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sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Relativismo cultural: Histórico e confrontação

Posto o problema em seus devidos termos, urge identificar os principais responsáveis ou culpados.

Assim a ideologia que ora se converte em dogma, o relativismo cultural.

Refiro-me ao ponto de vista segundo o qual não se pode falar em culturas superiores ou inferiores. Devendo todas ser avaliadas como iguais.

Segundo essa opinião inexiste notação cultural, posto que tudo quanto é produzido pelos humanos é cultura.

Aqui o 'confusionismo' é evidente. Pois do fato de que tudo quanto seja produzido pelos humanos seja cultura não se segue que todas as produções culturais da humanidade tenham o mesmo valor...

Que toda a cultura produzida pelo ser humano tenha igual valor é algo que se afirma, mas que jamais se demonstra. É portanto um juízo de valor, demasiado subjetivo e arbitrário que a pós modernidade irracionalista aspira converter em dogma inquestionável, a ponto inclusive que criminalizar os oponentes.

É, repito, opinião indemonstrável e caprichosa, emitida por antropólogos como Franz Boas, R Benedict, M Mead, J Herscovitz e outros desde os primórdios do século XX e convertida, nas últimas décadas, em arma política, por parte de minorias ambiciosas, inspiradas por modelos religiosos totalitários.

Inútil argumentar que a Helade clássica produziu o esporte, o teatro, a Filosofia, os cânones da arte, a Democracia, etc enquanto que as antigas tribos israelitas nada produziram de equivalente. Ocioso alegar que a civilização cristã bizantina produziu um modelo de serviço social e assistência, enquanto que a Europa ocidental nada produziu de similar. 

Outros contrastes?

O reino de Angkor e os povos das estepes.  A Itália Renascentista e a França feudal do século XIV. A Bélgica romanista, guiada pelos sábios da Louvain e a Inglaterra do século XIX. Os países escandinavos do bem estar social e os EUA nas últimas décadas do século XX...

Para os irracionalistas, funcionalistas e pós modernos é absolutamente tudo igual. Assim o projeto islâmico para a Europa e o projeto calvínico/pentecostal para o Brasil e a vigência das instituições liberais do tempo presentes. Afinal, se tudo quanto existe são narrativas, e se toda verdade objetiva nos foge, como postular diferentes projetos sociais e políticos, estabelecendo uma escala de valores???

Em última análise é o relativismo social ou cultural fruto da epistemologia kantiana ou do ceticismo metafísico. Seja como for o temos de analisar atenta e profundamente, de modo a fazer-lhe oposição.

A primeira assertiva, alias, até certo ponto justa, é que não podemos comparar grupos ou sociedades que floresceram em diferentes espaços e eras. Quanto ao espaço, há certa lógica. Pois sem chegarmos a F Ratzel e ao determinismo geográfico, temos que admitir que o fato da Revolução Inglesa se ter dado na Inglaterra, cujo solo é, por assim dizer, um  pedaço de carvão, é bem mais do que uma coincidência. Tampouco podemos negar que os habitantes dos desertos, estepes e montanhas sejam mais agressivos que os agricultores das grandes planícies aluvionais - Ou que as primeiras cidades se tenham formado junto as margens dos grandes rios (cf Metchenicoff). 

A questão aqui é se a condição geográfica determina ou apenas possibilita, ficando os resultados na dependência do éthos específico de um dado grupo humano. O que nos leva a questão central i é se qualquer povo, num dado espaço e num dado tempo, procederia da mesma e exata forma que outro... Ratzel foi pelo determinismo espacial... Porém V de La Blache e J Brunhes foram na direção da síntese a que chamamos Possibilismo... Indicando que a ação dos grupos humanos não é homogênea, havendo diferenciação, mesmo quando o tempo e o espaço sejam similares.

Para rematar a questão devo admitir que entre povos que habitam espaços bastante diferenciados as comparações devam ser, quando feitas, cuidadosas e sumárias. Outra questão a ser analisada é que dada a peculiaridade das culturas não devamos considerar a transferência da cultura nos diversos espaços... Faço as mesmas reflexões sobre o tempo - Admitindo o absurdo de compararmos as culturas da Idade da Pedra com as culturas da antiguidade. Outro o caso de compararmos as culturas ágrafas subsistentes com as culturas contemporâneas propriamente ditas.

E é por aqui que chegamos a teoria relativista e pragmática da pós modernidade, chamada FUNCIONALISMO. De fato, nas mentes dos antropólogos cientificistas, que abraçaram o ideário positivista, deve a 'ciência' numa perspectiva empirista e materialista (Não meramente material) todo e qualquer conteúdo que fuja a materialidade e admita qualquer coisa de ideal, deve ser repudiado. Pelo simples fato de que o ideal implica suspeita de imaterialidade ou de metafísica - A qual Kant classificou como impossível... Então eles estabelecem os limites e as fronteiras do saber pela materialidade > O que também produzirá problemas, alias ainda mais grave, no campo da Psicologia.

Antecipando tudo isso E J Litreé, pelos idos de 1860, esboçou a direção do positivismo> A Negação da Ética, enquanto modelo materialmente inexistente posto para a realidade dada nas áreas da Ética e da Estética. Segundo Litreé, não poderia o conhecimento verdadeiro ou científico estabelecer uma meta para o que não existe ou não possuí materialidade - Noutras palavras, nada se pode predicar de Objetivo quanto ao que vá ser feito, estipulando como deve ser feito. O que implica a negação da Ética e da Estética enquanto ''supostas" orientações valorativas sobre o que não tem existência real. O positivismo, a ser coerente, foi meticuloso e chegou a negação da Ética e da metafísica. Poincaré foi mais ou menos do mesmo ponto de vista. 

Não há Filosofia, não há metafísica, não há idealidade não há objetividade fora da materialidade, não há qualquer padrão para juízos de valor, e portanto, não há Ética e tampouco Estética como entendiam nossos ancestrais gregos. Devemos, quanto ao bem e ao mal, quanto ao belo e o feio, e também, quanto a verdade e o erro (E todas as questões que se distanciam em demasia da percepção ou da sensação.) nos conformar com aquilo que é dado ou com aquilo que os gregos chamavam 'doxa' i é opinião. Pois em última análise seria problemas insolúveis, ociosos e, consequentemente, sem importância.

O tiro de Litreé todavia saiu pela culatra. E após as negativas dos positivistas, em favor daquilo que é, existe ou é dado (Ciência descritiva); enfim da inércia conservadora que apenas analisa, estuda ou conhece sem jamais preceituar ou interferir, estouraram as bombas dos anarquistas e comunas da propaganda pelo fato... Ravachol e turma... Os quais eram a um tempo idealistas e a outro materialistas - Vai entender... Abolida a Ética, engendrado o Darwinismo social, proclamado o conformismo, etc chegamos rapidamente a primeira grande guerra mundial. As vésperas da qual tornaram os intelectuais a falar sobre Ética... 

Naturalmente que a reabilitação da Ética ou da moralidade, no contesto do pós guerra foi encarada pelos anarcos, comunas e mesmo por parte das pessoas comuns como mera estratégia oportunista. Admitida a lógica de Trasímaco e lançada ao lixo a de Sócrates, por primeira vez na História o lado 'fraco', representando pelos dominados, ameaçou romper as cadeias da sujeição... Diante disto o desmantelar do positivismo ortodoxo ou do cientificismo crasso foi encarado por muitos como um dourar a pílula - Era Trasímaco amaciando ou buscando ocultar seu discurso e para tanto apelando a conceitos como paz, respeito, amor, bondade, etc tornando a atribuir-lhes sentido meio século depois. E se um Ayer continuará negando ferozmente o sentido de tais palavras sempre encontrará resistência.

Quanto aos pensadores modernistas nada posso dizer sobre a honestidade dessas idas e vindas - Posto que se lhes trouxer alguma vantagem ou benefício são capazes de resgatar a existência de Deus. Os papistas - Assim Emile Boutroux em 1895 cf "Questões sobre moral e educação" ou mesmo em 1883 em "Sócrates, fundador da ciência moral" - no entanto já levantavam a questão da objetividade da Ética ou do Socratismo, e consequentemente da Metafísica, da idealidade, da validade dos saberes, etc cerca de dez ou mesmo vinte anos antes da calamidade de 14.  

E foi exatamente nesse período que toda essa questão passou aos domínios da antropologia. Quando em 1903, L Levy Bruhl na "Moral e ciência dos costumes" - Ocasião em que o autor, dando moral por Ética (Como tantos outros) afirmou que a Ética inexiste como objeto próprio, objetivo e universa, não passando de uma construção social relativa a cada grupo. Cada grupo social teria sua Ética ou moral específica - Daí diversos sistemas de Ética contraditórios ou sem qualquer conexão. 

Isto quanto a Ética, em oposição ao universalismo objetivo de Sócrates.

Quase que simultaneamente, Boas e seus colaboradores elaboraram sua teoria relativista da cultura, com base no funcionalismo, algo, como veremos perfeitamente pragmático. Postulando que é absurdo avaliar uma dada cultura partindo tanto de um universalismo Ético objetivo quanto dos princípios e valores externos a ela ou procedentes de uma outra cultura. E que o único modo de avaliar uma dada cultura é através de sua função, noutras palavras, se aquela cultura foi ou é útil tendo em vista a sobrevivência ou o bem estar do grupo. Portanto se um dado elemento promove a sobrevivência ou a manutenção de certo grupo social deve ser classificado como útil, benéfico ou vantajoso pelo grupo, uma vez que a conservação do grupo é o bem supremo ou o único critério a ser considerado.

Tal o modelo funcionalista, como se vê, derivado do utilitarismo, uma vez que tudo quanto se considera é a utilidade para o grupo em termos de continuidade e bem estar. Não cabendo qualquer juízo valorativo por parte a uma cultura mais evoluída ou a uma instância Ética universal. 

A conclusão aqui é bastante simples: Caso a mentira, a traição, a pedofilia, a castração de mulheres, a tortura, o assassinato, etc traga alguma vantagem para determinado grupo social, mantendo-o coeso e equilibrado, deve ser avaliada como algo bom naquele grupo e para aquele grupo... E o mais é puro preconceito...

Imaginemos porém nossa própria cultura ou algum agregado social próximo a guerra, a tortura, a tirania, etc se tornassem úteis tendo em vista o equilíbrio ou a conservação social... Entendem porque tantos e tantos teóricos tem buscado demonstrar a utilidade da mentira, da traição, da guerra, dos vícios (Bernardo de Mandeville), etc... Pois do ponto de vista do funcionalismo ou do relativismo ético, aquilo que é útil é necessariamente bom... Podemos portanto, demonstrando que qualquer coisa seja útil, transforma-la em algo bom ou desejável, mesmo quando de fato seja anti ética e essencialmente má.

E como parte dos cidadãos é individualista ou ignorante - No sentido de não ser capaz de compreender a teoria. - fica fácil argumentar que tudo quanto seja bom para o outro grupo, assim a castração de mulheres ou a burka para as sociedades islâmicas, também pode ser bom para o nosso grupo... E é exatamente aqui que as coisas se complicam. Pois embora esteja eu pouco me lixando para as tribos do deserto que lavam o c... com areia, acharia preocupante caso viessem eles morar na capital de S Paulo e propagar entre nós as prodigiosas vantagens de sua higiene 'peculiar'...

E decerto, caso avaliemos as coisas pelo critério deles ou do funcionalismo, o problema é a burka, a castração de mulheres, a sharia e as instituições do deserto transplantadas para nossa cultura em lugar de seus elementos e instituições... Então nem seria o caso de buscar demonstrar que são superiores ou melhores porém que são as mais adequadas a nossa realidade. E é o quanto bastaria para combatermos a islamização ou a protestantização.

Nossa maneira de proceder, enquanto Cristãos ou Católicos, ou ainda enquanto herdeiros da civilização greco romana, é a mais adequada tendo em vista nossa estrutura social. E parece não haver indício ou evidência alguma que ao menos neste local ou nesta época as culturas protestante, judaica ou islâmica seriam melhor sucedidas. Como pura e simples conjectura a respeito de um futuro que ainda não existe, tal opção equivaleria sempre a uma aposta, pela qual poderíamos vir a pagar um preço demasiado caro.

Além disto possui a funcionalidade um outro viés, que é do igualitarismo social. Dando por suposto que em dado lugar e tempo todo e qualquer grupo humano agirá da mesma forma, estruturando o convívio do mesmo modo, fica demonstrada a 'igualdade' da espécie enquanto ser social. Por outro lado, se, dadas as mesmas condições, os diversos grupos procedem de modo diverso, com maior ou menor habilidade, temos que não há igualdade social entre os grupos que compõe a espécie.

Então o receio aqui, alias um receio justo até, é que a partir do fato da desigualdade cultural ou social, se possa aduzir um desigualdade em termos de pessoa ou ser humano. Pois as massas tendem a confundir as coisas muito facilmente. Ora, o quanto podemos dizer sobre isto é que a igualdade humana (Universal) em termos de capacidades (Da espécie) não é ativa porém potencial - Todos os humanos tem um potencial racional para a abstração, para a metafísica, para a construção da linguagem, para a predição ou o juízo, para a lógica, para a pesquisa, etc No entanto, como ser humano algum nasce a parte de um determinado construto social, acabamos sendo condicionados pela Sociedade em que nascemos e vivemos na medida em que ela limita ou não a expressão ativa da racionalidade. 

Importante saber que num dada formação social ou cultura há uma condição de relativa igualdade ou de igualdade média, exceto quando as oportunidades são negadas intencionalmente com o sórdido objetivo de produzir alienação ou massificar. Tomo por modelo uma sociedade ideal de informação e reflexão, inda que marcada por desigualdades sociais possíveis de serem superadas. Num dado grupo social ou cultural podemos supor certa margem de igualdade posta para a reflexão e para a liberdade. Então a questão da igualdade humana absoluta não se coloca em função da cultura - O quanto podemos postular é uma igualdade relativa no interior de uma dada cultura. Face, as desigualdades reais impostas pela cultura, o quando podemos afirmar em termos de universalidade é a potencialidade.

Devemos salientar ainda que os indivíduos que migraram de seu universo cultural para outro estarão em vantagem ou desvantagem conforme migrem de um cultura mais elaborada para um cultura mais simples ou de uma cultura mais simples para uma cultura mais elaborada. Resta-nos inferir que o problema da limitação não está na natureza humana ou na potencialidade comum e sim no construto cultural mais ou menos completo, o qual impulsiona mais ou menos o potencial humano, ampliando-o ou restringindo-o. Portanto, na hipótese de que exista uma cultura superior, tanto mais complexa e melhor tendo em vista o estímulo integral de nossas potencialidades é importante ter plena consciência dessa superioridade.

Diante disto, dentro dos limites do tempo e do espaço, não posso deixar de encarar as culturas: Suméria, Egípcia, Grega, Chinesa ou Inca como superiores as demais ou como mais desenvolvidas. Do mesmo modo como a Evolução biológica nos dá a entender que certas linhagens se vão tornando mais complexas na medida em que se adaptam a um meio estável ou instável e logram sobreviver, assim algumas entidades culturais mostram sua superioridade na medida em que estimulam com maior eficácia as capacidades do Homo Sapiens. E estimulam produzindo determinados construtos sociais - Assim entre os antigos Sumérios a escrita, o bronze, o arado, a roda... Entre os egípcios a escrita, o papiro, a mitologia, a medicina... Entre os gregos a Democracia, a Filosofia, o Teatro, o Esporte, a Mitologia, etc Entre os modernos a justiça social, a Democracia, a Imprensa, o Rádio, a TV, a Internet, o avião, a Ciência, etc É a criação de tais meios, suportes ou entidades que estimulam nossas habilidades potenciais.

Por outro lado podemos e devemos classificar como culturas inferiores não as que permanecem estacionadas noutro nível, porém equilibradas, mas sobretudo aquelas cujos membros, tendo conhecimento das conquistas acima citadas, buscam elimina-las. Assim os que buscam eliminar a arte, a ciência, a justiça social, a democracia, a ciência, o esporte, a tecnologia, etc com o objetivo de nos fazer retroagir - Pois uma coisa é corrigir para melhorar e outra destruir por completo.

Então o que queremos dizer em alto e bom som é que não podemos encarar o iconoclasmo, o negativismo científico, a eliminação da técnica, a supressão da democracia, a negação dos direitos naturais, etc como um padrão de cultura igual ao nosso e sim como uma ameaça, ao menos a um projeto (Inda que desviado ou mal esboçado.) de civilização. Longe de nós encarar a sharia, a teocracia, as inquisições, o fetichismo, o criacionismo, o geocentrismo, o terraplanismo, o maniqueismo, etc como algo neutro ou inocente que se deva tolerar. Suprema loucura conceber o islamismo, o protestantismo pós calvinista ou a judaização como propostas alternativas de sociedade quando na verdade representam a barbárie. Barbárie contra a qual devemos reagir forte, poderosa e conscientemente - Inda que para tanto devamos nos opor aos novos dogmas da pós modernidade como o funcionalismo ou o relativismo cultural.

Pois na base do despejo dos jihadistas em solo europeu e enquanto fundamento de tão irresponsável iniciativa estão tais ideologias ou resíduos de um pós modernismo que nega a verdade substituindo-as pela narrativa. Narrativa por narrativa não é a narrativa islâmica que querem os europeus... Tampouco a maior parte dos latino americanos de hoje desejam aderir a versão protestante ou americanista de sociedade. Logo, o ponto de partida de nossa luta pela cultura será a valorização de nossa identidade, de nossas tradições e de nossas vivências. 

Conheça também os demais artigos da série 'Culturas de morte': 


  • Americanismo
  • Positivismo
  • Anarquismo
  • Conservadorismo
  • Protestantismo
  • Capitalismo
  • Comunismo
  • Fascismo
  • Pós Modernismo
  • Sionismo 
  • etc







quinta-feira, 16 de novembro de 2017

O tabu do totem - Uma resposta a S Freud IV (As fontes de 'Totem e tabu' Robertson Smith)

No artigo anterior procuramos demonstrar que Ch Darwin equivocou-se ao tomar a organização social vigente entre os gorilas como ponto de partida para os primeiros grupos humanos e que equivocando-se levou consigo Atkinson e finalmente o pai da psicanálise.

Sem maiores contemplações podemos dar por falsa a primeira premissa tomada por Freud a Atkinson e afirmar que o modelo mais próximo dos primeiros hominídeos foi certamente o modelo chimpanzé, modelo de uma sociedade promiscua e não patriarcal.

Analisemos agora, de passagem a segunda premissa de 'Totem e tabu' tomada a Robertson Smith. 

Como é de praxe principiemos dando a palavra ao próprio Freud:

"W Robertson Smith, expoẽm em sua obra sobre a 'Religião dos semitas', publicada cinco anos após sua morte, em 1899, a opinião de que uma cerimônia singular, a chamada 'refeição totêmica', formou, a princípio, parte integrante do sistema totêmico." p 173

"Expõem Robertson que o sacrifício sobre o altar constituía parte essencial do ritual DAS RELIGIÕES ANTIGAS." p 174


Chegando a este ponto fica difícil saber se Freud de fato leu, e se ao ler compreendeu ou se, falseou consciente ou inconscientemente a opinião do exegeta escocês cuja obra em questão, cujo próprio título dá a entender, havia limitado sua exposição aos povos semitas, i é aos aŕabes e aos hebreus, e estendido sua teoria aos povos circo mediterrânicos do segundo milênio a C, sem jamais ter esboçado a pretensão de estendê-la a aurora dos tempos enquanto fundamento de praticamente todas as culturas. Se há uma cousa bastante clara na obra de Smith é o cuidado com que balizou o tempo e o espaço. Freud ao estender a opinião do autor, sem quaisquer evidências concretas por sinal, a História primitiva, acabou deturpando-o.

O pai da psicanálise certamente tinha o direito conferir a hipótese do escocês uma abrangência maior, sem no entanto atribuí-la a ele, fazendo dizê-lo o que jamais pretendeu dizer. Atribuir sua própria constatação ou conclusão ao outro implica desonestidade.

E Freud tem plena consciência a respeito do que fez. Ouça-mo-lo:

"Robertson Smith esta muito distante quanto a nossa opinião a respeito do sacrifício corresponder ao grande evento da História primitiva da humanidade." p 197

De modo que a hipótese sobre o fundamento sacrifical e thiásico da religião primitiva deve ser creditava unicamente a Freud, o qual, ao contrário do exegeta escocês nada demonstrou em termos de concretude ou de evidências arqueológicas.

Foi sem sombra de dúvida a rivalidade existente entre pais e filhos em contexto específico que levou Freud a ver, gratuitamente, na base de toda religiosidade e de toda cultura o parricídio. Projetou assim, o complexo de Édipo, nos albores da História humana e o fruto dessa projeção arbitrária, de teor subjetivo é 'Totem e Tabu'. A distorção ou ampliação da teoria de Robertson Smith possibilitou que o professor judeu/alemão visse apenas o que desejava ou queria ver. Curioso Freud ter visto projeções por todos os lados, menos em suas teorias...

Teria Freud mais mérito caso relacionasse a teoria de Smith com a formação dos primeiros Thiasios ou banquetes comuns oferecidos por uma corporação ou pela cidade como um todo aos deuses oragos. Neste sentido sua análise poderia somar-se a de Fustel de Coulanges. O qual empresta imenso valor em termos sociais aos rituais e sacríficos fúnebres, atendo-se no entanto as instituições indo europeias ou caucasoides, e portanto balizando sua tese, embora com menos rigor e precisão do que o escocês.

Sintomático que Kroeber, em sua crítica, tenha registrado que a filiação dos povos sêmitas a um padrão de cultura totêmico não estava devidamente demonstrada, ao menos até 1920. Curiosamente Kroeber reproduziu aqui uma das conclusões publicadas por Frazer em 1910 (Vol IV de "Totemismo e exogamia"). "Não encontramos traços de totemismo nas antigas religiões semíticas... assim o totemismo se nos parece uma instituição peculiar a algumas das culturas mais primitivas da humanidade." p 14

O próprio F Boas, raramente citado por Freud, e por razões mais do que óbvias, também classificou a doutrina segundo a qual o totemismo corresponderia a uma fase comum a toda espécie humana em termos de cultura - na perspectiva de uma evolução linear (Bem a gosto de Freud) - como fantasiosa. Podemos ler toda esta crítica na 'Sociedade primitiva' de R Lowie, editada precisamente em 1920.

Um dos chavões prediletos de Freud  quanto as culturas primitivas consiste em dizer que para eles a família não é nada ou que praticamente inexiste. Mais uma vez Malinowski, orientado por Westermarck, demonstra a existência da família entre os aborígenes africanos, apontados pelo próprio Freud como constituindo o modelo mais primitivo de Sociedade observável em nossos dias (The family among the australian aborigenes). Esta publicação, a primeira de Malinowski em inglês, data de 1913, um ano após a publicação de 'Totem e tabu'.

Lamentavelmente as publicações de um Malinowski, de um Westermarck, de um Kroeber ou mesmo de um Frans Boas jamais chegaram ao conhecimento do público em geral como as de Freud. "Freud elaborou a versão mais imaginativa do totemismo, a qual foi também a mais influente no mundo intelectual como um todo a longo prazo." diz Kuper 2008 (A reinvenção da Sociedade primtiva...) p 150 "A fama e influência destes dois livros - de Freud e Durkheim - veio a rivalizar e talvez até superar o 'Ramo de ouro' de Frazer." id ibd

Convém salientar que o próprio patriarca da antropologia Tylor (1899) após ter mantido silêncio por um bom tempo, ousou declarar que "O totemismo havia sido exagerado desproporcionalmente quanto a sua relevância religiosa. A importância dos animais totens enquanto amigos ou inimigos do homem é insignificante se comparada com a dos espíritos ou demônios, para não falarmos nas divindades superiores.""O totemismo não passa de um fenômeno 'sui generis' ou mesmo de um caso particular, dentro do quadro geral de relações entre o homem e os elementos do mundo natural.". Eis a conclusão a que chegou Firth p 398

Outro aspecto tendencioso de Totem e tabu diz respeito a relação 'essencial' entre totem e exogamia. Quando sabemos que a exogamia é um entre inúmeros tabus. A Kroeber. Aparentemente a relação teria sido tomada por Freud a Frazer (Tometismo e exogamia 1910), a Durkheim (cf "A proibição do incesto e suas origens" 1898) ou ao inglês Rivers, quando já se acha inclusa na definição de Mac Lennan (1869) - "Totemismo é fetichismo mais exogamia e filiação matrilinear." Levy Strauss p 26. Curioso que Freud tenha passado a largo das conclusões a que Frazer chega no volume quarto de sua obra ao reconhecer que havia uma "Distinção radical entre totemismo e exogamia." p 10. O já citado Tylor havia registrado: "Exogamia pode existir e existe sem totemismo e tudo quanto sabemos é que foi originalmente independente dele... a combinação existem em 3/4 das culturas examinadas." Remarks on tomemism ps 144 e 148 Boas declara que a exogamia é anterior ao totemismo, sem pretender no entanto que este seja resultado daquela, como faz observar Levy Strauss - Fondo de Cultura, esp. 1965. Introdução p 24
Claro que estes 3/4 de Tylor bastam para lançar por terra uma teoria que exige identificação absoluta.

Meio século após Goldenweiser ter publicado sua obra (1960), Levy Strauss repassando toda bibliografia e todo problema, assim se exprimiu quando ao Totem e ao totemismo: "O suposto totemismo tem se mostrado irredutível a qualquer esforço de definição em termos absolutos." Levy Strauss - Introdução p 15. Paradoxalmente Freud embarcara numa canoa que havia sido por assim dizer furada por Goldenweiser dois anos antes. E acreditava que a psicanálise, descoberta por si, seria capaz de tapar este furo, fazendo pelo 'totem' ou elo totemismo o que a antropologia ou a etnologia não haviam podido fazer. Paradoxalmente o próprio Rivers fora obrigado a admitir que era impossível formular uma definição satisfatória para totemismo. id p 20

Apenas para terminar é igualmente falacioso o dogma segundo o qual o animal totêmico fosse sempre cultuado pelo grupo ou que apenas pudesse ser morto por ocasião do banquete festivo comunal. Vou citar a título de exemplo o povo Ojbiwa dos quais tomamos a expressão 'otetaman' i é 'Aquele que pertence a minha parentela.' Strauss p 33. Ora, os ojbiwa não creem ser descendentes do animal totêmico e tampouco fazem dele objeto de culto, a exemplo dos aborígenes do interior da Austrália, a saber, os mais primitivos segundo Freud e seus mentores. Por fim "Ao totem se dava a morte e se comia com toda liberdade... e eles afirmavam inclusive que um animal se oferecia com a melhor boa vontade as flechas de um membro de seu clã." id, idbResta-nos finalizar esta exposição assinalando a desconstrução do conceito totemismo já pelo próprio Levy Strauss já por Raymond Firth, na esteira dos já citados Boas e Goldenweiser.








quarta-feira, 15 de novembro de 2017

O tabu do totem - Uma resposta a S Freud

Resultado de imagem para kroeber antropologistAlfred Kroeber

 
Preliminares



Em que pese 'Totem e tabu' ter sido escrito há mais de um século são poucos os críticos - desde Alfred Kroeber (1920) - dispostos a lê-lo com independência de espírito, apontando os desacertos e fazendo as devidas ressalvas.

No entanto, após termos lido o pequeno ensaio de Kroeber, fomos como que constrangidos a assumir este 'encargo'.

O próprio Freud nas últimas linhas do trabalho recusou-se a tirar conclusões definitivas (Madrid 1988 - p 209). Poucas páginas antes havia registrado: "Nós não desejamos ocultar, de modo algum, as incertezas inerentes a nossas premissas e as dificuldades com que tropeça a aceitação de nossas conclusões." p 203. Somos portanto, autorizados a descrever sua obra como uma 'tentativa' Psicológica.

Mas a que vem ao caso aqui uma 'tentativa Psicológica'?

Para compreendermos devidamente o 'porquê' de semelhante tentativa temos de compreender a situação da Antropologia e da Etnologia pelos idos de 1900... Bastando-nos para tanto acompanhar o próprio Freud. 142 Isto a propósito do Totemismo, isto é, de sua origem.

Tentemos colocar a questão do modo mais claro possível.

É o totemismo fenômeno social presente em determinado número de culturas primitivas, como os Arunta da Austrália além de diversas tribos Americanas e africanas. Tal instituição foi simplesmente detectada nas citadas culturas sem que elas mesmas fossem capazes de esclarecer qualquer coisa a respeito de seu surgimento. Para complicar ainda mais a questão desde Mac Lennan (1869) mais e mais evidências tem sido aduzidas a respeito de um passado totêmico para além das grandes civilizações mediterrânicas ou europeias. Sem que no entanto topemos com qualquer esclarecimento a respeito das fontes do totemismo.

Consideremos agora que as culturas da Idade da pedra eram iletradas, ou seja, que não possuíam códigos escritos, tal e qual as culturas primitivas a que nos referimos. Em tal conjuntura é absolutamente natural que tenham surgido lacunas a respeito de diversos aspectos da Idade da pedra e lacunas que decorrem do próprio método arqueológico. Neste caso como completa-las?
Em Louis Figuier 1883 damos com a tese, ventilada por Lord Avebury (Sir John Lubbok), segundo a qual devemos buscar tais informações suplementares - a respeito da Idade Primitiva - no regime de vida e instituições dos povos primitivos e portanto da Etnologia ou da Antropologia cultural. Muito do que topamos nas Origens da civilização, no Homem antes da História e no Homem pré histórico procede desta fonte.

Passado menos de meio século, já Andrew Lang (em 'O segredo do Totem' p 27) aditava as seguintes ressalvas, alias reproduzidas por Freud - "Tampouco os povos primitivos tem conservado as formas originais das instituições existentes entre eles ou as condições de sua formação." 143 Querendo dizer com isto que mesmo as culturas que ora encaramos como primitivas passaram certamente por algumas transformações ao cabo de tantos e tantos milênios, e que a condição delas não é estática ou idêntica a das culturas que floresceram na Idade da Pedra. Logo explicar a Idade de pedra a partir das culturas primitivas sempre poderá conduzir-nos ao anacronismo.

Diante disto que fazer?

Em termos de Etnologia e de Antropologia cultural, diz Lang "Nós nos vemos obrigados a completar as lacunas advindas da observação direta por meio das CONJECTURAS." P 143

Disto decorre a situação de 'divisão' teóricas alardeada e explorada por Freud: "Sendo assim soará estranho a nossos leitores que tendo em vista responder a tantas questões os investigadores assumiram diferentes pontos de vista e que seus resultados mostram grandes divergências." p 143 Em seguida, apelando a autoridade de Goldenweiser, certifica que um número cada vez maior de pesquisadores tem dado tal questão - da origem do Totem - por insolúvel. p 144

A partir daí passa Freud a elencar as principais matrizes explicativas do fenômeno - A nominal ou funcional de H Spencer, Max Muller, Lang e Avebury, A Sociológica de S Reinach, Durkheim, Haddon e Frazer e a Psicológica de Wilcken, Fr Boas e finalmente Wundt, um dos pais da psicologia e autor da Psicologia dos povos (1912). Buscando editar as críticas de cada um ou lança-los uns contra os outros, declarando - "E como sucede amiúde cada um destes autores mostra mais acerto quanto as críticas que dirigem aos demais, do que na parte positiva de seus trabalhos." 144

Curiosamente o próprio Kroeber (cf Totem e tabu na psicanalise etnológica) havia chamado a atenção para a demasiada liberdade com que os diversos etnólogos, antropólogos e sociólogos, haviam formulado suas conjecturas.

Seja como for Freud não apenas concluí pela impossibilidade de tais disciplinas  - Assim a etnologia, a antropologia e a sociologia - chegarem a qualquer conclusão mais consistente sem o auxílio da Psicologia (o que é perfeitamente admissível), como dispara: "Somente a psicanálise projeta alguma luz em meio a tantas trevas." p 166

Assim de sua Psicanálise 'Fiat lux'...