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sábado, 18 de março de 2023

Psicologia, psicanálise, Freud e a questão da multiplicidade de existências - Reflexões sobre a obra de Hermínio C Miranda 'A memória e o tempo' Edicel 1984 - Parte VII


UM AMONTOADO DE PRECONCEITOS - O MATERIALISMO, O DOGMATISMO E A RECUSA.


           Certa vez o conselheiro Aksakoff assim se expressou a propósito dos fenômenos paranormais ou 'heterodoxos': "Os fenômenos correm atrás dos cientistas e os cientistas fogem dos fenômenos.". Já a mistagoga Blavatsky referiu-se a certos acadêmicos como "Psicofobos" talvez parafraseando Platão. 

            Ao contrário do que se poderia pensar não era a importância do cérebro e sua conexão com o pensamento ignorada pelos antigos. Bastando para tanto mencionar Herófilo de Kalkedon e Eresístrato de Chios. Eresístrato no entanto, juntamente com os hormônios ou fluídos cerebrais um Pneuma que pode ser compreendido como força vital ou espírito.

              Efetivamente uma teoria materialista ou atômica foi elaborada pelo pensador Demócrito de Abdera, mas não com base empírica ou pautada em observações fisiológicas em torno do cérebro. 

              No entanto, ao que parece, a ideia de que o pensamento corresponde a uma espécie de secreção produzida pelo cérebro, surge apenas na segunda metade do século XVIII. Impõem-se no entanto a alguns cientistas como dogma ou princípio fundamental e indiscutível.

               Sobre a primeira síntese materialista contemporânea, o "Sistema da natureza" (1770) do Barão de Holbach temos duas apreciações que falam por si mesmas: A primeira é a do Marquês de Sade (A respeito do qual disse o ultra insuspeito Michel Onfray "Fazer de Sade um herói é intelectualmente bizarro.") segundo o qual era esse livro - Que lera seis vezes e de cujo sistema se considerava um 'mártir' - um "Livro de ouro" que "Deveria estar em todas as bibliotecas e cabeças."

               Necessário dizer que o Sistema de De Holbach sendo determinista e mecanicista excluía por completo a noção de livre arbítrio ou de liberdade. Eis porque, para Sade, imoralidade e crime eram palavras vazias uma vez que todas as ações humanas eram fruto da necessidade, assim o estupro, a tortura, a agressão, o assassinato, etc

               Afinal, como ensinava o profo Carus, o materialismo "sendo mecanicista por necessidade, tudo explica por combinações e agrupamentos de átomos. Sendo assim todas as variedades de fenômenos existentes: O nascimento, a morte, etc não são senão o resultado puramente mecânico das composições e decomposições, mera manifestação externa de átomos que se agregam e separam." Não há portanto outras opções ou possibilidades e tudo, absolutamente tudo, inclusive o crime - Como ensina Sade - torna-se não apenas necessário mas inevitável. 

               Vejamos agora que diz o grande Goethe sobre a obra prima de De Holbach: "Quintesência da velhice enfadonha e insípida." 

                Moleschott no entanto concorda perfeitamente com De Holbach e Sade "Caso uma razão ou personalidade dirigisse a matéria a um determinado fim, A LEI DA NECESSIDADE DESAPARECERIA da natureza, e cada fenômeno seria apenas possível."

                Agora demos a palavra a Pierre Cabanis: "Vemos as impressões chegarem ao cérebro por intermédio dos nervos; elas se acham, então, isoladas e sem coerência. O órgão entra em ação, age sobre as impressões e as reenvia metamorfoseadas em ideias que se manifestam, exteriormente, pela linguagem da fisionomia ou do gesto, pelos sinais da palavra ou da escrita. Concluímos, com a mesma segurança, que o cérebro DIGERE, DE ALGUM MODO, ESSAS IMPRESSÕES; E QUE REALIZA A SECREÇÃO DO PENSAMENTO." Eis o que diz o homem... e o que dá por demonstrado - Sem que o seja.

             Completa-o Carl Vogth "Os pensamentos tem com o cérebro a mesma e exata relação que a bílis tem com o fígado e a urina com os rins." só faltou completar: E as fezes com os intestinos...

              Ouçamos agora a Broussais: "Desde que eu soube, pela cirurgia, que o pus acumulado à superfície do cérebro destruía nossas faculdades, e que a saída desse pus lhes permitia o reaparecimento, não as pude considerar mais de outras forma, as ideias, como produtos do cérebro vivo, mesmo sem saber que era cérebro e que o que era vida." Testamento.

               Observem agora a lógica desse senhor - Tens um revólver que não funciona porque está enferrujado, removes e ferrugem, ele funciona... pronto, o tiro é produzido apenas pelo revólver, se necessidade de uma gente humano que lhe puxe o gatilho...

                Demos no entanto a palavra a Moleschott: "O pensamento não é mais que um fluído, assim como calor e som, é um movimento, uma transformação da MATÉRIA CEREBRAL, a atividade cerebral é uma propriedade do cérebro, tão necessária como a força, por toda parte inerente a matéria, de que é caráter essencial e inalienável. É IMPOSSÍVEL QUE O CÉREBRO INTACTO NÃO PENSE, COMO É ABSOLUTAMENTE IMPOSSÍVEL QUE O PENSAMENTO SEJA LIGADO A OUTRA MATÉRIA QUE NÃO O CÉREBRO." 

                     E noutra parte continua: "Bem sabeis que a abundância excessiva do líquido céfalo raquidiano produz a idiotice, a apoplexia é seguida pela aniquilação da consciência, a inflamação no cérebro causa o delírio, a síncope - Que diminui a circulação do sangue, no cérebro provoca a perda do conhecimento, a afluência de sangue venoso provoca alucinações e vertigens, uma completa idiotia é efeito necessário e inevitável da degeneração dos dois hemisférios cerebrais; enfim toda a excitação nervosa na periferia do corpo só desperta sensações conscientes no momento em que repercute no cérebro." Até aqui Moleschott.

                   
Passemos a palavra ao Dr H Tutlle "Tudo - diz ele - desde a lagarta que dança aos raios de sol até a inteligência humana que EMANA DAS MASSAS MEDULOSAS DO CÉREBRO, é submetido a princípios fixos, isso pelo simples fato de inexistir um deus." 

                    Ouçamos também a Dubois Reymond "O pensamento nada mais é além de matéria em movimento."

                    "Esse negócio de espírito nada mais é do que uma força da matéria que resulta imediatamente de atividade nervosa - Mas donde provém... Do éter em movimento nos nervos." assevera Hermann Schaffle.

                   Tudo perfeitamente aceitável, como Filosofia ou especulação Metafísica.

                   Como dado científico, tudo perfeitamente discutível. 

                   Inclusive para pensadores ou cientistas honestos como Bruchner, o qual assim responde a seus companheiros: 

                   "Em que pese o MAIS ESCRUPULOSO EXAME, não podemos encontrar analogia entre a secreção da bílis ou da urina e o processo porque se forma o pensamento no nosso cérebro. A urina e a bílis são elementos materiais palpáveis, ponderáveis e visíveis; e mais ainda, são matérias excrementícias que nosso corpo usou e agora rejeita. O pensamento, o espírito, a alma, pelo contrário, nada têm de material, não são substâncias, mas o encadeamento de forças diversas que formam unidades, o efeito do concurso de muitas substâncias dotadas de força e de qualidades.
                       Quando uma máquina feita pela mão do homem produz um efeito qualquer, põem em movimento seu mecanismo ou outros corpos, dá uma pancada, indica a hora ou coisa semelhante, esse efeito considerado em si mesmo é coisa essencialmente distinta de certas matérias excrementícias que ela produz, talvez, durante essa atividade.
                         Assim é o cérebro, princípio, fonte, ou melhor dizendo, causa única do espírito ou do pensamento; mas não é por isso seu órgão excretor. Ele produz algo que não é rejeitado, que não perdura materialmente e que se consome no momento mesmo de sua produção. O trabalho ou atividade dos rins ou do fígado se realiza sem que o saíbamos... mas a atividade do cérebro não pode existir sem que dela haja consciência completa..." 

                           
O que o nobre professor Bruchner jamais logrou esclarecer - Como lhe foi solicitado pelo Dr Janet no "Materialismo dos dias atuais, uma crítica ao sistema do Dr Bruchner" - é como o cérebro, sendo um agregado de células materiais, produziria pensamentos imateriais ou o fenômeno da consciência... 

                             Mais adiante de Moleschott foi o professor Bayson que para demonstrar que o cérebro produzia ou excretava pensamentos dava-se ao trabalho de pesar todos os sulfatos e fosfatos que consumia por meio da alimentação, após o que dedicava-se a algum trabalho mental e por fim contabilizava a quantidade de sais presentes em suas excreções i é fezes, urina e suor, visando demonstrar que a quantidade de sais excretados aumentava após qualquer trabalho intelectual...

                              Meio século passou-se até que um outro Nobel, e portanto para que um pesquisador sério, Henri Bergson repudia-se expressamente a doutrina ou ensinamento segundo a qual é a mente humana produto do cérebro ou que o pensamento seja exclusivamente elaborado por ele. O espírito, declara ele, não é matéria e não está demonstrado que seja ele mera função do cérebro. 

                              Todavia, como não houvesse um Bergson a Ideologia materialista impregnou de tal modo a ciência e suas instituições ao cabo dos séculos XIX e XVIII, que elas chegaram a substituir o Vaticano e a Inquisição com suas denuncias por heresia, excomunhões, interditos, etc enfim com seus meios de controle.

                               E já veremos como Mesmer teve seus pedidos de pesquisa ou análise aprioristicamente negados por tais Instituições, o que por si só é comprometedor. Posto que é dever dos cientistas e instituições científicas investigar.

                               Todavia, tanto mais se apegavam a certos princípios apriorísticos ou metafísicos, tanto mais esses acadêmicos temiam a realidade e suas manifestações - Justamente por não se enquadrarem em seus sistemas. Do que resultava a recusa ao exame... 

                                Os tais sábios limitavam-se a cruzar os bracinhos e declarar: Tal coisa não pode ser real - Determinando se algo podia existir ou não, conforme o esquema de mundo vigente.

                                 Foi atitude que vigorou por mais de século e infectou vários homens ilustres, a começar por Lavoisier o qual, apelando a tais e tais princípios, tachou os camponeses de simplórios ou imbecis, por insistirem que pedras caiam do céu. Feito isso compôs a famosa memória contra a existência de meteoritos e enviou-a a Academia, onde foi ovacionada pelos guardiães da ciência. Trinta anos depois tiveram os mesmos guardiões que dar razões aos camponeses imbecis - Que apesar disso tinham olhos e sabiam observar! - e admitir a existência de meteoritos! 

                Passado um século foi a vez de Th Edison, após ter apresentado seu Phonógrafo, quase ser agredido por um acadêmico francês, o qual aos gritos de - Não passais de um ventríloquo! - buscava desmascara-lo.

                Tais os tempos.

                O mais grave no entanto era a peremptória recusa, por parte de alguns, a investigar. 

                De fato, quando o fenômeno das mesas girantes chegou a França, Foulcault, no "Journal des debats" apelando a determinados princípio, não apenas negou o fenômeno, como após ter declarado que era absurdo e impossível, declarou que sequer deveria ser examinado por um cientista sério.

                 No entanto passados mais de cento e vinte anos, pudemos ler com gosto num Carl Sagan que todo e qualquer fenômeno, por insólito que fosse - A exemplo dos discos voadores ou OVNIs - deveria sim ser investigado, sendo dever faze-lo. 

                  Muito antes de Sagan, tanto o estadista Agenor de Gasparin quanto o poeta Victor Hugo - Legítimos expoentes do pensamento crítico e científico. - deram competente resposta ao grande físico -

                   "Substituir o exame pela zombaria é muito cômodo, mas bem pouco científico. O fenômeno da velha trípode, como o da atual mesa, tem, tanto quanto qualquer outro, direito a observação." Hugo in "William Shakespeare

                    "Não, eles não lerão essas coisas, mas julgarão! Julga-las-ão sem mais nem menos, do alto de suas cátedras e apelando a um argumento irrebatível: Não creio porque não creio - Simples, fácil e peremptório. Não admito tais coisas porque são impossíveis. Sendo assim perdeis vosso tempo transmitindo tais narrativas!" De Gasparin
in "Des tables tournantes, du surnaturel en général et des esprits." 

                   Acho absolutamente válido discutir teorias, explicações, hipóteses, etc discutir, por em dúvida ou negar a atuação de espíritos... Postulando a Hiperestesia, a objetivação de tipos ou a Prosopopese metagnomia, os resíduos mentais ou tulpas, desdobramentos psíquicos, etc desde que fatos não sejam aprioristicamente negados e pesquisas seriamente realizadas desdenhadas, pois aqui topamos com a desonestidade. E o fruto da desonestidade e da negação dos fatos será o descrédito da própria ciência, mormente num tempo em que os fundamentalistas e ocultistas buscam desacredita-la.

                        
                                
               



                  

             

domingo, 24 de setembro de 2017

Uma entrevista polêmica sobre Ética, ciência, vegetarianismo e cobaias.

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Após termos espicaçado os mistagogos comunistas e os sectários cristãos daremos a público um Diálogo que tivemos há algum tempo com os cientificistas e os carnívoros -

Interlocutor - Boa tarde professor.
Eu - Boa tarde jovens, sejam bem vindos.
Interlocutor - A primeira pergunta diz respeito a ciência ou melhor dizendo ao conhecimento não aplicado, corresponderá ele a algo neutro ou a um bem?
Eu - Na medida em que tanto a busca pelo conhecimento quanto sua aquisição correspondem a uma demanda da própria condição humana ou do intelecto não podemos deixar de encarar tais atividades como boas em si mesmas.
Interlocutor - Mesmo que não haja aplicação para este tipo de conhecimento em questão?
Eu - Grosso modo todo conhecimento teórico tende a converter-se, com o passar do tempo, em conhecimento aplicado i é em técnica. Independentemente disto a primeira aplicação de qualquer conhecimento obtido e enquanto conhecimento teórico, é satisfazer a curiosidade humana ou saciar nossa sede de saber. Sabemos para que? Sabemos para saber, porque somos antes de tudo curiosos. Um homem qualquer cujas necessidades básicas estejam satisfeitas não tardará a elaborar diversas perguntas a respeito da realidade que o cerca e elas surgirão naturalmente. A ciência tem sua origem nessa condição de inquietude peculiar aos seres humanos.
É justamente a ciência aplicada e apenas ela capaz de poluir o conhecimento.
Interlocutor - Poluir o conhecimento? Que vem a ser isto?
Eu - Poluímos o conhecimento de diversas maneiras, mormente quando tornamos este conhecimento aplicável e aplica-mo-lo indignamente. É o uso que o homem faz deste ou daquele objeto que o torna bom ou mau. Todo e qualquer objeto produzido pelo homem, seja ele uma faca, um rifle ou uma bomba, é bom em si mesmo enquanto produto do engenho humano. Seu uso ou emprego pelo homem numa determinada conjuntura é que poderá ser bom ou mal. Assim fará bom uso da faca para cortar legumes ou descascar frutas e um mau uso caso venha a agredir outro homem. Fará bom uso do rifle caçando ou protegendo-se dos animais selvagens e um mau uso na guerra fuzilando inocentes. Fará bom uso da bomba detonando montanhas com o objetivo de construir estradas e um mau uso lançando-as sobre cidades e estraçalhando civis inocentes. Todo e qualquer objeto pode ser usado tanto para o bem quanto para o mal.
Interlocutor - De maneira que a técnica sempre estará sujeita ao abuso?
Eu - Efetivamente, toda técnica esta sujeita a abusos pelo simples fato de seu uso corresponder a determinado fim. Caso o fim seja bom o uso será bom, caso o fim não seja bom teremos o abuso.
Interlocutor - E como poderíamos distinguir o uso do abuso. O uso da técnica, para ser bom, deve estar a serviço da condição humana e respeitar a dignidade do ser humano. Deverá promover o homem jamais avilta-lo ou abate-lo. Caso o efeito do uso desta ou daquela invenção acarrete dor, mal estar ou prejuízo aos seres humanos, estamos diante do abuso. O uso implica em beneficiar o ser humano ou em minorar seus sofrimentos. Assim o emprego deste ou daquele objeto numa guerra injusta ou agressiva deve ser encarado como mau.
Interlocutor - Apenas isto?
Eu - Não. Há diversas outras situações em termos de produção de conhecimento que suscitam nossa reflexão em termos de ética, de princípios e de valores, de bem e mal.
Interlocutor - Podería fornecer alguns exemplos?
Eu - Certamente. Julgo que antes de tudo devemos indagar se os meios investigativos empregados pela própria ciência - enquanto instância relaciona diretamente como a produção do conhecimento - são bons ou maus.
Interlocutor - Julgo não ter captado o sentido desta última pergunta.
Eu - A pergunta levantada reporta ao método científico em si mesmo e indaga se acarreta prejuízo, dor ou sofrimento a qualquer forma de vida.
Interlocutor - Ah compreendo, refere-se a testes e pesquisas feitos com doentes ou condenados, especialmente quando não autorizadas?
Eu - Naturalmente que é um dos aspectos da questão, mas não o único. Propositalmente não me referi a seres humanos, mas a formas de vida e a quaisquer formar de vida.
Interlocutor - Captei. O professor esta se referindo aos animais ou melhor dizendo aos animais que são empregados como cobaias nos laboratórios.
Eu - Exatamente.
Interlocutor - Há quem diga que o emprego de animais como cobaias é indispensável ao progresso científico.
Eu - Houve e há quem diga que as guerras são necessárias ou indispensáveis ao equilíbrio social de uma determinada sociedade como há quem diga que o regime de livre mercado seja indispensável. Uma coisa é ser indispensável e outra, totalmente distinta é ser apresentado como indispensável. Oxigênio e água são elementos indispensáveis a vida humana mas há quem afirme o cigarro, o alcool ou mesmo o chocolate como indispensáveis...
Ademais em termos de ética não se pergunta de algo é necessário - tanta coisa má é descrita como necessária - mas se é justo, certo ou correto.
Interlocutor - Desenvolva.
Eu - Obrigado. Será mesmo que não podemos continuar produzindo ciência sem cobaias ainda que num ritmo menos acelerado?
Interlocutor - Eis um questionamento a ser feito.
Eu - Mormente quando a redução deste ritmo corresponde a uma exigência ética.
Interlocutor - Parece-me convincente.
Eu - Acompanhe-me. Via de regra, a maior parte de nós, é ensinada a considerar o consumo de carne vermelha como necessário ou mesmo indispensável a conservação da vida e da saúde. Parece-me no entanto que a existência de vegetarianos ou de pessoas que limitam-se a consumir carnes brancas neste planeta aponta-nos para uma solução contrária. Seja como for somos ensinados a crer que devemos ser carnívoros para sobreviver. E como nossa cultura é carnívora não costumamos a questionar seriamente este ensinamentos. E como a carne é apetitosa.
No fundo o que queremos é saborear um bife suculento. Por isso não questionamos a cultura carnívora.
Seja como for aqui bem cabem algumas perguntas: Será mesmo impossível que a humanidade como um todo ou ao menos parte dela sobreviva sem devorar mamíferos ou bovinos? Quem sairia perdendo caso boa parte da humanidade cessa-se de consumir carne vermelha? Acaso parte do discurso vigente não teria sindo elaborado tendo em vista as exigências econômicas do mercado? Há gente querendo lucrar com a venda de carne não? E nesse sentido o consumo faz-se necessário, devendo ser estimulado.
Interlocutor - Jamais me haviam ocorrido tais perguntas?
Eu - Geralmente não costumamos a elaborar perguntas capazes de incomodar-nos. O ser humano não costuma ser bom nisto.
Interlocutor - Supondo que o consumo da carne vermelha não seja necessário a manutenção da vida?
Eu - Neste caso somos obrigados a nos perguntar sobre o pôrque de saborearmos a tal carne vermelha e julgo que a resposta oferecida seria mais ou menos assim: Consumo carne vermelha porque gosto ou porque me agrada e porque não prejudica a quem quer que seja.
O engano aqui é manifesto pelo simples fato do Boi ou do Porco não poder falar.
Afinal não vejo como possa qualquer um deles sentir-se beneficiado ao levar um baita golpe na testa e ter a vida suprimida pelo homo sapiens.
Não nego que em estado de natureza tanto o boi quanto o porco ou qualquer outro animal tivesse de conseguir sua própria comida e de escapar de seus predadores, é fato. No criadouro ou na fazenda por outro lado são alimentados e cuidados pelo homem. Sim, mas para terminarem no abatedouro e sem aquela mínima chance que lhes é oferecida pelo meio ou pela mãe natureza.
Interlocutor - Quem sabe se a média de vida de um animal criado em cativeiro não seja até maior do que em estado de natureza? Estado em que poderá morrer de câncer inclusive, caso atinjam uma idade mais avançada.
Eu - Claro que há variáveis e algumas até consoladoras para os consumidores de carne vermelha... Quanto ao câncer a alegação talvez seja plausível com relação a um seleto número de indivíduos idosos, já quanto a média de vida de um animal criado num cativeiro integrado aos moldes capitalistas de produção e ao lucro máximo, acho no mínimo discutível. Seja como for devemos admitir que a criação - em comparação com a caça - sendo controlada evite a extinção da espécie. Que os animais criados pelo homem sejam os mais prolíficos na face da terra me parece fora de dúvida.
E no entanto aquele que considera normal devorar um animal em tais circunstância raramente ou quase nunca o abate com suas próprias mãos, considerando este tipo de ação 'infamante'. A quase totalidade dos que consomem carne vermelha não realiza o trabalho sujo. Hoje certamente bem menos sujo devido ao abate humanitário, o qual corresponde certamente a uma das mais belas aspirações humanas. Apesar disto para muitos dar uma marretada nos miolos de um boi ainda seria tabu. Neste caso, se você não tem coragem suficiente para abater por que consome???
Interlocutor - Boa pergunta.
Eu - A bem da verdade consumimos carne vermelha de grandes mamíferos porque gostamos ou porque nos agrada, mas justificamos alegando uma hipotética superioridade. Tal o caso das cobaias. Criamos cobaias e usamos cobaias em laboratórios porque julgamos ter este direito e julgamos ter este direito por sermos superiores. Bem, no caso do consumo há um atenuante, o abate humanitário. No caso da cobaia a produção de dor e sofrimento é intencional.
Interlocutor - Tal distinção jamais me havia ocorrido, agora quanto a tomar o que é agradável como critério em matéria de juízos éticos sempre me pareceu problemático.
Eu - Me parece bem mais do que problemático. Afinal a quem sinta prazer em matar, torturar, estuprar, humilhar, oprimir, etc
Interlocutor - De modo que o agradabilidade não produz direito.
Eu - Nem poderia e por isso editamos outra justificativa, segundo a qual somos superiores aos animais.
Trata-se dum discurso - caso estabeleçamos sua arqueologia - antes deslocado do que discutível e que foi produzido antes mesmo de que a ciência viesse a ocupar o espaço que ocupa na sociedade contemporânea. Discurso segundo o qual o homem não seria um animal mas uma criatura a parte ou diferenciada de todas as outras. O que reporta necessariamente ao mito do gênesis ou a criação fetichista do mítico Adão, apresentando como dono ou proprietário de todos os animais.
Interlocutor - No entanto desde Darwin...
Eu - Sim, sim, desde Darwin foi o homem integrado a natureza e apresentando como um animal, inda que racional por apresentar cercas capacidades em termos de abstração. É no entanto um mamífero e primata, aparentado com os demais mamíferos, cujos genes trás em si.
Grosso modo nossa única superioridade face aos demais mamíferos nossos parentes é a de elaborar pensamentos tanto mais complexos ou raciocínios o que paradoxalmente conduz-nos a questionamentos éticos em termos de princípios e valores e a uma vida ética. Somos consumidores de carne e matadores de mamíferos capazes de questionar o consumo de carne, pelo simples fato de sermos capazes de nos identificar com nossos parentes mais próximos. Temos consciência de que as formas mais complexas do reino animal, em especial os mamíferos são bastante sensíveis a dor, e mais ainda, somos perfeitamente capazes de nos colocar no lugar deles e de nos compadecer. Portanto nossa única e decantada superioridade equivale justamente a um padrão de consciência tão refinado a ponto permitir que problematizamos nossos alimentares...
Somos superiores porque capazes de submeter nossos hábitos alimentares a um escrutínio ético, coisa que certamente mamífero algum, enquanto espécie é capaz de fazer.
Interlocutor - Já sei porque as vezes me sinto canibal...
Eu - O fato é que poucos de nós estão dispostos a levar adiante ou as últimas consequências este tipo de reflexão. Por isso batemos o pé e declaramos ter o direito de torturar uma pequena cobaia, um macaco, um gato ou mesmo um cão ou um cavalo. Mas de que decorre este suposto direito? Temos de beneficiar nossa espécie!!! Sim, mas parasitando outras? É lógica de lombriga ou ancilóstomo não de um ser racional. Somos superiores... Só se for em sadismo...
Sei que a reflexão sobre o uso de cobaias é desconfortável.
Injeção também é, mas também é necessária.
Em que somos superiores as pequenas cobaias ou aos animais que acometemos em nossos laboratórios infringindo toda sorte de sofrimentos?
Interlocutor - Em poder ou força?
Eu - Acertou em cheio. Não torturamos as cobaias porque exista qualquer direito natural que nos autorize a faze-lo mas apenas porque queremos e podemos. A lógica dos experimentos científicos com o objetivo de beneficiar nossa querida espécie, é o direito do mais forte. Nada mais venenoso... Direito do mais forte é tese que reporta ao darwinismo social, a Nietzsche e enfim a Hitler e ao nazismo. Não fazemos isto ou aquilo porque é justo ou direito mas apenas e tão somente porque podemos e queremos. Tal a origem de todas as agressões, conflitos e guerras de conquista e dominação. Como as cobaias são mais fracas do que nós, como os animais são indefesos...
Certamente não temos diante de nós um bom caminho.
Por outro lado, caso levássemos a ética a sério, proibiríamos o uso de cobaias sob quaisquer pretextos, mesmo que disto decorresse uma diminuição no ritmo da pesquisa e produção científica e isto pelo simples motivo de que o supremo valor de uma Sociedade humana não pode ser a produção científica ou a aquisição do conhecimento, mas o respeito por todas as forças de vida. Implica admitir uma escala de valores e o primado da ética, coisa de os cientificistas não podem admitir.
Eis uma via porque a ciência é contaminada na fonte convertendo-se ela mesma em abuso.
Felizmente há diversas áreas da pesquisa científica que não fazem uso de cobaias. Neste caso a investigação em si mesma é, como já dissemos, sempre um bem.


FIM

domingo, 3 de setembro de 2017

O problema da neutralidade em Ciências humanas II

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Chegados aos domínios da História tornasse o tema da neutralidade ou da isenção ainda mais polêmico na medida em que os teóricos do positivismo, levando adiante seu ideal meramente descritivo, proíbem a introdução de todo e qualquer juízo de valor em relatórios, monografias e até mesmo artigos e livros.

E no entanto além das enfermidades Psicológicas, e das condições sociais, o Historiador ainda depara com certo resíduo ou com certa quantidade de atitudes ou comportamentos irregulares quais sejam, roubos, assassinatos, estupros, etc os quais não poucas vezes envolvem elementos humanamente frágeis e desprotegidos quais sejam animais, crianças, idosos, deficientes, etc e degeneram em pura e simples crueldade ou sadismo. Mesmo diante de cenas e situações como estas o positivismo não se abala e pede que elaboremos uma simples crônica em forma de narrativa, fugindo aos juízos de valores como o diabo foge da cruz.

Agora qual o pôrque de tudo isto???

Quais os pressupostos do positivismo???

Grosso modo os positivistas ingênuos costumam declarar que a tarefa do Historiador esgotasse ao reconstituir os fatos Históricos. Logo o que ultrapassa a simples reconstituição espraia-se pelos domínios do subjetivismo puro ou do relativismo, representando mero ponto de vista individual, a que não devemos atribuir maior valor.

Num segundo momento dirá nosso positivista que semelhante avaliação cabe a Ética e não a História, o que muitas vezes equivale a dizer que não cabe a ninguém e que devemos mesmo enquanto homens, nos conformar com aquilo que é ou com a realidade, uma vez que toda e qualquer crítica ou discordância supõem metafísica. A qual só se foge tornando-se acrítico ou conformista.

Não levo a mal que nas obra do gênero, especialmente no prefácio, a distinção seja não só marcada mas salientada i é a distinção entre o Pesquisador que reconstrói objetivamente a História resgatando os fatos, e entre o homem que avalia. Não levo a mal o Filósofo da História, pensador ou Historiador mais comedido, que opte pela crônica ou simples narrativa deixando ao leitor a apreciação crítica ou valorativa dos fatos. Não levo a mal que no próprio livro o trabalho do Historiador e a apreciação do homem, sejam rigorosamente estabelecida.

No entanto a exigência de que o Historiador abdique de todo e qualquer juízo ético ou valorativo mesmo enquanto homem ou ser racional só pode partir de teóricos que repudiam formalmente a hipótese de uma Ética objetiva ou essencial enquanto forma de conhecimento válido ou verdadeiro, abraçando o dogma - também presente na Sociologia - do relativismo cultural. Aqui de fato é Ética encarada como pura e simples produção cultural - relativa apenas a determinada sociedade - ou mesmo subjetiva perde todo seu valor. Tal não é no entanto a perspectiva do humanismo socrático, cujo entendimento é bem outro.

Claro que nós esperamos e desejamos que cada leitor e que cada leitor faça sua opção em termos de ética, identificando-se com determinados princípios e valores, a partir dos quais julgue a realidade. Tal esperança no entanto esta longe de impedir-nos de opinar ou de manifestar nossos pontos de vista, buscando orientar o homem para uma direção ética que julgamos ser a mais acertada ou correta; não como Historiador, mas como ser humano que reflete criticamente sobre as ações e exemplos humanos oferecidos pela História.

Significa isto que não podemos ser neutros em termos de princípios e valores ou mesmo de ideologia?

Se em termos de ciências exatas uma neutralidade absoluta, do começo ao fim, é bastante questionável, em termos de ciências humanas é certamente impossível, senão indesejável.

Ser neutro diante das inquisições papista e protestante, da Jihad islâmica, das situações de miséria produzidas pelo capitalismo, das atrocidades cometidas pelos nazistas, das guerras, da tortura, etc equivaleria a ser sádico, desumano e cruel.

Enquanto historiador tudo quanto o homem visa é compreender determinada situação Histórica e podemos compreender perfeitamente bem o pôrque de cada um dos eventos acima citados, sem no entanto buscar justifica-los ou absolver as pessoas envolvidas. Não cabe ao Historiador enquanto tal justificar, apenas compreender. Enquanto homem e cidadão no entanto lhe é permitido julgar partindo de seus princípios e valores.

Neste caso que lhe é proibido e a que ponto chegamos?

Nada impede ou deve impedir um homem de avaliar determinado fato Histórico segundo suas crenças e ideias. Como nada impede ou deve impedir alguém de identificar-se com determinada visão de mundo ou ideologia.

Tanto o Sociólogo quanto o Historiador é defeso ter sua opinião, seu ponto de vista ou sua ideologia. O que ele não pode permitir é que esta ideologia interfira em seu trabalho de pesquisa social ou de reconstituição histórica, fazendo com que altere ou manipule os dados da pesquisa ou as informações tomadas as fontes históricas selecionando-as arbitrariamente seja inventando umas ou ocultando outras. Tocamos aqui ao nervo da questão ou a Honestidade cientifica.

Não pode o homem ser neutro no sentido de que seja isento de princípios e valores ou mesmo de ideologias, como uma tábua rasa. No sentido de que não traga consigo uma visão de mundo ou como diz Brinton um esquema mental preparado. No sentido de que enquanto homem não possa opinar sobre suas próprias descobertas ou que isto lhe seja vedado...

Mas deve ser disciplinado e honesto a ponto de evitar que seus pontos de vista interfiram na pesquisa científica a ponto de selecionar ou manipular os fatos.

Portanto o que esta em seu acesso e garante a objetividade de seu trabalho enquanto pesquisador não é uma suposta e absurda neutralidade valorativa ou ideológica, e sim o que chamamos de honestidade intelectual e que podemos definir como a capacidade para administrar suas opiniões preconcebidas, atendo-se antes de tudo aos fatos sejam eles biológicos, geográficos, psicológicos, sociológicos, históricos, etc Honestidade intelectual é o esforço exequível para ouvir os fatos e permitir que falem sem deixar-se cegar pelas próprias opiniões e crenças.

Tendo chegado ao término da questão devemos considerar que a neutralidade ou imparcialidade deva ser encarada como um ideal possível APENAS SE ENTENDIDAS NO SENTIDO DE NÃO INTERFERÊNCIA COM RELAÇÃO A PESQUISA HISTÓRICA, SOCIAL... e mesmo assim - ao menos na Sociologia, que lida com causas gerais - na esfera reduzida dos fatos ou leis; porquanto a dinâmica da formação de uma teoria é bem mais complexa. 

No entanto caso compreenda-mo-las no sentido corrente de isenção, no sentido do pesquisador não trazer consigo determinados princípios, valores, crenças e ideias; qual fosse uma tabua rasa, é absurda, ingênua, grosseira e tosca. Como ser humano o cientista não só trás ideias capaz de influencia-lo como é normalmente sugestionado por elas caso não passe por um treinamento bastante sério na acadêmia. Resulta disto que a imparcialidade ou neutralidade relativa - DEFINIDA EM TERMOS DE HONESTIDADE CIENTÍFICA - não seja algo fácil de ser conquistado demandando resolução, esforço e sobretudo certos pressupostos derivados da Ética.

Sobretudo não devemos compreender Neutralidade no sentido positivista de abster-se de avaliar criticamente os fatos na perspectivas da Ética da pessoa. Julgar as ações e situações sociais é natural, humano e absolutamente normal. Neutralidade relativa ou HONESTIDADE CIENTÍFICA resume-se em não fabricar ou manipular fatos ou leis tendo em vista o favorecimento de qualquer teoria que nos agrade. A desonestidade não consiste em julgar ou avaliar eticamente mas em falsear a realidade.

Conclusão: Nas ciências do homem a neutralidade absoluta ou isenção compreendida já como a pura e simples inexistência de um aparelho conceitual anterior a pesquisa, já como a necessidade de se evitar a qualquer custo juízos de natureza valorativa é pura e simples utopia.

Já uma neutralidade relativa (Imparcialidade formal) ou HONESTIDADE INTELECTUAL compreendida como a possibilidade de controlar a investigação e impedir que seja influenciada pela ideologia tal até a seleção e manipulação dos dados e distorção da realidade, julgamos ser perfeitamente exequível embora demande como já dissemos um firme ideal de ética associado a um treinamento acadêmico e a uma prática constante. Segundo julgamos esta Honestidade Intelectual é o fundamento da objetividade no terreno das ciências humanas.

Afinal as ciências humanas, fugindo tanto ao prever - seus fenômenos são mais e mais imprevisíveis na medida em que entra em jogo a qualidade humana da vontade livre - quanto aos justificar, tem por objetivo recompor e compreender um determinado aspecto da realidade, o qual, uma vez recomposto e compreendido sempre poderá ser apreciado valorativamente por qualquer homem, inclusive pelo Psicólogo, pelo Sociólogo e pelo Historiador, os quais certamente são homens. Importa distinguir bem uma coisa da outra, colocando os pingos nos is.

Por fim se a Sociologia será meramente descritiva para o Sociólogo enquanto Sociólogo, será certamente normativa para o mesmo Sociólogo enquanto pessoa ou ser humano i é numa perspectiva mais ampla. E ele, o sociólogo, sempre poderá expressar-se já quanto cientista social que investiga e descobre, já como ser humano que avalia sua descoberta e pensa a sociedade. Bastando para tanto que estabeleça a distinção.

Sobre a elaboração das teorias em ciências humanas, reservaremos um artigo a parte.

domingo, 11 de dezembro de 2016

O profundo sentido histórico do livro 'A vida imortal de Henrietta Lacks'





Livros há de vária lavra...

Livros que ensinam e que estimulam a imaginação.

Livros que educam e formam.

Livros que prendem e arrebatam.

Livros que fascinam enfim. ]

E que fascinando despertam o desejo de serem relidos.

Quero registrar e sem contemplação, que tudo isto pode ser dito a respeito do livro 'A vida imortal de Henrietta Lacks' escrito pela bióloga norte americana Rebecca Skloot. 

Após te-lo ganho de presente e começado a le-lo no mesmo dia (07) devorei suas quatrocentas e poucas páginas nos três dias seguintes e já cogito em rele-lo. É obra que pede releitura e reflexão pela amplitude e vastidão dos temas que aborda.

Como não desejo fornecer maiores detalhes sobre tão fascinante história e assim privar o amigo leitor de descobri-los por si mesmo e de por assim dizer encantar-se limitar-me-ei a fornecer-lhe alguns traços gerais, dizendo do que a obra trata ou quais sejam seus enfoques, sem no entanto revelar os detalhes desta narrativa precipuamente humana em que a vida imita a arte.

A tônica do livro, como o próprio título faz supor, gira em torno de uma simples Dna de casa, Sra Henrietta Lacks, esposa, mãe de família, negra e pobre.

No auge da juventude e florescendo para uma beleza exuberante é a sra Lacks tragicamente ferida por um mal que ao tempo de nossos ancestrais era classificado como 'mal maligno' e a respeito do qual pouco ou nada se falava. Alguns se lhe referiam como a 'aquilo' ou 'aquela doença' supondo inclusive que fosse um castigo enviado por deus...

E fico aqui pensando que se o bom Deus punisse seus desafetos com câncer já não seria ele mesmo o diabo...

Mas tornemos a sra Lacks.

É 1951... Os tratamentos são promissores e acenam-lhe com a cura. No entanto a moléstia toma outros rumos e a pobre mulher é levada ao paroxismo da dor... Até hoje o câncer tem destas e basta dizer que em determinado momento a morfina não faz mais efeito e aspirasse pela morte, tal o caso de S Freud e de tantos outros. E quem ainda pode gritar - foi um caso sabido por nós - segue gritando ou berrando até esgotar-se e morrer...

Entrementes a equipe médica responsável por seu tratamento, segundo o costume do tempo, extrai algumas amostras de seus tecidos - mais precisamente do colo do útero (das células cancerígenas) - os quais são logo entregues a um laboratório para serem cultivados.

Pouco tempo depois a jovem mulher vem a falecer deixando marido e cinco filhos, um adolescente e quatro pequenos. Suas células no entanto após terem sido cultivadas com sucesso continuam a multiplicar-se até atingirem e ultrapassarem o volume de seu próprio corpo vivo! Pelo que a sra Lacks em certo sentido ou ao menos parte dela, continua viva e por mais tempo do que lhe foi dado viver naturalmente!!!

Este no entanto é o menor dos problemas, uma vez que sua família de nada sabia e fora mantida na ignorância por quase vinte e cinco anos.

E enquanto a família Lacks era mantida na ignorância as células de sua matriarca eram utilizadas em diversos tipos de experiências com o objetivo de encontrar a cura de diversas moléstias, inclusive daquela que a vitimara, o câncer. Além disto foram suas células enviadas ao espaço, expostas a contaminação atômica, mescladas com células de origem vegetal, etc O que por sinal vai pelo caminho do bizarro.

Seja como for boa parte dos avanços efetuados no campo da genética, da oncologia, da AIDS e de outros tantos setores da pesquisa médica devem-se as pesquisas feitas com as células da sra Lacks.

Diante de tudo isto deveríamos supor que tanto ela - se viva - quanto seus filhos deveriam sentir imenso orgulho de tudo isto...

No entanto como já dissemos os Lacks além de não terem sido informados a respeito de tudo quanto estava sendo feito com as células de Henrietta são pessoas de origem humilde e que sequer possuem acesso a um serviço de saúde satisfatório.

Por outro lado, embora o entusiasta Dr Gey tenha cultivado as células de Henrietta sem auferir quaisquer lucros e enviado tais células graciosamente a diversos laboratórios e pesquisadores não é menos certo que parte destes laboratórios e pesquisadores passaram a cultivar tais células e tecidos em larga escala e com fins meramente comerciais obtendo lucros astronômicos, que orçam a casa dos milhões. Em suma a partir das células de uma negra pobre formou-se uma indústria...

Claro que se trata de um produto do engenho deles, o qual no entanto, tem por matéria prima, as células tomadas a sra Lacks e obtidas sem seu consentimento.

Basta dizer que tais células haviam sido batizadas como HeLa e que graças a este artifício, a doadora sequer pode obter o que cognominamos como simples reconhecimento ou gratidão. Ficando obscuro e ignorado o nome da sra Henrietta Lacks o que por si só já nos parece alarmante.

O livro segue por este caminho descrevendo o impacto causado nos diversos membros da família Lacks após terem tomado ciência de tudo isto em meados dos anos 70.

Como já dissemos parte dos descendentes de Henrietta - por ocasião de sua morte - não passavam de crianças, as quais pouco ou nenhum contato haviam tido com a mãe e que desde então teriam de enfrentar percalços bastante difíceis em suas vidas. Eles já haviam sofrido a perda dessa mãe e seus carinhos mas ainda haveriam de passar por situações de sadismo criadas por uma madrasta rancorosa e de conhecer a privação, a violência, o assédio, etc  passando por um autêntico calvário!

Até que num 'belo' dia são informados de que sua mãe vive (!!!) ou melhor de que as células dela são cultivadas aos zilhões em laboratórios de todo mundo (inclusive de que foram levadas a lua, explodidas, hibridizadas, etc), de que seu patrimônio genético foi responsável por uma verdadeira revolução científica e enfim de que tudo isto implicava lucros em termos multimilionários... Mas não para eles, os Lacks, filhos daquela a que fora tomada a matéria prima em questão, os quais achavam-se completamente desassistidos tendo dificuldade até para obter os medicamentos mais baratos.

Evidentemente que se trata duma situação bizarra!

Agora imaginem o estado de espírito dos Lacks???

Assim enquanto alguns dentre eles insistirão antes de tudo quanto o aspecto financeiro do problema outros, como a filha Deborah, tocarão ainda no mais fundo da ferida que é o absoluto silêncio ou mutismo em torno do nome da mãe, até então uma 'ilustre desconhecida'. Tudo quanto esta filha dedicada e ser humano exemplar buscará deste então será o reconhecimento público para com a memória de sua querida progenitora e nesta verdadeira cruzada por ela empenhada gastará todas as suas energias físicas e mentais empenhando a saúde e a própria vida. Tudo por um ideal de maternidade, filiação e saudade!

Deste então multiplicam-se as situações humanas, do modo mais patético, em que temos uma mulher humilde e simples, forcejando por deslindar os mais complexos mecanismos da ciência contemporânea - quase sempre inacessíveis mesmo ao público leigo medianamente instruído - e por compreender o que de fato foi feito com as células de sua mãe. Impulsionada pelo imenso carinho que dedicava a sua falecida mãe, Deborah se esforçara para assimilar o máximo possível em termos de conhecimentos científicos. E digo que nisto há grandeza infinita e sublimidade!

É aqui que as situações revestem-se dum aspecto em que a vida imita a arte... Os diálogos e cenas bem poderiam ter sido imaginadas, criadas ou inventadas pela sra Skloot. São no entanto tomadas a vida real pois no imaginário dos Lakcs as fronteiras entre a ciência e ficção estão muito mal colocadas e eles são pessoas simples ou gente do povo. Então imagine o que se lhes vem a cabeça após o lançamento do Filme 'Parque dos dinossauros'...

A par disto o livro aborda outros dois assuntos bastante atuais e interessantíssimos.

As relações raciais então existentes entre brancos e negros naquele país com seus coletivos, banheiros, enfermarias, etc classificados por 'cor' ou raça segundo os cânones vigentes do segregacionismo. Um aspecto pouco abordado noutras publicações e aqui ao menos de passagem levantado é o uso de cobaias humanas, especialmente negras, nas pesquisas científicas realizadas por diversos clínicos, em hospitais conceituados inclusive, do que resultou, a construção de um imaginário popular de que faziam parte sequestros e raptos noturnos e certa resistência, por parte dos negros, de recorres aos préstimos da medicina. Pelo que não poucos dentre eles preferiam morrer e definhar em suas casas!

Curiosamente ao ler estas passagens recordei-me de um clássico do cine trash: 'Estranhas mutações'.

Penso que a leitura destas partes do livro possam servir de preâmbulo a leitura de Myrdal sobre o racismo nos Estados Unidos.

Também ocorreu-me uma outra obra não menos fascinante que li a mais de vinte anos e de que jamais esqueci. Refiro-me a 'Enterrem meu coração na curva do rio' de Dee Brown (transformado em filme 2007), obra clássica sobre as relações entre índios e brancos no decorrer do século XIX ou seja nos tempos do Faroeste.

Julgo por sinal que a 'Vida imortal de Henrietta Lacks' não tarde a ser filmada vindo a somar-se com o grande clássico 'Negras raízes' obra em que Alex Hailey buscou resgatar a figura de seu ancestral Kunta Kinté...

Rebecca Skloot, G Myrdal, Alex Hailey
e Dee Brown perfazem roteiro de leitura bastante fecundo para os que aspiram compreender a realidade e as contradições existentes na sociedade norte americana.

O outro aspecto, quiçá mais profundo e mais atual, diz respeito a Ética e ao direito que os pacientes teem sobre a destinação dos materiais que deles são extraídos pelos médicos nos hospitais e posteriormente empregados como matéria médica nas pesquisas.

O assunto é relevante se considerarmos ou levarmos em conta fatores como a consciência, a liberdade, o bem, o sentido da justiça, etc enfim tudo quanto faz parte da condição humana ou do status peculiar ao ser racional.

Em tempos em que com toda propriedade nos preocupamos com os abusos a que são submetidos nossos irmãos irracionais em nome do simples antropocentrismo ou de um pressuposto espírito científico sempre irredutível (cientificista) a considerações de ordem Ética, não há como fugir a questão como livre consentimento ou da clareza em termos de seres humanos.

O mínimo que se pode dizer aqui é que as pessoas tem o direito líquido e certo de saber o que será feito com seu material pelos cientistas. Concordo em parte com o argumento segundo o qual as pessoas deveriam ceder este material tendo em vista a devolutiva que é o progresso científico do qual elas mesmas haverão de usufruir... Concordo em parte apenas porque o argumento é fraco. Fraco porque supõem um sistema ideal em que todos os doadores teriam acesso aos frutos do progresso médico e científico. O que efetivamente não se dá.

É aqui que entra a realidade e a mediação de um Mercado financeiro e justamente aqui que o exemplo da família Lacks torna-se eloquente. Todos supostamente, inclusive os mais pobres e humildes deveriam ser dóceis e permitir que seus tecidos fossem coletados e manipulados. Acontece que a posteriori esta medicina ou seus resultados adquire um valor econômico que os mais pobres e humildes não podem custear ficando seus resultados restritos a camada mais bem situada da população. E quase todo tão acalentado resultado das pesquisas reverte em benefício de uma classe apenas com exclusão dos demais doadores... O que não parece contemplar nem de longe as exigências da justiça.

Se ao menos os que assentissem em doar fossem contemplados com 'planos de saúde' ou com convênios médicos... Seria buscar-se por uma possível saída. Agora exigir que todos doem gentilmente enquanto apenas alguns auferem os resultados concretos por poderem pagar e os próprios cientistas e pesquisadores disto façam um meio de vida é no mínimo bizarro.

Para além da questão financeira, que para alguns é premente e deve ser considerada, para outros tantos - e me enquadro eu mesmo neste grupo - existe a questão sobre o tipo de pesquisas que serão realizadas com o material coletado. Pois nem todas as pesquisas tem por objetivo a medicina ou a terapêutica de determinadas moléstias. Pesquisas há de todo tipo e gênero algumas inclusive relacionadas com armas químicas e biológicas, com técnicas de guerra, aborto, etc Como me oponho marcadamente a todo este tipo de coisas julgo assistir-me o direito de que minhas células não sejam objeto de tais pesquisas... E caso seja impossível estabelecer semelhante distinção na prática, então julgo assistir-me o direito de não doar ou de ceder qualquer material. Pois não desejo nem quero que meu material ou parte de mim, sem meu livre consentimento, seja manipulado por uma cultura de morte cujo propósito é aniquilar ou danificar vidas humanas.

Ciência jamais produziu consciência. Foi o que disse Sócrates há quase vinte e cinco séculos e repetiu Schweitzer há menos de cem anos.

Há uma ciência empenhada em favor da vida, em que pese suas relações nem sempre dignas com o Mercado. E uma ciência que não esta empenhada em favor da vida ou que não reconhece a vida como valor supremo. Esta ciência não poucas vezes se tem colocado a serviço da morte e da opressão, no nazismo evidentemente, mas também fora dele!!!

É todo um mundo novo e inexplorado a respeito do qual ainda há muito que se discutir.

Quero por fim, ao encerrar este artigo já extenso, registrando algo sobre o sentido e relacionando o livro de Mrs Skloot com a História ou a Historiografia uma vez que seu livro não é obra de ficção mas fragmento tomado a vida vivida.

Durante séculos a História limitou-se a perpetuar a memória dos governantes, digo dos ricos, poderosos, afamados e de tudo quanto estava relacionado com eles. Ignorando o homem do povo, o servo, o trabalhador, o camponês, enfim toda gente simples como jamais tivesse caminhado pela face da terra ou existido.

Foi toda uma escola ou corrente positivista que sobrepôs o político ao humano. Mas o político é parte e não todo. Assim o registro da História precisa voltar-se para todas as categorias humanas numa perspectiva global.

Precisamos construir uma História humanista ou total que considere além do diplomata, do politico, do líder, do burguês também o homem simples ou do povo com seu imaginário, suas crenças, gostos, princípios e valores. É História que precisa ser escrita tendo em vista subministrar conteúdos a uma reflexão mais profunda em termos de Ética.

Por mais que amemos como amamos o conhecimento histórico e pesquisa metódica devemos considerar que a História não é o fim de tudo e que não esgota o potencial reflexivo do Homo Sapiens. Há um estádio a frente e creio que corresponde ao terreno da Ética. A História é caminho necessário ou passagem para uma reflexão mais ampla e consequentemente para uma vida Ética e nisto se concentra todo seu valor.

Portanto se nos perguntassem: Para que serve a História? Deveríamos responder sem hesitação - Para nos ensinar a viver e conviver!

Se pesquisamos e escrevemos, e registramos apenas para saber, conhecer, informar, citar e brilhar quão miserável é nossa tarefa. Miserável, supérflua e dispensável.

Tal no entanto não é nossa perspectiva, assim conectamos a História e a vida e sustentamos que seu objetivo é ensinar-nos a viver.

A tarefa dos novos Historiadores será situar a pessoa humana, especialmente os exemplares sempre excluídos, bestializados, oprimidos, esquecidos, vencidos, etc em primeiro lugar. Inverter o esquema positivista de ponta cabeça e forjar uma História de tipos humanos populares, a semelhança da Dna de casa e mãe se família Henrietta Lacks, será a missão de nossos sucessores. Congratulações a bióloga Rebecca Skloot que soube neste rasgo de genialidade, fazer mais pela ciência histórica do que muitos historiadores!

Leiam, leiam e leiam e se gostarem releiam a Vida imortal de Henrietta Lacks e sobretudo reflitam eticamente sobre os problemas ali colocados e que dizem respeito a cada um de nós.