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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Ainda a alienação - Formas ideais

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Dando continuidade ao elenco de alienações ideais elaborado por nós no artigo anterior, acrescentamos algumas outras formas:

1) O fixismo ou imutabilismo social.

Esta forma de ocultação da realidade consiste em imaginar ou supor que a organização social por nós vivida sempre tenha sido assim em todos os tempos e lugares, ignorando a existência de sociedades não capitalistas tanto no passado como no tempo presente.

Evidentemente que ela decorre de um padrão de pensamento bastante comum entre as pessoas mais simples e desinformadas, as quais sequer podem imaginar o mundo ou a vida sem os objetos e coisas que são próprios do nosso tempo. Daí nossos jovens imaginarem que os celulares ou a Internet sempre existiram. Já os que pertencem a nossa geração tem imensa dificuldade para conceber um mundo sem aviões ou automóveis; mesmo sabendo que o avião foi intentando em 1911 e o automóvel por Benz e Daimler pelos idos de 1889. Nossos bisavós nasceram e viveram um bom tempo sem automóveis e aviões (minhas bisavós nasceram em 1870 e 1875) e nossos ancestrais sem trens ou navios a vapor... E no entanto, como disse, nos comportamos todos como se tais aparelhos sempre tivessem existido.

E pensar que o fósforo, o papel, a sela, a ferradura, o vidro e a escrita... tudo teve de ser inventado. E que antes de terem sido inventados inexistiam. Sem que por isso as pessoas praticassem harakiri ou se suicidassem. Como não nos suicidaremos caso os celulares ou a internet deixem de existir. No caso da Internet sua desaparição constituiria uma tragédia em todos os sentidos, algo equivalente a desaparição da imprensa. Mas mesmo assim a maioria de nós sobreviveria a seu fim, bem como ao da TV, do rádio e da própria imprensa. A cultura declinaria certamente e passaria por maus bocados, mas não morreríamos por isto... Tempo houve em que os homens viveram ser arado, torno e roda. Como nossos ancestrais mais remotos haviam sobrevivido sem cerâmica, cabanas, roupas ou mesmo o fogo. Afinal tudo começou com uns toscos implementos de osso e madeira e em seguida de pedra lascada há alguns milhões de anos.

Também as formas de organização social precisaram ser reinventadas ou reformuladas em diversas ocasiões. A própria estrutura familiar conheceu o matriarcado, a poliandria, a poligamia, o patriarcado, a dissolubilidade, etc até chegar a constituir-se no Ocidente, por influência do judaísmo farisaico em algo como patriarcal, monogâmico e indissolúvel. Diversas civilizações e culturas no entanto jamais assumiram semelhante forma, assim entre os muçulmanos prevalece a poligamia até o tempo presente.

Diga-se o mesmo quanto a produção e distribuição de bens. Nada mais absurdo do que supor que sempre vigorou a doutrina do livre mercado. A qual principiou a impor-se no Norte da Europa Ocidental após o fim da Idade Média, espalhando-se paulatinamente por todo este continente ao cabo do século XIX, afirmando-se nos EUNA (os EUA) no final do mesmo século e a partir do século XX alastrando-se pelo mundo inteiro. Antes que esta nova ordem desse os primeiros passos pelos idos do século XVI ou XVII vigorava naquele mesmo cenário e por quase toda Europa (França, Alemanha e parte da Itália) a Ordem feudal ou estamental. Do mesmo modo como ainda hoje existem pelo mundo diversas culturas que jamais atingiram algo parecido com a ordem feudal, quanto mais a ordem liberal economicista...organizando-se economicamente doutro modo.

Os paladinos e apologistas do sistema capitalista classificarão muito facilmente todas estas culturas, sociedades e civilizações tal e qual classificam a Idade Média, como algo precipuamente atrasado ou como um palheiro de trevas... E no entanto qualquer aborígene poderia responder-lhe dizendo que ao menos eles, os primitivos, os rudimentares, os atrasados, etc não fabricavam fomes. Conheciam a calamidade da fome, mas não a manipulavam intencionalmente. Poderiam dizer ainda que se não conheciam as grandes fortunas, tampouco conheciam situações de miséria. E que se não produziam ciência tampouco vendiam ou negociavam seus resultados, excluindo considerável parte dos cidadãos quanto a sua fruição...

Tudo quanto quero dizer é que se os marxistas pecam gravemente contra a verdade na mesma medida em que tendem a encarar as Idades primitiva, antiga e média em termos de relações burguesas, continuam reproduzindo vícios, quimeras e mitologias engendradas pelo próprio liberalismo econômico, o qual não poucas vezes pretendeu afirmar-se como algo sempre presente no cenário da História. No entanto é absolutamente certo que os primitivos, os antigos e os medievais jamais conheceram a forma capitalista de produção e organização ou as categorias de classe, salário, burguesia, capital, etc enfim um ideal economicista de existência. Embora as relações econômicas existissem - o que é obviedade de minha parte - jamais lograram absorver as demais esferas da sociedade ou mesmo sobreporem-se a elas de modo tão cabal. Certamente havia exploração, opressão domínio mas não de natureza necessariamente econômica. Nas Sociedades primitivas ou antigas nem sempre o poder esteve associado ou subordinado aos interesses de ordem econômica. Havia ali outro sentido e outras formas de regulação no que tange a ordenação do poder. Castas, estamentos e outras categorias sociais do passado não podem ser encaradas como sinônimo de classe ou postas em relação direta com necessidades ou valores de natureza econômica. Cf Polanyi 'A grande transformação'

Resta-nos concluir que se a Sociedade Ocidental nem sempre foi capitalista, pode naturalmente vir a deixar de se-lo, pelo simples fato de inexistir qualquer vínculo essencial entre a organização social e os moldes capitalistas de produção, podendo esta Sociedade vir a atingir qualquer outra forma.

É exatamente esta conclusão óbvia que exaspera os adeptos do sistema, os quais não menos que os místicos comunistas encaram a própria ordem capitalista como um 'fim da História' (Fukuiama) em termos de algo definitivo e insuperável. Havendo inclusive que deplore o capitalismo e considere-o como insuperável apostando no fim da Civilização ou melhor da humanidade. Assim a evolução social nos teria conduzido a este beco sem saída. T S Elliot era um destes que associava o capitalismo ao desencanto ou a quebra da magia e que ao mesmo tempo não acreditava que era possível vence-lo. Outros como, o grande Berdiaeff, notável critico do sistema, chegaram a flertar com o catastrofismo escatológico, resíduo judaico, ainda hoje presente na maior parte do Cristianismo sectário.

Diante de tudo quando registramos no parágrafo anterior fica bastante fácil compreender o porque do apelo obstinado dos liberais ao imutabilismo. O qual conseguiu intoxicar as mentes de não poucos intelectuais ao menos até 1858, quando Ch Darwin, o sempre odiado Darwin, vibrou-lhe tremendo golpe pelo simples fato de aniquilar os fundamentos mais remotos da concepção fixista, tributários do pensamento fetichista e da mitologia judaica, assumidos até então pela generalidade do Cristianismo. No momento em que Darwin demonstra biologicamente o fato do transformismo ou do evolucionismo, impondo uma concepção a um tempo natural e a outro dinâmica em termos de botânica e zoologia, torna-se evidente que esta concepção havia de transladar-se para todas as esferas da existência humana, assim da organização social, o que de fato foi verificado e confirmado pela ciência histórica. Expurgado do seio da Biologia como fruto de uma intromissão indevida, o fixismo perdeu todos os seus créditos, inclusive nos domínios da História, passando a ser encarado com o sinônimo de estupidez.

Nem por isso parte dos apologistas dos sistema pode fugir a tentação de apresenta-lo como onipresente e imutável aos bípedes comedores de alfafa que fazem parte de seus rebanhos... Lamentavelmente as pessoas simples continuam deixando-se levar pela imaginação, na mesma medida em que não conseguem desprender-se da crença fetichista no criacionismo. Donde topamos mais uma vez com os tentáculos do fundamentalismo religioso e sectário, cujo fim é impedir as massas de pensar...

2) No entanto tal e qual se diz que dos ossos da quimera brotaram guerreiros ou que das cinzas de uma ave sai outra ave, das cinzas do criacionismo ou melhor de seu oponente que é o evolucionismo, sobretudo sob a forma acanhada do darwinismo crasso brotou nova forma de alienação, destinada mais uma vez a narcotizar os intelectuais sem consciência ética.

Claro que nos referimos ao darwinismo social, doutrina ainda hoje bastante popular entre os anarco individualistas, ANCAPs ou mesmo entre os simples liberais economicistas.

Não ignoro que o novo sedativo ideológico ou que a nova arma destinada a propaganda, tenha sido forjada por Herbert Spencer e não por Ch Darwin. A própria expressão tão exaustivamente discutida 'Sobrevivência ou triunfo do mais apto' foi cunhada pelo pensador e sociólogo de Derby. Diante disto um imenso número de cientistas darwinistas tem se esforçado para livrar a barra do santo padroeiro da Evolução... Não são apenas os papistas, os protestantes, os comunistas, os fascistas, etc que possuem hagiografia, como diz Crane Brinton. Também os cientificistas ou evolucionistas ortodoxos tem sua hagiografia e ao que parece não menos capciosa e desonesta até a manipulação. Que digo, mesmo alguém do relevo de um Kropotkin (Em sua obra clássica 'O apoio mútuo) esforçou-se por apresentar Darwin como oponente ou ao menos indiferente as fanfarronices de Spencer, em cujos braços depositava o filhote.

Sucede todavia que na ulterior edição de 'A origem das espécies' o próprio Darwin assume o polêmico termo cunhado por Spencer, o qual posteriormente será sempre compreendido como sinônimo de 'sobrevivência do mais forte'. O mais apto é o biologicamente melhor constituído fisicamente e em termos de força. Pois Darwin ao contrário de De Vries jamais concebeu o conceito chave em matéria de evolução, a saber as mutações. Ora as mutações implicam certamente desvantagem ou vantagem, mas não necessariamente em termos de força. Não se trata de competição entre seres estruturalmente iguais em termos de força física como decorre da doutrina de Malthus repisada por Darwin. A luta por alimento entre seres estruturalmente iguais, e que é muitas vezes decidida pela força mas nem sempre, nada tem a ver com a evolução, pois não é ela o objeto da seleção natural. A seleção natural seleciona mutações.

Claro que Darwin deixando-se iludir pela seleção artificial chegou a imaginar que a seleção natural por sí só entre exemplares estruturalmente idêntico produziria as variações estruturais ao cabo das quais surgiriam novas espécies. Ora este viés, que ignora o verdadeiro objeto da seleção natural, i é as mutações (Se genéticas ou radioativas não nos vem ao caso) jamais superou a visão anterior que é Lamarckista e confere a seleção natural um aspecto ou poder mágico.

No frigir dos ovos da hipotética guerra continua imaginada por Malthus em termos de disputa por alimento entre seres da mesma espécie ou de espécies diversas nada sai. Ela é por definição estéril e improdutiva. Não é a fonte da evolução.

Importa saber se ela corresponde a seleção natural, enquanto elemento que testa as mutações. Isto no entanto não é objeto de um ensaio sociológico ou filosófico.

O que desejamos saber é se Darwin apoiou ou não Spencer e se em alguma ocasião pronunciou-se sobre a ideologia social que ela seu nome.

Quanto a Spencer é bem sabido, que apesar das invectivas do citado anarquista russo, Darwin referiu-se a ele ao menos uma vez em termos mais do que lisonjeiros, alcunhando-o como 'Nosso grande filósofo'. Elogio rasgado que jamais dirigiria a alguém que tivesse falsificado sua doutrina. Claro que aqui sempre podemos permanecer nos limites da Biologia e da controvérsia amarga a respeito do sentido da expressão por ele criada... Precisamos portanto saber se Darwin alguma vez ou em algum momento aludiu ao tema do darwinismo social.

Topamos precisamente com tais alusões no livro 'A origem do homem' sobretudo a respeito da descoberta da vacina e do esforço gasto pelos Cristãos com o objetivo de assistir aos deficientes físicos e mentais. Darwin estabelece uma crítica que partindo de sua concepção de seleção natural conclui pela degeneração da raça enquanto movimento inverso ao do movimento evolutivo. Todo darwinismo social esta contido formalmente em tais premissas.

Já dissemos que o darwinismo social tem pé manco ou de barro por ter Darwin como lamarckista incorrigível que era concebido a Seleção natural em termos de força ou fator único e mágico; o que vai contra tudo quanto aprendemos em termos de genética. Daí a necessidade de De Vries ter vindo em socorro da explicação darwiniana e de que fosse elaborada uma teoria sintética que considerasse a genética e incluísse o fator estocástico das mutações, no caso o elemento criador por assim dizer. A seleção natural testa o que é produzido pelas mutações ou as diferenças estruturais aparecidas nos indivíduos de uma mesma espécie.

Já quanto ao elemento estável, que é a seleção natural, tudo quanto podemos dizer é que embora deva ser compreendida enquanto situação problema, e na natureza não faltam situações problema, ou de adaptação a um meio igualmente dinâmico e hostil, certamente não pode ser compreendida no sentido romântico proposto por Malthus ou de uma guerra animal por suprimentos, seja em termos de infra espécie ou extra espécie. Claro que tais situações, vinculadas as transformações ocorridas no meio, até podem ocorrer. O problema aqui é encara-las como únicas e dar toda a evolução como algo acionado pela apetite voraz de nossos ancestrais... ou como questão de cardápio.

Para tantos quantos aceitam esta exótica doutrina os mecanismos sociais relacionados com o acesso ao poder são como que uma continuidade da Seleção natural ou como um manifestação desta lei. A qual testaria as aptidões ou méritos dos seres humanos, compreendidos não poucas vezes em termos de força ou de esperteza. Consequentemente os indivíduos desajustados, que não conseguem, adaptar-se ao sistema ou inserir-se nele - assim tantos quantos não enriquecem, os pobres, os humildes e trabalhadores - são classificados como ineptos ou fracassados, e como é esta sentença ditada pela própria natureza não há quaisquer motivos para compadecer-se deles ou para preocupar-se com sua sorte. Devem ser abandonados as forças da natureza, assim os deficientes mentais, criminosos, drogados, alcoolatras, etc  Nem se poderia questionar a organização social que executa a Seleção ou opor-se a ela como querem os socialistas. Tal oposição faria tanto sentido como opor-se a Seleção natural em termos Biológicas, afinal selecionando os indivíduos mais fortes e atribuindo-lhes o poder, é esta seleção que faz a Sociedade evoluir. Sem ela o progresso cessaria e daria espaço a degeneração social.

Claro que deste ponto de vista sistema social algum poderia ser considerado mais desenvolvido que o liberalismo econômico ou capitalismo pelo simples fato de restringir o acesso ao poder a uns poucos e estimular ao máximo a concorrência entre os indivíduos. Como se percebe capitalismo e darwinismo social encaixam-se um no outro como a mão e a luva, o que nos leva a questionar as relações existentes entre o próprio Darwinismo biológico em sua gênese e a reação de um sistema que se viu desfalcado de seu grande trunfo: O fixismo. Compreendidas em termos de manipulação ideológica. O problema foi evidentemente levantado pelos líderes e pesquisadores da antiga URSS e certamente não é ocioso. De uma forma de outra essa relação com o capitalismo precisa sim ser considerada e ponderada. Mesmo que choque os cientificistas partidários da neutralidade ingênua.

O quanto nos resta a dizer é que a versão ingênua do darwinismo social é aquela segundo a qual o trabalhador pobre ou desempregado (que não enriqueceu) é vagabundo enquanto que o patrão é sempre um herói ou um homem esforçado e comedido que partiu de baixo ou que sendo assalariado tornou-se milionário. Já nos referimos diversas vezes a esta fábula ou manobra. E por isso esgotamos o quanto tínhamos a dizer por hoje.

Continue acompanhando esta série de artigos sobre as formas de alienação ideais e a fuga e nossos demais ensaios neste Blog e caso encontre sentido neles ou aprecie-os faça a gentileza de matricular-se entre nossos seguidores e de recomenda-lo a seus amigos, colegas e alunos. Toda colaboração e crítica ponderadas são bem vindas!

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

As fontes medievais da vida democrática





Estas reflexões estão fundamentadas nas obras do sociólogo agnóstico Belga Léo Moulin (1906 - 1996)

Ocioso registrar que o espírito democrático tenha feito sua primeira aparição na Sociedade grega pré Cristã.

E que tenha tenha ressurgido de diversas formas ou modos no contesto medieval: Em 1215 por ocasião da assinatura e do reconhecimento da "Carta Magna" pelo rei João sem terra, em 1231 pela reunião do primeiro Landsgemeinde em Uri, em 1275 quando Llull elabora o pequeno tratado sobre as eleições, em 1387 quando Adhemar Fabri reconhece Genebra como uma República civil, nesse mesmo século, etc

No entanto a forma democrática havia sido caído em completo desuso após a afirmação dos Reinos Bárbaros no século VI. Ao menos quanto a forma e a macro estrutura política a ruptura parece ter sido absoluta.

O que nos leva a seguinte questão: Qual a fonte ou as fontes que levaram ao resgate de certos elementos da forma democrática a partir do século XIII e que culminaram com a reafirmação quase que total deste padrão a partir de 1789?

Extinguiu-se por completo entre as sociedades ocidentais ou europeias da alta Idade Média o espírito democrático semeado pelos antigos grego?

Refugiou-se em alguns setores? Em quais setores?

E quanto as formas. Lograram sobreviver nesses setores?

Como? Por que e em que medida?

Via de regra, até bem pouco tempo, era comum a opinião segundo a qual o 'espírito democrático' fora reencontrado nos livros antigos trazidos de Bizâncio ou exumados por algum humanista (em alguma biblioteca) a partir do século XV.

Os humanistas deram com a teoria ou a sugestão democrática em livros velhos e a partir dos livros velhos é que entraram em contato com o pensamento grego.

Por isso o ideal democrático Renasce (como todos os demais aspectos da cultura helênica pré Cristã) porque havia morrido no intercurso da Idade Média.

Destarte podemos falar numa extinção do ideal democrático ou da paixão pela liberdade política.

Muitos ainda hoje pensam exatamente assim.

Embora já contemos com algumas outras sugestões.

A primeira diz respeito a revindicação das liberdades comunais. Luta que é caracteristicamente medieval e que remonta no mínimo ao século XIII.

Como se vê, nem tudo na Idade Média é trevas, como juravam os pensadores de matriz protestante para os quais o papismo não era capaz de produzir cultura.

Há todo um histórico bastante complexo em torno de tais lutas habilmente detalhado a partir dos séculos XIX e XX.

Havia ali espírito democrático. Embora não possamos identificar com absoluta certeza donde tenha vido.

Importa questionar donde teria extraído as formas que assumiu.

É exatamente aqui que os estudos de Léo Moulin destroçando o véu dos preconceitos, parece lançar alguma luz.

Todavia antes de adentrarmos por este terreno gostaria de registrar a existência de uma corrente de pesquisadores que busca demonstrar a existência de uma ligação entre as primitivas comunas do Sul da Europa e a sobrevivência do municipalismo romano em certas regiões de Portugal e da Espanha. Que o sentido do municipalismo seja comum em algumas regiões daqueles países é fato estabelecido, que as raízes deste sentido tenham sido implantadas pela cultura romana também nos parece exato. Agora se alguma estrutura ou organização municipal daqueles rincões escapou as invasões germânica e muçulmana, chegando ao século XIII, é o que se deve demonstrar. No entanto não considero impossível ou absurda a sobrevivência de alguns municípios romanos e consequentemente da cultura municipalista sob a tutela de seus respectivos Bispos.

A partir dos séculos XII e XIII, quando as diversas culturas da Europa vão entrando em efetivo contato, este sentido teria se deslocado para outros lados (como o Sul da França e o Norte da Itália) e inspirado a luta pelas liberdades comunais. Ademais a sobrevivência de municípios e do espírito municipalista também teria sido possível em todo litoral da Itália e junto as cidades gregas do Sul, sempre disputadas entre o Império Bizantino e os poderes vizinhos.

No entanto ao que parece, podemos detectar a existência de outro nicho de formas democráticas e exatamente onde menos esperamos, no seio da toda poderosa e por vezes autocrática e por vezes opressora Igreja Romana.

Na esteira do citado Moulin estamos nos referindo as grandes ordens religiosas de caráter mendicante criadas a partir do século XIII, assim aos Franciscanos (1210) e  aos Dominicanos (1215). Ponto pacífico que ambas as ordens tenham optado por eleger democraticamente seus oficiais e por solucionar os problemas internos por meio de assembleias ou reuniões anuais cognominadas capitulares.

Quase todos os problemas das respectivas ordens era solucionado deste modo ou seja internamente, sem que a Cúria romana precisasse interferir. Somente a partir de Trento (sec XVI) é que os recursos a Roma foram se tornando mais e mais comuns.

No contesto medieval as ordens religiosas gozaram de ampla autonomia e optaram por criar e aprimorar uma estrutura bastante democrática do ponto de vista formal.

A respeito dos franciscanos os estudos na área ainda são bastante insipientes. No entanto, quanto aos dominicanos, muito material acabou sendo reunido nos últimos dois séculos e o saldo tem sido cada vez mais surpreendente. Basta dizer que o mecanismo do 'Impeachmeant' foi previsto e criado por eles.

Neste sentido há muito que se pesquisar, descobrir e sistematizar.

Uma coisa é certa. Todas as formas, regimes e sistemas de governo estão presentes nas diversas ordens religiosas: Temos assim o Federalismo Beneditino, com a autonomia abacial; a monarquia eletiva e constitucional dos jesuítas, o parlamentarismo dominicano, o presidencialismo, etc

Julgo se conhecida de todos e por todos (entre a gente culta) a dependência de Th Jefferson para com o Cardeal Roberto Belarmino em termos de teoria política. O próprio Schaff D S por sinal - e cuidando refutar a tese papista - refere explicitamente (Em 'Nossa fé e a de nossos pais' caput XXIX) que a leitura de Belarmino foi recomendada a Jefferson em 1823 por Madison. Ora Madison, co autor de O Federalista (Juntamente com Jay e Hamilton) é tido em conta de 'Pai da Constituição' Norte americana e teria buscado seus fundamentos na antiga República romana, no termo 'misto' de Políbio.
Aqui a fonte mais provável teria sido o Volume segundo das "Controversias" (Disputationes) em que trata especificamente da Igreja e dos concílios. De fato um volume das controvérsias de Berlarmino anotado por Th Jefferson e encontrado em sua Biblioteca acabou por impugnar duma vez por todas os sofismas de Schaff.

Dentre outras coisas o Pr Yankee pretendeu apresentar o cardeal papista como um defensor vulgar do absolutismo monárquico, esquecendo-se de que o campeão desta doutrina autocrática fora justamente o protestantíssimo rei da Inglaterra, Tiago I, o qual nada fica devendo a Hobbes. Belarmino muito pelo contrário dedicou duas de suas obras contra a pretensiosa teoria do soberano inglês e nelas susteve a doutrina da transmissão ou designação, bem como a do poder genérico. Admitindo que o objeto da soberania deve ser escolhido pelo povo. Portanto para o clérigo latino a autoridade passa de Deus ao Povo e deste ao rei ou aos governantes.

Naturalmente que o tema da democracia direta não ocorre a Belarmino da mesma maneira como não tem sido reeditado e posto nesses nossos tempos de internet e meios de transporte super desenvolvidos. Pelo simples fato de que a democracia pura já havia sido exposta as mais duras críticas, impugnada e desmerecida pelo historiador Políbio, partidário de uma forma mista capaz de incorporar, inclusive a forma monárquica (!!!). Cumpre observar ainda que nem mesmo o já citado Madison ousou discordar do historiador helênico, assumindo em certa medida suas críticas direcionadas a democracia direta. Era crítica do tempo e relacionadas com a experiencialidade das antigas cidades estado gregas, e prolongaram-se com maior ou menor fundamento até o aperfeiçoamento dos meios de comunicação e a criação da Internet, quando de fato tornaram-se obsoletas.

Dificilmente Belarmino teria sido capaz de ultrapassar tais limites. Todavia apresenta-lo como absolutista nos termos de Tiago I e Hobbes corresponde, no mínimo a uma boa dose de ignorância e ele certamente esta bem mais próximo de Madison e Jefferson a quem deve ter servido de fonte ao menos como expositor de sistemas.

Ocioso é recordar aqui a relação existente entre a teologia jesuítica e a nova escolástica hispânica e a escola tomista, o que nos remete mais uma vez a ordem dominicana e não menos a sua estrutura 'democrática'.

Agora se recuamos um século antes, i é para meados do século XII, topamos com algo por assim dizer monumental. Referi-mo-nos ao Capítulo geral de Citeaux, a grande abadia cisterciense. O qual congregava-se anualmente, reunindo os abades ou representantes eleitos pelas principais abadias europeias - apud 'Carta caritatis' - com o objetivo de solucionar democraticamente sobre todos os assuntos da ordem. Para L Moulin estamos diante do modelo embrionário de todas as assembleias políticas europeias representativas ou deliberativas. O que de fato nos remete a estrutura de um Parlamento contemporâneo.

Julgamos necessário ressaltar que as primeiras cortes portuguesas, congregadas em Coimbra, no ano de 1211 pelo rei Afonso II também são posteriores em quase um século ao Capítulo geral de Citeaux e que a presença desta ordem no Reino era bastante antiga e vigorosa. Pois havia sido trazida e este pais pelo próprio Conde D Afonso cerca de 1100, datando de 1178 a grande abadia de Alcobaça.

O exemplo de Citeaux foi tão clamoroso que no mesmo ano em que João sem terra assinada a carta de direitos (1215) o IV concílio de Latrão determinou que todas as ordens religiosas existentes realizassem um capítulo geral a cada ano. 'Dicionário da Idade Média' H R Loyn p 94 

O estatuto democrático dos cistercienses, elaborado por Harding antes de 1134, foi editado e comentado por J M Canivez (Vol I 1933) sob o título de: "Statuta capitulorum generalium ordinis cisterciencis"

"As eleições 'seculares' tiveram seu ponto de partida no sistema posto em prática pelos canonistas medievais com o objetivo de escolher os oficiais da Igreja." Helmholz VI

Agora que temos para além de 1100???

Continua