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domingo, 18 de novembro de 2018

O equívoco de Erasmo...

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Foi o Renascimento - a bem da verdade tivemos uma sucessão de RenascimentoS - um período de descobertas.

Uma delas dizia respeito ao paganismo antigo, ao paganismo greco romano, cujo conteúdo intelectual/doutrinal era mínimo e que por isso mesmo ignorava as controvérsias religiosas e suas consequências, muitas vezes amargas.

Outra a realidade do Cristianismo antigo, mormente após a associação entre a Igreja e o Estado. Fazendo sua aparição - alias necessária - em tão deplorável contesto, controvérsias Cristológicas, não poucas vezes, convulsionaram o Império.

Na medida em que os Imperadores e reis, motivados por razões de ordem política, aspiravam a uma Unidade religiosa forçada, controvérsias, que a princípio eram benéficas a fé degeneraram em conflitos civis, motins ou mesmo guerras.

Foi um triste espetáculo... o das guerras ou embates religiosos.

No entanto Jesus dissera - Amai-vos e não armai-vos... Como buscara promover a tolerância e a paz.

Os humanistas, que eram antes de tudo Cristãos devotos, buscando por esta paz, por esta harmônia e por esta concórdia, deram com elas no paganismo. Pelo simples fato de que o paganismo a um tempo não era revelado e a outro não falava ao intelecto por meio de formulações doutrinárias.

De tal constatação brotou a percepção segundo a qual a preocupação com a Verdade ou a própria formulação doutrinária seria já nociva, já ociosa, e que Jesus preocupara-se exclusivamente com a Ética ou seja com o comportamento humano. Destarte foi a ortodoxia doutrinal substituída pela ortopraxia...

E devemos compreender inclusive que até então a Ortopraxia havia sido sacrificada a Ortodoxia doutrinal e o aspecto marcadamente Ético do Cristianismo obscurecido por questões de ordem teológica. E como os homens amam os extremos, ao tempo da Renascença, o ponteiro virou para o lado oposto... supervalorizando a prática e depreciando o caráter teórico ou credal da instituição Cristã.



Erasmo e seus pares concluíram que ao invés de disputar a respeito de minúcias ociosas, como a cor das asas dos anjos, deviam os Cristãos concentrar-se no que é essencial, assim no amor ao próximo, no cultivo da virtude e na prática das boas obras. Quem ignora por sinal que os Cristãos mais ignorantes, parvos e tontos acusam-se uns aos outros de heresia a pretexto de qualquer discordância tolerável ou opinião inocente - Assim se você não se pronúncia a respeito da querela entre Constantinopla e Moscou, se há ou não anjos da guarda, se as canonizações são ou não infalíveis, etc E estão sempre prontos a berrar: Herege e a intimidar os outros...

Imaginem então os séculos XIV ou XV???

Disto resultou uma espécie de desprezo face aos elementos da fé e seu significado assim a formulações credais ou teológicas.

Erasmo foi um dos que avaliou enfaticamente tais assuntos como ociosos ou perniciosos, insistindo marcadamente na necessidade de buscarmos viver a mensagem do Evangelho com simplicidade e não podemos duvidar de que fosse sincero. Assim as discussões ou polêmicas doutrinais exasperavam-no... Isto a ponto dele desestimular qualquer preocupação mais séria em torno dos elementos da fé, para insistir na vivência.

Assim quando apareceu Martinho Lutero, enunciando doutrinariamente a inutilidade das obras e levantando uma controvérsia doutrinal de importância crucial para a vida Ética; ele, Erasmo, não foi capaz de aquilatar-lhe o valor e de atalhar no momento oportuno, quando ainda era quiçá possível atalhar o movimento protestante. E quando percebeu a importância do momento, cinco anos depois, e optou por interferir já a Reforma estava firmemente consolidada, a ponto dele, Erasmo, ter de abandonar sua querida Basileia (1529).





O aspecto mais interessante desta 'cena' é que Lutero, tendo-se exercitado na doutrina - de Agostinho - tornou-se hábil no sentido de atacar os fundamentos da Ética Cristã, declarando a prática das boas obras ociosa ou desnecessária. E por meio desta falso doutrina influenciou negativamente não milhares mas milhões de pessoas, iniciando-as numa fé puramente teórica, acomodada e descomprometida com o mundo.








O que quero dizer com isto é bastante simples. Pessoas são influenciadas pelas doutrinas ou teorias em que acreditam. Assim uma doutrina que promova as obras ou a ação poderá servir de fundamento a uma vida excelente, enquanto uma crença ou teoria que deprecie a prática poderá produzir as mais funestas consequências no âmbito da vida vivida, tornando as pessoas acomodadas e insensíveis.

Afirmando a doutrina forense da redenção vicária ou da dupla justiça, obtida pela fé somente Lutero excluiu a necessidade de praticar boas obras tanto a priori ou seja antes da justificação, como a posteriori ou seja como fruto da justificação, pois ele sequer acreditava que fomos justificados pela fé para as boas obras, mas que jamais triunfamos do pecado ou podemos cessar de pecar. Com isso desvinculou as obras ou as ações humanas da esfera religiosa e a fé religiosa do mundo material...

Desde então os que nele acreditaram perderam por completo noção de Lei Cristã, enfim de uma Lei promulgada pelo próprio Jesus Cristo, da qual temos exemplo no Sermão do Monte, particularmente nas Bem aventuranças ou no capítulo vigésimo quinto de S João, ou mesmo na narrativa do Jovem rico. Convencido de que não poderia Deus exigir de nós o que não podemos cumprir negou Lutero, resolutamente que Cristo Jesus fosse Legislador e que seu Evangelho corresponde-se a uma Lei. E em que pese nosso homem ter negado o óbvio ou algo que salta a vista, no momento em que ele levantou a controvérsia os poucos homens geniais que poderiam te-lo atalhado, avaliaram também aquela controvérsia - como todas as outras - como frívola.

E o resultado paradoxal foi que fugindo a controvérsia por priorizar a 'vida ética' ou a praxis, Erasmo e seus pares, ao menos a longo prazo acabaram na verdade, desamparando a doutrina sinergista da Ética e em última análise favorecendo a afirmação da doutrina soli fideísta. Por outro lado, caso tivessem entrado de imediato na controvérsia teórica e impugnado Lutero com base na palavra de Cristo, teriam a longo prazo favorecido a prática das obras.

Conclusão: O supremo equívoco de Erasmo foi subestimar o quanto as doutrinas, teorias e crenças são capazes de influenciar as vidas das pessoas.

Devemos assim valorizar tanto a doutrina ou a teoria quanto as obras ou a prática, sabendo que ambas são igualmente impontes. Destarte a teoria sem a prática mostra-se vã. As obras sem a fé vulneráveis. A aliança entre a teoria e as obras absolutamente perfeita.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Capitalismo - Posso questiona-lo?


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Quando indagamos se podemos questionar o capitalismo o que queremos saber é se podemos questiona-lo sem ser Comunistas?

Ao menos supostamente, é apanágio do pensamento livre e das instituições democráticas não apenas poder questionar qualquer coisa em foro íntimo como poder expressar tais questionamentos... aqui, chegamos a obviedade e ter de explicita-la já insinua a gravidade do problema.

Vivemos tempos em que o óbvio deve ser muito bem explicado e tempos assim não são dos melhores.

Há quem se julgue bom Ocidental - Civilizado, evoluído, 'moderno', vanguardista... E ignore pressuposto tão caracteristicamente liberal, tendo-o em conta de anarquista ou o que é ainda mais grave, de comunista!!! E no entanto estamos falando sobre um dos fundamentos da nossa civilização, o que basta para evidenciar quão frágeis são tais fundamentos...

Digo, o pressuposto ou o direito de duvidar de qualquer coisa.

Para muitos no entanto duvidar do Capitalismo ou seja de sua viabilidade, de sua dignidade, de sua perfectibilidade, ou de sua suposta eternidade sabe a heresia... O que nos remete ao conceito de Dogma. Para muitos a perfectibilidade do Capitalismo é crença que sabe a Dogma. E há que se ter fé nela para ser um bom cidadão ou homem de bem, ao menos em certos círculos. Do contrário serás um herético... quase nos termos da Idade Média. 

Há todo um misticismo chão em torno do sistema econômico vigente. O qual não condiz nem um pouco com nossos fundamentos liberais...

Após ter aluído o liberalismo político em diversas situações, o liberalismo econômico choca-se contra a mais fundamental de todas as expressões liberais - que é a liberdade de pensamento.

Para muitos pensar contra o Capitalismo ou questionar esta opção é algo intolerável, algo que deveria ser reprimido, punido, castigado... Como nos velhos tempos da inquisição genebrina... que o velho Mc Carthy tentou fazer reviver nos EUA do século XX, sem experimentar maiores dificuldades!

Claro que há quem, fiel a tradição liberal, reconheça aos contrários ou dissidentes, o direito, líquido e certo de duvidar de qualquer coisa, inclusive do Capitalismo. No entanto os que duvidam são sempre e necessariamente, Comunistas ou Bolcheviques.

Mesmo que semelhante dúvida parta do Dalai lama, do Papa Francisco ou de John Gray, eles ficarão sendo vermelhos... Aqui nos meios virtuais do Brasil José Bonifácio, D Pedro II e Getúlio Vargas já foram matriculados na KGB. Freud e - pasmem - Darwin foram os últimos a seres acusados de apoiar o 'Comunismo' e fila certamente conta com Platão, Sócrates, Buda, Confúcio, Jesus, Paulo, os Padres da Igreja, Aquino, Vitória, Morus, Campanella, etc Esperemos os cães de guarda do sistema tornarem-se mais atilados ou imbecis... Maritain, Mounier, Bloy, etc que se cuidem, pois o fanatismo liberal economicista não perdoa seus críticos... levantou dúvidas é comunista ou bolchevique.

Tal o sentido de nossa pergunta: Podemos questionar o Capitalismo ou ser céticos com relação a ele sem ser Comunistas?

Embora tudo nos indique que Sim, e de modo absolutamente claro, sonoro, translúcido e evidente, boa parte das respostas obtidas equivalerá a um sonoro Não. O que como já dissemos é alarmante. Venha donde venham as críticas, partam donde partam, procedam onde procedam, e embora inspiradas em valores diferenciados quais sejam o humanismo socrático, a fé búdica, a Ética católica ou considerações keynesianas em torno da economia pura, serão sempre classificadas como comunistas pelos desonestos.

Isto mesmo querido leitor. Para boa parte dos ocidentais resolvem a questão dualisticamente ou por meio de um dilema: Quem não é capitalista é Comunista e vice versa. E não enxergam qualquer outra possibilidade além destes dois sistemas hermeticamente fechados. É necessário conformar-se com um ou outro i é entrar na caixinha.

Terceira opção, via ou possibilidade é algo impossível, impensável, inconcebível... A este falso dilema acrescentam ainda - é claro - uma avaliação simplória, a que chamamos maniqueísmo: Capitalismo bom, Comunismo mau...

Eis julgada a questão e não se pode pensar doutro modo, fronteiras estão traçadas e limites postos! Quem discordar é comunista, logo mau...

Julgo que qualquer pessoa inteligente e ponderada seja capaz de concluir pela artificialidade, pela tacanhice e pela miséria deste quadro. 

Eis-nos diante de uma pintura distorcida da realidade formulada por pessoas francamente limítrofes senão desonestas. Mas há quem identifique-se com ele. Quiçá devido a sua pobreza absoluta... Nada mais fácil do que gritar como uma pega no cio: Comunistas, Comunistas... ao invés de pensar, discutir, pesar dos argumentos e dialogar como gente civilizada. Melhor rotular e permanecer eternamente girando em torno de um 'ad hominem'.

Caso você ofereça outros botões - digo outras opções ou horizontes mais amplos -  ao sujeito, os neurônios queimam... e o cérebro pifa.

A zona de conforto destas pessoas pede por uma concepção falaciosa e por uma avaliação maniqueísta. Fazer o que??? "Os homens desejam ser enganados, façamos sua vontade." reza o provérbio...

O que me espanta não é a existência deste tipo de visão. A existência da tolice ou da miséria intelectual é previsível. Digo mais: Semelhante tipo de visão é algo que até esperamos ver proliferar num espaço como o 'Belt bible'.

O que me espanta e atemoriza é ve-lo estender-se pelo mundo afora e contagiar outras tantas culturas, encontrando aderentes e repetidores.

Haja visto um número considerável de brasileiros que afetam ser patriotas e engolem esta xaropada americanista forjada pelos seguidores de João Calvino...

Curiosos estes brasileiros que melindravam-se do tal imperialismo russo ou soviético enquanto saudavam e saudam o imperialismo Monroe - o do destino manifesto.

A crítica é válida e aguda posto que originalmente o Capitalismo não pertence a nossa cultura. É elemento externo ou alienígena, tão alheio a nossa cultura quanto o Comunismo ou o Anarquismo. Mais, é elemento não de origem Latina ou Católica mas de origem Alglo saxã e protestante. Por mais que alguns 'católicos' ou melhor neo católicos, safados e vendidos, pretendam demonstrar o contrário, a crítica levantada por Max Weber permanece firme, forte e inabalável. É corroborada além do mais por uma hoste ou multidão de autores católicos de fidelidade indiscutível. Assim O Brien, Maritain, Fanfani... O que a Igreja criou ou produziu foi uma doutrina social destinada a combater este sistema pérfido e cujo sentido é obviamente, anti liberal.

Caso o liberalismo econômico ou a auto regulação interna do Mercado estivesse de acordo com o pensamento da Igreja não haveria qualquer necessidade de uma doutrina social inspirada numa ética religiosa e portanto externa ao Mercado. A Igreja romana e com ela todo o Cristianismo, tudo quanto seja Católica, a Ortodoxia Oriental, o Anglo Catolicismo... não compreendem que hajam necessidades humanas autônomas face ao que chamamos ética. Não reconhece de modo alguma a pretensão cientificista do positivismo, alardeando que também a ciência - outra ação ou produção humana - possuí limites igualmente ditados pela Ética. Como reconheceria as pretensões de um sistema economicista, cujo fim e o materialismo???

O protestantismo apenas poderia concordar com tais pretensões na medida em que postulou, como observa Maritain, uma salvação sem obras ou ética, desvinculada da imanência ou do mundo natural. O Catolicismo sempre vinculou a redenção a ação ou atuação dos fiéis no mundo natural, físico ou material; em suma ao comportamento, o que certamente engloba a produção da ciência e a administração da produção e distribuição de bens. Nada caí fora do primado da ética. Alegar que a Igreja ou a fé nada tem a ver com isto é distorcer a questão. Não é o Catolicismo uma fé teórica ou um sistema solifideísta, mas uma fé destinada a inspirar e regular as ações humanas e assim a ação econômica, que é humana. Portanto as pretensões do Catolicismo chegam ao Mercado sim e são pretensões reguladoras e limitadoras, alias de um vício que nossa tradição classificou como avareza!

Os padres da Igreja não deixaram a economia florescer livremente, nem os escolásticos, nem Francisco de Assis, nem S Antonio de Pádua, nem a tradição constante e imutável que vai de Morus e Campanella e Mably, Morelly, Meignam, Keteller, Mounier e Maritain, ou seja, ao Catolicismo social. E deste contesto surgiu um sistema dócil e colaboracionista que foi a reforma protestante, quiçá porque a Igreja antiga tivesse sido irredutível e se recusado a colaborar. Foi o protestantismo que batizou as primeiras aspirações economicistas com Calvino e seus sucessores e foi ele a instituição que mais colaborou - ao menos negativamente, por recuo ou omissão - para a afirmação da nova realidade, e isto a ponto de podermos descreve-lo como solidário. Ao contrário da igreja antiga ele não teve poder ou forças para resistir aos ímpetos do novo sistema. E disto surgiu um novo mundo ou uma nova sociedade, não apenas secularizada, mas materialista e economicista, embora teoricamente se apresentasse como Cristã. O que alias condiz com o éthos solifideísta do protestantismo.

Mas era quanto a prática ou quanto as obras Cristã esta Sociedade em que os homens não mais se reconheciam como irmãos? Uma Sociedade em que o amor fora substituído pelo sentido do lucro? Uma Comunidade em que a justiça fora sacrificada ao capital? Uma Sociedade onde o homem foi trocado dinheiro? Uma Sociedade em que irmãos converteram-se em rivais ou concorrentes??? Por mais exata ou correta que fosse esta fé, não vejo como semelhante sociedade pudesse fazer jus ao título de Cristã. O que temos aqui sequer é uma Sociedade pagã, mas uma Sociedade materialista, economicista, desumana, inumana e cruel. O cúmulo da degradação!

Agradeçam por isto o querido protestantismo a que incensam, não a igreja romana e menos ainda as antigas Igrejas Católicas, as quais reguladas pela tradição ancestral e se querem por uma tradição produzida numa cultura rural ou agrária, só podem pensar em termos de solidariedade, o que o capitalismo tem de menos característico. Segundo nossa tradição nem os pobres são vagabundos  - mas frequentemente oprimidos - nem a miséria diz respeito a caridade (mas a justiça cf Aquino) e nem é o exercício da caridade livre mas tão impositivo quanto o da justiça.

E se a fome e a morte resultam de uma má gestão ou de uma má distribuição dos bens produzidos é sobre o homem - que opera por meio da avareza ou da cobiça - que cai esta aberração monstruosa. De que haja fome e morte quando há suficiência de bens para todos. Corresponde isto, inclusive o esforço excessivo e a saúde precária do trabalhador, a um crime ou pecado horrendo e este pecado é pecado social. Praticamente todos somos co responsáveis na medida em que silenciamos ou cessamos de criticar. Caso não nos oponhamos a este regime de morte somos cúmplices. Pergunta o Cristo sobre as almas e corpos de nossos irmãos e não lhe podemos dizer: Que tenho eu a ver com meu irmão??? Porque batizados fomos inseridos num só corpo. Assim não convém quem um membro do corpo assista impassível a fome ou a enfermidade ser experimentada pelo outro. Ser membro de um só corpo implica sentir a dor do outro ou ser solidário.

O neo Católico prostituído no entanto observa os membros de Jesus Cristo, expoliados pela avareza e lançados a sarjeta, como vagabundos, e aparta-se deles, recusando-se a estender-lhes a mão. E caso o denunciemos esse ímpio ousará replicar gritando - Comunista! Se ser Comunista é servir aos pobres, censurar a avareza e indagar sobre as fontes da miséria humana, então é o Comunismo filho do Evangelho e perfeitamente evangélico! O que não é nem um pouco evangélica é a cobiça e a dureza de coração dos neo Católicos protestantizados. Afinal é dever do Católico Ortodoxo - e de quantos se consideram Católicos - considerarem sempre suas posições com relação ao próximo, que é seu irmão, buscando dignifica-los e resgata-los da miséria.

Assim o Católico é levado a promover o irmão ou a investir no homem e não no Mercado. Pois sua poupança ou bolsa de valores esta nos céus, no Reino de Jesus Cristo. Pois seu coração e seu tesouro estão no mundo invisível ou no paraíso. Porque suas economias consistem em servir. Em alimentar, vestir, medicar, visitar, confortar, etc Tal seu ofício e sua vocação. Tal a verdadeira religião, que consiste em socorrer os órfãos e as viúvas em suas necessidades. Se o Católico não trás este sentido quão miserável ele é...

Portanto não é só a experiência da realidade que nos convida a duvidar do sistema estabelecido mas a fé de nossos ancestrais, a qual plasmou nossa cultura, socialista para mim, se quiserem ou fizerem questão - Solidarista, corporativista, humanista, trabalhista, personalista, social, pouco se me dá. Podeis definir a nossa cultura ancestral como quiserdes menos como Capitalista ou liberal economicista e desafio qualquer Católico desonesto ou de má fé a demonstrar-nos a existência de Capitalismo na Antiguidade Cristã, na Alta e mesmo na Baixa Idade Média. Provem ou demonstrem que o Capitalismo afirmou-se em qualquer sociedade Católica antes do advento da Reforma protestante. Estou aguardando há duas décadas por esta demonstração. Do contrário continuarei repetindo com Weber - o liberalismo economicista ou capitalismo é filho ou irmão do protestantismo, nada trazendo em si de legitimamente Católico.

Mas para que levar o tema até ai???

Para demonstrar cabalmente que os defensores do modelo capitalismo estão na contra mão de nossa cultura ancestral - Católica, latina, lusitana e brasileira. Tanto pior caso adicionassem as fontes indígenas e africana. Nenhuma delas sabe a Capitalismo. Destarte temos de avaliar este sistema tão seguro se si, como algo tão estrangeiro e imperialista quanto o Comunismo e o Anarquismo. Ao criticar os Comunistas e ao berrar contra eles o capitalista brasileiro assemelha-se a alguém que busca tirar cisco da vista alheia, tendo um poste na sua. Nossas formas de opressão e dominação, sempre questionadas pela igreja - embora não com a devida intensidade - eram abertas. As formas de dominação capitalistas são ainda mais nocivas e perniciosas porquanto dissimuladas. Afirma-se que há chances ou igualdade de oportunidades a todos quando não há. E o resultado desta crença é a conformidade.

Claro que nosso passado não foi santo, perfeito ou paradisíaco, mas bem poderíamos ter tomado uma outra rota, no sentido do Evangelho ou da Ética proposta por ele. Lamentavelmente o rumo que nos foi imposto de fora para dentro foi bem outro... fortalecendo as cadeias da opressão e multiplicando os males. Certamente não temos mais escravos africanos. Mas temos multidões de descendentes seus 'exilados' num mundo a parte ou numa realidade paralela chamada favela. Quanto aos índios, quem ignorara o estado de penúria e indignidade em que vivem??? E não chegamos as multidões de trabalhadores urbanos assalariados cujos direitos se veem ameaçados dia após dia pelas necessidades econômicas ditadas pelo mercado. O quanto vejo é um povo ameaçado pela servidão e pela mais dura das servidões, ainda que disfarçada.

Diante disto o Socrático se pergunta - Posso criticar o Capitalismo??? E assim o Platônico, o Aristotélico, o Budista, o Confuciano e sobretudo o Cristão, o Cristão Católico e Ortodoxo... e só pode responder de um modo:

Não posso, DEVO. E se não colocar este sistema em dúvida como poderia afirmar-se como Católico.

Termino este breve ensaio concluindo que há mais motivos para questionar o sistema Capitalismo do que supõem o Comunismo.




terça-feira, 17 de julho de 2018

A Igreja e o espantalho do anti abortismo I - A hipocrisia dos anti abortistas

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A véspera das eleições 2018 estamos assistindo a mais uma manipulação do discurso anti abortista pelos pseudo católicos liberais e protestantizados, ou melhor dizendo pelos neo católicos ou tridento modernistas.

Já me referi no artigo anterior ao imenso perigo que consiste nos Católicos assumirem slogans protestantes ou causas que não são suas, como a pregação ou cruzada anti comunista. O protestantismo, aliado incondicional do capitalismo, em sua imensa miséria pode, definir-se a si mesmo como uma religiosidade anti Comunista. Ele sequer possui uma doutrina social normativa.

O Catolicismo não. Não é comunista, mas tampouco seu ponto de vista pode ser definido nos termos bisonhos e simplórios de um anti Comunismo. Por mais aterrorizante que a Revolução russa ou bolchevique tenha sido. E foi. A Igreja tem uma doutrina social, que não é nem comunista nem liberal. Isto quer dizer que ela não tem parceiros ou aliados, justamente por ter uma proposta própria. E que não pode fazer o jogo do liberalismo ou do imperialismo cultural Norte americano, que em termos de ideal Católico é uma anti civilização.

Mas o protestantismo, desde Trento, esforça-se por empenhar o papismo e por manipular seus membros, já em favor do agostinianismo, já em favor do germinismo de Bismarck, já em favor do nazismo, do liberalismo... E os Católicos tontos e superficiais, como verdadeiros patos, vão se deixando enlear pela parlenga protestante. Em temos de relativismo ecumênico não podia ser diferente. Os protestantes lançam suas iscas ideológicas ou puritanas, e os Católicos vão se deixando fisgar.

Qual a principal consequência de tudo isto?

O ideal Católico e Cristão de sociedade, legado por nossa tradição antiga e medieval vai ser cada vez mais pondo de lado e o ideal protestante ou Norte americana, em torno de uma sociedade liberal economicista ou capitalista se vai afirmando entre nós. Graças aos 'senões' destas almas timoratas...

Nada diferente durante estas eleições presidenciais 2018. Em que os protestantes e sua sinistra bancada teocrática, tem buscado favorecer seus candidatos, Marina e Bolsonaro - um e outro mancomunados com o liberalismo econômico - e prejudicar o candidato rival, Ciro Gomes, do PDT, apelando ao anti abortismo, a que os Católicos são bastante sensíveis e transformando-o em argumento político. Tudo isto sai dos fornos protestantes... e o resultado é justamente o afastamento drástico de nossas tradições - sempre respeitadas pelo Dr Enéas Carneiro- em benefício do capitalismo e da cultura yanke.

Comecemos portanto a deslindar esta trama, principiando pelo tema ou pela questão do aborto.

Lembro-me de ter lido, na Didaké e em S Atenágoras de Atenas, alguma coisa contra o aborto. De fato este ponto de vista faz parte da tradição humanista Cristã desde seus primórdios mais remotos.

Os antigos tinha uma postura distinta. E não poucos recorriam a poções com o objetivo de interromper a gravidez, algo bastante comum nas antigas Grécia e Roma. Levados pelo mesmo princípio - que abortistas e não abortistas parecem ignorar - eles também admitiam repudiar e consequentemente lançar ao bueiro ou a cloaca os filhos recém nascidos. Os Cristãos daquele tempo chocavam-se face a ambas as posições e a suas expensas financiavam - embora fossem pobres - orfanatos destinados a recolher tais crianças, combatendo eficazmente o aborto e a exposição. Eles não se contentavam em assumir, hipocritamente um discurso anti abortista ou em ignorar o não menos grave problema da exposição, da miséria e da escravidão - Por meio de instituições próprias buscavam solucionar a ambos os problemas.

De nossa parte, numa sociedade pluralista e laicista, nós temos buscado analisar o aborto do ponto de vista natural ou comum e tomar como ponto de partida os ensinamentos de Aristóteles a respeito do ato e da potência, bem como a tradição Socrático humanista que costumeiramente enfatiza o caráter racional do ser humano, um ser capaz de refletir, de pensar e portanto de planejar o seu futuro. Diante disto somos levados a crer, que num contesto em que a família pode ser planejada e a gravidez evitada por meio de contraceptivos, a opção pelo aborto irrestrito torna-se no mínimo problemática.

Afinal por que interromper artificialmente um processo que pode ser evitado e que não precisaria ter sido iniciado? A possibilidade de planejar, de algum modo, exclui a necessidade de uma interferência 'a posteriori'. Não se trata aqui de discutir se o feto é ou não um ser vivo ou se sente dor, não é o foco da questão. O que se deve analisar aqui é se este processo iniciado ao consumar-se redundará ou não no surgimento de um ser vivo... A vida esta potencialmente contida neste processo, que é a gravidez, desde o princípio. Então, se não desejamos que haja gravidez ou vida POR QUE NÃO PLANEJA-LA RACIONALMENTE ATUANDO DESDE O PRINCÍPIO OU NÕ PRINCÍPIO OU seja adotando métodos contraceptivos sejam eles quais forem? Por que não evitar ao invés de interferir 'a posteriori'?

Num tempo em que a oferta de preservativos é feita pelo poder público, o qual oferta da mesma maneira o planejamento familiar e contraceptivos, chega a ser clamoroso absurdo pleitear a aprovação indiscriminada do aborto, especialmente tendo em vista a clientela economicamente mediana e medianamente instruída - Isto sem falarmos nos abastados... E quando se cogita, tendo em vista relativo controle, que tais procedimentos sejam executados em instituições públicas com o dinheiro público. Como contribuinte tenho direito de recusar-me a custear o aborto de uma madame fútil, manipulada por um esposo fútil ou cruel, que bem poderia ter laqueado suas trompas ou exigido que o macho fizesse vasectomia! Afinal de contas é comum em todas as classes e condições que o 'macho alfa', após ter exigido transar sem camisinha, pressione a mulher para abortar... Refiro-me a tais problemas situados nas classes média e superior. E não quero pagar por tal ônus!

Quanto a possibilidade de tais serviços, destinados a atender esse tipo de clientela - bem posicionado - serem assumidos pelo setor privado, teríamos de pensar no controle. Pois teríamos aqui um sistema de abortização movido a dinheiro e sabe-se lá que abusos monstruosos resultariam disto em nosso paraíso tupiniquim... em que tráfico de órgãos e assassinato de pacientes é algo corrente. Em Hospitais públicos inclusive.

Mas estas pessoas, alegará alguém - e não sem razão - já realizam abortos no exterior ou abortos clandestinos aqui mesmo no Brasil. Aqui temos que ser bem claros. Quanto a essas mulheres ou casais de situação confortável - que optam livremente por assassinar seus futuros filhos e filhos que bem poderiam ser evitado - que continuem a gastar seu dinheiro no exterior, abortando por lá. O problema é a existência dessas clínicas ilegais, que auferem milhões e milhões aqui mesmo, sem que seus proprietários sejam punidos no rigor da lei. Antes de punir os que abortam deveriam ser punidos aqueles que tornam o aborto factível e dele fazem uma fonte de lucro. Mas no Brasil... Toda situação em torno do aborto feito por ou para pessoas bem situadas é problemática e eu julgo que tais pessoas, a começar pelo macho ou pelo pai, deveríam ser rigorosamente penalizadas. Deveríamos começar punindo com máximo rigor o homem, posto que vivemos numa cultura ainda machista.

Agora temos um problema não menos sério que é o das mulheres pobres e sem instrução inseridas uma cultura ainda mais machista, aquelas que por condição natural ignoram que seja planejamento familiar ou contracepção. E que tampouco deixam de ser influenciadas pelo macho ou, muito frequentemente, abandonadas pelo 'garanhão', tendo de assumir sozinhas o encargo de sustentar a prole, resultando disto situações de miséria e indignada que não podem ser desconsideradas, especialmente pelos que ousam apresentar-se como Católicos. Claro que as condições desta mulher pobre e quase sempre parda e semi analfabeta de periferia é totalmente distinta da madame fútil que encara o feto como um parasita ou como um pedaço de seu corpo! Como imaginar esta pobre mulher, vivendo como uma freira ou, procriando, sucessivamente sete ou doze filhos para que passem a viver sob condições desumanas???

Sem que o papa, o cardeal, o arcebispo ou mesmo o padre X ajudem-na a sustentar e criar dignamente esta imensa prole. Acaso o Marmelo Rossi ou o Pulha Ricardo estão dispostos a compartilhar do ônus que implica a criação de tantos filhos??? Quantos orfanados ou abrigos mantém eles??? Vão levar estas pobres crianças para a casa paroquial, adotar e cuidar??? Então veja só que diferença entre esta pregação teórica, que beira o fideísmo, e a atitude dos primeiros Cristãos, que mesmo sendo pobres assumiam o encargo de alimentar, vestir e manter os pequeninos???

Caso contrário denunciar, como criminosa e assassina a esta mãe pobre de periferia, que não recebe apoio algum, não passa de sórdida hipocrisia! Claro que a situação material, concreta e real desta mulher, deve ser considerada. Por que não localizam o macho que a abandonou? Por que não obrigam este celerado a pagar uma boa pensão? Por que não colocam este desalmado atrás das grades? Por que não punem este egoísta??? Porque se evade! Porque foge! Porque não há quem o encontre ou vá buscar! Porque é bêbado, drogado ou marginal! Porque não tem fonte de renda donde se lhe arreste uma pensão!!! Porque socialmente este homem ou marginal inexiste! E fica a mulher obrigada a manter-se sozinha, abandonada e com um cordão inteiro de filhos... Querem condenar o aborto em tais condições??? Assumam a responsabilidade social ou comunitária de vocês. Mas vocês murmuram contra a esmola do Bolsa família, e declaram - Quem pariu Mateus que balance! Que belos inimigos do aborto vocês são!!! Por que uma coisa é absolutamente certa: Se o macho pode omitir-se e permanecer impune, ou a Igreja ou o Estado i é a Sociedade, terão de auxiliar esta mulher... Do contrário, caso ela venha a abortar, calem a boca! Vocês são os infanticidas, não ela.

A situação da mulher em desespero é uma situação específica que os bons Cristãos não podem ignorar. Como criminalizar uma mulher destas em sã consciência? A qual já foi punida por si mesmo ao desfazer-se de um filho! Via de regra a mulher do povo tem sensibilidade e por isso fica, não poucas vezes, traumatizada, após abortar. Enquanto a mulher rica ou de classe média, cede as exigências do macho sem maiores consequências. Uma, amiúde, acalenta remorsos e culpa. A outra muito raramente. Portanto como pensar em punir esta vítima do machismo e do egoísmo humano. O mínimo que podemos dizer aqui é que a mulher que aborta, dependendo de seu contesto, não devería ser criminalizada. Assim a mulher pobre e sem instrução, a mulher do sertão, da rua ou da periferia. Esta mulher deveria sim ter sido acolhida e ajudada. Caso não o tenha sido, o mínimo que se espera é que não seja molestada pela hipocrisia alheia em busca de 'punições'.

Se vocês, paladinos do anti abortismo, querem de fato evitar que o aborto seja amplamente descriminalizado no Brasil - E nosso país só conhece soluções extremistas ou radicais: Proíbe tudo ou libera geral - comecem assumindo sua culpabilidade social e ajudando tais mulheres. Comecem a fundar orfanatos e abrigos tendo em vista a criação de tais pessoas numa atmosfera de carinho e dignidade. Sentem o coração doer face a tantos infanticídios? Pois bem adotem??? Quantos de vocês estão dispostos a adotar tais criaturas ou no mínimo a apadrinha-las??? Cadê as obras de vocês??? Quanto aos protestantes, ao menos são honestos quando declaram que não precisam fazer boas obras e que sem elas se salvam. Agora e vocês anti abortistas Católicos, cadê suas obras???

Me desculpem pera rude franqueza, mas se não fazem absolutamente nada ao invés de berrar: Aborto não... Vocês deveriam é engolir e digerir o anti abortismo de vocês. Porque cheira a hipocrisia. Vocês tem um problema que é em parte social, produto da ignorância e da miséria e nada fazem além de exigir que mulheres solteiras perambulem pelas ruas rodeadas por seus filhos esqueléticos! É este o espetáculo de uma sociedade Católica??? Um exército formado por uma multidão de miseráveis e famintos??? Sementeira de ravachóis e Casieros!!! Mas o Pe Pulha Ricardo... Mas o Pe Pulha Ricardo não passa de um fariseu hipócrita que coloca sobre os ombros alheios imensos fardos que nem mesmo com a ponta do dedo mindinho ousa empurrar!!! Pelo simples fato de não ter adotado alguns deses pobrezinhos ou de manter um abrigo destinado a acolhe-los! Ele só sabe pregar ou seja falar... Quanto a fazer...

Claro que alguns Católicos denodados e heroicos do passado, e una pouquíssimos hoje, tenham feito e busquem fazer alguma coisa. Merecem ser ovacionados e aplaudidos de pé. No entanto, parece que a imensa maioria dos que compõem esta multidão de abortistas tenha tombado no comodismo, no egoísmo e na insensibilidade. Limitando-se a apontar, a julgar e a condenar aqueles aos quais deveriam ajudar. Estão envenenados pela mesma ideologia neo liberal, burguesa e egoísta que alimenta os abortistas das classes superiores.

Continua


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domingo, 18 de fevereiro de 2018

Em torno de um vídeo - Catolicismo Vs Capitalismo (Youtube)

Esta 'breve' defesa foi elaborada após termos iniciado a leitura da obra 'O século do nada' de Gustado Corção. Obra 'confusionista' em que o polemista atrabiliário busca desmerecer as figuras de grandes Católicos como E Mounnier e J Maritain, tal como já fizera com Tristão de Athayde.

Corção, como Vintila Horia e o Bispo Fulton Sheen, faz parte do seleto grupo dos comunófobos ou dos contra revolucionários do tempo presente, isto é claro numa perspectiva ingênua ou idealista. Afinal também nós, como Católicos, somos contra revolucionários. Não no sentido superficial e tosco de reprimir as revoluções 'a posteriori' ou pelo emprego da força, o que denota falta de inteligência. Mas no sentido realista ou profiláxico que leva a eliminar 'a priori' as potenciais causas que possam ativa-la. Nós somos por evitar as Revolução ou por sofre-las como quem sofre uma penitência (Berdiaeff).

Afinal que são as tais Revoluções senão a morte e dissolução de sociedades que estavam enfermas? Acaso um homem que deseje escapar a morte não procurará o médico, fará dieta, tomará os medicamentos receitados e se submeterá a quaisquer tratamentos, inclusive a uma cirurgia, se necessário for? Assim as Sociedades que aspiram escapar as Revoluções devem reformar-se, necessariamente. Nós somos pelo único caminho viável, a eliminação de todos os abusos que alimentam o espírito revolucionário.

Tornando agora a Corção, Horia e F Sheen, forçoso é declarar que ainda existem Católicos deste talhe no seio da igreja, a qual prestam imenso deserviço, não é claro por serem anti Comunistas, pois é evidente que o Católico não pode ser comunista, já porque não visa os mesmos exatos fins que o comunista, já porque não recorre nem poderia recorrer aos mesmos meios, ao menos de modo geral. Tal não é o caso. Importa declarar em alto e bom som que não basta ser anti comunista. Ser apenas anti comunista é ser parcial, injusto, arbitrário, oportunista e até mesmo canalha. É necessário ser bem mais do que anti comunista, já o veremos!

A bem da verdade a igreja sempre deu combate a todas as formas de naturalismo, exceto, em certa medida - que não vem ao caso agora - ao naturalismo político. Diante disto faz-se mister ser também e igualmente anti Capitalista, opondo-se tanto ao Comunismo quanto ao Liberalismo econômico, mormente quando Sheen, Horia e Corção são obrigados admitir que aquele é fruto ou filho deste. Foram os erros do liberalismo econômico que produziram o Comunismo e as diversas formas, naturalistas, de socialismo. Socialismo não é causa, é efeito, consequência, reação face as mazelas produzidas pelo Capitalismo. Ainda aqui, mais uma vez, faz-se mister ir as causas, as fontes e expor as raízes do mal. Afinal o machado da palavra de Cristo deve ser levado a raiz do mal, para extirpa-la sem maiores contemplações.

Ainda hoje há muito Católico mal orientado ou mesmo mal intencionado que reproduz este tipo de discurso posto em circulação pelo protestantismo. O protestantismo sendo lacaio do capitalismo será necessariamente anti comunista, somente isto e nada mais que isto. Pelo simples fato de que o âmago da questão, como perceberam Maritain e Mellawace, toca a velha questão da fé e das obras, e jamais saí disto. A questão da Doutrina social da Igreja é questão que toca diretamente a questão do homem, da graça, das obras e do mundo material. Não é algo dogmaticamente ocioso ou irrelevante. Daí a necessidade imperiosa do Católico refletir sobre ela numa perspectiva coerente, ao invés de adotar posturas que nada tem de Católicas. Os protestantes negando a regeneração interna do ser humano, renunciaram a possibilidade de transformar a Sociedade dos homens. O Catolicismo não pode renunciar a este ideal ético sem renunciar a si mesmo...

A arenga não é ociosa uma vez que Corção, ao contrário da quase totalidade dos neo Católicos, mergulhados na ignorância e no conformismo, conhecia detalhadamente o que chamamos - e ele também - Catolicismo social. Alias o próprio Corção busca traçar a genealogia deste movimento tão importante para a consciência Católica, e chega a Adolphe Thery, Bourgemont, Villermé, Buchez, Ozanam - Cf 'O século do nada' Record p 146 sgs - Albert de Mun, Le Play, Leon Harmel, La Tuor du Pin, etc quanto a França, e a Ketteler, Manning, Gibbons, Decurtins, Pottier, Verhaegen, etc no exterior. Temos outras narrativas preciosas - A de Luiz Francisco F de Sousa (Socialismo uma utopia Cristã), a de Francisco Nitti (Socialismo Católico), a de Brunetière, a de Guyau, a de Laloup Nelis - e outros tantos nomes como os de Mably, Morelly, Meignam, Lammenais, Bloy... Ireland... Wietling... De Amicis, Nitti... Alias o nome de Bloy é importante pelo simples fato deste personagem, citado por Corção no frontispício da referida obra, estar relacionado com Berdiaeff, Maritain, Mounnier e outros indevidamente incriminados pelo panfletário brasileiro.

Corção tem razão contra os comunistas, e até mesmo Polanyi e Hobsbaw o reconhecem - A igreja não deixou de atuar contra as forças tenebrosas do Capitalismo emergente, no entanto entre suas fileiras haviam dois tipos de mentalidades, as quais encaravam o problema da miséria de forma bem distinta. A primeira linha de pensamento, segundo a tradição de S Vicente de Paulo - o qual vivera no século XVII, num contexto tradicional e não num contexto capitalista -  situava a questão na esfera da caridade, da assistência ou do que chamaríamos hoje 'paternalismo'. Esta corrente, representada por Ozanam, incorporava não poucas vezes um conceito formalista de propriedade, associado a uma abordagem voluntarista (relacionado com o próprio conceito de caridade) e a um certo receio face a um estado interventor.

Crucial declarar que o ponto de vista acalentado por este grupo não está de acordo com a doutrina comum aos padres da igreja e menos ainda com o ensino corrente da escolástica, uma vez que seus membros ignoravam supinamente os ensinamentos de Tomás de Aquino. O estudo da obra de Tomás de Aquino só viria a ser sistematicamente retomado sob os auspícios de Leão XIII pelos idos de 188

Curioso observar que um estudioso brasileiro dedicado ao tomismo, o profo Jorge Boaventura, falecido em idade provecta na última década do século passado, após ter publicado inúmeras obras de polêmica contra os Marxistas - editadas pela Biblioteca do exército - chegou a conclusão, alguns anos antes de morrer, que o ensinamento de Tomás de Aquino era sem sombra de dúvida socialista ou ao menos incompatível com o que chamamos liberalismo econômico, o que alias sabe a obviedade. A conclusão a que chegou este pensador honesto e sincero, produziu, aquele tempo, imensa consternação entre os católicos incoerentes e protestantizados, os quais chegaram a declarar que o professor Boaventura estava caducando ou esclerosado. A bem da verdade ele limitou-se a constatar o que o grande Cardeal Mercier de Malines (+ 1926) e seu sucessor Von Royer, haviam constatado há muito: Que entre o ensinamento social da Igreja e as pretensões do liberalismo econômico há uma abismo intransponível e que por ser a igreja anti comunista não pode ser menos anti capitalista ou anti liberal.

Alias por qualquer outra via que se tome, chega-se sempre a mesmíssima conclusão. Veja que o Pe Hurtado ingressou nas fileiras do Catolicismo social a partir da leitura das obras de D Columba Marmion, o que aconteceu comigo mesmo, embora no meu caso ja tivesse lido os padres da Igreja. A leitura de Marx ou de qualquer ideólogo Comunista foi absolutamente desnecessária para a maior parte dos Católicos que perceberam a antinomia - Catolicismo - Capitalismo. Todos os grandes eclesiólogos e cristologistas da Católicos são obrigados a considerar a comunhão dos santos em seu vínculo, e a insistir sobre os laços de fraternidade, solidariedade, alteridade... existentes entre aqueles que são membros de um só e mesmo corpo, chegando a doutrina do amor, da justiça e das obras...  A ilação teológica conduz o Católico, necessariamente, aos braços do fraternalismo... em oposição ao individualismo e ao sistema econômico alimentado por ele. O próprio M Weber não pode deixar de compreender tudo isto, embora estivesse fora da igreja... As premissas do solidarismo Católico já estão em Sertillanges, K Adam ou qualquer outro grande teólogo que tenha buscado deslindar a vida íntima da Igreja.
 
COMO OS CATÓLICOS PROFESSAM UM IDEAL COMUNITÁRIO DE SALVAÇÃO, deduzem uma economia solidária ou humana. Como os protestantes afirmam uma salvação individual ou egoísta, deduzem uma economia individualista, marcada pela rivalidade ou pela concorrência.

Mas tomemos agora a segunda via de pensamento percorrida pelo Catolicismo social.

A qual reconhece que o sistema economicista liberal tem sido produtor de uma ordem social injusta, e portanto incompatível com os ensinamentos éticos do Catolicismo.

A importância desta constatação é amplamente fecunda. Pois caso situemos a gênese do problema no âmbito da caridade, ou de meros 'conselhos evangélicos', como doar todos os bens aos pobres... sempre poderemos fugir desonestamente a ele, apelando a liberdade... Embora estejamos obrigados em função da lei de Jesus Cristo a amar e a amar concretamente o próximo, sob pena de não sermos Cristãos. Isto no entanto suscitaria uma discussão enorme... E sempre fugiria a realidade e a verdade.

Não se trata aqui de negar ou de reconhecer uma luta ou conflito existente entre as classes sociais pelo simples fato de tal conflito ser oficialmente estimulado pelo credo liberal. O credo liberal, associado a uma visão darwinista da realidade, jamais encara os homens como irmãos, mas sempre como concorrentes ou rivais na 'luta' pela sobrevivência. Apresentando o patrão bem sucedido como apto e o proletário explorado como inapto, quando na verdade - na maior parte dos casos (aqui Max Nordau - Mentiras convencionais de nossa civilização) o primeiro limitou-se a herdar enquanto o outro nada herdou...

Naturalmente que semelhante tipo de ideologia acabaria produzindo uma Sociedade enferma ou em estado de conflito. Aqui a negação da existência do conflito exigiria do Católico o sacrifício de sua honestidade. Esta ele numa Sociedade em estado de conflito. O conflito é real, é histórico e independe da vontade do Católico - é dado ou fato empírico irredutível a vontade. E a honestidade exige que o Católico, como Berdiaeff fez, reconheça a existência do conflito.

Nisto o Cristão não se distingue do Comunista e sequer podería distinguir-se dele, exceto se viva numa sociedade tradicional ainda não infectada pelo virus do Laisez faire... Do contrário estará situado numa Sociedade dividida, pelo simples fato de uns explorarem outros ou viverem as custas do trabalho alheio e não do próprio. A existência de opressores e oprimidos é concreta e não produto de nossa imaginação!

Assim a questão posta, ao Católico e ao Comunista, não é de fato mas de valor.

Como o Católico avalia este conflito implementado e estimulado pelas forças Capitalistas de produção ou por seu éthos???

O Comunista dirá que o conflito é o motor da História e que portanto tal situação deverá ser intensificada. Ele aplaudirá e estimulará todas as situações de conflito, acompanhando a dinâmica do liberalismo econômico em seu desenrolar e 'excitando' os justos rancores do proletariado, com o objetivo de produzir uma consciência de classe estribada muitas vezes num ódio feroz.

Agora qual o posicionamento do Cristão???

Eis uma pergunta que é crucial e que toca ao âmago do problema!

Quanto a negar ou ocultar o conflito social, já vimos que não é uma solução honesta.

A outra postura, igualmente desonesta, consiste em exigir que ambas as partes, patrões e operários, façam as pazes e vivam em harmônia sem estipular quais sejam as condições em que tal convivência se dará. Pois aqui exigir a paz e a conciliação equivale a ordenar que os operários se conformem com sua situação, se resignem, e se deixem explorar passivamente como sequer uma ovelha procede com relação ao lobo, porque até mesmo a ovelha foge...

Usar o mandamento sagrado do amor com o objetivo de cimentar uma situação de injustiça é, permitam-me dizer sacrílego, senão diabólico.

Antes do amor, apresentam-se as exigências da justiça, e ninguém, nem mesmo a mãe igreja, a qual deve ser tão justa quanto seu esposo e mestre, pode ordenar a seus filhos que sofram injustiça! Antes é grave dever dela eliminar as situações de injustiça, de modo a suprimir o conflito e evitar, como já foi dito, a catástrofe da revolução, desejada por anarquistas e comunistas.

Nivelar a vítima com o agressor é e será sempre uma atitude iníqua. Por isso a voz da igreja deve se dirigir não aos proletários com o objetivo de conte-los ou apazigua-los mas aos ricos e poderosos.

Neste caso que deve fazer ela?


Simples - Conter, por força de sua lei a parte agressora ou opressora, advertindo-a a respeito de seus deveres e obrigações.

Numa situação em que os patrões exploram e oprimem os operários o único caminho a ser seguido é proibir aqueles dentre os patrões que se declaram Católicos, de explorar seus operários, sem sem importar com a praxis vigente entre os acatólicos sejam ateus ou protestantes, no caso subservientes as flutuações do deus Mercado.

O Católico tem obrigações sociais e econômicas que lhe são impostas pela doutrina social da Igreja - como o pagamento do salário família e de todos os demais direitos trabalhistas mesmo quando não tenham sido sacramentados pela lei - e as quais não pode fugir sob pena de excomunhão, devendo de fato ser posto fora da igreja caso teime em seguir as regras assentes pelo liberalismo econômico.
Tal o dever dos Bispos e clérigos, fazer valer a doutrina social da igreja e aliviar a situação do povo de Jesus Cristo. A menos que a doutrina social da igreja não passe de letra morta ou de algo para 'inglês ver' como insinuam os comunistas, o que seria insultuoso para a igreja - ter leis e não leva-las a sério. Agora se houve ou houver acomodação, é resultado da falta de fé...

A Igreja tem tradições e leis e elas consistem em reprimir a avareza, a cobiça, o amor as riquezas materiais... a exemplo do que era posto em prática e comumente executado por um S Antonio de Pádua, cuja defesa dos pobres e miseráveis face aos banqueiros é bastante conhecida de todos. Tal o modelo a ser seguido. Não Mises, Fridmann, Hayek e outros ateus que para a igreja nada são mas Asterius, Crisóstomo, Basílio, Antonio, etc os quais são nossos maiores e nossos refenciais.

Ora esta questão da justiça foi reconhecida e posta em relevo pelos Bispos alemães congregados em sínodo sobre a presidência de Immanuel Von Ketteler, Arcebispo de Maguncia, em 1848 ou seja no mesmo ano em que Marx publicava o seu manifesto ultrafamoso. Agora que diziam os Bispos, dignos representantes de toda uma tradição muito mais antiga que o Marxismo? Reconheceram publicamente a injustiça inerente ao sistema Capitalista de produção, e apontaram intrepidamente os fatores responsáveis por um semelhante estado de coisas -

  • O Caráter anti ético do economicismo.
  • A desvinculação da propriedade face a sua função social.
  • A recusa do estado em interferir (Dogma basilar do liberalismo econômico) e
  • A destruição das corporações medievais por uma legislação inspirada dos novos princípios do liberalismo.

Alias estes dois fatores, em especial o último foram salientados igualmente, por Leão XIII na Rerum Novarum, reconhecendo o chefe da igreja romana, a necessidade do estado interferir em favor dos operários em diversas situações, o que contraria, como já foi dito, a doutrina liberal da não intervenção ou da intangibilidade do Mercado.

Foi o ponto de partida para uma tomada de consciência ainda maior por parte dos Católicos mais dedicados. Embora a reação continuasse sendo desproporcional... A própria política nos países Católicos era dirigida por acatólicos, em sua maior parte alinhados com a ideologia liberal. Os próprios positivistas e cientificistas, após a morte de Augusto Comte e sob a direção de Litreé, tornaram-se subservientes face aos interesses do capital e buscaram 'modernizar' as Sociedades Católicas introduzindo nelas o modo capitalista de produção. Positivistas e liberais nutriam não menos horror que os comunistas a gente do campo e aos modelos tradicionais de organização social. O ideal Católico era considerado sempre ultrapassado quer fosse monarquista ou social... E o liberalismo, especialmente sob o viés econômico encarado como progressista.

O pior no entanto era a existência de um imenso número de Católicos formais e alienados. Os quais nada sabiam sobre a doutrina social da Igreja ou julgavam-na ociosa, raciocinando, é claro, como protestantes. O fundo do poço, como ainda hoje, eram os Católicos que acreditavam ser possível ser Cristão e Capitalista ou liberal economicista ao mesmo tempo, havendo dentre eles, inclusive, os oportunistas, que clamavam contra o comunismo anti Cristão enquanto cobiçavam por oprimir seus irmãos em Jesus Cristo membros do mesmo corpo místico. Já o Visconde de Inhomirim fustigava esses Católicos de fancaria que haviam compactuado com a chaga da escravidão. Eliminada a escravidão esta ralé de solifideistas pos-se logo em sintonia com o Mercado - Hora de contratar e oprimir imigrantes italianos ou de explorar a mão de obra nordestina corrida pela seca de sua terra Natal. Esses eram os principais problemas da igreja aquele tempo... E como nem todo Bispo ou prelado tinha virilidade suficiente para 'encarar o problema de frente'... A igreja era constantemente descrita por seus opositores socialistas, como uma instituição hipócrita. Reconhecemos que nem sempre tem sido regida por homens de valor, para cada Ambrósio, Atanásio ou Teodoreto há mil acomodados...

Felizmente, cerca de quarenta anos após o Sínodo presidido por Ketteler ter feito suas objeções ao liberalismo, Leão XIII publicou a já citada Encíclica, em sob a perspectiva tomista. E houve quem o levasse bastante a sério na Bélgica ou melhor dizendo na Lovaina. Foi nesta Universidade em que sob a presidência de Mercier, Arcebispo de Malines, resgatou-se a doutrina social tomista, centralizada no conceito aristotélico do 'bem comum'. Foi a partir de tais pesquisas que foi sendo formulada a doutrina social da Igreja e os Códigos sociais de Malines, dentre outros documentos. E no mesmo ambiente tomaram corpo o Sillon, a Ação Católica e o Jocismo de Cardjin, para sermos sucintos. Foi todo um florescer de consciência social autenticamente Católica fundamentada na doutrina de Tomás de Aquino, até então completamente ignorada pela corrente rival.


Afinal, teólogo medieval algum, disserta com maior propriedade, em termos de Ética Cristã, a respeito da distinção entre a ordem da caridade, que Aquino relaciona, até certo ponto, com a liberdade humana; e a ordem da justiça, que   Aquino apresenta como de estrita necessidade. Ora Aquino, situa todas estas questões atinentes ao trabalho, a produção de bens, a economia, etc não na ordem da caridade mas na ordem da justiça. E o próprio bem comum é situado por ele nesta ordem de bens, relacionados com a justiça, e portanto, estritamente necessários. Como se vê não é algo voluntário ou desejável, mas algo absolutamente necessário e a ser expresso por meio de leis obrigatórias ao povo de Jesus Cristo.

Desde então, todos os principais expoentes do Catolicismo, a começar por Maritain, tiveram de acompanhar os Dominicanos de Lovaina e Tomás de Aquino. Já não era possível encarar a questão social apenas sob o ponto de vista ou a perspectiva unilateral da caridade e adotar os meios postos por S Vicente de Paulo numa Sociedade tradicional. A situação criada pelo liberalismo econômico - foi bastante bem descrita na Inglaterra por Dickens e na França por Zolá - demandava por novos tipo de reflexão e ação. Era necessário que a Sociedade Católica reassumisse seu autêntico 'modus vivendi', rompendo com o éthos puramente naturalista do economicismo liberal, interferindo positivamente nos setor da economia, implementando a justiça social na mais larga escala possível, investindo na pessoa humana e erradicando a miśeria produzida pela injustiça.

Este programa só será esboçado com absoluta nitidez a partir das primeiras décadas do século XX devido as contribuições de diversos pensadores quais sejam - Bloy, Berdiaeff, Maritain e Mounnier. Tais pensadores constituem as vigas mestras por assim dizer do pensamento social Católico - alias Berdiaeff, é nosso i é Católico Ortodoxo - em construção, e nenhum deles, como veremos, estava sob influxo do marxismo, mas sob influxo da corrente de pensamento tomista e da tradição patrística. Lamentavelmente Corção permaneceu atrelado a primeira corrente de pensamento, delineada na França por Ozanam. Deixando de acompanhar o desenvolvimento suscitado pelos estudos tomistas iniciados na última década do século XIX e as possibilidades descortinadas pela Rerum Novarum... E isto a ponto de chegar a encarar os legatários desta corrente como inovadores influenciados pelo marxismo. Esta errado e basta dizer que estes teóricos estão todos relacionados com o círculo de Leon Bloy e que este estava muito bem a par do que ocorria na Lovaina. Foi um movimento comum, de convergência, fruto da própria consciência Católica voltada para sua tradição mais pura e para suas raízes mais profundas. evidente que hoje, mais do que nunca, precisamos resgatar tudo isto.

A Teologia da Libertação procede em parte doutra cepa. Tem, como os socialismos naturalistas - e Ozanam mesmo o reconhece - uma herança Católica comum, a par de diversos erros. Ao contrário de seus erros, em grande parte de origem protestante, vou insistir sobre os acertos! Não errou ao servir-se de Marx e dos teóricos marxistas com o objetivo de conhecer melhor a realidade produzida pelo Capitalismo e seus mecanismos internos de natureza econômica. Aqui um pouco de Gabriel Le Bras ou de Lallemant faz bem - Marx é um teórico como outro qualquer, podendo ber servir como ferramenta a crítica Católica e mais ainda Max Weber, e outros mais... Alias não foi ele quem produziu a situação que descreve! Materialismo já havia sido posto em circulação há muito tempo, pelos economicistas... A questão é que os adeptos da TL deixaram-se cooptar por certos ideais e métodos propriamente comunistas, além de adotarem um vocábulo de tal modo técnico que afastou-os do povo Católico afeito a um linguajar tradicional com que os comunistas jamais souberam lidar. A TL foi pelo mesmo caminho e cometeu os mesmos erros... Embora houvesse nela um princípio de justiça, como havia um princípio de lealdade entre os feudais.

Seja como for a libertação total da pessoa humana não é, como ordinariamente se crê, assunto relacionado meramente com a ética Católica ou com a doutrina social da igreja, mas assunto relacionado com a soteriologia e a antropologia Católicas exaustivamente debatido na ocasião em que foi levantando o problema da fé e das obras. A simples afirmação, sinergista, segundo a qual as obras são absolutamente necessárias a salvação, já nos encaminha a solução do problema social. Assim a doutrina da igreja visível, da comunhão dos santos e da ressurreição da carne apontam para a mesma perspectiva de uma salvação integral do homem, não quanto a um diabo ou a um inferno, mas quanto o mal e o pecado. A afirmação de uma graça capacitante por parte do Catolicismo não pode deixar de culminar com a elaboração da ideia de uma Redenção integral e portanto de fundamentar a tese da transformação do mundo a luz do Evangelho ou do triunfo da lei de Jesus Cristo numa perspectiva social. Por isso o Catolicismo sempre será um modo de vida ou uma lei, jamais uma fé somente e totalmente separada do mundo material. A fé Católica esta sempre em diálogo com o mundo buscando transforma-lo a luz da Encarnação e ampliar a presença do Cristo. A própria escatologia torna-se otimista e plena de esperança!



quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Apologia do Cardeal Arns - Resposta ao insidioso jornal O Estado de São Paulo

Nem esfriou o cadáver do falecido cardeal arcebispo de São Paulo e já a imprensa canalha destila seu veneno e baba asquerosa sobre sua veneranda memória.

Jamais fui admirador ou amigo do falecido hierarca da Igreja romana. Ao tempo em que o então arcebispo contendava com a moribunda ditadura militar era eu ainda um jovem protestante e como tal plenamente alienado em termos de política e cidadania, bem a gosta de nossos demagogos!

No entanto sete anos antes de D Arns vir a aposentar-se havíamos nos convertido a Igreja romana e por assim dizer iniciado nossa assunção espiritual.

Após dez anos de filiação e militância achamos por bem abandonar a Igreja romana e passar a Ortodoxia, o que fizemos buscando depurar, aperfeiçoar e coroar nosso espírito Católico, jamais arrenega-lo. Sobre as questões que nos fizeram romper com o padrão romano já nos exprimimos em diversas ocasiões. Em termos de doutrina a infalibilidade do papa, o gracismo ou agostinianismo e a doutrina das penas eternas ou do infernismo. A par disto a igreja romana incorporou ou assumiu diversos elementos de origem e talhe protestantes, o que a nosso ver era absolutamente inadmissível. Outro tema atentamente considerado por nós, e talvez o principal, foram as reformas litúrgicas - e o decorrente empobrecimento estético e espiritual resultante delas - implementadas pelo Vaticano II. Incomodava-nos por fim o neo catolicismo ou o neo marianismo com suas aparições, visões, comunicações e devoções estúpidas de teor mágico fetichista... o lurdisno, o fatimismo, o garabandismo, etc

A ruptura foi dramática e nem por isso deixamos de amar a igreja romana, de reconhecer-lhe os méritos, de aplaudi-la quando acerta e de encara-la com respeito de gratidão. Além de estarmos obrigados a julga-la segundo as exigências sagradas da justiça.

Publicamente reconhecemos ter sido a igreja romana a centrar nossa fé no Evangelho ou seja nas palavras de Jesus Cristo, a por-nos em contato com a tradição Cristã dos primeiros séculos ou seja com o pensamento patrístico, a refrescar-nos a o espírito com o dom do franciscanismo, a apresentar-nos o padrão de pensamento escolástico e por consequência os tesouros clássicos do socratismo e do aristotelismo, a fornecer-nos as primeiras noções em termos de justiça social, a produzir em nós as primeiras sensações estéticas impactantes, a comunicar-nos um sentido ético de vida, etc, etc, etc Foi o princípio de nossa educação e formação completamente descuidadas pela família - não totalmente porque meu pai sempre se preocupara em lançar-nos alguma luz ao espírito - sob os auspícios do protestantismo.

Por estas e outras tantas razões, apesar dos pesares e senões, ainda encaramos a igreja romana como uma grande fonte de inspiração ética para o mundo. Na medida em que ainda contém inúmeros fragmentos de Catolicismo antigo e vestígios de cultura clássica. Elementos que nos remetem ao humanismo e a grande batalha do tempo presente.

Analisando os documentos oficiais da comunhão romana, tratados de teologia, catecismos, encíclicas e bulas dos papas, declarações conciliares e sinodais, etc detectamos a presença de um vivo espírito Cristão procedente dos santos evangelhos, da tradição apostólica, da teologia patrística, da reflexão escolástica, do socratismo, do aristotelismo, da Filosofia antiga enfim. O romanismo, apesar das suas misérias e da pobreza de suas formas, ainda contém em si algo de nobre, que não foi nem tocado, nem maculado, nem poluído pelo espírito protestante, matriz de todos os erros contemporâneos em termos de cultura de morte.

Coisa bem diversa se dá com os Católicos, especialmente os mais jovens, mas também com alguns mais antigos e especialmente - oh paradoxo! - com os medianamente esclarecidos. Dir-se-ia que o Catolicismo romano transformou-se num formalismo vazio e que os fiéis estão completamente possuídos pelo espírito e pela cultura protestantes.

Apresentam-se como Católicos, professam a fé, recorrem aos sacramentos, prestigiam as cerimônias; mas nem por isso suas almas são Católicas. O padrão de pensamento, os princípios, valores e atitudes são marcadamente protestantes. E por isso costumamos apresenta-los como 'católicos' de alma protestante ou como corações protestantizados. Há ali formas de Catolicismo mas não espírito Católico e tal gente mais se assemelha com os ossos ressequidos descritos pelo profeta Ezequiel do que com qualquer outra coisa.

E no entanto - Pontuemos muito bem! - nada mais antagônico ou mais distante do que o espírito Católico, com seu projeto de homem e Sociedade e o espírito protestante, com seu projeto de homem e sociedade. Do que resultou um embate tetra secular obscurecido no tempo presente apenas pela leviandade e incoerência dos Católicos. No entanto estes dois espíritos ou visões de mundo continuam tão distintos como óleo e água, e jamais se misturam. Ademais o protestantismo, pela negativa, demoliu ou melhor dizendo implodiu a concepção católica da existência ao impugnar-lhe a fé.

Somente duma época pautada pela incoerência, pelo irracionalismo, pelo subjetivismo, pelo relativismo e outros venenos podería alguém supor uma aproximação e o que é ainda pior, conciliação entre o ideal Católico e o ideal protestante. Tal conciliação faz tanto sentido quanto a pretendida conciliação entre a democracia e o totalitarismo, o socialismo e o individualismo, o humanismo e o cientificismo...

Conceitos e definições que se excluem mutuamente não se aproximam.

No entanto, desde os tempos de Lutero e Calvino não poucos Católicos tem se esforçado por suavizar as diferenças concretas ou vitais e por viver como protestantes. Não, os protestantes - exceção feita talvez a vida litúrgica ou ao ritual - não aspiram viver como Católicos preferindo viver a sua moda, ou seja como antinomiastas (solifideistas) ou judaizar, aderindo ao legalismo mosaico. Cogitar em adotar a lei do Evangelho e vivencia-la, poucos dentre eles - a exemplo do Dr Schweitzer ou de Niomeller - inclinam-se a faze-lo. Já o contrário não se dá. Pelo que sempre houve um significativo número de Católicos inclinado a professar apenas e não em viver.

De fato as belezas e riquezas espirituais do Catolicismo sempre atraíram muita gente sem brio. Cuidando ser ele apenas uma fé ou uma fé a mais para ser professada apenas. O protestantismo afirmou Lutero em alto e bom som é uma fé apenas, uma teoria, uma crença! Não o Catolicismo, este já lá no Evangelho é lei com que conformar a vida: Sois meus amigos se praticais o que vos mando, declarou seu fundador. É pois algo vital. É lei que regula a existência, é forma de vida, é compromisso moral ou ético a ser assumido.

Não é a fé portanto que faz o Católico. Segundo a doutrina Católica a fé deve ser completada e ultrapassada pela caridade viva. É a caridade viva, a ação, o serviço fraterno, a observância, a obediência que torna o homem Católico. O Católico é católico pela vida, não pelos lábios, não pela boca, não pelas palavras, mas por obras e verdade.

Por isso ele professa que se salva nas obras ou no mínimo que as obras são fruto necessário da comunhão com o Sagrado. A esterilidade as árvore sem frutos proclama seu estado de separação espiritual. A árvore que produz maus frutos é lançada o fogo porque não esta na Unidade de Deus. Aquele que não pôs as moedas para render não será acolhido mas despedido sem nada. Não é aquele que diz: Senhor, Senhor que entrará no Reino Celestial, mas aquele que FAZ a vontade do Pai...

A fé somente por pura e exata que seja a ninguém pode salvar. Se faltar a caridade, se não houver fruto, se minguarem as obras... Terá o Cristão de ouvir: Apartai-vos de mim, obreiros da iniquidade, jamais soube qualquer coisa a vosso respeito!

Com razão, no dealbar da reforma protestante, os papistas apegaram-se a doutrina das obras, da caridade, do serviço, da ética; como pedra de toque ou pedra angular da Ortodoxia Cristã.

E esta doutrina patenteada pela veneranda tradição foi canonizada em Trento.

Quase que de imediato porém alguns Católicos aspiraram por imitar os protestantes, pelo simples fato de não querer imitar a Jesus Cristo e assumir suas virtudes. Acomodaram-se e por meio dele, o mesmo espírito luterano, assumindo novas e distintas formas, penetrou mais uma vez no corpo da igreja produzindo devoções mágicas (tantas sextas feiras, tantos sábados, medalhas miraculosas, etc), sucessivas promessas de perdão (em detrimento da reparação penitencial), um paulatino abandonar do mundo material, etc Cessando o Catolicismo de ser a vida que sempre fora e ideal de organização social.

Não fui eu, mas Adam Moheler, príncipe dos controversistas Cristãos, que definiu a igreja Histórica, a Igreja antiga (E Renan), a Igreja dos Bispos (E Renan) como uma extensão, continuidade e expansão do mistério central do Cristianismo: O dogma da Encarnação. Por meio da Santa Virgem Maria e do Espírito Santos Deus se fez homem, um homem. Por meio da Igreja, da vida da Igreja este mesmo Deus se faz espécie, se faz gênero humano e encarna-se ou - perdoem-me a ousadia - reencarnar-se na Humanidade. Por meio da Igreja é a Humanidade convocada a Theosis i é a divinização, a comunhão com o absoluto, a Unidade suprema.

Assim o sentido e a meta do Cristianismo não é uma salvação mágica no além túmulo ou o abandono do mundo mas a regeneração daquele mundo que Deus tanto amou. É sua restauração, purificação, incorporação e aperfeiçoamento. Pois se há no mundo algo de mau, se nela há oposição da Deus, se nele há um elemento negativo, não é da matéria criada que ele procede mas da vontade humana. O mal, o vício, o pecado correspondem não a entidades materiais existentes em si mesmas mas a uma orientação equivocada da vontade. É a oposição da vontade humana a Lei divina.

No entanto como este homem é livre e sua vontade mutável, segue-se que pela educação e pedagogia divinas pode o mesmo homem emendar-se rompendo com o mal e abraçando o padrão divino do bem. E como o mundo moral é associação orgânica formada por seres humanos, da conversão de todos os homens ao bem resultará a aniquilação do mal, deixando este de existir. E tornando-se o mundo perfeitamente bom. A transformação da totalidade dos seres humanos à luz do Evangelho, eis a meta do Cristianismo.

Manifestou-se ele para condenar o que há de mal no mundo mas não o mundo, não a matéria do mundo, não o mundo físico. Pois o problema do mundo é o homem e o problema do homem a vontade. Tem no entanto o Catolicismo viva esperança ma medida em que reconhece a liberdade deste homem. Assim espera que o conjunto dos homens, a espécie, o gênero humano, o mundo mesmo retorna conscientemente ao Sagrado, após ter conhecido o mal.

Esta ideia de incorporação, transforação e vitória em Jesus Cristo é o ideal do Catolicismo. Por isso ele não abraça o catastrofismo apocalíptico dos antigos hebreus e não canoniza a angustiosa doutrina da apostasia, que é de origem pessimista. Por ser filho da ressurreição a Ortodoxia trás em si uma esperança de Triunfo e não pode abjurar dela.

Certamente os filhos da Igreja e herdeiros de Jesus Cristo não ignoram o papel transitório de nossa existência material. Sabem que somos peregrinos e que aqui estamos apenas de passagem. Sabem que o mistério da vida estende-se para muito além... Tem consciência de que após o fim desta vida inicia-se uma outra. Todavia a consciência de que esta vida tem fim não a torna menos preciosa para eles. Pelo simples fato de aqui estarem e deste fato ter algum propósito. Então eles sabem que sua condição na outra vida esta na dependência do tipo de vida que levaram aqui. Eles sabem que a única maneira de conquistar aquele mundo é empenhando-se em transformar este mundo. Eles tem consciência de que a 'passagem' de ida para aquele bom lugar é o lugar onde estão. Sabem que a vida presente não é fardo ou peso mas oportunidade, sim oportunidade... Para chegar ao Cristo partimos daqui... É aqui que damos os primeiros passos rumo ao Cristo...

Cumpre não estar aqui por estar mas estar para servir e amar.

Se não há vida não há oportunidade para o amor.

A luz de tão bela doutrina não pode o Católico observar as estruturas iníquas deste mundo - estruturas forjadas pelo pecado - e permanecer indiferente ou insensível i é de braços cruzados. Tampouco haverá de recuar e fugir, pois seu Senhor e Mestre 'Venceu o mundo'. Por ao próximo, a quem Jesus Cristo obrigou-nos a amar, é o Católico levado a atuar, a agir, a lutar e a combater com o objetivo de reformar as estruturas iníquas deste mundo e de transforma-las a viva luz do Evangelho i é da Lei de Jesus Cristo. O Católico não negocia, não se acomoda, não recua; pois tem a sua disposição toda uma vida sacramental. Socorre-se dos sacramentos como um aparelho serve-se de combustível ou energia e então move-se!

Ao contemplar a realidade deste mundo o Católico depara-se com uma série de relações humanas e sociais incompatíveis com os ensinamentos ministrados por seu Senhor no Evangelho. E não podendo conformar-se com semelhante estado de coisas, porfia-se em mudar todas estas relações e adequa-las ao critério supremo de toda virtude. Como já disse ele não se se acomoda e jamais busca soluções de compromisso. Alimentando pelo pão da Eucarística e pelo pão da doutrina parte o Ortodoxo para o enfrentamento. E enfrenta o mundo. Não para humilha-lo ou constrange-lo mas para conquista-lo e renova-lo.

Agora por que insiste o Católico em interagir com o mundo ao invés de virar-lhe as costas muito confortavelmente???? Porque seu Senhor foi o primeiro a interagir com o mundo fazendo-se homem entre os homens. E o Católico busca imita-lo.

Imitar Jesus Cristo, aquele que não deu suas costas ao mundo, é dialogar com o mundo, é assumir o mundo é ter esperança de conquistar o mundo e triunfar do mal.

Quem desesperou de conquistar e de transformar o mundo perdeu o sentido da Encarnação.

Se Deus teve fé no homem, tenhamos nós também fé.

Insisto marcadamente nisto. Em que o Católico não é dado permanecer na platéia observando o mundo. Se seu Deus é Emanuel ele descerá até a arena e engajar-se-a na luta pelo bem e pela virtude.

Se desesperar da matéria ou da livre vontade e acalentar doutrinas pessimistas esta mais próximo do judaísmo antigo ou do protestantismo, que são sistemas contaminados pelo maniqueismo.

"Não sabia que era impossível foi lá e fez." declarou um sábio.

"Impossível é palavra que se acha apenas no dicionário dos covardes." declarou outro.

O Católico todavia crê naquele Deus para o qual 'Nada há de impossível'.

E este Deus em que crê organizou este mundo.

Creia portanto, e firmemente não apenas na possibilidade mas na necessidade de transformar este mundo. E que para tanto foi comissionado pelo Evangelho.

Recue o protestante maniqueista, pessimista, derrotista com sua doutrina de arrebatamentos e catástrofes.

Eis porque o Catolicismo desde os albores da antiguidade possui uma Doutrina social que é normativa para seus filhos.

Podem os neo Católicos de alma protestante ignorar a doutrina Social da igreja.

Que a ignorância não destrói a doutrina.

Antes que existissem Marx, Engels, Lênin, Bukharin, Plekanov, etc Existia já a doutrina social da Igreja enquanto veículo do Bem Comum.

Antes que surgissem o Comunismo e o próprio liberalismo econômico, matriz de todos os materialismos contemporâneos e de todas as culturas de morte, havia doutrina social da Igreja.

Antes que a primeira besta humana pretendesse conciliar os imperativos do liberalismo econômico com a Santa Fé Católica, pura e imaculada, ERA a doutrina social da Igreja.

Doutrina que tomamos não aos sociólogos da modernidade mas aos primeiros Bispos sucessores dos apóstolos segundo o critério sagrado da Tradição. Tradição que não se limitou a julgar a doutrina da fé mas também a legislar sobre os costumes. Tradição que jamais consentiu em julgar apenas e tão somente as ações pessoais, reclamando o direito de julgar e regular do mesmo modo todas as relações sociais.

Ignorar isto não é apenas fantasiar mas confundir Catolicismo com Protestantismo, na medida em que este apenas acedeu covardemente no sentido de nada regular além da fé ou da crença. O Catolicismo, derradeiro santuário da Virtude após o fim do mundo antigo, jamais admitiu que qualquer esfera da atividade humana ousasse sobrepor-se aos imperativos da ética.

Se é certo que não cumpriu com sua obrigação opondo-se até o sangue a afirmação de outro modelo social, materialista economicista, em tudo oposto ao seu não é menos certo que jamais abençoou esta nova ordem e que a simples existência de uma doutrina social codificada, basta para condena-la irremissivelmente.

Reclamam os economicistas ou economistas clássicos total liberdade para a atividade econômica em nome duma auto regulação expressa em termos matemáticos ou com exatidão de ciência exata. E no entanto é a economia atividade precipuamente humana voltada para necessidades humanas. E pretende excluir o homem! E pretende ignorar suas necessidades básicas! E pretender estar de acordo com os postulados do Catolicismo! Nem em sonho... Pois ao invés de estar posto para o Mercado, o Catolicismo esta posto para o bem comum. É a Cristo e seu Reino que ele serve e não a Mamon, ao Lucro, ao capital!

Entre a busca pelo acumulo de bens materiais, a lucratividade, a fortuna e a busca pelo Reino de Deus vai uma distância infinita.

A luz da doutrina da igreja essa liberdade plena ou total revindicada pelos economicistas é impossível ou melhor pecaminosa. Devendo ser a atividade econômica submetida ao primado da ética, numa perspectiva humana, e regulada pelo grupo social. É o que dizem e declaram as encíclicas dos papas, os documentos de Malines, as cartas de diversos sínodos, os pareceres dos doutores escolásticos e as sentenças dos padres da igreja. Em nenhum destes locais teológicos damos com qualquer aceno favorável as pretensões transloucadas do liberalismo, ao menos que o ateu Von Mises goze já desse 'status'...

E no entanto quantos e quantos neo católicos de alma protestantes teem a ousadia de citar Mises, Hayek ou Fridman ao invés de acatar as decisões dos papas, como Leão XIII, cardeais, como Mercier, de Bispos, como Von Keteller, de Doutores. como Tomás de Aquino e dos Santos Padres a exemplo de Basílio, Crisóstomo, Astério, Ambrósio, Gregório de Nissa, Jerônimo, etc 
E ainda teem o desplante ou melhor o cinismo de apresentar como Comunistas aqueles que opondo-se a Hidra liberal, mantem-se - por uma questão de coerência - apegados a doutrina social da igreja. Isto pelo fato de não desejaram ser meio Católicos apenas mas totalmente Católicos e sobretudo Católicos de coração. Esse Catolicismo belo, que presta apenas para ser comoda ou superficialmente vivido não o queremos... Esta posto o Catolicismo para ser plenamente vivido, até o sangue.

Quem são vocês para acusar este ou aquele membro da hierarquia de comunismo se são os primeiros a não levar a sério a religião que dizem professar ignorando supinamente o teor de sua doutrina social???

Amancebando-se com o liberalismo econômico vocês prostituíram suas consciências e substituíram o SER pelo TER.

Compactuaram com a mais miserável forma de idolatria que é o culto prestado ao dinheiro, fonte de todos os males.

E não satisfeitos com isto ainda traíram o liberalismo político ou o espírito democrático em nome da mística economicista a que servem.

Isto a ponto de mais uma vez atraiçoar o espírito Católico, caracterizado pela defesa incondicional da vida e da dignidade humanas.

E de flertar com 'culturas de morte' por mais de uma vez denunciadas pela mãe igreja.

Qual fosse ela, como dizem seus críticos, uma cadela do fascismo!

A bem da verdade os maus católicos, como sempre, alimentaram toda uma mística patriótica até o nacionalismo, ainda aqui reproduzindo os delírios de Lutero núncio da germanofilia e do odinismo.

A Igreja no entanto, desde aos anos trinta, soube denunciar com toda propriedade a praga da estatolatria em que se escora a Hidra liberal (economicista) quando ameaçada pelo espírito policrático.

Bom seria que esses anti comunistas estivessem empenhados apenas em ser Católicos e em viver segundo as exigências do Catolicismo. Porque então a existência do Comunismo seria inútil... e ele não teria a mínima razão de ser.

No entanto se ai está a peste do Comunismo é apenas e tão somente porque devido a omissão dos falsos Católicos, dos Católicos tímidos e aparentes, dos meio católicos, dos católicos acomodados O ESPÍRITO CATÓLICO deixou de encarnar-se nas estruturas sociais. Porque o ideal Católico de Sociedade ficou frustrado. Porque as aspirações vitais do Catolicismo não se concretizaram. Porque o Catolicismo ficou apenas sendo fé ou doutrina, até converter-se em projeto distante. Conformando-se os Católicos com o escândalo do pecado, e adormecendo suas consciências no terreno da mística e do fetichismo. Comunismo esta ai porque o Catolicismo não teve forças suficientes para impedir a afirmação e o avanço do Capitalismo!

Agora afirmado um erro, temos a origem de muitos outros!

E este erro, o mais grave, o mais sério, o mais funesto; aquele que deslocou um ideal de organização social Cristã, é o Capitalismo, não o Comunismo.

O Comunismo é puro e simples efeito ou produto do Capitalismo, retendo dele o que há de pior, de mais rude, de mais grosseiro.

É o comunismo filho da superstição capitalista e por isso trás em seu corpo suas feições.

É o comunismo consequência e o capitalismo causa.

O comunismo é pura e simples reação, o capitalismo, este é o início da apostasia social, do mal supremo.

Assim o Capitalismo e não o Comunismo é que instaurou a ordem materialista. O Comunismo é materialista porque tomou este princípio carunchoso ao capitalismo.

Ao menos o comunismo é materialismo honesto ou sincero que como tal apresenta-se enquanto que o capitalismo ousa associar-se a religião dando mostras da mais rematada hipocrisia. É o capitalismo um materialismo fingido que jamais se assume como materialista.

Vai aos Domingos a missa e dedica uma hora a deus, para viver como bárbaro e avarento durante os seis dias seguintes! Ele destrói a missa completa e oração perfeita que é a vida do Cristão benevolente!

É culto vão que consagra as atividades em sua quase que totalidade ao lucro e a Cristo algumas horas apenas uma vez por semana.

É superstição putrefata que separa a vida da religião e a religião da vida destruindo o sentido de culto total! É vida que se furta as inspirações humanitárias e humanistas da religião para se controlada pelos imperativos do mercado.

E tanto mais impudente é este materialismo quanto mais lhe acenam com promessas de perdão, salvação e vida! Quando deveriam fulmina-lo com a excomunhão e leva-lo a penitência!

Por apresentar os homens batizados em Jesus Cristo como concorrentes ou rivais enquanto são irmãos que deveriam auxiliar-se mutuamente.

Pois como disse Peguy se alguém cogita em salvar-se sozinho ou isoladamente perdeu todo sentido de Catolicismo. Catolicismo é veículo comum de salvação na integração.

Assim em termos de patologia social o Capitalismo foi a pedrinha que desprendeu-se do alto da montanha e veio rolando até converter-se em avalanche devastadora.

Então antes de criticar um Arcebispo que teve a coragem e intrepidez de denunciar os abusos de um poder cego e arbitrário, de condenar a efusão de sangue, de posicionar-se contra a aniquilação de homens vivos, de resistir ao poder do dinheiro, de vindicar a doutrina social de sua igreja, de afirmar a dignidade impar da pessoa humana, dobrem suas linguas viperinas!

Já D Helder Câmara dizia a respeito de gente tosca como vocês: "Quando alimentei os pobres me chamaram de santo. Quando perguntei por que eram pobres apontaram-me como comunista."
Afinal pra vocês, que seguem o Evangelho de Spencer pobres são vagabundos destinados a morrer de fome!

Claro que vocês tem pleno direito de pensar assim, apenas não finjam-se de Católicos! Pois estariam calcando aos pés aquele Evangelho que temos em conta de sagrado.

Ou será que vocês não leram este trecho do Sermão do Monte: Bem aventurados os pobres em espírito porque deles é o Reino dos céus!
Acaso ousarão declarar e dizer que podemos ser desapegados quanto soa bens materiais e junta-los a não poder mais????

Insistir a respeito disto seria entrar pelo ridículo...

E concluir que os Onassis, os Rostchilds ou os Vanderbilths foram os homens mais desapegados da face da terra e os primeiros cumpridores do Evangelho.

Mas o espírito de vocês é favorável as riquezas, e portanto caracteristicamente protestante.

E se não tem respeito algum pelos pobres e se buscam juntar mais do que precisam para viver comodamente certamente estão desprovidos do espírito Católico.

O mínimo que vocês deveriam fazer é calar a respeito da abençoada memória de um homem que buscou viver segundo os ideias de sua fé e colocar em prática os postulados éticos propostos por sua religião.

Os comunistas negam a existência de Deus. Os Capitalistas profanam a existência de Deus. D Paulo buscou honorificar a existência de Deus vivendo conforme sua santa vontade, e por isso merece aplausos e não censuras, palavras de afeto e não palavras azedas, pensamentos de amor e não criticas suscitadas pelo ódio.

No entanto que haveríamos de esperar do Estado de S Paulo, jornaleco atrevidamente grosseiro cujo único fim é bajular os poderes estabelecidos???

Esperar algo bom do Estado de S Paulo equivale certamente a procurar gelo no Saara ou areia no pólo Norte

É uma Folha conservadora, destinada a conservar o capitalismo, da mesma maneira como uma lata de sardinhas conserva sardinhas...

Azar portanto de quem lê um lixo destes, especialmente se Católico ou simples humanista.

Coisas como o Estado de S Paulo é sempre melhor não ler.

Não leia o Estadão querido leitor, e certamente estará fazendo verdadeira higiene mental.