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quarta-feira, 29 de julho de 2026

O terror que produz horror ou a história da censura a indústria do terror nos EUA

 Via de regra, quando pensamos nas inquisições 'made in EUA' ou na dita terra do liberalismo (Nem sempre tão liberal quanto pintam) o que nos vem aos miolos são bruxas de Salem, lei seca ou MaCartismo.

Houve no entanto diversos tipos de repressões naquele país do Norte. Não apenas quanto o sexo, as drogas e a bebida, o que até seria compreensível, mas até mesmo contra o terror ou a produção artística que envolve o sobrenatural, e considero sua contemplação e compreensão como algo mínimo curioso, talvez por comportar um elemento metafísico que as demais formas de repressão não comportam, ao menos de uma forma tão explícita.

De fato havia a tentativa de manter a fantasia do terror em limites cristãos ou piedosos.

Assim esses códigos auto restritivos, que entraram com o MaCartismo até meados dos anos 60 determinavam que as crenças religiosas fossem respeitadas, que o clero não pudesse ser criticado, que o nome de Deus não fosse citado levianamente e sobretudo que o bem sempre triunfasse do mal... Era todo um vies levemente providencial que aponta já para a fonte do problema.

Efetivamente há algo de distinto entre o terror clássico que partindo de Walpolle com 'O castelo de Otranto' chega ao mestre supremo M R James, passando por Le Fanu ou mesmo Stocker. 

Poe é um dos poucos, e o primeiro, a afastar-se do modelo gótico ou da receita de bolo, em que o mal é sempre contido no final, dando espaço a um desfecho quase sempre feliz.

Em Poe há morbidez, na qual os males humanos se agravam até destruir a vida presente. Ao menos na imanência o epílogo nem sempre é feliz. Em Poe se percebe já um desconfortável realismo, que se choca com o paradigma romântico tradicional.

Apesar disto inexiste qualquer especulação sobre uma providência genérica ou sobre o mundo espiritual ou invisível. Aqui Poe apenas é omisso em seu recorte. Não parecer haver uma pretensão de totalidade nas obras de Poe ou uma metafísica pessimista, caótica ou anti providencialista. Dir-se-ia no máximo que para esse autor o mal triunfa, episódios ou frequentemente, neste mundo e que o resto, o resto é mistério. Então Poe, silencia, caso pensasse doutro modo.

Mesmo no possível telemita Bram Stoker, o caçador de vampiros, Dr Von Helsing, logra destruir o conde Drácula e assim eliminar o mal.

De modo geral um novo modelo de terror parece inaugurado, de fato, pelo estado unidense incrédulo ou ateu, H P Lovecraft. H P Lovecraft inicia sua produção cerca de 1917, com pouco mais de 25 anos de idade e produz cerca de setenta narrativas até cerca de 37, quando vem a óbito com cerca de 47 anos ou seja bastante precocemente. Produziu terror por cerca de duas décadas portanto e mais, com ele temos não apenas uma ruptura porém o início de uma tradição, a qual haverá de refletir-se no cinema inclusive, com 'O bebê de Rosemary' e 'O exorcista' película em que o Pe Mallony, creio eu, termina pessimamente. E há também o exorcismo de Emily Rose...

Bem, o mal começa a triunfar de modo totalizante com o pai de Chtullu... E é exatamente esse aspecto que trara preocupações a Cristandade despreocupada com a fome ou com a justiça, e preocupações não de todo inverossimeis ou fantasiosas. Pois a algo de perturbador, para as mentes mal formadas, nas obras de Lovecraft e seus continuadores.

Digo, para as almas vulgares e despreparadas ou massificadas. Afinal A Derleth, seu amigo e imitador, era um apostólico romano devoto e, eu mesmo, apesar de Ortodoxo, já li com gosto metade de suas obras em diversos idiomas. E revelo já o segredo, que é não as considerar seriamente ou encara-las como produto da imaginação, pois fantasia é o que são e sua metafísica não cristã pura bobagem.

Digo isto porque ele Lovecraft subjaz todo um panorama ideológico ou uma metafísica bastante bem delineada. 

Aqui não há um bom Deus ou qualquer vestígio de providencia amorosa. Salvo se havendo Deus produziu ele o universo e entregou-o a outros poderes que o substituíram - Conforme o esquema do Deísmo crasso. E sequer poderíamos avaliar tal ser como bom, uma vez que aqueles que tomaram o poder não são nada bons.

Ao que parece esses poderes em conflito sucedem uns aos outros como dinastias... Ou que comandam distintos setores da realidade ou distintos universos. O que nós levaria a uma multiplicidade caótica em termos de tempo e espaço. 

Pela narrativa de Conan, o Bárbaro e seu universo hiboriano, somos informados sobre as linhagens dos deuses antigos. Por meio de algo semelhante aos arquivos de Churchward... E retrocedemos a Atlântida, a Mu e a Lemúria.

Por sinal, apesar dos cataclismos que destruíram tais civilizações, ao que parece os representantes dessas tradições místicas, lograram escapar a aniquilação, conseguindo transmitir esse tipo de conhecimento, que seria a feitiçaria sangrenta ou os ritos bárbaros que abrem portais invisíveis e possibilitam a comunicação com tais entidades. O que nos lembra o Telema ou a Goetia.

Existiria portanto uma continuação ou tradição, quase que uma sucessão apostólica, em termos de magia ou misticismo negro, que não obra de Lovecraft está vinculada ao Necronomicon, do árabe insano Abdul Alhazred. Um desses entes, procedentes das estrelas seria Chtullu, o qual está a receber um corpo produzido pelos magos e a criar uma nova humanidade ou uma nova Era.

E essa última parte da narrativa nós levaria aos deuses astronautas ou anúncios do recém falecido Daniken, de Vilekovsky, de Sitchin e outros.

Aliás, só para constar, há a projeção futura do Conan ou de um Conan pós apocalíptico, que é Thundarr (Sabor Mad Max) e no qual os deuses retomam o controle e a magia recupera seu prestígio. 

Portanto existe certo encadeamento entre tais narrativas a ponto de produzir uma visão totalizante ou um panorama total de caráter caótico e povoado por deuses sanguinários que combatem entre si e sucedem uns aos outros por algum tempo. 

Nesse quadro sinistro restaria aos mortais, conectar, alimentar e servir tais seres com o objetivo de obter sua proteção e, obviamente, poder. A partir daí segue o insano, com efusão de sangue, tortura, estupro, sadismo, etc a parte que, com certa razão foi condenada pelo código Hays, por ser, admitimos nós, carga um tanto pesada para mentes simples e já atormentadas.

A partir da queda do código Hays, da rebelião e da assim chamada contra cultura, teremos outros temperos adicionados a este universo irracionalista como o sexo e as drogas, os quais vão se fazendo presentes em doses cada vez maiores. 

E, a exemplo de certas correntes da assim chamada arte moderna, vão confluindo para este terreno certos ideais anarquistas como a libertação do inconsciente e do mundo onírico, em cujo plano o caos se torna não apenas hiper monstruoso porém absoluto. Pelo que chegamos, no final dos anos 80, salvo engano meu, a Sandman (N Gaiman - Vertigo) e com ele aos domínios do bizarro. 

Veja que os próprios deuses aqui são gerados no ato de sonhar ou produtos do sonho, como para Buda, caso existissem, não escapavam a roda e para os primitivos aedos gregos eram subordinados ao fado ou ao destino. Portanto esses deuses não são seres ilimitados e onipotentes, porém criaturas tão problemáticas quanto nós, embora tanto mais poderosas. Bem, considere ser caprichosamente controlado por uma chusma de entidades problemáticas... Num seleto repertório de que fazem parte: o Destino, a morte, a destruição, a angústia, a insanidade, etc 

A meu ver este aflorar do onírico, com Morpheus, representa o ápice da tradição inaugurada por Lovecraft setenta anos antes. 

Contrário a censura ou a qualquer tipo de controle exercido por fanáticos religiosos devo admitir não somente a existência de um forte conteúdo ideológico ou metafísico anti Cristão em tais narrativas, como seu aspecto geral potencialmente fecundo quanto a produção de angústia e desespero... 

Penso serem narrativas voltadas para um público adulto e não gostaria que meus filhos ou que qualquer criança ou adolescente as folheasse. É, penso eu, coisa para gente madura e esclarecida, que sabe já distinguir perfeitamente a fantasia da realidade, obtendo distração. N Mailer foi curto e grosso: São narrativas para intelectuais e não para o vulgo. Para intelectuais mentalmente estáveis e mais ou menos equilibrados e portanto para um público seleto ou restrito.

Remédios controlados também fazem parte da realidade e são necessários para algumas pessoas. Porém nem todo remédio pode ser consumido por todos os por qualquer um.

Mesmo sendo totalmente contra todo e qualquer controle externo e formal quanto a produção desse tipo de literatura, sou favorável sim a um controle externo, social, democrático e parcial, quanto as faixas etárias do consumo e sobretudo a uma orientação cerrada por parte dos pais, responsáveis e educadores.

De fato sequer conhecemos perfeitamente os efeitos ou consequências dos jogos eletrônicos que envolvem efusão de violência, sangria e carnificina nas mentes em formação, que se dirá então de narrativas totalizantes em torno de uma metafísica caótica que conduz ao desespero?

Me parece enfim que o resultado do consumo dependa sempre da qualidade da pessoa e que a chave para uma leitura saudável de tais produções esteja em não considera-las como realidade e sim como o que de fato são: Fantasia, segundo o mesmo esquema que aplicamos a mitologia grega ou aos contos de fada... Ficção e nada além de ficção.

As mentes sensíveis se afastem e as almas impresionaveis evitem.




domingo, 20 de junho de 2021

O roteiro novelístico da TV Globo e o Teatro clássico.


É a Globo uma emissora ou empresa paradoxal.

Paradoxal. Não encontro melhor palavra com que defini-la. 

Basta ver que após ter sabotado o governo Dilma e apoiado decididamente um golpe de Estado, a emissora anti petista ou anti socialista por excelência, hora se opõem - Com unhas e dentes - ao projeto teocrático e totalitário do genocida Jair Bolsonaro. Buscando esconjurar o gênio maléfico que ela mesma trouxe do mais profundo dos abismos.

Também sua programação é paradoxal.

Afinal é a Globo uma clássica indústria de entretenimento para as massas, cuja vocação histórica é alienar as massas tal e qual Scheherazade alienava de si o sultão - Noite após noite. Assim a missão da Globo tem sido alienar as massas face a realidade social em que vivem. 

Não está a Globo interessada na Verdade e menos ainda na Bondade e na Beleza ou na Kalokagathia. Empresa está interessada em lucrar ou em aumentar seus capitais colocando-se portanto a serviço do sistema ou melhor a serviço da caterva, dos milionários, dos poderosos, demagogos, opressores, iníquos... Tal a casta que contrata os serviços que ela pode oferecer.

Eis porque empenha-se ela em divulgar algo como o funk - Com sua mensagem ultra erótica ou pornográfica, machista, sexista, consumista... e abjeta. Jamais algo que interiorize ou eduque como a música instrumental (Nem estou falando em música clássica) de um Pedrinho Mattar ou a obra de um Sivuca, de um Hermeto Pascoal, de um Taiguara... Os quais não existem para ela. 

A Globo não aspira ou pode aspirar formar seres humanos integrais, homens, mulheres, cidadãos, pessoas... mas consumidores, marionetes e sombras. Ela tem clientes e executa seu próprio papel.

Daí o BBB ou o Domingão do Faustão. O primeiro com suas futilidades ociosas e o segundo com seu cortejo de bizarrices.

Globo é isso 90% de alienação, tolice, inutilidade e baboseiras - O Reino ou Império da mediocridade.

Algo destinado a evitar que o telespectador peque um bom livro - Seja um Homero, um Dante, um Camões, um Cervantes, um Shakespeare, um Moliére, um Goethe, um Valéry... ou ainda Freud, Darwin, Weber, Sorel, Alain... - e emancipe a si mesmo ou se liberte.

Verdade seja dita o SBT não aliena menos, pelo contrário, aliena ainda mais, especialmente devido ao apoio que presta ao tirano genocida. Haja visto suas novelas mexicanas, espaço em que a alienação junta-se ao mau gosto...

Outro o caso das novelas da Globo. As quais com o Globo Repórter formam aquele resíduo de 10% que parece fugir a regra geral.

De fato as novelas da Globo não podem ser analisadas como um todo uniforme ou como uma coisa só. Por mais que parte considerável dos espectadores jamais passe dos personagens caricatos e dos slogans imbecis há ali certo conteúdo realista ou no mínimo certo material instrutivo e interessante.

Todavia não é escopo deste artigo discorrer sobre o conteúdo realista ou até sugestivo dessas produções mas apenas e tão somente apontar para um elemento específico que parece ter fugido a crítica. 

O drama, o 'drama' satírico e a comédia.

De modo geral temos aí o roteiro do Teatro clássico em suas apresentações.

Pois bem, a Globo, em sua programação novelística, costuma seguir a risca este roteiro que é clássico.

Pois três são suas apresentações diárias dentro desse gênero: As novelas das seis, das sete e das nove, porque as oito há o Jornal Nacional. E nada ali segue a esmo ou ao acaso, sendo tudo muito bem planejado.

A ordem apenas foi invertida.

Pois para os gregos o filé, isto é drama (Ésquilo, Sófocles e Eurípedes.) vinha em primeiro lugar - Quiçá por corresponder a fonte dos demais ou por pura e simples tradição. Seguindo-o as demais categorias: O drama satírico, o qual costumava fechar a programação; e a Comédia (Aristófanes...), no ultimo dia dos festivais.

Mais conforme a representação da nossa cultura. Segundo a qual devemos passar em escala (Como os degraus de uma escada) do bom ao melhor e do melhor ao mais excelente. Alterou a Globo a disposição do espetáculo. Abrindo sua programação novelística com o drama satírico ou o romance, típico da novela das seis e passando a comédia ou ao pastelão, típico da novela das sete. Até chegar ao drama, que corresponde a novela das nove.

Equivalendo cada uma delas a um éthos específico. 

No tempo presente o drama satírico identificou-se com a produção idealista, em parte polarizada e maniqueísta, de que resultará sempre a vitória do bem ou um final feliz. - A qual a TV Globo adicionou um conteúdo histórico precioso. Assim enquanto o enredo das novelas das seis é quase sempre prosaico ou mesmo tosco, como a produção romântica costuma ser, sua forma corresponde, não poucas vezes a uma reconstituição histórica, a uma aula ou mesmo a um curso. Intencionalmente ou não a Globo amiúde, produz excelentes ferramentas pedagógicas para a disciplina de História. O que é inegável.

Já o disse e com grande escândalo: Novelas globais há (Das seis e das sete) que dão de dez a zero em certas aulas ou cursos de História. Triste porém inegável.

Por vezes a programação das seis abre espaço para o mitológico ou para o fabuloso, sem cair porém no pastelão e os limites são sempre respeitados - Ocorrem-me 'Cordel encantado', 'Chocolate com pimenta', 'Eterna magia', etc

Há novelas das sete que são, por assim dizer 'de época', e igualmente aproveitáveis quanto as aulas de História. A tônica porém é a comédia a que chamamos pastelão. Posto que, seja qual for o quadro espacial ou temporal, os personagens são caricatos. E o propósito da novela das sete outro não é que descontrair, distrair, alegrar ou fazer rir. Sendo não poucas vezes voltada para o público infanto juvenil. 

Por fim após certo choque de realidade (Não poucas vezes manipulada ou distorcida.) instilada pelo Jornal Nacional passamos ao terreno do Drama, que corresponde a novela das Nove.

A novela das nove é sempre uma produção realista, a qual não poucas vezes, nos anos 80 e 90, chegou aos confins de um naturalismo forçado. De modo geral, a partir do ano 2.000 foram tais produções se tornando mais equilibradas a ponto de incorporarem certo conteúdo humanista ou mesmo 'polêmico'. O próprio enredo tornou-se mais complexo em comparação com os que foram produzidos no século anterior e criaram-se autênticos dramas humanos cheios de intensidade, um desses tipos criados foi a 'Alana', o último a 'Dna Lurdes'; lembro-me também da Maria da Paz. Contexto em que a banalidade sexual cedeu espaço a profundida psicológica de diversos tipos. Não é que a dimensão sexual tenha sido ou deva ser eliminada. Foi no entanto, como deveria ser, reduzida as dimensões da normalidade.

Apesar disto a Novela das nove jamais assumiu qualquer compromisso com o idealismo Ético. É como dissemos produção que se limita quase sempre a reproduzir a realidade social, jamais se atrevendo a julga-la ou a contesta-la sugerindo algum tipo de modelo. 

No entanto a realidade ali contida e oferecida sempre poderá ser problematizada nas aulas de Sociologia, Psicologia ou mesmo Filosofia. Convertendo-se tais produções em precioso material de apoio. Isto no entanto é já outro tema...

O que pretendíamos demonstrar já demonstramos.

A Globo mesmo quando é canalha e isenta de princípios Éticos não é ou melhor dizendo, jamais é superficial. Não foi portanto a toa que adotou a mesma disposição que a produção teatral clássica, apenas invertendo a sequência. E tudo isto é prenhe de significados.








terça-feira, 3 de novembro de 2015

Carlyle, Taine, Marx e a questão do homem e do processo histórico

Caso abramos qualquer livro de História editado neste pais até meados dos anos 70 damos invariavelmente com o culto da personalidade em torno de uns supostos heróis, quase sempre políticos ou homens de estado. Tratam-se de personagens amiúde retiradas de seu contesto social e por isso quase que abstratas. É todo um desconsiderar das circunstâncias externas ao personagem ou dos fatores propriamente históricos.

Grosso modo o romantismo conhece apenas o poder mágico de vontade humana... aqui a realidade é norteada ou decretada por algumas vontades excepcionais e nada se sabe em termos de condicionantes; e nada se diz a respeito do meio, do ambiente, do tempo, do espaço, da cultura, da economia. Trata-se duma História mirabolante, superficial, tosca, voluntarista, individualista e portanto viciada. Segundo Marx no XVIII Brumário, tal era a perspectiva de V Hugo ao analisar o 02 de Dezembro...

Aqui temos romance, folhetim, drama, fantasia... o que quisermos; mas não História real, que os caminhos da História real são outros e bem mais complexos.

No entanto como o homem vai de extremo a extremo ou de abismo a abismo a reação não tardou a afirmar-se assumindo o caráter de um determinismo imaterialista ou cultural ou de um determinismo materialista e economicista, ambos absolutos. Aqui a própria vontade da pessoa era compreendida como epifenômeno da coerção social ou do regime concernente aos bens econômicos. Os homens eram produtos ou resultados da assimilação cultural - e portanto cópias uns dos outros - ou das relações econômicas de produção, assim sendo, de modo algum livres, mas determinados pelos fatores externos e aprisionados pelas circunstâncias. Atuavam os homens necessariamente, como peões de xadrez no tabuleiro da História, movidos por forças externas muito superiores...

A História romântica havia eliminado o fator condicionante ou seja as circunstâncias. A História positivista e posteriormente a Comunista eliminou o fator eficiente, a iniciativa humana.

Marx no entanto parece ter tido ideias bem mais equilibradas e saudáveis do que seus seguidores, a exemplo de Eugene Dietzgen. Este materialista economicista e mecanicista irredutível. Da analise de Marx sobre o XVIII Brumário (cap I) salta a vista que em Fevereiro de 1848, as conjunturas para a Revolução socialista, haviam sido dadas. Apenas não foram aproveitadas pelos comunistas ou socialistas, faltando aqui a ação do elemento humano. A qual consequentemente Marx não excluí. Outra segundo Marx (opus cit) não era a opinião de Proudhon, o qual certamente era capaz de perceber a necessidade dos dois elementos...

E continua expondo que do mesmo modo as condições para o 02 de Dezembro de 51 haviam sido igualmente dadas, e aproveitadas por Luiz Napoleão, embora fosse este, segundo o juízo de Marx, um estúpido ou imbecil. Agora nós somos da opinião oposta, julgando que é necessária certa acuidade ou superioridade, tendo em vista a percepção das circunstâncias dadas e seu aproveitamento pelo homem. Aqui cabe o gênio de Carlyle, não no alterar magicamente a história, mas em conhecer as oportunidades dadas pelo momento histórico e atuar em comunhão com ele, o que certamente não pode ser apanágio do homem vulgar.

A H Taine, o positivista heterodoxo, devemos uma das soluções ou sínteses mais interessantes. A qual engloba tanto o homem quanto as circunstâncias dadas pelo processo. Claro que em se tratando duma solução de compromisso ou meio termo, continua sendo incompreendida pelos extremistas e radicais... assim os voluntaristas imbecis classificam o sociólogo francês como determinista por ter aceito os elementos condicionantes e limitado as possibilidades da ação individual ou mesmo humana, enquanto que os materialistas economicistas classificam-no como voluntarista e idealista por ter concedido certo poder ou capacidade a ação humana, mormente quanto conjuntamente exercida.

Engloba esta síntese brilhante três elementos: um eficiente> o homem ou a vontade humana; e dois condicionantes ou se quiserem limitadores: o tempo (época) e o espaço (lugar) ou meio (ambiente). O homem ou as organizações humanas levam a História adiante na medida em que analisam o meio (tempo e espaço) compreendem a cultura e aproveitam as possibilidades oferecidas, conscientes de seus limites.

Nem deus onipotente, nem uma marionete ou robô programado mas um elemento consciente que para atuar com sucesso deve compreender as circunstâncias dadas e atuar em comunhão com elas dentro de determinados limites, para além dos quais sabe ser impossível avançar; isto é o homo sapiens na perspectiva do que posteriormente viria a ser crismado como possibilismo por Vidal de la Blache e sustentado com habilidade por Toynbee.