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sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Foi Maquiavel maquiavélico?

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Sem dúvida alguma é o florentino Nicolau Maquiavel (+1527) objeto de uma das principais polêmicas no que diz respeito as Ciências políticas, a Sociologia e a Ética. Calcule-se o fragor desta controvérsia pelo número de refutações com que brindaram o príncipe após Innocent Gentilet (1576)... Até Frederico, o grande, passando por Solorzano, Ayala e inumeros outros.

Seja como for todos tivemos de ler 'O príncipe' nos bancos da academia e de ouvir a interpretação de Benedetto Crocce vulgarizada por Chabod (1958).

Conforme dizem tais autores pugnava Maquiavel pela autonomia do político face a moralidade Cristã convencional. Ficava assim o florentino sendo um 'bom garoto'...

Mais razão assistia a Cassirer (1946) quando apresentou Maquiavel 'Cientista ou técnico da vida política', o qual procedia como um entomologista ou classificador de formas... De fato Maquiavel evoca, antecipadamente, as fúrias do positivismo ou do cientificismo, empirista ou materialista. Na medida exata em que importasse apenas com as estruturas e despreza ou minimiza não a 'moralidade Cristã' mas todo e qualquer tipo de Ética... inclusive a ética racionalista dos antigos gregos. Ele certamente devia encara a ética tal e qual a moralidade ou seja como mera convenção...

E se expressa com bastante clareza: "Assim o principado não desejará empregar aqueles métodos injustos e cruéis que REPUGNAM A QUALQUER COMUNIDADE, não somente a Cristã, MAS QUALQUER UMA FORMADA POR SERES HUMANOS." não no 'Príncipe' mas nos 'Discorzi...'

O que esta em jogo não é a moral - de fato convencional e até tola - mais judaica do que Cristã e a autonomia da vida política face a este tipo, peculiar de moralidade. O que esta em jogo é a Ética como um todo. A Ética racional e humanista de um Sócrates ou de um Platão. A simples ideia de um direito ou de uma lei natural. Nada há de novo debaixo do sol, apenas os papéis se invertem e agora é Creonte que arrosta Antígona...

Tudo quanto existe são 'razões de Estado', assim o direito puro ou positivo, acima de toda convenção.

Outro erro comum cometido por tantos quantos leem apenas O príncipe com exclusão dos 'Discorzi' é imaginar que - no Príncipe - o florentino esta apenas sendo realista e apresentando a política do tempo, tal qual era, ou seja, sem falsos moralismos.

Tudo no Príncipe é tão crú que acabamos fazendo a volta do parafuso e supondo que Maquiavel - a bem da verdade um republicano convicto (Quentin Skiner) - limita-se a descrever o que é um principado monárquico, tirânico ou despótico. Reduzido o príncipe aos termos de uma monarquia ou de uma ditadura Maquiavel não podia deixar de estar certo... Então o que ele pretendeu foi isso mesmo e apenas isto: Descrever sem atenuantes o que foi ou era o regina da Signoria...

E podíamos ficar nisto... Caso não tivéssemos examinado sua outra obra igualmente clássica sobre as Décadas de Tito Lívio, isto é, os 'Discorzi'...

Do qual extraímos o fragmento acima... que bem se encaixaria no Príncipe. Pois o Maquiavel, o autor, é o mesmo.

A bem da verdade não acreditamos que Maquiavel fosse republicano ou democrata. E tampouco despótico. Tudo quanto ele objetivava era a unificação de sua querida Itália. Assim os fins empalideciam face aos meios... os princípios face aos instrumentos... Com efeito - "Certas ações condenáveis podem ser justificadas graças a seus resultados, e quando o resultado for bom... fica justificada a ação." Discorzi... ' Primeiro Discurso. E exatamente aqui que Maquiavel justifica o fratricídio. Como todos sabem Rômulo, mítico fundador da cidade de Roma, assassinara seu irmão Remo. O florentino diz mais ou menos assim: Ok, tudo bem, Rômulo matou Remo, mas não cometeu crime algum pois tinha em vista o bem da república... "Ele merece ser desculpado... pois quis garantir a segurança da nova cidade." tais suas palavras e se fosse um matricídio ou um parricídio não seriam outras. Afinal o valor supremo não é a família ou a reverência para com os mais velhos mas a conservação da cidade!

A propósito, quanto a Maquiavel não ser nada em tempos de forma ou regime político é sabido que escreveu O príncipe e dedicou-o ao vitorioso Lourenço imediatamente após a queda da República que até então servirá, visando, obviamente alguma colocação. E isto soou tão mal que ele chegou a manipular sua correspondência e o próprio texto do livro para fazer supor outra data mais recuada... Não deu certo. O Médici jamais confiou nele... Assim sendo, alguns anos antes do levante que derrubou os Médici, em 1527, visando uma possível colocação, compôs os Discorzi - certamente tentando passa-los por mais antigos do que eram. Inutilmente, porque os republicanos vitoriosos bem conheciam seu oportunismo. Não tardou a desesperar-se e a sucumbir, descendo a tumba.

Maquiavel sempre mudou de lado e buscou compor-se com os vitoriosos tendo em vista uma possível obtenção de cargos ou seja por amor ao poder.

Não me parece que fosse qualquer coisa. Embora seja certo que desejasse a unificação da península, fosse sob a forma republicana ou sob a forma despótica. Seu sonho era o ressurgimento do antigo Império romano... Neste sentido foi o predecessor perfeito de Mussolini.

Certamente que não se pode ser agressivo, belicoso ou odinista sem sacrificar a ética. Por isso Maquiavel risca-a de seu caderno... Não a moral cristã convencional, a qual certamente não amava e sequer olhava com simpatia, mas uma simples ética racionalista e humanista nos termos de um Sócrates ou de um Platão. Por isso esta ele tão próximo do cientificismo contemporâneo com suas pretensões anti éticas, do positivismo e, consequentemente do direito puro e de Mussolini... Admitido que nada haja em termos de essencialidade e que tudo seja mera convenção, como deixar de curvar-se reverente face ao Leviatã, seja seu sobrenome 'razão de estado' ou 'vontade geral'. Afinal a pessoa nada é... E nem se pode levar a tese segundo a qual cada um possa fazer tudo quanto queira... Pendendo o prato da balança ao estado ou a sociedade, e sem contra peso. O homem desaparece... É esmagado pelo príncipe, pelo líder, pelo ditador, pelo déspota, pelo soberano, pela comunidade... Creonte manda supliciar Antígona e tudo fica por isso mesmo. E ai de Tirésias caso ouse abrir a boca - Hobbes e Maquiavel amordaça-lo-ão... E como Fisher de Rochester ou o divino Morus irá ao cadafalso...

Enfim, lido em sua completude Maquiavel parece mesmo maquiavélico e só nos resta declarar que Gentilet, Solorzano, Ayala e outros quiçá mereçam ser lidos com um pouquinho mais de atenção ou complacência...

sábado, 23 de setembro de 2017

Cara a cara com os judaizantes - Que há de Cristão no antigo testamento?


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Dia após dia somos forçados a voltar ao tema do antigo testamento, da judaização, do fundamentalismo, do sectarismo bíblico, do calvinismo, da inspiração plenária, do 'corão cristão'... Tendo em vista a realidade social brasileira e a 'compreensão' de uma religiosidade que a um tempo apoiou ativamente um golpe de estado contra nossas instituições democráticas e que a outro busca tomar posse de nossas escolas públicas convertendo-as em máquinas de proselitismo...

Não se trata aqui de satanizar o antigo testamento.

Declarar que é o A T em sua maior parte ou quase totalidade um registro puramente humano é apenas dizer a verdade e dizer a verdade sempre será um bem.

Alias, ao contrário de alguns, nem avançaremos alegando que o A T seja mal em si mesmo. Enquanto fonte de conhecimentos históricos ou referência a uma cultura é ele bom.

Sim, caro leitor, ao contrário do que alguém poderia julgar, o antigo testamento, enquanto registro do passado humano é algo bom.

Então o que???

Não é ao antigo testamento que damos combate.

O que combatemos e denunciamos é a crença fundamentalista, protestante, pentecostal, calvinista, etc segundo a qual o A T, em sua totalidade ou em cada uma de suas partes corresponda a um registro de origem sobrenatural ou divina.

É contra a mentalidade biblicista ou judaizante que pugnamos, contra a crença supersticiosa e vã da inspiração plenária ou linear, contra s simples sugestão de que existe um 'corão' cristão de Gênesis a Apocalipse, visão predominante ou majoritária entre os protestantes brasileiros.

Para um pentecostal mediano, podemos dizer que via de regra o Novo Testamento ou o Evangelho nada é e que não há qualquer diferença significativa entre o Sermão do monte ou as Bem aventuranças e o primeiro capítulo do Gênesis ou o texto do dilúvio. É tudo uma coisa só, como que descida 'in totum' ou prontinha do alto do céu.

Claro que a consciência TRADICIONAL do Cristianismo, presa as palavras de Cristo ou ao Evangelho se rebela contra esta perspectiva grosseira e rebelar-se-a cada vez mais.

Não pode o Cristão episcopal niceno ou atanasiano admitir que as Palavras do Deus e Verbo encarnado Jesus Cristo seja em tudo igual a de quaisquer emissários, cuja condição era puramente humana. Esta doutrina da inspiração linear ou da bíblia una é boa para unitários ou arianos, para os quais Jesus é de fato um dentre muitos, mas não para atanasianos ou para os que encaram Jesus como um homem 'diferente', em que há algo a mais...

Como poderia ele ser algo a mais sem que sua palavra tivesse algo a mais?

Noutra situação social o confronto seria fastidioso e desnecessário.

Todavia num momento em que os sectários valem-se justamente do A T testamento com o objetivo de atacar ferozmente os dissidentes religiosos - Sejam papistas, espíritas ou esotéricos - além de levantar a bandeira de diversos preconceitos em pleno cenário político, a estratégia nos obriga a demolir as partes não santas ou divinas do A T e a demoli-las implacavelmente, isto pelo simples fato da 'Bíblia una' ser o coração do protestantismo e o antigo testamento a parte predileta dos sectários.

Disto decorre que o respeito supersticioso votado pela Igreja romana ao conceito acatólico de 'Bíblia una' e o endosso feito por ela em torno de tais tonterias ao invés de desarmar a crítica protestante, a tem de fato alimentado século após século. É como se a igreja de Cristo, estupidificada, colocasse ela mesmo armas a munições nas mãos de seu pior inimigo na mesma medida em que insiste a respeito da divindade do A T. Desacreditou-se apenas a Igreja e a maior prova disto é que quase toda gente simples foi conquistada pelo protestantismo e isto pelo simples fato de que ele certamente leva o antigo testamento bem mais a sério... Que o digna o iconoclasticismo...

No entanto se queremos conter este aluvião fundamentalista e teocrático temos de ir as pernas de barro do colosso e dilacera-las, temos de levar a cabo a crítica do A T, iniciada pelos próprios protestantes - liberais - e leva-la a cabo ou divulga-la. É chegado o momento em que as contemplações devem ser postas de lado e a doutrina da inspiração plenária descrita e classificada como deve ser i é como uma simples opinião teológica em nada favorável a nossa Santa fé Ortodoxa. É dogma sim, mas apenas para os protestantes na medida em que foi canonizada e santificada por seus líderes os reformadores. Nossa tradição, a tradição Católica, sendo muito mais rica e abrangente, brinda-nos com outras possibilidades bem mais condizentes com nossa fé (E nossos ícones rsrsrsrsrsrs).

Dissemos acima que o protestantismo tem levado o A T tanto mais a sério do que a igreja romana. (E a Igreja romana o tem levado tanto mais a sério do que a Igreja Ortodoxa - por isso também somos Ortodoxos). Afinal é o valhacouto das seitas judaizantes...

Onde senão no seio do protestantismo damos com as aberrações do unitarismo, sabatismo e do mortalismo???

Tal no entanto não basta, e nem de longe, para limpar a barra dos judaizantes e livra-los da justa pecha de leviandade e hipocrisia...

Pois dizer que levam o A T mais a sério do que as igrejas Católicas não equivale a dizer que o cumprem, vivem e observam em sua totalidade, como fosse uma LEI divina.

Afinal uma lei divina deve ser observada e vivida em sua totalidade.

Por isso um dos apóstolos assim se expressou: "Quem viola um dispositivo da LEI viola a lei em sua totalidade.". O que vale tanto para a lei dos antigos judeus - Caso seja tomada por lei divina - como para a LEI divina do nosso Evangelho.

Nada mais exótico do que testemunhar os comedores de carne de porco e toda este gente, escanhoada, tatuada ou com parte de seus corpos exposta, discutindo seriamente a divindade da Torá. E enquanto isso lá vai um pedaço de chouriço ou uma porção de Strogonoff guela abaixo do nosso judaizante! E come galinha a cabidela o nosso homem!
Mas cadê a refeição Kosher meu amigo???

Cadê os taliths, tefilins, franjas, túnicas, filactérios, burkas, etc???

É o protestantismo por natureza inconsequente e nem podem seus filhos discutir a validade da lei de Moisés sem que a discussão receba conotações neoplatônicas, descarnadas ou teoréticas na direção do solifideismo. Talvez devido ao inconsciente, os protestantes só se preocupem com o quanto seja teórico, descartando tudo quanto seja prático neste terreno. O que a nós Católicos sabe a conveniência ou oportunismo.

De fato mal um dissidente qualquer ousa observar que eles protestantes comem carne de porco ou ostentam seus corpos seminus na praia, já rebatem dizendo que parte da LEI de Moisés teria sido abolida.

Agora se algumas partes foram abolidas e outras não em que baseiam-se para distinguir umas das outras ou para declarar quais são e quais não são válidas??? Qual o critério ou padrão a que recorrem???

A malignidade ficará assente caso declarem que tal decisão - de distinguir as partes válidas das não válidas do A T - cabe a cada individuo, crente ou leitor da Bíblia. Dado que uma tal questão pertença a esfera da subjetividade como evitar que surjam tantas seitas quanto cabeças??? Se disser que cabe ao espírito santo não saímos do lugar e se disser que cabe a liderança da seita a que pertence só nos restará rir... O A T continuará sendo partido como um boi no açougue e cada fanático levará a peça que preferir...

Certamente a divisão foi realizada, tinha de ser realizada, mas por quem cabia, i é, pelo divino Mestre Jesus e não por qualquer outro...

Eis porque qualquer Cristão bem pode abrir as páginas do Santo Evangelho e por elas verificar que parte do A T foi reconhecida como divina por Jesus e quais foram desconsideradas.

Claro que esta decisão sobre as partes do antigo testamento só pode ser decidida por Jesus i é a luz do Santo e divino Evangelho. Portanto, ao contrário do que dizem os pastores, nós Ortodoxos temos um critério e um critério externo, objetivo e divino.

Tais as palavras: "Não cuidem que vim eu abolir a LEI. Nenhum traço ou pingo da LEI será revogado, eu vim para observar a LEI e cumprir a profecia."
Há gente tarda e imbecil que faça desta passagem cavalo de batalha... embora seja ela duma simplicidade extrema.

O amigo quer dizer que a passagem acima é de fácil compreensão?

Nem mais nem menos.

Mas como?

Observe - A expressão LEI neste contexto só pode comportar dois sentidos e não mais que dois.

Lei aqui é a TORÁ ou o pentateuco i é tudo quanto a tradição judaica atribui a Moisés ou alguma parte específica dela, no dado o Decálogo.

Ou a lei irrevogável e divina é a Torá como um todo - em cada uma de suas partes e com todos os seus incisos, normas e regulamentos - ou limitasse ao código escrito sobre as tábuas de pedra, nem mais nem menos.

Se é a Torá, já o dissemos acima, devemos viver como os judeus do século VII a C.

Se parte alguma da Torá por mínima que seja, deve ser posta em vigor, estamos obrigados a adotar a dieta judaica - distinguindo entre animais puros e impuros - os trajes judaicos, as festas judaicas, etc absolutamente tudo, sem exceção.

Conclusão: Todos os judaizantes estão condenados por pecarem contra diversos incisos da lei.

Por escanhoar a barba, por tatuar, por usar lã e linho, por comer strogonoff - Não poderás cozinhas o bezerro no leite de sua mãe - por não apedrejar os idólatras, por não enforcas os blasfemadores, por não queimar bruxas, por ir a praia, etc, etc, etc, etc

Afinal nem os amishes e menonitas, lograram o milagre de viver a integralidade da Torá e estamos aguardando o aparecimento do primeiro judaizantes coerente no seio da cristandade protestante...

Ah mas Jesus revogou este ou aquele ponto da Torá! Pois permitiu que os apóstolos comecem sem lavar as mãos... Tocou os leprosos... Ficou a sós com a mulher samaritana... Falou contra a dieta, etc

Veja sr judaizante se Jesus declarou que parte alguma da Torá podia ser ABOLIDA e em seguida aboliu algumas partes você esta insinuando que Jesus entrou em contradição consigo mesmo, que mudou de opinião ou que mentiu...

Portanto se Jesus declarou que a LEI não podia ser revogada - por ser divina e portanto eterna e imutável - e em seguida, no curso de sua pregação, desconsiderou diversas partes da Torá é justamente porque para ele essa lei eterna, irrevogável e divina não era a Torá ou a totalidade da Torá.
Mas aquela parte especifica da Torá que sempre foi observada pelos Cristãos desde a Era apostólica e durante todo curso da História, o Decálogo.

A LEI a que se refere Jesus como irrevogável e divina e cujo teor jamais criticou só pode ser o Decálogo e não qualquer outra parte.

O Decálogo é de origem divina enquanto expressão de uma LEI natural, as outras partes da Torá são se origem puramente humana, de modo que sequer foram abolidas ou revogadas - jamais tiveram validade universal - mas pura e simplesmente desconsideradas por Jesus. Devendo ser igualmente desconsideradas pelos Cristãos, pelo simples fato de não serem judeus.

Nada mais fácil do que citar levianamente o Deuteronômio contra os espíritas, esotéricos e católicos; como se fosse parte do Evangelho ou tivesse sido escrito por Jesus. Acham que o Deuteronômio foi escrito por Jesus???? ENTÃO POR QUE NÃO VIVEM O DEUTERONÔMIO EM SUA INTEGRALIDADE??? Se foi escrito por Jesus por que vocês pecam selecionando algumas passagens com que agredir os dissidentes e desprezando todas as outras??? Se o Deuteronômio é tão sagrado quanto nosso Evangelho por que vocês não o colocam em prática ao invés de profana-lo selecionando o que convém e o que não convém??? Quem são vocês para partir e selecionar a palavra de Deus ou uma instituição divina??? Claro que partindo a Torá em pedaços como um boi no açougue e escolhendo com base no 'mal me quer, bem me quer' vocês demonstram que não a levam muito a sério...

Em abono ao quanto alegamos, basta dizer que em pleno ano 170 desta Era, o autor Cristão Hegesipo na Ypoummenata declarou ter verificado - após ter visitado diversas igrejas apostólicas como Corinto e Roma - que todas essas congregações tinham por norma 'A lei e os profetas' expressão tomada ao Evangelho e que certamente não podia referir-se a integralidade da Torá, uma vez que desde o ano 70 i é uma século antes, os Cristãos e judeus seguiam regras de vida diferentes, aqueles observando a LEI moral do Decálogo e o Sermão do monte e estes apenas a totalidade da Torá. Portanto o emprego da palavra LEI por Hegesipo reflete como os cristãos do ano 170 compreendiam esta passagem do Evangelho, tomando-a não pela Torá - que não observavam vivendo como judeus - mas pelo Decálogo.

A exceção dos ebionitas, que eram judeus fanáticos, os Cristãos, advertidos pelo Salvador, jamais tentaram viver a Torá e menos ainda impo-la aos conversos do paganismo.

Somente após a canonização da bíblia una por João Calvino as massas incultas da Europa moderna conceberam a opinião monstruosa segundo a qual a Torá em sua totalidade jamais fora questionada, revogada, abolida ou desconsiderada por Jesus, aventando a possibilidade de restaura-la no contexto 'cristão' ou melhor dizendo reformado. Tal a origem do sectarismo judaizante com seus ideais precipuamente teocráticos e obscurantistas.

Cumpre advertir que de nossa parte nada temos contra a religião judaica professada e praticada por judeus i é por descendentes do suposto patriarca Abraão. Nossa questão não é contra os judeus ou sua fé. Não nos cabe julgar a fé alheia mas vivera nossa. Quanto ao povo judeu nos atemos ao que já foi decretado por Alexandre, Augusto e Constantino - São cidadãos como outros quaisquer no pelo gozo de suas liberdades, sendo-lhes defeso viver segundo suas tradições e costumes ancestrais, o que neles é digno de aplauso e louvor.

Agora que Cristãos aspirem viver sobre o costume judaico, afirma-lo como cristão e aspirar impo-lo aos outros tecendo acusações sórdidas, isto não toleramos nem toleraremos estando dispostos a vindicar o nosso Cristianismo, apoiado pelas tradições. Quanto as judaizantes, isto é aos cristãos aparentes e sectários, a estes não pouparemos por um instante, denunciando-os como incoerentes, levianos e confusos. Se eles reabriram as suturas alinhavadas por Paulo não seremos nós quem haveremos de fecha-las! Afinal professando a divindade de Cristo e a Trindade Excelsa, serão idólatras e politeistas para os verdadeiros judeus e afirmando a necessidade de vivermos a moda judaica, serão supersticiosos aos olhos dos verdadeiros Cristãos, de modo que religiosamente falando, a semelhança da sogra de Pedro, não serão coisa alguma, ficando suspensos entre a sinagoga dos infiéis (a que não pertencem) e a Igreja de Cristo. (a que tampouco pertencem).

Quanto aos verdadeiros Cristãos, que se deleitam no Evangelho, satisfazem-se no Decálogo e nas profecias referentes a futura manifestação do Verbo Jesus, recebendo-as como as únicas partes divinas ou reveladas do Antigo testamento e tendo todas as outras - com suas imoralidades, crimes, mitos, fábulas, etc - em conta de puramente humanas enquanto produto natural da cultura. Destarte não regularão suas vidas segundo a cultura dos antigos judeus mas segundo as palavras e ensinamentos de Jesus, tal a Lei dos Cristãos.



terça-feira, 3 de novembro de 2015

Reflexões sobre os postulados éticos da antiguidade Clássica

Não foi apenas Deus que segundo declaram morreu...

Nem sei como existindo poderia ele ter morrido ou como poderia ter morrido inexistindo, no entanto...

Compreenda-se que 'morreu' metaforicamente a ideia de Deus, alias aquilatada como genial por Bertrand Russel, na medida em que uma parte dos homens tem aderido ao agnosticismo ou a indiferença face ao tema de sua existência ou inexistência e outra parcela, bem menor, ao ateísmo.

Negar que o agnosticismo avance não podemos.

Não se trata aqui de um negar dogmaticamente a existência do Sagrado; mas de pura e simplesmente considerar a questão insolúvel, irrelevante ou supérflua.

Agora esqueceram-se de declarar nossos cronistas que a Ética também parece ter morrido.

Dostoievsky foi quem de modo mais eloquente reeditou a relação - Deus Ética - em tempos mais próximos... sabemos no entanto que já havia sido explorada e esgotada por I Kant e antes dele por Voltaire, Russeau, Leibnitz, Descartes, Bacon, entre os modernos. Suas fontes mais remotas no entanto remontam a nossa herança greco romana, a Antistenes, Sócrates, Diógenes de Apolônia, etc

Embora os emancipados desta geração limitem-se a rir debochadamente diante de raciocínios que reputam tão rasos e miseráveis, eles fazem parte de um lugar comum assaz explorado por nossa tradição filosófica até Nietzsche, During, Marx, Dietzgen, Freud, Sartre, Camus... quando o tema de deus foi declarado inadequado ou proclamado tabu.

Desde então a Ética carunchou e apodreceu como sói as batatas...

Claro que o nome Ética continuou a ser empregado.

Afora os positivistas e cientificistas fanáticos poucos atreveram-se a questionar a existência da moral ou da ética.

Houveram mudanças radicais...

Assumindo a nova ética um caráter individualista, subjetivo e relativista muito semelhante aquele que lhe fora atribuído pelos sofistas.

Justamente com Cristo, a Virgem, os Santos e todas as 'fanfarronices' do Cristianismo, também Sócrates e Platão, se quem que gentios e adoradores dos deuses imortais, receberam um pé na bunda ou melhor nas bundas...

Disse Sócrates que no futuro a humanidade reconheceria não ter feito ele mal algum. Já Xenofonte e Platão cogitavam que num futuro não muito distante todos haveriam de convir que jamais havia vivido homem tão sábio e virtuoso quanto o filho de Sofronisco e Fenarete... dois mil e quatrocentos anos depois no entanto... a intelectualidade contemporânea parece ter dado ganho de causa aos sofistas!

Invertemos, subvertemos... importa ter mantido o nome Ética, afinal as mentiras convencionais devem ser mantidas religiosamente, como dizia Mestre Nordau.

Sem mentiras convencionais fica difícil viver assim como vivemos...

Assim discutimos sobre nossos interesses, defendemos o que nos agrada, sustentamos aquilo que desejamos ou queremos e a tais exercícios de vã retóricos atribuímos o nome de ética.

Afinal em que consiste a ética contemporânea, oferecida pelo materialismo, ateísmo e mesmo agnosticismo senão na defesa do 'utilitarismo individualista', nome pomposo com que crismamos nosso egoísmo?

Perguntem ao Stirner, ao Nietzsche, a Ayn Rand e virão a saber que é ética contemporânea, isenta de elementos deletérios ou Cristãos. Nem puderam Benthan e Mill postular um utilitarismo social ou gregário sem que fossem representados como 'beatos' e escarnecidos. De fato nada na ordem natural constrange-nos a sacrificar os interesses individuais pelo interesse social. Eventualmente tal se sucede, como testifica Kropotkin no 'Apoio mútuo', mas nem sempre... Ademais se tais ocorrências não constituem lei tampouco tem o poder ou a força de constranger a criatura racional e livre.

Estou de pleno acordo com o pensador russo no sentido de que não podemos mais permanecer atidos a uma Ética religiosa, particularista e sectária. Nem por isso, com Dostoievsky, satisfaço-me com esta nova ética agnóstica ou ateística. Torno assim mais uma vez ao ideal ético do iluminismo ou melhor dizendo da Grécia antiga, este por sinal construído não em torno duma entidade situada fora do mundo ou para além do mundo, mas em torno duma entidade presente no mundo e em comunhão com ele.

Grosso modo o que distingue a ética antiga da nova ou a ética dos antigos gregos desta ética contemporânea é o desinteresse e o interesse.

Quando os antigos gregos refletiam a respeito dos grandes temas ou problemas relacionados com a Ética e sustinham esta ou aquela teoria face a qual nós, modernos, acreditamos poder tirar máximo proveito, verificamos que ele, raramente auferiam proveito das teorias que sustentavam.

Trata-se de um aspecto deveras interessante que nos conduz diretamente ao tema do amor a verdade, da busca pelo conhecimento, da livre pesquisa, da investigação desinteressada... e reputo este aspecto como um dos mais interessantes em termos de filosofia clássica.

Concentre-mo-nos na figura de Aristipo de Cirene, um dos familiares de Sócrates e desafeto constante de Platão... como é sabido de todos, concebeu ele um sistema de ética em torno do prazer apetitivo ou físico em termos de comida, bebida, sexualidade, etc Diante disto só nos restaria imagina-lo como um comilão, beberrão e promiscuo sobremodo intemperante. No entanto as descrições que dele possuímos parecem desfazer este juízo apressado... ao que tudo indica tratava-se de um homem virtuoso ou mesmo sóbrio.

Então por que raios arquitetou uma doutrina destinada a justificar a fruição dos prazeres físicos ou corporais? Certamente porque estava persuadido de que sua doutrina correspondia a realidade ou que era verdadeira... Diante disto por que não tirou maior proveito dela vivendo como um porco de Circe? Por que não tinha interesse ou melhor porque os antigos pensadores gregos não tinham o vezo de defender seus próprios interesses ou o que mais os agradava.

Argumentar em torno dos próprios interesses parecia muito pouco filosófico para aqueles homens.

O exercício da Filosofia parece ter algo a ver com o desinteresse imediato...

Não era um ato de argumentar em torno de conveniências ou oportunidades.

É justamente este viez que faz a grandeza daquela Filosofia.

Homens sustentavam teorias, ideias e opiniões, que aparentemente, não lhes propiciavam qualquer benefício ou qualquer vantagem imediata.

Sustentavam este ou aquele sistema por estarem persuadidos de que era verídico.

O padrão ou critério daqueles homens não era o proveito imediato ou uma vantagem a se tirar, mas a verdade ou o conhecimento da realidade.

Disputavam, arengavam, debatiam, discutiam, dialogavam... tendo em vista esclarecer algum ponto obscuro. E não justificar seus gostos ou seus vícios.

Filosofia grega jamais foi sinônimo de justificar algo que se fazia ou pretendia fazer. Eles não partiam de seus desejos, gostos, aspirações... tentavam antes de tudo alcançar o ideal ou saber como deviam fazer.

Os post modernos é que converteram a ética num exercício destinado a argumentar em torno das próprias ambições, gostos, desejos, aspirações... e a justificar os próprios vícios e defeitos, em particular o egoísmo. Tudo quanto temos hoje são apologias do egoísmo, sob a alcunha de individualismo.

Primeiro o homem age e depois justifica sua maneira ou modo de agir. Desde quando isto é ética?

Nenhum questionamento, problema, esforço... apenas defesa do que já se fez e pretende continuar fazendo sem cogitar em qualquer possibilidade de mudança. Afinal o homem de hoje converteu-se mesmo em medida de todas as coisas e legislador supremo para si... Como, diante disto, poderia este homem auto suficiente procurar por uma regra externa e universal de vida a qual adaptar-se???

Se constitui norma e regra para si mesmo...

Agora que elemento comum podemos ter que transcenda a política ou a democracia formal?

Elemento algum.

Pois somos individualidades específicas ou ilhas humanas cada qual com seus princípios e valores.

Diante de semelhante revindicação ou tomamos o político ou o social como único tipo de convenção destinada a nivelar a multiplicidade dos seres livres e estabelecer os limites do privado e do comum; ou reconhecemos como realidade única e irredutível esta infinidade de átomos humanos sempre prestes a se chocarem uns contra os outros...

No primeiro caso temos um estado ou uma comunidade, ou ainda um grupo soberano e inquestionável na medida em que a lei natural é obscurecida, restando apenas a lei positiva. Aqui os direitos e garantias da pessoa humana ficam em certo sentido ameaçados...  agora como postular direitos essenciais e inquestionáveis, sem fazer postular uma lei natural? E como postular uma lei ou direito natural sem tocar o problema de um Legislador natural??? Agora se o estado ou o grupo social assume o lugar deste legislador supremo ou natural quão grande não será o seu poder!

No segundo caso, do relativismo crasso ou absoluto, nem poderíamos condenar positivamente o nazismo, o fascismo, o comunismo, o fundamentalismo religioso, etc Pois o que um de nós condenasse outro justificaria... os homens passariam da discussão as vias de fato, desta a guerra, e chegaríamos ao Caos nos termos do 'Leviatã' de Hobbes... A extinção de todo e qualquer vínculo social, última e derradeira fase do individualismo, resultaria justamente no domínio do fraco pelo forte i é na tirania; ou num conflito universal.

Face a este dilema a solução mais plausível consiste em reconhecer o benefício da unidade política (em termos de uma democracia o mais direta possível) ou da lei positiva; limitada no entanto pela lei natural enquanto fiadora dos direitos essenciais da pessoa humana. Isto no entanto implica a ideia de um Legislador natural... Sem a ideia de um legislador natural ou de uma alma do mundo não há como erigir uma ética objetiva em torno da essencialidade, a Ética de que precisamos no momento presente para dar suporte ao humanismo.

Não podemos sair desta xaropada individualista ou destas justificativas em torno do egoísmo se apelar a um elemento unificador. Agora caso apelemos ao estado ou ao grupo social correremos sempre o risco de diviniza-lo ou de atribuir-lhe competência total. Neste sentido julgo mais prudente apelarmos a uma consciência ou espírito universal mais ou menos difuso nas criaturas racionais e cuja forma é a própria racionalidade.

Para que não venhamos todos a perecer faz-se mister ressuscitar o sentido da ética, o sentido antigo, o sentido clássico, o sentido perene. Para tanto talvez tenhamos de resgatar a ideia de Deus ou ao menos discuti-la com a mente aberta e isenta de preconceitos.

No próximo artigo tornaremos a Filosofia grega com o intuito de repensar algumas doutrinas formuladas no campo da Ética.