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sexta-feira, 16 de julho de 2021

Nos domínios tenebrosos do 'Evangelistão'

Para aqueles que vivem em S Paulo ou vivenciaram, nos tristes anos 90, a expansão do Tucanistão a nível nacional, era difícil ou mesmo impossível conceber algo pior, embora eu mesmo, como ex protestante, sempre tivesse em mira, quiçá intuitivamente, essa possibilidade.

Mesmo porque o Brasil é exemplo universal quanto a possibilidade do ruim tornar-se ainda pior, e do pior agravar-se.

De modo que ao tucanistão e a lulopetismo (Cujas virtudes e defeitos não ignoramos.), de carona num vergonhoso golpe, chegamos ao evangelistão bolsonarico em que uma cáfila de pastores oportunistas, não apenas tomam de assalto o Estado e a administração pública como tem o desplante de querer controlar as vidas dos cidadãos, de restringir suas liberdades, de domina-los e de querer impor-lhes a moda bíblia - Não o Evangelho de Cristo é claro, mas o antigo testamento, com seu padrão voluntarista e odinista.

Hoje por sinal, tendo meu irmão ido ao médico e encontrado um amigo comum (Alias ex protestante como eu.), este enojado teria dito a meu irmão, algo que costumo repetir frequentemente: Este governo mesmo sendo formalmente democrático, consegue ser pior, repito consegue ser pior, do que a ditadura militar.

Pois se a ditadura torturou apenas alguns milhares de cidadãos este governo apoiado pelos falsos cristãos fundamentalistas, tem torturado indiretamente dezenas e dezena de milhões por meio da inabilidade, da miséria, violência, da ignorância, da negação de direitos, etc É todo um povo ou melhor uma nação sendo indiretamente torturada, inclusive em sua alma.

E se o FHC ocupava o primeiro lugar entre nossos piores presidentes é isto coisa do passado. Impensável a cerca de cinco anos, porém, atualmente inequívoco. 

Jamais enfrentou nosso país algo ou alguma coisa semelhante a Bolsonaro ou ao Bolsonarismo. Coisa muito próxima não de um Mussolini - Sinto desapontar a esquerda desmiolada! - mas de um Hitler (Temos de ser precisos, exatos e taxativos!), de um Calvino, de Bush, de um Trump... Pois o modelo de Bolsonaro, se é que modelo tem, não esta na Itália ou nas obras de um Mussolini, mas nos EUA, nas obras dos pastores e remotamente dos economistas liberais de Chicago. Não Roma, mas Chicago. Não Europa ou Itália mas América do Norte.

Daí o empenho de crentes e fanáticos, os quais, novidade não é, há muito que acalentavam conquistar antes de tudo culturalmente esta infeliz república para em seguida converte-la numa nova Genebra, ou conquista-la politicamente e valer-se da força com objetivo de estabelecer leis bíblicas ou melhor vetero testamentárias sacadas a Torá.

É plano antigo que os calvinistas, comunicado de geração após geração e transplantado de espaço em espaço desde Genebra, implantar um reino sectário e judaizante sobre a face da terra. E já traçamos com detalhes o roteiro desse plano, de Genebra ao Brasil passando pela Inglaterra e pelos EUA, lugares onde sucessivamente abortou. Fato é no entanto que não são somente os sunitas lá do Oriente médio que com sua sharia se opõem as instituições politicamente liberais, democráticas e laicistas, quiçá estimulados ainda mais pela opressão e pela miséria. Não - Pois há também nos EUA, a mais prospera e poderosa nação do planeta, e mais precisamente no Sul, há milhões de sectários bíblicos, fundamentalistas e fanáticos que odeiam tais instituições e quiçá com maior intensidade.

Afinal a cepa dos calvinistas, deterministas e adversários da liberdade, muito agradaria usar todo esse poder temporal e político com o objetivo de impor o biblismo a ferro e fogo, quiçá as nações romanistas e Ortodoxas. O que já se empenharam em fazer durante todo século XVI e parte do século XVII. A bem da verdade mesmo os não calvinistas Muntzer e Zwinglio, partindo do antigo testamento, aduziram a legitimidade de levar o novo evangelho a ferro e fogo, lavando a terra com sangue. Forjando assim uma jihad 'cristã' semelhante a de Maomé, e um dos homens mais sábios que caminhou sobre a terra Guilherme Postel - Avançando no terreno futuro da Sociologia Religiosa - julgava que os reformadores teriam lido o Corão em lugar do Evangelho... No entanto o que eles leram foi mesmo a Torá ou antigo testamento, em parte por descuido e parte da Igreja Antiga.

Claro que nas atuais condições uma tal ação seria impossível. Mesmo considerando que os fanáticos sejam irracionalistas. Damos no entanto uma tal manobra política calvinista como altamente improvável. Já outra coisa seria escorar-se sutilmente no poder do Estado Yankee, auferindo recursos e regalias diplomáticas em favor da fé, tal e qual sucede hoje no Brasil, quando aos pastores parasitas se concede passaporte diplomático ou o uso de aviões presidenciais, ou quando uma seita convoca o governo a defender seus direitos noutro pais, donde seus representantes foram defenestrados sob a pecha de avareza... 

Lá no entanto, onde o espírito democrático é bem mais forte, o máximo que esses vampiros lograram obter foi essa sutil mancebia sob os governos Bush e Trump, os mais lesivos e sinistros do ponto de vista da política internacional e autênticas calamidades. Com o Trump, o mais imbecil entre eles, concebeu-se lá o inconcebível i é uma tentativa de sedição, certamente apoiada por tais grupos, a qual felizmente foi esmagada sem piedade ou contemplação pelos militares. Inda quando o golpista do Norte, conta-se com a solidariedade de alguns zumbis no próprio parlamento, uma vez que nem todos os teocráticos por lá são abstenceístas, e parte deles também cogita destruir a democracia e construir uma democracia por dentro i é com a ajuda de demagogos fundamentalistas eleitos por eles. 

Tanto lá como aqui a democracia precisa criar mecanismos com que proteger-se da infiltração dos militares e dos pastores seus principais adversários. Quanto aos militares porque não devem em hipótese alguma transmitir ideologias partidárias ou sectárias na caserna, a qual cabe defender o país como um todo e suas instituições. Quanto aos pastores porque não devem tirar proveito do poder espiritual para, a partir dele conquistar o poder temporal ou político. Uma vez que não sabem ou se recusam a raciocinar em fora da bíblia ou em termos comuns, e buscam impor suas crenças, tomadas a bíblia, a todo corpo social, compreendendo séria ameaça ao laicismo e evidentemente ao liberalismo religioso que é um dos pilares da ordem democrática.

Importa dizer que as aspirações desse grupo é tanto mais humilde e realista embora não menos perigosa, consistindo em apossar-se do Estado com o objetivo de impor leis bíblicas ou judaizantes, i é moralidades 'reveladas' ou 'cristãs' ou de impedir o avanço de leis e pautas que consideram anti bíblicas, tendo em vista manter invulneráveis determinados preconceitos presentes em nossa cultura. Tal o objetivo da política protestante ou bíblica aqui representada pela perversa bancada evangélica e como vemos é anti naturalista e consequentemente anti democrática. Por menos nossos ancestrais causaram grande danos ao papado no século XIX, embora o papado honestamente revindicasse para si um padrão de autoridade, que o protestantismo, pautado no exame individual e livre, não pode revindicar sem que lhe caiba a pecha de hipócrita.

Foi desse empenho teocrático que surgiu a dita bancada evanjéguica no final do passado século, não com o junto objetivo de defender igrejas porventura perseguidas e sim com premeditado objetivo de tomar posse do poder em benefício próprio i é com o propósito de manter ou se possível de aumentar seus privilégios, até suportar essa política puritana e firmar leis bíblicas inspiradas na fé. 

Claro que tudo isto vai muito mal com as instituições liberais e democráticas assentes em nossa Magna Lei que é a Constituição.

Por isso esses homens ambiciosos e arrogantes não tardaram em editar um lema essencialmente virulento: Bíblia sim, Constituição não.

Posto que o Velho testamento individualmente interpretado sanciona os mais deploráveis crimes condenados pela Constituição como o assassinato em nome de Deus acompanhado pela tortura e pelo estupro inclusive. Admitida tal aberração as wiccanistas teriam de arder em nossos jardins, uma vez que a Torá determina que as bruxas sejam queimadas... a partir daí iriamos de abismo em abismo, até os cientistas e as pessoas civilizadas, adeptas do evolucionismo biológico serem decapitadas ou enforcadas por heresia no tribunal dos fanáticos. Basta lembrar que lá no EUA houve um processo Scopes em pleno século XX. Já me referi a oposição suscitada contra Copérnico por Lutero, a questão da circulação do sangue na condenação de Servet, a condenação de Celsius pelos luteranos no século XVII, a condenação da vacina pelos pastores, a oposição por parte dos mesmos ao para raios de Franklin,  a destruição do laboratório de J Prestley pelos sectários no final do século XVIII, etc tudo tudo feito em nome da bíblia ou da leitura da bíblia. Apegue-mo-nos pois a Constituição, coração da vida democrática, a qual felizmente conhece limites, pois a bíblia não o conhece e tampouco seus leitores exaltados.

Com o dizer bíblia designam a bem da verdade seu leitor, i é o pastor que lhe dá sentido e santifica ou diviniza suas opiniões colocando-se acima da lei e exercendo autoridade arbitrária. O Resultado de toda essa treva de bíblia e livre exame sim, sem a existência de uma lei constitucional, temos no horrendo julgamento das 'bruxas' de Salém... 

Caso queiramos evitar que tais cenas se repitam no tempo futuro temos de afastar ou melhor de preservar o poder político de quaisquer injunções advindas da bíblia, do corão, do avesta ou de quaisquer livros religiosos. É o elemento comum da razão que deve gerir o Estado ou o poder político com exclusividade. Como ex protestante direi que  maior parte dos protestantes, fixados não no Evangelho mas no antigo testamento, não assimilaram este padrão de pensamento ou introjetaram o espírito democrático, do que tiram proveito os pastores inescrupulosos. 

Agora essa manobra ou conjuração teocrática cerra fileiras com Bolsonaro e chega a ameaçar o STF, o qual apesar de seus erros e senões (Pois não pretende ser tribunal infalível que infalivelmente queima inocentes em nome de Deus.) é custodiário de nossa Lei maior, a Constituição, suprema garantia de nossas liberdades e direitos essenciais. Por isso dar combate ao STF, face as ações arbitrárias desse governo desumano e cruel, equivale a gritar: Bíblia sim, Constituição não.

E como não pode a Hidra bolsonarista atingir o STF por fora i é por meio da sedição, devido ao amor que alguns dos cidadãos ainda tributam a vida democrática e suas instituições, optou o déspota atacar o STF por dentro lá lançado um cavalo de Tróia ou comprometendo-se com seus apoiantes fundamentalistas a indicar a próxima vaga que porventura surgisse no STF um cidadão 'Terrivelmente evangélico' ou melhor dizendo um cidadão terrivelmente bíblico, fundamentalista, fanático, sectário, protestante...  Agora veja o leitor amigo onde chegamos com essa política bolsonarista, que concede a todo instante algum benefício aos fanáticos. Em que pese também terem votado nele certo número de ateus, irreligiosos, papistas, ortodoxos, espíritas... Incoerentes, desorientados e alienados, que agora se limitam a fazer discreto 'Mea culpa' enquanto que o poder é entregue aos pastores e seus lacaios.

São diversos ministros pastores como o Milton, a famigerada Damares, etc E agora é um pastor, cuja visão de mundo está fixada na bíblia ou no antigo testamento, o sr André Gonçalves, indicado para aquela vaga... Pelo simples fato de ser protestante ou terrivelmente 'evangélico', sendo sua indicação impulsionada por um elemento credal, o que é inadmissível na perspectiva da laicidade. Não se indica ou se deve indicar alguém para tornar-se titular de qualquer cargo público com base em suas convicções pessoais ou crenças religiosas. Tal postura é inconcebível por parte de um agente democrático. 

É, fazer distinção religiosa colocar um cidadão acima dos demais por ser afiliado a determinada crença. É exercer discriminação e rebaixar todos os outros cidadãos da república. É violar o princípio da isonomia assente na Constituição e humilhar os demais serventuários da lei. Pior, muito pior, é privilegiar um credo ou uma fé com objetivos demagógicos ou eleitoreiros. É usar cargos e dignidades públicas destinadas a servir a democracia como vil moeda com que comprar o apoio de fanáticos sediciosos. 

Isto no mesmo momento em que outro pastor amancebado com esse governo, um certo pastor Hamilton, envolve-se - Como para nos era de se esperar haja visto que outro pastor politiqueiro, o Everaldo, já se encontra atrás das grades, fazendo companhia ao pastor Cunha, outro corrupto! - em grave escândalo relacionado com a vacina! E enquanto diversos pastores fanáticos pelejam em favor do coronavírus, fazendo com que os índios não se vacinem... Desde a conspiração da vacina, contra Jenner, no século XVIII,  a coisa não evoluiu muito, tornando esses diletantes a afirmar que brotarão chifres nas cabeças dos imunizados, ou que receberão um chip ou ainda que serão transformados em gays - No passado eram lobisomens rsrsrsrs

Lamento a rude franqueza mas é coisa que não se vê no papismo e na Ortodoxia 'idólatras', no espiritismo, no judaísmo, do budismo, do ateísmo, do materialismo, etc mas somente na excelente religião bíblica dos salvos, eleitos e predestinados.

Tristemente havíamos já deparado com tais situações nocivas durante o inicio da pandemia com pastores e fanáticos cuspindo em enfermeiras, espalhando o vírus em seus cultos, recusando-se a usar máscaras ou a ficar em suas casas, etc alguns inclusive participando ativamente de marchas bolsonáricas e chegando a agredir profissionais da saúde... Tudo isto esse bando de fanáticos fez e continua a fazer neste pais, sendo agora brindados a guiza de recompensa com um provável ministro no STF, destinado a sabotar ou a tentar sabotar nossas liberdades, garantias e direitos, e o cúmulo dessa comédia pastelão será ve-lo querer introduzir orações, cultos ou mesmo pregações no recinto do STF durante as sessões!!! A menos que aspire o homem de deus exorcizar seus pares fiéis ao espírito democrático.

Lamento ali não estar, como ministro, no recinto do STF para, no espírito de um Rui Barbosa, de um Teixeira de Freitas, de um Pontes de Miranda, de um Evaristo de Moraes... mandar o pastor calar a boca caso ousa-se recitar orações durante as plenárias da casa. Pa e Pum eu o mandaria tartamudear suas orações em Meca ou em Riad...

No entanto é isto que cogita o Emir ou o Ulemá do Planalto, atingir ou humilhar, de algum modo os honoráveis paladinos da democracia.

Tais as condições da nossa República nas garras desses ciclopes insaciáveis a que chamam pastores. Finado Tucanistão que transformou-se em Evangelistão, realizando um único milagre: Conseguir ser pior... e fazer-nos ter saudades do FHC. Tristes tempos em que o Hitler dos trópicos converte nossos piores vilões - Como o Dória, o Alexandre de Morais, o Gilmar Mendes, o Renan, etc - em heróis...  Resta-nos apenas dizer: "Oh tempora, oh mores!" e pugnar heroicamente por esta ordem democrática que é o supremo bem da nação.



quinta-feira, 12 de março de 2020

O sentido político do proselitismo protestante nas escolas públicas do Estado de São Paulo

No artigo interior fizemos uma denúncia bizarra... Se não há, certamente houve, há alguns anos, exercício de proselitismo religioso em certas escolas públicas do Estado de São Paulo. Estou averiguando para saber se tal situação ainda ocorre... Assim se determinados projetos 'laicos' ou 'éticos' realizados nas Escolas por voluntários religiosos exercem qualquer tipo de propaganda, direta ou indireta visando converter os alunos ou levar-lhes sua fé. O exercício de proselitismo na Escola pública, com o apoio de aparelho estatal, é crime líquido e certo, alias, julgo eu, sem atenuantes.

Incluo aqui as orações. Orações em alta voz, instrumentalizadas por líderes, bem pode ser ser utilizadas como forma de proselitismo, pelo simples fato de produzirem certo clima psicológico, tipicamente eclesiástico, na escola pública. O que é inadmissível numa cultura democrática.

Importante, acima de tudo, saber que este assalto religioso tem um significado político. É um proselitismo em favor de certa política e uma política favorável ao proselitismo, uma mancebia Estado/Religião, uma troca de favores, uma máfia espiritual e um ataque ao estado Laico, assim a Constituição, Lei maior deste país.

Que querem os políticos ou demagogos???

Votos - De preferência a toneladas... toneladas de votos...

Mas como obter toneladas de votos empacotados???

Tudo isto tem uma História. Perpasse-mo-la!

Como todos sabem foi a Proclamação da República uma espécie de golpe ou motim, não algo espiritual ou ideal, que tenha partido do povo. Sequer povo havia naqueles tempos, mas massas analfabéticas, quiçá não tão estúpidas e degradadas como as nossas, mas, em todo caso massas, não povo, em termos de cidadania consciente. O povão só soube da República, em alguns casos, meses ou mesmo anos após sua proclamação (Como diz o conto do Chernovicz), só lhe restando aceitar e aplaudir. O senso comum era sinceramente monarquia e quem representava o pensamento 'popular' (Se assim posso escrever) era o Antonio Conselheiro.

O povo devia permanecer, como sempre ou até mais, sob controle. E já se disse que o Pedro barbudo (O filho - segundo II) fora mais democrático que os primeiros presidentes, como o ditador Floriano. Bem, era necessário criar uma ficção democrática ou dar ao povo a ilusão de que a si governava quando era governado, mais até do que sob o antigo regime... Para tanto prestaram-se os coronéis. Os coronéis foram o creme de chantilly daquele 'Café com leite'. Era eles que arregimentavam os sufrágios para seus compadres ou apadrinhados políticos e moviam toda estrutura da primeira República. Ocupavam a base e mantinham o sistema, amedrontando ou coagindo fisicamente os eleitores. Esse voto dirigido pelos coronéis foi chamado voto de cabresto e vencia o pleito quem tinha o apoio e as bençãos deles.

Essa festa ou orgia coronelesca durou até 1930 quando o gaúcho valente desarticulou a máfia. Desde então apenas a valsinha ficou com saúde desses coronéis babões e pedófilos tão bem pintados por Jorge Amado...

O Estado de S Paulo, no entanto, tendo sido alijado do poder e posto a margem dele, insistiu que o coronelismo era sinônimo de democracia e que tudo iria muito bem 'obrigado', não fosse o 'odioso' ditador Vargas... E levantou-se contra ele com o objetivo de defender a velha ordem do pão, pão; queijo, queijo... Getúlio no entanto não abalou-se... E paradoxalmente uma ditadura foi que criou o primeiro impulso democrático neste estranho país. Trazendo a tona temas como 'bem como', 'justiça social', 'direito do trabalho', etc A educação conheceu seu primeiro salto qualitativo sob Gustavo Capanema... E por isso aquele ditador 'odioso' era amado pelos trabalhadores, camponeses e por toda gente simples.

Para os liberais economicistas - Liderados pelo Lacerda - comunistas e anarquistas no entanto era Vargas um déspota, por isso fizeram um pacto - a Oposição - com o objetivo de derruba-lo, mas ele, mostrando brios: Saiu da vida para entrar na História... E sua política, para desespero dos sediciosos e da 'nova' elite militar, continuou. Carlos Lacerda bem que tentou realizar seu eterno sonho de tornar-se presidente (Foi o modelo do Aécio Neves!) mas não conseguiu enganar o povo e ser aceito.

Quando o Jango ganhou foi um 'disparate' e de pronto as forças e poderes sinistros tentaram remove-lo. E até teriam conseguido não fosse o herói Leonel Brizola.

Herdeiro da política e do ideário getulistas Jango jamais flertará com o Comunismo, aqui representado por meia dúzia de gatos pingados, inda que sediciosos. Era Jango no máximo Social democrata ou adepto do bem estar social, noutras palavras, trabalhista, reformista ou algo assim. Otimista, imaginou ele que dava para avançar e saiu-se com a tal Reforma agrária, reforma implementada em quase todos os países civilizados - Na França por exemplo desde 1789, pela grande Revolução... Foi quando alguém berrou comunista e o povo ficou atemorizado, por lembrar-se das cagadas feitas por Lênin e Stalin... Foi como recorrer ao 'mito' de Sorel. O grito 'bolchevista' eletrizou gregos e troianos, numa nação em que os Católicos alienados nada sabiam sobre a doutrina social de sua própria igreja... Com um empurrãozinho dos EUA o pobre jango foi derrubado e substituído pelos militares, digo pelos novos militares, não pelos companheiros de Getúlio, os quais a exceção de Teixeira Lott estavam já quase todos mortos e enterrados.

Rachel de Queiroz (F S P 1999) anti getulista confessa, declarou: Agora nós eramos o poder ou a ditadura! Nós, os adversários de Getúlio e os novos militares.

Esclareço - Os militares do tempo de Getúlio i é seus companheiros, eram pelas tradições nacionais e cultura brasileira. Os novos militares, desde 1945 - i é da segunda grande guerra - morriam de amores pelos EUA e derretiam-se todos por aquela potência estrangeira e sua cultura. Era decididamente pró capitalistas e tecnicistas. Para eles os EUA representavam o progresso e o Brasil, o atraso... Era quase todos americanistas e nada tinham de nacionalistas, exceto por um culto de símbolos e aparências. Nossas tradições, costumes e cultura era para eles dignos de riso. E tínhamos de assimilar ou afetar os costumes Norte americanos caso quiséssemos avançar. O programa era transformar isto aqui em província cultural dos EUA ou num país vassalo (Colônia).

A bem da verdade tais ideias não eram novas ou recentes, remontando ao antigo regime. Já pelos idos do segundo império principiou Tobias Barreto a endeusar antes de tudo a cultura alemã e em seguida a cultura inglesa (Apesar do 'deus' Comte ser francês e admirador do Catolicismo!). Foi seguido por Sílvio Romero (E na Argentina houve um Domingo Faustino Sarmiento)... Os quais opinavam que a suprema desgraça de nossos países era terem sido colonizados por latinos, i é portugueses e espanhóis e não por alemães ou ingleses como os EUA, o país que dera certo... Graças as virtudes inglesas. Era o que diziam eles, proclamando a superioridade da cultura anglo saxã, em cuja base estava o protestantismo, 'cornucópia donde manavam todas as joias da civilização'...

Em última análise todas as nossas desgraças - Como a 'Idade das trevas' (Outro mito construído pelos protestantes!) - deviam-se a velha igreja romana i é da religião vigente nos países latinos como Portugal e Espanha... Todos os progressos vinham do protestantismo, como postulará apressadamente o Belga E Lavellaye e ainda era repetido pelo gramático e pastor Eduardo Carlos Pereira em "O problema religioso na América Latina" (1920), ensaio em que repetia as pérolas do Lavellaye e dos nossos germanófilos. Afinal se assim o era a solução era protestantizar a América Latina, o que alias era intensamente desejado pelos EUA. Quanto a E C Pereira foi completamente pulverizado pelo jesuíta Leonel Franco em sua obra "Igreja, Reforma e Civilização" umas das melhores obras religiosas já escritas no Brasil. Lamentavelmente o erudito jesuíta abordou prioritariamente o tema religioso ou espiritual, deixando de desenvolver mais o tema político e social.

Tal e qual no vizinho Chile, o protestantismo avançou bastante no Brasil durante o período militar, e Décio Monteiro de Lima nos explica porque. Claro que o Vaticano II tem grande parte de culpa... E todavia o discurso americanista dos novos militares não era nada inocente. Se assimilar a cultura N Americana significava progredir esta assimilação tinha de passar pela adesão ao protestantismo cujas seitas aqui introduzidas produziam grande clamor.

Seja como for durante este período não se precisava preocupar com votos, uma vez que a ditadura havia dado cabo da democracia. Por outro lado, nem mesmo a igreja romana seria capaz de produzir algo semelhante ao velho coronelismo, intimidando e manipulando as massas.

Os resultados da Ditadura são bastante conhecidos por todos: Investimento considerável numa alfabetização sumária ou elementar (De encontro ao protestantismo e o soletramento da bíblia), empobrecimento quanto a educação superior ou crítica, renúncia a justiça social e sistemática violação de direitos, com certo saldo de mortes e tortura; enfim a destruição do espírito ou da consciência democrática.

Mas havia algo ainda pior por vir! E no final dos anos 80 - A retomada de uma forma democrática sem espírito, consciência ou cultura, e com matizes de liberalismo econômico é claro. Nos anos 90 foi restaurada a estrutura democrática, e posta a serviço do economicismo neo liberal. Aquele tempo nem as pessoas sabiam votar nem havia qualquer cabresto... havia um despreparo geral, agravado ainda mais pelo voto dos analfabetos. Disto resultou tremendo Caos e o funesto período FHC... Uma vez expulsos os trabalhistas juntamente com os sectários comunistas, foi a retomada das formas democráticas intencionalmente posta nas mãos dos liberais e neo liberais, os quais assumiram o status de heróis, bem como suas agências partidárias como PMDB, PDS, PSDB...  FHC aspirava fazer nos anos 90 tudo quanto Boi Sonoro agora faz, i é as ditas reformas, mas foi sucessivamente barrado pelos getulistas e petistas. Hoje os getulistas estão mortos...

Até que chegou o Lula e com ele e o PT, o dilúvio... Uma vez que as tais reformas foram dadas por enterradas ou engavetadas. No mínimo o ritmo delas se tornaria bem mais lento. Diante disto o Mercado ficou enfurecido...

Os liberais precisavam retornar ao poder e impor seu programa aos brasileiros, prestando com isto imenso serviço ao mercado... Mas não podiam voltar ou consolidar-se sem as toneladas de votos fáceis ou empacotados, como no tempo dos coronéis. Tampouco podiam eles ressuscitar os coronéis ou contar com eles. O cabresto da chibata ou do revólver estava findo, definitivamente.

Haviam no entanto os pastores... Os quais também sonhavam com o poder político, uma vez que já tinham o poder de guiar as consciências e orientar votos. Bastava então saber usa-los, como material de troca. Os pastores criariam - como criaram de fato - um novo cabresto, espiritual, e forneceriam toneladas de votos aos políticos sem consciência, em troca estes lhes abririam as portas das Escolas públicas, de modo a controlarem a Educação, cooptando mais e mais consciências e controlando mais e mais eleitores...

Foi exatamente assim, com o apoio das mafias religiosas e dos fanáticos, que o PSC, PSL, PSDB, PMDB, DEM e outros partidos removeram o PT e chegaram ao poder, fazendo acordos, traindo o laicismo e oferecendo a educação pública de mãos beijadas aos pastores ou as pessoas por eles instrumentalizadas. O que é absolutamente necessário, se se quer que a dita máfia aumente e o esquema continue vigorando... Numa palavra cidadão brasileiro: Fomos todos vendidos aos pastores e fundamentalistas... Aos quais o Boi Sonoro distribui os cargos que pode, assim o Dória e outros governadores. Em posse do poder eles forçam a Constituição, interpretam, burlam e se esforçam por introduzir mais e mais grupos religiosos na Escola pública, com o objetivo de exercer um sutil proselitismo.

Na medida em que crescem e obtêm mais fieis as seitas convertem-nos em eleitores do Dória, do Boi sonoro ou do PSC, ou votam nos candidatos indicados ou irão para o inferno declaram os pastores. Votam nos candidatos de Jesus ou não obterão graça alguma. Com esse tido de cabresto, digo, de voto, que fica sendo da democracia??? Nada... Pois o pastor manipula o pobre do eleitor como o vidraceiro manipula a cera quente...

Neste momento as seitas protestantes são imensos celeiros de votos com que contam os liberais e neo liberais... E podem fazer cálculos e contar antecipadamente com eles, posto que não são menos controlados do que os votos de nossos ancestrais sob o jugo da primeira república. Apenas o cabresto de hoje é mais apertado porquanto interno, mental ou invisível; o que mantém as aparências, sem torna-lo menos eficaz. É cabresto porque há imposição por parte de um lider religioso.

Resta declarar que os fanáticos religiosos negociam apenas porque ainda não constituíam ampla maioria no exercício do poder. Fossem eles maioria e já teriam legislado em favor próprio, obtendo privilégios e vantagens. Daí a dissimulação e o ocultamento ou mesmo prudência com que dirigem-se as escolas públicas alegando oferecer projetos que não violam a laicidade - Ainda que hajam orações em sala, e orações tipicamente protestantes. Julgo que o STF ou qualquer órgão da justiça devesse estar investigando isto há muito tempo, pois não é novidade para quase ninguém. Caso as autoridades sejam coniventes ou se omitam que cada um faça sua parte e cada cidadão promova a resistência.

Caso você retruque e me diga que a Escola pública jamais foi laica - Nos anos 70/80 e 90 eu conheci uma escola pública 100% laica! - ou que a igreja romana sempre desejou exercer certa influência sobre ela, devo dizer, a guiza de resposta, que a Igreja romana, em que pese seus vícios e defeitos, jamais foi moralmente tão invasiva, pretensiosa e arrogante quanto o protestantismo bíblico vindo dos EUA, o qual tudo pretende dominar e pautar pelo antigo testamento com seus milhares de tabus e preconceitos. O sectarismo protestante me parece mais estreito e sufocante, digo-o como ex protestante. Por isso o crítico, não enquanto fé ou crença religiosa mas enquanto fonte de poder e dominação.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

O S T F e a questão do Ensino religioso nas escolas públicas.

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Manifesto é que não cabe a um Estado Laico, ministrar aulas de religião em suas instituições públicas de Ensino e nossos ancestrais estavam perfeitamente cônscios disto. O estado democrático é laico ou neutro por definição face tanto ao problema metafísico quanto ao problema religioso.

Quanto ao problema metafísico, como Aristotélico/Socrático tenho sérias dúvidas e isto pelo simples fato de aceitar com absoluta naturalidade a capacidade do aparato racional.

Sei perfeitamente que esta aceitação acarretaria objeções quanto a isenção do Estado democrático em matéria de crenças religiosas.

O fato é que nestes tempos o padrão da racionalidade já não é admitido pela totalidade dos cidadãos e já não se faz presente em todas as esferas do poder político ou da administração pública. Há cidadãos relativistas, subjetivistas, positivistas, cientificistas, etc

E nem podemos criar um Congresso filosófico ou concílio ecumênico com o objetivo de resolver a situação. A menos que se chegue a uma acordo por via da persuasão, prevalecerá a divisão. O Estado político no entanto não pode esperar por este hipotético acordo em matéria de conhecimento ou de epistemologia, logo, tem de considerar a divisão como fato consumando e na prática estabelecer uma governação que agrade a todos. Ora o único meio de agradar a todos, face a uma situação de dissidência insolúvel é a adoção do princípio da neutralidade.

Adota-se portanto, segundo a fórmula de Locke, uma solução de neutralidade ou isenção tanto no plano da metafísica quanto no plano da fé religiosa. No sentido de custo benefício, como veremos é a solução, de longe, mais vantajosa para todos.

Quanto a metafísica é este Estado agnóstico, e portanto, de modo algum ateu, como costumam alegar os religiosos desonestos e ressentidos.

Agnóstico porque reconhece a si mesmo como incapaz de julgar a questão da existência ou não de Deus. Recusando-se tanto a afirma-la - na perspectiva do teísmo - quanto a nega-la.

Tal Estado não resolve a questão pela negativa. Abdica no sentido de resolve-la, alegando que não faz parte de sua esfera, a esfera das coisas comuns.

Tampouco temos aqui um estado anti religioso no sentido em que negue a existência do fenômeno religioso o lhe dê combate.

É irreligioso no sentido de que não se julga apto para interferir a favor de determinada religião - e em detrimento de todas as outras - ou para julgar a questão religiosa, atribuindo-a ao juízo privado de cada cidadão.

Sendo assim não é religioso nem anti religioso, mas neutro ou isento.

Já o Estado confessional é aquele que revindica para si o direito de julgar a controvérsia religiosa, posicionando-se unilateralmente em favor de determinada fé, e não poucas vezes proscrevendo ou proibindo o exercício das demais.

A questão aqui, em termos práticos é decidir a respeito de qual deles será mais estável na mesma medida em que resguarda os direitos essenciais da pessoa humana.

Aparentemente o estado confessional uniforme apresenta uma maior estabilidade em todos os sentidos. Pois na medida em que se elimina a crítica religiosa, tende-se a eliminar toda crítica e a dominar o indivíduo por completo. Onde prolifera a fé religiosa, controla-la ainda é a melhor maneira de controlar o próprio homem.

Mesmo porque poucos sentimentos são tão arraigados no homem quanto o sentimento religioso.

De modo que este controle, da fé religiosa, só se pode dar e efetivar de maneira dramática i é sob a forma do terror. Aqui a inquisição, ali a Murtad ou a Djzia.

Um Estado ou uma Sociedade hábil no sentido de estabelecer a unidade religiosa será certamente uma sociedade repressora, desumana e sangrenta.

Aqui o preço a ser pago pela estabilidade social é demasiado caro.

O sistema laicista nem sempre funciona perfeitamente pelo simples fato de em determinadas situações, certas religiões de caráter teocrático, fundamentalista ou fanático, aspirarem pelo controle do Estado ou chegar as vias de fato com elementos de outras fés.

Aqui o risco do conflito e da violência é sempre real, pois a convivência pacífica entre pessoas que pensam ou creem diferentemente ainda não é sinceramente aceita por todos.

Cabe a este tipo de estado gerenciar tais conflitos por meio da lei ou reprimi-los da maneira mais dura. Criando um espírito ou produzindo - aos poucos - uma cultura de liberdade e respeito mútuo.

Já foi dito e com razão que a lei é incapaz de alterar drasticamente esta ou aquela dinâmica social ou de opor-se a cultura tradicional e arraigada.

Sem sombra de dúvida o Estado laico ou a lei, não produz de imediato uma sociedade laicista ou uma cultura em torno do laicismo consciente.

É todo um aparato legal que se sobrepõem a uma cultura muitas vezes infensa.

O que se espera é que o ato de acionar-se repetidamente a lei e sua aplicação rigorosa acabe por reprimir a cultura confessional ou sectária e a produzir, a longo prazo, uma padrão diferente de cultura.

A própria tendência a longo prazo é esta, chegando as próprias instituições religiosa predominantes a conformar-se com a lei e em seguida a abraçar o novo padrão de cultura.

Estabilizando-se a situação e sucedendo-se a paz. A menos que outra ideologia sectarista se apresente e aspire pela dominação.

As vezes a afirmação da cultura laicista supõem um trabalho de esclarecimento e uma luta intelectual de longo prazo ou uma guerra continua.

Pelo que se vê não temos um sistema perfeito, assim como algo dado, pronto e acabado.

Por outro lado, no contexto de um Estado fraco, a promoção de uma determinada fé em detrimento das demais, tende a ser até mais danoso do que sua promoção por um estado forte a autoritário. Na medida em que as principais religiões podem assumir o controle e a situação desandar numa guerra religiosa. Desde muito tempo as guerras religiosas tem sido incomuns no contexto Ocidental. A última no entanto, a Guerra dos Trinta anos, é considerada por alguns como equivalendo a primeira grande guerra mundial e tudo quando podemos dizer é que foi verdadeiramente pavorosa.

Novas guerras religiosas, no estilo da guerra dos trinta anos, poderiam superar em carnificina, qualquer tipo de repressão institucionalizada num determinado Estado confessional.

Por isso a principal obrigação de uma democracia laica ou laicista é jamais interferir diretamente na dinâmica religiosa, jamais arbitrar, jamais julgar, jamais favorecer a qualquer um dos credos ou religiões existentes e não apenas manter mas promover por todos os meios possíveis uma situação institucional de absoluta igualdade. É dever do Estado laico abster-se no sentido de envolver-se em qualquer controvérsia religiosa e de manter sua estrutura impermeável a qualquer tipo de controle credal. Uma vez que assumiu uma orientação laicista e promoveu relativa igualdade entre os partidos religiosos deverá permanecer neutro ou isento, custe o que custar.

O que não se pode é brincar com o laicismo ou como se diz afetar laicismo. É como brincar com fogo. Elaborar um discurso em torno da laicidade para em seguida favorecer determinada fé, pode ser o caminho para sérios distúrbios sociais, mesmo entre um povo pacífico e pacato.

Eis porque temos de questionar, e muito seriamente, a viabilidade de que o Ensino religioso venha a ser ministrado pelos estabelecimentos públicos de ensino, especialmente numa perspectiva credal ou dirigida.

Concedamos que a simples ideia de que o Estado laico autorize a inserção de um conteúdo religioso genérico no currículo já é, em si mesma, problemática.

Que dizer então - Como tem sido dito no próprio STF!!! - a respeito de um Ensino religioso dirigido ou credal? Em que pesem todos os sofismas editados a guiza de democracia, cultura, etc

Antes de tudo devemos considerar que a arbitragem em termos de matéria religiosa não cabe nem ao estado, nem ao fórum, nem a escola, ou a qualquer setor público, político ou administrativo mas a consciência de cada individuo. É assunto que pertence a esfera privada da existência.

E não lhe cabe julga-lo ou arbitra-lo nem mesmo numa perspectiva democrática.

Não é questão de democracia mas de princípios, de valores e de educação, e como tal adstrito apenas ao tribunal da consciência. Transferi-lo a esfera pública das coisas comuns é profanar a consciência e cimentar a opressão.

Autorizar o monopólio de uma determinada fé ou religiosidade num contesto igualitário é sabotar esta igualdade e portanto outorgar a uma instância pública qualquer, seja ela o bairro, a escola, a 'província', a nação, o direito de julgar uma questão que como vimos pertence exclusivamente ao cidadão e isto equivale a uma usurpação, na medida em que todos os cidadãos são contribuintes e pagam impostos, merecendo a proteção do Estado ma mesma medida.

Religião alguma pode ser beneficia pelo Estado em detrimento das demais sem que lhe seja conferido um status, inadmissível de superioridade, incompatível com o caráter neutro ou isento do estado laico.

Dar as outras religiões por inferiores e alija-las quando ao uso deste espaço que é público implica ultrajar seus profitentes para os quais são tão sagradas como qualquer outra. Isto fere os princípios sagrados da justiça.

Permitir que uma religião determinada tome posse do espaço que é público com o sentido de 'canonizar' o seu discurso, implica autoriza-la a fazer proselitismo tirando vantagem da coisa pública, a qual é mantida com os recursos tomados a cidadãos pertencentes as mais diversas confissões religiosas os quais certamente se sentirão menosprezados e ultrajados. É estabelecer regime de exceção ou privilégio incompatível com o caráter isonômico das instituições democráticas.

Não é de modo algum promover a igualdade ou a tolerância como supõem algum invertendo a lógica das coisas até o ridículo mas sancionar a desigualdade e alimentar a intolerância, vício cujos perniciosos efeitos detectamos já em nosso redor, corroendo as bases do estado democrático de direito e da civilização. Não se estimula a compreensão mútua, o respeito e o mútuo entendimento concedendo privilégios imorais, mas promovendo a igualdade.

A tolerância é valorizada ou estimulada quando os valores que pertencem a esfera privada da consciência lhe são atribuídos e quanto o Estado ou o grupo social abstém-se de intrometer-se neles, introduzindo 'favores' que acarretam a desigualdade. Qualquer tratamento desigual deste favor coloca em perigo o equilíbrio social tendendo a ser tão perigoso quanto a uma bomba.

A simples ideia de que todas as ideias devam ser examinadas e discutidas na Escola sob a égide das instituições democráticas implica uma abordagem ampla, profunda, genérica e igual e não uma abordagem fechada, dirigida, credal ou confessional. O ideal seria o aluno poder comparar suas crenças com as demais de modo a tomar consciência da diversidade religiosa e assumir uma perspectiva de tolerância civil no plano da convivência. Nem se trata aqui de imaginar que todas as doutrinas religiosas ou fés sejam boas na mesma medida, como pretendem os relativistas, mas apenas e tão somente de conviver em paz a harmônia com os profitentes das mais diversas fés, partindo do suposto que sejam livres e que lhes assista o direito de optar neste sentido.

Por outro lado a apresentação unilateral de uma única fé na escola pública bem poderia suscitar no aluno a ideia de que sua fé é superior, no plano civil inclusive... com todas as funestas consequências embutidas neste padrão de pensamento.

Conceder o privilégio ou monopólio espiritual a esta ou aquela doutrina nas escolas públicas não tendem a converte-las como deveria ser feito, numa instituição harmoniosa e pacífica, regida pelo princípio do respeito mútuo, mas num campo de guerra inundado pelo rancor. Em pouco tempo os próprios alunos, a exemplo do 'doutrinador' - e isto já está acontecendo em algumas escolas públicas neste momento!!! - vão assumir eles mesmos (mormente durante os intervalos) o encargo proselitista, distribuindo livros, revistas e panfletos de teor religioso, pregando em alta voz, cantando ou mesmo exorcizando e hostilizando os dissidentes e opositores. Que os alunos afetem a profetas, pastores ou doutrinadores no cenário de uma escola pública é absolutamente monstruoso. Que convertam o recreio ou o intervalo em palco de batalhas religiosas que degeneram em agressões e violência é o cúmulo da aberração. E no entanto tal já pode ser constatado em nossas escolas públicas 'de visu' e é epifenômeno ou consequência dessas aulas religiosas confessionalistas ou melhor proselitistas autorizadas pela lei.

Que um professor público penetre o recinto da escola portando uma Bíblia, um Corão ou uma Tripitaca, etc e visando impor seus pontos de vista a qualquer minoria que deles não comungue ou mesmo a qualquer cidadão livre, é da-lo por inferior no plano civil, injustiça-lo e oprimi-lo. Pois ele tem o direito de não querer ouvir semelhante discurso doutrinador, sem que deva ser obrigado a abandonar a sala de aula ou dela sair. Afinal o espaço escolar é tão seu quanto de todos os demais.

Totalmente outra seria a situação, caso girasse em torno de princípios de natureza científica, cuja constatação parte da percepção ou da experiência, que são elementos comuns a todos os homens. A fé no entanto por não ser imediatamente perceptível como os fatos de natureza científica e suscitar controvérsias pertence a outra categoria de elementos, os quais pertencem como já dissemos a esfera privada da consciência. Quem age independentemente quando a fé, julga-se livre. Já aquele que pretenda questionar seriamente a fidelidade dos próprios sentidos ou da razão bem faria em procurar um analista.

Nem poderia a laicidade, como querem alguns epistemólogos, deixar de ser laicista; como não pode o socialismo deixar de ser socialista, o positivismo deixar de ser positivista, o federalismo deixar de ser federalista, etc

Laicidade supõem laicismo, que é a separação entre a esfera público/policita e a esfera privada da crença religiosa, passando todas as crenças a serem encaradas como iguais e assim tratadas em vista do direito, de modo a garantir a plena satisfação de todos os profitentes religiosos enquanto cidadãos e membros da república, evitando situações de rivalidade, abuso e conflito. Como já fizemos observar implica esta posição por parte do Estado em negar-se a penetrar o cipoal da esfera religiosa disposto a julgar o conteúdo dos livros ou a oficializar alguma interpretação (e são milhões). Quem não percebe que esta posição é de longe a mais prudente quando há sérios mecanismos de controle destinados a punir os fanáticos e sectários mais exaltados caso pretendam 'assaltar' o estado e estabelecer uma ordem teocrática?

Claro que este tipo de estado deve levar bastante a sério seu próprio caráter estando sempre pronto para refrear todos os abusos e punir com máximo rigor quaisquer crimes que envolvam a prática da religião ou que sejam por ela inspirados. Brincar de laicismo ou fazer jogo duplo seria a pior das opções e por isso precisamos sim assumir radicalmente nossa laicidade na perspectiva de um laicismo consciente e pugnar por uma igualdade absoluta das diversas fés face a estrutura política seja militar, educativa, hospitalar, etc

Não é possível que em pleno ano de 2017, i é quase cento e trinta anos após a proclamação da república e a desvinculação do estado quanto a igreja antiga - a qual por sinal decorreu em termos pacíficos - seja ele cooptado por formas religiosas ainda mais controladoras e virulentas em nome de interesses econômicos. Não é possível que toda uma sociedade venha a assistir pacificamente o desmantelamento de um Estado laico, o que implica a negação da dignidade da maior parte dos cidadãos, que são dissidentes religiosos face a certas minorias ambiciosas. Como aceitar ser cidadão de segunda classe em termos de fé e crença, no setor da consciência, quando já se o é no setor da da economia por obra da miséria???

Permitir que as escolas se convertam em sucursais de seitas religiosas e as salas de aula em púlpitos só virá a aumentar ainda mais o estado de confusão em que se encontra nossa sociedade potenciando outros tantos conflitos que deveríamos apaziguar e conduzindo este pais a anomia, ao caos, a dissolução. A escola, enquanto instituição educativa e formativa, deve ser mantida a qualquer preço, incontaminada face as pretensões do sectarismo religioso ou as injunções do fanatismo sob pena de sabotarmos ainda mais o fundamento pétreo da democracia que é a laicidade. A consciência formada a aqui deverá ser o quanto possível aberta, crítica, reflexiva e tolerante; jamais fechada numa mórbida complacência de si mesma, arrogante e agressiva. Só podemos estimular a boa convivência e o respeito fomentando a igualdade e fomentar a igualdade a partir de uma abordagem igualitária. Sancionar uma abordagem discriminatória e preconceituosa na escola pública, uma alimente a ideia de superioridade religiosa é e será sempre uma atitude leviada e irresponsável por parte do poder público além de ser essencialmente iníqua e sempre questionável é claro.

Dirigimos todas estas reflexões ao STF Brasileiro, fundamentados em nossa experiência professoral como educador público e como pesquisador social. Solicitando que os ilmos srs ministros pesem todas as evidências e abracem a solução mais prudente e ponderada face a tão grave problema, pelo simples fato de tocar a própria liberdade religiosa.



DIA 20 DE SETEMBRO, daqui a uma semana, o STF - FINALMENTE - julgará a questão sobre o ensino confessional de determinada religião na Escola Pública. Cumpre a todo cidadão acompanhar, pressionar e ficar atento pois trata-se de uma questão essencial no plano da cidadania e da cultura.

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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

O PEC 99/2011 e a deslaicização do Estado Brasileiro

Folgam os protestantes em apresentar seu sistema religioso como paladino de todas as liberdades modernas e com isto, ao cabo dos séculos, tem atraído a simpatia dos liberais mais ingênuos.

Embora folguem de interpretar livremente a Bíblia, ou seja, de forjar suas próprias crenças tomando por base o entendimento que eles mesmos teem da Bíblia - o que de modo algum é a Bíblia - os protestantes jamais puderam encarar com bons olhos aqueles que fazendo uso da mesma liberdade, descartam a autoridade da Bíblia. Torce-la a vontade... massacra-la... deturpa-la... manipula-la... é perfeitamente lícito ou melhor absolutamente necessário! Arrenega-la não...

De minha parte, como ex protestante, penso que a Bíblia seja mais honrada por aqueles que a negam do que por aqueles que a interpretam assim tão livremente a ponto de ser possível sustentar qualquer coisa - escravidão, racismo, estatolatria, machismo, homofobia, adultismo, intolerância, capitalismo... - em seu nome. Se eu acreditasse na divindade da Bíblia jamais poderia crer que sua interpretação pudesse ser atribuída a todos os homens sem distinção!

Apresentam-se os protestantes como principais advogados ou defensores do livro justamente porque lhes dói a consciência e sabem ser seus piores adversários. É graças ao biblicismo estreito, ostentado por eles, que muita gente boa faz pouco caso do livro... Verdade seja dita: a igreja antiga tinha pudor! E sabia que a maior parte dos seres humanos tinha pudor ou inteligência... O protestantismo apostou na estupidez humana e por algum tempo conheceu relativo sucesso entre os idiotas. No entanto como é impossível enganar todos durante todo tempo... Arruinou-se o Reino da Bíblia.

A Igreja antiga, mais realista, ocultava certas partes menos nobres do antigo testamento, já 'facilitadas' pela tradução dos LXX. Os latinos jamais puderam compreender bem o sentido da Septuaginta. Apresentaram-na e apresentam-na ainda como tradução, quando trata-se na verdade duma adaptação, isto mesmo duma adaptação a mentalidade dos antigos gregos. Adaptação sem a qual os gregos jamais teriam se aproximado dos livros judaicos tendo em vista sua vulgaridade ou grosseria.

No entanto como em larga escala, mesmo esta adaptação mostrava-se insatisfatória, socorreram-se os primeiros padres Cristãos, a exemplo de Origênes, da exegese simbólica ou alegórica, que Filon, escolarca hebreu de Alexandria, tomara aos platônicos. Outra não é a estratégia empregada pelo Pe Jouffroy, face aos questionamentos de Pecuchet, nos 'Patetas iluminados' de Flaubert: Moisés abrindo os braços em cruz é figura de Jesus Crucificado, o cordeiro encontrado por Abraão entre os espinhos é figura de Jesus Crucificado e coroado de espinhos, Jacó ferido no lado pelo anjo é figura de Jesus ferido no lado pelo centurião... 

A tentativa, centrada no dogma Cristão, até que foi excelente e nobre. Apenas não condizia como o sentir original do autor, sendo portanto falsa... Era no entanto uma falsidade bela, em comparação com a realidade feia do sentido literal.

No entanto o que não podia 'adaptar' ou alegorizar, a igreja sabiamente ocultava... poupando seus fiéis.

Assim a espiritualidade romana ou 'Católica' pode passar a largo dos bebes lançados contra os rochedos, das ursas que devoraram os meninos, do sanduíche de esterco degustado pelo profeta, do tamanho dos pênis dos egipcios, etc

Diante de tantos mitos, fábulas e narrativas grotescos a igreja antiga preferia silenciar. Sabia que insistir a respeito redundaria em incredulidade. Nossos coevos sabem ser infinitamente mais idiotas do que os medievos... por menos nossos ancestrais teriam lançado o papado as urtigas; como a humanidade dia após dia vem lançando a Bíblia e o protestantismo.

O protestantismo foi intemperante na medida em que pretendeu impor aos cristãos a Bíblia toda, literalmente recebida, como dogma de fé. Antes de conhecerem a Bíblia toda de capa a capa os estúpidos acreditaram que o negócio era vantajoso e que seria melhor acreditar no livro 'caído do céu' do que nos trinta e poucos dogmas propostos pela tradição apostólica ou pelo papa romano.

Atalhou-lhes a candura da crítica Bíblia, a partir da qual puderam ter acesso a versão hebraica não depurada, e... desde então os que dignaram-se a pensar perderam a fé, enquanto que os demais - refugiados em alcouçes como a assembléia de deus ou pocilgas como a CCB - tiveram de acostumar-se a ser classificados como tontos ou imbecis!

Afinal, continuam jurando de pés juntos, em pleno século XXI, que um homem adulto pode viver por três dias dentro do ventre de um peixe! Que existem um mar superior acima dos céus! Que os anjos de deus desceram a este nosso mundo para coabitar com mulheres! Que de semelhante conúbio nasceram gigantes! Que o Everest foi coberto pelas águas do dilúvio! Que os dinossauros jamais existiram ou morreram afogados! Que uma jumenta foi capaz de falar! Que Goliath foi assassinado por três pessoas diferentes! Que os antigos israelitas ofereceram e não ofereceram sacrifícios da jau no deserto....

Creia cada qual como quiser e no que quiser... outra coisa é querer exigir que os outros encarem-no como um homem sério ou instruído.

Da caturrice protestante em torno de todos estes dogmas mil vezes mais toscos e estúpidos que os dogmas do papa, é que surgiu a incredulidade contemporânea.

Os protestantes no entanto jamais puderam perdoar os incrédulos ou aqueles que negaram-se a endossar os ensinamentos da Santa Bíblia.

E apesar do discurso oportunisticamente liberal, destinado a atrair os Católicos liberais ou os liberais de modo geral, jamais deixaram de acalentar o sonho puritano ou ortodoxo de 'propor' e sancionar leis Bíblicas ou destinadas a honorificar a Bíblia e a humilhar os laicos, isto é, os que não creem.

Todas as vezes que os papistas ou liberais mais atilados, lançaram-lhes este sinistro projeto em face, os pastores brasileiros juraram pela mesma Bíblia que tudo não passava de calúnia, fruto da maldade, e que eles, protestantes, eram os mais fiéis partidários das liberdades democráticas E OS MAIS SINCEROS PALADINOS DO LAICISMO!!!

Passados uns cinquenta anos no entanto, damos com o PEC 99/2011, destinado a POR A FÉ em pé de igualdade com o conhecimento natural ou científico e a BÍBLIA no mesmo nível que a Constituição.

Se bem que cada república conheça uma só lei e que o fundamento desta lei deva ser sempre natural para ser laico!

A bancada protestante ou evangélica no entanto cuida por outro fundamento e um fundamento particular: a Bíblia...

E sabemos por lição de História onde tais iniciativas costumam dar...

Não se trata aqui de PERMITIR que os religiosos vivam a sua moda ou maneira, PELO SIMPLES FATO DE QUE JAMAIS FORAM IMPEDIDOS DE ASSIM VIVER POR FORÇA DE NOSSAS LEIS.

A lei brasileira, ao contrário das leis Mosaica e Maometana ou seja da Torá e do Corão, jamais pretendeu proibir alguém de repousar no sábado, de peregrinar a Meca, de evocar os espíritos dos ancestrais, de cultuar representações... ou tencionou constranger alguém a consumir carne de porco, beber sangue, trajar determinado tipo de roupa, ouvir jazz, casar com pessoas do mesmo sexo, abortar, etc A lei não interfere no que diz respeito a vontade pessoal dos cidadãos. É liberal e daí sua grandeza!

Esta lei a todos reconhece o direito de viverem como bem entenderem e de regular suas vidas por meio de seus livros sagrados, desde que abstenham-se de causar dano ou prejuízo aos semelhantes.

Que desejam então nossos fundamentalistas uma vez que nossas leis reconhecem-lhes o direito de viverem como bem entendem???

Como já controlam o Congresso, mas não o STF, e estão dispostos a tentar passar LEIS retiradas de sua Bíblia, precisam passar a PEC 99/2011. Do contrário todas as leis fundamentadas na Bíblia serão declaradas CONFESSIONAIS, anti democráticas, anti constitucionais e invalidades pelos juízes do STF. Daí a necessidade da bancada fundamentalista esmagar o STF. Enquanto o STF deter a primazia, toda e qualquer lei fundamentada na Bíblia, estará sob ameaça.

Considere agora caro leitor que o objetivo da lei num país democrático não é regular o privado, intervindo na vida pessoal do cidadão e cerceando sua liberdade. Mas ampliar ao máximo a liberdade NA ESFERA DO POLÍTICO OU DAS COISAS COMUNS. Trata-se aqui de criar e atribuir direitos naturais e não de imiscuir-se nos domínios da vida privada.

Agora justamente porque a lei diz respeito a esfera da Política ou das coisas comuns é que deve partir de fundamentos NATURAIS tais como demandas sociais, experiencialidade, razão, etc JAMAIS DE FONTES RELIGIOSAS OU LIVROS SAGRADOS. Sob pena de ser sobrenatural e religiosa, chocando-se com o caráter PLURALISTA, democrático ou LAICO DO ESTADO. Não pode a lei tomar por base determinado registro sagrado pelo simples fato de que a sociedade é composta por elementos ou cidadãos de diversas crenças ou fé, cada qual com seu livro sagrado e os mesmos direitos.

Não compete ao estado ou a esfera do político emitir juízo sobre determinado livro religioso concedendo-lhe um status privilegiado. Nada mais oposto ao caráter laico do estado, face ao qual todas as religiões e crentes são absolutamente iguais.

No entanto o esforço da bancada protestante consiste justamente em arvorar a Bíblia ou o livro, como fonte válida no sentido de pautar nossas leis e regular as vidas de todos os cidadãos. Eles até creem que a Bíblia seja em todos os sentidos superior a nossa Constituição e que nossa Constituição deva ser substituída pela Bíblia deles. Nutrem tais pretensões mesmo constituindo minoria religiosa... imaginem só caso viessem a constituir maioria? Agora no plano político estão bem articulados em torno deste proposito.

Agora que significa propor leis inspiradas ou pautadas na Bíblia?

Significa tomar por padrão social a sociedade proto israelítica do século IX a C restringindo ao máximo todas as liberdades, garantias e direitos dos cidadãos e implementando uma série de preconceitos monstruosos.

Implica querer regular ou controlar a vida dos outros ou de todos a partir de sua própria fé ou pontos de vista. Todos deveremos conformar externamente nossas vidas com o antigo testamento ou a torá de Moisés, crendo ou não nela! Nada mais sujo, arrogante e opressor! Devemos respeitar a Bíblia mesmo sem crer nela porque eles assim exigem, querem e determinam. Entendeu???

Por meio do PEC 99 2011 os protestantes estão exigindo a submissão ou a capitulação da sociedade laica apenas de modo mais sutil que os muçulmanos com sua sharia, e alias, abrindo esta senda para os futuros radicais islâmicos deste país ou facilitando as coisas para eles!
Observemos o que diz o relator deste capicioso projeto: "O STF expressa um preconceito contra argumentos de ordem religiosa dando preferência a argumentos científicos."

Qual o significado disto?

Que o SFT deveria apreciar os argumentos de NATUREZA SOBRENATURAL, CREDAL ou RELIGIOSA com a mesma seriedade que encara os argumentos DE NATUREZA NATURAL ou CIENTÍFICOS, NO QUE CONCERNE A FORMULAÇÃO DAS LEIS. Sim, pois não estamos tratando da ordenação da vida privada mas da coisa pública ou de nossas leis.

As leis no entanto como são feitas para todos devem estar por questão de necessidade fundamentadas na esfera COMUM da NATUREZA, e não da esfera PRIVADA ou PESSOAL da SOBRENATUREZA.

A ciência satisfaz plenamente esta questão na medida em que não é uma religião ou uma fé fundamentada na  autoridade de um livro ou dum homem, mas uma ideologia fundamentada nas capacidades da percepção e do raciocínio, as quais são comuns a todos os seres humanos: ATEUS, CRENTES, MUÇULMANOS, ESPÍRITAS, BUDISTAS, PROTESTANTES, CATÓLICOS, HINDUS, ETC

De fato este tipo ou gênero de conhecimento faz sentido para pessoas pertencentes a credos e ideologias bem distintos uns dos outros. Apenas certo número de muçulmanos e protestantes fanáticos, tendo em vista suas opiniões caprichosas, é que negam-se a reconhecer o espaço próprio da ciência e aspiram por impor suas concepções disparatas a todos os demais seres humanos! Isto no entanto já não é questão de mera estupidez mas de arrogância e dominação.

Não é porque meia dúzia de idiotas tomam a Bíblia ou o Corão por critério científico, que seremos obrigados a concordar com eles e SUBSTITUIR O PADRÃO COMUM DA CIÊNCIA POR SEUS QUERIDOS LIVRINHOS TENDO EM VISTA A FORMULAÇÃO DE NOSSAS LEIS.

As leis deduzidas da ciência, da experiencialidade e da razão apenas é que satisfazem o quesito democrático da neutralidade religiosa. Neste sentido o objetivo da PEC 99 2011 é justamente introduzir o primado da Bíblia, profanando o equilíbrio religioso, promovendo a intriga, sabotando a paz... Uma vez que cada religião pretenderá usar seus livros com o intuito de erigir novas e estranhas leis! A menos que o MONOPÓLIO POLÍTICO SEJA CONCEDIDO A BÍBLIA PROTESTANTE... e que os demais cidadãos deste país curvem-se face a tais exigências...

Até o dia em que os protestantes, como já fizeram no século XVI, façam decretar leis iconoclásticas e demolir as igrejas romanas, anglicanas, ortodoxas, as tendas de umbanda, os templos budistas, hindus, etc

É necessário examinar o passado, pensar no futuro e opor-se decididamente a projetos como o 99 2011, cujo extremo fim serão novos autos de fé, inquisições, violações de direitos, etc

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Como abordar a questão religiosa em sala de aula - Subsídios aos professores laicistas

É de todo inutil ignorar a questão religiosa.

Alias é danoso ignora-la.

Por mais que os propagandistas do ateísmo esforcem-se - através de manchetes estrondosas e mirabolantes - por demonstrar que o mundo esta mais ateu, isto não passa de pura falácia. O ateísmo jamais conseguiu atrair mais do que oito porcento de adeptos mesmo em países como a Holanda ou regiões do a Escandinávia.

Mesmo quando as pesquisas por pura inabilidade associam ateus com agnósticos, a cifra raramente atinge mais de 20% (exceções França, Inglaterra e Uruguai). Como o número de agnósticos é sempre bem maior não se sai dos 8%. A média pelo mundo é de míseros 2,4% e em poucos países apresentados como ateus chega a 5%...

Na verdade quando os ateus alegam que um pais é majoritariamente ateu estão incluindo por conta e risco: os agnósticos (cuja cifra indubitavelmente cresce e cresce) e até mesmo os indiferentes a religiosidade institucional (cuja cifra cresce ainda mais) mesmo sabendo que são quase todos deístas, panenteístas, panteístas, etc e que afirmam a existência de uma energia, alma ou espírito universal, o que os ateus, obviamente negam.

O que estamos assistindo hoje não é de maneira alguma a 'arrancada do ateísmo' e sim a afirmação de uma espiritualidade pessoal ou marginal, i é, fora dos moldes tradicionais e alheia as instituições formais. Religiosidade desvinculada de qualquer instituição religiosa definida.

É O QUE CHAMAM INDEVIDAMENTE DE ATEÍSMO. Trata-se no entanto de uma ruptura com a religião (i é de indiferentismo ou deísmo) e não de uma negação absolutamente segura a respeito da inexistência de um deus.

Por via alguma a irreligiosidade  (indiferença religiosa) e da dúvida sobre a existência de Deus (suspensão de juízo ou agnosticisno cf Th Husley 'Ciência e Religião' 1893) , devem ser confundidas com a metafisica ateística, pois comportam visões de mundo específicas e pontos de vista contraditórios.

Juntar tudo no mesmo saco e rotular como ateísmo só pode satisfazer mesmo aos pastores fanáticos e ateus fanáticos i é os extremistas. Mas continua sendo uma abordagem cientificamente desonesta e superficial.

Quanto aos agnósticos e deístas, seu número parece ser considerável em alguns países como Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, França, Holanda, Suécia, Suíça, Noruega, Finlândia, Dinamarca, Uruguai, etc

No entanto apesar disto, apenas nuns poucos países civilizados chegam a constituir maioria absoluta (50 + 1%). Em todas as demais sociedades humanas - mesmo civilizadas e inseridas no contesto europeu - o número de crentes ou religiosos ainda é majoritário. Importa que a religião dominou tais sociedade até bem pouco tempo e que a cultura por ela plasmada permanece em parte vida e influente.

Vai-se a fé, mas as relações entre os signos, o imaginário coletivo, os elementos da cultura, as ações, intencionalidades e comportamentos permanecem sendo ditados pelo costume, a tradição ou o hábito. E pouquíssimos espaços, como EUA, Inglaterra, Alemanha e França, ocorreu a produção de uma outra cultura ditada pelo materialismo ou pela irreligiosidade. Mesmo sem que os elementos da cultura antiga fossem totalmente eliminados (embora alguns tenha passado por um processo de resignificação).

O que Édouard Laboulaye registrou há quase século e meio nas páginas da 'Liberdade religiosa' (charpentier - Paris, 1875 p 77) permanece mais ou menos válido até hoje:

"... Assim continuamos a guiar-nos por esta fé recebida na infância mesmo após te-la perdido. Nossa lingua, nossas ciências, nossas artes, nossos costumes... estão impregnados de Cristianismo. Nós nos dizemos assim incrédulos mas ainda que remotamente inspiramos nossas ações no Evangelho..."
Substitua-se Cristianismo ou Evangelho por religião ou espiritualidade e não fará muita diferença.

No sentido de que as diversas crenças continuam plasmando personalidades e influenciando a dinâmica social tal e qual na idade primitiva quando habitávamos em cavernas ou palafitas. Isto porque a fé tem o condão de introjetar e extrojetar ideias produzindo tipos de comportamentos e praxis sociais específicas.

Nem podemos compreender bem qualquer sociedade, como enfatizaram Fustel de Coulanges, Max Weber, e outros, sem examinar e compreender as crenças dominantes.

No entanto é forçoso compreender o que desejamos transformar e aprimorar. Daí a necessidade de estudar seriamente os credos religiosos, seus dogmas e sua História. É dever a que não devem se furtar aqueles que não creem. Não preciso crer em algo para reconhecer sua influência sobre os demais. Aos crentes e devotos, a fé ao sociólogo como Marcel Mauss o estudo das formas religiosas.

Especialmente a criança - por ser acrítica - e o jovem - por ser idealista e ingênuo - tendem a ser religiosos, embora posteriormente; quando amadureçam possam perder a fé. Cogitou-se já inclusive que a adolescência seja uma fase religiosa, em que a fé torna-se um ponto de apoio importante para a personalidade em conflito ou crise. Mesmo descrendo o educador precisa ter sensibilidade suficiente para perceber que a dimensão da fé pode ter significado vital para nossos alunos, enquanto suporte de sua vida mental.

Neste caso não se trata já da questão da verdade, i é do verdadeiro e do falso, e sim da conveniência. É prudente privar aquela criança ou jovem de sua fé neste momento? Que consequências poderiam decorrer disto? Como ficaria a mente daquela pessoa??? Tenhamos sempre Camus e o jovem Wether diante de nós! Sempre poderemos sugerir sutilmente e influenciar delicadamente... no entanto é necessário que cada qual faça seu caminho por si mesmo, tire suas constatações e amadureça.

Neste sentido a imposição do ateísmo, ou mesmo da simples indiferença religiosa por um professor autoritário pode ser tão devastadora para um jovem quanto a adesão a um credo fundamentalista. Nestes casos, em se tratando duma religião qualquer, i é não fundamentalista como o islã e/ou o pentecostalismo é sempre melhor: 'Deixar estar, deixar passar'...

Agora em se tratando de uma fé fundamentalista... que traga em seu bojo germes de intolerância, arrogância, violência, etc é melhor intervir sabiamente, sempre que as oportunidades surjam e problematizar. Toda e qualquer tentativa de proselitismo executada por alunos em classe ou no recinto escolar deve ser imediatamente problematizada pelo educador.

Há dois tipos de alunos que apreciam fazer perguntas sobre religião ou fé: os duvidosos ou indiferentes e os demasiadamente religiosos ou fanáticos.

Ao receber de chofre uma pergunta como esta: Qual sua religião professor?

Existem diversas possibilidades de intervenção, as quais devem ser tomadas levando em consideração as necessidades da turma.

Caso se sinta pressionado ou coagido o educador sempre poderá declarar:

"Como a fé é assunto de natureza pessoal, preferiria não responder a esta pergunta. Alias o espaço escolar existe para tratarmos apenas do que nos une ou do que é comum."

E concluir:

"Há tantas coisas interessantes nos seres humanos. Julgar as pessoas em termos de fé religiosa é quase sempre posicionar-se contra elas. É uma questão que só diz respeito a própria pessoa, então vamos respeitar e deixar de se preocupar com isto."

Neste momento podem aparecer outras duas perguntas (quase sempre aparecem!):

O senhor é ateu?

Neste caso o educador por aproveitar a oportunidade para problematizar e fixar o sentido de ateísmo e indiferença religiosa a que aludimos acima.

Mas o que é ateu?

......................

E daí mostrar a diferença (numa turma de E médio) entre quem dúvida ou suspende o juízo - agnóstico - o que afirma a existência de Deus mas não tem religião ou fé - deísta - o que segue determinado credo religioso - teísta ou crente - e o que afirma a inexistência de Deus (ateu). E arrematar a discussão dizendo que cada qual tem direito de fazer e de expressar a sua opção, merecendo todo respeito pelo simples fato de ser livre.

Caso algum aluno insista em perguntar se é ateu, o educador poderá responder:

Sim sou, e acrescentar; no entanto encaro com profundo respeito os que pensam de modo diverso ou é fruto de minhas reflexões e tenho direito de expressa-las.

ou

Não, no entanto, nem por isso posso deixar de respeitar o posicionamento dos ateus, agnósticos, deístas, etc

Um caminho possível é assumir discretamente sua posição e afirmar o respeito pelo posicionamento do outro, na perspectiva da liberdade.

A segunda pergunta, muito mais especiosa e comum é:

O senhor acredita na Bíblia?

Aqui o professor pode mais uma vez recorrer ao esquema da problematização, respondendo com uma outra pergunta:

Mas o que é a Bíblia?

Mostrando a partir daí que o conceito de Bíblia unitária é construção histórica e cultural e salientando a diferença cabal entre antigo e Novo Testamentos ou no plano do Novo Testamento entre as cartas de Paulo e os Evangelhos.

Caso tenha amplo conhecimento sobre a matéria (infelizmente lacunoso entre os não crentes) explorar a diversidade de tempo, locais, linguas e culturas em que foram produzidos os diversos textos bíblicos, insinuar contradições, etc

É algo que leva tempo, exige habilidade, mas é sempre compensador.

Importante é procurar, com bastante cuidado, remover da mente do aluno a ideia de inerrância absoluta ou infalibilidade plenária característica do modelo fundamentalista e anti científico, sempre por meio de uma crítica cerrada e questionamento contínuo.

Isto é claro sem tirar a liberdade do educando e permitindo que contra argumente a vontade.

Sem demonstrar impaciência, hostilidade, irritação, etc

Conservando ares de sã jovialidade.

Poderá se quiser responder como respondo: Tenho imenso amor e respeito pelas palavras de Jesus contidas no Evangelho, que é uma parte do Novo Testamento e até penso que constituam uma excelente orientação para a vida, agora com relação aos escritos de Paulo ou o antigo testamento (ou seja as demais partes do que voce chama de Bíblia) não posso encarar como palavra de Deus ou como fontes inquestionáveis.

Se o aluno perguntar porque não acredita em Paulo ou no antigo testamento poderá apontar para os preconceitos afirmados por aquela apóstolo: machismo, escravismo, estatolatria, homofobia, etc apresentar os mitos, lendas e fábulas do antigo testamento como correspondendo a cópias de material anterior de origem pagã (Sumeriana, Assíria, Babilônica, Egipcia, Fenícia, Persa, Grega, etc) ou explorar as inumeras contradições internas deste registro, além de seus erros em matéria científica é claro.

O importante aqui é:

1 - Jamais tomar a iniciativa de abordar qualquer tema religioso ou abster-se.

A atitude dos professores fanáticos e proselitistas que consiste em tomar a iniciativa de abordar qualquer tenha religioso, de impedir dos dissidentes de se manifestarem e de impor autoritariamente seus pontos de vista, caracteriza exercício de proselitismo O QUAL SENDO LEVADO A CABO EM ESCOLA PÚBLICA OU SALA DE AULA CONSTITUI CRIME.

Professores que atuam como pastores ou mullás ousando pregar em sala de aula devem ser denunciados as autoridades policiais e administrativas como criminosos!

É atitude que não deve nem pode ser tolerada sob quaisquer pretextos!

2 - Esperar que o assunto surja espontaneamente e, neste caso apreciar se deve ou não explora-lo naquele momento.

3 - Intervir positivamente diante de qualquer tipo de atitude proselitista apresentada no contesto escolar pelos alunos e problematizar.

4 - Sempre que possível responder com perguntas visando problematizar o assunto ou desconstruir os argumentos que considerar inadequados.

5 - Manter sempre um clima de liberdade permitindo que o aluno contra argumente e que todos participem expondo seus pontos de vista e ideias.

6 - Exigir atitude de respeito e tolerância.

7 - Manter o bom humor e a jovialidade. Jamais perder a paciência, mostrar irritação ou agredir os educandos.

8 - Procurar desde logo apresentar aos alunos o conceito de 'demarcação' e buscar familiariza-los com ele.

Estamos aqui diante de um conceito chave, de um padrão ou de um critério que deve nortear a atuação do professor crítico reflexivo, face a abordagem religiosa.

Grosso modo não deve o professor cogitar no que creem seus alunos em termos de transcendência.

Quanto mais a fé ou religiosidade dos alunos concentrar-se no além, no céu, no paraíso, no imaterial ou no invisível, menos problemática será para nós.

Posso não crer em Ganesha, Jupiter, Iemanjá, Jesus, etc no entanto se tais entidades não atuam magica ou miraculosamente no mundo material, posso dizer a meu aluno:

Não, não creio em Ganesha mas se você cre nele não me importa nem um pouco, desde que saiba que ele não faz chover, não cura cancerosos e não produziu o mundo em sete dias literais... Sendo assim estamos em paz.

Perceba aqui que o deus ou os deuses e entidades não são o problema da educação científica. Trata-se cientificamente de assunto neutro ou escuso; bom para a Filosofia, mas ocioso em termos de ciência.

O problema aqui da-se em termos de COMO qualquer dessas entidade (e não importa nome ou número) relaciona-se com o mundo em termos de fetichismo ou naturalismo. Se o aluno ou a pessoa crer que seu deus ira salva-lo no além ou ressuscita-lo podemos dar de ombros... agora se o aluno cre que seu deus faz chover mijando ou lançando baldes dágua ou ainda que ele mexe nas placas tectônicas provocando terremotos, então temos um sério problema.

Se este deus o entidade atua por meio de leis naturais de causa e efeito (caso dos espíritas e de parte dos Católicos)... se podemos situa-lo antes da grande explosão ou como causador (produtor) dela; enfim se ele atua DE ACORDO COM O RITMO DA CIÊNCIA, não temos o que discutir. O problema é sempre a ideia de um deus interventor, miraculoso ou taumatúrgico, que a todo instante 'aperfeiçoa' de improviso o universo, provocando diretamente o surgimento da vida, um dilúvio, sucessivos terremotos, fomes, guerras, etc, etc, etc

Até que essas intervenções multiplicam-se ao infinito, ocorrendo diversas vezes ao dia.

Aqui temos um problemão e devemos explora-lo ao máximo no sentido negativo, afirmando em alto e bom som o primado ou primazia das explicações científicas em termos de imanência e o direito exclusivo de serem ministradas em sala de aula.

Caso o aluno questione sobre o porque deste monopólio científico não devemos exitar em responder-lhe que os religiosos estão divididos em termos de modelo criacionista, mesmo porque cada grupo tem seu livro sagrado com narrativas e concepções diferentes. Eis porque nenhum destes livros pode servir para ministrar explicações gerais a todos os alunos... pois um cre no Antigo Testamento, outro nos Vedas, outro no Corão e assim por diante...

Na escola de todos temos de apelar a elementos comuns como a experiência e a razão, as quais encontram-se na base de nosso modelo científico.

Resumindo cumpre inculcar por diversos modos e maneiras, na mente dos nossos alunos, que a imanência é terreno que pertence a explicação científica e não a fé ou a religião, cujo campo restringe-se ao espiritual, imaterial ou invisível. Bom explicitar que não tem prevenção alguma contra a religião desde que ela se mantenha em seu terreno ou campo: o celestial ou divino, abstendo-se de invadir o terreno da ciência que é o mundo natural.

É necessário aproveitar todas as oportunidades para justificar este esquema até a exaustão. Aqui repetir é o melhor veículo!

Papai do céu ou deus cuida de deus anjos ou dos falecidos lá no além... A terra em que vivemos no entanto Deus quis regula-la por meio das leis naturais adrede fixadas desde o princípio.

Se o aluno indagar:

O sr crê na grande explosão ou na evolução das espécies, responda resolutamente:

Os religiosos creem no que não veem. Eu abraço as teorias da grande explosão e da evolução porque fazem sentido, porque me ajudam a compreender o mundo, porque estão fundamentadas no raciocínio e da experiência e sobretudo porque apoiam-se sobre um imenso número de fatos.

Não creio, constato aquilo que percebo ou melhor percebo com os pesquisadores.

Aqui não se trata de fé mas de bom senso.

9 - Jamais perder a consciência a respeito de sua liberdade de cátedra.

10 - Tenha esperança! Parte de seus alunos assimilarão os ensinamentos por si ministrados e com certeza ao menos alguns haverão de sair da caverna do fetichismo!

Procuramos aqui assumir uma posição intermediária entre ateísmo e fundamentalismo, exercendo critica face a fé apenas quando suas pretensões conflitam com as da ciência em seu terreno, o da imanência. E deixando as questões puramente metafísicas ou espirituais que não conflitam com o modelo científico ao alvedrio dos educandos.

Pois pensamos que a demanda da sociedade presente deva concentrar suas críticas face aos fundamentalismos ou a ideia de que livros integralmente infalíveis possuam uma autoridade ilimitada ou universal.

Esperamos que estas reflexões possam servir como embasamento para uma praxis mais segura e livre, e é claro eficiente.

Neste momento crucial não é o ateísmo, o agnosticismo ou o deísmo que precisam de bons advogados mas o modelo científico naturalista, a liberdade, a tolerância, o pluralismo, etc

No próximo artigo publicaremos uma série de estratégias pedagógicas evolucionistas para professores de ciência ou bilogia.

Mestres hajam com consciência, dignidade e desenvoltura; sem medos ou receios!




domingo, 4 de outubro de 2015

O liberalismo econômico enquanto possível passagem para a teocracia religiosa

Para nós é lamentável ter de concluir que quinhentos anos após a morte de Torquemada e quatro século e meio após a morte de João Calvino, a Sociedade liberal e laicista a que pertencemos ainda não foi capaz de 'lacrar' com lacre de chumbo tidas as vias de acesso ao pesadelo teocrático.

Assim a democracia meramente formal incapaz de reconhecer qualquer tipo de valor exterior e superior a si mesma (Berdiaeff), desvinculada de um espírito científico capaz de dar suporte a uma cultura democrática ou laica. (Sagan)

Dissociada de uma ética objetiva em termos de direitos essenciais a pessoa humana e de uma cultura científica converte-se a democracia num fórmula oca ou numa via de acesso posta nas mãos das massas fanatizadas. Degenera assim numa ditadura das massas, numa ditadura 'democrática', num veículo de animosidades religiosas... e morre espiritualmente.

Daí a necessidade de produzirmos um espírito vivo ou consciência nos termos dados pelo velho Sócrates! Daí a necessidade de educarmos as gerações (Dewey) para a democracia ou melhor na democracia. Daí a necessidade de incutir o espirito democrático em todos os grupos sociais: na igreja, na escola, na família, etc Democracia é espírito que tudo deve penetrar e nortear! É consciência que tudo deve reger! A democracia precisa tornar-se metafísica e pautar todas as esferas da existência humana!

Ou reforçaremos esta forma por meio de um espírito vivo ou assistiremos o malogro de nossa civilização pela retomada dos totalitarismos. Nem a totalitarismo mais abominável que o sagrado ou teocrático. Então devemos parar de brincar com nossos princípios e valores e assumir nossa democracia até a medula dos ossos, até as mais derradeiras e remotas consequências.

A segunda porta de entrada ou via de acesso a teocracia consiste da posse privada dos meios de comunicação. Quando tais meios deveriam ser postos a serviço dos ideais democráticos e do bem comum, enfatizando princípios e valores condizentes com tais fins.

No entanto como transformaram-se em fonte de lucro fácil com que leviandade são tais meios sublocados aos fanáticos religiosos, pastores, profetas e ulemás! 

Justifica-se tal prática em nome da audiência, alegando que o povo assim o quer!

Sabemos no entanto que audiência é um padrão vendável.

Trata-se como se pode perceber de dois critérios muito frouxos.

Na verdade o que se oculta por trás da audiência é o ganho!

Pelo que os pastores, investem o dízimo pago por suas ovelhinhas em propaganda religiosa. Propaganda muito bem paga, que com a aquiescência dos meios de comunicação particulares, converte-se numa MÁQUINA PROSELITISTA POSTA A SERVIÇO DO FUNDAMENTALISMO SECTÁRIO!

Fogem desde então os meios de comunicação a seu legítimo fim: a promoção do bem comum, a instrução pública (Roquette Pinto), a formação do caráter, etc para ficar adstrito a interesses de ordem particular, os mais sórdidos possíveis por sinal!

Agora que direito tem os meios de comunicação de conceder espaço a um único credo privilegiado no contesto duma sociedade pluralista ou democrática??? Onde o critério jamais deveria ser o quem paga e sim o que convém!!! Convém que uma fé imponha-se sobre todas as outras pelo domínio dos meios de comunicação???

Temos aqui a segunda via de acesso do fundamentalismo.

Resta-nos discorrer a respeito da terceira, que é um desdobramento da segunda.

Na medida em que diz respeito ao padrão ou critério do liberalismo econômico.

Que são as tão propaladas necessidades do Mercado. Das quais advém a única meta do capitalismo: o lucro ou a vantagem financeira.

O problema qui é justamente quando interesses credais ou religiosos passam a alimentar o Mercado.

Quem não percebe que para continuar tirando lucro deste veio o sistema econômico tenderá a curvar-se diante de todos os caprichos ditados pelo espírito sectário, mostrando-se inepto para crítica-lo???

Concordará o Mercado ou seus senhores, que acima de si e suas necessidades, sobrepairam as necessidades de uma cultura democrática ou laicista a ponto de resistir as pretensões acalentadas pelas massas religiosas e seus líderes?

Francamente falando penso que não.

Em termos de liberalismo econômico vejo que tudo é negociável.

A ponto de ditaduras e sistemas autocráticos terem obtido as bençãos do sr Mercado, em troca de alentadas vantagens financeiras.

Destarte como poderia crer que um sistema capaz de sacrificar nosso liberalismo político, teria escrúpulos em sacrificar nosso liberalismo religioso.

Tenho para mim que sob a ótica deste sistema economicista tudo seja vendável ou tenha seu preço.

E que nada possua um valor transcendente.

Eu no entanto encaro o laicismo como valor essencial e transcendente em torno do qual jamais se pode fazer qualquer tipo de negociação.

Eis porque a docilidade deste mercado face ao elemento consumidor ou investidor me assusta.

E que este consumidor ou investidor for o fundamentalismo religioso?

E se for...

Já é.

Pois há cerca de trinta anos atrás parte do Mercado recusou terminantemente a boicotar a república então racista da África do Sul, mostrando-se solidário para com o Apartheid. Receando que desta oposição resultassem prejuízos financeiros...

Aqui como sempre o financeiro sobrepos-se ao econômico e mostrou-se irredutível a Ética.

Há cerca de dez anos Bush recusou-se a colaborar com os demais países do globo quanto a redução de gases poluentes afirmando em alto e bom som que a economia de seu país era mais importante do que as condições de nosso planeta.

Sobrepondo-se mais uma vez os interesses do mercado, em termos financeiros, ao bem comum do gênero humano.

Nem vemos que os investidores ocidentais, em especial os norte americanos, tenham cobrado da Árabia Saudita, com que negociam, a adesão ao liberalismo religioso ou a 'democracia'. Pelo contrário o maravilho mercado tem se mostrado totalmente submisso as exigências e pretensões deste estado que não é apenas totalitário mas teocrático e fundamentalista!

Por mais que me esforce não percebo que este maravilho mercado de tenha posto a serviço dos ideais e valores democráticos e laicistas...

Basta haver uma demanda por serviços ou por consumo para que lá esteja o sr Mercado rastejando como um escravo.

Neste caso se o pentecostalismo produzir semelhante demanda que devemos esperar???

Ousará o Mercado opor-se decididamente aos preconceitos alimentados por este grupo religioso?

Temo que não!

Mesmo porque tanto mais um sistema religioso aliena as pessoas tanto mais fortalece nelas o sentido do consumo...

Penso que esta simbiose entre um mercado sempre acritico e docil e uma religiosidade autoritária e alienadora torne-se amplamente desastrosa a longo prazo.

E que deste pacto ou aliança informar resultem graves danos a ordem democrática.

Como mera forma, o Mercado supinamente ignora qualquer valor objetivo exterior ou superior a si.

Sendo assim como poderá vir a assumir a primazia do espírito democrático laicista????





quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Mitos em torno da afirmação das liberdades da Sociedade Moderna

O objetivo deste artigo é analisar diversas hipóteses produzidas enquanto tentativas de compreender a afirmação ou ressurgimento das Liberdades no contesto das Sociedades moderna e contemporânea. A parte deste tema investigaremos também a gênese dos pensamentos irreligioso e laico.

Para tanto iniciaremos nossa abordagem apresentando as hipóteses ou teorias mais sugestivas:


  • Segundo diversos autores protestantes e liberais, os reformadores promoveram CONSCIENTEMENTE a retomada das liberdades merecendo serem tidos em conta de pioneiros nos campos dos liberalismos religioso, intelectual, político e pessoal.
  • Por outro lado, certo número de escritores papistas, tem atribuído aos mesmos reformadores o propósito CONSCIENTE de fragilizar a instituição Cristã e promover a incredulidade.
  • Outro grupo de teóricos tem buscado estabelecer relações mais amplas ou menos amplas entre a reforma protestante e as revoluções modernas. Alguns limitam-se a postular uma similaridade em termos de método, enquanto outros avançam sugerindo certas afinidades ideológicas.
  • Laurent, acompanhando Voltaire; sustenta que sem Reforma Protestante não haveria Revolução Francesa. Esclarece no entanto que esta jamais seria realizada pelos protestantes e sugere que o papel do protestantismo ou da disputa religiosa neste contesto foi produzir uma cultura religiosamente indiferente ou incrédula matriz da grande Revolução.
  • Van Loon e certo número de autores 'insuspeitos' sugerem que a Liberdade surgiu como um nicho ou espaço neutro devido a disputa travada entre a Igreja antiga e as novas facções, em torno do poder.
  • Inúmeras foram as ilações sugeridas em termos do livre exame, de sua secularização e da afirmação do relativismo, do subjetivismo e da incredulidade.

Cada uma dessas teses ou hipóteses é por si só muito interessante.

Estabelecer um estudo sistemático, minucioso e sobretudo comparativo auxiliara o estudioso a conhecer e reconhecer a complexidade do processo histórico e predisporá o mesmo a evitar tanto as generalizações infundadas quanto as fórmulas ocas usadas pelos panfletários com fins proselitistas.

1 - No que diz respeito as liberdades políticas é sempre bom frisar que cento e trinta anos antes da Reforma protestante o Bispo Genebrino, Adhemar Fabri publicou uma carta em que pela primeira vez, no contexto europeu, as liberdades políticas (forma republicana) são oficialmente reconhecidas.

Já a congregação da primeira assembléia cantonal ou landsgemeinde - de Uri - remonta a 1231. Quando não havia sombra de protestantismo na Europa. A bem da verdade os cantões papistas como Schwyz, Uri, Zug, Appenzell interior, Unterwalden é que conservaram as formas democráticas até o tempo do Sonderbund, quando foram atacados e  submetidos pelos cantões protestantes. Desde então, sob pressão dos cantões urbanos e protestantes, foram paulatinamente abrindo mão de suas liberdades democráticas, de suas tradições ancestrais e consequentemente as assembleias cantonais.

Segundo Van Paasen, João Calvino foi responsável por converter a República de Genebra no primeiro campo de concentração moderno. Stefan Zweig da-se por satisfeito com registrar que Calvino transformou a República dos genebrinos numa teocracia ou seja num regime totalitário de inspiração religiosa.

Donde concluímos que a na Suíça a reforma protestante foi responsável pela abolição das antigas liberdades políticas.

Quanto a Inglaterra, é sempre bom lembrar que a Carta Magna de direitos civis remonta igualmente a Idade Média papista, quando ainda não havia sombra de protestantismo e que o protestantismo foi implantado com o apoio do absolutismo sob Eduardo VI, o rei menino.

2 - A respeito da liberdade de consciência convém registrar jamais ter sido ela CONSCIENTEMENTE defendida por qualquer reformador!

Nem por Lutero, nem por Calvino, nem por Zwinglio ou por qualquer um outro.

Lutero amaldiçoou em diversas ocasiões aqueles que interpretavam as escrituras de maneira oposta a sua. Apelou repetidamente ao podre do braço secular com o intuito de intimidar os dissidentes, decretando que houvesse um só sermão apenas! Por fim, a semelhança de Maomé, mandou exterminar os desgraçados anabatistas.

"Além disso, os Anabatistas separam-se de igrejas e estabelecem um ministério e congregação próprios, que é também contrário à ordem de Deus. De tudo isso, se torna claro que as autoridades seculares estão compelidas a infligir punições corporais nos ofensores. Também quando é um caso de apenas defender alguns princípios espirituais, como o batismo de crianças, pecado original e separação desnecessária, e então, nós concluímos que os sectários teimosos devem ser postos à morte.  LUTERO in Janssen, X, 222-223; panfleto de 1536).

Melanchton, seu secretário, inclusive, assinou diversas sentenças de morte contra eles!

Lutero ficava satisfeito com a expulsão dos católicos. Melanchthon era favorável à imposição de penas corporais contra eles [. . .]" (Janssen, V, 290)

Calvino mandou supliciar Servet a fogo lento por ter cometido o 'crime' de negar que a doutrina da Trindade estivesse contida na Bíblia. Já seu púpilo Th Beza, descreveu a liberdade de consciência como sendo uma 'doutrina diabólica' e justificando exaustivamente a necessidade que exterminar todos os dissidentes religiosos.

A defesa mais habilidosa de perseguição durante o século 17 veio do presbiteriano escocês Samuel Rutherford (A Free Disputation Against Pretended Liberty Of Conscience, 1649).” (Chadwick, 403)

Outro inimigo declarado da liberdade de consciência foi o também calvinista Thomas Edwards, autor da Gangraena.

Já U Zwinglio decretou uma Fatwa contra todos os anabatistas de Zurich fazendo com que os infelizes fossem atirados aos rios com grades amarradas a seus corpos.Além disto “...chegou a declarar que o massacre dos bispos era necessário ao estabelecimento de um Evangelho puro. . . Em 4 de maio de 1528, ele escreveu: ‘Os bispos não desistirão de sua fraude... até um segundo Elias aparecer para fazer chover espadas sobre eles. . . É mais sábio arrancar for a um olho cego do que deixar o corpo todo corromper-se.’” (Janssen, V, 180; Zwingli's Works, VII, 174-184)

Além de a semelhança de um segundo Maomé morrer com a espada nas mãos no campo de batalha de Kappel, após ter invadido com suas hordas os cantões Católicos.

Se alguém ainda abriga o preconceito tradicional que os primeiros protestantes eram mais liberais, ele deve ser desenganado. Salvo por algumas palavras esplêndidas de Lutero, confinadas aos primeiros anos, quando ele era impotente, não há quase nada a ser encontrado entre os principais reformadores a favor da liberdade de consciência. Assim que eles detinham o poder de perseguir, eles perseguiam.” (Smith, Preserved (S), The Social Background of the Reformation, Pg. 177 - New York: Collier Books, 1962)

Por onde se concluí que jamais pretenderam sancionar a liberdade de consciência!

3 - Igualmente absurda a tese segundo a qual os reformadores protestantes fossem incrédulos ou pretendessem favorecer a incredulidade, quando - assinala com razão Laurent - colocavam a fé cega acima de tudo.

Ninguém mais crente do que aquele que é capaz de excluir a razão - Lutero - e apresenta-la como uma doida varrida.

Ninguém mais crente do que aqueles que excluem a liberdade e a colaboração humanas tudo atribuindo magicamente a graça (monergismo) a ponto de construírem dogmas monstruosos como a predestinação.

Nada mais crente do que acreditar na veracidade da Bíblia - digo antigo testamento - de capa a capa com todas as lendas e mitos judaicos.

Em tudo foi o protestantismo um excesso ou abuso: do livro, da graça, da fé... em tudo uma hipertrofia... uma apoteose da credulidade.

Neste sentido ousamos proclamar em alto e bom som a excelência do espírito Católico ou mesmo da igreja romana cuja teologia sempre reconheceu as capacidades da razão e da liberdade!

Buscando tudo atribuir diretamente a deus, o protestantismo estava mesmo destinado a converter-se em paladino do criacionismo.

Nem se pode imaginar nada mais oposto a incredulidade.



4 - Neste caso qual seria o elemento comum existente entre protestantismo, Revolução Francesa e por extensão a Revolução russa?

O único elemento comum entre a Revolução Protestante e as revoluções subsequentes encontra-se no nível da forma ou do método.

Uma vez que os reformadores foram os primeiros homens modernos a atacar violentamente - em termos físicos e materiais - seus adversários, no caso a igreja romana ou os Bispos Católicos, recorrendo a autoridade secular, as armas e a guerra aberta.

Historicamente a Reforma protestante constitui um marco. Pois foi nela que pela primeira vez uma categoria ou grupo de cidadãos (no caso os burgueses e citadinos) pegaram em armas com o objetivo de alterar as instituições sociais. Neste sentido, puramente externo ou formal, a Reforma é mãe de todas as revoluções modernas.


É por esse motivo que pastor algum tem o direito de condenar as Revoluções Francesa, Russa, Mexicana ou quaisquer outras manifestações sociais de violência porque sua querida reforma deu-se exatamente nos mesmos termos ou seja enquanto uma irrupção de violência sem precedentes!

Não foi ao redor de uma mesa apreciando finos licores e petiscos que a reforma foi decidida, mas em campos de batalha como Kappel... ao fragor das armas! 


E nem se pode negar que ainda no berço a maravilhosa reforma tombou no vício da igreja romana e no erro do islã, impondo o novo Evangelho a ferro e fogo!

Neste sentido negativo foi revolução e matriz de todas as revoluções subsequentes!

A filosofia ensinou-nos que todas as questões podiam e deviam ser resolvidas racionalmente. O Cristianismo antigo que quase todas as questões podiam e deviam ser resolvidas pacificamente.

A reforma além de ter sacrificado a razão e a liberdade, sacrificou também o dom da paz.



5 - Tudo quanto podemos dizer a respeito das liberdades modernas é que foram produto da rivalidade e luta travadas entre a igreja antiga e a igreja nova.

Assim o que Voltaire e Laurent declaram a respeito de Lutero e Calvino, dizendo que sem eles a Revolução Francesa teria sido impossível, podemos dizer igualmente a respeito do papado:

Caso o papado não tivesse resistido e feito oposição a reforma protestante revolução alguma teria sido possível.

A bem da verdade os nichos de incredulidade, laicismo e liberdade, surgiram apenas onde as forças das duas comunhões anularam-se uma a outra ou onde as diversas seitas protestantes estavam em luta pelo poder.

São dois os fatores que devemos levar em conta ao analisar a questão do surgimento das liberdades modernas:

  1. A fragilização da até então onipotente igreja romana
  2. A impossibilidade de qualquer seita protestante assumir seu lugar ou substituí-la numa dimensão continental

A bem da verdade o que os reformadores pretendiam não eram fragilizar a igreja romana, mas destruí-la por completo e ocupar seu espaço.

Concretizada tal aspiração teríamos a Bíblia no lugar o papa e uma inquisição bíblia implantada em larga escala a semelhança do que ocorreu na Genebra de Calvino, a nova Jerusalém dos reformados.

Eis o modelo de 'sociedade' ou república que os protestantes esperavam poder implantar na Europa como um todo, algo bem mais rigoroso e intransigente do que o modelo papista!

Em que pese o juízo de Laurent, tanto Montaigne quanto Rabelais não tardaram a perceber porque sendas pretendia a reforma guiar os povos, pelo que o último aproximou-se decididamente da igreja romana, cujos ensinamentos Montaigne jamais questionou.

Moralmente falando a reforma, com seu puritanismo de duvidoso talhe, tinha diante de si um modelo bem mais rígido, quase monacal ou ascético.

Cumpre indagar que espaço estaria reservado a liberdade num cenário destes???....

Não é da reforma que surgem nossas liberdades e sim da frustração do projeto social delineado pelos reformadores. Os quais não tiveram folego suficiente para ocupar como desejavam os espaços deixados pela igreja antiga.

Temiam sobremodo que as massas fizessem a eles o mesmo que eles haviam feito aos Bispos e rejeitassem de imediato qualquer tipo de instituição ou culto religioso. Pelo que tiveram de limitar ou nivelar suas pretensões.

Em suma a reforma jamais esteva altura da tarefa a que se propôs: substituir a igreja antiga ou por-se no lugar dela.

Assim em poucas gerações, aqueles que haviam trocado de religião, concluíram que bem podiam passar sem qualquer uma.

Ao fim de dois séculos ou século e meio parte dos protestantes chegou a conclusão de que a nova igreja era tão inutil quanto a antiga.

Já no plano político não tinha a igreja nova como suster suas pretensões autocráticas. Por mais que lhe sobrasse vontade não tinha poder para tanto.

A velha igreja como já dissemos saíra abalada desde o começo. Temia acima de tudo que qualquer rei ou príncipe imitasse os exemplos de Lutero ou Calvino... tendo de conter parte de suas exigências.
Este conflito entre as instituições religiosas modernas e a igreja antiga desgastou ambos os lados. Fazendo com que limitassem mais e mais suas pretensões.

Sem qualquer um dos lados não haveria Revolução Francesa.

A criação de uma sociedade 'Bíblica' em escala continental com a posse dum aparelho inquisitorial, bastaria para amedrontar príncipes e reis e atrasar por séculos a ulterior evolução política do Ocidente.

Assim se devemos a reforma a anulação do poder papal, devemos a igreja romana a anulação do novo poder que pretendia afirmar-se: o poder bíblico.

É a Sociedade moderna produto de duas forças religiosas que anularam-se mutuamente.


6 - E quanto a afirmação da incredulidade, deísmo, materialismo e ateísmo; colaboraram as duas comunhões: romana e protestante na mesma proporção?

Se em termos políticos e sociais podemos analisar com segurança o rumo das coisas e perseguir seus caminhos, o mesmo não se dá a nível de pensamentos e crenças. Aqui estamos diante de um fenômeno tanto mais complexo.

Pois nem todos os que aderiram aos pressupostos laicistas ou secularizantes, do século XVI ao século XX eram necessariamente irreligiosos. Assim se haviam anti clericais virulentos nos países 'católicos' também havia um grupo igualmente forte de 'católicos' modernistas, ou seja, em maior ou menos grau favoráveis a liberdade de consciência e a democracia. Alias este grupo só veio a ser penalizado em meados do século XIX, por Pio IX, o papa reacionário, inspirador do ideário integralista.

Até Pio IX os católicos democráticos, laicistas e ou socialistas sempre haviam feito parte da vida de igreja. A par dos anti clericais virulentos e dos legitimistas, uns e outros faziam parte de um cenário social bastante variado. Isto já nos séculos XVIII e XIX.

Pio IX foi o primeiro papa moderno a romper a barreira estabelecida desde os séculos XVI/XVII e a aspirar por um poder semelhante a dos grande papas da Idade Média. Antes dele os papas e mais ainda os Bispos estavam muito mais preocupados com a pureza da fé. De certo modo ele intensificou ainda mais o conflito existente entre a Igreja e o principado secular, na medida em que nutria pretensões aparentemente teocráticas.

Uma coisa porém é certa: tendo em vista a existência de dogmas muito bem definidos, a igreja romana jamais cogitou em negociar sua fé com quem quer que fosse. Impôs os limites de sua ortodoxia e lanço fora os que não se conformavam com eles. Tal a origem do partido anti clerical!

Implica admitir que a incredulidade jamais foi capaz de infiltrar-se profundamente na corpo da igreja antiga.

Já o mesmo não se dá com o protestantismo.

Em função do princípio do livre exame.

Santificado o princípio do livre exame, que é um princípio meramente formal e portanto vazio, fica impugnada a pretensão de uma verdade objetiva que transcenda os indivíduos.

É verdade que o protestantismo nascente associou ao método do livre exame, a doutrina mágico fetichista da inspiração direta do espírito santo, ainda hoje sustentada pelos pentecostais.

Bastante cedo porém, a diversidade de interpretações e seitas, fez com que os protestantes da Europa substituíssem a tal inspiração mágica do espírito santo pelo princípio natural da razão humana. Desde então ficou o livre examinismo naturalizado...

Convertendo-se a fé cristã em opinião individual.

Ou melhor em inúmeras opiniões uma vez que cada qual tem a sua...

Por volta do século XVIII era tal o número de interpretações que pouquíssimos protestantes cogitavam estar em posse da verdade.

Assim enquanto uns convencionaram que não havia verdade alguma outros convencionaram que todas as opiniões ou interpretações eram verdadeiras e; nem por isso, tais pessoas; sem fé, cogitavam em não ser protestantes. Transformando-se, ao cabo de três ou quatro séculos a igreja do fideísta Lutero num clube de incrédulos, deístas, materialista e até mesmo ateus.

Chegamos forçosamente a conclusão de que o princípio formal do protestantismo ou melhor sua naturalização culminou em tornar a comunidade protestante num repositório de incredulidade e irreligião. Sem que houvesse qualquer ruptura brusca ou mesmo negação do protestantismo devido a continuidade do método. Assim a instituição protestante, ao contrário da papista, não só acomodou-se as novas ideologias irreligiosas como chegou a promove-las ativamente. A ponto de seus teólogos conceberem a teologia da 'morte de Deus'. Nem preciso dizer que Nietszche foi filho de um dos principais doutores do luteranismo.

Além disto a própria proposta de exerce fé na Bíblia toda de capa a capa - ao menos após o século XVIII e a afirmação do padrão científico de pensamento - com seus mitos, fábulas e dogmas absurdos (antigo testamento) agravou ainda mais a situação, aumentando a crise da fé. Neste sentido a igreja romana e demais igrejas Católicas com seus trinta e poucos dogmas objetivamente definidos e por consequência limitados saiu-se e ainda hoje se sai muito melhor.

Eis a razão porque certo número de ateus e materialistas fanáticos nutrem franca simpatia pelo sistema protestante - em que pese o pentecostalismo e o criacionismo - e assestam suas baterias contra a igreja antiga, quiçá por esta ser ainda hoje mais resistente.