracia, porém o espectro da oclocracia ou sua ameaça ao apontar os defeitos de uma democracia demasiado ingênua (A nossa é puramente formal ou como dizem 'positiva' - Vício análogo), e por isso foi morto. Prestou porém imenso serviço a causa democrática, como prestam todos os críticos que apontam os defeitos que a tornam vulnerável. De modo que as críticas deles - Exceção feita aos teocráticos ou fundamentalistas com suas citações de livros! - sejam comunistas, fascistas ou anarquistas devem sempre ser examinadas com todo cuidado e levadas em consideração caso queiramos produzir uma democracia de qualidade na qual a Liberdade e a Autoridade, o Direito e o Dever, a Pessoa e a Lei, caminhem juntas num estado ideal de equilíbrio.

Tornando aos sistemas fechados, temos no Comunismo o defeito supremo da Ditadura do proletariado, pelo simples fato de que Marx, lúcido crítico da estrutura capitalista ou de mercado, era coxo no terreno da ciência política não sendo digno de desamarrar as sandálias de um N Poulantzas... Apesar disso os comunistas, como os socialistas - E quem o diz ou confessa são os sisudos padres romanos ou tridentinos a exemplo de um H Chambre, de um Bastos de Ávila, de um Lebret ou de um Abbé Pierre (Assim o leigo Tasso da Silveira em seu artigo sobre M Gorki)  - Tinham sensibilidade suficiente para perceber que a pessoa humana estava sendo triturada pelas estruturas econômicas importadas da Inglaterra ou dos EUA, o que até hoje é rejeitado pelos partidários cegos ou apóstolos do liberalismo econômico.

Negam inclusive, e escrevo-o em 2023 - as transformações climáticas de caráter antrópico impulsionadas por seu modelo e ainda mais: Mostram-se totalmente céticos face a degradação ambiental, desastres, calamidades e extinção de formas de vidas ultra milenárias deflagradas pela cobiça insaciável de alguns... Chegando a atribuir tais fatos a imaginação de seus adversários ideológicos, em especial aos comunistas, apelando a solução conspiracionista como qualquer ideólogo vulgar ou como os sectários religiosos. Assim tem se portado os defensores do liberalismo econômico, e diante disso não posso absolve-los da pecha de mau caratismo...

Por sua falta de consciência humana, ética, empatia, senso de justiça, sensibilidade, etc não posso deixar de encara-los como piores do que os comunistas totalitários, mesmo quando considero todas as crueldades e misérias do comunismo, as quais não são poucas. No entanto para assassinar, matar ou suprimir vidas sequer é necessário derramar pequena gota de sangue e menos ainda extrair vísceras ao modo dos partidários do antigo regime ou dos revolucionários mais atilados... Pois é coisa que se faz por omissão inclusive. Com privações e excesso de trabalhos torna-se o assassinato banal e nem se percebe a inanição ou a fome, fenômenos que por assim dizer passam batidos.

E se alguém compôs um livro negro do comunismo este bem poderia ser dado em troca do outro livro não menos escuro e sinistro, o do capitalismo ou do mercado. Não seria um livro vermelho, escarlate ou rubro como a bandeira dos comunistas apenas porque não teria havido efusão de sangue, mas isto não significa que não houve luto em abundância. 

Parece-me que o único mérito do liberalismo econômico é ventilar o problema da liberdade econômica ou da livre iniciativa privada no setor econômico, tese com a qual não podemos deixar de concordar desde que se trate de uma liberdade limitada - Alias como todas as mais liberdades, pois ao contrário do que queria Sartre não existe qualquer liberdade ilimitada no mundo em que os seres humanos são múltiplos. - reduzida, controlada e posta a serviço do ser humano ou das necessidades humanas. Claro que quando falamos em controle não nos estamos referindo a um controle necessariamente político e menos ainda ditatorial, mas antes de tudo num controle democrático interno sob a forma de colegiado a exemplo da Idade Média e quando postulamos um controle político ou um planejamento é claro que supomos um modelo político democrático ou melhor policrático, direito e exercido pelos cidadãos.

Não pode haver setor algum da atividade humana desvinculado do Bem comum ou alheio a uma finalidade social. O que remete-nos sempre a um controle político, enquanto veículo dessa estrutura social. Que o econômico aspire separar-se do político é pura falácia, pois uma tal aspiração implica sempre uma dominação e portanto uma subversão a partir da qual passa o Bem comum a segundo plano e os interesses puramente particulares, insaciáveis e egoístas passam ao primeiro plano. Tal a Sociedade econômica, essa carroça posta diante dos cavalos ou bois.

Desarvorado o econômico absorve e destrói o político ou o liberalismo político e logo em seguida o humano ou a esfera de nossas liberdades privadas seja por meio do moralismo sectário ou do controle militar dos quais depende para impor-se e manter-se. 

Apesar disso reconhecemos a premissa liberal de uma liberdade econômica relativa ou não absoluta. 

E quanto o anarquismo...

O anarquismo tem por virtude uma consciência política muito mais acurada ou refinada, pelo simples fato de opor-se a quaisquer modelos totalitários ou a quaisquer ditaduras de direita ou esquerda, do tal ditadura do proletariado aos golpes 'liberais' responsáveis pela derrubada de quaisquer regimes democráticos que se afastassem da ideologia capitalista visando controlar o mercado. 

Notável é o anarquismo quanto declara que nosso modelo democrático é muito pouco democrático necessitando ser aprofundado ou ampliado. É uma visão grandiosa essa passagem da democracia formal ou anglo saxônica para uma democracia real, semi direta, direta ou policrática mesmo quando suponha a demolição do macro Estado e a construção de pequenas comunidades políticas.

Apenas os anarquistas não percebem que esse ideal, quando suponha a criação de centenas ou milhares de micro estados, é incompatível com a existência de um colossal império econômico como os EUA, o qual não teria mínimo escrúpulo em incorporar pela força bruta todas essas comunidades livres, fortalecendo ainda mais seu imperialismo sórdido. Por isso um crítico lúcido já observou que a demolição do macro Estado, se necessária, deveria começar necessariamente pelos EUA que é o centro do poder político e econômico atual.

Outro defeito grave do anarquismo - E pelo qual esta ligado ao Comunismo e ao Fascismo hodierno - é a sanha revolucionária ou o ideal jacobinista legado por Robespierre, Babeuf ou Blanqui. Em sua maior parte os adeptos do movimento anarquista recusam-se a admitir que se possa ampliar a democracia que temos por dentro ou institucionalmente i é por meio de leis e antes delas por meio de greves, protestos, referendos, plebiscitos ou mesmo algumas conjurações oportunas. Iconoclastas, postulam uma demolição total das estruturas sociais vigentes de cujas cinzas surgirá como a Fênix uma nova sociedade. Creem numa transformação radical por meio de uma efusão de violência e não numa possível evolução orgânica.

Um terceiro defeito desse modelo é o furor pela inovação, o que os situa no terreno oposto do conservadorismo acrítico e ingênuo. Estes querem tudo conservar, e a exemplo de Zenon suprimir o movimento ou a transformação. Aqueles, a exemplo de Heráclito, mergulhar a sociedade na instabilidade absoluta pela negação de tudo quanto remeta ao passado enquanto construção histórica de uma cultura. 

O quanto defeito implica por fim em transpor o anarquismo, enquanto uma espécie de rebeldia sem causa ou negação total do passado histórico, para todos os setores da existência humana. Cessando ele de ser uma solução política derivada do princípio da liberdade para converter-se ele mesmo num princípio metafísico compreendido como um 'culto a novidade'. Destarte migra ele, o anarquismo iconoclástico, para outros campos, como a arte e a literatura ou a arquitetura, a ética, etc endossando acriticamente a rebelião modernista engendrada pelo CAPITALISMO, e ampliando seus danos ao infinito até atingir o centro da pessoa.

Este último aspecto do anarquismo, por onde toca o modernismo e o pós modernismo, quiçá seja seu defeito mais grave ou seu ponto mais negativo, pois chega a tocar a gnoseologia e a epistemologia, logo a apreensão da realidade e o sentido, até - Caso seja levado a seus termos finais. - destruir a própria indignação, o modelo ideal, a fé revolucionária na transformação, etc e desembocar no nihilismo crasso.

A revolução devora a Revolução e a subversão aniquila a subversão.

Quanto aos defeitos do Fascismo ou do integralismo formam um cacho... E seus adeptos de tanto criticarem o liberalismo político, o comunismo e o anarquismo tornam-se incapazes de olhar para o próprio umbigo e de contemplar a própria miséria. Certamente não me refiro aqui a abominação nazista com o grosseiro critério de raça... mas ao fascismo bem compreendido.

Antes quero repisar o que sempre tenho dito com absoluto destemor, o Fascismo tem uma compreensão muito mais realista e saudável da cultura e portanto da formação das estruturas político sociais em conexão com outros elementos. É precioso, é a anti tese do anarquismo alienado, mas não passa disso. 

E seu pecado original é a ideia de submissão cega a autoridade, a qual dá vezo a todos os achaques de autoritarismo, tirania, despotismo, opressão, domínio e controle arbitrário que esmagam a pessoa humana. Daí sua admiração pelo modelo militarista e a necessária antropologia pessimista muitas vezes bebida a Agostinho ou a teóricos irracionalistas e deterministas protestantes como Lutero e Calvino. 

No liberalismo absoluto ou crasso - Assim no capitalismo, e no anarquismo temos a ideia de um ser humano angelical ou totalmente bom em sua condição original, e ao qual não se deve impor quaisquer limites ou restrições, o que reporta em parte a J J e aos pós freudianos (Não a Freud, o qual por ser bastante realista e criticava apenas alguns aspectos ou excessos da repressão, jamais ignorando o que fosse educar.). Para tais teóricos, ultra otimistas, a causa de todos os males era justamente o controle ou a restrição em qualquer grau.

Ao lado diametralmente oposto damos com todos os totalitarismos despóticos ou ditatoriais seja o Fascismo ou o Comunismo. E aqui topamos sempre, na raiz ou na base, com Agostinho, tributário por fim de Manes, do que resulta uma antropologia negativa ou pessimista, enfim a ideia de que o ser humano é limitado, incapaz ou malevolente por natureza. Daí a necessidade de controle, tão ardorosamente defendida pelos jansenistas. 

Antes que algum modernista ouse corrigir-me apontando para Pirro de Elis e seus sucessores, com o objetivo de afirmar um pessimismo antropológico naturalista e grego, remeto o leitor a Victor Brochard, e advirto-o de que Pirro de Elis, tendo estado com Alexandre na Índia, tomou seu pessimismo antropológico e sua ataraxia ou quietismo, aos Bicos budistas que por lá deambulavam e portanto duma fonte religiosa ou credal, o que foge aos termos do naturalismo. Buda acreditava que a vontade do ser humano era a fonte do mal, e não preciso dizer mais nada quanto a isso.

Aqui Buda, ali Agostinho ou Manes ou Elchai, sempre esse exótico e místico Oriente, nada de concreto, de empírico ou de racional.

Parece uma ideia ingênua não... Admito que pareça. 

As consequências no entanto foram as piores possíveis. 

Pois a partir desse modelo antropológico pessimista é que João Calvino inaugurou o primeiro imenso campo de concentração da História (cf Pierre Van Paassen) na infeliz Genebra. Quis transformar o mundo inteiro num mosteiro ultra rigorista ou melhor numa imensa caserna movida por um disciplina mecânica e cega, e seu ideal podre foi secularizado pelos fascistas. 

Continua



terça-feira, 2 de outubro de 2018

"A comunidade dos homens" - Dialogando com os cristãos Laloup e Nelis ou Capitalismo, Comunismo e Social Catolicismo


Estou lendo "A comunidade dos homens" de Laloup Nelis, Herder SP 1965. Livro escrito por Católicos leais e honestos, fiéis a Doutrina Social de sua Igreja, alias patrimônio comum a todos os Cristãos Católicos e inclusive a nós Ortodoxos. O imprimatur foi dado pelo piedoso Mons Lafayette e não por Bukarin ou Bulganin como poderiam imaginar os comunofobos cujos cérebros foram lavados pela propaganda norte americana e protestante... Há ainda Nihil obstat apensado por Mons Magalhães e portanto, antes que qualquer neo católico ignorante e protestantizado vomite suas baboseiras, trata-se duma obra que nada sabia de Marxismo, Comunismo ou Teologia da Libertação.

É obra não apenas romana ou papista mas comum a toda tradição humanista Católica seja romana, anglicana ou Ortodoxa. Um padrão de pensamento assumidamente encarnacionista, que não se deixou contaminar pelo solifideismo protestante ou tocar pelo misticismo descarnado, neo platônico, idealista, espiritualizante... que sempre assombrou a Igreja de Cristo.

Sabem os herdeiros de Malines que, como disse Aquino: "Não se fala de Deus a quem tem dome.". Isto pelo simples fato do homem não ser um anjo ou espírito descarnado, mas ser material que se realiza no mundo físico, mundo em que seu Senhor e Deus encarnou-se, com o objetivo de socorre-lo.

Assim, confessam eles que, desprezar ou ignorar a dimensão material da existência é perder a consciência quando ao mistério central da nossa fé.

Não eles não são, por modo algum, Comunistas, embora reconheçam com justeza que Católicos e Socialistas possam colaborar em torno de alguns objetivos comuns e como nós mesmos temos repetido a exaustão, o critério desta possível colaboração, como da ação política Católica só pode ser  DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA, jamais - como pressupõem o 'podre' e falsário Paulo Ricardo - o moralismo, que é um critério protestante. Nem é para admirar-se que em sua vã Cruzada contra os 'Comunistas comedores de criancinhas este sacerdote mau associe-se precisamente aqueles que negam a presença do Senhor no Sacramento, que apresentam a Mãe de Cristo como mulher ordinária e que, fideístas, folguem não possuir  qualquer doutrina social...

São perfeitamente Católicos como todos os Católicos sociais ou conscientes desde décimo nono século, cujo número diminuto eles deploram. E assim buscam honrar o legado daqueles Católicos que jamais engoliram a poção liberal... E é exatamente aqui que o livro se torna interessante, denso e profundo. A medida que insinua um 'Mea culpa'...

E iniciando este 'Mea culpa' ou esta análise realista principia declarando que desde os 1700 e tantos ou desde os 1800 parte dos Católicos - certamente contaminados pelo solifideismo protestante, dizemos nós na esteira de J Maritain - buscou compromissos com o liberalismo econômico ou capitalismo. Não, não foram poucos os Católicos que souberam resistir a atmosfera tóxica do individualismo, do idealismo, do romantismo e do liberalismo econômico; apegando-se ao misticismo da religião DOMINICAL, individual ou famílias, praticada pela família no lar e sem qualquer consciência social em termos de solidariedade ou fraternidade. Associaram assim a fórmula evangélica do 'orar a portas fechadas' (Insuficiente se isolada do contexto) a certo formalismo cultual e mutilaram por completo o espírito totalizante do Catolicismo.

Foi um reducionismo aviltante. Durante certo lapso de tempo, apesar de Leon Harmel (cujo exemplo foi grandioso justamente pelo isolamento) e alguns outros heróis, os patrões e senhores Católicos procederam tal e qual os senhores protestantes, oprimindo, sem misericórdia, seus irmãos batizados e membros de Jesus Cristo em nome de uma lei natural que os moralistas de antanho haviam definido como AVAREZA... E diante disto que fez a autoridade eclesiástica? Nada... Nada fez a Igreja ou a hierárquia para contér a opressão odiosa! Não emprenhou-se a Igreja em punir e castigar aqueles dentre seus filhos que cometiam tão grande injustiça! E assim, apesar de advertências puramente verbais, quando feitas, a injustiça proliferou como a lepra. E desta grave omissão, face a Hidra Liberal, surgiram é claro, Comunismo e Anarquismo, além dos Socialismos naturalistas.

O Cristianíssimo N Berdiaeff, outro adversário implacável do marxismo, define a questão com absoluta precisão: O Comunismo veio para fazer o que nosso Cristianismo não havia feito! E por que não havia feito?  Porque parte de seus profitentes estabeleceu laços de compromisso com o Capitalismo, sistema materialista e economicista por definição. Sistema cujo éthos é a avareza...

Diante de um novo mundo que não era o seu e que não correspondia a seus planos, diante deste novo mundo protestante, diante deste mundo materialista, economicista e insano não soube a velha igreja o que fazer e ficou paralisada. Alguns Católicos, diz com razão o matreiro G Corção em 'O século do nada' fizeram muito. No entanto este muito foi pouquíssimo e a ação social Católica totalmente desproporcional. Era o papismo a única força mundial capaz de pela ação travar os avanços do liberalismo econômico e imprimir outros rumos a História da humanidade... Se houve uma força capaz de coibir os abusos do Mercado, de doma-lo e de submete-lo a si foi a Igreja Romana. O supremo escandâlo é que ela não o fez, aceitando uma ordem de origem protestante e infensa a seus valores. A causa disto é patente: Certos compromissos estabelecidos entre os neo Católicos e o Capitalismo nascente, um colaboracionismo incorente e monstruoso enfim.

A questão que se coloca não é alguns Católicos, como Kolping, Descurtins, Mermillod e Von Keteller adiantaram-se a Marx e Engels... A questão crucial é, quão poucos Católicos acompanharam a estes heróis e quão pouco apoio receberam das autoridades no sentido de reduzir os maus Católicos, como se sucede ainda hoje. A Igreja tem falhado sucessivamente em coibir os liberais infiltrados em seu seio, os quais alias, ousam apresenta-la como favorável ao sistema que abraçam... De fato a Igreja produz e edita Encíclicas (desde Rerum Novarum) cujo conteúdo anti liberal é manifesto. E no entanto que continuam fazendo, até hoje, os maus Católicos, obstinados e alheios a DSI? Livre examinam e livre interpretam as tais Encíclicas como querem, acomodando-as so sistema querido... e continuam vivendo como bons ateus ou protestantes, oprimindo seus irmãos. A miséria aqui é a inércia de uma Igreja que nada faz de concreto.

Assim um anarquista e mais de um comunista escreveram que caso a doutrina social de Igreja saísse do papel e fosse posta em prática haveria uma mudança colossal em termos sócio econômicos. Os mesmos autores no entanto alegam que a Igreja nada visa além de enganar ou iludir seus filhos, uma vez que não leva seus próprios decretos a sério e não os faz por em prática. Ela não obriga os Católicos a conhecerem e a porem em prática a DSI, alias dever e direito seu. A Igreja brinca ou se omite e os Comunistas, Anarquistas e Naturalistas levam vantagem. Apesar dos Católicos sociais, tudo isto tem sido uma leviandade... pelo simples fato de que eles jamais deixaram de ser uma ínfima minoria, embora bastante ativa. Ínfima minoria é o que não se espera da maior religião ou igreja do planeta. O que dela se espera e compromisso e engajamento. A DSI enquanto Ortopraxia, exigiria, por parte dos Católicos - em especial de seus líderes - um empenho tão grande e um compromisso tão firme quando o Credo ou a Ortodoxia doutrinal.

Lamentavelmente caiu a igreja, levada pela polêmica protestante, no vício intelectualista ou meramente doutrinal, o que - paradoxalmente - preparou-a para o solifideísmo e as formas descarnadas de fé. Se por um lado foi altamente meritório ela ter assumido a defesa da razão ou da capacidade intelectual do homem (Serviço inestimável por ela prestado) por outro foi uma grande miséria ter ela esquecido das obras em sua dimensão social tão cara aos apóstolos e as primeiras gerações que reformaram o mundo antigo. Em dado momento, após o advento da reforma protestante, olvidaram os neo Católicos o sentido de Lei de Jesus Cristo tão caro a seus ancestrais.

Naturalmente que quanto a forma professada é a religião assunto pessoal ou familar relacionado com a opção livre. Liberalismo religioso NÃO É NOVIDADE, mas preceito afirmado pelos apóstolos e padres da Igreja face as injunções indevidas do Império romano. Agora por ser opção pessoal e livre não deixa de injetar no profitente o sentido do convívio ou da fraternidade, enquanto parte do espírito do Catolicismo. Nem pode haver Catolicismo sem íntimo contato social, vital e espiritual; o qual converte seus membros e membros de uma grande família. Quem são os Cristãos? Pergunta um pagão na Apologia de Minúcio Félix - "São pessoas que estimam-se antes mesmo de se conhecerem umas as outras!" Enfim pessoas que tinham noção de alteridade e solidariedade, e que colocavam os irmãos acima do lucro e dos bens materiais... Cidadãos que se preocupavam concretamente com as almas e corpos uns dos outros e buscavam o autêntico bem comum. Por isso rezavam: Pai NOSSO, jamais Pai meu...

No entanto após a reforma sucede-se uma intelectualização que vai assumindo formad cada vez mais teóricas, meramente cradais, idealistas, até o misticismo descarnado, o isolamento, a indiferença e a alienação. Veja a miséria: O Egoísmo torna os neo Católicos insensíveis face aos sofrimentos dor irmãos... E passam a viver em cidades e num ambiente urbano, não apenas como se são se conhecessem, mas como se se estranhassem ou odiassem. E o apelo verbal ou teórico ao amor converte-se em voz no deserto... Fala-se em tradição. Mas você não pode transferir esta vida ou esta realidade para a Idade Média, a qual nada tinha de liberal... A Idade Média não podia conceber o que fosse auto regulação do Mercado ou este enfeudamente do setor econômico enfiado em sua torre de Cristal. Para os sábios medievos, herdeiros da tradição antiga e imemorial, era a econômia uma atividade humana - não rigorosamente exata ou calculada - e assim como a jurisprudência ou a política sujeita ao primado da Ètica. Este foi e é o pensamento e sentir da Igreja... Não o pensamento liberal.

Assim a questão não é material, como cogitaram Marx e seus críticos. Tudo isto é vão e ilusório e a crítica de Marx, se leva a algum lugar e eletriza, não é contudo a mais profunda ou a que coloca o dedo no fundo da ferida... Surpreendentemente a crítica mais profunda parte desta igreja 'leviana' servida por homens tão volúveis... Tomemos a definição, refinada, de Sombart - É o Capitalismo um éthos ou um espírito, uma forma de consciência enfim. E este é seu fundo como veremos, aquilo que o torna venenoso e intolerável ao Cristão. Marx, materialista não o pode aceitar... Para ele tudo é encontro de capitais com técnica, do que resulta a posse privada dos meios de produção e o regime assalariado, ficando este 'mau em si mesmo'. Os Marxistas condenam inexoravelmente a posse pirvada dos meios de produção e o regime assalariado, e para eles isto fica sendo capitalismo...

Ora, a Igreja, com Sombart, não vê as coisas desta maneira. Por isso infinitos autores Católicos bem intecionados, analisam as coisas por este ângulo e absolvem precipitadamente o Capitalismo, declarando que nada há de essencialmente mau na posse privada dos bens de produção e no regime assalariado. Os Católicos creem sinceramente que esses meios ou métodos materiais são Cristianizáveis ou que se tornam bons, desde que animados por uma Ética Cristã de respeito a pessoa, e chegamos ao citado Leon Harmel...

Mas a Igreja usou, paradoxalmente, o olhar de Marx, que é equivocado, e que não nos dá a essência do sistema. Temos de buscar por ela...

Que é o espírito animador do lucro máximo, do acumulo irrestrito de bens materiais, do capital, dos juros, da plus valia senão a já citada avareza, fruto do egoísmo, um pecado mortal enfim??? Damos ai com o espírito corrupto... Alias um sacerdote insuspeito - Meinvielle - já analisou este sistema em termos de matéria e forma, aplicando o método de Aristóteles. Sem endossar todas as suas teses, concluímos que o Capitalismo torna-se inaceitável face a perspectiva Católica, por sua forma ou impulso que é uma avareza que chega ao materialismo chão.

Neste sentido temos de admitir que o Capitalismo, cuja estrutura material é aproveitável é em si mesmo um pecado e uma execração. Não é o Capitalismo que resta, o que resta é um MERCADO, um Mercado RELATIVAMENTE livre - e portanto não Liberal nos termos clássicos - e voltado para as necessidades humanas. O Mercado existe em termos de natureza, se organiza, reorganiza e assume forças distintas, variadas, exóticas... que devem ser penetradas e animadas pelo espírito Cristão ou pela Ética da Igreja. Podemos falar sem temor não em qualquer conciliação com o Capitalismo - cujo éthos deve ser eliminado pela ética Católica em termos de solidariedade, fraternidade, alteridade - mas num Socialismo de Mercado ou num Mercado voltado para a qualidade de vida das pessoas.

Falando num Mercado relativamente livre e portanto, ao menos em parte regulado pelo corpo social estamos falando em Capitalismo ou em Liberalismo Clássico??? DE MODO ALGUM, pelo simples fato de que o Capitalismo ou o Ideal de Capitalismo implica a auto regulação, opondo-se seus teóricos a toda e qualquer medida - por ínfima que seja - de regulação externa, assim social e política. Para eles a econômia corresponde a um existir a parte, com suas próṕrias leis, a algo independente enfim, a algo em que não se deve mexer, para que funcione bem. Portanto, postulando não a eliminação do Mercado, mas um controle relativo, em benefício da comunidade, não estamos assumindo ou sancionando o discurso Capitalista. Tal o discurso da Igreja, expresso pela DSI e a primeira certeza que se nos manifesta ao examina-lo é que se não é Comunista, Liberal ou Capitalista não é.

De fato a Igreja sempre primou pela defesa das liberdades, a exceção daquela que visa julgar a fé - i é o livre exame protestante... E foi brava em seu combate ao determinismo teológico dos calvinistas. Assim ela não pode negar que certa medida de liberdade seja benéfica as relações econômicas. No mesmo sentido assume, e com razão, a defesa da propriedade como natural. O que é absolutamente certo em se tratando da propriedade pessoal - seja de consumo ou de produção (assim a pequena empresa familiar nos moldes chineses) - e funcional. Sem no entanto deixar de condenar o 'jus abutandi' e afirmar sua finalidade social, em conexão com o bem comum. A doutrina aqui é excelente e o vício é a falta de compromisso para com ela...

Seja como for não é a Igreja tola ou ingênua, e se a princípio mostrou certo pasmo face a nova realidade, por meio de Leão XIII na Rerum Novarum admitiu a necessidade de uma regulação externa ou política do Mercado tendo em vista a promoção humana, a justiça social, a erradicação da miséria, etc E admitiu, é claro, que esta intervenção partiria do Estado. O que ela não examinou aquele tempo é em que medida o estado, passando a ser dominado ele mesmo - como dizem Laloup Nelis na obra citada - pelo poder econômico (dos trustes e cartéis inclusive) cessando de ser uma instância neutra ou isenta para converter-se em órgão da plutocracia e cimento de uma ditadura completa. Essa crítica vale para todos os socialistas estatólatras ou dirigistas sejam fascistas, nazistas ou comunistas... Mas admitiu a regulação estatal, embora ela mesma desconfiasse daquele novo estado que se tornava liberal...

De fato a Igreja, ainda aqui as relações e doutrinas mostraram-se problemáticas e cheias de nuances. Pois se a um lado não podia admitir os pressupostos do liberalismo clássico sem atraiçoar suas tradições a outro temia favorecer já um Estado em vias de se tornar liberal que a havia despojado de suas instituições, já a proposta de Estado futuro e ditatorial dos Comunistas... Um e outro tipo de Estado assustavam-na seja porque não os podia controlar ou inspirar. Limitou-se ela a condenar, e era inelutável, o liberalismo crasso, sem deixar de fulminar, igualmente, o autoritarismo estatólatra, o dirigismo absoluto e o totalitarismo pagão... Nesta questão de política ela nada precisou de muito claro. Leão XIII, conciliou-se com as exigências da democracia - um progresso a seu tempo - mas de uma democracia liberal ou burguesa. Essa mesma democracia foi muito resistente, como parte dos neo Católicos, as novas orientações propostas pela DSI e houve mesmo quem se escandalizasse - como os grandes apologistas pagãos adversários do Cristianismo - face ao empenho 'leonino' para com as exigência da justiça.

Os neo católicos por sinal não só forcejaram por de lado qualquer sentido de justiça relacionado com a condição econômica, como falsearam a doutrina evangélica da caridade, supondo que esta fosse voluntária ou livre, quando é norma, regra e lei para os Cristãos. No entanto Von Keteller e o sínodo de Mayence já havia acenado com a demanda da justiça em 1848. E após a Rerum Novarum e os estudos sociais em torno do tomismo, realizados em Malines e Liége sob o empenho de Mercier (de que resultaram os soberbos Cadernos sociais) consolidou-se mais e mais esta posição em termos de DSI, tornando manifesta a falta de sinceridade dos neo católicos liberais.

A partir de algum tempo no século XX, especialmente após a abominação ecumênica ou o surto de protestantização - e consequentemente de individualismo e assunção da pseudo cultura americanista - puzeram-se os neo católicos liberais, em assomo de desonestidade, a atacar e agredir indiscriminadamente os demais Cristãos, herdeiros do Catolicismo social, e isto a ponto de trata-los por comunistas i é exatamente como preceitua a cartilha Norte Americana de inspiração protestante, logo descarnada, idealista, individualista e puritana... Claro que a Teologia da Libertação assumiu posturas equivocadas, a ponto de poder ser classificada como uma degeneração ou uma queda em termos de idealidade. O que não justifica, de modo algum, que os Católicos socias e fiéis a DSI sejam igualmente agredidos, atacados e insultados quando representam a consciência social da Igreja, consciência de que eles, liberais, apostataram a muito, opondo-se ao sentido da Encarnação do Senhor.

Escandalizaram-se com razão do autoritarismo bolchevista, e assim dos autoritarismos Fascista e Nazista. E reduziram toda e qualquer oposição ao liberalismo crasso ou ao capitalismo a tais formas de dirigismo estatal, editando e reeditando o falso dilema - Capitalismo/Comunismo, dilema a que a DSI tenta escapar... E por esta via chegamos aos Socialismos heterodoxos - heterodoxos para o Comunismo por terem absorvido elementos já liberais, já anarquistas, já Cristãos...

Num primeiro momento buscam os neo católicos, como todo liberal desonesto, fingir que ignoram a existência de tais ideias ou grupos. Supondo, como acabamos de dizer, que tudo se resuma no binômio maniqueísta - Capitalismo bom X Comunismo mau... Agora quando um Católico instruido e leal ousa pronunciar a odiada palavra 'Socialismos' fazem uma grande bulha declarando que o Católico não pode ser socialista, gritando e batendo o pé. E fazem uma tremenda guerra ou batalha com palavras... Afinal se não se pode ser Comunista ou Socialista só podemos ser Capitalistas, concluem triunfalmente sem sequer analisarem a possibilidade de uma solução puramente Cristã ou Católica.

Para nós toda essa questão de palavras, tão cara a eles, faz bem pouco sentido. Os Católicos do Século XIX chamavam a si mesmos de Sociais (o que já se opõem a individuais ou a liberais) ou mesmo de socialistas (apud Brunetière 1904). Assim na Bélgica durante as primeiras décadas do século passado com Verstraet e na Alemanha com H Martens (apud Laloup Nelis p 199). A condenação oficial foi editada a posteriori e tendo em vista os Socialismos Naturalistas que chegavam ao materialismo, ao ateísmo e ao anti clericalismo. Claro que os Católicos não podiam aderir a princípios naturalistas.

Seja como for os Católicos, ressalvando os direitos essenciais da pessoa humana, continuaram afirmando a primazia do corpo social, particularmente em seus campos, como política e economia. É irrelevante que tenham assumido diversos nomes ou títulos: Sociais, trabalhistas, humanistas, personalistas, solidaristas, comunitaristas, cooperativistas, distributivistas, etc, etc, etc Cada um destes termos encobria uma solução que se opunha as pretessões do liberalismo crasso, cada um deles era uma negação do Capitalismo, cada um deles representava uma afirmação do comum... pois todos comportavam restrições externas ao Mercado.

Agora, claro que apartando-se dos socialismos extremistas e virulentos, que se escoravam no despotismo - comunismo, nazismo e fascismo - os Católicos, em demanda por soluções cada vez mais práticas e concretas, só podiam aproximar-se destes socialismos heterodoxos tributários não apenas dos anarquistas e liberais mas também de uma herança cultural Católica ou duma tradição inconsciente. Esta fuga comum, tanto dos socialismos hetedoroxos quando da DSI face ao dirigismo estatizante foi o ponto de encontro entre as duas correntes. Não só os socialismos todos, desfigurados pelo liberalismo, reportavam (opus cit) a uma Ética Católica, como o Catolicismo compreendia um Socialismo religioso, como a totalidade das religiões antigas a exemplo dos antigos Sumérios ou dos antigos Incas.

Concretamente este ponto de encontro foram as cooperativas, os sindicatos, as sociedade de apoio mútuo ou caixas, as quais podemos adicionar corporações, montepios, etc Quanto a uma ordem mais ampla a democratização econômica ou ao 'múltiplo' gerenciamento de empresas e fábricas, o qual contava com a participação do governo local, dos empregados, dos administradores e consumidores. Todas estas diversas formas sugeridas por Herr, Jauŕes, De Man, Deat e muitos outros foram já inspiradas no passado comum, já apreciadas pela mãe Igreja.

Agora a propósito destas formas de Socialismos autoritários ou despóticos, sempre citadas pelos liberais e com o costumeiro azedume, devemos considerar que nem este autoritarismo é fruto do socialismo - uma vez que a monarquia absoluta, a ditadura, etc são anteriores a ele (quanto a suas formas modernas) - e tampouco o socialismo filho do autoritarismo, isto pelos simples fato dos socialismos heterodoxos sempre terem se mantido fiéis a alguns pressupostos essenciais dos liberalismos (do pessoal, do religioso, do político...) ou incorporado tradições anarquistas e Católicas. Podemos interpretar Socialismo e Autoritarismo como fenômenos históricos paralelos que num dado momento vieram a se encontrar, excluindo qualquer relação essencial ou ontológica. Alias Autoritarismo e Religião também se encontraram... Mesmo Liberalismo e Autoritarismo, produzindo plutocracia, imperialismo, opressão dissimulada, etc

Para encerrar esta longa e fastidiosa exposição gostaria de abordar um tema repisado por alguns autores mas que ainda não encontrei na obra de Laloup Nelis. Refiro-me a demolição da ordem social Católica pelo liberalismo triunfante. A Igreja sempre buscou beneficiar concretamente a pessoa humana, inclusive a igreja romana, e em seus piores momentos. O Catolicismo antigo ou Ortodoxo cobriu o mundo inteiro com Escolas, Asilos, Hospitais, dispensários a exemplo do Nozokomion de S Fabíola ou da Basiliada de Cesareia... O dilúvio islâmico no Oriente e germânico no Ocidente converteram esse esforço titânico em ruínas fumengantes! No Ocidente, ao menos desde Carlos Magno este esforço foi retomado e mais uma vez a Europa Ocidental foi coberta por escolas, asilos, hortas comunais, orfanatos, etc No entanto a desagregação da unidade política e a afirmação do feudalismo - com seus conflitos - fez reverter, mais uma vez, tudo isto...

Após as cruzadas e os renascimentos, mais uma vez, a Igreja assume a direção dos negócios e vai reedificando as antigas instituições, geralmente em torno de algum mosteiro. Mais uma vez as pontes, caminhos, albergues, escolas, bibliotecas, etc vão sendo reconstruídos. Em Bizâncio, o sistema de proteção social assume uma proporção e eficiência jamais vistas até então. No entanto Bizâncio é destruida pelos turcos enquanto a Reforma estoura no Ocidente. Cobett refere-se a destruição da rêde de proteção mantida pela Igreja romana na Inglaterra e a destruição das Bibliotecas, dispensários, escolas, hospitais, etc Doellinger faz um levantamento colossal dos estragos produzidos pela reforma na Alemanha e elabora um inventário das instituições tragadas por esse movimento. Os mesmos estragos reproduzidos na França, Bélgica e Holanda ainda não foram devidamente elencados e descritos, no entanto podemos dar por dezenas de milhares as instituições demolidas. Hipoteticamente, com a afirmação da reforma, o Estado ou a comunidade secular, assumiria tais cuidados, os cuidados sociais... Ao menos de imediato muito pouco foi feito e ao que parece o Estado secular moderno jamais conseguiu equiparar-se a igreja antiga... Ficando a maior parte dos homens socialmente desamparados, ao menos nas novas sociedades...

Quanto as sociedades que retornaram ao modelo católico ou papista as dificuldades não foram menores. Pois já o estado secular, apelando sempre a uma possibilidade de cisma ou reforma, impunha restrições a ação da Igreja. De modo que desta vez as instituições foram criadas muito lentamente, e consolidando-se, mais e mais, um deficit social. No entanto, o quanto fora criado e estava sendo novamente gerido pela Igreja foi novamente abalado, ao menos na França, pela grande Revolução e da destruição de toda essa rede de assistência monacal - já ineficaz - até a formulação das primeiras leis trabalhistas foram cem anos de miséria extrema (assim de 1850 a 1890) e temos de perguntar sobre o quanto ela beneficiou os paladinos do liberalismo. Quanto aos outros países europeus assistiu-se a uma espécie de campanha politica com o objetivo de despojar a igreja das antigas instituições de beneficência. O que temos a dizer sobre isto é que a transferência foi falaciosa e que parte das instituições antigas - que já eram insuficientes - foi mais uma vez eliminada, produzindo um deficit social imenso. Claro que todas estas catástrofes sociais resultaram num desamparo generalizado e criaram um exército de pessoas dispostas a trabalhar sob quaisquer condições... Então temos de perguntar sobre até que ponto a demolição do aparato social foi intencional e correspondeu a certos interesses - Interesses de quem???

Temos de perceber que a ação social da Igreja, antes fecunda foi travada sob todas as formas pelo liberalismo, o qual estava a criar o seu exércido de reserva ou sua hoste de párias a serem explorados. A igreja de modo ou de outro os protegera - Pau na Igreja... As críticas dos Comunistas e Anarquistas só se tornam e se fazem justas na medida em que os neo Católicos comprometidos com o novo modelo não estiveram a altura de seus ancestrais, descuidando de recriar as antigas instituições de proteção a pessoa e mostrando-se indiferentes e insensíveis face a nova realidade produzida pela política liberal. A nova ordem, do século XIX, já não encontrou Católicos dispostos a investir no homem ou para a vida eterna, mas Católicos avarentos e acomodados, dispostos a investir apenas ou especialmente no Mercado e a geri-lo tal e qual os protestantes i é explorando aquele grande exército de reserva e ignorando as mais elementares exigências da justiça.

E esta situação tornou-se tão dolorosa a ponto dos neo católicos apresentarem os sofrimentos que eles mesmos impunha, voluntaria ou livremente aos operários, como meritórios... Decretando que eles se conformassem com ser explorados por seus próprios irmãos e que depositassem suas esperanças apenas no além túmulo. Diante deste quadro terrível me pergunto sobre o quanto esta religião oportunista ou conveniente não favoreceu a revolta, a incredulidade, o materialismo e o ateísmo??? Pois uma coisa é declarar que os Cristãos devem aceitar os sofrimentos que sejam inevitáveis enquanto resultados de forças naturais e outra, anti cristã e monstruosa, consiste em declarar que devem aceitar ser explorados e oprimidos, por aqueles que deveriam ama-los e praticas a justiça i é por outros Católicos.

Na medida em que os proprietários e patrões Católicos achavam-se autorizados não só a oprimir como a exigir passividade por parte dos oprimidos, claro que a Sociedade apóstata cindiu-se em classes e que esta cisão, escandalosa, refletiu-se no clero! Laloup Nelis admitem-no honestamente.

Assim se a resposta do protestantismo foi nula a do Catolicismo foi vergonhosamente frágil, em que pese afirmar-se ele como uma religião de obras e em sintonia com a Encarnação de Deus. E da fragilidade desta resposta surgiram outras como o Comunismo, o Anarquismo e o Socialismo. Face ao liberalismo hipócrita que busca manipular e História e ocultar o problema, esses sistemas tiveram o mérito de denuncia-lo... Devo declarar por fim que ter de manter algo porque funciona - o Capitalismo - se me parece a mais miserável e estúpida das soluções e isto pelo simples fato do homem sempre ser capaz d aprimorar o que faz ao invés de contentar-se com o que tem. Por isso, esse contentamento artificial e artificioso, sempre nos lábios, dos defensores do sistema me parece essencialmente pernicioso, mais do que qualquer outra forma de comodismo. Ainda aqui temos de explorar outras possibilidades e a doutrina social da Igreja romana me parece bastante fecunda neste sentido.