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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

O acúmulo de bens materiais a luz da Filosofia antiga

Cuidam os liberais estúpidos que a primeira objeção contra o acumulo de bens materiais tenha partido dos Comunistas ou de seu patriarca Karl Marx.

Nem pode a mediocridade ou melhor nulidade liberal fugir ao vezo de tudo atribuir aos tais comunistas, Marx, Engels, Lênin, etc

De minha parte ja era socialista convicto, bem antes de ter ouvido falar pela primeira vez em tais nomes pelo simples fato de ter encontrado nas páginas do Evangelho os seguintes mandamentos:

  • NÃO JUNTEIS tesouros neste mundo onde a traça e a ferrugem devoram os elementos, mais forcejai por juntar um tesouro incorruptível no mundo celestial.
  • NÃO PODEIS ADORAR A DEUS E AO DINHEIRO.
  • É MAIS FACIL UMA CORDA PASSAR PELO FUNDO DE UMA AGULHA DO QUE UM RICO ENTRAR NO REINO DOS CÉUS.

E como ex protestante eu já estava imunizado contra o vício do livre examinismo que consiste em atribuir as palavras de Cristo, sentido diverso ou mesmo oposto, ao que lhe é próprio e de distorcer sua mensagem.

Diante disto também não me deixei enganar facilmente pelo livre exame exercido pelo clero papista, apenas mais sutil, por estribar-se em 'tradições' eclesiásticas forjadas durante a Idade Média por clérigos de idoneidade suspeita.

No entanto a igrejas romana prestou-me imenso serviço por ter colocado em minhas mãos as tradições genuínas dos padres antigos, cujas raízes tocam a mais remota antiguidade. Refiro-me a publicação da ed Paulinas  'Por que a igreja crítica os ricos', que consiste numa coletânea de passagens tomadas as obras dos antigos elderes da igreja, sobre a riqueza, a pobreza, a justiça, etc

Este contato com a genuína tradição e alma do Catolicismo foi que consolidou para sempre minha orientação social em torno dos ideais justicionistas.

Foi da tradição da Igreja Católica, de deus evangelhos, de seus Bispos e de seus escolásticos que recebi o espírito anti economicista ou anti liberal a que tenho permanecido fiel até o tempo presente. Moço novo eu nada sabia sobre Marx, Engels, Kautsky, Plekanov, Lênin, etc Alemães e russos eram até então um mistério para mim e minha mente encontrava-se firme presa a Jerusalém, Damasco, Antioquia e Alexandria. Eram Newman, Montabembert, Pressensé, que eu lia...

No entanto como o Cristianismo, no dizer que Orígenes e outros,  fora direcionado as massas grosseiras e incultas, julguei ser necessário completar, alargar, aprofundar minha formação.

A quem me dirigi?

Aos comunistas??? A Nietzsche, Stirner, Rand, Heidegger, Delleuze, Derrida, Foucault, Sartre e demais profetas da modernidade?

Sou eternamente grato a igreja romana e ao padrão Católico por ter-me guiado a Atenas e me matriculado na Escola de Sócrates.

Jesus conduziu-me a Sócrates. (consequentemente a Platão e a Aristóteles) Assim pude aprofundar minha formação Ética, contemplando minha condição de ser racional.

E lá também topei com a mesma condenação ao acúmulo desmedido de coisas materiais.

Adquiridos em prejuízo da educação filosófica.

Desde então pude observar que o frade mendicante da Idade Média, fustigado sem misericórdia pela látego da Burguesia ascendente e pela nova religião protestante, limitava-se a reproduzir as denuncias levantadas pelos ANTIGOS CÍNICOS face a uma sociedade cada vez mais seduzida pelo brilho das falsas riquezas. Todas as críticas e escárnios empregados pelos 'neo' humanistas e protestantes contra os frades não passavam de reedição das velhas críticas que os hedonistas e materialistas da antiguidade haviam lançado contra Diógenes, Crates e toda escola.

Então, ainda mais uma vez, somos levados a enfiar o dedo dentro da ferida...

Não se importando com o sangue e o pus...

E como extremo sempre produz extremo... nada mais natural que o mundo do luxo e do supérfluo produzir um mundo paralelo de miséria. O qual tornando milhões de homens e mulheres prisioneiros de suas necessidades básicas impede-os por assim dizer que cultivar o estudo da Filosofia ou de buscar a verdadeira religião... oprimidos e esmagados pelas exigências da materialidade e da vitalidade nem se pode negar quão pouca seja a liberdade de tais criaturas. E quão longe achem-se do bem, da verdade e da beleza...

Nem podemos nós buscar qualquer valor ou benefício numa miséria que lhes é dada ou melhor imposta pelo sistema e a qual não podem fugir facilmente. Antes devemos encarar este tipo de miséria dada ou imposta como verdadeiro crime.

Todavia há também neste cenário um tipo de miséria CRÍTICA ou virtuosa livremente adotada por pessoas sensíveis e solidárias: assim o cínico dos tempos antigos, assim os monges do Catolicismo... os quais até mesmo da vida sóbria e moderada abrem mão com o objetivo de cultivar apenas e tão somente a sabedoria, apontando a uma sociedade enferma quais sejam os verdadeiros objetivos da existência humana. Consideram-se o cínico e o monge verdadeiramente livres e desimpedidos na mesma medida em que não se deixam afetar pela aspereza, o frio, o calor, a fome, a sede, os apetites, os desejos e a vontade e sempre podem tomar as atitudes que melhor convém no momento.

Por estarem tais pessoas afeitas de certo modo a dor, ao incomodo e a morte e consequentemente privadas do temor da morte, podem sustentar sem maiores receios a nobre e excelente causa da justiça ou porém-se a serviço do bem e da verdade sem temer as represálias com que os tiranos costumam punir aqueles que ousam resistir-lhes, a saber a privação, a tortura e a morte... Eis porque os déspotas e senhores sempre temeram acima de tudo ao Filósofo e ao Monge; as únicas categorias de pessoas capazes de resistir-lhes por terem superado o temor do sofrimento e o medo da morte.

Nem se pode negar que tal gênero de pessoas: que nada receiem da dor e da morte sejam capazes de falar livremente, declarando face aos poderes deste mundo quais sejam seus pensamentos e de se opor a qualquer ordem ou mandamento que não seja justo!

Antes de tudo é escravo o proletário ou trabalhador porque tendo constituído família - as vezes por imposição da própria sociedade - deve suprir as necessidades básicas da esposa e dos filhos e nem pode pensar em deixar de faze-lo, seja quais forem as condições. Assim a esposa e os filhos são como elos de uma cadeia que tornam-no dependente do sistema, e do sistema que o oprime não pode desligar-se por causa deles! Agora outra é a situação daquele que tendo triunfado dos apetites sexuais e subjugado-os ao talante da vontade, a ninguém quis ligar-se e a ninguém gerou. Agora por estar só é livre para fazer aquilo que julga ser necessário...

Imensamente mais grave e triste é a situação daquele cuja família assumiu uma mentalidade burguesa em torno das necessidades artificiais impostas pelo consumismo.

Este cobiça um carro novo por ano, sua esposa por uma nova cozinha por ano, o filho por um computador novo por ano e a filha por um celular de ultima geração... ali até o cachorro e o gato são servidores do deus Mercado. Agora como um homem destes ou uma mulher destas haverão de ser dependentes de um determinado salário ou escravos do trabalho???

Creem ser livres e felizes mas perdem o contato um com o outro e com os próprios filhos. Infeliz desta família contemporânea que só se encontra pela noite para dormir pesadamente ou nos fins de semana e feriados! Nem vejo que vantagem há em ter família apenas para os fins de semanas ou feriados!!! O trabalho aqui fica com a maior parte do tempo, em razão das despesas ou dos gastos, com o supérfluo e artificial e não com o necessário ou fundamental... Quantas pessoas endividadas e escravizadas passam a maior parte do tempo distante de seus filhos!!!???!!!

Que liberdade é esta?

Permitam-me questionar este tipo de felicidade esquisita,  na esteira alias dos antigos cínicos.

Parte de vocês vivem falando a respeito da família e exaltando-a até os céus, para... sacrifica-la as exigências do trabalho, do econômico, do mercado!

Sim, em nome de gastos inúteis, em nome do supérfluo e do luxuoso, alienam suas liberdades e exilam seus pobres filhos em creches, escolas ou sei lá mais o que, acreditando ou fingido crer que tal gênero de vida lhes faça bem. Mas não faz, pois o que os filhos desejam antes de tudo é a presença ou a companhia de seus pais!

Filhos não querem babás, professores, tranqueiras, etc precisam acima de tudo dos pais!

Mas os pais nunca estão, pois sempre estão trabalhando para pagar dívidas ou honrar despesas.

Neste caso trabalham para que? Para o bem estar de seus filhos??? Não, mas para o bem estar das empresas, do mercado, da economia... Pois esta mania de adquirir o que não é necessário beneficia apenas o econômico... Ficando a família, o cônjuge e os filhos a ver navios...

E não havendo contanto, morre o afeto e desfazem-se as famílias...

Tudo graças a que?

As exigências do trabalho, a jornada de trabalho, as imposições do mercado, aos gastos, as despesas; enfim a este consumismo acrítico que leva famílias inteiras a adquirir um montão de coisas de que não precisam.

Agora levassem nossas famílias um regime de vida mais sóbrio, crítico, equilibrado e são; quais seriam os efeitos concretos deste regime de vida?

Menos gastos, menos dívidas, menos dependência, menos escravidão e consequentemente mais liberdade, mais autonomia, mais tempo para passar com o cônjuge e os filhos alimentando os laços do afeto e cultivando a verdadeira intimidade.

Não se trata aqui do pai ou mesmo da mãe não trabalharem.

Trabalhar é necessário.

Trata-se apenas de não ser mais um prisioneiro ou refém do trabalho.

Em tempos de Dilma posso até aconselhar as famílias a gastar menos para fazer uma reserva ou poupança tendo em vista o futuro. Para que não se tornem reféns, escravos, bonecos nas mãos de seus patrões; ousando falar com eles livremente e e revindicar seus direitos: suas férias, a recusa de fazer hora extra, o descanso dominical; enfim tudo quanto possa redundar num contato maior com a família.

É necessário colocar as necessidades da família acima das necessidades do trabalho. Para tanto porém faz-se mister romper com o padrão do consumismo acritico, com o fetiche TER, com a mania de comprar coisas mais caras ou desnecessárias. Claro que jamais se poderá fruir do mesmo nível de liberdade que um cinico ou um monge; mas sempre será possível ampliar a esfera da própria liberdade. destruindo os laços artificiais de dependência.

Se o filósofo e o monge são capazes de viver em estado de necessidade ou carência voluntária não seremos nós capazes de contar nosso consumo passando a viver sobriamente?

Especialmente se sabemos que este novo regime de vida nos faria mais livres.

Menos dependentes do salário, do emprego e do mercado; aos quais oferecemos a maior parte de nosso tempo e boa parte de nossas vidas.

Possibilitando uma redistribuição do tempo e um contato mais próximo com a família, instituição que tanto encarecemos com palavras mas que não valorizamos verdadeiramente, subordinando a outro tipo de relação.

Então eu acredito que devemos por diante de nossas vistas o exemplo daqueles homens e mulheres que esforçaram-se por quebrar todos os laços artificiais e impostos para viver uma vida mais natural e livre. 

Não nos enganemos... não é possível servir bem ao dinheiro e a família, um aqui ficará mal servido.

Nossas famílias estão muito mal servidas justamente porque são servidoras do dinheiro.

Não é o dinheiro que tem servido as famílias.

Famílias é que tem sido alienadas pelo poder do dinheiro, por falsas necessidades econômicas, por exigências inumanas de um mercado... famílias é que tem sido desestruturadas e destruídas pela mística do consumismo, pelo endividamento, pelos gastos e pela nova escravidão!

Como Marx disse e com razão absoluta disse: Os comunistas não precisaram bradar contra a família tradicional, encontraram esta instituição completamente arruinada pelo liberalismo econômico e suas exigências.

Muito antes que o sociólogo barbudinho tivesse registrado as palavras acima a gente do campo e os padres romanos ja haviam publicado este diagnóstico e proclamado a incompatibilidade entre a organização tradicional da família e a ordem urbana ditada pelo capitalismo!!!

Não foi o comunismo que atrelou nossas famílias ao carro triunfal do deus mercado, foi o capitalismo. Este sistema é que separou Pai, Mãe e Filhos enfiando cada qual numa fábrica ou setor diferente da mesma fábrica! Foi o capitalismo que drenou-lhes as forças, comprometeu-lhes a saúde,  que barbarizou-lhes o caráter, obscureceu-lhes a razão... este sistema é que retirou-os do lar, alienou-os a natureza, contaminou-lhes o ambiente e exilou-os num mundo artificial de feiura controlado pelos ponteiros de um relógio.

Separou a família do ambiente, separou os trabalhadores da corporação, os familiares do lar, etc tudo fragmentou, isolou e dividiu para poder com mais facilidade dominar.

Não sou e jamais serei contra o trabalho da mulher.

No entanto se em tempos passados um só é que trabalhava para sustentar a todos, porque raios hoje, os dois não podem trabalhar menos e permanecer cada um certo tempo em casa junto dos filhos?

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Riqueza, conforto e miséria; luxo, sobriedade (temperança) e ascese.

Também este artigo tem em vista distinguir certos estados ou regimes de vida que o vulgo tende a confundir. Implica definir cada coisa com exatidão, fixar os limites e apontar as diferenças. O que tende a facilitar o diálogo e o esclarecimento.

Por riqueza definimos o acumulo exagerado de bens. O rico possuindo além do que é necessário tendo em vista a sobrevivência e dignidade detém o supérfluo.

Por conforto definimos o uso moderado dos bens. O confortável contenta-se em reter para si apenas o que é necessário a sobrevivência e a dignidade, abrindo mão do que é supérfluo.

Por miséria definimos a carência do quanto seja necessário a sobrevivência e a dignidade.

O supérfluo pode ser igualmente relacionado com o luxo ou a suntuosidade. O conforto com a sobriedade ou a temperança e a miséria ou a ascese.

Importa não confundir sobriedade ou temperança com ascese.

Sócrates, Jesus, Buda e Confúcio; sem condenar a ascese, não foram ascetas e jamais recomendaram ascese mas a sobriedade. A respeito de Sócrates contamos com o testemunho de Ésquines de Aesfeatum, o qual no "Telauges" apresenta o Filósofo a reprovar tanto os excessos de ascetismo de Telauges quanto a vã ostentação ou luxo de Critóbulo filho de Criton e argumentando a favor da vida sóbria ou moderada.

Antes porém recordemos o que cada um destes grandes mestres ensinou a respeito da riqueza, da fortuna, do acúmulo irrestrito de bens, do supérfluo, do luxo, da suntuosidade...

Sócrates num de seus diálogos transmitidos por Xenofonte (Memorabilia) refere que "Sabes assim que o ouro e a prata não tornam os homens melhores do que são, ao passo que as sentenças dos sábios tornam mesmo o pobre rico em virtude." já Platão memora o passeio de Sócrates pelo Mercado de Atenas e seus comentários sobre as inutilidades ali dispostas... e noutro passo declarou que a única utilidade das riquezas era a possibilidade de serem divididas com os amigos possibilitando o convívio ameno entre os amantes da virtude.

Quanto a Jesus foi ainda mais insidioso a ponto de declarar que era impossível cultuar a Deus e as riquezas, de fechar os ricos as portas do reino celestial e de aconselhar seus seguidores a juntarem tesouros imateriais ou espirituais no mundo celestial e não coisas materiais destinadas a corrupção.

Paulo, aqui fiel interprete seu, conjecturou com propriedade que a raiz de todos os males humanos estava no amor ao dinheiro, no desejo pelo lucro, na cupidez ou na avareza. Que a igreja antiga classificou como um dos grandes pecados.

A respeito de Sidarta Gautama conhecido também por Çakia Muni, Buda ou Tatagata é sabido que tendo nascido filho de Régulo (Sudodana era o nome de seu pai) imensamente rico, abriu mão de todas as riquezas para viver moderadamente e que impôs voto de sobriedade aos membros da sanga.

Os budistas de modo algum - e isto vale para os Católicos - fazem apologia da MISÉRIA ou da POBREZA, mas do contentamento ou contenção dos desejos, o que podemos traduzir sem medo de errar por conforto ou sobriedade.

Importa saber que ele também condenou tacitamente o acumulo ilimitado e o apego aos bens materiais.

Ele considera o monge ou o laico que se contenta com o necessário para viver dignamente como um pássaro que voa e toma a direção que deseja, sendo por isso mesmo livre.

Faz recordar Sócrates quando declarou que o homem apegado as riquezas ou escravizado pelos apetites sensoriais era inferior a um escravo porquanto escravo dos apetites, dos desejos ou do corpo. Para Sócrates era livre apenas aquele que fosse capaz de controlar seus apetites e desejos.

Limitar-me-ei por tomar esta citação: "Uma é a senda que conduz as riquezas, outra a que conduz ao Nirvana." 

Outro não é o parecer do grande Mestre da China, Confúcio:

"O homem vulgar só cuida de comprar e vender." 

Nenhum deles mostrou-se simpático ao acumulo ilimitado de bens materiais, 'nuvem conquistada por meios injustos.' id Mas também não inclinaram-se para o ascetismo - Jesus, Buda e Confúcio sem condena-lo jamais abraçaram-no ou recomendaram-no a seus seguidores - enquanto busca pelo sofrimento ou por situações desconfortáveis.

Sócrates apenas parece ter recomendado uma dose mínima dele e por uma razão bastante compreensível, a frequência das guerras, o exemplo dado pela sociedade militar e ascética formada pelos espartanos - guerreiros invencíveis - e a decorrente necessidade de conte-los. Efetivamente o ascetismo afirma-se no tempo de Sócrates mais por via militar do que por via filosófica ou religiosa. O ascetismo foi até certo ponto sancionado por Sócrates devido a sua relação com a disciplina.

Posteriormente, durante as perseguições promovidas pelo Império romano, também a igreja Católica recomendou o ascetismo, por uma questão de funcionalidade. Posteriormente no entanto, graças a teoria herética do maniqueísmo, logrou o ascetismo fixar-se ontologicamente no seio da comunidade Cristã, embora o clero sempre tenha invocado razões funcionais ou de natureza prática com que justifica-lo.

Nem podemos fugir totalmente a tais razões caso concebamos os Bispos e padres como homens destinados a múltiplas e dificeis tarefas como: ministrar os sacramentos, sustentar o direito dos pobres, instruir os broncos, evangelizar os infiéis, dar exemplo de abnegação e virtude, etc Ora toda esta vida de dedicação e disponibilidade implica disciplina rigorosa, o que de algum modo nos conduz ao ascetismo ou a certa familiaridade com o desconforto, como diria Sócrates.

Cuidava Sócrates que uma certa medida de ascetismo ou de contato esporádico com o sofrimento, funcionava como uma espécie de vacina ou contraveneno predispondo o homem a enfrentar futuras situações de desconforto ou sofrimento com maior firmeza de alma. Daí a necessidade de eventualmente, o soldado, passar por uma experiência de sofrimento, como ainda hoje nossos jovens aspirantes realizam testes de sobrevivência.

As fileiras do clero Cristão ou das hierarquias Católicas tomaram por exemplo ou norma de vida, a disciplina do exército ou um regime espartano. Constituindo o exército espiritual de Cristo ou milícia Cristã. Daí a afirmação do ascetismo entre o clero e os religiosos, porquanto favorecia a disciplina ou a vida regular. Aos fiéis no entanto foi sempre permitido levar uma vida morigerada, sóbria, temperante, equilibrada ou mediana.

Não enriquecer no sentido contemporâneo ou acumular riquezas ilimitadamente, que isto sempre foi visto pelos elderes e doutores do passado como pecado de avareza ou materialismo. A antiguidade Cristã jamais abençoou ou sancionou o regime de vida contemporâneo cultivado pelos ocidentais. Como jamais fez apologia da miséria, mas da vida sóbria ou morigerada nos mesmíssimos termos que Buda, Confúcio, Sócrates, Epicuro, Bion, etc

Julgo que a confusão efetuada no período moderno, entra vida sóbria e ascetismo foi artificialmente criada e promovida com o intuito de batizar e crisma o que os antigos sempre classificara como avareza. A Cristianização de Mamon ou seja das riquezas fundamenta-se amiúde neste falso dualismo tecido em torno de dois extremos: o da riqueza e o da miséria. Inconsciente ou conscientemente houve sempre certo emprenho em eliminar uma possível terceira via construída em torno da sobriedade, vida média, caminho do meio, etc

A justificativa do materialismo economicista em termos Cristãos não pode apartar-se deste padrão de pensamento superficial e binário em torno do acumulo ilimitado ou da privação, e tem se mostrado sempre incapaz de postular uma posse limitada ou relacionada com a satisfação das necessidades pessoais/familiares.

Henry George no entanto demonstrou cabalmente que ainda aqui os extremos continuam a tocar-se e que do luxo procede a miséria, da riqueza a pobreza, do acumulo a falta, da suntuosidade a indigência... Diante disto só nos restar inclinar-se diante daquela sabedoria ancestral que recomendou a vida média, sóbria ou confortável face aos que vivem do supérfluo e aqueles aos quais é negado o necessário a manutenção da vida....

Nós no entanto nos acostumamos a viver entres extremos e aprendemos a tolerar tanto situações de esbanjamento, quanto situações de privação ou carência.

E assim nos fizemos traidores de Sócrates, de Jesus Cristo, de Buda, de Confúcio, os quais com os lábios reverenciamos mas que de modo algum estamos dispostos a imitar reformulando nosso modo de vida materialista, insensível e cruel.

Não sei em que o ascetismo nos transformaria nem posso sabe-lo. Mas sei que a avareza tornou-nos vulgares, grosseiros e cruéis; degeneramos porque inclinando nossos corações as riquezas perecíveis e ilusórias e acumulando ouro, prata, jóias, dolares, ações, etc não melhoramos em nada deixando de acumular as riquezas verdadeiras, imateriais e incorruptíveis, em termos de princípios e valores, méritos, hábitos saudáveis, conhecimento, instrução, educação...

Não sou partidário do ascetismo em termos essencialistas ou ontológicos, o que a meu ver não passa de maniqueísmo. Compreendo no entanto seu papel funcional em determinadas conjunturas sociais. O ascetismo é uma espécie de treino ou adestramento que produz determinados hábitos para a vida, como a disciplina ou a regularidade e mesmo a resistência a dor ou ao desconforto, o que em certas situações sociais é extremamente vantajoso.

A riqueza ou a suntuosidade, como apontou já Agostinho na 'Civita Dei', tende a tornar os homens escravos dos apetites, a amolecer os corpos, a indispor para o trabalho, a malquistar com o esforço e o sacrifício; isto em tempos em que as guerras e batalhas eram decididas mais por homens do que por máquinas. E nem preciso dizer quem é que em estado de guerra levaria vantagem... Segundo o já citado Agostinho, seguido por Ibn Khaldun quando um povo qualquer acumulava riquezas em excesso, olvidando por completo a vida sóbria ou ascética dos ancestrais, tornava-se mole e prestes a ser dominado por qualquer outro povo mais rude, grosseiro, sóbrio, resistente e valoroso.

Em termos de antiguidade e i Média tal explicação parece conter certa parcela de verdade.

Naqueles tempos belicosos o ascetismo agrade-nos ou não parecia contemplar uma função social.

Sócrates, Agostinho, Kaldhum e muitos outros parecem ter tido esta percepção.

Os sábios, como já dissemos, permaneceram equidistantes tanto do acumulo irrestrito de bens, quanto do ascetismo ou da miséria, amiúde fruto da opressão. Face a ambos os extremos recomendaram as massas o exercício da vida sóbria ou moderada, definida por Buda como caminho do meio.

Nós nos desviamos por outras sendas e caminhos.

Apenas não tivemos sinceridade suficiente para classificar Sócrates, Jesus, Buda ou Confúcio como tolos.


domingo, 25 de outubro de 2015

A lição de Julien Benda

Há quem deplore a acidez de nosso espírito crítico.

Admiramos algo é bem verdade. Mas não afagamos...

Não passamos a mão sobre as cabeças daqueles que erram.

Mas com amor e por amor buscamos advertir e corrigir.

Se somos Católicos ou nos identificamos com o espírito dos Catolicismos, nem por isso, com Berdiaeff, deixamos de tecer as devidas críticas aos ramos da igreja (Ortodoxia, romanismo e anglicanismo) ou as igrejas particulares, quando necessário de faz.

Via de regrar as pessoas não podem simpatizar com o médico que as diagnostique caso estejam tomadas por um cancro maligno. No entanto a única esperança para a cura do cancro é justamente o diagnóstico precoce da doença... ignorada a presença do cancro no organismo estará ele fadado a morte!

Logo aquele médico que diagnostica o cancro e recomenda sua retirada deve ser encarado não como um algoz ou vilão mas como um herói e benfeitor.

É que pessoa alguma gosta de receber más notícias!

No entanto a civilização conta com tais médicos para salva-la da terrível crise por que passa e qual estende-se já por uns dois séculos.

Dentre os diversos médicos que dignaram-se a examinar a questão da crise da cultura, salientou-se o francês Julien Benda, autor da 'Traição dos clérigos' e falecido na era de 1956 com 88 anos de idade.

Aprecia-mo-lo como autor e ensaísta for fazer parte do seleto grupo dos incompreendidos, injustiçados ou satanizados aos quais atribuí-se 'sem mais' doutrinas que jamais ensinaram.

Assim Darwin; o qual jamais sustentou ser o homem descendente dos macacos ou advogou o 'darwinismo social', assim Voltaire que jamais aderiu ao 'ateísmo', assim K Marx que jamais arquitetou algo semelhante a partidocracia leninista, assim Bakhunin e Kropotkin que jamais apoiaram o individualismo ou promoveram a anomia, assim Paulo Freire que jamais pretendeu alfabetizar crianças, assim Piaget que jamais condenou uma 'orientação' prudente e sensata...

Querem saber o que de fato foi ensinado por determinado pensador?

LEIAM, ESTUDEM, EXAMINEM suas obras!

Jamais poderei esquecer a seguinte alocução de minha professora de Filosofia Maria Aparecida Rollo Del Rio: "Vocês podem discordar de um determinado autor e argumentar contra ele; mas devem faze-lo honestamente e jamais atribuir-lhe algo que jamais disse ou ensinou!"

Tal a base e fundamento do que qualificamos como probidade intelectual.

Fujam aos autores superficiais que reproduzem boatos e afirmações estapafúrdias!

Como ia dizendo mais acima Benda foi um destes autores mal compreendidos pelo vulgo, embora a lição por ele ministrada não seja lá muito difícil de se compreender.

Buscou discorrer em torno dos homens, das teorias, das oposições e das paixões que azedam a vida promovendo transtornos, quiçá irreparáveis.

Seguindo a mesma linha que o Bispo de Hipona: "Detesta as doutrinas mas ama e compreender os homens."

E propondo um roteiro mais racional, sóbrio e sereno do que apaixonado.

Discorria assim a respeito das paixões de crença, raça ou classe, sem todavia justificar a NEUTRALIDADE face a situações de injustiça e malignidade.

Jamais sustentou que era necessário tolerar o mal ou compactuar com ele.

Quis salientar no entanto que a nível doutrinal ou ideológico, apenas muito raramente, algum teórico tem a consciência de estar agindo equivocadamente ou trabalhando conscientemente pelo erro.

Então pessoas honestas e boas sempre podem defender equivocadamente péssimas teorias. Então pessoas não se tornam más apenas porque defendem ou sustentam doutrinas más cogitando serem boas ou verdadeiras. Pessoas podem estar sinceramente equivocadas...

É o que a paixão ou o fanatismo são sempre incapazes de perceber.

Na medida em que substituem pessoas por rótulos: o católico, o protestante, o japonês, o negro, o comunista... querendo significar que todos os que pertencem aquela ideologia ou segmento que reputamos 'má' tornam-se não humanos ou inumanos pela contaminação ou assimilação da maldade.

Desde então passamos a etiquetar, rotular e classificar os seres humanos em bloco. Como se não pudessem enganar-se honestamente e fazer jus ao benefício da 'sinceridade'.

Opor-se ao protestantismo, ao capitalismo, ao subjetivismo, ao relativismo, ao bolchevismo, ao fascismo, etc não nos autoriza a crer ou supor que os advogados de tais doutrinas sejam pessoas essencialmente malvadas, a odia-los ou propor que sejam violentamente reprimidos.

Mesmo diante do erro devemos tentar manter a calma, a racionalidade, a sobriedade e levar em consideração que estamos diante de seres humanos, logo falíveis. E sobretudo pensar que o outro esteja a buscar honestamente a verdade. Devemos encara-lo como inocente e buscar dialogar com ele.

Então o que Benda denuncia e condena com plena razão é sob o termo de paixão é o fanatismo com seu conteúdo cego e irracional. Mesmo quando supostamente posto a favor da justiça o fanatismo tende a cegar-nos e transformar-nos em apóstolos da injustiça e da opressão.

Importa após o choque, o impacto ou a indignação refletir. Distinguindo o sistema ou a ideologia das pessoas, em sua maior parte alienadas e inocentes.

Sistemas anti humanos como o protestantismo, o comunismo, o nazismo, o fascismo... só sabem encarar os heréticos, os opositores, os dissidentes como ímpios, conspiradores e maléficos, segundo a maneira de ver do fanatismo e dos fanáticos.

Para os quais a pessoa não é nada absolutamente nada.

Não se trata aqui de defender o erro, a heresia, a injustiça, a opressão, a maldade, etc a tudo isto devemos condenar e combater civilizadamente no plano espiritual das idéias, argumentando, debatendo, refutando...

Mas de supor que nosso adversário ideológico herético, dissidente, adversário, opositor... possa ser de fato uma pessoa boa e honesta sinceramente equivocada; e não um sabotador sem consciência ou um degenerado!

Não se trata de respeitar o erro, de silenciar perante ele, de relativizar ou de minimizar sua gravidade; mas de compreender aquele que erra e de jamais tomar o erro por engano ou mentira.

Pois se há mentirosos e sabotadores também há homens honestos, probos, sensíveis, retos, admiráveis, nobres... em todos os grupos, partidos e organizações humanas: no comunismo, no liberalismo, no protestantismo, no islamismo, no fascismo...

Sendo assim não podemos julgar as pessoas ou trata-las como se fossem doutrinas abstratas.

Doutrinas podem e devem ser classificadas como falsas, inexatas, malignas... homens não. Podem suster doutrinas más e sem embargo disto ser bons, pois é do homem, especialmente quando jovem, confundir as coisas e equivocar-se.

Importa submeter todas estas questões e desencontros em torno da cultura, do estado, da fé e mesmo das classes sociais ao veredito e sentença de um valor eterno qual seja a justiça ou o bem.

Mesmo diante da opressão exercida por uma classe rica e poderosa sobre outra mais fraca, embora tomando posição ao lado dos mais fracos e oprimidos jamais seria lícito relativizar o conceito de justiça ou de fazer justiça a um membro ou defensor da classe opressora que a ela faça jus! Não podemos imolar o sentido da justiça nas aras do partido ou da religião... justiça é algo que se deve a todos os seres humanos independentemente de suas crenças ou opiniões.

Assim quando em nome da verdade ou de qualquer ideia saudável e redentora, pugnamos contra o ideal eterno da justiça, prestamos um desserviço a verdade, a qual sem a justiça não se sustenta.

A tônica aqui não consiste em ser neutro. Caso exerçamos neutralidade face a injustiça nos tornamos injustos. O tônica aqui é jamais perder a serenidade e ser justo até o fim, em todos os sentidos. Implica saber que a busca pela justiça social não deve servir de pretexto para perder-se de vista a justiça pessoal e para proceder com justeza face ao discordante! Temos de ser honestos e muitas vezes benevolentes mesmo para com aqueles que opõem-se as nossas crenças e idéias! O ser humano faz jus a tal atribuição pelo simples fato de ser humano.

Implica isto antepor certa dose de humanismo a qualquer de nossos ideais sejam religiosos ou seculares; políticos, sociais ou econômicos. Buscar discernir algo de humano ou de bom no outro ao invés de julga-lo, sentencia-lo e condena-lo como ímpio ou conspirador antes mesmo de conhece-lo, tendo em vista suas ideais com as quais não concordamos.

Implica não sair por ai agredindo as pessoas que alimentam outros pontos de vista.

Implica como dizia Xenofonte na 'Memorabilia' recorrer antes de tudo a razão e não a força cega. A persuasão e não a violência. Ao diálogo e não a imposição arbitrária, que mesmo posta a 'serviço da verdade' não deixa de ser uma forma de dominação, logo contra producente.

A verdade e a virtude sobretudo deves ser abraçadas voluntariamente.

Promovidas pela docilidade.

Aquele que esta seguro de seus argumentos não precisa exasperar-se.

Agora se for exasperar-se e acirrar os ânimos alheios, abstenha-se de discutir pois benefício algum pode auferir-se duma altercação azeda.

"Atrai-se mais moscas com uma gota de mel do que com um barril de fel."

Da paixão e do fanatismo sempre decorrem estragos desproporcionais. Sacrifício de vidas e de bens culturais cuja perda sói irreparável.

Nada mais prazeroso do que discutir ideais com um contraditor civilizado e ameno.

É de discussões assim que por meio da dialética atingimos uma claridade mais intensa. Porque o adversário revelando os defeitos embutidos em nossas opiniões, as inexatidões, imprecisões, devaneios, leva-nos a polir as arestas e a adquirir um diamante lapidado.

Importante esta contribuição do Benda a respeito não da indiferença mas da necessidade de tentar permanecer sóbrio diante de qualquer situação e de não se deixar guiar por qualquer discurso apaixonado. De modo que os conflitos e oposições de caráter ideológico ou doutrina não venha a amargar ou o que é ainda pior envenenar nossa existência.

Eu julgo esta lição das mais importantes no tempo presente.

Busquemos exercer uma ética humana e humanista para além das divergências de caráter intelectual.

Superemos as limitações externas e acidentais: do racial, do nacional, do cultural, do credal... pela afirmação do que é comum e essencial: o humano. Subordinemos tudo ao humano e assumamos o primado do humano.