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sábado, 18 de março de 2023

Psicologia, psicanálise, Freud e a questão da multiplicidade de existências - Reflexões sobre a obra de Hermínio C Miranda 'A memória e o tempo' Edicel 1984 - Parte VII


UM AMONTOADO DE PRECONCEITOS - O MATERIALISMO, O DOGMATISMO E A RECUSA.


           Certa vez o conselheiro Aksakoff assim se expressou a propósito dos fenômenos paranormais ou 'heterodoxos': "Os fenômenos correm atrás dos cientistas e os cientistas fogem dos fenômenos.". Já a mistagoga Blavatsky referiu-se a certos acadêmicos como "Psicofobos" talvez parafraseando Platão. 

            Ao contrário do que se poderia pensar não era a importância do cérebro e sua conexão com o pensamento ignorada pelos antigos. Bastando para tanto mencionar Herófilo de Kalkedon e Eresístrato de Chios. Eresístrato no entanto, juntamente com os hormônios ou fluídos cerebrais um Pneuma que pode ser compreendido como força vital ou espírito.

              Efetivamente uma teoria materialista ou atômica foi elaborada pelo pensador Demócrito de Abdera, mas não com base empírica ou pautada em observações fisiológicas em torno do cérebro. 

              No entanto, ao que parece, a ideia de que o pensamento corresponde a uma espécie de secreção produzida pelo cérebro, surge apenas na segunda metade do século XVIII. Impõem-se no entanto a alguns cientistas como dogma ou princípio fundamental e indiscutível.

               Sobre a primeira síntese materialista contemporânea, o "Sistema da natureza" (1770) do Barão de Holbach temos duas apreciações que falam por si mesmas: A primeira é a do Marquês de Sade (A respeito do qual disse o ultra insuspeito Michel Onfray "Fazer de Sade um herói é intelectualmente bizarro.") segundo o qual era esse livro - Que lera seis vezes e de cujo sistema se considerava um 'mártir' - um "Livro de ouro" que "Deveria estar em todas as bibliotecas e cabeças."

               Necessário dizer que o Sistema de De Holbach sendo determinista e mecanicista excluía por completo a noção de livre arbítrio ou de liberdade. Eis porque, para Sade, imoralidade e crime eram palavras vazias uma vez que todas as ações humanas eram fruto da necessidade, assim o estupro, a tortura, a agressão, o assassinato, etc

               Afinal, como ensinava o profo Carus, o materialismo "sendo mecanicista por necessidade, tudo explica por combinações e agrupamentos de átomos. Sendo assim todas as variedades de fenômenos existentes: O nascimento, a morte, etc não são senão o resultado puramente mecânico das composições e decomposições, mera manifestação externa de átomos que se agregam e separam." Não há portanto outras opções ou possibilidades e tudo, absolutamente tudo, inclusive o crime - Como ensina Sade - torna-se não apenas necessário mas inevitável. 

               Vejamos agora que diz o grande Goethe sobre a obra prima de De Holbach: "Quintesência da velhice enfadonha e insípida." 

                Moleschott no entanto concorda perfeitamente com De Holbach e Sade "Caso uma razão ou personalidade dirigisse a matéria a um determinado fim, A LEI DA NECESSIDADE DESAPARECERIA da natureza, e cada fenômeno seria apenas possível."

                Agora demos a palavra a Pierre Cabanis: "Vemos as impressões chegarem ao cérebro por intermédio dos nervos; elas se acham, então, isoladas e sem coerência. O órgão entra em ação, age sobre as impressões e as reenvia metamorfoseadas em ideias que se manifestam, exteriormente, pela linguagem da fisionomia ou do gesto, pelos sinais da palavra ou da escrita. Concluímos, com a mesma segurança, que o cérebro DIGERE, DE ALGUM MODO, ESSAS IMPRESSÕES; E QUE REALIZA A SECREÇÃO DO PENSAMENTO." Eis o que diz o homem... e o que dá por demonstrado - Sem que o seja.

             Completa-o Carl Vogth "Os pensamentos tem com o cérebro a mesma e exata relação que a bílis tem com o fígado e a urina com os rins." só faltou completar: E as fezes com os intestinos...

              Ouçamos agora a Broussais: "Desde que eu soube, pela cirurgia, que o pus acumulado à superfície do cérebro destruía nossas faculdades, e que a saída desse pus lhes permitia o reaparecimento, não as pude considerar mais de outras forma, as ideias, como produtos do cérebro vivo, mesmo sem saber que era cérebro e que o que era vida." Testamento.

               Observem agora a lógica desse senhor - Tens um revólver que não funciona porque está enferrujado, removes e ferrugem, ele funciona... pronto, o tiro é produzido apenas pelo revólver, se necessidade de uma gente humano que lhe puxe o gatilho...

                Demos no entanto a palavra a Moleschott: "O pensamento não é mais que um fluído, assim como calor e som, é um movimento, uma transformação da MATÉRIA CEREBRAL, a atividade cerebral é uma propriedade do cérebro, tão necessária como a força, por toda parte inerente a matéria, de que é caráter essencial e inalienável. É IMPOSSÍVEL QUE O CÉREBRO INTACTO NÃO PENSE, COMO É ABSOLUTAMENTE IMPOSSÍVEL QUE O PENSAMENTO SEJA LIGADO A OUTRA MATÉRIA QUE NÃO O CÉREBRO." 

                     E noutra parte continua: "Bem sabeis que a abundância excessiva do líquido céfalo raquidiano produz a idiotice, a apoplexia é seguida pela aniquilação da consciência, a inflamação no cérebro causa o delírio, a síncope - Que diminui a circulação do sangue, no cérebro provoca a perda do conhecimento, a afluência de sangue venoso provoca alucinações e vertigens, uma completa idiotia é efeito necessário e inevitável da degeneração dos dois hemisférios cerebrais; enfim toda a excitação nervosa na periferia do corpo só desperta sensações conscientes no momento em que repercute no cérebro." Até aqui Moleschott.

                   
Passemos a palavra ao Dr H Tutlle "Tudo - diz ele - desde a lagarta que dança aos raios de sol até a inteligência humana que EMANA DAS MASSAS MEDULOSAS DO CÉREBRO, é submetido a princípios fixos, isso pelo simples fato de inexistir um deus." 

                    Ouçamos também a Dubois Reymond "O pensamento nada mais é além de matéria em movimento."

                    "Esse negócio de espírito nada mais é do que uma força da matéria que resulta imediatamente de atividade nervosa - Mas donde provém... Do éter em movimento nos nervos." assevera Hermann Schaffle.

                   Tudo perfeitamente aceitável, como Filosofia ou especulação Metafísica.

                   Como dado científico, tudo perfeitamente discutível. 

                   Inclusive para pensadores ou cientistas honestos como Bruchner, o qual assim responde a seus companheiros: 

                   "Em que pese o MAIS ESCRUPULOSO EXAME, não podemos encontrar analogia entre a secreção da bílis ou da urina e o processo porque se forma o pensamento no nosso cérebro. A urina e a bílis são elementos materiais palpáveis, ponderáveis e visíveis; e mais ainda, são matérias excrementícias que nosso corpo usou e agora rejeita. O pensamento, o espírito, a alma, pelo contrário, nada têm de material, não são substâncias, mas o encadeamento de forças diversas que formam unidades, o efeito do concurso de muitas substâncias dotadas de força e de qualidades.
                       Quando uma máquina feita pela mão do homem produz um efeito qualquer, põem em movimento seu mecanismo ou outros corpos, dá uma pancada, indica a hora ou coisa semelhante, esse efeito considerado em si mesmo é coisa essencialmente distinta de certas matérias excrementícias que ela produz, talvez, durante essa atividade.
                         Assim é o cérebro, princípio, fonte, ou melhor dizendo, causa única do espírito ou do pensamento; mas não é por isso seu órgão excretor. Ele produz algo que não é rejeitado, que não perdura materialmente e que se consome no momento mesmo de sua produção. O trabalho ou atividade dos rins ou do fígado se realiza sem que o saíbamos... mas a atividade do cérebro não pode existir sem que dela haja consciência completa..." 

                           
O que o nobre professor Bruchner jamais logrou esclarecer - Como lhe foi solicitado pelo Dr Janet no "Materialismo dos dias atuais, uma crítica ao sistema do Dr Bruchner" - é como o cérebro, sendo um agregado de células materiais, produziria pensamentos imateriais ou o fenômeno da consciência... 

                             Mais adiante de Moleschott foi o professor Bayson que para demonstrar que o cérebro produzia ou excretava pensamentos dava-se ao trabalho de pesar todos os sulfatos e fosfatos que consumia por meio da alimentação, após o que dedicava-se a algum trabalho mental e por fim contabilizava a quantidade de sais presentes em suas excreções i é fezes, urina e suor, visando demonstrar que a quantidade de sais excretados aumentava após qualquer trabalho intelectual...

                              Meio século passou-se até que um outro Nobel, e portanto para que um pesquisador sério, Henri Bergson repudia-se expressamente a doutrina ou ensinamento segundo a qual é a mente humana produto do cérebro ou que o pensamento seja exclusivamente elaborado por ele. O espírito, declara ele, não é matéria e não está demonstrado que seja ele mera função do cérebro. 

                              Todavia, como não houvesse um Bergson a Ideologia materialista impregnou de tal modo a ciência e suas instituições ao cabo dos séculos XIX e XVIII, que elas chegaram a substituir o Vaticano e a Inquisição com suas denuncias por heresia, excomunhões, interditos, etc enfim com seus meios de controle.

                               E já veremos como Mesmer teve seus pedidos de pesquisa ou análise aprioristicamente negados por tais Instituições, o que por si só é comprometedor. Posto que é dever dos cientistas e instituições científicas investigar.

                               Todavia, tanto mais se apegavam a certos princípios apriorísticos ou metafísicos, tanto mais esses acadêmicos temiam a realidade e suas manifestações - Justamente por não se enquadrarem em seus sistemas. Do que resultava a recusa ao exame... 

                                Os tais sábios limitavam-se a cruzar os bracinhos e declarar: Tal coisa não pode ser real - Determinando se algo podia existir ou não, conforme o esquema de mundo vigente.

                                 Foi atitude que vigorou por mais de século e infectou vários homens ilustres, a começar por Lavoisier o qual, apelando a tais e tais princípios, tachou os camponeses de simplórios ou imbecis, por insistirem que pedras caiam do céu. Feito isso compôs a famosa memória contra a existência de meteoritos e enviou-a a Academia, onde foi ovacionada pelos guardiães da ciência. Trinta anos depois tiveram os mesmos guardiões que dar razões aos camponeses imbecis - Que apesar disso tinham olhos e sabiam observar! - e admitir a existência de meteoritos! 

                Passado um século foi a vez de Th Edison, após ter apresentado seu Phonógrafo, quase ser agredido por um acadêmico francês, o qual aos gritos de - Não passais de um ventríloquo! - buscava desmascara-lo.

                Tais os tempos.

                O mais grave no entanto era a peremptória recusa, por parte de alguns, a investigar. 

                De fato, quando o fenômeno das mesas girantes chegou a França, Foulcault, no "Journal des debats" apelando a determinados princípio, não apenas negou o fenômeno, como após ter declarado que era absurdo e impossível, declarou que sequer deveria ser examinado por um cientista sério.

                 No entanto passados mais de cento e vinte anos, pudemos ler com gosto num Carl Sagan que todo e qualquer fenômeno, por insólito que fosse - A exemplo dos discos voadores ou OVNIs - deveria sim ser investigado, sendo dever faze-lo. 

                  Muito antes de Sagan, tanto o estadista Agenor de Gasparin quanto o poeta Victor Hugo - Legítimos expoentes do pensamento crítico e científico. - deram competente resposta ao grande físico -

                   "Substituir o exame pela zombaria é muito cômodo, mas bem pouco científico. O fenômeno da velha trípode, como o da atual mesa, tem, tanto quanto qualquer outro, direito a observação." Hugo in "William Shakespeare

                    "Não, eles não lerão essas coisas, mas julgarão! Julga-las-ão sem mais nem menos, do alto de suas cátedras e apelando a um argumento irrebatível: Não creio porque não creio - Simples, fácil e peremptório. Não admito tais coisas porque são impossíveis. Sendo assim perdeis vosso tempo transmitindo tais narrativas!" De Gasparin
in "Des tables tournantes, du surnaturel en général et des esprits." 

                   Acho absolutamente válido discutir teorias, explicações, hipóteses, etc discutir, por em dúvida ou negar a atuação de espíritos... Postulando a Hiperestesia, a objetivação de tipos ou a Prosopopese metagnomia, os resíduos mentais ou tulpas, desdobramentos psíquicos, etc desde que fatos não sejam aprioristicamente negados e pesquisas seriamente realizadas desdenhadas, pois aqui topamos com a desonestidade. E o fruto da desonestidade e da negação dos fatos será o descrédito da própria ciência, mormente num tempo em que os fundamentalistas e ocultistas buscam desacredita-la.

                        
                                
               



                  

             

domingo, 1 de março de 2020

Nótulas sobre o pensamento contemporâneo

- Como já dissemos nem Descartes nem Spinoza foram iconoclastas no sentido de negar por completo o passado ou o pensamento antigo. Criaram algo novo, novos espaços e setores, os quais todavia conectaram aquele passado. Tampouco Hume ou mesmo La Mothe Vayer, assim Montaigne criaram algo que fosse radicalmente novo, remontando sempre aos céticos do passado ou a tradição agostiniana. Kant é quem criou algo de novo ou um novo sistema, merecendo ser classificado como Copérnico ou Lutero da Filosofia. Foi ele que, buscando elaborar uma solução de compromisso entre o ceticismo e o dogmatismo, produziu o idealismo transcendental ou crítico condenando o exercício da Metafísica ou melhor da Teodiceia e buscando justificar o conhecimento derivado do empirismo, do que resultou a ideologia positivista. Buscou assim Kant evadir-se ao materialismo, ao espiritualismo, ao teísmo e ao ateísmo, lançando as bases do agnosticismo.

No entanto este mesmo Kant, enquanto pensador do conhecimento ou gnoseológico, fugiu a simples empiria e praticou a especulação metafísica. Resulta disto que não repudiou a Metafísica como um todo, e que fez um recorte, focalizando sua crítica na Teodiceia i é em Deus e por ext na imortalidade da alma, com o objetivo de apresentar tais problemas como intangíveis ao intelecto e assim como insolúveis. Agora por que fez Kant este recorte, fixando arbitrariamente (Onde achou ou quis.) as "Colunas de Hércules" da reflexão? Para dar competente resposta a indagação acima devemos ter em mente que esse tão aclamado Kant era Luterano - Jamais rompeu formalmente com essa fé - e que Lutero, irracionalista e fideísta (Agostiniano), tinha Aristóteles, a Filosofia greco romana, o pensamento clássico, a Teodiceia naturalista e a própria razão em conta de seus principais inimigos (Mais do que o Papa romano). Lutero queria tudo atribuir a fé e Kant seguiu-o, atribuindo o tema de Deus a religião, a fé ou aos livros religiosos, e dando todos os antigos gregos por perfeitos estúpidos. Kant foi um imitador de Pirro no sentido de buscar justificar metafisicamente ou filosoficamente um preconceito de origem religiosa, no primeiro caso o Luteranismo e no segundo o Busdismo... a dinâmica é a mesma - A Epoché continua sendo budista (Assim a ataraxia) e o fideísmo gnoseológico continua sendo luterano, sem que haja verdadeiro conteúdo filosófico em tais afirmações. No primeiro caso temos apenas uma mutilação arbitrária e no segundo uma fuga face a reflexão filosófica. (cf Kant e a Teologia)

- Quanto a linguagem ou expressão, bastante complexa, com que nos deparamos na obra de Kant há muita crítica injusta e destemperada. Que hajam graves contradições - Apontadas com habilidade pelo Pe Thiago Sinibaldi - em seu pensamento é assente e demonstrável, que tenha cunhado expressões ocas nos parece exagerado e injusto. Kant visava dar golpe de misericórdia na escolástica (A qual recusava-se a estudar - O que nos parece bem pouco filosófico). Para tanto foi a suas fontes mais remotas i é a Aristóteles (Campeão da Teologia natural) cujo vocabulário técnico, bastante complexo, adota e assume. Kant não tem culpa de que os modernos ou pós modernistas ignorem supinamente o aparato conceitual aristotélico.

- Resta dizer que quem é por Kant, esta em conflito aberto com tudo quanto o antecede, assim com Parmenides, Anaxágoras, Sócrates, Platão, Aristóteles, Speusipos, Straton, Dikaiarkos, Xenócrates, Crantor, Zenon, Antioco, Cícero, Sêneca, Filiponos, Eurígena, Aquino, Scottus, Phleton, Ficcino, Pomponnazi, Telésio, Erasmo, Bacon, Descartes, Spinoza...

- Outro é o caso de Hegel, metafísico confesso, o qual prosseguiu decididamente na senda traçada por Leibnitz, construindo expressões ainda mais grotescas, pomposas e vazias (cf Schopenhauer)  Criou uma Filosofia de bolha de sabão ou bexiga, a custa de tais expressões sem sentido e disto resultou outro sistema bastante aclamado em torno do Estado, o qual a partir de um lento processo imanente identifica com o pensamento divino. Deste homem confuso e desorientado partiram todos os idealistas alemães como Fichte, Schelling e aqueles tão criticados por Marx na 'Ideologia alemã', cada qual apresentando uma versão própria da 'filosofia' e pagando tributo a um subjetivismo desbragado. A reação, como não poderia deixar de ser, foi a 'inversão' de Marx, i é, em termos já de materialismo/ateísmo ou de positivismo. Em certo sentido Hegel, pela via da compulsão, conduziu a metafísica alemã ao colapso e a morte, fortalecendo a posição dos kantianos e marxistas.

- Marx, não se satisfazendo com a metafísica materialista mecanicista dos iluministas franceses (Helvetius e De Holbach), adicionou alguns temperos hegelianos e a partir de uma análise histórico social, formulou sua doutrina do materialismo dialético. O preconceito materialista seja sob um ou outro rótulo, cegou-o e desviou-o para sempre de um são realismo. Ele jamais pode reconhecer, em pé de igualdade com as forças materialistas de produção, o potencial concreto das ideias fossem ou não religiosas. Concedemos que deparou com uma Sociedade materialista e economicista e com uma religiosidade - Representada pelo protestantismo - derrotada e servil... No entanto este encontro não justifica a generalização abstrata com que pretendeu, a partir desta realidade particular ou específica, explicar todo processo histórico, desde a História primitiva, incluindo a Antiguidade e a I Média. Fugiu aos limites do simples recorte e metafisicou.

A simples existência dos mártires Cristãos dos primeiros séculos ou da substituição do paganismo antigo pelo Cristianismo, a dinâmica do islamismo ou do Japão e China budistas e o significado do socratismo deveriam te-lo alertado a respeito de suas precipitações. Especialmente após Fustel de Coulanges - Antecipando Weber, Graves, Dawson, Butterfield e Voeglin - ter publicado sua monumental 'Cidade antiga'.

- Atenuando as críticas nem sempre justas e sensatas de Popper convém admitir que a obra de Marx possui dois aspectos: Um objetivo ou como dizem científico que é sua análise crítica do capitalismo mormente representada pelo Capital. Esta não apenas permanece válida como foi utilizada por J M Keynes. O outro aspecto parece fugir a sua orientação - Não a nossa! - materialista, pré positivista, anti metafísica, etc é seu apelo a uma normatividade ética ou ideal ou seu futurismo. Marx, ao contrário dos demais empiristas/materialistas ressente, ao fim de tudo, uma influência Socrático/Cristã. Pelo simples fato de não contentar-se com uma realidade dada (O que é) tida em conta de injusta, ousando crítica-la e substitui-la por uma outra ordem, a qual só pode ser derivada de princípios ou valores ideais. Disto resultou a Ideologia Comunista, a qual apesar de seus equívocos monstruosamente bizarros, foge ao conformismo anti ético e até cruel de seus críticos ateus, materialistas, positivistas e cientificistas. Ora os humanistas e Cristãos, mesmo discordando quanto aos métodos propostos por Marx e seus colaboradores, não podem acompanhar os ateus, materialistas, positivistas e cientificistas quanto a aceitação passiva de uma realidade ingrata ou injusta. E por isso, em que pesem os erros gravíssimos do comunismo, ousam declarar que a posição de parte de seus críticos é ainda pior e mais grave.

- Já aludimos diversas vezes ao erro de Freud. Como Marx ele fugiu aos limites do recorte e dando com uma realidade cultural ou particular, abstraiu do tempo do tempo e do espaço, elaborando uma metafísica pan sexualista posteriormente emendada ou reformada com base nas sensatas críticas elaboradas por seus ex discípulos. De modo que num determinado momento o próprio Freud - Sem jamais retratar-se formalmente - rompe com o paradigma sexualista e admite outros princípios de regulação. Sua abstração metafísica, como a de Marx, é grotesca. Não seu método ou o caráter relativo de suas constatações, menos ainda o resultado de sua crítica ao puritanismo/moralismo vigente. Claro que a partir de suas críticas parte da Sociedade passou ao extremo contrário, i é a um sexismo desbragado, com sérias consequências sociais, políticas e culturais. Em que pese este desvio continuamos buscando utopicamente por um padrão de equilíbrio em que a sexualidade humana seja aceita com naturalidade, mas, sem ser deificada ou exaltada acima de tudo.

- Darwin alias é anterior a Freud. Porém queríamos estabelecer uma conexão entre o erro de um e de outro. Darwin não pertence aos domínios da Filosofia ou do pensamento abstrato posto que pesquisador ou naturalista. Era ele um homem do empirismo. No entanto sua formulação teorética - já antecipada por Lamarck, St Hillaire e outros - não poderia deixar de incidir sobre todos os domínios do pensamento humano - Psicologia e teologia, passando pela economia e pela sociologia. Foi a partir dele que o naturalismo converteu-se num paradigma, mais do que a própria evolução. Assim ele coroa a obra de Copérnico, Agricola, Newton, Hutton e Buffon/Lamarck/St Hilaire, demonstrando que o corpo humano esta inserido na ordem natural e que também este homem vaidoso não passa de um animal, ainda que racional. Não é o centro do universo, tampouco o centro da terra e sequer o centro da vida. Destarte terá este homem de procurar sua particularidade gloriosa na capacidade perceptiva e racional para a reflexão e para a apreensão das verdades metafísicas. A Filosofia é que lhe trará o sentido especial que sempre buscou por caminhos errados. É este homem um dentre tantos animais, vagando sobre um grão de pó na periferia do espaço... E no entanto, como dizia Pascal nos 'Pensamentos', tem consciência de si ou pensa, enquanto que nem Júpiter, nem o Sol, nem Arcturo tem consciência de si ou capacidade para pensar. É um caniço, um verme, um grão de poeira ou uma átomo perdido na imensidão do universo, e ainda assim caniço, verme, poeira ou átomo pensante...

- Einstein, o qual jamais supos que sua teoria física da relatividade geral fosse gnoseologicamente relativa ou duvidosa, demoliu o mito do espaço absoluto. Tudo quando temos em nosso universo é uma relação entre corpos em movimento. Neste universo que se expande ou amplia tudo esta em movimento, pois o estado de repouso é relativo a certas situações vividas por nós humanos. Este computador bem pode estar em repouso com relação a mim... Move-se no entanto caso esteja eu num trem. Move-se com as placas tectônicas, com o planeta, com a galáxia, com o universo... Tudo é movimento. E o tempo uma propriedade deste universo em expansão. Por isso nosso referenciais de tempo são relativos a terra ou ao sol, não absolutos. Quiçá o aspecto mais interessante da teoria da relatividade geral não seja a teoria em si - Simples dedução com base nas experiências feitas por Morley em 1881 - mas sua expressão (Tomada a Descartes e Newton) em termos matemáticos cujo sentido e exatidão pouquíssimos intelectuais foram capazes de compreender.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Os cavaleiros do apocalipse vs obscurantismo bíblico/protestante


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Já assinalamos que quase um século antes de ter sido, o heliocentrismo, condenado pelo papa romano, fora condenado, na pessoa de Copérnico, pelo pai e criador do protestantismo... Significativo que a Igreja Romana não tenha sido fundada pelo tal papa mas que o movimento protestante seja obra desse Lutero obscurantista.

Ora este Copérnico, juntamente com Darwin e Freud foi um dos responsáveis, aliás o primeiro, a atingir a megalomania humana no coração. Afinal o diácono polonês deslocou o pobre homem do centro para a extrema periferia do universo. Assim como Darwin lançou dos céus na terra ou no mundo animal a que pertencia por definição, inda que apresentado como rei... Ora ser racional não é ser rei e tampouco a racionalidade elimina a animalidade... Freud - Cujas teses meio metafísicas são bem mais duvidosas e questionáveis - por fim demonstrou que não é este homem uma unidade estável mas uma fragmentação dinâmica.

Agora se Copérnico ou heliocentrismo, cujo anátema foi levantado pela igreja luterana com vinte anos de atraso face ao papismo (Encarado por muitos como a quintessência da obscuridade), foi assim tratado pelas 'bens bíblica, imagine o amigo leitor o que estava reservado aos continuadores de Copérnico inseridos nessa cultura protestante que muitos julgam tão progressista.

O próprio Servet, mandado queimar a lenha verde pelo reformador Calvino na praça Champel sob a acusação de arianismo ou anti trinitarismo, aliás mero fruto ou resultado de seu livre exame não tão livre, não deixou de ser ridicularizado pelos fanáticos por ter defendido a circulação do sangue movido pelo coração, o que efetivamente foi demonstrado por Acquapendente e Harvey meio século depois.

Também Melanchton, ao ser confrontado por Clavius e Maestlin sobre as manchas solares, preferiu fechar obstinadamente os olhos, o que repercutiu no luteranismo, fazendo com que Ihonnes Kepler, como seu mestre Tycho Brahe seguissem em demanda da Áustria, centro do império Habsburgo, papistas. Ali foi que, sob os auspícios de uma monarquia 'católica' desenvolveram seus roteiros de pesquisa e fizeram suas descobertas, alheios à cultura protestante ou bíblica, a qual por fim abjuraram, o segundo positivamente, o primeiro presumivelmente.

Em meados do século seguinte foia vez do luterano dinamarquês Niklaus Stenius ser confrontado pelos pastores luteranos já por ter sido um dos primeiros homens modernos a estudar os fósseis - Sendo apontado por muitos como o pai da Paleontologia - já por suspeitar apenas quanto a validade da cronologia curta ou massoretica. Foi o quanto bastou para atrair o furor dos bibliolatras... Diante disto concluiu ele que a igreja papa era mais flexível e aderiu a ela, chegando a tornar-se prelado.

A seguinte vítima da intolerância científica protestante foi o astrônomo sueco Nils Celsius, cujo caso, bem mais grave do que o de Galileu, posto que ocorrido em 1679, é muito pouco conhecido e divulgado entre a gente 'culta'. Pois nesse infausto ano foi o dito cientista condenar o pela Universidade de Upsala, em nome da bíblia, já por ensinar o odiado heliocentrismo de Copérnico, já por questionar a doutrina da inspiração plenária. Disputas e edições foram proibidos e ainda em 1691, nove anos após Sir Isaac Newton ter divulgado a lei da gravitação universal, Spole e outros acadêmicos suecos, que há muito ensinavam Copérnico, tiveram de ajudar e tornar ao modelo egocêntrico, tão caro ao sectarismo bíblico...

Segue -se o caso Rousseau. Cuja primeira edição do Emilio foi publicamente queimada em Genebra e o autor condenado, isto em pleno século das Luzes i é o décimo oitavo. Pouco faltou para Rousseau não se converter num novo Servet, com dois séculos de atraso. Diante disto transferiu se o ilustre genebrino para Neuchatel, onde apesar da proteção com que contava da parte dos homens mais ilustres e influentes da Europa foi ameaçado e perturbado pelos pastores locais, os quais queriam po-lo a ferros. Ora isto não foi obra da Igreja velha ou do papa, mas do protestantismo 'progressista' e levada a cabo no seu centro ou coração.

É verdade que a mesma obra fora condenada e queimada pouco tempo antes por ordem do Parlamento de Paris, em tese formado por bons católicos. Bravata, pois a este tempo ainda era o Parlamento de Paris, dominado, senão pelos jansenista - agostinianos fiéis e excomungados - ao menos por seu espírito, essencialmente oposto aquele que se reflete no Emílio, o qual de imediato atraiu o odio, não dos papistas - Exceto se minoria liderada pelo cardeal Morris- mas dos rebeldes filo jansenistas. Ora o que os cripto jansenistas fizeram os calvinistas suíços souberam fazer bem melhor. O primeiro campo de concentração da humanidade - segundo o insuspeito Van Paasen - (Genebra) ainda não havia abandonado suas tradições. Afinal  a pouco menos de dois séculos, o principal ícone intelectual da Europa, Erasmo (Vida Zweig ou R Bainton) havia sido igualmente ameaçado e expulso de Bale, pelos mesmos calvinistas...

Ocioso creio eu mencionar o químico inglês Joseph Prestley cujo laboratório valioso fora invadiďo e depredado por uma massa de fanáticos  (Como sempre instigada pelos pastores em nome da bíblia) protestantes as vésperas do século XIX. Ele concluiu como Celsius, que apesar das aparências, a cultura papistas era mais tolerante. Cerca dos anos 20/30 foi a vez do velho Moleschott, abandonar a querida Holanda protestante e instalar se a metros do Vaticano i é em Roma, onde pode confortavelmente professar e divulgar seu materialismo.

Quanto a Darwin, passados século e meio, o terrorismo protestante ou criacionista está longe de cessar. Nem se trata aqui de introduzir Deus como motor ou dirigente do processo evolutivo, como alegam os ateus e materialistas por ingenuidade ou má fé, mas de afirmar e impor, como dogmática e indiscutível a letra do Genesis e isto mais de quinze séculos após Agostinho de Hipona ter composto o clássico Genesis ad Literam... Do que resultou, nos anos vinte do passado séculos o infame 'Processo do macaco' contra o professor Scopps, em pleno Estados Unidos!!! Quanto aos que enchem a boca pata falar sobre o index papal temos de dizer que em pleno ano de 1860 foi vedada a entrada da 'Origem das espécies' no Trinity College... Isto sem contar o fiasco de Wilbeforce. Imaginem só o estado de tensão que desabou sobre aquela Cristã sincera chamada Emma, sem que Jesus ou o Evangelho o sugerissem i é  apenas devido a caturrice dos pastores judaizantes e a sua teologia ultrapassada da inspiração plenária ou do Corão Cristão, que ainda hoje teimam opor não apenas a Darwin mas a ciências contemporânea como um todo e isto a ponto de se terem precipitado no terraplanismo e no geo centrismo, pois querem tudo retroceder não a fase anterior a Copérnico mas ao Israel do século VII a C, a plena barbárie anti científica após todo caminho percorrido pela ciência desde Tales ou ao menos destes cinco últimos séculos. O protestantismo desconsidera tudo isto, e nem a embriologia, nem a cladística, nem o estudo comparado dos fósseis abala seus aderente.

Nos catolicismos Ortodoxo, romano ou anglicano temos - Triste é admiti-lo - criacionistas, e contumazes. Tais comunhões todavia não se apresentam como criacionistas. No protestantismo ativo de nossos dias temos a Torre de vigia e o adventismo com suas organizações e edições falaciosas, além de imenso número de divulgadores. Imagine agora a situação do pentecostalismo, cujos membros de modo geral nada sabem ou podem saber sobre ciência ou evolucionismo, por serem tais elaborações sacrílegas ou blasfemas e ponto, porque esta na bíblia ou o pastor falou, e não se questiona ou argumenta por se pecado, punido com castigos eternos. A que estão destinados todos os evolucionistas, marxistas e freudianos, a maior e melhor parte.

Que dizer agora a respeito de K Marx, homem honestamente equivocado quanto a seus pressupostos, método, reduções e propostas futurísticas ou normativas (Como o Comunismo)? Basta dizer que nos EUA é o prato principal dos pastores fabricantes de fabulas em conflito com a Lei divina. Afinal, por mais que discordamos de sua proposta - O comunismo (Não de sua análise das estruturas capitalistas ou de sua posição crítica) isto não nos autoriza a julgar sua pessoa e menos ainda a calunia-lo da forma mais vulgar, grosseria que foge não apenas ao Evangelho mas a qualquer Ética naturalista que se preze. SEGUEM no entanto os pastores que vivem de dízimo ou rápida, denunciando o trabalho intelectual desse autor ( A que chamam vagabundo diante do espelho!) ou simplesmente declarando que era um satanista ou adorador de Belzebu!!! O que só vem a relevar a natureza do sectarismo protestante...

Basta dizer que os protestantes de modo geral são ferozmente anti evolucionistas ( É não apenas anti darwinistas, nem Lamarck ou St Hilaire servem para eles), anti marxistas e anti freudianos, levando sua cruzada fundamentalista até a raiz das árvores i é até Copérnico... Equivalente disto temos somente no islamismo sunita mais virulento, de Hambal, Wahaab, etc Os nossos protestantes todavia não se acham na periferia da Civilização mas em seu bojo.

Meu objetivo aqui não foi nem é ocultar as limitações, vícios e mazelas da organização que assassinou Giordano Bruno, mas demonstrar que a consciência dos Católicos de modo geral, sempre foi mais aberta e flexível do que a mentalidade do protestante ortodoxo ou sectário de matriz calvinista ou pentecostal com seu paradigma da bibliolatria. A bem da verdade a própria cúpula da ICAR parece ter sido bem mais tolerante do que a multidão de seitas protestantes onde tiveram estas acesso ao poder político. ESTAS sempre se mostraram impermeáveis ou inacessíveis as formas mais desenvolvidas do conhecimento científico, pelo simples fato de sua religião, a bíblia, ser criticada ou sofrer restrições. ESSENCIALMENTE. Fetichista e mágico como o antigo testamento que Ad Literam idólatra e prisioneiro dessa caixa, não pode nosso sectário compreender ou aceitar o mundo natural seja nos termos de um Copérnico, de um Agrícola, de um Stenius, de um Rousseau, de um Darwin, de um Marx, de um Weber ou de um Freud... ou conceder mínimo espaço ao naturalismo, pois está fora de seus padrões mentais e exaspera-o, suscitando um furor destrutivo ou iconoclastico.

As massas que ora fabricamos não conseguem ultrapassar o padrão baixo e fetichista das partes menos nobres do Antigo Testamento. O que até mesmo os judeus modernos lograram fazer. Eles não conseguem superar os moldes ou limites da Tanak e muito se assemelham aos criticos de Anaxágoras ou Sócrates como Diopeites e Licon, homens culturalmente superados na Grécia do século V a C.

A consequência prática se tudo isto é que nossos liberais, cientificistas, comunistas, anarquistas, etc perderam o trem da História por não terem sabido aquilatar o significado e os riscos do protestantismo enquanto biblismo ou doutrina de inspiração plenária que autoriza um livro a julgar todas as coisas ou conhecimentos inapelavelmente. Até hoje desconsideram o aspecto virulento dessa fé e por isso estrategicamente tem mirado no alvo errado ou chutado cachorro morto. Comportando-se como aliados ingênuos do protestantismo teem dado sucessivos tiros nos próprios pés ou cometido suicídio.

Já está mais do que na hora de rever essa postura incoerente, não no sentido de blindar o papismo ou qualquer setor dos Catolicismos, mas, de trazer a luz as obras do protestantismo ao invés de ignora-las ou de oculta-las. Como ex protestante e pesquisador garanto que são mais amplas e graves. Vamos testar???

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Os cavaleiros do apocalipse ou a intelectualidade vs obscurantismo bíblico/protestante

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Como ex protestante ousarei declarar que a humanidade tem pegado pesado com o papismo ou com os catolicismos de modo geral, e pegado demasiadamente pesado com o protestantismo e o princípio estreito do biblismo, abismo que se abre aos pés de nossa civilização, ora arrancada de seus fundamentos.

Observe o leitor que a bíblia - mesmo o Evangelho, cujo tema é a transcendência e não a verdade imanente ou científica - ou o antigo testamento, que é um livro ou registro escrito, jamais poderá pronunciar -se objetivamente no sentido de reconhecer a Evolução biológica dos seres vivos. Outro o caso do papismo, o qual na pessoa de seu chefe ou líder, Pio XII, na Encíclica "Humani generis", pode posicionar -se claramente no sentido de permitir que suas ovelhas assumissem como empiricamente veraz a Evolução do corpo. Tal pode parecer muito pouco aos olhos de alguns, porém, em comparação com o descontrole protestante assume contornos bastante significativos.

PERMITIU o livre exame, superficial e imvecilmente exercido pelas massas, que elas firmassem e afirmassem uma cultura fetichista/criacionista tomada a letra do Genesis e mantendo a letra do Genesis ao invés de dar passagem a uma solução crítica e libertadora. O que daqui resultou não foi nada libertador mas servil no mais alto grau posto que, o protestantismo ortodoxo e sectário, que vomitou injúrias sobre a Igreja antiga e a Tradição Cristã jamais pretendeu ou ousou criticar a bíblia, quero dizer os escritos judaicas e isto pelo simples fato de, com Calvino, ter canonizado a tese de um Corão cristão, infalível de capa a capa sob todos os aspectos. Tal a doutrina da inspiração linear ou plenária, a quintessência do obscurantismo protestante.

A parte disto parte do catolicismo antigo foi, por tradição, aberto a especulação racional ou ao padrão de pensamento grego, daí o surgimento da Teologia sistemática com Clemente e Orígenes, em Alexandria, a sombra da grande Biblioteca e enfim da corrente escolástica, da qual resultou, mesmo a partir de uma postura crítica ou hostil, o ressurgimento da Filosofia enquanto atividade autônomo. Nem Erasmo, nem Bacon, nem Descartes, nem Montaigne foram queimados ou excomungados pela igreja antiga. Mesmo Pomponazzi e Telesio puderam construir seus ousados sistemas na terra dos papás romanos e tal deve ser considerado.

O protestantismo, sendo ferozmente racionalista com Lutero e estreitamente bíblico com Calvino, tendia a ser mais negativo, como tende até hoje. Por isso pricipia ele, na pessoa do próprio fundador Lutero - Tido por muitos em conta de progressista - condenando Copérnico e o heliocentrismo, por ext., nos termos mais severos e categóricos, setenta anos antes do Vaticano. Totalmente injusto e absurdo fazer clamor em torno da condenação de Galilei pelo papa e passar em branco a condenação destemperada de Copérnico - aliás diácono da Igreja Romana! - pelo pai do protestantismo.

Talvez por isso cientistas como Agrícola terem repudiado tacitamente a nova fé, cujo real conteúdo aquilatatam. Mesmo um pensador ousado como Erasmo acabou por fim voltando se contra ela. Tampouco fora endossada pelo condenado Galileu, o qual, num de seus livros, põem abertamente em cheque a crença supersticiosa na inspiração plenária, explicitando que a ciência não é objeto ou parte da Revelação divina.

Logrou o protestantismo posterior ludibriar a platéia pelo simples fato de se ter cindido em múltiplas seitas, e de, no contesto europeu, seus ramos históricos, terem adotado - ao menos em parte - uma crítica naturalista que reverteu contra a bíblia e produziu uma religiosidade não apenas liberal mas incrédula.

Confiados na fragmentação do protestantismo em múltiplas seitas e na aparição de um grupo liberal, - De que faziam parte materialistas e ateus inclusive - os pensadores e cientistas incrédulos, em sua maior parte, jamais se deram ao trabalho de combate-lo, quando não o encararam, ingenuamente, como um aliado.
O papismo ou os catolicismos, em sua unidade credal e extensão pareciam bem mais ameaçadoras.

Foi uma análise precipitada e equivocada, posto que as aparências enganam. O protestantismo sobretudo, por atribuir a gente semi analfabeta um método monacal e acima de suas forças, tinha mesmo de fomentar um sectarismo de massas e assim um ethos fundamentalista calçado numa visão unitária (Por isso cooranica do Lívŕo) e numa visão superficial. Nem a visão de mundo estreita e não científica que possuíam exigia mais deles.

Tenho declarado, em minhas polêmicas com os defensores do livre exame bíblico, que tal exame até pode encaminhar a fé Ortodoxa é Católica, que é o conteúdo da verdade revelada ou ao menos a algum sentido histórico do Cristianismo, na periferia da objetividade ou da tradição. Para tanto porém jamais poderia ser livre quanto a forma, mas estrito, metódico, erudito, técnico e cientifico. Claro que estamos falando de um método restrito e elitista, exportado dos mosteiros cristãos. O qual dependia de toda uma estrutura educativa difusa, ainda hoje inexistente, quanto mais aquela época. Não era e não é algo para ser posto no acesso da gente simples, analfabeta ou sumariamente letrada.

O erro cabal dos protestantes foi querer estender este método ao povo. Um método ainda hoje reservado a teólogos ou a estudiosos consagrados ao estudo dos Evangelhos. O exame dos Evangelhos em sua dimensão literária (Deus originais são gregos como a República e a Memorabilia) assim cultural, histórica, geográfica... é coisa de médico ou jurista. Imaginem só os leigos e semi letrados praticando direito ou medicina??? Foi exatamente o que o protestantismo fez no âmbito da religião ou das Escrituras promovendo uma versão superficial, subjetiva e distorcida quase sempre judaizante e anti Cristã, mas também anti científica e irracionalista, pelo simples fato de estar calcada nos antigos mitos do antigo testamento, cujas raízes sumerianas tocam aos albores da História.

Eis porque este livre exame voluntarista e irresponsável, estimulado pela reforma nascente, tinha de resultar por fim num robustecer da consciência mitológica e numa postura a princípio irracionalista e enfim anti científica.

Em tempos de racionalismo e empirismo ou de controle mecânico por parte da Igreja antiga, nada disto assustava. Muito pelo contrário mais temiam os cientificistas dos catolicismos, devido a coerência interna que tais sistemas apresentavam e a couraça escolástica, buscando não poucas vezes enfraquece-los com o auxílio dessas seitas bíblicas, aliás bem mais próximas do modelo norte americanista ou capitalista que acalentavam. Aliás as seitas ainda servem  este propósito cultural inserido na imanência...

Todavia em tempos de pós modernismo, - Quando pensadores é filósofos da ciência tornam a Hume e Kant, arrematado contra a experiência e o raciocínio, e arvorado as bandeiras do ceticismo e do relativismo, (Aliás semeados pela prática do livre exame protestante.) - inverteu-se a situação em benefício do irracionalismo, do emocionalismo, do voluntarismo, do moralismo e das citadas seitas, que mais e mais vão abrindo espaço e adquirindo poder.

Há no entanto algo ainda mais obscuro. A falharem miseravelmente quanto a sua ideologia por falta de um aparelho educativo que produzisse qualidade, os próprios reformadores canonizaram a degeneração na medida em que canonizaram o fetichismo e anteciparam a manobra pentecostal. Na medida em que preconizavam a iluminação ou inspiração individual, ensinando irresponsavelmente que as massas receberiam a instrução bíblica diretamente do espírito santo, sem a necessidade do estudo, santificaram a ignorância e conferiram-lhe uma chancela social. Hoje entre as massas livre examinadoras ser igorante ou sumariamente letrado equivale a virtude... Como levar consciência científica a este nicho?

Para ser povo livre é necessário mais que letramento formal ou elementar. É necessária uma educação de qualidade, que traga consciência. É consciencia ou sentido que qualifica um povo diz com razão Freire. Massas não podem ser livres e se a Igreja velha, por não ter educado com suficiência e dado sentido mais amplo, falhou e produziu ou manteve massas, ao menos ajudou o antigo regime elitista a controla-las. Da mesma forma o partido Comunista, quando falhou igualmente em produzir consciência. FOI O SECTARISMO PROTESTANTE, ESPECIALMENTE PENTECOSTAL, que viabilizou está horrenda rebelião de massas iconoclasticas mais do que o Comunismo ou o Anarquismo, a partir desta democracia formal que inconsequentemente admite o voto do analfabeto ou do analfabeto funcional. O clamor dessas massas é triplo - Aspiram pelo fim das liberdades e direitos fundamentais, o aniquilamento da ciência ou de uma visão mais naturalista do mundo e enfim o controle do poder - Moralismo puritano, fetichismo e teocracia são as três parcas para nós e palavras de ordem ou programas para eles.

É necessário revelar ainda o quanto estes sectários perversos, não menos do que a intifada cultural do islã tem se beneficiado dos erros táticos cometidos ainda a pouco e obstinadamente repetidos já pelos neo darwinistas ateus, cientificistas, positivistas, etc Já pelos comunistas e anarquistas ou até mesmo por espíritas e esotéricos mas avisados cujas críticas igualam todas as formas religiosas ou priorizam a velha e combalida igreja romana, em parte degenerada aliás pela influência protestante fundamentalista. É como chutar cão morto, enquanto o cão vivo se multiplica. Hoje porém é bem mais fácil cooptar um romano ou Católico medianamente instruido do que um crente raiz conformado com a própria ignorância. O protestantismo no entanto tem tirado largo proveito disto, no sentido de apresentar se as massas incultas como inocente e puro, como anjo de luz e mesmo amigo do progresso...

DAI  a necessidade extrema de expor seu caráter essencialmente obscurantista anti libertário, anti científico e anti policratico. Por isso nada melhor do que registrar tudo quanto ou ao menos parte do que os principais homens de ciência e pensamento, como Rousseau, Prestley, Darwin, Marx ou Freud tiveram de sofrer por parte das massas fanáticas, dos pastores e desta cultura bíblica anti humanista (Dale Nogare). EIS UMA HISTÓRIA OU CRÔNICA A SER ESCRITA E DIVULGADA NUM PAIS CADA VEZ MAIS SECTÁRIO E AZEDO!!!

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Grotius x Maquiavel, Bakunin, Hayek ou Humanismo vs pós modermismo

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O que Lutero, Maquiavel, Bakunin, Nietzsche, Mussolini, Hayek tem a ver uns com os outros? Claro que a maior parte deles era individualista e que, com Stirner e Rand, foram os principais teóricos dessa Ideologia venenosa. Curiosamente eram todos irracionalistas, relativistas, subjetivistas, psicologista.... É portanto tão intensos a uma Ética quanto os filhos de Litreé e Kelsen, ou seja, os empiristas/positivistas, fossem estes cá agnósticos, materialistas ou ateus.

Em Cousin, Damiron, Jouffroy, M de Biran, E Renan... temos a outra face da moeda, e ela não foi religiosa, fideista ou revelada como supõe a crítica neo ateistica e superficial, mas naturalista ou metafísica, conforme o modelo grego, seja pré socrático, platônica, aristotélico ou estóico. Grotius parece ter precedido a todos estes, como já veremos, embora suas fontes remontem a escola salmanticense e por esta via comuniquem com a neo escolástica.

Quanto aos autores acima é notório o caráter pré positivista no sentido dos ramos do saber por eles cultivados serem apresentados como autônomos não apenas face a uma moralidade religiosa muitas vezes toscas, mas face a qualquer instância superior, assim a uma ordenação Ética inda que naturalista. Afirmam o primado do conhecimento material ou empírico e chegam inclusive a prometer que de sua ciência empírica ou ignorância crassa, brotara vida Ética.

Ignoram assim que a instância Ética do Ideal seja distinta da instância material ou real do conhecimento científico ou mesmo superior a ela. Pelo que a ciência torna-se soberana e incontrolável, assumindo o lugar o velho Deus e adquirindo acentos religiosos ou místico, tal e qual o comunismo, o fascismo e outras ideologias políticas seculares por trás das quais subjaz a decantada escatologia cristã. A C Grayling.

A epistemogia deles no entanto parece ser mais sofisticada que a do positivismo, na medida em que para eles o empirismo já não aponta para uma perfeição racional e sim para a odiada imperfeição ou para um elemento caótico, que nem mesmo a experiência habitual poderia reverter.

Por isso abominam a Ética ou a desprezam, enquanto tentativa de controle racional sempre infrutífera. Segundo creem qualquer tentativa de controle racional, alheia a realidade, só poderia piorar semelhante estado de coisas. O mais aconselhável seria aceitar a realidade do incontrolável e do irracional tal qual é, deixá-la fruir e acomodar-se. O que implica abandonar todo e qualquer reformismo idealista enquanto tentativa de corrigir a realidade dada.

Maquiavel, além de ter criticado o falso moralismo reinante ou os abusos do tempo, bem poderia ter ensaiado algum tipo de solução Ética. Mas é justamente o que não se vê no Príncipe... A contra partida dos meios de dominação parece inexistir, assumindo o mal certo contorno absoluto. O fim último parece ser o poder e o mais parece ser meio, enquanto a fortuna é apenas a sorte, o acidental, o estocástico. Mussolini, partindo de Sorel, é igualmente voluntarista e irracionalista, não acredita no auto controle racional do Homem ou no processo social de auto educação, dai sua confiança tola na autoridade cega, no autoritarismo, na tirania, no despotismo, da ditadura, na submissão, no controle, etc

Outro não é o discurso de certos comunistas e anarquistas em torno da tão sonhada revolução. Pois quando perguntamos a eles a respeito dos excessos de violência relacionados com um conflito social de caráter físico ou armado, eles limitam -se a declarar - sofismando - que a violência já existe 'oculta' em nossa sociedade de classes, etc Ignorando ou fingindo ignorar que a condição é bem distinta posto que atenuada pelas leis, e que nem outra seria uma situação de guerra aberta cujos excessos e abusos teríamos de prever para controlar.

Assim que fazer com os que se aproveitam da Revolução para cometer os crimes mais sádicos? Que fazer com os feridos em conflito? Com os prisioneiros? Com os civis? Que pensar sobre a tortura? E os animais... É os famintos... É o patrimônio histórico cultural? Eis assuntos de Ética em torno da tão Revolução que os comunistas e anarquistas deveriam estar discutindo ou pensando desde 1848 mas com relação aos quais nutrem verdadeira ojeriza.

Isto para não aludir a questões práticas em torno da administração pública seja das empresas ou dos municípios... O que ao menos foi considerado pelos heterodoxos Herr, Jaures, Blum... Os ortodoxos no entanto fornecem-nos apenas está miserável resposta: Esperem a revolução acontecer pois é em seu desenrolar que encontraremos as soluções. Embora seja característico do homem calcular, planejar e pensar sobre o futuro. Mas o que há por trás de tudo isto? A suposição de que a revolução é um fenômeno irredutível a razão, incontrolável, imprevisível em seus contornos... Claro que uma guerra ou revolução parte de um impulso. Seus nuances e resultados todavia podem sim ser racionalizado, e toda História das guerras gregas e romanas apontam para este caminho. Do contrário a estratégia das minorias jamais teria vencido o número dos oponentes ou Alexandre vencido os persas.

Criar uma Ética de guerra é tão importante quanto pensar operações estratégicas. Os anarquistas é comunistas porém preferem não pensar o problema ou não refletir, dando tal reflexão por ociosa. Tal o caráter imprevisível e irracionalista dos conflitos humanos. Como o caráter do fenômeno político para o florentino.

Outra não é a opinião de Hayek - derivada é claro de Kant - sobre os movimentos ou flutuações do Mercado, igualmente aleatórios, irracionais e incontroláveis... Daí o caráter negativo, segundo ele, de todo é qualquer controle ou tentativa de planejamento racional exercida pela sociedade política... Apenas os inseridos conheceriam intuitivamente ou pela prática habitual, tais flutuações ou crises, sabendo igualmente que elas possuem dinâmica própria e que, como nos casos de gripe, nada se pode fazer alem de esperar que ela siga seu curso natural. Nada podemos corrigir, em absoluto!

Eis o político, o curso da Revolução e o Mercado descritos quase que nos mesmos termos por um pós renascentista angustiado, por alguns teóricos anarquistas e por um ideólogo neo liberal e a tônica comum é o irracionalismo, irredutível a qualquer modelo ou solução ideal é portanto a uma normatividade Ética. Por isso o maquiavelismo, o anarquismo, o comunismo e o neo liberalismo aproximam-se não somente do empirismo/positivista, mas de outros sistemas irracionalistas - Como o cristianismo protestante Luterano, quanto a resistência a uma vida Ética superior é absoluta.

E o humano fica sempre esmagado - Pela fé religiosa, pelo poder político, pela tirania do Mercado, pelas revoluções 'libertadoras, pela pedido filosofia da fragmentação ou do particular, pela negação do conceito (De justiça ou bem comum...)

A todos estes oponho, além de Sócrates, sempre atento ao que fosse humano; é Descartes, Hugo Grotius. E por que Hugo Grotius? Porque buscou disciplina o que chamamos guerra bem como a convivência entre os Estados fornecendo-lhes uma Ética como produto de anos e anos de cuidadosa reflexão. Imaginou ele diversas situações possíveis e a melhor maneira de relaciona-las com o bem e a justiça, resultando disto um Tomo inteiro com cerca de seiscentas citações.

Numa perspectiva mais ampla sua obra foi resultado de um exercício reflexivo iniciado cerca de século e meio antes em Salamanca, Espanha, onde um grupo de teólogos dominicanos, liderados por Vitória, principaram a refletir sobre a nova condição do mundo após as descobertas de Colombo. Como as novas culturas encontradas achavam-se separadas da cultura Cristã européia quanto a fé, aqueles sacerdotes buscaram por outro elemento comum que pudesse unir os homens, dando com a razão ou a racionalidade e o Direito natural, do qual derivam o que hoje temos em conta de Direitos humanos, direitos essenciais e não duvidosos ou relativos.

Os próprios Dominicanos puderam servir-se do Direito romano e de alguns testemunhos legados pelos antigos pensadores gregos, em especial pelos estoicos. Isto porque os gregos do século VII a C e os romanos do séculos I e II d C haviam sido postos diante das mesmas circunstâncias que os europeus do século XVI - A descoberta de uma vasta pluralidade cultural e credal, a qual levou-os em busca de um elemento comum em termos de imanência - Assim a razão ou a capacidade reflexiva, a partir da qual reduziram uma Ética essencial, a que deram o nome de Direito das gentes, tal a fonte do jusnaturalismo ou da Teoria Ética do direito, a qual o positivista Hans Kelsen opôs sua teoria pura.

Da negação da razão pelo empirismo positivista e pelo pós modernismo resultou a negação desta Ética essencial da pessoa É a crise porque passam a Civilização e a cultura. Pois esta Ética continua sendo relativizado e negada hoje, não passando muitas vezes de vão ou de palavra vazia. Falamos muito sobre Ética mas não a levamos a sério ou vivenciamos, certamente porque não estamos convencidos em termos de veracidade essencial. Neste caso o problema é sempre Epistemológico.... Afinal de que nos serviria uma Ética duvidosa, ilusória ou aparente? Coisas há a respeita das quais devemos ter certeza absoluta e inabalável, de modo a mover a vontade. Nossa cultura envenenada não satisfaz esta demanda psicológica...


Ps.: Poderia adicionar aqui os agostinianos todos, sejam protestantes, como Lutero e a maior parte dos sectários catastrofistas, assim os romanistas que receberam a alcunha de tradicionalistas (século XIX) justamente por repudiarem nosso aparato racional - Assim grande parte dos INTEGRISTAS ou CONSERVADORES: De Bonald, De Maistre, Donoso Cortes, Ubaghs, Tamburini, etc  Estes mereceram condenação explicita por parte do Concílio do Vaticano I - O qual vindicando nossa tradição autêntica afirmou a capacidade da razão humana - embora os conservadores 'católicos' levassem este substrato cultural adiante e podemos constatar este receio face a razão tanto nos agnósticos como Gray quanto nos 'católicos' deslocados como Russel Kirk. Também são irracionalistas como Agostinho e Lutero e por isso pretendem substituir o critério da Razão pelo critério da TRADIÇÃO. O critério ou padrão TRADICIONAL porém só é válido no âmbito interno da divina Revelação ou da Religião e não da imanência, já porque os antigos pagãos apelaram obstinadamente a ele contra o Cristianismo emergente, e nossos apologistas, os padres da Igreja, a Razão, com o objetivo de invalida-lo.



domingo, 17 de junho de 2018

De vera doctrina - Fragmentos da Encíclica "Graves de communi re" por Leão XIII > Contra os monarquistas/integralistas e CAPITALISTAS

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1 - O tecnicismo nada resolve:

"As mudanças, também, que as invenções mecânicas da época introduziram, a rapidez da comunicação entre os lugares e os dispositivos de todo tipo para diminuir o trabalho e aumentar o ganho, todos adicionam amargura ao conflito." I 


2 - O remédio é a doutrina pura do Santo Evangelho:

"
Tornamos evidente que os remédios que são mais úteis para proteger a causa da religião, e para terminar a disputa entre as diferentes classes da sociedade, deveriam ser encontrados nos preceitos do EVANGELHO." II



3 - Sugestões concretas em favor dos mais humildes:

"
Na ordem de ação, muito tem sido feito em favor do proletariado, especialmente naqueles lugares onde a pobreza era pior. Muitas novas instituições foram estabelecidas a pé, aquelas que já foram estabelecidas foram aumentadas, e todas colheram o benefício de uma maior estabilidade. Tais são, por exemplo, os escritórios populares que fornecem informações aos não instruídos; os bancos rurais que fazem empréstimos a pequenos agricultores; as sociedades para ajuda mútua ou alívio; os sindicatos de operários e outras associações ou instituições do mesmo tipo. Assim, sob os auspícios da Igreja, uma medida de ação unida entre os católicos foi assegurada..." III 

4 - Se os pobres são explorados pelos ricos?

"
bem como algum planejamento na criação de agências para a proteção das massas que, de fato, são tão freqüentemente oprimidas pela astúcia e exploração de suas necessidades como por sua própria indigência e labuta." III 

5 - O nome Socialismo Cristão foi adotado pelos Católicos embora, segundo o Papa, seja ambíguo ou dúbio:

"
O nome do socialismo cristão, com seus derivados, que foi adotado por alguns, foi muito bem permitido cair em desuso." IV 

6 - O nome 'Cristãos sociais' ou 'Católicos sociais' teve voga:

"
Nos países mais preocupados com este assunto, há alguns que são conhecidos como cristãos sociais. Em outros lugares, o movimento é descrito como a Democracia Cristã e seus partidários como Democratas Cristãos, em oposição ao que os socialistas chamam de Democracia Social. Não é dada muita exceção ao primeiro desses dois nomes, isto é, cristãos sociais, mas muitos homens excelentes consideram o termo "democracia cristã" censurável." IV 


7 - O que o Papa considera equivocado no Socialismo ou na Social Democracia são o materialismo e o naturalismo:

"
O que é a social-democracia e o que a democracia cristã deve ser, certamente ninguém pode duvidar. O primeiro, com a devida consideração pela maior ou menor intemperança de seu enunciado, é levado a tal excesso por muitos a ponto de sustentar que não há realmente nada existente acima da ordem natural das coisas, e que a aquisição e desfrute de corporalidade e externa bens constituem a felicidade do homem." V


8 - A Justiça é preceito sagrado. E o direito a propriedade pessoal:

"
Portanto, para a democracia cristã, A JUSTIÇA É SAGRADA; deve sustentar que o direito de adquirir e possuir propriedade não pode ser impugnado..." VI9 - CONDENAÇÃO DO INTEGRALISMO MONÁRQUICO OU DA MONARQUIA DIVINA:

"
Pois, as leis da natureza e do Evangelho, que por direito são superiores a todas as contingências humanas, são necessariamente independentes de todas as formas particulares de governo civil, enquanto ao mesmo tempo estão em harmonia com tudo o que não é repugnante à moralidade e justiça." VII"São, portanto, e devem permanecer absolutamente livres das paixões e das vicissitudes dos partidos, de modo que, sob qualquer constituição política, os cidadãos possam e devam respeitar as leis que os ordenam a amar a Deus acima de todas as coisas, e a seus vizinhos como eles mesmos. Esta sempre foi a política da Igreja. Os Pontífices Romanos agiam de acordo com esse princípio, sempre que lidavam com países diferentes, independentemente do que pudesse ser o caráter de seus governos. Portanto, a mente e a ação dos católicos devotados a promover o bem-estar das classes trabalhadoras nunca podem ser acionadas com o propósito de favorecer e introduzir um governo no lugar de outro." VII
10 - O TRABALHISMO não pode ser condenado sob qualquer alegação:
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que ninguém condene aquele zelo que, de acordo com as leis naturais e divinas, visa fazer a condição daqueles que trabalham mais toleráveis; permitir-lhes obter, pouco a pouco, os meios pelos quais podem prover o futuro; ajudá-los a praticar em público e em particular os deveres que a moralidade e a religião inculcam; para ajudá-los a sentir que não são animais, mas homens, não pagãos, mas cristãos, e assim capacitá-los a se esforçar mais zelosamente e mais ansiosamente pela única coisa necessária; ou seja, aquele bem final para o qual nascemos neste mundo." X11 - A questão social não é meramente econômica (ERRO POSITIVISTA) diz respeito a Ética e a Religião (conexão com a religião):

"
Nós projetamos especificamente aqui a virtude e a religião. Pois, é opinião de alguns, e o erro já é muito comum, que a questão social é meramente econômica, enquanto na verdade ela é, acima de tudo, uma questão moral e religiosa, e por essa razão deve ser estabelecido pelos princípios da moralidade e de acordo com os ditames da religião." XI12 - O mandamento do amor fraternal abarca o que é necessário para o bem estar desta vida ou para a vida do corpo físico e não apenas o espiritual - CONDENAÇÃO DO ESPIRITUALISMO MANIQUEÍSTA:

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estar atento ao que Cristo tão amorosamente disse aos Seus:" Eu lhes dou um novo mandamento: que vocês se amem uns aos outros, como eu os amei, que vocês amem-se uns aos outros. Por isso todos os homens saberão que são meus discípulos, se vocês se amam um pelo outro. "(7) Este zelo em vir ao resgate de nossos semelhantes deve, é claro, ser solícito, primeiro para o eterno bem das almas, mas não deve negligenciar o que é bom e útil para esta vida." XIII
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Ele declarou que levaria em conta especialmente a caridade que os homens exercitavam um para o outro. E nesse discurso há uma coisa que excita especialmente nossa surpresa, a saber, que Cristo omite aquelas obras de misericórdia que confortam a alma e se referem apenas àquelas que consolam o corpo, Ele as considera como sendo feitas a Si mesmo: estava com fome e me deste de comer, estava com sede e me deste de beber, eu era um estranho e tu me acolheste, nu e me cobriste, doente e me visitaste , estive na prisão e viestes a mim. " XIV

13 - As antigas instituições sociais criadas pelos antigos com o objetivo de aliviar o sofrimento humano obedecem a LEI da caridade:


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Esta lei da caridade que Ele impôs a Seus Apóstolos, eles da maneira mais sagrada e zelosa colocada em prática; e depois deles aqueles que abraçaram o cristianismo originaram aquela maravilhosa variedade de instituições para aliviar todas as misérias pelas quais a humanidade é afligida. E essas instituições continuaram e aumentaram continuamente seus poderes de alívio e foram as glórias especiais do cristianismo e da civilização de que ela era a fonte, de modo que os homens de mente certa nunca deixam de admirar essas fundações, conscientes de que são da tendência dos homens se preocupar com os seus próprios e negligenciar as necessidades dos outros." XV14 - Buscar o BEM COMUM e não apenas o pessoal:

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Assim, a justiça e a caridade estão tão ligadas umas às outras, sob a lei suave e doce de Cristo, que formam um admirável poder coesivo na sociedade humana e levam todos os seus membros a exercer uma espécie de providência em cuidar dos seus próprios e em procurar o bem comum também. XVI"Pois ninguém vive apenas por sua vantagem pessoal em uma comunidade; ele também vive para o bem comum, de modo que, quando outros não podem contribuir com sua parte para o bem geral, aqueles que podem fazê-lo são obrigados a compensar a deficiência. A própria extensão dos benefícios que eles receberam aumenta o fardo de sua responsabilidade, e um relato mais rigoroso terá que ser prestado a Deus que concedeu essas bênçãos sobre eles. O que também deve exortar todos ao cumprimento de seu dever a esse respeito é o desastre generalizado que eventualmente cairá sobre todas as classes da sociedade se sua assistência não chegar no tempo; e, portanto, é que aquele que negligencia a causa das massas angustiadas está desconsiderando seu próprio interesse, bem como o da comunidade." XIX
15 - Instituições permanentes de auxílio:


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No que diz respeito não apenas ao auxílio temporário concedido às classes trabalhadoras, mas ao estabelecimento de instituições permanentes em seu favor, é de louvar que a caridade as realize." XVII16 - A caridade e a solidariedade não caem na esfera da liberdade, mas da ESTRITA OBRIGAÇÃO:


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Faríamos com que eles entendam que eles não são de todo livres para cuidar ou negligenciar aqueles que estão abaixo deles, mas que é um dever estrito que os vincula." XIX

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