Há uma espécie de mal estar difuso entre os membros da Sociedade Ocidental Contemporânea.
O qual parece remontar a primeira metade do século XIX ou seja a afirmação do sistema capitalista.
E parece igualmente ter sido agravado ou intensificado pelo americanismo.
Aspira o homem por realidades amplas e profundas, mas, a cultura produzida nos EUA oferece-lhe apenas profanidades. Superficial, meramente tecnicista e consumista, é este novo padrão cultural de todo impotente para satisfazer as mais legítimas inclinações do coração humano.
Ademais os elementos da cultura ancestral, profundamente implantados em nossas consciências não foram de todo eliminados, especialmente nos rincões em que a americanização ainda não foi de todo consumada, assim nos campos e nas vilas do Sul da Europa e da America Latina.
Esta luta entre o que é ou deve ser e o que deveria ser é uma das possíveis fontes deste mal estar. Pelo que ainda retemos de humano e pelo que assimilamos ao materialismo economicista somos uma civilização contraditória e incoerente, cujos elementos acham-se em estado de oposição.
Temos plena consciência de que devemos por o homem, a vida, a justiça, a liberdade, a igualdade, a paz... em primeiro lugar e acima de tudo. Todavia tudo em nossa volta e em torno de nós afirma a primazia do capital ou do lucro.
Diante disto somos levados a crer ou ao menos a imaginar que as gerações do passado mais ou menos distante eram mais felizes do que a nossa ou que a Sociedade era melhor.
A bem da verdade, parece que em todas as épocas, parte das pessoas tiveram suas vistas postas no passado buscando uma mítica idade de ouro e julgando que as gerações do passado eram de fato mais prósperas e felizes.
A diferença aqui é que no passado ou nas épocas anteriores e nossa este passado obscuro era idealizado pela imaginação das massas, porquanto a História propriamente dita inexistia. Não lhe havia sido dado um método rigoroso... nem as ciências auxiliares estavam devidamente constituídas. Sobrando bastante espaço para a fantasia correr solta e produzir mitos.
Hoje no entanto além de conhecermos relativamente bem nossa própria época podemos revindicar um conhecimento mais consistente e real a respeito do passado. Olhando para trás somos mais ou menos capazes de distinguir alguns vultos sinistros como o fascismo, o nazismo, o comunismo, o liberalismo, os golpismos sangrentos, os genocídios, etc Mesmo assim, a maior parte das pessoas não consegue encarar este nosso tempo como melhor ou superior. O mal estar prevalece!
Mas por que prevalece se uma terceira guerra mundial ainda não explodiu?
Porque em certo sentido estamos vivendo uma guerra surda, mas continua e quase que mundial contra o ser humano. Embora as frentes sejam diversas - fundamentalismos, comunismo, nazismo, fascismo, individualismo, CAPITALISMO, etc - todas tem em mira o rebaixamento do homem, a restrição da liberdade, a negação da igualdade, a relutância em cumprir a justiça, o ódio a paz, o instinto da maldade, a afirmação do egoísmo...
Não é decerto um tempo de violências físicas.
Mas é certamente um tempo de fermentação...
Em que a tempestade ou a borrasca esta se formando e se preparando para varrer nossa civilização até seus fundamentos mais remotos. Do que talvez resulte uma nova alta Idade Média ou algo ainda pior e mais sinistro!
O fato é que nossa consciência social ou nosso imaginário coletivo DÓI e essa dor é uma dádiva divina enquanto alerta de que algo vai mal, e muito mal.
Enquanto há dor, sabemos que o corpo esta enfermo e ainda podemos buscar a cura.
Quando não sentirmos mais dor ou mal estar, quando estivermos conformados e em 'paz', a enfermidade terá se tornado inconsciente... pois os elementos da nova ordem terão aniquilado os elementos da antiga ordem, e a contradição essencial.
Quando a crise se tornar imperceptível é justamente porque foi assimilada em sua plenitude, sem deixar de ser crise.
Nem poderá deixar de ser crise enquanto subsistirem a fome, a nudez, a miséria, a injustiça, o morticínio, a mentira, etc Poderá ser introjetada na cultura e institucionalizada mas será sempre crise. Poderá ser afirmada e reconhecida oficialmente como ordem, mas jamais deixará de ser desordem!
Verdade que temos ciência, técnica e poder para transformar o mundo.
Então por que ainda não o transformamos num lugar melhor para viver?
Afinal o que estamos assistindo é o extermínio de diversas espécies constituídas ao largo dum lento processo evolutivo, a alteração acelerada do relevo e do clima graças a extração imoderada de riquezas naturais ou matérias primas, ao envenenamento progressivo dos mares, da terra e do ar; enfim a um suicídio lento imposto por necessidades artificiais ditadas pelo Mercado econômico, esse deus terrível ou novo Hades!
Nem percebemos que após o fim da guerra fria, o desaparecimento do comunismo e a consequente e oportunista retomada do liberalismo clássico ou implantação do neo liberalismo tenham as sociedades feito qualquer progresso considerável em termos de organização social. Antes percebemos a retomada das contradições nos mesmos termos do século XIX ou do período ante guerras! Problemas e patologias sociais avolumam-se mais uma vez como no passado...
Diante disto como impedir que as velhas e falsas soluções, como comunismo, fascismo, nazismo e agora os fundamentalismos religiosos, sejam retomadas numa escala maior?
Sequer podemos apelar a uma ética objetiva capaz de condena-las em termos de essência...
O capitalismo como sempre mostra-se cego face as angústias que produz.
A angústia no entanto tem medida.
É coisa com que não se brinca.
Mais uma vez o capitalismo esta a desumanizar o homem e a barbarizas as massas.
Do que resultará uma devolutiva.
Na posse da mesma técnica e da mesma ciência que teriam feito nossos ancestrais?
É uma pergunta que faço a mim mesmo todos os dias.
Ao que parece nossa técnica não nos tornou mais humanos, não ampliou nossa sensibilidade, não alimentou nossa solidariedade...
Ao que parece nossa ciência não aprofundou ou ampliou nosso estado de consciência.
Perdemos o sentido do homem porque colocamos qualquer outra coisa em seu lugar: a fé, o lucro, o partido, o estado, a raça, o ego, etc
Lançamos os fundamentos de uma cultura inumana ou desumana e deflagramos um processo de auto destruição ou suicídio coletivo!
Sabemos que deveríamos ter resistido a este novo espírito Capitalista mas traímos a nós mesmos, a nossos ancestrais, a nossa cultura, a nossa espiritualidade! Negociamos com a idolatria mais sórdida que há, a idolatria do Capital e assim nos tornamos plenamente profanos! Afastamos o próximo de nossas vistas, passamos a encarar o semelhante como concorrente, nos acostumamos a encarar os irmãos como rivais e assim nos alienamos do Cristo!
Passamos a viver de mentiras e a cultivar uma vida de aparências! A ouvir a leitura do Evangelho nos Domingos e nas festas e a profana-lo de feira a feira, dia após dia!
Ingerimos o veneno do fideísmo e tombamos no conformismo!
Nos inclinamos diante dos juízes no fórum e fazemos juramentos e juramos em falso! Nos inclinamos perante o rico que vive de mais valia explorando seus empregados! Nos curvamos diante dos políticos corruptos e venais! Nos curvamos diante das espadas e metralhadoras dos militares! Nossos ancestrais enfrentaram a máquina mais mortífera de todos os tempos: o Império romano.... nós não temos pingo de virilidade e só sabemos negociar comodamente!
Degeneramos amigo leitor! Degeneramos!
Pois já não sabemos resistir ao mal! Não ao mal físico que massacra nossos corpos, mas as ideias más que contaminam o espirito, as falsas crenças que destroem a alma, aos pensamentos corruptos que ditam um comportamento corrupto!
Consentimos que esta ideologia materialista e grosseira construída em torno do lucro tomasse posse de nós. Nós mesmos lhe oferecemos parte de nosso ser! Negamos algo a Cristo, concedemos algo ao capital! Separamos a realidade! Imaginamos setores impermeáveis a ética! Produzimos uma nova cultura, uma cultura de morte... Cedemos, negociamos, falhamos e impedimos o Reino de Jesus Cristo de acontecer e florescer neste mundo!
Desde então, desde que o Capitalismo impôs sua nova ordem e desde que americanismo contaminou nossas Sociedades podemos dizer com Jacques Ellul que o Cristianismo, esse Cristianismo dócil, tornou-se uma traição imperdoável!
Sim, querido leitor, pois o Cristianismo antigo dos cinco primeiros séculos jamais foi dócil face a riqueza, ao acumulo, a cobiça, a avareza, os pressupostos do materialismo! O que os darwinistas sociais aclamaram como vencedor o Cristianismo histórico classificava como ímpios! Leiam o Crisóstomo e depois Basílio, Astério, Gregório Nisseno, Ambrósio, Jerônimo, etc Decretou nosso Cristianismo, nosso Cristianismo histórico, nossas fontes, nossas raízes, que o burguês é um tipo indesejável e fiel ao pensamento de Cristo proclamou que não entrará no reino dos céus!
E este eco no Ocidente ou na Igreja Latina prolongou-se até Fernando de Bulhões, o Santo Antonio de Pádua, cuja parte substancial dos sermões constitui uma Filipica contra os ricos, os banqueiros, os poderosos!
Mesmo durante os tempos da pseudo reforma estava esta consciência viva, a ponto de um único dentre os reformadores Dr Hugo Latimer, ter condenado inexoravelmente o acumulo de bens materiais. Limitando-se a repetir o que encontra-se escrito no Santo Evangelho: Não acumuleis bens neste mundo!
Agora se acumula bens neste mundo como obedece a Jesus Cristo????
Responda-me quem puder e for capaz!
Então nem me falem de Karl Marx. Foi bom crítico das estruturas capitalistas em termos materiais; mas não precisamos dele! Nossa consciência histórica, nosso passado, nossa memória, da manjedoura ao advento da pseudo reforma, é sentença de condenação ao capitalismo!
Não é possível associar o Cristianismo ao materialismo como não é possível misturar azeite e água ou juntar o Oriente com o Ocidente, ou prender os céus a terra...
Quem pretendeu ocultar esta antinomia foi que lançou as sementes da crise porque ora passamos!
Nem se esgotam aqui as fontes da crise porque são muitas.
O Cristianismo foi posto de lado...
Mas o maniqueísmo perfeitamente conservado e já o veremos!
Deseja todo homem conhecer e conhecer a realidade que o envolve.
Tanto isto é verdade que aborrece a ignorância e o mistério, e incomoda-se deles como do escuro e da morte.
Pois instintivamente sabe que a ignorância não é seu estado natural e que não existe para ela.
A laranjeira não aspira produzir laranjas, mas é fiel a sua natureza...
O homem aspira pelo saber.
Os profetas da modernidade no entanto disseram que seu aparelho cognitivo é completamente inepto e que a realidade chega a ser falseada pelos sentidos!
Proclamaram que essa antipatia para com a ignorância é absurda e que a inclinação para o saber é ilusória.
Que o homem encontra-se cercado pelas densas trevas duma noite eterna! E que nada do quanto crê ser verdadeiro o é!
Verdade não passa de quimera e a razão de um câncer ou de um verme a corroer lentamente nossas entranhas e a provocar uma agonia insuportável.
Assim como já dissemos tudo foi tirado ao homem: a fé, a razão, a experiência... até que não restou verdade alguma, conhecimento algum...
Só nos resta concluir com Camus que a vida é desprovida de sentido!
Não há qualquer propósito ou sentido superior para a existência humana!
Assim a única coisa a fazer é cogitar se devemos ou não sair de cena.
Afinal por que raios estaríamos obrigados a suportar até o fim uma vida que sendo sempre tormentosa carece de qualquer sentido?
Admira-se o leitor de que aqueles que não tenham coragem suficiente para por fim a própria vida descambem numa sexualidade desenfreada, no alcoolismo ou na droga??? Buscando ampliar a ilusão ou fugir ao tédio reinante??? Quem ousará condena-los??? Esta filosofia prostituída que proclama ter aniquilado não só a fé mas a razão, a ética, a ciência e o sentido sem nada deixar aos mortais???
Justifica-se aqui plenamente a fuga da realidade porque é de fato uma realidade indesejável, ou uma péssima nova esta trazida pela escolástica nihilista!
Quem não tiver a audácia do jovem Werther, invista na imaginação, na fantasia, na alienação desta realidade tenebrosa!
Bem se vê que não há qualquer necessidade absoluta de um Agostinho, de um Lutero, de um Calvino ou de um deus qualquer para proclamar o homem limitado ou incapaz.
Um Hume, um Kant, um Litreé, um Huxley, um Heiddeger, um Deleuze, um Camus, um Foulcault, etc bem podem faze-lo sem deus algum.
E pode lá o agnosticismo ou o ateísmo incoerente reproduzir acriticamente as mesmas crenças.
Grego algum ousou negar a metafísica. Pois como ignoravam supinamente a doutrina maniqueísta não se lhes podia ocorrer a negação ou restrição capacidade cognitiva do homem.
Tudo quanto vem após Agostinho, Lutero e Kant trás consigo este travo maniqueísta, alias arbitrário.
Muito revisaram, reformaram, refizeram; mas ficaram com a pior parte...
Lançaram fora o amor, a paz, a justiça, a sacralidade da vida, a veracidade, etc
E mantiveram, secularizado, o velho pessimismo de Manes, Agostinho, Montaigne, Lutero, Kant...
Diante disto já sabemos porque o ateísmo nega ser uma metafísica, apesar dos teóricos do agnosticismo...
Mostrando postagens com marcador perda de sentido. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador perda de sentido. Mostrar todas as postagens
sábado, 3 de outubro de 2015
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
Reflexões em torno da lei dos três estados de Comte
Uma das leis fundamentais da 'ciência positiva' ou do positivismo comteano é a 'lei dos três estados'. Lei quase que universalmente conhecida entre as pessoas cultas.
Assim a afinidade eletiva de Weber, assim a infraestrutura e superestrutura de Marx, assim o Ego e Id de Freud, assim a seleção natural de Darwin e Wallace, assim a lei dos três estados de Comte...
Lei de que podemos até discordar, mas que não é bom ignorar.
Elemento que é de nosso universo cultural.
Assim a afinidade eletiva de Weber, assim a infraestrutura e superestrutura de Marx, assim o Ego e Id de Freud, assim a seleção natural de Darwin e Wallace, assim a lei dos três estados de Comte...
Lei de que podemos até discordar, mas que não é bom ignorar.
Elemento que é de nosso universo cultural.
Agora vamos a ele, pois nem é coisa difícil de se compreender.
Segundo Comte a marcha evolutiva das Sociedades humanas compreendia três sucessivos estados: Teológico, Metafísico e Positivo.
O teológico correspondendo ao primado da religião ou da fé. O Metafísico ao primado da razão ou do racionalismo afirmados pelo deísmo dos iluministas. O positivo ou científico inaugurado em meados do século XIX.
Que pensar a respeito?
Há quem diga e jure de pés justos que Comte errou feio.
Houve quem - como os positivistas - encarasse tal lei como a maior descoberta de todos os tempos.
O teológico correspondendo ao primado da religião ou da fé. O Metafísico ao primado da razão ou do racionalismo afirmados pelo deísmo dos iluministas. O positivo ou científico inaugurado em meados do século XIX.
Que pensar a respeito?
Há quem diga e jure de pés justos que Comte errou feio.
Houve quem - como os positivistas - encarasse tal lei como a maior descoberta de todos os tempos.
E há quem, evitando extremismos, diga: nem oito nem oitenta.
Dizem os críticos de Comte que sua visão era eurocêntrica e preconceituosa pois desconsiderou ou menosprezou as sociedades não europeias ou primitivas.
Como se pode perceber parte esta crítica do relativismo cultural, o qual em última analise não passa de um credo... ou de um voluntarismo bastante pretensioso. Acalentado por pessoas que não estão dispostas a abandonar a Europa ou os centros urbanos do Ocidente, por uma choça no meio da selva ou por uma tenda no meio dos desertos... Raros são aqueles que estão dispostos a viver seu relativismo cultural. Pelo que classifica-lo-ei como uma fé, uma crença, uma prevenção ou qualquer outra coisa.
Comte, inserido na Sociedade européia do século XIX foi absolutamente coerente em apresenta-la não como perfeita, mas como superior numa escala de valores com que identificava-se. A partir daí concluiu que as diversas sociedades primitivas fariam o mesmo caminho até chegar ao estado positivo.
Não ignorou de todo as demais sociedades nem poderia ignora-las como supõem a boçalidade reinante. Classificou-as como culturalmente inferiores ou menos desenvolvidas e pretendeu delinear o percurso evolutivo que fariam até se tornarem semelhantes a Europa de seu tempo.
Outra crítica, esta forjada pelos religiosos, dizia respeito as permanências.
No sentido de que a presença do padrão positivo de pensamento no contexto europeu não lograra eliminar por completo as formas que ele, Comte, encarava como primitivas e ultrapassadas como a Teológica e a Metafísica, convivendo as três lado a lado no decorrer do século XIX.
Julgo que a parcialidade desta crítica salte a vista. Primeiramente porque Comte jamais pretendeu negar as permanências, mas assinalar as rupturas. Enfim porque as Sociedades francesa e inglesa do século XVIII já não eram comandadas pelos líderes religiosos mas em maior medida pelos filósofos iluministas... Como a sociedade de seu tempo (1850) era já fortemente influenciada pelos cientistas e comandada já pelos industriais. Assim nem os religiosos retinham no século XVIII o imenso poder que haviam exercido no século XVI, como os deístas ou 'filósofos iluministas' não exerciam já tanta influência pelos idos de 1850.
Ao menos no que diz respeito a esfera do poder e a opinião pública Comte estava mais ou menos correto.
Outras eram as fontes inspiradoras da cultura.
Haviam mudado no mínimo três vezes, senão mais.
Agora em termos de nomenclatura somos levados a discordar de Comte.
Fossemos dado corrigi-lo apresentaríamos a famosa lei do seguinte modo:
Dizem os críticos de Comte que sua visão era eurocêntrica e preconceituosa pois desconsiderou ou menosprezou as sociedades não europeias ou primitivas.
Como se pode perceber parte esta crítica do relativismo cultural, o qual em última analise não passa de um credo... ou de um voluntarismo bastante pretensioso. Acalentado por pessoas que não estão dispostas a abandonar a Europa ou os centros urbanos do Ocidente, por uma choça no meio da selva ou por uma tenda no meio dos desertos... Raros são aqueles que estão dispostos a viver seu relativismo cultural. Pelo que classifica-lo-ei como uma fé, uma crença, uma prevenção ou qualquer outra coisa.
Comte, inserido na Sociedade européia do século XIX foi absolutamente coerente em apresenta-la não como perfeita, mas como superior numa escala de valores com que identificava-se. A partir daí concluiu que as diversas sociedades primitivas fariam o mesmo caminho até chegar ao estado positivo.
Não ignorou de todo as demais sociedades nem poderia ignora-las como supõem a boçalidade reinante. Classificou-as como culturalmente inferiores ou menos desenvolvidas e pretendeu delinear o percurso evolutivo que fariam até se tornarem semelhantes a Europa de seu tempo.
Outra crítica, esta forjada pelos religiosos, dizia respeito as permanências.
No sentido de que a presença do padrão positivo de pensamento no contexto europeu não lograra eliminar por completo as formas que ele, Comte, encarava como primitivas e ultrapassadas como a Teológica e a Metafísica, convivendo as três lado a lado no decorrer do século XIX.
Julgo que a parcialidade desta crítica salte a vista. Primeiramente porque Comte jamais pretendeu negar as permanências, mas assinalar as rupturas. Enfim porque as Sociedades francesa e inglesa do século XVIII já não eram comandadas pelos líderes religiosos mas em maior medida pelos filósofos iluministas... Como a sociedade de seu tempo (1850) era já fortemente influenciada pelos cientistas e comandada já pelos industriais. Assim nem os religiosos retinham no século XVIII o imenso poder que haviam exercido no século XVI, como os deístas ou 'filósofos iluministas' não exerciam já tanta influência pelos idos de 1850.
Ao menos no que diz respeito a esfera do poder e a opinião pública Comte estava mais ou menos correto.
Outras eram as fontes inspiradoras da cultura.
Haviam mudado no mínimo três vezes, senão mais.
Agora em termos de nomenclatura somos levados a discordar de Comte.
Fossemos dado corrigi-lo apresentaríamos a famosa lei do seguinte modo:
- Estado supersticioso ou fetichista: da Era primitiva ao advento do Cristianismo
- Estado religioso/ético: Do surgimento do Cristianismo ao século XVII
- Estado metafísico: séculos XVII e XVIII
- Estado materialista: séculos XIX e XX
Pelo que teríamos quatro e não três estados apenas.
O primeiro corresponderia ao padrão de pensamento mágico fetichista típico da cultura fetichista com contínuas intervenções de seres sobrenaturais no plano da natureza ou milagres. O qual equivale a um estado de total ignorância em termos de leis naturais ou mesmo a respeito da dimensão ética da vida.
O segundo inaugurado pelo advento do Cristianismo mas em certo sentido presente já na cultura Grega clássica, corresponde a iniciativa genial de dispor o veículo religioso para uma finalidade ética.
O terceiro é caracterizado pela ruptura com a fé ou a religião sobrenatural propriamente dita e por um retorno a teologia natural ou racional dos antigos gregos (Anaxágoras, Apolônio, Platão, Aristóteles...); enfim pela afirmação de uma metafísica deísta resumida em duas palavras: Deus e Imortalidade.
O quarto é representado pelo triunfo do materialismo economicista ou do capitalismo e consequentemente do tecnicismo, do consumismo, etc Aqui já não há vestígio de elemento verdadeiramente unificador ou coordenador da ação humana e estamos já diante da mais assombrosa contradição ou de um 'espírito materialista'.
No entanto, a par deste espírito materialista liberal, temos outros tantos espíritos materialistas cujas formas são bem distintas: assim o comunismo, o fascismo, o nazismo, o anarco individualismo, etc os quais nutrem-se de algumas ideologias específicas: assim o protestantismo e suas emanações: ceticismo, subjetivismo e relativismo...
Assim onde Comte via um Cosmos ou acreditava ser possível retomar facilmente o sentido do Cosmos por meio da unificação das fontes da cultura por meio de alguns princípios e valores básicos, podemos discernir apenas o Caos avassalador e a ameaça da anomia.
De fato, ao invés de ruptura, conflito e sucessão, devia o homem ter lançado os fundamentos de uma realidade orgânica capaz de integrar todos estes modelos de pensamento.
Começando por uma sólida base metafísica e naturalista (não religiosa) em torno da existência de Deus e da possibilidade de sobrevivência da alma; inspirada quiçá em Aristóteles. Não nos esqueçamos que Tredelembourg e F Brentano desenvolveram brilhantemente os pontos de vista do Filósofo.
A qual sobreporíamos um Cristianismo Católico semi deísta ( i é em oposição a doutrina sobre a existência de milagres no tempo presente) enquanto reforço a uma Ética humanista e socialista.
E regularíamos os fins da produção econômica e do progresso técnico colocando-os a serviço das necessidades humanas e não do lucro, do poder ou de qualquer outra coisa.
Ficando os demais elementos: fossem o exército, a comunidade, o partido, etc reduzidos a suas legítimas dimensões e incorporados por uma estrutura cultural bem mais ampla, a qual lhes imporia sentido.
Aqui haveria um centro unitário ou coordenador em termos de cultura. E uma relação orgânica entre os elementos e instituições mediada por esta consciência ou espírito comum.
Ficando Prometeu acorrentado!
Foi exatamente o que não aconteceu.
Pelo que os elementos se desagregaram e entraram em choque.
Chegar aos termos duma ciência sem consciência ou limites, aos termos duma negação radical e absurda da imaterialidade e aos termos de um repúdio a dimensão ética da vida... não vejo nisto sinais de uma verdadeira evolução.
Evoluímos em sentido material ou técnico mas e em sentido humano ou ético?
Será que em posse do mesmo aparato material ou técnico nossos ancestrais da antiguidade Cristã ou mesmo da idade média não fariam melhor do que nós, erradicando por exemplo a fome ou diminuindo sensivelmente a miséria?
O primeiro corresponderia ao padrão de pensamento mágico fetichista típico da cultura fetichista com contínuas intervenções de seres sobrenaturais no plano da natureza ou milagres. O qual equivale a um estado de total ignorância em termos de leis naturais ou mesmo a respeito da dimensão ética da vida.
O segundo inaugurado pelo advento do Cristianismo mas em certo sentido presente já na cultura Grega clássica, corresponde a iniciativa genial de dispor o veículo religioso para uma finalidade ética.
O terceiro é caracterizado pela ruptura com a fé ou a religião sobrenatural propriamente dita e por um retorno a teologia natural ou racional dos antigos gregos (Anaxágoras, Apolônio, Platão, Aristóteles...); enfim pela afirmação de uma metafísica deísta resumida em duas palavras: Deus e Imortalidade.
O quarto é representado pelo triunfo do materialismo economicista ou do capitalismo e consequentemente do tecnicismo, do consumismo, etc Aqui já não há vestígio de elemento verdadeiramente unificador ou coordenador da ação humana e estamos já diante da mais assombrosa contradição ou de um 'espírito materialista'.
No entanto, a par deste espírito materialista liberal, temos outros tantos espíritos materialistas cujas formas são bem distintas: assim o comunismo, o fascismo, o nazismo, o anarco individualismo, etc os quais nutrem-se de algumas ideologias específicas: assim o protestantismo e suas emanações: ceticismo, subjetivismo e relativismo...
Assim onde Comte via um Cosmos ou acreditava ser possível retomar facilmente o sentido do Cosmos por meio da unificação das fontes da cultura por meio de alguns princípios e valores básicos, podemos discernir apenas o Caos avassalador e a ameaça da anomia.
De fato, ao invés de ruptura, conflito e sucessão, devia o homem ter lançado os fundamentos de uma realidade orgânica capaz de integrar todos estes modelos de pensamento.
Começando por uma sólida base metafísica e naturalista (não religiosa) em torno da existência de Deus e da possibilidade de sobrevivência da alma; inspirada quiçá em Aristóteles. Não nos esqueçamos que Tredelembourg e F Brentano desenvolveram brilhantemente os pontos de vista do Filósofo.
A qual sobreporíamos um Cristianismo Católico semi deísta ( i é em oposição a doutrina sobre a existência de milagres no tempo presente) enquanto reforço a uma Ética humanista e socialista.
E regularíamos os fins da produção econômica e do progresso técnico colocando-os a serviço das necessidades humanas e não do lucro, do poder ou de qualquer outra coisa.
Ficando os demais elementos: fossem o exército, a comunidade, o partido, etc reduzidos a suas legítimas dimensões e incorporados por uma estrutura cultural bem mais ampla, a qual lhes imporia sentido.
Aqui haveria um centro unitário ou coordenador em termos de cultura. E uma relação orgânica entre os elementos e instituições mediada por esta consciência ou espírito comum.
Ficando Prometeu acorrentado!
Foi exatamente o que não aconteceu.
Pelo que os elementos se desagregaram e entraram em choque.
Chegar aos termos duma ciência sem consciência ou limites, aos termos duma negação radical e absurda da imaterialidade e aos termos de um repúdio a dimensão ética da vida... não vejo nisto sinais de uma verdadeira evolução.
Evoluímos em sentido material ou técnico mas e em sentido humano ou ético?
Será que em posse do mesmo aparato material ou técnico nossos ancestrais da antiguidade Cristã ou mesmo da idade média não fariam melhor do que nós, erradicando por exemplo a fome ou diminuindo sensivelmente a miséria?
Eis uma indagação sobre a qual muito devemos refletir antes de criticar nossos avoengos!
Por outro lado assistimos uma restauração do padrão fundamentalista sob os auspícios do Islã e do pentecostalismo...
O que nos coloca no meio de dois extremos igualmente perniciosos: fetichismo e materialismo/ateísmo. É como se a civilização estivesse sendo premida ou esmagada pelas pinças de uma tenaz... na medida em que os extremos sempre se tocam (Aristóteles).
Assim é necessário antes de tudo restabelecer um sadio meio termo, ou sob a forma da religião natural do deísmo ou sob a forma duma religiosidade ética e anti fetichista voltada para a promoção integral do ser humano e a justiça social. Pugnar por esse sentido de equilíbrio e por esse saudável meio termo pautado na condição humana é a tarefa a que nos propomos.
Superar este estado de tensão, esta crise de consciência, esta era de extremos e contrastes é o principal objetivo a ser atingido.
Por outro lado assistimos uma restauração do padrão fundamentalista sob os auspícios do Islã e do pentecostalismo...
O que nos coloca no meio de dois extremos igualmente perniciosos: fetichismo e materialismo/ateísmo. É como se a civilização estivesse sendo premida ou esmagada pelas pinças de uma tenaz... na medida em que os extremos sempre se tocam (Aristóteles).
Assim é necessário antes de tudo restabelecer um sadio meio termo, ou sob a forma da religião natural do deísmo ou sob a forma duma religiosidade ética e anti fetichista voltada para a promoção integral do ser humano e a justiça social. Pugnar por esse sentido de equilíbrio e por esse saudável meio termo pautado na condição humana é a tarefa a que nos propomos.
Superar este estado de tensão, esta crise de consciência, esta era de extremos e contrastes é o principal objetivo a ser atingido.
Marcadores:
capitalismo,
dispersão,
ética,
fragmentação,
humanismo,
metafisica,
perda de sentido,
progresso,
Progresso material,
Religiosidade,
técnica,
Três estados de Comte
Assinar:
Postagens (Atom)