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domingo, 21 de setembro de 2025

Europa - O vácuo do papismo e as ideologias 'penetras'

Diz uma passagem do Novo testamento: Se alguém colocar outro fundamento além de Jesus Cristo... a obra será provada pelo fogo, assim papel, madeira, palha, etc tudo isto será consumido, e a edificação toda virá abaixo.

Julgo que esse texto religioso possa ilustrar a questão da cultura e seus fundamentos: As ideias matrizes.

Do quanto tenho lido eu em Spengler, Huizinga, Whydan, Toynbee (Mimesis), Sowell, Parsons, Sorokin, A Weber, Wrigth Mills, Timacheff, etc chego a conclusão de que um dos fatores (Ou o principal) responsáveis por levar uma determinada civilização ao colapso é a mudança de paradigmas fundamentais. Via de regra relacionados com algum sistema religioso ou ético, o qual lhes dá suporte. Alias a obra seminal sobre este tema 'A cidade antiga' de Fustel de Coulanges foi metodicamente elaborada para opor-se ao monismo materialista de K Marx (No plano social.). 

Acho curioso: Quando o marxismo\comunismo assomou no horizonte da cultura, há muito que já estava ela em declínio, e quando assomou o liberalismo econômico, meio século ou um século antes - Trazendo em seu bojo o materialismo (Ao menos prático.) - já estava em declínio, embora ainda houvesse aparência de vida. E o comunismo, fixado no dogma materialista como uma ostra sobre a pedra, não soube ou pode compreender a dinâmica das coisas e por isso acelerou ainda mais esse declínio tornando-o fatal. 

O organismo do enfermo todavia estava minado, e portava os germes da morte, os quais o levaria a cova passados menos de duzentos anos. 

Atentem: Se a causa mortis formal foram as duas grandes guerras e o Vaticano II, a causa principal ou eficiente outra foi.

Todavia antes de chegarmos a ela gostaria de apresentar alguns exemplos de caráter histórico: Entrou o novo reino ou Império egípcio em declínio (Ao menos segundo alguns expositores.) graças a reforma religiosa atoniana iniciada por Akenaton - Filho de Amenófis III e Tyi - com os novos ideais de compaixão e paz (Os quais não se encaixavam muito bem no contexto do tempo.). Passados nove séculos outra reforma semelhante, a de Nabonido, prostrou a Babilônia diante dos Persas. Da mesma maneira tombou o mundo greco romano, diante do Cristianismo e seu ideal abolicionista e semi pacifista. Quanto ao império bizantino, embora não possamos observar qualquer mudança essencial a nível de paradigmas não, podemos deixar de observar uma séria crise produzida pelo nestorianismo (Mesmo quando negamos que Nestório tenha ensinado ou divulgado o nestorianismo é certo que durante algum tempo esse erro existiu e proliferou.), pelo monofisitismo (Embora os coptas jamais tenham sido monofisitas e nem mesmo todos os siríacos o fossem.) e outras seitas. Análogo o caso do califado islâmico: Exaurido culturalmente pela Ortodoxia sunita de Gazali e Achari.

Mesmo quando não correspondam a uma causa eficiente, as mudanças, crises ou revoluções religiosas e filosóficas sempre fazem parte do conjunto de fatores que conduzem uma dada civilização a seu fim. 

Do mesmo modo como é impossível substituir os alicerces de uma casa sem que ela desabe fragosamente é impossível substituir os princípios  e valores elementares ou os conceitos geradores sem que uma dada sociedade se dissolva. 

Alias uma verdadeira revolução, conceito que implica uma mudança radical, consiste exatamente em substituir tais conceitos por outros numa dada sociedade, e assim: Demoli-la, para em seguida reconstrui-la doutra forma.

Foi o que fez o Cristianismo apostólico - Demoliu aquele velho mundo, já enfermo, pela base (O escravismo) e, reaproveitando, tudo quanto era digno e bom, tudo reorganizou em síntese harmoniosa, reconstruiu-o de outra forma.

E cada uma dessas fases: De agonia, morte, decomposição e ressurreição correspondem a trajetória daquele velho mundo que existiu do século III ao século XIII desta Era ou a cabo de mil anos, e seu fim é uma Europa refeita e centro do mundo civilizado. Mesmo quando não tenha podido atingir sua plena maturidade.

Mesmo em seu auge, foi a Europa um projeto inacabado e um projeto inacabado é.

E crescendo desviada de seu autêntico fim, cresceu na direção errada, dirigindo-se ao abismo da destruição - Abatida por uma Revolução, por uma outra Revolução, que a tirou de seus alicerces e atalhou sua vocação. 

E desde então não pode tornar-se ou continuar sendo uma civilização Cristã. Desde que seu ideário foi posto no antigo testamento ou na 'bíblia' foi perdendo a Europa seu brilho, até fenecer e principiar a ser um quintal do islã. O espaço onde floresceram um Tomás de Aquino, um Dante, um Francisco Vitória, um Copérnico, um Vesalius, um Da Vinci, um G Agricola, um Camões, um Cervantes, um Shakespeare... E se converte, por força de um destino ingrato em califado...

Gigante caído aos pedaços por terra, assim a podemos evocar: 
"My name is Ozymandias, king of kings: Look on my works, ye mighty, and despair!"

E a beira de seu túmulo bem poderíamos pronunciar as mesmas endechas que Volney proferiu sobre as ruínas de Tiro ou Babilônia...

Porém que vendaval ou tufão foi esse que acometeu o velho mundo... Que terremoto foi capaz de abalar até a base as suas estruturas de poder...

Com efeito, todas as desgraças da Europa procedem da reforma protestante ou do protestantismo, o qual foi sua Revolução primordial...

Não de Lutero ouso dizer, porém de Calvino e em menor medida de Zwinglio. Um e outro foram os novos Gengis ou Tamerlões vindos da estepe. Os quais passaram pela Civilização como um ciclone, e, desde então, nada mais foi o mesmo.


Até então havia unidade religiosa, e consequentemente ética, em torno de um projeto ou ideário social. O que houve depois, vejam as guerras religiosas na França e na Inglaterra ou a guerra dos trinta anos, foi uma sucessão de batalhas, guerras e conflitos que até a segunda grande guerra foram drenando as energias daquele continente. E nunca mais se compôs a Europa ou livrou-se das guerras fratricidas. 

E quebrada ficou como o colosso de Ramsés II...

Basta dizer que após o curto domínio de uma nova fé - Que jamais esteve a altura da antiga ou logrou substitui-la com sucesso (Coordenando suas diversas sociedades.) produziu-se uma secularização sem fé, e, a partir dela uma nova ordem, materialista, a qual denominamos liberalismo econômico. E desta última 'ordem', qual Atena Palas da cabeça de Zeus, o capitalismo, o anarquismo e o positivismo. E, em seguida o fascismo e o nazismo. E, posteriormente, o modernismo. E de permeio: O ceticismo, o subjetivismo crasso e o relativismo. Todo um caleidoscópio formado por sucessivas culturas de morte...  Cada qual julgando poder substituir com sucesso a precedente - E cada qual mais fracassada e frustrada... 

De fato, abandonada a fé ancestral que plasmou a cultura, apenas restou, no fundo do cálice, um patético saudosismo quanto aos tempos passados, em que a Europa era una e pujante, pela fé e pelo projeto social dela derivado - O que lhe permitia permanecer de pé e erguida face ao islã e resistir impavidamente a seus assaltos. Pois havia vitalidade espiritual e proposta.

Grosso modo, todas essas ideologias e culturas de morte (Que como fantasmas ainda assombram a Europa no tempo presente.) o quanto pretenderam foi substituir a igreja ou a fé apostólica romana, enlaçando povos e países num mesmo ideal 'Católico' ou universal. E naturalmente que ocidental algum encarou seriamente a única opção viável para substituir com sucesso o romanismo: A Fé Ortodoxa... Antes seguem os europeus, mais e mais, na direção do caos ocidental, a ponto de, açulados pelo império protestante do Norte, satanizarem a Rússia hodierna, já reconciliada com sua cultura ancestral, autônoma e independente - Por isso odiada e satanizada, e caluniada (Pela imprensa paga ou comprada.) posto que, apesar das esperanças acalentadas nos anos noventa, não se converteu em província cultural, social e política do Império Yankee (O qual neste tempo sela seu destino entregando-a aos jihadistas para aliviar o querido Estado sionista.)


Enquanto isto os desorientados Europeus apostaram nas 'Canas quebradas' do capitalismo, do comunismo, do anarquismo, do positivismo, do fascismo, do nazismo, dos nacionalismos, etc sem que acertassem no alvo. E a cada uma dessas ideologias 'da moda' se poderia dizer o que foi o dito pelo apóstolo Pedro a Safira: Aqueles que levaram o cadáver de teu marido aí já estão, as portas, para levar o teu... 

Grosso modo cada um desses sistemas, após retalhar ainda mais aquele imenso colosso, simplesmente mirrou até converter-se em seita inexpressiva ou clube de devotos embiocados. Servindo no entanto, cada um deles, como obstáculo para que tornasse a Europa aos braços da velha Igreja ou da fé Ortodoxa - O que significou impedi-la de reencontrar a si mesma, seu espírito, sua consciência, sua identidade e sua missão. Arrancado ao seio materno pela Revolução protestante ou sequestrado, foi aquele infeliz continente, no afã do pensamento, alijando-se cada vez mais dos braços maternos e produzindo, enquanto foi capaz, novos sistemas, até esgotar sua criatividade, isto a pouco mais de um século... 

Desde então revolveu-se ela na lavagem do chiqueiro... até os estandartes e janízaros do islã...

Pois construção metafísica (Observem os decalques grotescos do Positivismo ou do comunismo soviético.) alguma conseguiu satisfazer aquelas mentes sagazes e corações inquietos e ainda menos reconciliar tais povos e nações. O que o protestantismo demoliu e lançou por terra ideologia alguma logrou reconsolidar ou erguer - E por que... Porque se o protestantismo, instilando ceticismo, duvidou da Igreja, o capitalismo desamparou o espírito, o comunismo e o anarquismo chegaram a duvidar de Deus, o positivismo lançou fora a Ética, fascismo repudiou a liberdade, o nazismo sacrificou o amor e a fraternidade, o ceticismo crasso aboliu o conceito de verdade, etc montes foram arremessados sobre montes até que chegamos a calamidade suprema. Foi Nietzsche: Protestante, filho e neto de pastores, tipo de exegeta sofisticado, ateu, incrédulo, louco e profeta do nihilismo, e etc que certa vez comparou a Europa de seu tempo com um campo de urzes semeado por gigantescas ruínas...

Embora não tenha contemplado a chegada dos beduínos com seus cimitarras...

Não que tais seitas, correntes e partidos não se tivessem esforçado para desacreditar, derrubar e substituir a fé ancestral. Calvinismo e Comunismo por sinal, empenharam forças descomunais. De fato, cada uma das igrejas sem Cristo ou das místicas secularizadas mobilizou recursos humanos colossais, julgando poder imitar ou plagiar o poder divino.

Aquele começando por Genebra, e falhando miseravelmente em menos de cem anos, e passando incansavelmente, a Escócia de Knoxx, aos EUA dos 'pilgrins fathers', ou mesmo as plagas do Brasil atual e, mesmo assim, falhando sucessivamente, tentativa após tentativa, sem no entanto jamais tornar a reconstruir a 'Santa Genebra' i é, o califado original ou, segundo Van Paassen, primeiro Campo de concentração da História.

Assim o Comunismo, que com seu estro revolucionário, 'Fez rolar a cabeça do Czar'... Onde ora refloresce ou reverdece uma fé ainda mais pura que a romana...

Agora por que falhou o protestantismo... Esse Adamastor cujas pretensões são tão grandes...

Falhou porque com base na dúvida, na negação ou no vácuo nada se edifica de duradouro. De fato a igreja velha conquistou e guiou a Europa porque firmada na autoridade enunciou verdades eternas e indestrutíveis ainda quando incompletas ou em parte distorcidas. Já o protestantismo postulando o livre exame deu a entender que procurava e consequentemente que não tinha... Como de fato não tem a posse da verdade, posto que lhe falta a verdadeira autoridade - Decorrente da sucessão apostólica.

Dirá ele que tem a bíblia ou que posta livros ou escrituras.

Logo, o que tem ele, é leitura e a leitura não é a verdade.

E essa leitura sequer é o livro, como o leitor - Por sinal, não o é.

Assim o quanto resta ao protestantismo é interpretação individual, subjetiva e falível, opinião, suposição, perspectiva, ponto de vista... Jamais a verdade ou o sentido objetivo do livro, fornecido pela legítima autoridade, aa qual remonta aos apóstolos e enfim ao Cristo. Tudo muito humano e demasiado humano, especulação natural, exegese, elaboração 'racional' e não Revelação divina...

Reino dividido, deu o protestantismo cumprimento as palavras infalíveis do Senhor: E - Devorado pelas seitas. - sucumbiu levando consigo a maior parte da Europa. 

Mesmo onde não reinava, ou seja, nas nações papistas e Ortodoxas, enviou ele (O protestantismo) seus corifeus - Apóstolos do ceticismo. - semeando dúvida e produzindo aquele imenso vácuo espiritual que haveria de ser futuramente disputado pelas culturas de morte a semelhança de um cadáver podre sendo disputado por urubus. Portador de um hálito e pestilencioso e letal, ele, o protestantismo logrou contaminar toda Europa, infecta-la, polui-la e destrui-la por dentro... Até chegarmos aos confins da pós verdade e restar-nos apenas a 'narrativa' ou a 'versão' - Desde então afundamos mais e mais nesse charco ou atoleiro espiritual> Posto que nada temos para opor ao islã, alias encarado já como uma opção possível... E quando assim for que será de Homero, Virgílio, Dante, Tasso ou Ariosto...

Pois é, o buraco ou brecha aberta nos flancos da Europa, não apenas subsiste - mas amplia-se. E nessa Babel de confusão, em que todos gritam, os olhos jamais se voltam para a Ortodoxia. A qual os pode duplamente salvar - Tanto neste mundo (Restaurando a cultura.) quanto no outro, e jamais dão com a verdade que a princípio com tanto amor chegaram a contemplaram.

Conheça também os demais artigos da série 'Culturas de morte': 


  • Americanismo
  • Protestantismo
  • Capitalismo
  • Comunismo
  • Conservadorismo
  • Fascismo
  • Pós Modernismo
  • Sionismo 
  • Positivismo
  • Anarquismo
  • etc




quinta-feira, 8 de novembro de 2018

E Gibbons, Maquiavel, Guicciardini - O Catolicismo e a queda do Império romano




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Cristãos há, Católicos por sinal, que ficam abalados face a declaração de Gibbon segundo a qual o Cristianismo - das obras é claro e portanto Católico - foi o grande pivô ou responsável pelo colapso do Império romano. Já ao tempo de Gibbon esta tese escandalizava a muitos...

E no entanto já havia sido esboçada com maestria pelo neo pagão Nicolau Maquiavel. Claro que Maquiavel encara o Cristianismo na perspectiva do pacifismo tolo, e não podemos negar que durante toda sua História o Cristianismo contou com um grupo de pessoas que se identificava com este tipo de mentalidade, quiçá predominante em alguns períodos. Mesmo estabelecida a distinção necessária entre não violência - ideário distinto do ideário Cristão - e não agressão Maquiavel haveria de manter suas críticas... Afinal o que constituiu a República não foi uma violência defensiva e portanto eticamente justa e socialmente admissível, mas um instinto agressivo ou belicoso.

Aqui Maquiavel foi genial - Pois de fato o Cristianismo autêntico nada tem de agressivo ou belicoso. Faz emprego social da violência apenas para defender-se e manipula-o com prudência e cuidado. Os pagãos ou romanos tinham inclusive deuses guerreiros... Para eles o ataque, a agressividade ou a conquista era algo absolutamente natural e assim o domínio e a opressão. Assim o que era virtude cívica para os antigos romanos é vício ou pecado para os Cristãos.

Quais haviam sido e eram os fundamentos sociais inamovíveis do Império e responsáveis por sua estabilidade social e econômica?

Em primeiro lugar e antes de tudo a guerra. A princípio defensiva, ao menos na Península itálica, onde os latinos viviam cercados por povos aguerridos e conquistadores. Posteriormente, após a unificação da Itália, agressiva ou de conquista, visando ampliar o território. Do que resultou primeiramente a conquista de Corinto e Cartago em 146 - assim a incorporação da Grécia e do Noroeste da África - e em seguida a conquista da Síria, da Palestina e do Egito - esta em 31 a C - fechando o circuíto do Mediterrâneo.

A guerra no entanto não era um fim em si mesmo mas via de acesso a pilhagem e a obtenção da mão de obra, que eram os escravos. Os escravos, ao menos após as conquistas de 146, estavam na base da produção romana ou seja da economia do pais. Generalizado o emprego de escravos na produção, o trabalho tornou-se vergonhoso ao homem livre além é claro de desvalorizar-se... Desde então avolumaram-se as massas ociosas, devendo ser sustentadas pelo Estado... Pois os senhores de Roma temiam que a fome fizesse com que elas se amotinassem.

Desde que o Império cessou de crescer após a derrota de Teutberga, no começo do século primeiro desta Era, cessaram as guerras de conquistas. A única exceção deste quadro foram as Ilhas britânicas. Sendo assim a obtenção de escravos ficou na dependência da procriação e de possíveis rebeliões internas como as duas revoltas dos judeus, a de 70 e a de 134, as quais aqueceram o mercado de escravos e a economia do Império. A partir de 134 todavia, com a quase total cessação de conflitos internos, a obtenção de novos escravos tornou-se muito difícil. E para agravar a situação já grave a estrutura social, política e jurídica do império facilitava a emancipação dos escravos, de maneira que ano após ano o número de libertos ampliava-se e o número de escravos minguava.

Isto por si só já era preocupante. Imagine então o aparecimento de uma ideologia religioso cujos membros mais destacados e fiéis eram anti escravistas e defendiam a abolição??? Claro que haviam Cristãos e em grande número que defendiam a manutenção da relação amo e escravo, mas numa perspectiva religiosamente igualitária - e incoerente - que da mesma maneira solapava a instituição do escravismo. O que por si só ameaçava o Império... Cuja econômica dependia do trabalho escravo. Assim, menos escravos menos produtos, logo inflação...

Pois bem. Desde então cogitou-se em guerras e enfim haviam os neo persas lá nas fronteiras do Império - o que tornava as expedições bastante onerosas... Acontece que os mesmíssimos Cristãos que afirmavam a fraternidade humana e condenavam os maus tratos aos escravos ou mesmo a escravidão condenavam com ainda mais veemência e uniformidade as guerras de conquista ou o espírito agressivo e belicoso. E isto a ponto dos antigos elderes, como Tertuliano e Hipólito, dentre outros, condenarem o serviço militar. Não porque empregasse a força mas porque estava a serviço da agressão, do ataque e do imperialismo.

Os Cristãos jamais foram perseguidos por motivos de ordem religiosa ou credal porque os romanos eram tolerantes e não se ocupavam de tais assuntos. E os judeus podiam bem podiam viver no Império sem ser molestados, em parte é claro por não serem proselitistas, mas sobretudo por não serem contra a escravidão ou contra a guerra. Os Cristãos além de abolicionistas e anti imperialistas eram proselitistas e buscavam converter os pagãos a sua fé... Isto atingia em cheio o coração do Império pois mexia com sua estrutura sócio econômica, e o Legislador prudente não podia permiti-lo.

Foi a praxis social dos Cristãos e não sua fé ou teologia, assim sua recusa em adorar os deuses da multidão que resultou nas terríveis perseguições. Os Cristãos não juravam face aos estandartes e não reverenciavam o Imperador. Eram anti sociais, traidores e apátridas por isso mesmo odiados. O império romano e os cidadãos mais inteligentes sabiam que a cultura estava sendo boicotada.

Veja o pandemônio que esta opção ou prática provocou ao longo do tempo. Foi uma luta de vida e morte. A sobrevivência desta religião revolucionária e desta ética humanista implicava a morte do Império tal e qual o socratismo... curiosamente os cristãos - como os antigos socráticos de Atenas - devido a sobriedade de suas vidas eram a parte melhor preparada do império para combater, e justamente eles não queriam combater. Já as massas amolecidas pelo pão e circo ou degeneradas pelo luxo não o podiam, inda que quisessem.

A míngua de guerras o número de escravos foi paulatinamente diminuído e assim as próprias riquezas do erário, já devastadas por Neros, Calígulas e Domicianos... já repassadas as massas sob a forma de subsídios alimentares... Uma vez que podiam ser alimentados na cidade não queriam os homens, em sua maior parte entrar no exército e defender as fronteiras. Momento houve em que mercenários de origem germânica - os quais viviam na periferia do Império - tiveram de ser contratados e pagos... Mais despesas para o Império.

Escravos que era bom não se obtinham e daí resultou, a partir do final do século II uma inflação galopante que jamais cessou de crescer e que convulsionou as bases do Império em que pese o tabelamento de preços imposto por Diocleciano. Tuto, tudo foi em vão. Sem escravos a produção foi parando e os produtos se tornando cada vez mais caros... Tendo em vista manter o sistema de repasses ou os subsídios alimentares, só restou ao Império aumentar os impostos ou melhor taxar a produção agrícola, em parte fruto do trabalho livre. Foi dar os pés pelas mãos... Pois os agricultores fossem pequenos ou grandes não podiam pagar os trabalhadores e os impostos. Resultado: Uma parcela cada vez maior deles começou a abandonar os campos e partir para os grandes centros urbanos, em especial Roma, onde podiam viver de subsídios... Até que o governo imperial prendeu os pequenos cultivadores e os trabalhadores livres a terra, segundo muitos dando origem ao sistema feudal auto sustentável, ao menos nas Vilas.

Num determinado momento teve o Império de decidir entre manter os subsídios alimentares ou manter as fronteiras e é claro que optou por manter os subsídios e desguarnecer as fronteiras. O resto é já sabido - Os germânicos, empurrados pelos hunos, atravessaram as fronteiras... Até que mesmo os subsídios cessaram de ser fornecidos, momento em que as Igrejas Católicas ou episcopais assumiram a tarefa de alimentar as multidões de pobres que viviam nos grandes centros urbanos e viriam a ser aniquiladas pelas invasões e suas consequências, como por exemplo a peste.

O Epílogo é que em 410 Roma foi tomada por Alarico e em 476 o Império estalou e ruiu sob Rômulo Augusto.

E por que ruiu o Império?

Porque suas bases e fundamentos sociais mais remotos estavam assentados sob uma base desumana, anti natural e cruel assim a belicosidade e as guerras de conquista assim o escravismo. Criado desta forma o império romano só podia subsistir enquanto tais valores não fossem questionados. Nem sabiam os romanos bem intencionados ou os Cristãos ou que fazer no sentido de reformar socialmente o Império, pois nada sabiam em termos de Sociologia ou de ciências sociais e nem seria fácil substituir o trabalho escravo pelo trabalho assalariado e livre aquele tempo. Seja como for a escravidão tinha de ser removida e as guerras de serem questionadas.

Maquiavel e Gibbon estavam completamente certos e não temos que nutrir qualquer sentimento de culpa devido ao fato do Cristianismo, com sua moral prática e humana, ter colaborado ativamente para a destruição de um Império cujas bases não eram sadias ou éticas mas desumanas. Desabou o Império romano por ter sido edificado sobre fundamentos podres e carcomidos e não poderia ter deixado de desabar e de desabar fragosamente. Não é algo para se lamentar ou chorar mas para se vangloriar.

Afinal o Cristianismo antigo ou Católico chocou-se com esta estrutura opressora, chamada Império, justamente por ser portador de valores novos ou distintos como a dignidade da pessoa humana e a sacralidade da vida, valores perenes, imortais e gloriosos que o espírito romano supinamente ignorava.

Resta concluir estabelecendo que ao menos em parte o Renascimento, mais romano do que grego, muito literário e nem sempre humano, mais individual do que comunitário ou social, equivocou-se cabalmente ao vivificar tais valores como o espírito belicoso ou agressor e o desprezo pelas pessoas mais simples e humildes, a ponto de reviver aquele mesmo espírito insensível e desumano que amiúde manifestou-se nos escritos que os principais advogados do paganismo lançaram contra o Cristianismo. E a suprema objeção era de que o Cristianismo violava a barreira das 'classes' ou categorias sociais, aproximando as pessoas. Isto era intolerável aos olhos dos bons romanos para os quais eram os escravos seres inferiores, desprezíveis e sem direito algum... Se bem que os ditos humanistas italianos, como Maquiavel e Guicciardini, não tenham dado largas a tais pensamentos não duvido que os tenham acalentado.

Agora quanto ao espírito de violência, conquistam agressividade e imperialismo não souberam dissimular, apresentando a ética Cristã da violência defensiva como inadequada e tosca a preservação das liberdades cívicas, o Cristianismo como responsável por efeminar a Sociedade, o sentido humano do Evangelho por torna-la frágil, vulnerável e indefesa. Eles viam apenas derrota e insucesso onde não havia delírio de conquista... O Cristianismo era para eles uma acovardamento, uma queda de ideais, um declínio, uma corrupção, pura treva... Era o principal inimigo de um Estado forte, coeso e expansionista. Era o supremo obstáculo aos imperialismos. Claro que eles de referem ao Cristianismo autêntico e não ao neo Cristianismo protestante, favorável a violência, a agressividade, ao imperialismo, etc por via do antigo testamento. Guicciardini disse que teria amado Lutero com todas as forças pois Lutero como Hutten e Munzer era profeta da violência, desde que não fosse direcionada contra quem deveria, os reis, os senhores, os opressores, os dominadores... com os quais o reformador das alemanhas identificava-se, pelo simples fato de terem apoiado e ampliado sua reforma...

Posteriormente os mesmos argumentos apenas ensaiados pelos humanistas neo pagãos seriama assumidos e desenvolvidos por Hobbes e enfim por Rousseau, ao mesmo tempo em que Gibbon estabelecia processo contra o odiado Catolicismo incriminando-o por ter demolido aquele 'belo' Império escravista e conquistador no qual os seis mil sobreviventes envolvidos na Rebelião de Spartaco foram crucificados as margens da via Ápia... Mas... que se esperar de uma religião fundada por um marceneiro e divulgada por pescadores? De uma religião cujo fundador não teve escravos? De uma religião cujo fundador foi executado pelo Estado judaico e condenado a pena capital? De uma religião cujo fundador não fazia acepção de pessoas... O único resultado esperado e previsível é que se chocasse com a máquina do império, que a destruísse e lança-se os fundamentos de uma nova civilização, alias salvando os fragmentos mais nobres da antiga...

Felizmente, foi o que aconteceu, por força de coerência, justamente porque os ideias éticos do Cristianismo ainda não haviam sido falseados.

domingo, 1 de novembro de 2015

Sócrates encontra Bertrand Russel





Bertrand Russel: Cheguei a conclusão de que todo medo é mau. Porque não sou Cristão 44
Sócrates: Interessante. No entanto qual foi teu ponto de partida para chegar a tamanha conclusão?
Bertrand Russel: Acaso os homens ilustres não tem encarado o medo como algo vergonhoso? id
Sócrates: Os homens também tem encarado o ato sexual como vergonhoso e por isso decretado sua ocultação. Mas nem por isso fica sendo ele mau.
Bertrand Russel: Penso que o medo derive sempre da ignorância. Assim se tomamos a ignorância como um mal a ser superado não podemos tomar o medo por bem a ser desejado.
Sócrates: Não me parece que o medo derive sempre e necessariamente da ignorância. Acaso aquele que conhece a dor cessará de teme-la porque a conhece? Em que o conhecimento diminui o medo ou receio da dor?
Bertrand Russel: Este homem, que tem medo da dor, ignora certamente que em si mesma ela corresponde a um benefício na medida em que informa-o sobre alguma anomalia ou enfermidade presente no organismo predispondo-o a procurar o médico, a tratar-se e a obter a cura.
Sócrates: Pareces ignorar que algumas enfermidades dolorosas, mesmo quando diagnosticadas precocemente, excluem toda e qualquer esperança de cura ou mesmo alivio. Neste caso qual seria o benefício da dor?
Bertrand Russel: Exercitar a coragem ou a firmeza do caráter.
Sócrates: No entanto se este homem encontra-se a caminho da morte e da aniquilação, que benefício lhe traria tal exercitamento?
Bertrand Russel: Convenhamos então que a consciência da dor também produz medo, acaso seria tal medo bom?
Sócrates: Talvez devamos situar este gênero de medo como natural. A principio não ousarei classifica-lo como um bem, não vejo todavia como o possas classificar como mal.
Bertrand Russel: Queres dizer com isto que homem algum seja capaz de vencer o medo da dor:
Sócrates: Quero dizer com isto que os que venceram tal tipo de medo tiveram de conhece-lo, pois caso não o tivessem conhecido não o teriam vencido. Da mesma forma todos os que jamais lograram vence-lo. Todos os homens conheceram o medo da dor.
Bertrand Russel: Sabemos no entanto que alguns homens jamais conheceram a dor.
Sócrates: Todavia pela experiência comum puderam saber que se trata dum estado desconfortável, que é temido pelos homens e portanto indesejável.
Bertrand Russel: Deixemos de lado o problema específico da dor e convenhamos que a parte dela, os homens tem medo daquilo que ignoram.
Sócrates: Mesmo pondo de lado o problema específico da dor não poderia estar de acordo contigo?
Bertrand Russel: Mas por que caro Sócrates?
Sócrates: Os homens tem medo da pobreza mesmo quando cônscios de seus resultados, como temem do mesmo modo e forma a vergonha, mesmo sabendo do que se trate.
Bertrand Russel: Cessa de embromar oh Sócrates e declara logo onde queres chegar?
Sócrates: Quero dizer que os homens temem tudo quanto provoca desconforto a natureza, tando no corpo quanto na alma. Assim como a dor representa um desconforto ou incomodo para este corpo físico, certas circunstâncias externas como a miséria, a vergonha, a solidão, etc mesmo quando bem conhecidas não podem deixar de produzir certa dor ou desconforto na alma.
Bertrand Russel: Agora te peguei grande Sócrates! Pois se o medo da miséria, da vergonha e da dor devem ser superados ou vencidos e esta superação é um bem, deves convir comigo que tais medos devam ser classificados como males!
Sócrates: Eu sempre poderia responder dizendo que caíste na falácia romântica que tende a tudo encarar em termo de bens ou males absolutos, segundo o padrão binário de pensamento; e redarguir que entre o Bem e o Mal absolutos há uma gigantesca escala de bens e males maiores e menores. E já poderia dizer que o temor de algumas coisas é um Bem, mas que a superação de tais temores constitui um bem maior.
Bertrand Russel: Então ousarás declarar que tais medos correspondam a bens?
Sócrates: Sim, pois é justamente o temor a esta ou aquela circunstância imposta pela vida que te levará a envidar todos os esforços possíveis com o objetivo de evita-la. Não houvesse o temor dos naufrágios em que estado ficariam as peças dos navios?
Bertrand Russel: Julgo que ninguém lhes daria lá muita importância...
Sócrates: No entanto tanto mais perigoso é um mar e tanto mais aprestados são os navios que por ele circulam, achando-se cada peça em seu lugar e os cordames e as velas, tudo muito bem conservado.
Isto em virtude do que? Do medo...
E o medo impede que a desgraça de concretize!
Bertrand Russel: Parece-me que desta vez acertastes.
Sócrates: Assim ao curso da vida o homem previdente, temendo tornar-se miserável evitará o desperdício e fará economia. O que teme qualquer tipo de vergonha buscara viver virtuosamente, no exercício da temperança e o que teme a solidão tudo fará para acercar-se de bons amigos e rete-los. O que de modo algum fariam caso nada temessem!
Bertrand Russel: De acordo. Agora não te parecem que alguns medos ao menos estejam relacionados com a ignorância, e que esta categoria de medos ao medos seja nefasta?
Sócrates: Penso que te refiras ao temor do escuro, acalentado pelas crianças de pouca idade e do temor da morte.
Bertrand Russel: Exatamente. Pois nem sabemos o que haja ou não no escuro e para muitos a morte equivale a uma espécie de mistério.
Sócrates: Deves saber que não só as crianças pequenas imaginam que hajam monstros no escuro, em seus armários ou debaixo de suas camas; mas que também aos adultos ajuizados é molesto sair a rua durante a noite onde não haja iluminação pública ou ao menos uma archote.
Bertrand Russel: De fato sempre poderia haver um buraco ou uma pedra solta no meio do caminho, uma fera ou um ladrão.
Sócrates: A luz, em especial a do dia, torna visíveis os obstáculos e perigos que deves evitar. As trevas ocultam-nos. Pode ser que nada haja lá de perigoso, mas também pode ser que haja algo. Sair de casa e enfrentar as trevas do caminho é sempre uma aposta que envolve a sorte e portanto a incerteza ou a insegurança, a qual produz sempre algum desconforto na alma. Por isto o homem, mesmo adulto teme a escuridão, caro Russel, porque o risco ou o perigo, a aposta e a sorte, sempre incomodam o homem.
Bertrand Russel: Diante disto só lhe resta explorar o ambiente e perder o medo.
Sócrates: Ou encontrar um obstáculo qualquer e perder a vida...
Bertrand Russel; Pendo ter compreendido o que queres dizer...
Sócrates: A situação que precede a investigação, no caso do escuro, sempre envolverá o medo. E este nem sempre será ocioso. Pode ser que o homem por obra e graça do temor, conserve a vida, que é o mais precioso dos bens.
Conhecer neste caso, sempre implicará a possibilidade de conhecer algo de funesto ou pernicioso e ignorar por força do medo sempre implicará a possibilidade de conservar a vida ou a integridade. E não me poderás convencer de que vir a conhecer um buraco, um charco, uma áspide ou a um ladrão armado corresponde a um conhecimento bom.
Bertrand Russel: Que me dizes agora a respeito dos que temem a morte?
Sócrates: Se a morte corresponde a cessação do ser não há porque teme-la, quando ela vier não serei, enquanto eu for ela não terá chegado. Agora se corresponde a uma espécie de reencontro com os ancestrais que imbecilidade não seria temer tal reencontro... (Apologia de Sócrates - Platão)
Bertrand Russel: Queres dizer que não sabes que seja a morte?
Sócrates: Como poderia saber que é a morte se não sei que seja a vida? (Confúcio 'Analectos')
Bertrand Russel: Te direi o que é a morte caro Sócrates > Penso que, quando morrer, apodrecerei, e nada do meu eu sobreviverá. Porque não sou Cristão p 44
Sócrates: Diz-me cá uma coisa oh Bertrand, por que modo e maneira somos nós homens mortais capazes de conhecer a realidade?
Bertrand Russel: Ora Sócrates por meio do contato ou da experiencialidade.
Sócrates: Neste caso como poderias saber o que se sucede no momento da morte, acaso já morreste ou tiveste uma experiência de morte?
Bertrand Russel: Certamente não.
Sócrates: Então como podes afirmar que o conhecimento se dá por via de experiência e contra tua própria doutrina afirmar que saber o que se sucede conosco após uma morte que ainda não experimentaste?
Bertrand Russel: Acaso algum homem tornou do mundo dos mortos para declarar que sobreviveu?
Sócrates: Tua pergunta é demasiado delicada, mas, por mera aquiescência direi que não e peguntar-te-ei: A que propósito vem isto?
Bertrand Russel: Uma vez que falecido algum jamais manifestou-se declarando-se estar vivo, dou por certo que a alma morre juntamente com o corpo físico, isto se existe.
Sócrates: Sabes melhor do que eu que nada se pode de positivo do argumento do silêncio. Caso um morto houvesse se manifestado e demonstrado estar vivo, teríamos o direito de declarar que a alma sobrevive a dissolução do corpo. Agora face a hipótese segundo a qual morto algum jamais teria se manifestado aos vivos, jamais teríamos como sair da dúvida ou resolver o problema. Permaneceríamos em estado de ignorância ou dúvida.
Bertrand Russel: Uma vez que os falecidos não se manifestam aos vivos é perfeitamente lícito e justo inferir que não haja sobrevivência alguma.
Sócrates: És um bom fenomenologista. Eu no entanto não creio que a existência de qualquer tipo de ser, esteja na dependência de nossa consciência ou capacidade sensorial. Bilhões de estrelas que jamais foram percebidas por nós existem em si mesmas como existiam - em nosso próprio mundo - tantas e tantas coisas mesmo antes de terem sido percebidas e descobertas por nós. Tu confundes conhecimento ou manifestação com existência, de minha parte não posso deixar de encara-lo como uma espécie de antropocentrismo gnoseológico... os falecidos bem poderiam sobreviver e por qualquer causa por nós ignorada não se poder manifestar a nós ou comunicar conosco. Assim de uma fato não se pode deduzir outro.
Bertrand Russel: Ainda assim sou propenso a crer que de meu eu nada restará.
Sócrates: Assim tudo quanto aprendestes a cabo de tantas penas, esforços e sacrifícios reverterá ao nada?
Bertrand Russel: Não sou jovem mas amo a vida. Id 44
Sócrates: Penso que se amas a vida é porque ela corresponda a um bem.
Bertrand Russel: Decerto não poderia ama-la caso corresponde-se a um mal. Amar o Bem e odiar o mal constituem a suprema norma de virtude.
Sócrates: No entanto cogitas perde-la para sempre?
Bertrand Russel: A felicidade não é menos felicidade nem menos verdadeira por ter de chegar a um fim. Id p 44
Sócrates: Deixa ver se te compreendi - Amas a vida porque corresponde a um bem que te torna feliz?
Bertrand Russel: Concedo que a vida corresponda a um bem, assim a amo, e concedo que a posse da vida torna-me feliz enquanto via de acesso aos demais bens que me tornam feliz.
Sócrates: Ótimo. Concedes que a morte corresponda ao oposto da fruição da vida?
Bertrand Russel: Sim, parece-me exato que a morte corresponda ao contrário da vida.
Sócrates: Neste caso se a posse da vida corresponde a um bem, como poderíamos avaliar a morte ou cessação da vida senão como um mal?
Bertrand Russel: Julgo que pensamento e o amor não percam seu valor pelo fato de não serem eternos. P 44
Sócrates: Assim devemos aceitar que tudo quanto haja de mais elevado e nobre neste nosso mundo esteja fadado a destruição?
Bertrand Russel: É o que me parece.
Sócrates: E te parece que a verdade, o amor, a justiça, etc enfim que tudo isto tenha fim e desapareça por completo?
Bertrand Russel: É o que me parece.
Sócrates: Agora não te parece que tudo quanto dizes ser fadado a ter fim corresponda a virtudes, princípios e valores sobremodo belos e excelentes?
Bertrand Russel: Sim, a existência deste gênero de bens parece-me bela, sem dúvida.
Sócrates: Agora se reconheces em tais virtude alguma beleza, como poderias deixar de reconhecer em sua total aniquilação o triunfo da feiura?
Bertrand Russel: As coisas são como são...
Sócrates: No entanto se enquanto coisas existentes tu ousas avaliar tais virtudes como bens e a contemplar suas belezas, não vejo como possas deixar de classificar a destruição de tais bens como um mal e de tais belezas como feiura.
Bertrand Russel: Neste caso sou constrangido a admitir que a ordem geral deste universo seja feia e má Sócrates.
Sócrates: Uma vez que atribuis ao provisório e passageiro predicados de bondade e beleza com que nossas almas são atraídas para em seguida repudiar tacitamente a estabilidade e continuidade desta ordem de coisas não posso deixar de aquilatar teu universo como imperfeito e tua visão como desastrosa.
Acaso poderia eu deixar de considerar a inexorável aniquilação do Bom, do Verdadeiro de do Belo; e do ideal de sublimidade e perfeição, senão como uma catástrofe?
Bertrand Russel: É que não podes compreender o bem, a verdade e beleza a não ser como entidades eternas.
Sócrates: É que não posso encontrar verdadeiro Bem, verdadeira verdade e verdadeira beleza, enfim autenticidade senão no que seja duradouro, estável e eterno. É que não posso dar com um sentido de perfeição num benefício que desapareça e se converta em nada... É que não ousaria reverter o que há de mais precioso quanto a categoria do ser, ao não ser.
É que considero o bem, a verdade e a beleza dignos de existirem para sempre e este meu ideal humano é mais elevado do que este teu universo em que as formas mais preciosas da existência revertem ao nada...
É que tua concepção se me apresenta como má, feia, desastrosa e imperfeita.
Bertrand Russel: Pura questão de ponto de vista...
Sócrates: Pura questão de ponto de vista...






sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Instruir ou educar?

Não sou radical.

As vezes radicalismo é necessário.

Devemos ser radicalmente justos...

Na maioria das vezes porém os radicalismos são maléficos.

Em educação há dois extremos bem distintos. Alias em educação há diversos extremos.

Um deles no entanto diz respeito ao instruir e ao educar.

Reflexo da velha e decantada 'oposição' entre teoria e prática.

Há vertente que opõem-se a instrução. Há até vertente que se opõem a existência da Escola e do professor...

Não sou contra a instrução, a escola, o professor...

Penso no entanto que tais realidades devam ser repensadas.

Aprofundadas, ampliadas, redimensionadas...

Classificar o ato de instruir como mau parece-me aberrante.

Mesmo no 'mundo da informação' instruir continua sendo necessário.

A carga de informação é tanta e tão grande que o homem moderno precisa aprender a lidar criticamente com ela.

O que exige a assimilação de certo elemento teórico.

A própria formação do hábito exige pressupostos teóricos.

Ser crítico é hábito que alimenta-se de teoria, que lida com teorias, que exerce juízo sobre teorias.

De fato quando o preceptor limita-se a instruir executa um trabalho incompleto e quiçá superficial.

Importa plasmar comportamentos e criar hábitos. Educar.

Toda instrução deve ser superada, completada ou ultrapassada pela educação.

Não se trata aqui de comunicar ou transmitir conteúdos; mas de fazer-se imitar, de contagiar com o exemplo, de revelar a possibilidade da auto educação enquanto processo que se perpetua durante toda vida.

Para além de ensinar a ler, escrever, contar, calcular, etc o educador de verdade deve fazer com que seus alunos gostem de aprender. Professor realizado é aquele que conseguiu despertar nos educandos o amor pelo saber!

Ser professor é aspirar por ser desnecessário e ficar contente por ter se tornado desnecessário. Que o filho aprenda a caminhar sozinho é o supremo desejo dos pais... que o educando aprenda a instruir-se, a obter as informações, a refletir, a julga-las, a posicionar-se criticamente, a exercer sua autonomia deve ser a meta do educador humanista...

"Que ele cresça e eu desapareça." deve ser nosso leme.

Educar é educar para a autonomia, para a independência, para igualdade.

Instruir ou informar é ato que por si só poderia prolongar-se por séculos sem jamais esgotar-se. Produzindo assim um laço de dependência. Educar é estimular a aquisição de posturas, de princípios, valores, habilidades, competências, etc que nortearão o processo educativo pelo resto da vida...

Instruir por si só não liberta a quem quer que seja. Educar é ato essencialmente libertador.

Instruir é comunicar conceitos ou teorias via de regras por meio da palavra oral ou escrita. Implica despejar em maior ou menor medida. Implica orientar, guiar, corrigir, etc o que não deixa de ser necessário, especialmente nas séries iniciais.

Educar é coisa que se faz antes de tudo pelo exemplo.

Caso esperemos que nossos alunos amem a justiça, não basta declamar poesias ou fazer belos discursos a respeito dela. Mas praticar a justiça e ser inflexivelmente justo em sala de aula; jamais compactuando com a injustiça.

Caso desejemos que amem a leitura, temos de ler em sala de aula com eles e diante deles, temos de leva-los a Biblioteca, temos de estimular e favorecer de todas as formas possíveis a leitura dos livros distribuídos na Escola, temos de tentar produzir gibis e livros com a turma... e não de sermoar.

Esperamos que nosso aluno apresente-se asseado na escola; antecipe-mo-nos e apresente-mo-nos sempre muito bem asseados em nossas classes.

Esperemos que nossos pupilos sejam corteses. Comecemos praticando a cortesia com eles e esbanjando fórmulas como: Bom dia! Com licença! Por favor! Muito obrigado! Nem posso crer que um educador de verdade sinta-se humilhado por ser amável e cortes com seus alunos! Antes julgo que se não é fácil ao menos tentar sorrir para eles, a causa esta perdida...

Problemático é educar com a cara feia...

Ninguém sabe disto melhor do que o governo.

Para o qual é sempre bom negócio transformar escolas em Val de lágrimas ou calvários estudantis... em espaços opressores, em que os alunos se sentem mal, e em que encontram dificuldades para aprender.

Se há alegria, felicidade ou prazer o educador esta a meio passo de consumar sua tarefa...

Educar é tarefa a que muito facilita o contentamento e a que muito atrapalha o desconforto.

Assim se o aluno encara a escola como um espaço triste, desagradável ou chato nossa tarefa fica seriamente dificultada.

Sabem-no como registramos a pouco governos como o de São Paulo (estado) e Paraná. Daí buscarem dificultar ao máximo as vidas de seus educadores, restringir seus direitos, tornar suas jornadas penosas, humilha-los em sessões de HTPCs, esbordoa-los publicamente; em suma desvaloriza-los e desmotiva-los ao máximo até torna-los bárbaros, cruéis e insensíveis.

É o estado liberal responsável pela falência do processo educativo na mesma medida em que tira do professor a satisfação de ensinar, que mata nele o gosto pela educação, que priva-o das condições necessárias para amar e encarar seu aluno com carinho, que sobrecarrega-o com preocupações inúteis, que onera-o com tarefas desnecessárias, que transforma sua carreira num 'inferno' profissional...

Desampara o docente, permite que a estrutura material se desmantele, recusa-se a produzir as alterações espaciais necessárias... IMPLEMENTA - POR MEIO DUMA GESTÃO DESASTROSA - A FALÊNCIA DO ENSINO PÚBLICO, para em seguida propor sua privatização!

Para além disto, como já dissemos, o aluno aprende muito menos neste tipo de Escola... Não consegue sair da caverna, permanece preso as velhas e ultrapassadas formas de pensamento, e... impossibilitado de ultrapassar os preconceitos, fecha-se em seu mundinho para sempre.

É um tipo de educação que raramente produz qualquer sentido social, político, econômico... mais profundo, qualquer tipo de consciência mais refinada... qualquer tipo de questionamento mais sério. É educação falsa, que não produz ruptura, reflexão, posicionamento crítico, compreensão de mundo.

Num ambiente seletivo como este que pode fazer o bom professor, o educador consciente, o preceptor honesto???

Não quero ser pessimista e declarar que ele nada possa fazer.

Jamais desesperei do amor, do carinho, da justiça, da justiça, do bem, da virtude... mesmo que as condições materiais sejam dramáticas e as estruturas opressoras.

Mas também não posso crer que tais esforços possam alterar sensivelmente a dimensão social desta triste realidade.

Não possuímos um exército de mártires ou monges a serviço de uma educação humana.

Por outro lado não é desprezível o número de educadores que premidos pelas forças do currículo e da equipe gestora limitam-se a reproduzir mecânica e acriticamente o que é decretado, havendo também certo número de individualistas e carreiristas, os quais buscam manter seus cargos sem maiores preocupações.

Nem vejo como alguém possa 'educar' numa perspectiva ética sem sentir-se incomodado pela seletividade arbitrária do sistema.

Diante disto, que fazer?

Abandona-lo???

A educador algum que acalente o bom idealismo de inserir-se para fazer oposição ao sistema, direi que não o faça o que não valha a pena. Direi que será um grande desafio, que se aborrecerá, que sofrerá, que padecerá... mas de modo algum direi que não o faça ou que não vá.

"O coração tem lá suas razões que a razão desconhece."

Apesar de ter chegado a meus limites e de - ao cabo de quase dez anos - ter desistido posso dizer que tenho bons motivos para alegrar-me pelo pouco que pude fazer no contexto do Ensino público do Estado de S Paulo. E até posso crer que o pouco que fiz foi muito. Valeu pelas almas que da caverna retirei. Não sei e talvez jamais venha a saber quantas foram... mas valeu por elas.

Importa ter comunicado algum amor pelo saber, algum sentido de alteridade, alguma consciência de justiça, alguma estima pela cultura científica...

Sempre que necessário informei, corrigi, orientei mas, acima de tudo busquei educar por meio do exemplo.

Busquei levar a meus queridos alunos atitudes que perdurem no decorrer de suas vidas.

'Aprender a aprender', 'Aprender a ser' e acima de tudo 'aprender a conviver' foi o quanto busquei despertar neles. Enfatizando sempre a importância da prática, sem ignorar o valor da teoria. Busquei fazer ponte entre os extremos e indicar um meio termo.

Pensei sobretudo em formar pessoas solidárias.

Não intelectuais que fabriquem bombas e venenos...

Prefiro a ignorância dos que amam e buscam beneficiar seus semelhantes.

Prefiro uma lavadeira compadecida, que saiba compadecer-se de um animalzinho qualquer, a um doutor diplomado que chute um cão ou um gato.

Apesar dos diplomas, títulos, condecorações, medalhas, etc não confio em pessoas que torturam e matam animais, que maltratam os mais humildes, que tem preço por alto que custe.

Precisamos de homens ou mulheres que tenham valor, não preço.

De seres verdadeiramente humanos que não se vendam, não se prostituam e não negociem.

Que saibam se opor ao que esta errado e resistir.

Do contrário repetiremos os velhos erros do nazismo e do comunismo.

Nem me refiro ao outro sistema: que sobrepõem o TER ao SER!

Não podemos permanecer atrelados a estas culturas de morte.

Temos de educar para a justiça, o amor, o ser, a liberdade, a vida, o bem, a paz, etc E de educar por meio da linguagem mais poderosa que há: o exemplo.

Professor, professora: fale menos, viva mais. Sua melhor e maior lição é sua vida, não se iluda, não se equivoque, não se engane! Confie mais em suas ações do que em suas palavras!

Menos sermões e discursos fastidiosos; mais carinhos, sorrisos, abraços, beijos, afeto, cortesia, respeito!

Não tenha medo de construir vínculos afetivos respeitosos e saudáveis, pois como alerta Wallon, são eles que tornarão o ensino significativo para nossas crianças.

Se o aluno gostar de você não terá dificuldade em interessar-se pelos conteúdos ministrados. Se ele desgostar de você as chances de transferir tal desgosto para os conteúdos são enormes...

Então faça-se gostar, seja amável, jovial, entusiasmado! Apesar do Estado, dos problemas, do salário, etc se é a profissão que escolheu busque desempenha-la da melhor maneira possível. Pense sempre no professor que queria que seus filhos e netos tivesse e torne-se digno desta meta.

Não desista, não se acomode, não desanime; lute, lute como um leão.



quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Cultura européia, cultura norte americana e cultura islâmica I

Uma das páginas mais tristes da História, e, a meu ver a ascensão dos relativismos. RelativismosS porque são muitos: relativismo intelectual, que é a matriz de todos os outros; relativismo moral, relativismo religioso, relativismo político, relativismo cultural, etc

Para os relativistas todas as coisas são absolutamente iguais.

Na prática porém os relativistas costumam valorizar as coisas de que gostam e a menosprezar as que detestam. Neste caso adotam por critério o próprio gosto ou a própria vontade. Limitando-se a descartar qualquer solução em termos racionais que conduzi-se a uma verdade objetiva.

No plano da espiritualidade ou da religião costumam os relativistas a pontificar declarando que todas as religiões são absolutamente iguais não havendo fé melhor ou pior. Alguns dentre eles alegam que todas as religiões são igualmente boas e outros que são igualmente perniciosas. Importa que são quase sempre incapazes de distinguir umas das outras...

E basta que alguém assuma um posicionamento crítico face ao protestantismo ou o islã, alegando corresponderem a formas religiosas bastante primitivas e grosseiras para que o relativista classifique nossos juízos como arbitrários e tendenciosos! Afinal onde já se viu afirmar que uma fé seja superior a outra!!!

E no entanto são estes respeitáveis senhores os primeiros a lançar pedras ao papa romano, a bradar contra a inquisição e a mencionar os casos Copérnico e Galileu, sustentando inclusive a 'pia fraude' segundo a qual foram ambos torturados e mortos 'pelos padres'!!! Não poupando críticas a igreja romana!

Agora vá o pobre papista mencionar o extermínio dos camponeses, a bigamia do Landgrave de Hesse, o assassinato de Servet, as aventuras do Barão des Adrets, a KKK, o apartheid, o apoio dos pastores ao genocídio dos peles vermelhas, etc Ou, no caso do islã, a jihad, a djzia, a murtad... Aqui o relativista tapa seus ouvidos e vos deixa falando sozinhos!!!

O mesmo se dá no plano da cultura.

Antes de tudo recusam-se os relativistas a considerar qualquer diferença significativa entre a cultura Norte Americana e a cultura Européia. Querendo dizer que é tudo a mesma coisa e classificando esta uma e mesma coisa como a 'cultura ocidental'. A qual vinculam genericamente ao modo de produção capitalista, COMO SE NADA HOUVESSE ANTERIORMENTE OU O CAPITALISMO TUDO PRODUZISSE EM TERMOS DE CULTURA OCIDENTAL.

Após terem feito isto declaram pomposamente que todas as culturas possuem o mesmo valor, a dos hotentotes, a dos bosquimanos, a dos inuits, a dos alacalufes a dos diaguitos, a dos árabes, a dos aborígenes, a dos tuaregs e a ocidental. E se negais este dogma sacrossanto imposto por eles, cais sob suspeita de fascismo, termo pelo qual foi substituído o rótulo herético!

Não sou fascista, não aprovo esse sistema estatólatra, não comungo desta cultura de morte. No entanto oponho-mo da mesma maneira ao emprego do rótulo 'fascista' a moda de espantalho intelectual! Não é por ser socialista, trabalhista ou esquerdista que vou ser imbecil ignorar a dinâmica da cultura e a notação cultural.

De fato tudo quanto é produzido pelo ser humano é cultura. Jamais, longe de nós a vã pretensão de nega-lo. No entanto nem por isso a cultura deixa de ter uma notação valorativa. Tanto em termos de ética ou promoção humana quanto em termos de padrão científico. Toda cultura possui seu valor, porém nem todas possuem o mesmo e igual valor.

Umas são mais atrasadas, outras mais desenvolvidas. Umas mais ricas e exuberantes, outras mais pobres. Umas mais humanas outras nem tanto...

Umas mais outras menos preconceituosas. Umas mais outras menos libertárias...

Umas realistas outras imaginativas...

Querer que tudo seja exatamente igual nesta massa heterogênea é forçar a realidade.

Nem se diga que faltam-nos critérios para julga-las objetivamente.

Não, não nos faltam.

Basta dizer que uma civilização humanista supõem a afirmação da dignidade humana.

Noção de justiça.

Contato com a realidade.

Respeito a vida.

Princípios que nada tem de relativo.

Sob pena de termos sido hipócritas ao condenar o nazismo, o fascismo, o comunismo e o capitalismo.

Em nome do que condenamos tais sistemas se todos os princípios e valores são de natureza subjetiva?

Por que sacrificamos Hitler, Mussolini, Stalin e nos opomos a Bush se tudo é relativo?

Afirmar o relativismo e o subjetivismo em termos absolutos é justificar todas as ideologias acima e conceder-lhes foros de cidade!

No entanto podemos condena-las todas em nome de algo: a dignidade humana!

Não os direitos do homem não são frutos de pura e simples convenção. Convenções mudam! Nem podemos dizer que foram criados pela democracia ou que devam ser reconhecidos por ela! Pois estão acima dela! Os direitos humanos não carecem de sansão humana que os valide! São a essência da própria natureza humana! Apenas podem ser ampliados na medida em que conhecemos melhor esta essência!

Agora se todas as culturas são iguais por que a cultura 'Ocidental' é sempre apresentada como bastarda ou inferior pelos apóstolos do relativismo???

Pois a todo momento dou com habitantes de algum centro urbano pontificando sobre a superioridade da cultura indígena, dos povos da floresta, dos povos do deserto... e é todo um empenho titânico em apresentar a cultura do espírito da mandioca como infinitamente superior a que desenvolveu as vacinas, o soro antiofídico, e outros tantos medicamentos responsáveis por salvar as vidas de tantos seres humanos espalhados pelos desertos e florestas deste mundo. Quase todos tomam captopril, glibenclamida, azitromicina... os quais certamente não adquirem nos desertos e nas florestas!

Gostaria que os críticos da sociedade européia fossem pedir medicamentos e terapias aos hotentotes, alacalufes, pataxós, inuits, etc!

Melhor. Por que os defensores da superioridade nativa continuam vivendo conosco nas grande cidades e utilizando-se da rede mundial de computadores???

Por que ainda não se transferiram para os desertos e florestas e adotaram o modo de vida dos povos a que tanto elogiam???

Mas essas pessoas cospem no prato em que comem.

Sustentam a superioridade da cultura primitiva com o celular nas mãos!

Coerência manda abraços! Seus hipócritas!

Tudo é relativo mas nossos relativistas não conseguem se desprender da tecnologia!

De fato cultura alguma é perfeita. Todas tem seus defeitos.

Assim a européia.

A qual também não faltam virtudes. Afinal foi esta cultura que produziu um Homero, um Anaxágoras, um Parmênides, um Sócrates, um Platão, um Aristóteles, um Zeno, um Hipócrates, um Cícero, um Sêneca, um Quintiliano!

E posteriormente: um Erasmo, um Campanella, um Morus, um Copérnico, um Vesalius, um Da Vinci, um Galileu, um Descartes, um Bacon, um Cervantes, um Camões, um Dante, um Shakespeare, um La fontaine, um La Bruyére, um L Eppe, um L Braile, um Dunant, um Thoureau!

Aos quais ajunto por conta: um Damiron, um Jouffroy, um Maine de Biran, um L Bloy, um Lewis Whyndan, um Chirstopher Dawson, um E Mounier, um Ch Maritain, um H Belloc, um R Jolivet, um J Benda, um Henry George, um Rougemont, um Marcel, um Blondel, um Sciacca, um De Ruggiero...

Que haverá de mais expressivo ou refinado em termos de pensamento do que um Freud, um Marx, um Darwin e um Weber???

Então meus queridos algum valor deve ter esta cultura!

Produziu beleza em termos de poesia! Produziu reflexão filosófica profunda! Produziu um ideal de justiça social imorredouro! Produziu um método científico!

Instituições as quais, em certo sentido, nossas personalidades são tributárias!

Digam o que disserem os contrários mas esta galeria de nomes ilustres impede-me de cair na falácia do relativismo cultural.

Temos problemas?

Temos. E um sério problema no plano da economia, a saber: o modo capitalista de produção!

É nosso calcanhar de Aquiles.

Mas nem por isso o corpo de Aquiles deixava de ser invejável por causa do calcanhar.

Uma coisa é o calcanhar e outra o corpo.

Devendo ser analisadas e avaliadas separadamente: a cultura e o sistema econômico de produção ou melhor quais de nossas fontes e raízes culturais permaneceram viva após o advento do capitalismo.

Assim saberemos o que deve ser mantido e o que de fato deve ser rejeitado e qual é a cultura de morte que se espalha pelo mundo!















quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Cidadania, ética e valores na escola contra a violência





Reproduzo  de memória uma redação que fiz para poder fazer uma pós graduação pela USP, o que infelizmente não consegui mas não me sinto culpado.

Os veículos de comunicação vez por outra noticiam episódios de violência contra professores na escola, e, não são poucos os professores que sofrem violência, mas não só os professores sofrem violência mas também alunos são atingidos por ela e mesmo suas famílias. Qual é a gênese dessa violência? Muitas vezes essa violência nasce nas famílias dos alunos (não de todos, mas de muitos) e estes apenas a reproduzem, eles sofrem a violência física e também a violência  socioeconoômica imposta por uma sociedade injusta.

O problema esta posto, como resolver este impasse? Que ética devemos ensinar aos nosso alunos para mudar esta realidade? Os valores que devem ser ensinados são basicamente dois: o apoio mútuo e a liberdade. O apoio mútuo porque devemos ensinar aos nossos alunos que eles só poderão conseguir espaço na sociedade se eles se ajudarem e se forem ajudados mutuamente, que o individualismo não os levará a lugar algum e que o apoio mútuo elimina a concorrência que é um dos fatores da violência na escola e na sociedade como um todo. O outro valor a ser cultivado é a liberdade, pois a liberdade implica em responsabilidade, já foi demonstrado à exaustão que dentro da liberdade os alunos se tornam mais criativos e mais responsáveis como já demonstrou José Pacheco na Escola da Ponte. Os alunos deveriam participar da elaboração do regimento escolar, deveriam ter liberdade para aprender, sem gritos, sem autoritarismo. Infelizmente isso não é possível porque nosso sistema escolar é todo baseado no autoritarismo.

Se queremos uma escola que funcione devemos adotar a ética da liberdade e do apoio mútuo uma vez que desses valores brotarão a solidariedade, a criatividade e a responsabilidade, se não for por estas vias a realidade escolar não vai mudar e todos os discursos serão vãos.



P.S.: Foto da escola anarquista Paideia na Espanha