Mostrando postagens com marcador Belo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Belo. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

A miséria da arte moderna.

Resultado de imagem para arte moderna bizarra





Baumgarten, Baumgarten... raramente escrevo sobre Estética.

Aqui, mais do que em qualquer outro campo, escrever é polemizar.

Acusado de ser demasiado progressista (rsrsrsrsrs Nem tanto pois meu progressivismo não vem da 'caixola' mas, creia leitor, do passado - E por isso apresento-me como reacionário ou anacrônico. Jamais como conservador pois não creio que muito do que temos HOJE mereça ser conservado!) em moral, política, economia, etc devo ser classificado como 'conservador' ao menos nesta área, alias nesta única área. Conservador face a realidade estético acadêmica do século XIX, assim anti pós modernista ou mesmo modernista neste campo. Ou, como e caso queiram reacionário, ultra reacionário, caso admitamos que o modernismo está mesmo na berlinda. Odeio o pós modernismo e o modernismo com todas as forças da alma, inclusive na gnoseologia, mas, sobretudo na estética.

Então vamos logo ao 'prato' e que temos ai???

Temos arte dirão nossos amiguinhos pós modernistas e modernistas, eu direi que temos expressões meramente subjetivas preciosas para a Psicologia, mas não arte propriamente dita.

E por que não temos arte???

Não temos arte porque este festival de psicologismo é irredutível a qualquer avaliação objetiva ou exata em termos de técnica ou mesmo de ponderação estética. O que temos aqui é apenas emoção ou emocionalismo irredutível a qualquer padrão ou critério avaliativo exato, seguro ou objetivo. É algo que não se pode valorar com segurança ou a respeito de cujo mérito se chegue a qualquer acordo. Decretar que a arte moderna deva ser reconhecida como meritória por todos ou por toda crítica é rematado absurdo, filho de incoerência. Nada pode obrigar-me a mim ou qualquer outra pessoa a reconhecer valor estético nessa 'arte' reducionista e mutilada.

Ok, dirá você. Acaso a arte não deve contemplar a esfera do sentimento e satisfazer esta demanda?

Tolo seria, de minha parte, discordar de você. Claro que um dos aspectos distintivos da arte ou da estética é mexer com os sentimentos humanos. Claro que a contemplação da arte tem por fim despertar o sentimento ou a emoção estética. A fruição dos sentimentos e emoções faz parte efetiva da produção artística, por meio da qual o mundo externo não é apenas representado, mas, aperfeiçoado, na medida em que encontra seu ideal.

Então qual o problema?

O problema é que a parte não é o todo.

Fixar-se apenas e tão somente no sentimental/emocional, no subjetivo apenas ou no psicológico será sempre reduzir ou mutilar a condição humana. Afinal não é este homem apenas sentimento ou emoção e há nele um elemento de razão e outro de experiencialidade, os quais devem estar em comunhão e ser representados numa arte integral.

Certo, o sentimento deve ser posto na obra de arte. Assim a emoção. E deve ela causar impacto emocional. No entanto essa emoção deve ser expressa em comunhão com o racional e dentro de determinadas normas técnicas de execução que possam ser objetivamente mesuradas. Do contrário jamais poderemos avaliar esta arte.

Após o sentimento ou a emoção deve ser considerada pela crítica o elemento objetivo, racional ou técnico. A harmonia entre as tonalidades de cores, como salientou Van Gogh a respeito das magníficas telas de Millet; a forma do desenho, a perspectiva, etc Como deixar de considerar estes aspectos presentes na natureza???

Dirá você que o inconsciente não conhece normas e que a arte atual é expressão de um mundo onírico isento de regras. Então é apenas uma expressão psicológica de uma vida interior ou emanação das profundezas da mente. Algo que se reduz a psicologia ou fenômeno psicológico... Neste caso para que manter a farsa ou a encenação aparatosa dos concursos e prêmios??? Como distinguir expressões meramente psicológicas ou mentais umas das outras. Se por princípio todas as manifestações do inconsciente tem o mesmo valor (que é meramente subjetivo!) como premiar uma e não outra??? Em que uma simples manifestação da atividade mental ou da imaginação é, em si mesma, superior a todas as outras. Apenas a forma, vazada na técnica, pode comunicar superioridade ou inferioridade... E para a arte moderna e irredutível a qualquer controle externo e objetivo, a forma não é nada. E já não existe norma ou regra que nos permita julgar esta produção, declarando que uma seja melhor ou pior do que todas as outras. O que você tem ai são expressões livres do inconsciente... Como levar tais expressões a um concurso e premia-las como se melhores fossem???

Elaborações meramente subjetivas e fora de qualquer controle objetivo por ausência de normas não podem ser julgadas.

É exatamente por isto que X ou N podem enlatar as próprias fezes ou grudar catarro em folhas de papel e proclamar que é arte, arte moderna...

Mas que há de estético ou de verdadeiramente belo em cocô enlatado ou em escarro espalhado sobre o papel???

Bem se vê que a arte psicologista ou do inconsciente perdeu por completo seu sentido. A ponto de ignorar a contemplação estética de um ideal harmonioso ou a dimensão do belo.

Esta arte se contenta em impactar emocionalmente. Como se a outra, a formal ou acadêmica não contemplasse este aspecto há muito tempo ou a milênios. Como de a contemplação de um Polikleitos ou de um Parrasio não suscitasse absolutamente nada nos homens... Como se alguém pudesse permanecer indiferente face a obra de um Praxísteles ou de um Apeles!!! No entanto, além disto, havia norma e regra, uma técnica de execução a ser objetivamente avaliada ali. E bem se poderia justificar a excelência de um Fídias face a seus rivais sem maiores problemas...

Uma arte que se esgota na emoção ou no sentimento e que se proclama livre ou acima de todas as regras, além de trivial e fácil não pode ser avaliada.

É trivial porque qualquer criança pequenina, a qual seja dada papel e tinta, pode executa-la perfeitamente. Basta espalhar as cores com os dedos sobre o papel, tudo misturando... ou ensaiar algumas formas obscuras ditadas pelo senhor inconsciente. E alí estão as obras primas da arte moderna!!! Executadas por qualquer nascituro... Diante disto como premiar o pintor X ou o escultor N??? Se qualquer moleque recém nascido é capaz de exprimir a mesma coisa???

Mas a ser trivial é esta nova arte fácil e este é seu problema central ou basilar. Posto que não precisa ser estudada ou aprendida. É arte que não demanda esforço algum. Arte que não precisamos beber junto a um mestre consumado.

Admitida a arte sem compromisso da facilidade, a verdadeira arte, que demanda esforço ou aprendizado torna-se vulnerável ou posta a morte e ao desaparecimento e por isso mesmo, a concepção psicologista ou modernista da arte não deve ser encarada como algo inofensivo pelo filósofo mas como algo monstruoso. Afinal de contas por que qualquer artista iniciante haveria de tomar a senda estreita de um Delacroix ou de um Canova, ou de um Thorwaldsen se para obter a glória basta-lhe rabiscar ou bater com o martelo num bloco qualquer?

Dizer que todos são artistas criadores de obras primas é dizer que não há artista algum ou obra prima alguma. Mas... você sempre poderá aprender e criar pautando-se ao menos em algumas regras, o que de fato abre espaço ao talento.

Como sempre a esquerda desorientada adorou a demolição da arte acadêmica ou 'burguesa' - e assim relativa... Pelo simples fato de que todos os homens, especialmente os miseráveis, que não teem acesso ao estudo, a aprendizagem ou a formação, poderem apresentar-se como artistas, dentro de um padrão de igualdade absoluta.

Concedo que o monopólio estético da arte caiu nas mãos desta burguesia sem consciência, e que a arte acadêmica, em sua esfera, foi amiúde acrítica e servil. Que os donos do poder se tenham apropriado da beleza em proveito próprio é fato que deploramos. Aos simples e restou apenas o trabalho bruto e insano, e a criação do que chamam arte popular ou mesmo de massas, a qual nem sempre é alheia a cânones e regras... E nem sempre é feia ou isenta de méritos. Alias é sempre significativa quando a falta de técnica ou preparo aspira por um ideal de beleza a que não tem acesso.
Tal o contesto a partir do qual os comunistas e anarquistas (Sobretudo estes porquanto a URSS conheceu uma arte Realista, em que pese seu engajamento!) passaram a encarar a supressão das normas no domínio da arte como uma espécie de pré revolução ou peristilo da revolução... E tornaram-se eles iguais por essa nova arte antes de se tornarem verdadeiramente iguais quanto a vida social. Foi uma igualdade funesta. Por ter privado parte dessas massas da contemplação da beleza a que por vezes tinham acesso. A qual a um lado serenava e a outro educava... Contemplar a Notre Dame ou o Partenon jamais deixou de ser catártico para quem quer que fosse.

Mas essa ideia pós modernista, que implica encarar todas as manifestações livres do inconsciente como artísticas equivale, no plano da economia, em transformar todos os cidadãos em milionários pelo simples fatos de acrescentarmos alguns zeros a direita dos centavos, convertendo-os em milhões... Seria como nivelar todos pela mesma miséria após ter destruído todas as riquezas. Belo nivelamento, em que todos se tornem iguais pela falta ou pela carência! Quanto valia o título de cidadão romano quando a todos foi oferecido por Caracalla??? Devia valer muito pouco, se é que valia algo! Tornaram-se todos cidadãos por decreto porque a cidadania nada mais significava. Hoje a modernidade reconhece que todos os homens são artistas em estado de natureza justamente porque... Tire suas conclusões enquanto nas tais exposições de arte moderna oferecem fezes enlatadas ou catarro espalhado sobre o papel... Por que não engarrafam peidos???

A arte moderna não vulgarizou ou popularizou a arte. O que demandaria educação, escolaridade, alteração das estruturas, clamor, revindicação, etc A arte moderna demoliu a arte enquanto auto suicídio da arte e só podemos compreende-la a luz da imensa miséria produzida pelo capitalismo, tal e qual o fanatismo religioso, o pragmatismo, o ceticismo... Tudo miséria oferecida pela miséria. É forma de alienação por apartar o homem de um ideal de beleza que o acompanha desde Lascaux e Altamira, e que o fez erguer soberbas pirâmides e catedrais preciosas. A malignidade da avareza apropriou-se deste universo de beleza, a imbecilidade dos modernos negou-o.

Mas se enfim o que este homem moderno deseja é apenas chocar-se ou experimentar sensações análogas aos que experimentam aqueles que se atiram do Bungee Jump... Se objetivo é apenas fruir de sensações cegas e incontroláveis, inconscientes e irredutíveis a razão. Não há o que discutir. O homem se joga em seu próprio vazio, este homem mutilado e sem sentido. O problema aqui seria descobrir que sobre este ou aquele aspecto estas idolatradas forças do inconsciente não são seguras, ou que são destrutivas... Abismos há, ou fossas, cujas tampas só deveriam ser alevantadas num bom consultório de psicologia. Já disse, tais expressões, como exposições de arte moderna, são imensamente ricas (E eu mesmo a elas vou, como estudioso da psicologia humana - Alias sob seu aspecto patológico - ) do ponto de vista psicológico ou da anormalidade mental. Como expressões de arte são apenas o 'nada absoluto' ou a negação.

Sei que meu posicionamento chocará há muitos. Mas sei que serão apenas os psicologistas que satanizam o controle racional e que super valorizam a afirmação de um inconsciente irredutível a normas em todas as dimensões da atividade humana. Como disse não sou nada otimista face a estas forças cegas que se acham do outro lado da porta!

domingo, 1 de novembro de 2015

Sócrates encontra Bertrand Russel





Bertrand Russel: Cheguei a conclusão de que todo medo é mau. Porque não sou Cristão 44
Sócrates: Interessante. No entanto qual foi teu ponto de partida para chegar a tamanha conclusão?
Bertrand Russel: Acaso os homens ilustres não tem encarado o medo como algo vergonhoso? id
Sócrates: Os homens também tem encarado o ato sexual como vergonhoso e por isso decretado sua ocultação. Mas nem por isso fica sendo ele mau.
Bertrand Russel: Penso que o medo derive sempre da ignorância. Assim se tomamos a ignorância como um mal a ser superado não podemos tomar o medo por bem a ser desejado.
Sócrates: Não me parece que o medo derive sempre e necessariamente da ignorância. Acaso aquele que conhece a dor cessará de teme-la porque a conhece? Em que o conhecimento diminui o medo ou receio da dor?
Bertrand Russel: Este homem, que tem medo da dor, ignora certamente que em si mesma ela corresponde a um benefício na medida em que informa-o sobre alguma anomalia ou enfermidade presente no organismo predispondo-o a procurar o médico, a tratar-se e a obter a cura.
Sócrates: Pareces ignorar que algumas enfermidades dolorosas, mesmo quando diagnosticadas precocemente, excluem toda e qualquer esperança de cura ou mesmo alivio. Neste caso qual seria o benefício da dor?
Bertrand Russel: Exercitar a coragem ou a firmeza do caráter.
Sócrates: No entanto se este homem encontra-se a caminho da morte e da aniquilação, que benefício lhe traria tal exercitamento?
Bertrand Russel: Convenhamos então que a consciência da dor também produz medo, acaso seria tal medo bom?
Sócrates: Talvez devamos situar este gênero de medo como natural. A principio não ousarei classifica-lo como um bem, não vejo todavia como o possas classificar como mal.
Bertrand Russel: Queres dizer com isto que homem algum seja capaz de vencer o medo da dor:
Sócrates: Quero dizer com isto que os que venceram tal tipo de medo tiveram de conhece-lo, pois caso não o tivessem conhecido não o teriam vencido. Da mesma forma todos os que jamais lograram vence-lo. Todos os homens conheceram o medo da dor.
Bertrand Russel: Sabemos no entanto que alguns homens jamais conheceram a dor.
Sócrates: Todavia pela experiência comum puderam saber que se trata dum estado desconfortável, que é temido pelos homens e portanto indesejável.
Bertrand Russel: Deixemos de lado o problema específico da dor e convenhamos que a parte dela, os homens tem medo daquilo que ignoram.
Sócrates: Mesmo pondo de lado o problema específico da dor não poderia estar de acordo contigo?
Bertrand Russel: Mas por que caro Sócrates?
Sócrates: Os homens tem medo da pobreza mesmo quando cônscios de seus resultados, como temem do mesmo modo e forma a vergonha, mesmo sabendo do que se trate.
Bertrand Russel: Cessa de embromar oh Sócrates e declara logo onde queres chegar?
Sócrates: Quero dizer que os homens temem tudo quanto provoca desconforto a natureza, tando no corpo quanto na alma. Assim como a dor representa um desconforto ou incomodo para este corpo físico, certas circunstâncias externas como a miséria, a vergonha, a solidão, etc mesmo quando bem conhecidas não podem deixar de produzir certa dor ou desconforto na alma.
Bertrand Russel: Agora te peguei grande Sócrates! Pois se o medo da miséria, da vergonha e da dor devem ser superados ou vencidos e esta superação é um bem, deves convir comigo que tais medos devam ser classificados como males!
Sócrates: Eu sempre poderia responder dizendo que caíste na falácia romântica que tende a tudo encarar em termo de bens ou males absolutos, segundo o padrão binário de pensamento; e redarguir que entre o Bem e o Mal absolutos há uma gigantesca escala de bens e males maiores e menores. E já poderia dizer que o temor de algumas coisas é um Bem, mas que a superação de tais temores constitui um bem maior.
Bertrand Russel: Então ousarás declarar que tais medos correspondam a bens?
Sócrates: Sim, pois é justamente o temor a esta ou aquela circunstância imposta pela vida que te levará a envidar todos os esforços possíveis com o objetivo de evita-la. Não houvesse o temor dos naufrágios em que estado ficariam as peças dos navios?
Bertrand Russel: Julgo que ninguém lhes daria lá muita importância...
Sócrates: No entanto tanto mais perigoso é um mar e tanto mais aprestados são os navios que por ele circulam, achando-se cada peça em seu lugar e os cordames e as velas, tudo muito bem conservado.
Isto em virtude do que? Do medo...
E o medo impede que a desgraça de concretize!
Bertrand Russel: Parece-me que desta vez acertastes.
Sócrates: Assim ao curso da vida o homem previdente, temendo tornar-se miserável evitará o desperdício e fará economia. O que teme qualquer tipo de vergonha buscara viver virtuosamente, no exercício da temperança e o que teme a solidão tudo fará para acercar-se de bons amigos e rete-los. O que de modo algum fariam caso nada temessem!
Bertrand Russel: De acordo. Agora não te parecem que alguns medos ao menos estejam relacionados com a ignorância, e que esta categoria de medos ao medos seja nefasta?
Sócrates: Penso que te refiras ao temor do escuro, acalentado pelas crianças de pouca idade e do temor da morte.
Bertrand Russel: Exatamente. Pois nem sabemos o que haja ou não no escuro e para muitos a morte equivale a uma espécie de mistério.
Sócrates: Deves saber que não só as crianças pequenas imaginam que hajam monstros no escuro, em seus armários ou debaixo de suas camas; mas que também aos adultos ajuizados é molesto sair a rua durante a noite onde não haja iluminação pública ou ao menos uma archote.
Bertrand Russel: De fato sempre poderia haver um buraco ou uma pedra solta no meio do caminho, uma fera ou um ladrão.
Sócrates: A luz, em especial a do dia, torna visíveis os obstáculos e perigos que deves evitar. As trevas ocultam-nos. Pode ser que nada haja lá de perigoso, mas também pode ser que haja algo. Sair de casa e enfrentar as trevas do caminho é sempre uma aposta que envolve a sorte e portanto a incerteza ou a insegurança, a qual produz sempre algum desconforto na alma. Por isto o homem, mesmo adulto teme a escuridão, caro Russel, porque o risco ou o perigo, a aposta e a sorte, sempre incomodam o homem.
Bertrand Russel: Diante disto só lhe resta explorar o ambiente e perder o medo.
Sócrates: Ou encontrar um obstáculo qualquer e perder a vida...
Bertrand Russel; Pendo ter compreendido o que queres dizer...
Sócrates: A situação que precede a investigação, no caso do escuro, sempre envolverá o medo. E este nem sempre será ocioso. Pode ser que o homem por obra e graça do temor, conserve a vida, que é o mais precioso dos bens.
Conhecer neste caso, sempre implicará a possibilidade de conhecer algo de funesto ou pernicioso e ignorar por força do medo sempre implicará a possibilidade de conservar a vida ou a integridade. E não me poderás convencer de que vir a conhecer um buraco, um charco, uma áspide ou a um ladrão armado corresponde a um conhecimento bom.
Bertrand Russel: Que me dizes agora a respeito dos que temem a morte?
Sócrates: Se a morte corresponde a cessação do ser não há porque teme-la, quando ela vier não serei, enquanto eu for ela não terá chegado. Agora se corresponde a uma espécie de reencontro com os ancestrais que imbecilidade não seria temer tal reencontro... (Apologia de Sócrates - Platão)
Bertrand Russel: Queres dizer que não sabes que seja a morte?
Sócrates: Como poderia saber que é a morte se não sei que seja a vida? (Confúcio 'Analectos')
Bertrand Russel: Te direi o que é a morte caro Sócrates > Penso que, quando morrer, apodrecerei, e nada do meu eu sobreviverá. Porque não sou Cristão p 44
Sócrates: Diz-me cá uma coisa oh Bertrand, por que modo e maneira somos nós homens mortais capazes de conhecer a realidade?
Bertrand Russel: Ora Sócrates por meio do contato ou da experiencialidade.
Sócrates: Neste caso como poderias saber o que se sucede no momento da morte, acaso já morreste ou tiveste uma experiência de morte?
Bertrand Russel: Certamente não.
Sócrates: Então como podes afirmar que o conhecimento se dá por via de experiência e contra tua própria doutrina afirmar que saber o que se sucede conosco após uma morte que ainda não experimentaste?
Bertrand Russel: Acaso algum homem tornou do mundo dos mortos para declarar que sobreviveu?
Sócrates: Tua pergunta é demasiado delicada, mas, por mera aquiescência direi que não e peguntar-te-ei: A que propósito vem isto?
Bertrand Russel: Uma vez que falecido algum jamais manifestou-se declarando-se estar vivo, dou por certo que a alma morre juntamente com o corpo físico, isto se existe.
Sócrates: Sabes melhor do que eu que nada se pode de positivo do argumento do silêncio. Caso um morto houvesse se manifestado e demonstrado estar vivo, teríamos o direito de declarar que a alma sobrevive a dissolução do corpo. Agora face a hipótese segundo a qual morto algum jamais teria se manifestado aos vivos, jamais teríamos como sair da dúvida ou resolver o problema. Permaneceríamos em estado de ignorância ou dúvida.
Bertrand Russel: Uma vez que os falecidos não se manifestam aos vivos é perfeitamente lícito e justo inferir que não haja sobrevivência alguma.
Sócrates: És um bom fenomenologista. Eu no entanto não creio que a existência de qualquer tipo de ser, esteja na dependência de nossa consciência ou capacidade sensorial. Bilhões de estrelas que jamais foram percebidas por nós existem em si mesmas como existiam - em nosso próprio mundo - tantas e tantas coisas mesmo antes de terem sido percebidas e descobertas por nós. Tu confundes conhecimento ou manifestação com existência, de minha parte não posso deixar de encara-lo como uma espécie de antropocentrismo gnoseológico... os falecidos bem poderiam sobreviver e por qualquer causa por nós ignorada não se poder manifestar a nós ou comunicar conosco. Assim de uma fato não se pode deduzir outro.
Bertrand Russel: Ainda assim sou propenso a crer que de meu eu nada restará.
Sócrates: Assim tudo quanto aprendestes a cabo de tantas penas, esforços e sacrifícios reverterá ao nada?
Bertrand Russel: Não sou jovem mas amo a vida. Id 44
Sócrates: Penso que se amas a vida é porque ela corresponda a um bem.
Bertrand Russel: Decerto não poderia ama-la caso corresponde-se a um mal. Amar o Bem e odiar o mal constituem a suprema norma de virtude.
Sócrates: No entanto cogitas perde-la para sempre?
Bertrand Russel: A felicidade não é menos felicidade nem menos verdadeira por ter de chegar a um fim. Id p 44
Sócrates: Deixa ver se te compreendi - Amas a vida porque corresponde a um bem que te torna feliz?
Bertrand Russel: Concedo que a vida corresponda a um bem, assim a amo, e concedo que a posse da vida torna-me feliz enquanto via de acesso aos demais bens que me tornam feliz.
Sócrates: Ótimo. Concedes que a morte corresponda ao oposto da fruição da vida?
Bertrand Russel: Sim, parece-me exato que a morte corresponda ao contrário da vida.
Sócrates: Neste caso se a posse da vida corresponde a um bem, como poderíamos avaliar a morte ou cessação da vida senão como um mal?
Bertrand Russel: Julgo que pensamento e o amor não percam seu valor pelo fato de não serem eternos. P 44
Sócrates: Assim devemos aceitar que tudo quanto haja de mais elevado e nobre neste nosso mundo esteja fadado a destruição?
Bertrand Russel: É o que me parece.
Sócrates: E te parece que a verdade, o amor, a justiça, etc enfim que tudo isto tenha fim e desapareça por completo?
Bertrand Russel: É o que me parece.
Sócrates: Agora não te parece que tudo quanto dizes ser fadado a ter fim corresponda a virtudes, princípios e valores sobremodo belos e excelentes?
Bertrand Russel: Sim, a existência deste gênero de bens parece-me bela, sem dúvida.
Sócrates: Agora se reconheces em tais virtude alguma beleza, como poderias deixar de reconhecer em sua total aniquilação o triunfo da feiura?
Bertrand Russel: As coisas são como são...
Sócrates: No entanto se enquanto coisas existentes tu ousas avaliar tais virtudes como bens e a contemplar suas belezas, não vejo como possas deixar de classificar a destruição de tais bens como um mal e de tais belezas como feiura.
Bertrand Russel: Neste caso sou constrangido a admitir que a ordem geral deste universo seja feia e má Sócrates.
Sócrates: Uma vez que atribuis ao provisório e passageiro predicados de bondade e beleza com que nossas almas são atraídas para em seguida repudiar tacitamente a estabilidade e continuidade desta ordem de coisas não posso deixar de aquilatar teu universo como imperfeito e tua visão como desastrosa.
Acaso poderia eu deixar de considerar a inexorável aniquilação do Bom, do Verdadeiro de do Belo; e do ideal de sublimidade e perfeição, senão como uma catástrofe?
Bertrand Russel: É que não podes compreender o bem, a verdade e beleza a não ser como entidades eternas.
Sócrates: É que não posso encontrar verdadeiro Bem, verdadeira verdade e verdadeira beleza, enfim autenticidade senão no que seja duradouro, estável e eterno. É que não posso dar com um sentido de perfeição num benefício que desapareça e se converta em nada... É que não ousaria reverter o que há de mais precioso quanto a categoria do ser, ao não ser.
É que considero o bem, a verdade e a beleza dignos de existirem para sempre e este meu ideal humano é mais elevado do que este teu universo em que as formas mais preciosas da existência revertem ao nada...
É que tua concepção se me apresenta como má, feia, desastrosa e imperfeita.
Bertrand Russel: Pura questão de ponto de vista...
Sócrates: Pura questão de ponto de vista...