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sábado, 20 de maio de 2017

A realidade política do tempo presente: PSDB, PT, Temer, Aécio, Lula, Corrupção, Eleições, Globo... II





01 . Apesar da Globo não prestar ou ser canalha isto não torna Temer nem inocente nem
desejável. Meu ódio a Globo não me torna estúpido ou cego.

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/gloria-aos-pastores-que-usaram-seu-pulpito-para-demonizar-dilma-e-divinizar-temer-e-seus-ladroes/



02. A Globo pode muito bem estar temendo a construção de mais um poder paralelo a

sinistra bancada evanjéguica - fundamento pétreo do governo golpista. Se receia desta

bancada - Em que Temer tem se escorado repetidamente - ao menos aqui mostra ter

juízo - A merda tem de ser limpada antes que feda mais


Recordemos que a bucha estourou horas antes do Temer ter ligado para o papa

Malafão pedindo arrego ou melhor bençãos para seu pacote de maldades.



03. Temos duas soluções possíveis: A solução justa e a mais excelente > O retorno de Dilma

Russef ao poder, é esta minha opção preferencial.


Afinal um processo iniciado pelo mafioso Ed Cunha e arquitetado pelos bandidos Aécio e

Temer a testa de um Congresso pestilencioso é nulo de todo valor. Contaminado,

viciado, ilegal, ilegítimo, arbitrário. A melhor saída para o golpe é sua anulação e a

retomada do estado democrático de direito


Todavia caso esta opção se torne impossível, o mal menor corresponderia a convocação

de ELEIÇÕES DIRETAS numa perspectiva pragmática seria a melhor das saídas

possíveis. Alias a luz da doutrina de John Locke, o parlamento brasileiro como um todo -

O qual mais parece a caverna do Ali Babá com dez vezes mais ladrões - deveria ser

dissolvido, sucedendo eleições gerais.


Nenhuma submissão a este parlamento corrupto e venal, em termos de eleição indireta,

sob qualquer alegação, deve ser aceita pelos cidadãos livres. Caso seja necessário o

Congresso deve ser ocupado pelo povo e colocado nos trilhos, exatamente como se faz

em certos rincões do pais. Não podemos deixar, em hipótese alguma esta decisão ao

encargo dessa latrina chamada Congresso.


O retorno de Dilma ou eleições livres NÃO HÁ TERCEIRA OPÇÃO!






04. Claro que devo mencionar sim eleições livres por simples petição a realidade.

Digo isto porque vi os jovens valentões berrando por vinte centavos ou gritando contra a

Dilma, MAS DE MODO ALGUM DE FORMA TÃO MARCADA CONTRA O TEMER E SEU

PACOTE DE MALDADES. Não posso deixa de achar curioso essas pessoas politizadas

fomentarem uma autêntica sedição por causa de vinte centavos e pouco ou nada

fazerem pela previdência do povo contra um governo ilegítimo e golpista. De fato não

constato um clamor generalizado por parte dessas pessoas. Enfrentar a Dilma e até mesmo centrais sindicais é fácil, quero ver ir lá enfrentar o

MEXEU TREME EM BRASÍLIA. Não não vejo os Black Blocks atuando em Brasília

contra o Congresso... Cade eles? onde estão agora que precisamos deles?


05. Aos monarquistas, fascistas, integristas, comunistas e anarquistas respondo que

democracia se faz por acerto e erro, exercitando-se. Claro que PRECISAMOS

URGENTEMENTE DE UMA REFORMA POLÍTICA QUE PROBLEMATIZE QUESTÕES

COMO O VOTO OBRIGATÓRIO, O VOTO DE ANALFABETOS E A CANDIDATURA DE

LIDERES RELIGIOSOS, dentre outras coisas, e no entanto apenas uma bancada de

esquerda democraticamente eleita levará este ideal a cabo.

JAMAIS ESSE LIXO NEO LIBERAL QUE TEMOS.


E menos ainda a mítica sedição ou 'revolução' armada, apregoada por todos vocês,

pelo simples fato de que jamais produz consciência e que por isso mesmo reverteu: Na

comuna de Paris, na Rússia, no México, etc após ter feito verter rios de sangue a troco

de nada, pois após cada uma delas impos-se novamente o estado capitalista ou liberal

e por que? Porque não trabalhou as mentes por meio da educação e da cultura e não

produziu consciência. Não se faz revolução alguma com massas, antes de tudo é

necessário converter as massas em povo e isto só se faz por meio da tomada de

consciência ou do processo educativo. Se vocês querem soluções imediatistas e de

desespero continuarão dando com a moleira na parede.



06. Conheço muito bem os defeitos da democracia meramente representativa, formal,

estrutural ou burguesa. Mas é a realidade que temos, a que temos de trabalhar e da

qual temos que partir, transformando-a, desconstruindo-a e reelaborando-a por

dentro.


Como Marx, Engels, Kautsky, Bernstein, Gramsci, Poulatzas, etc tenho esta

democracia burguesa e precária não como fim da história ou como algo definitivo,

mas como ponto de partida para algo melhor a ser construído coletivamente pelas

gerações, por meio da educação e da militância, institucional e não institucional.


Conheço as críticas de Sócrates, Platão e Aristóteles sobre a democracia pura, a qual

centra-se na necessidade de preparar as condições para ela, de formar espíritos

democráticos, de produzir consciência, de formar, de educar, de franquear acesso a

todos os que queiram ser dignos de participar e de exercer a cidadania e sei que é

desafio colossal e que só será solucionado pela educação.


Para além dos aspectos econômico e político, este em termos de estrutura ou formal,

temos um terceiro aspecto a ser considerado que é o formativo, de produção de

consciência. A ideia blanquista da sedição tomou seu lugar mas como

disse na prática não mostrou quaisquer resultados satisfatórios, exceto em,

sociedades que passavam por situações tão dramáticas - Equivalentes as de guerra

justa - como Cuba e Coréia do Norte


07. Bakunim mesmo havia dito que a liberdade e por ext a democracia, não pode ser

dada ao povo por uma elite de quadros revolucionários. Esta ideia legada pelos

positivistas e que remonta a Platão e ao ideal de ditador 'educador' quase nunca

funciona.

O povo nada dever esperar de indivíduos, salvadores, messias, etc Bem como de

elites redentoras. Redimirá a si mesmo pela tomada de consciência ou permanecerá

escravo. Liberdade é algo que não pode ser dado e democracia algo que não se

mantem nem ampliar sem espírito.


Portanto o povo deve contar apenas com o trabalho dos educadores humanistas,

enfim com o processo educativo, esclarecimento e tomada de consciência, mais do

que de armas e bombas, rifles e fuzis, formas e estruturas.


Estou sinceramente persuadido de que nosso ideal de democracia pura ou direta

será construído lentamente, por meio de um processo e não cedo a tentação da

revolta ou do adiantamento; INSTITUCIONAL e não institucionalmente, por diversas

vias. Cada qual acrescentará seu tijolinho.


08. Menos utópico falar em eleições e reforma política do que em auto gestão, apoio

mútuo, boicote geral ou mesmo no excelente recurso da desobediência civil (O qual

certamente precisa ser mais valorizado, problematizado, praticado) etc Uma vez

que nossa gente não se mostra a altura de tais recursos devido a sua falta quase

que absoluta de educação e preparo... No Brasil o que temos ainda são massas a

serem trabalhadas. No momento presente, caso consigamos impedir que sejam manipuladas por

pastores ou ludibriadas pela mídia, já conseguimos bastante, mas ainda não

conseguimos...


09. Assim quando falamos em eleições diretas temos de por o dedo bem no fundo da

ferida e avaliar o papel negativo do 'Voto obrigatório' (i é sem consciência

democrática) neste processo.

Nem podemos dizer que tudo esta bem, permanecer conformados e fugir a este

questionamento fundamental,


Afinal como aquele que não consegue enxergar qualquer sentido no voto deixará de

vende-lo ao primeiro demagogo?

Se para ele voto não tem valor certamente terá preço.

Conclusão: Acreditando ser esperto a ponto de ludibriar um político como Paulo Maluf,

venderá seu voto por cem reais enquanto o eleito obterá lucro na medida de cem por

um, carreando milhões dos cofres públicos, recobrando seu investimento e

prejudicando o corpo social como um todo. Pois a relação entre o voto obrigatório ou

mecânico e a corrupção é essencial.


Como debelar a corrupção e manter o voto mecânico?

E no entanto sem este voto fácil, os demagogos perdem seus currais... 90% dos

nossos políticos não conseguiria eleger-se por meio do voto cidadão.

A política liberal e neo liberal com suas mazelas não se mantém sem a chaga do voto

compulsório.


É por meio dessa chaga que conseguem 'diluir' ou filtrar os votos conscientes e a

custa de propina obter cargos e funções públicas.


Compreendem por que os conservadores se apegam tanto e com tanta avidez e

guarra a lei do voto obrigatório. Porque é a Matriz da corrupção e da venalidade e

porque sem ela, a bancada liberal ou anti popular não se sustenta. PSC e DEM por

exemplo são máfias que se alimentam quase que exclusivamente disto, de voto

comprado!


10. A esquerda equivocou-se redondamente quando em 1988, defendendo o voto analfabeto irrestrito, considerando - romanticamente - que a experiencialidade prática

do trabalhador humilde, comunicada pela vida vivida, seria suficiente para converte-lo

em cidadão consciente ou eleitor militante.


Foi equivoco trágico porque pagamos e ainda vamos pagar.


A consciência social e a plataforma trabalhista continuam recebendo apoio das pequenas ou baixas classes médias ou do que chamam - Nordau - pequena burguesia rancorosa e 'revoltada'.


O que nossas massas analfabéticas e manipuladas por lideres religiosos oportunistas fizeram foi abrir uma brecha ao que temos hoje de mais sinistro na política parlamentar brasileira, a 'bancada evanjéguica', principal responsável pela intifada conservadora a que hora testemunhamos.

Os fanáticos religiosos e charlatães souberam introjetar com maestria, na mente de grande parte dessas pessoas um ideário ou uma ideologia acentuadamente liberal, produzindo o fenômeno do pobre capitalista. Ora esses pobre capitalistas ou como se diz 'de direita', bem mais do que a satanizada classe média, constituem - sob a égide dos pastores - a alma do conservadorismo até o ANACAP e o Nazismo!

Passam fome, vivem em palafitas, são assalariados e oprimidos e mesmo assim contemplam o patrão ou o empresário como uma espécie de deus desde mundo, votando como carneiros naqueles que são indicados pelo pastor em troca de benção, alias de prosperidade prometida. Voto de analfabeto ou semi analfabeto converteu-se em moeda, matéria de troca ou sinônimo de poder nas mãos sujas dos pastores pentecostais, os quais a partir dai criaram seus currais e bancadas.

De modo geral este voto serviu para empoderar esses canalhas da fé e alimentar uma teocracia fortemente capitalista.

Foi projeto romântico, utópico e muito mal calculado - O qual torna vivas as críticas do velho Sócrates! - que saiu pela culatra e tem servido de pasto já ao capitalismo já ao conservadorismo moralista e social. FOI UMA TRAGÉDIA.





A PIOR FORMA DE OCLOCRACIA -A RELIGIOSA!

E a esquerda cega nem cogita repensar tudo isto e fazer 'mea culpa'. ESTAMOS NO REINO DA OCLOCRACIA MAIS TORPE! OCLOCRACIA É O QUE VIVEMOS!

O QUE SÓ SERVE PARA DAR SUPORTE AS VELHAS E JUSTAS CRÍTICAS ELABORADAS PELOS MONARQUISTAS, INTEGRISTAS E FASCISTAS DESDE O SÉCULO XIX.


Esta oclocracia teocrática ou democracia sem qualidade, esta desmerecendo os


ideais democráticos e promovendo toda uma série de críticas totalitárias. NADA MAIS PERIGOSO DO QUE DESACREDITAR A DEMOCRACIA.





12. Certamente que o voto deveria ser condicional e livre, nem mais nem menos.


As pessoas deveriam ter um mínimo de instrução para poder exercer este direito e


acima de tudo aspirar por ele ou deseja-lo enquanto ação significativa. Só assim


seria cidadão de fato cessando de alimentar a oclocracia.







13. Quaisquer líderes religiosos deveriam ser impedidos de participar das eleições,


exceto se, tal e qual os políticos, se afastassem alguns anos antes de virem a


registrar suas candidaturas. A propaganda religiosa por meio de organizações


religiosas devería ser policiada rigorosamente e a imposição de qualquer candidato


associada a sansões se ordem espiritual proibida e punida por lei. PARTIDOS DE NATUREZA RELIGIOSA DEVERIAM SER RIGOROSAMENTE


PROIBIDOS E A PROIBIÇÃO DE BANCADAS RELIGIOSAS AO MENOS


SERIAMENTE CONSIDERADA E DEMOCRATICAMENTE DISCUTIDA.



14. Nem preciso dizer que todas as agremiações religiosas que não contribuem por


meio de projetos sociais (Desvinculados de quaisquer ações proselitistas!),


limitando-se a auferir lucros em nome do sagrado deveriam ser taxadas na forma


da lei. Nada mais humilhante para o cidadão empreendedor, a respeito do qual


tanto se fala, do que essa calamidade que consiste em observar tantas pessoas


que se apresentam como religiosas auferindo lucro fácil sem terem de trabalhar


honestamente. Certamente se trata de um grande desestímulo para qualquer


cidadão virtuoso.


15. Por fim já me referi a necessidade e conveniência de que todas as questões


relevantes para a sociedade sejam cada vez mais discutidas e decididas pela


comunidade, através de plebiscitos e referendos pelo simples fato de nada ser tão


democrático e desejável quanto a participação direta do povo, exceto se houver


alguma impossibilidade absoluta. Mas sairá caro? Se comporta aumento de qualidade democrática jamais será demasiado caro,


exceto pata os capitalistas perversos. Qualidade democrática é algo porque


devamos pagar com gosto. Preferiremos acaso uma oclocracia, uma demagogia,


uma teocracia, uma plutocracia ou uma ditadura barata??? É coisa com que não se pode nem deve regatear.

Ademais, se necessário for, para custea-la, taxem-se a parcela mais afortunada


da população (Os mais ricos, nababos ou milionários) e como já dissemos todas


as agremiações religiosas que não trazem qualquer retorno social ou que não


sustentam ao menos uma ONG de caráter não proselitista. Nem se diga que somos contra a religião, somos absolutamente a favor dela.


Contra a religião são aqueles que dela abusam convertendo-a em mercado, nada


mais abominavelmente sacrílego do que fazer da fé um meio de vida.



quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

República Bizantina? Um diálogo em torno da obra de Anthony Kaldellis

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Conhecida entre nós ocidentais - Em especial lusófonos e mais especialmente ainda entre nós brasileiros, sempre muito pouco preocupados com nossa herança cultural antiga, oriunda do outro lado do Mar Oceano - a pobreza quase miserável em torno de estudos bizantinos.

Devido a toda uma convergência de preconceitos transmitidos pelo materialismo hodierno, pelo iluminismo, pelo protestantismo, pelo papado, pelas pretensões acalentadas pelo sacro império romano germânico e por sei lá mas o que, habitua-mo-nos a repetir clamorosas asneiras sobre a multifacetada cultura bizantina. E de tal modo habitua-mo-nos a repeti-las que até cremos nelas.

E no entanto trata-se de uma mal querença que remonta aos tempos do 'falso imperador' ou do imperador de mentirinha Carlos Magno. Desde os tempos dos carolíngios aprendemos falar mal dos 'romenos', dos rumanios, dos romanos do Oriente, dos greculos ou greguinhos; enfim dos bizantinos. Em seguida adicionaram-se outros tantos conteúdos culturais acima discriminados. Mormente após o cisma de 1054 - quando o Ocidente passou a fabricar seus próprios cristianismos, assim o papismo, assim os protestantismos, rompendo com a Unidade Católica Ortodoxa - os gregos, rebeldes e cismáticos passaram a ser odiados ainda mais.

Sintomático que os primeiros protestantes a terem tomado contato com a cultura bizantina, já em seus estertores finais, não hesitaram a descrever os gregos insolentes como mil vezes piores dos que os papistas...

Já para os empiristas e cientificistas, e positivistas os bizantinos não passavam de uns degenerados e poltrões cujas vidas consistiam unicamente em discutir sobre questões gramaticais, poéticas, filosóficas e teológicas, dispendendo todo seu tempo e energias. Assim era a sabedoria bizantinesca sinônimo de sabedoria ociosa e inútil.

No entanto este tão pouco conhecido e mal falado contesto foi responsável por ter viabilizado em larga escala o primeiro serviço de promoção humana e social de que temos notícia. No entanto não é a respeito dele que pretendemos discorrer neste artigo.

Mas sobre a tese demolidora, iconoclástica e revolucionária de Anthony Kaldellis. (Apud Kaldellis 'The bizantine republic - People and power in new Rome'.

Optamos por apresentar esta síntese, a guiza de complemento a respeito de tudo quanto escrevemos sobre as fontes da democracia medieval, de modo a obter uma visão global ou totalizante numa perspectiva Cristã.

Afinal de contas porque raios o espírito e algumas formas democráticas teriam se conservado apenas no Ocidente barbarizado e não no Oriente Bizantino?

Lançando para bem longe de nossas vistas todas aquelas velhas lições em torno da autocracia bizantina e de seus imperadores despóticos, vulgarizadas não apenas por nossos livros didáticos mas até mesmo pelos 'bizantinistas' ocidentais, o homem nos oferece outra perspectiva tanto mais lúcida quanto realista.

Então, vamos a Kaldellis?

Segundo Kaldellis ao invés de ser autocrática, despótica, tirânica, etc a 'República' - e o autor emprega o termo república na antiga acepção em que não se confunde ou identifica com democracia e que reposta a administração comum (pública) e quiçá ao bem comum de Aristóteles - Bizantina realizará sabiamente o programa político por ele atribuído a Dion Cássio, mas que na verdade remonta a Políbio. Referi-mo-nos a ideia de república mista em cuja forma entrariam elementos da monarquia, da aristocracia e da democracia. Isto porque em suas formas 'puras' ou absolutas as três formas em questão estariam postas para uma degeneração inevitável. Assim da monarquia pura adviria a tirania, a qual sucederia a aristocracia pura. Esta degeneraria oligarquia, a qual sucederia a democracia pura e desta a anarquia (diríamos hoje anomia) a qual certamente conduziria os espíritos a monarquia, fechando-se o ciclo e repetindo-se infinitamente. Diante disto, qual a solução mais viável?

Uma vez que as formas puras são essencialmente passíveis de corrupção é necessário que o legislador misture ou associe equilibradamente as três formas.

Impõem-se aqui uma conclusão até certo ponto insólita: A solução para o problema político não se encontra na conturbada Grécia mas no Lácio, junto as sete colinas e é Roma quem no-la oferece. Não Atenas mas Roma! Pois enquanto os pensadores barbudos da Hélade haviam encastelado em posições sectárias e radicais, os habilidosos e sensatos romanos haviam concebido um modelo misto e funcional que não era nem monárquico, nem aristocrático e nem democrático mas as três 'coisas' simultaneamente.

Assim o cliente dos Scipiões, benignamente acolhido pelo 'povo romano' não hesita apresentar a República romana como modelo de síntese e equilíbrio políticos.

De fato todos os adversários da democracia direta, pura, absoluta ou popular do federalista Norte Americano Madison aos monarquistas constitucionais e parlamentaristas são em maior ou menor medida tributários de Políbio seja por via de Dion Cássio ou não.

É justamente em termos de monarquia constitucional que Kaldellis parece enxergar o império Bizantino. Analisando as fórmulas rituais de entronização e de deposição (empregadas durante as rebeliões) em torno das clássicas expressões "Axios" e "Anaxios" (assimiladas durante o ritual de consagração episcopal ortodoxo inclusive) o mínimo que se pode concluir é que os cidadãos bizantinos discordavam quanto as pretensões absolutistas de seus governantes atribuindo a si mesmos a faculdade da designação ou transmissão de poder e inclusive uma faculdade de suspensão ou de dedignação.

Portanto, ideologicamente falando, nem todos os elementos daquela sociedade assentiam mecanicamente as pretensões absolutistas e autocráticas expressas pela coroa. Havendo entre os cidadãos bizantinos um 'sentimento' divergente.

Dando seguimento a isto passa Kaldellis as estatísticas demonstrando que durante seus quase mil anos de História, O Império Bizantino conheceu uma rebelião a cada cinco anos. O que nos levaria a cerca de 200 rebeliões!!! Eram os imperadores menos estáveis no gozo do poder do que qualquer parlamentar reeleito no contesto das democracias contemporâneas. Pelo que as trocas ou alternâncias de poder eram sucessivas e continuas. Assim se haviam imperadores que como Justiniano retiveram o poder por alguma décadas outros houveram que detiveram o poder por alguns dias ou mesmo algumas horas apenas! De modo geral temos dez ou mesmo nove anos de governo para cada um deles!

O número impressionante de rebeliões e a instabilidade do titular imperial de modo algum se explica caso admitamos que toda aquela sociedade encarasse o Imperador como um representante de deus ou como alguém comissionado por ele. Admitida como premissa que tal concepção estivesse generalizada naquela Sociedade, o vultoso número de sedições levadas a cabo pelos súditos com relativo sucesso tornar-se-iam enigmáticas e a História ganharia mais um 'mistério' ocioso.

Outro aspecto que temos de considerar é que apenas muito raramente foram tais rebeliões reprimidas com máximo rigor, a exemplo da sedição de Nika, quando Justiniano mandou Belisário massacrar os rebelados presos no estádio. Via de regra os todo poderosos imperadores acovardavam-se e negociavam com os sediciosos. Outra atitude atípica numa realidade autocrática de que temos exemplo na 'Noite de S Bartolomeu' e no 'Outubro vermelho'... Reis conscientes de sua autoridade divina e poderes não negociam, supliciam.

Nem podemos ignorar que mesmo após o advento da reforma protestante, as decapitações de Maria Stuart, Carlos I e ainda de Luis XVI e Maria Antonieta foram impactantes, chocando grande parte da população europeia. A propósito de Carlos I consta que quando sua cabeça foi separada do corpo a multidão gemeu como um só homem exarando um grito aterrador. Não poucos embeberam lenços em seu 'sangue azul' como já haviam feito quando M Stuart fora executada, e guardaram aqueles lenços como 'sinais dos tempos' ou como amuletos.

No imaginário europeu ocidental dos séculos XVI, XVII e XVIII a simples ideia de depor um rei ungido soava como essencialmente pecaminosa, pelo simples fato de teóricos como Tiago I, Hobbes, Bodin e Bossuet dentre outros terem forjado a doutrina do absolutismo, corrente já a gerações. Porque aquela sociedade estava imbuída de sentido absolutista tal gênero de execuções era por assim dizer insólito ou aterrador.

Já no Império Bizantino os reis não era apenas depostos aos gritos de 'anaxios' ou 'desenterrem seus ossos' mas mutilados pela plebe enfurecida, tendo suas orelhas e narizes cortados e olhos vazados, quando não eram eternamente sepultados em mosteiros como Prinkipo, e davam-se por felizes. Diante disto como dar por estabelecido que tais pessoas encaravam os Imperadores como pessoas escolhidas por deus?

Todos estes problemas assaz conhecidos tem sido sucessivamente 'ignorados' pelos bizantinistas tradicionais completamente cegados pelo espectro do cesaro papismo e da autocracia.

Os críticos de Kaldellis tem se dado por satisfeitos com o replicar que inexiste qualquer testemunho escrito ou evidência documental em torno de uma Constituição Bizantina de caráter misto que admitisse a par da forma monárquica elementos democráticos ou mesmo aristocráticos. Como se pudesse a realidade ser dobrada por documentos... Porque se não haviam registros oficiais ou pactos haviam certamente costumes e costumes gregos, e cultura helênica ancestral.

Não penso que em qualquer momento o Imperador tenha sequer cogitado em reconhecer tais costumes ou em oficializar tal tipo de cultura, mas que ela estava ali presente fomentando sucessivas rebeliões e produzindo instabilidade estava. Comparado com os padrões de governo anteriores, seja o assírio ou o romano, foi o governo bizantino infinitamente mais maleável e mais humano. No entanto, nem por isso gozou de mais estabilidade do que os cruéis impérios que o precederam e conheceu por assim dizer a turbulência. Agora a que se deveu isto?

Chegados até onde chegamos acreditamos estar capacitados para responder a esta pergunta asseverando que apesar da forma monárquica, de modo algum imposta pelo Catolicismo, mas legada pelo Império romano, o setor Oriental ou grego do Império jamais rompeu por completo com as tradições democráticas legadas pela Hélade. As formas haviam sido atenuadas ou negadas desde Alexandre e ao cabo do Império romano ocidental, o espírito democrático no entanto permaneceu vivo naquelas consciências e naquela cultura levando parte daquela Sociedade a questionar um modelo cada vez mais estreito de monarquia e a conflitar com ele.

Então o que temos em bizâncio é um eterno estado de tensão em torno de dois polos equidistantes: Uma estrutura monárquica de tendências absolutistas legada pelo Império romano, sobreposta a uma Sociedade cuja consciência ao menos em parte sentia nostalgia de suas liberdades políticas ou do liberalismo ancestral. Desta acomodação ou justaposição muito mal acabada resultaram as centenas de sedições e rebeliões bem como o esgotamento e o fim daquela Sociedade. Eram elementos díspares, que ao cabo de alguns séculos, haviam de desagregar-se.

Assim a conclusão a que chegamos é que o espírito democrático e algumas formas democráticas jamais desapareceram por completo do contesto cultural europeu, resistindo inclusive as invasões árabe e teutônica e a sucessivas conflagrações até reafirmarem-se na Europa Ocidental do século XIII e serem engolidos pela maré absolutista do século XVI. O que nos aponta para uma solução de continuidade, embora nem sempre consciente. Esses ideais e formas podem ter saído da consciência mais jamais foram eliminados totalmente no plano da cultura. Assim alimentados pelo Cristianismo e suas instituições tornaram a florescer por algum tempo e depois a declinar... Assim a democracia não foi totalmente extraída por eruditos e teólogos modernos aos livros antigos. Antes corresponde a um espírito vital jamais removido de nossas mentes desde os tempos de Clistenes. 



As fontes medievais da vida democrática





Estas reflexões estão fundamentadas nas obras do sociólogo agnóstico Belga Léo Moulin (1906 - 1996)

Ocioso registrar que o espírito democrático tenha feito sua primeira aparição na Sociedade grega pré Cristã.

E que tenha tenha ressurgido de diversas formas ou modos no contesto medieval: Em 1215 por ocasião da assinatura e do reconhecimento da "Carta Magna" pelo rei João sem terra, em 1231 pela reunião do primeiro Landsgemeinde em Uri, em 1275 quando Llull elabora o pequeno tratado sobre as eleições, em 1387 quando Adhemar Fabri reconhece Genebra como uma República civil, nesse mesmo século, etc

No entanto a forma democrática havia sido caído em completo desuso após a afirmação dos Reinos Bárbaros no século VI. Ao menos quanto a forma e a macro estrutura política a ruptura parece ter sido absoluta.

O que nos leva a seguinte questão: Qual a fonte ou as fontes que levaram ao resgate de certos elementos da forma democrática a partir do século XIII e que culminaram com a reafirmação quase que total deste padrão a partir de 1789?

Extinguiu-se por completo entre as sociedades ocidentais ou europeias da alta Idade Média o espírito democrático semeado pelos antigos grego?

Refugiou-se em alguns setores? Em quais setores?

E quanto as formas. Lograram sobreviver nesses setores?

Como? Por que e em que medida?

Via de regra, até bem pouco tempo, era comum a opinião segundo a qual o 'espírito democrático' fora reencontrado nos livros antigos trazidos de Bizâncio ou exumados por algum humanista (em alguma biblioteca) a partir do século XV.

Os humanistas deram com a teoria ou a sugestão democrática em livros velhos e a partir dos livros velhos é que entraram em contato com o pensamento grego.

Por isso o ideal democrático Renasce (como todos os demais aspectos da cultura helênica pré Cristã) porque havia morrido no intercurso da Idade Média.

Destarte podemos falar numa extinção do ideal democrático ou da paixão pela liberdade política.

Muitos ainda hoje pensam exatamente assim.

Embora já contemos com algumas outras sugestões.

A primeira diz respeito a revindicação das liberdades comunais. Luta que é caracteristicamente medieval e que remonta no mínimo ao século XIII.

Como se vê, nem tudo na Idade Média é trevas, como juravam os pensadores de matriz protestante para os quais o papismo não era capaz de produzir cultura.

Há todo um histórico bastante complexo em torno de tais lutas habilmente detalhado a partir dos séculos XIX e XX.

Havia ali espírito democrático. Embora não possamos identificar com absoluta certeza donde tenha vido.

Importa questionar donde teria extraído as formas que assumiu.

É exatamente aqui que os estudos de Léo Moulin destroçando o véu dos preconceitos, parece lançar alguma luz.

Todavia antes de adentrarmos por este terreno gostaria de registrar a existência de uma corrente de pesquisadores que busca demonstrar a existência de uma ligação entre as primitivas comunas do Sul da Europa e a sobrevivência do municipalismo romano em certas regiões de Portugal e da Espanha. Que o sentido do municipalismo seja comum em algumas regiões daqueles países é fato estabelecido, que as raízes deste sentido tenham sido implantadas pela cultura romana também nos parece exato. Agora se alguma estrutura ou organização municipal daqueles rincões escapou as invasões germânica e muçulmana, chegando ao século XIII, é o que se deve demonstrar. No entanto não considero impossível ou absurda a sobrevivência de alguns municípios romanos e consequentemente da cultura municipalista sob a tutela de seus respectivos Bispos.

A partir dos séculos XII e XIII, quando as diversas culturas da Europa vão entrando em efetivo contato, este sentido teria se deslocado para outros lados (como o Sul da França e o Norte da Itália) e inspirado a luta pelas liberdades comunais. Ademais a sobrevivência de municípios e do espírito municipalista também teria sido possível em todo litoral da Itália e junto as cidades gregas do Sul, sempre disputadas entre o Império Bizantino e os poderes vizinhos.

No entanto ao que parece, podemos detectar a existência de outro nicho de formas democráticas e exatamente onde menos esperamos, no seio da toda poderosa e por vezes autocrática e por vezes opressora Igreja Romana.

Na esteira do citado Moulin estamos nos referindo as grandes ordens religiosas de caráter mendicante criadas a partir do século XIII, assim aos Franciscanos (1210) e  aos Dominicanos (1215). Ponto pacífico que ambas as ordens tenham optado por eleger democraticamente seus oficiais e por solucionar os problemas internos por meio de assembleias ou reuniões anuais cognominadas capitulares.

Quase todos os problemas das respectivas ordens era solucionado deste modo ou seja internamente, sem que a Cúria romana precisasse interferir. Somente a partir de Trento (sec XVI) é que os recursos a Roma foram se tornando mais e mais comuns.

No contesto medieval as ordens religiosas gozaram de ampla autonomia e optaram por criar e aprimorar uma estrutura bastante democrática do ponto de vista formal.

A respeito dos franciscanos os estudos na área ainda são bastante insipientes. No entanto, quanto aos dominicanos, muito material acabou sendo reunido nos últimos dois séculos e o saldo tem sido cada vez mais surpreendente. Basta dizer que o mecanismo do 'Impeachmeant' foi previsto e criado por eles.

Neste sentido há muito que se pesquisar, descobrir e sistematizar.

Uma coisa é certa. Todas as formas, regimes e sistemas de governo estão presentes nas diversas ordens religiosas: Temos assim o Federalismo Beneditino, com a autonomia abacial; a monarquia eletiva e constitucional dos jesuítas, o parlamentarismo dominicano, o presidencialismo, etc

Julgo se conhecida de todos e por todos (entre a gente culta) a dependência de Th Jefferson para com o Cardeal Roberto Belarmino em termos de teoria política. O próprio Schaff D S por sinal - e cuidando refutar a tese papista - refere explicitamente (Em 'Nossa fé e a de nossos pais' caput XXIX) que a leitura de Belarmino foi recomendada a Jefferson em 1823 por Madison. Ora Madison, co autor de O Federalista (Juntamente com Jay e Hamilton) é tido em conta de 'Pai da Constituição' Norte americana e teria buscado seus fundamentos na antiga República romana, no termo 'misto' de Políbio.
Aqui a fonte mais provável teria sido o Volume segundo das "Controversias" (Disputationes) em que trata especificamente da Igreja e dos concílios. De fato um volume das controvérsias de Berlarmino anotado por Th Jefferson e encontrado em sua Biblioteca acabou por impugnar duma vez por todas os sofismas de Schaff.

Dentre outras coisas o Pr Yankee pretendeu apresentar o cardeal papista como um defensor vulgar do absolutismo monárquico, esquecendo-se de que o campeão desta doutrina autocrática fora justamente o protestantíssimo rei da Inglaterra, Tiago I, o qual nada fica devendo a Hobbes. Belarmino muito pelo contrário dedicou duas de suas obras contra a pretensiosa teoria do soberano inglês e nelas susteve a doutrina da transmissão ou designação, bem como a do poder genérico. Admitindo que o objeto da soberania deve ser escolhido pelo povo. Portanto para o clérigo latino a autoridade passa de Deus ao Povo e deste ao rei ou aos governantes.

Naturalmente que o tema da democracia direta não ocorre a Belarmino da mesma maneira como não tem sido reeditado e posto nesses nossos tempos de internet e meios de transporte super desenvolvidos. Pelo simples fato de que a democracia pura já havia sido exposta as mais duras críticas, impugnada e desmerecida pelo historiador Políbio, partidário de uma forma mista capaz de incorporar, inclusive a forma monárquica (!!!). Cumpre observar ainda que nem mesmo o já citado Madison ousou discordar do historiador helênico, assumindo em certa medida suas críticas direcionadas a democracia direta. Era crítica do tempo e relacionadas com a experiencialidade das antigas cidades estado gregas, e prolongaram-se com maior ou menor fundamento até o aperfeiçoamento dos meios de comunicação e a criação da Internet, quando de fato tornaram-se obsoletas.

Dificilmente Belarmino teria sido capaz de ultrapassar tais limites. Todavia apresenta-lo como absolutista nos termos de Tiago I e Hobbes corresponde, no mínimo a uma boa dose de ignorância e ele certamente esta bem mais próximo de Madison e Jefferson a quem deve ter servido de fonte ao menos como expositor de sistemas.

Ocioso é recordar aqui a relação existente entre a teologia jesuítica e a nova escolástica hispânica e a escola tomista, o que nos remete mais uma vez a ordem dominicana e não menos a sua estrutura 'democrática'.

Agora se recuamos um século antes, i é para meados do século XII, topamos com algo por assim dizer monumental. Referi-mo-nos ao Capítulo geral de Citeaux, a grande abadia cisterciense. O qual congregava-se anualmente, reunindo os abades ou representantes eleitos pelas principais abadias europeias - apud 'Carta caritatis' - com o objetivo de solucionar democraticamente sobre todos os assuntos da ordem. Para L Moulin estamos diante do modelo embrionário de todas as assembleias políticas europeias representativas ou deliberativas. O que de fato nos remete a estrutura de um Parlamento contemporâneo.

Julgamos necessário ressaltar que as primeiras cortes portuguesas, congregadas em Coimbra, no ano de 1211 pelo rei Afonso II também são posteriores em quase um século ao Capítulo geral de Citeaux e que a presença desta ordem no Reino era bastante antiga e vigorosa. Pois havia sido trazida e este pais pelo próprio Conde D Afonso cerca de 1100, datando de 1178 a grande abadia de Alcobaça.

O exemplo de Citeaux foi tão clamoroso que no mesmo ano em que João sem terra assinada a carta de direitos (1215) o IV concílio de Latrão determinou que todas as ordens religiosas existentes realizassem um capítulo geral a cada ano. 'Dicionário da Idade Média' H R Loyn p 94 

O estatuto democrático dos cistercienses, elaborado por Harding antes de 1134, foi editado e comentado por J M Canivez (Vol I 1933) sob o título de: "Statuta capitulorum generalium ordinis cisterciencis"

"As eleições 'seculares' tiveram seu ponto de partida no sistema posto em prática pelos canonistas medievais com o objetivo de escolher os oficiais da Igreja." Helmholz VI

Agora que temos para além de 1100???

Continua



domingo, 25 de dezembro de 2016

Burguesia, capitalismo e espírito democrático

Espírito democrático é espírito de liberdade, de opção, de escolha, de decisão.

Implica reconhecer que todos os cidadãos são responsáveis pelo governo ou administração da cidade e mão apenas um, dois, três ou alguns.

Supõem, no mínimo que as decisões da maioria sejam sempre acatadas.

Do contrário existe dominação ou concentração de poder nas mãos duma pessoa ou de um grupo em detrimento do bem comum, noutras palavras: opressão.

Até mesmo no plano da democracia impura, formal, indireta ou representativa pressupõem-se necessariamente o risco ou necessidade da alternância no poder já em termos ideológicos, já em termos meramente censitários.

Assim se nos posicionamos contra a simples possibilidade da alternância no poder é porque nos recusamos a reconhecer o povo como árbitro decisório e enfim porque negamos sua capacidade para o exercício da liberdade. Ficando a democracia morta na fonte.

No que tange a esfera do político ou das coisas comuns (que pertencem a Pólis) o democrata, policrata ou libertário reconhece que todas as decisões cabem ao povo e que a opinião contrária implica dominação.

Em termos de democracia pura ele esta firmemente persuadido que as discussões, debates e diálogos propiciarão a defesa dos mais variados pontos de vista, o exercício da argumentação, o acesso a informação, a possibilidade da comparação e a tomada da decisão mais acertada. Importa participar ativamente das discussões, exercer a cidadania e suster honestamente seus pontos de vista. Humanamente falando temos aqui o sistema que nos oferece as melhores garantias possíveis, inda que sem tornar-se infalível.

Agora em termos da democracia 'fajuta' ou precária que temos, torna-se a situação bem mais complexa. Embora as eleições quadrienais tragam ao menos uma vantagem que é justamente a possibilidade de revisarem-se certas leis na medida em que pela alternância uma outra ideologia toma posse do poder.

Quero dizer que as eleições quadrienais, ao menos em tese, propiciam a possibilidade de que ao termo de uma gestão pública mal sucedida, seis críticos e opositores venha a sucede-la trazendo propostas totalmente distintas. Eis a alternância no poder!

Agora poderá o socialista, o humanista, o social democrata, o trabalhista... admitir sinceramente este princípio, especialmente quando sua plataforma esta no poder????

Em que pese sua certeza em termos absolutos de que as soluções socialistas são quase sempre as melhores, o democrata admite que salvo seu juízo pessoal, o julgamento do governo e de todo governo pertence ao povo e não a si, a comunidade e jamais ao indivíduo, inda que de caráter nobre e esclarecido. Admite ele que gestão e administração socialista seja avaliada criticada pelos adversários, vigiada pela opinião pública e avaliada pelo povo; e como propõem-se a governar para o povo e não para castas, classes, categorias, grupos, etc não teme ser avaliado por ele embora admita que ele possa equivocar-se.

Segundo a perspectiva socialista equivocam-se as massas quando elegem um governo demagógico voltado para as necessidade do mercado e do capital. Transferir o poder a um governo inspirado nos princípios liberais economicistas constitui quase sempre uma tragédia em termos sociais e nem sempre temos como evita-la ou como impossibilita-la democraticamente falando.

No entanto a decisão mais acertada em tal conjuntura não é chutar o balde da democracia ou agir hipocritamente buscando derrubar o governo por força das armas. Aqui a melhor das soluções é - a bancada socialista - opor-se as más iniciativas do governo, estabelecer a crítica e buscar informar e conscientizar o povo preparando o clima para a próxima eleição.

Se somos democratas atribuímos ao povo o direito de errar. Afinal a possibilidade de errar faz parte do exercício da liberdade e quando negamos o direito ao erro, aniquilamos a liberdade. Claro que a liberdade não existe para o erro, mas para que o acerto seja meritório. No entanto o erro não pode ser descartado ao menos enquanto possibilidade sem que nos tornemos dominadores e totalitários.

Mesmo quando estamos convencidos de que nossos ideais são os melhores não nos é dado impo-los como quem domina.

Ou...

Revertamos agora a dinâmica e pergunte-mo-nos se a burguesia aceitou de boa fé e até o fim as exigências do espírito democrático.

Enquanto possibilidade de alternância no poder e a eleição e o reconhecimento de um governo popular ou socialista???

E como nestes tristes tempos temos de esclarecer o óbvio, é evidente que não estamos falando em comunistas, bolcheviques ou vermelhos pelo simples fato de que recorrem as pontas das baionetas e não a sufrágios! Evidente que estamos falando daquilo que o profo Everardo Beckheuser classificava como governo rosa i é ao bem esta social, trabalhismo, social democracia, democracia Cristã, keynesianismo, etc E sempre numa perspectiva democrática jamais golpista!

Na prática a experiência histórica demonstra-nos que não.

Basta para tanto apontarmos o último período do governo Vargas, que culminou com o suicídio (???) do presidente, ao governo Jango atalhado por um golpe militar, a deposição irregular e ilegal da presidenta Dilma pelo Congresso... Para nos atermos ao Brasil apenas.

Assim enquanto enganam o bom povo e governam os liberais hipócritas vivem com a boca cheia de democracia e ordem, mas... quando constitui-se livre e democraticamente pelos sufrágios do povo um governo não liberal, os bons liberais economicistas atraiçoam sordidamente o liberalismo político e recorrem a força das almas com o objetivo de aniquilar a democracia!!! Isto não interpretação ou análise são fatos e temos já três interrupções do estado de direito, não pelos rosas, mas pelos 'liberais' ou democratas de fancaria!

Implica isto um oportunismo e não um espírito democrático e a aceitação da ordem democrática apenas enquanto nos favorece e apenas até onde nos favorece. Triste realidade: os pressupostos da ordem democrática não foram aceitos até o fim pela burguesia ou pelos liberais economicistas e em suas mãos ela não passa de mais um instrumento destinado a perpetua-los no poder. É a busca sútil, disfarçada e sorrateira pela manutenção do 'status quo'. Pelo que temos aqui a manipulação, a profanação, a instrumentalização imoral da democracia. E não sua aceitação integral, como um espírito que nos deve sinceramente animar.

Aqui a simples possibilidade da alternância no poder e a formação de um governo socialista, implica pânico generalizado por parte dos eternos donos do poder e das elites parasitárias.

Não, nossa burguesia golpista e fingida ainda não esta a altura da elevação e da pureza do ideal democrático da auto determinação popular.

O que eles querem é continuar dominando o povo. Embora dando-lhe a ilusão e a mera ilusão de que governa a si mesmo e escolhe seus caminhos.

Neste caso por que derrubaram o antigo regime???

Era bem mais honesto e moralmente correto conservar o poder absoluto do rei, ao invés de construirmos uma democracia aparente ou de fachada.

Enfim até nossa democracia continua sendo apenas para 'inglês ver'.

Será que o inglês se deixa enganar - após três golpes! - a ponto de crer nela?

domingo, 4 de outubro de 2015

O liberalismo econômico enquanto possível passagem para a teocracia religiosa

Para nós é lamentável ter de concluir que quinhentos anos após a morte de Torquemada e quatro século e meio após a morte de João Calvino, a Sociedade liberal e laicista a que pertencemos ainda não foi capaz de 'lacrar' com lacre de chumbo tidas as vias de acesso ao pesadelo teocrático.

Assim a democracia meramente formal incapaz de reconhecer qualquer tipo de valor exterior e superior a si mesma (Berdiaeff), desvinculada de um espírito científico capaz de dar suporte a uma cultura democrática ou laica. (Sagan)

Dissociada de uma ética objetiva em termos de direitos essenciais a pessoa humana e de uma cultura científica converte-se a democracia num fórmula oca ou numa via de acesso posta nas mãos das massas fanatizadas. Degenera assim numa ditadura das massas, numa ditadura 'democrática', num veículo de animosidades religiosas... e morre espiritualmente.

Daí a necessidade de produzirmos um espírito vivo ou consciência nos termos dados pelo velho Sócrates! Daí a necessidade de educarmos as gerações (Dewey) para a democracia ou melhor na democracia. Daí a necessidade de incutir o espirito democrático em todos os grupos sociais: na igreja, na escola, na família, etc Democracia é espírito que tudo deve penetrar e nortear! É consciência que tudo deve reger! A democracia precisa tornar-se metafísica e pautar todas as esferas da existência humana!

Ou reforçaremos esta forma por meio de um espírito vivo ou assistiremos o malogro de nossa civilização pela retomada dos totalitarismos. Nem a totalitarismo mais abominável que o sagrado ou teocrático. Então devemos parar de brincar com nossos princípios e valores e assumir nossa democracia até a medula dos ossos, até as mais derradeiras e remotas consequências.

A segunda porta de entrada ou via de acesso a teocracia consiste da posse privada dos meios de comunicação. Quando tais meios deveriam ser postos a serviço dos ideais democráticos e do bem comum, enfatizando princípios e valores condizentes com tais fins.

No entanto como transformaram-se em fonte de lucro fácil com que leviandade são tais meios sublocados aos fanáticos religiosos, pastores, profetas e ulemás! 

Justifica-se tal prática em nome da audiência, alegando que o povo assim o quer!

Sabemos no entanto que audiência é um padrão vendável.

Trata-se como se pode perceber de dois critérios muito frouxos.

Na verdade o que se oculta por trás da audiência é o ganho!

Pelo que os pastores, investem o dízimo pago por suas ovelhinhas em propaganda religiosa. Propaganda muito bem paga, que com a aquiescência dos meios de comunicação particulares, converte-se numa MÁQUINA PROSELITISTA POSTA A SERVIÇO DO FUNDAMENTALISMO SECTÁRIO!

Fogem desde então os meios de comunicação a seu legítimo fim: a promoção do bem comum, a instrução pública (Roquette Pinto), a formação do caráter, etc para ficar adstrito a interesses de ordem particular, os mais sórdidos possíveis por sinal!

Agora que direito tem os meios de comunicação de conceder espaço a um único credo privilegiado no contesto duma sociedade pluralista ou democrática??? Onde o critério jamais deveria ser o quem paga e sim o que convém!!! Convém que uma fé imponha-se sobre todas as outras pelo domínio dos meios de comunicação???

Temos aqui a segunda via de acesso do fundamentalismo.

Resta-nos discorrer a respeito da terceira, que é um desdobramento da segunda.

Na medida em que diz respeito ao padrão ou critério do liberalismo econômico.

Que são as tão propaladas necessidades do Mercado. Das quais advém a única meta do capitalismo: o lucro ou a vantagem financeira.

O problema qui é justamente quando interesses credais ou religiosos passam a alimentar o Mercado.

Quem não percebe que para continuar tirando lucro deste veio o sistema econômico tenderá a curvar-se diante de todos os caprichos ditados pelo espírito sectário, mostrando-se inepto para crítica-lo???

Concordará o Mercado ou seus senhores, que acima de si e suas necessidades, sobrepairam as necessidades de uma cultura democrática ou laicista a ponto de resistir as pretensões acalentadas pelas massas religiosas e seus líderes?

Francamente falando penso que não.

Em termos de liberalismo econômico vejo que tudo é negociável.

A ponto de ditaduras e sistemas autocráticos terem obtido as bençãos do sr Mercado, em troca de alentadas vantagens financeiras.

Destarte como poderia crer que um sistema capaz de sacrificar nosso liberalismo político, teria escrúpulos em sacrificar nosso liberalismo religioso.

Tenho para mim que sob a ótica deste sistema economicista tudo seja vendável ou tenha seu preço.

E que nada possua um valor transcendente.

Eu no entanto encaro o laicismo como valor essencial e transcendente em torno do qual jamais se pode fazer qualquer tipo de negociação.

Eis porque a docilidade deste mercado face ao elemento consumidor ou investidor me assusta.

E que este consumidor ou investidor for o fundamentalismo religioso?

E se for...

Já é.

Pois há cerca de trinta anos atrás parte do Mercado recusou terminantemente a boicotar a república então racista da África do Sul, mostrando-se solidário para com o Apartheid. Receando que desta oposição resultassem prejuízos financeiros...

Aqui como sempre o financeiro sobrepos-se ao econômico e mostrou-se irredutível a Ética.

Há cerca de dez anos Bush recusou-se a colaborar com os demais países do globo quanto a redução de gases poluentes afirmando em alto e bom som que a economia de seu país era mais importante do que as condições de nosso planeta.

Sobrepondo-se mais uma vez os interesses do mercado, em termos financeiros, ao bem comum do gênero humano.

Nem vemos que os investidores ocidentais, em especial os norte americanos, tenham cobrado da Árabia Saudita, com que negociam, a adesão ao liberalismo religioso ou a 'democracia'. Pelo contrário o maravilho mercado tem se mostrado totalmente submisso as exigências e pretensões deste estado que não é apenas totalitário mas teocrático e fundamentalista!

Por mais que me esforce não percebo que este maravilho mercado de tenha posto a serviço dos ideais e valores democráticos e laicistas...

Basta haver uma demanda por serviços ou por consumo para que lá esteja o sr Mercado rastejando como um escravo.

Neste caso se o pentecostalismo produzir semelhante demanda que devemos esperar???

Ousará o Mercado opor-se decididamente aos preconceitos alimentados por este grupo religioso?

Temo que não!

Mesmo porque tanto mais um sistema religioso aliena as pessoas tanto mais fortalece nelas o sentido do consumo...

Penso que esta simbiose entre um mercado sempre acritico e docil e uma religiosidade autoritária e alienadora torne-se amplamente desastrosa a longo prazo.

E que deste pacto ou aliança informar resultem graves danos a ordem democrática.

Como mera forma, o Mercado supinamente ignora qualquer valor objetivo exterior ou superior a si.

Sendo assim como poderá vir a assumir a primazia do espírito democrático laicista????