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sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Sexualidade, afetividade e família.





Tenho sido acusado de arrenegar ou combater a instituição da família enquanto vínculo afetivo estável entre determinado número de pessoas com o objetivo de educar os jovens e as crianças.

A bem da verdade, mesmo após ter lido a República, a Utopia e a Cidade do sol não me dei por convencido de fosse possível substituir a instituição familiar por qualquer tipo de organização educativa de caráter coletivo.

Não quero dizer com isto que a educação familiar não deva ser necessariamente completada por uma educação ética, cívica e social oferecida em escolas públicas, cuja frequência deva ser obrigatória e o regime absolutamente laico.

Ponto pacífico quando a educação pública, gratuita, compulsória e laica destinada a criar vínculos de solidariedade entre os diversos membros da sociedade.

A simples existência de instituições privadas de ensino fere na base mesma aquela igualdade de oportunidades que deveria ser oferecida a todos os cidadãos da República.

Tornando a instituição familiar sabemos muito bem que o próprio Platão foi obrigado a rever seus pontos de vista nas Leis, a obra mais importante de sua maturidade. Temos aqui um Platão realista e não haveria eu de ser mais idealista do que ele...

Após as Monografias de Le Play fica difícil conceber a erradicação da instituição familiar cujos laços de afeto devem corresponder a aspirações mais ou menos constantes da própria natureza humana.

Ao que tudo indica tem o ser humano necessidade de construir relações afetivas duradouras ou vínculos afetivos relativamente estáveis.

Embora alguns por receio, medo ou insegurança possam fugir a regra geral, ao menos aparentemente a instituição familiar parece corresponder a uma situação de normalidade entre praticamente todas as sociedades humanas, das mais primitivas as mais civilizadas.

Ao que parece a primeira Sociedade que tentou aluir até certo ponto a instituição familiar foi a URSS, ao menos em seus primórdios, i é nas décadas de 20 e 30 do século passado. Em que pese os esforços do regime Comunista soviético a instituição familiar, mesmo entre eles, atravessou triunfalmente o século XX até o final dos anos 80 quando o regime desmoronou.

Não é portanto a família, enquanto vínculo afetivo estável existente entre certo número de pessoas, que dirigimos nossas críticas, mas sim a uma determinada forma de família ou a uma estrutura familiar relacionada com um determinado tipo de cultura, a saber a cultura judaico/rabínica.

Não bíblica ou vetero testamentária, uma vez que para o azar dos fundamentalistas, o primeiro padrão familiar em termos bíblicos é poligâmico, não monogâmico. Haja visto que não apenas os ditos reis da casa de Israel como Dawid e Suleiman, mas os próprios patriarcas dos hebreus como Abraão e Jacó possuíam, cada qual seu serralho. Ora, não pode o Deus santo e imutável aprovar o pecado, como não pode fazer acepção de pessoas...

Nem afrontariam aqueles homens as leis de seus deuses...

Donde se infere necessariamente que a poligamia era situação comum entre os antigos hebreus, tal e qual é hoje entre os árabes maometanos.

Assim o surgimento da monogamia entre os antigos judeus nada tem a ver com qualquer Revelação divina, mas com o desenrolar de um processo histórico em termos naturais.

Para os escribas, fariseus e rabinos do século I desta Era no entanto, era já uma instituição dada como sacratíssima. O Cristianismo surge neste contesto e incorpora naturalmente este ponto de vista, em que pese não ser legitimamente Cristão no sentido de que tivesse sido fixado por Deus.

É verdade que Jesus Cristo apela ao mito de Adão e Eva com o objetivo de dificultar a concessão do divórcio, o que naquelas circunstâncias significava proteger a mulher. Mesmo porque devia assumir a cultura judaica para poder dialogar com os judeus, o que de modo algum deve levar-nos a imaginar aquela cultura ou seus mitos como sagrados. Para argumentar com os antigos judeus somente recorrendo a seus mitos, tal o propósito de Jesus, convencer os judeus e não pronunciar-se a respeito da validade intrínseca de seus mitos.

Portanto o que contestamos antes de tudo é o caráter monogâmico, hétero normativo, patriarcal e indissolúvel do matrimônio, i é a receitinha judaica assumida pelo Cristianismo. Asseverando que nenhum destes carácteres foi Revelado sobrenaturalmente pela divindade. A única regra fixada pela divindade quanto as relações matrimoniais é que, sendo fechadas, devem ser honestas. Portanto a única regra vinculada ao matrimônio, em condições de contrato exclusivo entre duas pessoas, é a fidelidade mútua, expressa pela condenação do adultério.

Parece-nos óbvio e evidente que a traição ou o adultério só fazem sentido, como por sinal lemos em Crime e Castigo, quando há um contrato fechado ou exclusivo, conforme a vontade dos nubentes. Caso não haja sentido de posse ou de posse exclusiva, mas um contrato aberto, em que ambas as partes permitam-se o fruição de uma vida sexual livre, a simples hipótese de traição ou adultério torna-se absurda. Não há traição onde há permissão ou necessidade de engado onde há autorização mútua. Porém no contesto de um contrato fechado, o compromisso de fidelidade assumido por ambas as partes deve ser honrado.

Nossa crítica principia por aqui. Pois embora a lei celestial discipline um contrato fechado pela condenação do adultério, em parte alguma do Evangelho ou mesmo do Decálogo topamos com a exigência de que a forma do contrato fosse fechada. Assim a lei trata com uma situação dada pela cultura e não com uma situação determinada pelo sagrado e isto pelo simples fato de que aos homens cabe o justo direito de determinarem suas relações afetivas.

Assim se o dolo de uma traição toca essencialmente as coisas divinas pelo simples fato da esperteza e do engano; a forma mesma do matrimônio ou sua estrutura é indiferente. Desde que haja um vínculo afetivo ou amor. Eu mesmo compreendo, e ouso confessa-lo, que o amor entre duas pessoas apenas me pareça superior ou mais elevado. No entanto quem sou eu - enquanto ser humano inserido numa determinada cultura - para julgar os outros? Não, não posso ser árbitro daqueles que consideram possível partilhar o amor com duas, três, quatro, ou mais pessoas. Não vejo absolutamente dada de divino contra a poliandria ou a poligamia, e penso que devêssemos encarar tal assunto como pessoal ou livre. O contrário disto seria opressão.

Claro que podemos optar pela monogamia ou preferi-la. Agora querer impo-la a todos os outros e em nome de Deus me parece o supremo absurdo. Deus certamente observa em primeiro lugar o sentimento do amor do que o número. E quem sabe até sem numa família do tipo poligâmico ou poliândrico não pode haver mais amor, carinho e afeição do que em algumas famílias monogâmicas que vivem de aparências?

Cessemos portanto de apontar, de julgar e de condenar o outro porque isto certamente não é nem um pouco Cristão.

Afinal tantos daqueles que batem no peito declarando-se monogâmicos possuem mais amantes ou casos fora do casamento do que os próprios poligamistas???

Aquele que tem fé viva a simplicidade da sua fé sem observar como vivem os outros.

Devemos portanto estar abertos para aceitar diversos tipos de organizações familiares. E não permanecer inutilmente apegados a abstrações metafísicas ou a agregados culturais persistentes.

Tampouco cabe a nós Cristãos impugnar o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo. Se você não concorda, é muito simples - Não pratique. Certamente ninguém haverá de obriga-lo a casar-se com outro homem ou com outra mulher. Não precisa nem mesmo ir a cerimônia de casamento ou levar presente, mas certamente precisa respeitar duas pessoas que se amam ou que se gostam, porque se elas se amam o Deus de amor se faz presente entre elas e santifica esta relação.

Tais pessoas não são safadas ou imorais, ou promíscuas porque pensam o sexo distintamente de você. Como não são monstruosas as que aderiram a uma dieta distinta da sua... Quando vamos a um restaurante há quem prefira salada e há que prefira churrasco, além é claro do que preferem frutos do mar... O que não há nem poderia haver é policiamento... Não podemos sair na mão por conta de hábitos alimentares distintos... Como não podemos agredir o outro por causa de suas preferências sexuais. O cardápio, o figurino, as sensações sexuais pertencem ao outro não a nós e o outro deve ser reconhecido como livre e senhor de si. O contrário disto é opressão.

Nem me diga que é a homossexualidade um pecado terrível porque serão os homens arremessados no mítico inferno. Remeto meus críticos a descrição, sucinta porém necessariamente completa oferecida por Nosso Senhor Jesus Cristo no vigésimo quinto capítulo do Evangelho de Mateus - Tive fome e me destes de comer, tive sede... é o que encontramos ali e não Destes teu rabo ou esfregaste tua vagina noutra vagina... Não isto não lemos. Deste juízo sexual, homofóbico, moralista e puritano não há vestígio no santo Evangelho. Destarte somos autorizados a declarar em alto e bom som que o Deus dos Cristãos não é vigia do ânus, do pênis ou da vagina de quem quer que seja... Não temos um Deus no controle de órgãos sexuais, o Evangelho não nos apresenta um Deus que nos julga por nossas preferências sexuais mas por nossos corações, indagando-nos apenas sobre que fizemos de nosso semelhante ou se a semelhança dele amamos o próximo como a nós mesmos.

Lamento mas a homofobia não esta fundamentada no terreno do Sagrado Evangelho. Lamento mais a titulo algum é Cristão. Portanto se duas pessoas do mesmo sexo desejam estabelecer vínculos estáveis ou um compromisso afetivo e adotar, e educar crianças ou jovens, rejeitados por heterossexuais despudorados e sem consciência nada há de anti natural nisto. Anti natural é uma pai ou uma mãe repudiarem seus próprios filhos, os quais geraram tendo em vista a conservação da espécie. Isto sim, o repúdio é aberrante. Não o acolhimento ou a adoção, parta de quem parta.

Tanto pior do ponto de vista natural ou civil, segundo o qual assiste a tais pessoas, enquanto contribuintes o direito líquido e certo de registrar suas relações afetivas obtendo amparo por parte do estado.

Por patriarcal temos o matrimônio machista, em que uma das partes é tida em conta de essencialmente inferior ou de prestadora de serviços (serviçal). É patriarcal o tipo de relação não igualitária em que é defeso ao marido comandar a mulher e os filhos exercendo caprichosamente a tirania sob ambas as partes segundo o modelo tradicional do 'pater familias' romano. Aqui a mulher é tida em conta de serva sexual ou de empregada e os filhos de tutelados sem vontade própria. Já o macho dominador converte-se em deus na terra... Claro que a suposta superioridade do homem é, como não podia deixar de ser, coisa de livros religiosos e não da natureza.

Os povos semitas, vivendo nas areias do deserto e tomando por padrão social a força física não apenas deram a mulher por inferior ao homem como atribuíram esta distinção a divindade. No entanto todas as situações em que a mulher aparece fruindo duma condição inferior ao homem são dadas pela cultura, não pela natureza. Intelectualmente é a mulher tão capaz quanto o homem desde que se lhe dê as mesmas oportunidades. Além disto tem o poder de levar a cabo a geração, coisa que o homem não pode fazer por si só... Klein por sinal, lanço a tese segundo a qual o homem se sente incomodado por essa capacidade da mulher levar a cabo a geração, sem necessidade dele ou de converter-se em 'pai' e mãe...

Cada vez mais se impõem a necessidade de que a Igreja (do ponto de vista administrativo não doutrinal), a escola, o clube e o próprio matrimônio assumam cada vez mais pressupostos democráticos com o propósito de produzirmos uma cultura ou um espírito democrático. Relações hierárquicas e autoritárias na base da cultura certamente fragilizam a produção de uma consciência democrática. Esposas (ou maridos, porque também existem) e filhos submissos jamais serão bons cidadãos em estado de liberdade. Por isso todas as decisões de uma família devem ser tomadas em comum, partindo de um conselho familiar. Assim discutidas e votadas, jamais impostas verticalmente.

Tampouco vemos que seja ou deva ser o matrimônio indissolúvel por qualquer razão, mas solúvel como todas as coisas que porventura não deem certo. Por isso o Salvador do mundo autoriza subsequentes matrimônios em caso de adultério para a parte inocente. Afinal nem poderia o inocente, sob qualquer título ser penalizado da mesma forma que o culpado ou suportar um jugo mais pesado; seria injusto. Isto disse ele para evitar que as mulheres judias fossem repudiadas por qualquer motivo leviado e lançadas no olho da rua para que morressem de fome. Restringiu o divórcio entre os judeus e os primeiros cristãos procedentes da judiaria com o objetivo de proteger a mulher.

Num regime de liberdade no entanto para que deveriam as partes esperar serem traídas uma pela outra? Haveria conselho mais insensato??? Claro que numa situação diversa da que vigorava entre os primitivos judeus seria defeso ao casal desfazer o matrimônio por mútuo acordo, antes que chegassem a situações de adultério ou violência, sendo defeso tanto a um quanto a outro contratar novo matrimônio.

De tudo quanto dissemos acima ressalta a tese segundo a qual as relações matrimoniais foram dadas ao homem para que ele mesmo as gerencie racionalmente da melhor maneira possível.

Resulta deste gerenciamento mútuo que possam, na medida em que se mostrem maduros e capazes, de administrar a sexualidade do matrimônio, sem confundi-la com a afetividade ou o vínculo. Defendemos assim o amor livre ou o sexo livre dentro do casamento ou do matrimônio. Noutras palavras defendemos a existência de um matrimônio sexualmente aberto ou de vínculos afetivos estáveis que não pressuponham controle ou monopólio sexual.

Já esta mais do que na hora da sociedade aprender a separar amor de sexo e sexo de amor. O que produz um vínculo entre duas ou mais pessoas é o sentimento, o carinho, o amor, o afeto, a confiança, etc não o sexo. Em que pese a existência dos vínculos e da união, a sexualidade de ambas as partes podem continuar sendo livre se ambos o quiserem e assim decidirem.

Se amar é querer ver o outro feliz não me parece condizente com a vontade de reprimir os impulsos ou desejos sexuais alheios. A que título você pensa poder cobrar que a pessoa a que ama faça sexo apenas com você ao invés de autorizar que tenha uma vida sexual livre com outras pessoas? A única explicação possível aqui é que a maioria de nós sente-se inseguro com relação ao próprio desempenho sexual temendo ser superado por alguém e eventualmente posto de lado. No entanto se o que conta de fato numa relação estável é de fato o amor, o carinho, etc não é de se esperar que esta relação permaneça firme, forte e inabalável para além de qualquer outra possível experiência sexual???

Por outro lado não é até melhor que a pessoa a que amamos tenha uma, quem sabe, uma experiência sexual mais intensa com uma outra pessoa, desde que consentida por nós? Será que um tal tipo de liberdade não reforçaria ainda mais os laços de admiração, gratidão, carinho e amor? Isto pelo simples fato de que o amor nos faz aspirar ver o outro feliz e realizado em todos os sentidos... No fim das contas por que odiar a alguém por dar prazer a quem dizemos amar? Acaso dar prazer a alguém não é um bem e fazer alguém feliz não é igualmente um bem?

Então por que queremos monopolizar sexualmente o outro e restringir sua liberdade e experiencialidade sexual se sabemos que será uma fonte de angústias e neuroses para ele?

Mas quem ama deve controlar-se?

Controlar-se porque o exigimos? Controlar-se por que é objeto ou propriedade nossa? Controlar-se por que é monopólio nosso? Que temos aqui nesse sentido de posse, amor ou egoísmo?

Que queremos de fato que o outro nos faça feliz submetendo-se a nosso controle ou que o outro seja feliz???

Mas quem ama deve fazer sacrifício?

Neste caso olhe para dentro de si mesmo e responda se esta sinceramente disposto a fazer grandes sacrifícios pelo outro.

Se responder sim, estamos conversados...

Agora se hesitar por um instante, permita que lhe pergunte:

Desde quando exigir sacrifício por parte do outro é amar?

Afinal sacrifício é dor ou desconforto não?

Permita-me insistir teimosamente e dizer que amar é querer fazer o outro feliz?

Como posso fazer o outro feliz submetendo-o a situações limites, cobrando-o, vigiando-o, policiando-o, tratando-o como um objeto ou uma propriedade?

Perdoem-me a ignorância mas não posso ver como tantas e tantas exigências possam corresponder ao amor, ou por que deva o amor imiscuir-se nos domínios da sexualidade.

Por que motivos não podemos construir laços familiares duradouros com base no amor e ao mesmo tempo conservar a liberdade sexual evitando tantas situações de neurose e conflito que chegam até a violência?

A instituição família penso eu continuará a existir por séculos ou milênios.

Assumirá no entanto novas formas passando por múltiplas transformações.

Assim o que repudiamos não é a instituição em si mas determinada forma 'fixa' ou imutável enquanto produto natural da cultura e não uma emanação do Sagrado. Nós aceitamos todos os tipos ou modelos de família desde que santificadas pelo vínculo do amor. E acreditamos acima de tudo numa adoção, cada vez maior, dos casamentos sexualmente abertos, o que por sinal é bem mais conforme a dignidade da criatura racional.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

As opiniões do sr Lebeziatnikoff

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As opiniões do sr Lebeziatnikoff de 'Crime e castigo' (Dostoevsky) fizeram-me recordar S Freud.

Mestre, não se incomoda de que os nazistas estejam a queimar seus livros?

Freud - De modo algum. Certamente progredimos muito pois a cem anos teriam queimado a mim.

E no entanto que palavras ousadas são postas por Dostoevsky na boca de um homem de 1860! (O livro foi editado em 1866).

Tão ousadas que século e meio depois continuam a escandalizar os leitores de 2017!!!

Para quem não sabe Lebeziatnikoff é revolucionário e amigo das ideias novas. Aspira reconstruir a Sociedade noutros termos, em marcada oposição aos valores tradicionais.

Um dos aspectos mais interessantes de seu discurso é o amor livre definido como especie de relacionamento ou casamento aberto em que tanto o homem quanto a mulher mantém (ou melhor adquirem) a liberdade sexual.

Nosso homem lá nos confins da Rússia imagina que tudo isto seja extremamente anti Cristão. Sem saber que do outro lado do Oceano (nos EUA) a tese era defendida justamente nos círculos Cristão liderados por Noyes e Lazarus.
Passemos sem delongas as palavras do jovem revolucionário russo:

"Nós procuramos a liberdade da mulher e o sr cogita apenas em... Pondo de lado a doutrina da castidade e do pudor femininos, como inúteis e absurdas, admito perfeitamente as reservas dela diante de mim, visto que assim usa de sua liberdade e exerce seus direitos. Mas caso me dissesse: Quero que sejas meu. Sentir-me-ia feliz, porque essa moça agrada-me muito... Jamais fizeram justiça as qualidades dela. (Refere-se a prostituta Sonia)" p 372
"O senhor ri porque não tem a força necessária para romper com os preconceitos. Compreendo que no contesto da união monogâmica e legítima constitua afronta ser enganado, é resultado da própria situação que degrada da mesma forma os dois conjuges. No entanto quando a ideia de posse for removida e estabelecido o relacionamento livre o adultério é que deixará de ter significado. Só assim a mulher demonstrará que ama o parceiro no momento mesmo em que ele deixar de por obstáculos da felicidade dela e até poderá prender-se livremente a ele. Julgo as vezes que se casado fosse - Livre ou legitimamente não o importa - e se minha mulher não tomasse amante, eu cogitando em sua maior felicidade, é que haveria de procura-lo, e dizer-lhe: Minha querida, eu te amo e por isso quero que o saibas - Eis o que te ofereço livremente..." p 379


Veja bem o que você acabou de ler, leitor do século XXI, numa obra escrita em 1866...

Se não compreendeu o aspecto revolucionário destas palavras que atravessam os séculos leia mais uma vez ainda.

Porque ainda hoje são afrontosas, escandalosas, revolucionárias, imorais, etc século e meio depois. Ao menos para a imoralidade convencional.

Refiro-me as relações de posse ou monopólio que não sejam - e quão poucas são - produto do amor e da decisão livre. Pois a maioria delas é produto do egoísmo e da fraqueza, alimentados pelos preconceitos. As pessoas se conformam - aparentemente - com a monogamia e com a indissolubilidade tendo em vista a opinião alheia ou a crença da maioria. E adotam, por falta de coragem e dignidade, um modelo de família, que lá no fundo, bem no fundo, aborrecem.

E pela repetição e pelo costume até acabam achando bonita toda essa falta de dignidade.

Claro que não me refiro aqui aos que adotaram esse modelo livremente tendo em vista suas necessidades psicológicas. Mas apenas aos que limitaram-se a aceita-lo externamente, por mera pressão social... Enfim aqueles que sentem ter abdicado de suas liberdades face a imposição alheia e arbitrária. Aqueles que sacrificaram a consciência...

Quantos e quantos ainda hoje não aderem a casamentos ou uniões aparentes apenas para satisfazer a opinião pública ou ludibria-la. Que pode haver de mais abjeto?

Que pode haver de mais indigno e asqueroso do que essa febre de traições e adultérios que prolifera por trás da quase totalidade de casamentos monogâmicos e indissolúveis, nos quais homem e mulher cogitam antes e acima de tudo sobre a melhor maneira de enganar o outro!

Eis o reinado abjeto, asqueroso e imundo da hipocrisia.

Não estou aqui a decantar contra a existência de uniões estáveis desde que verdadeiramente livres. Não, de forma alguma. Até concedo que sejam viáveis senão essenciais a certas estruturas psicológicas.

A questão aqui não é a companhia ou o amor. Mas o próprio sentido do amor com relação ao sexo.

Afinal traição só faz sentido se há posse ou monopólio.

Atraiçoo a alguém caso pertença a alguém.

Agora se pertenço a alguém certamente sou propriedade de alguém e alguém proprietário (a) meu...

Ah mas um pertence ao outro... A relação de posse e propriedade é recíproca.

Mas desde quando uma situação deixa de ser abjeta pelo simples fato de ser compartilhada?

Desde quanto escravidão, assassinato, roubo, etc convertem-se em ações virtuosas desde que compartilhadas?

Desculpem-me os leitores mais susceptíveis mas tenho de dizer: Caso o ser humano possa ser mesmo propriedade de outro ainda estamos lá no tempo do - Não cobiçaras a tenda do teu próximo, o boi do teu próximo, a ovelha do teu próximo, a MULHER do teu próximo... Porque ainda aqui, homem ou mulher já não se distinguem em nada de quaisquer outros objetos de posse, assim da mesa, da cadeira, do sofá, da televisão, do cavalo, do camelo...

Posso compreender que o homem entre na legítima posse pessoal da terra por ele trabalhada e dos objetos que adquiriu a partir do produto de seu trabalho. Pois trata-se daqui de elementos desprovidos de racionalidade e de vontade própria. Uma cadeira não tem consciência de si mesma, uma mesa não pode dispor de si mesma...

Agora como podemos entrar na posse de um ser racional e livre, exceto ele conceda em tal relação sem ser pressionado por qualquer fator de origem externa a si. Ora até hoje os homens e mulheres tem consentido em ser monopólio de outros apenas por força de uma lei externa ou de preconceitos sociais.

Dai a necessidade de desregular o matrimônio e torna-lo absolutamente livre para torna-lo verdadeiro e saber em que medida as pessoas aceitarão livremente ser monopólio de outras. Uma coisa porém é absolutamente certa: Pessoa alguma deveria ser obrigada, por lei alguma, a tornar-se objeto de posse de outra pessoa.

Não somos contra a posse ou o monopólio, desde livre e sem qualquer interferência social ou estatal. Para que o matrimônio monogâmico ou indissolúvel adquira a respeitabilidade revindicada por seus defensores, deverá ser livre. Imposto mostra-se falacioso. Os homens burlam as leis, enganam-se uns aos outros, criam um reinado de hipocrisia, envenenam as fontes da ética e tudo termina em chalaça.

Pessoas há que mesmo aspirando por companhia e amando a pessoa com que vivem não aspiram por essa posse, controle ou monopólio sexual, encarando tal posse como absurdamente ridícula. Tais pessoas não confundem o sexo ou o prazer sexual com o sentimento ou o amor e não misturam uma coisa com a outra. Por isso não se sentem desonradas quando o marido ou a mulher notifica que deseja sair com fulano ou beltrano. Muito pelo contrário mostram-se felizes pelo simples fato da pessoa a que amam ter acesso ao prazer e ser feliz, e chegam ao ponto de se sentirem gratas aquele ou aquele que proporciona prazer ao objeto de seu amor. Pelo simples fato de amarem... Porque amo verdadeiro não conhece limite.

Amar já foi dito não consiste em buscar a própria felicidade mas em buscar a felicidade do outro ou por a própria felicidade na felicidade alheia, como que empenhando-a. O que certamente excluí a posse, o controle, o ciúme, etc Pois tudo isto é opressão e nada disto é amor.

Direi mais: Uma hora a busca pelo prazer sexual chegará ao fim. A multiplicidade de vivências ou experiências sexais trará certamente a saciedade. O amor, a estima, o companheirismo, o vínculo criado, apenas isto permanece para sempre. Nada mais delicioso do que uma pessoa sendo livre oferecer-se exclusivamente a outra... Isto sim é que se chama conquista. O resto não passa de prisão.

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Tais os sentimentos e opiniões de Andrei Semyonovitch Lebeziatnikoff... enunciados em 1866!