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domingo, 21 de setembro de 2025

Europa - O vácuo do papismo e as ideologias 'penetras'

Diz uma passagem do Novo testamento: Se alguém colocar outro fundamento além de Jesus Cristo... a obra será provada pelo fogo, assim papel, madeira, palha, etc tudo isto será consumido, e a edificação toda virá abaixo.

Julgo que esse texto religioso possa ilustrar a questão da cultura e seus fundamentos: As ideias matrizes.

Do quanto tenho lido eu em Spengler, Huizinga, Whydan, Toynbee (Mimesis), Sowell, Parsons, Sorokin, A Weber, Wrigth Mills, Timacheff, etc chego a conclusão de que um dos fatores (Ou o principal) responsáveis por levar uma determinada civilização ao colapso é a mudança de paradigmas fundamentais. Via de regra relacionados com algum sistema religioso ou ético, o qual lhes dá suporte. Alias a obra seminal sobre este tema 'A cidade antiga' de Fustel de Coulanges foi metodicamente elaborada para opor-se ao monismo materialista de K Marx (No plano social.). 

Acho curioso: Quando o marxismo\comunismo assomou no horizonte da cultura, há muito que já estava ela em declínio, e quando assomou o liberalismo econômico, meio século ou um século antes - Trazendo em seu bojo o materialismo (Ao menos prático.) - já estava em declínio, embora ainda houvesse aparência de vida. E o comunismo, fixado no dogma materialista como uma ostra sobre a pedra, não soube ou pode compreender a dinâmica das coisas e por isso acelerou ainda mais esse declínio tornando-o fatal. 

O organismo do enfermo todavia estava minado, e portava os germes da morte, os quais o levaria a cova passados menos de duzentos anos. 

Atentem: Se a causa mortis formal foram as duas grandes guerras e o Vaticano II, a causa principal ou eficiente outra foi.

Todavia antes de chegarmos a ela gostaria de apresentar alguns exemplos de caráter histórico: Entrou o novo reino ou Império egípcio em declínio (Ao menos segundo alguns expositores.) graças a reforma religiosa atoniana iniciada por Akenaton - Filho de Amenófis III e Tyi - com os novos ideais de compaixão e paz (Os quais não se encaixavam muito bem no contexto do tempo.). Passados nove séculos outra reforma semelhante, a de Nabonido, prostrou a Babilônia diante dos Persas. Da mesma maneira tombou o mundo greco romano, diante do Cristianismo e seu ideal abolicionista e semi pacifista. Quanto ao império bizantino, embora não possamos observar qualquer mudança essencial a nível de paradigmas não, podemos deixar de observar uma séria crise produzida pelo nestorianismo (Mesmo quando negamos que Nestório tenha ensinado ou divulgado o nestorianismo é certo que durante algum tempo esse erro existiu e proliferou.), pelo monofisitismo (Embora os coptas jamais tenham sido monofisitas e nem mesmo todos os siríacos o fossem.) e outras seitas. Análogo o caso do califado islâmico: Exaurido culturalmente pela Ortodoxia sunita de Gazali e Achari.

Mesmo quando não correspondam a uma causa eficiente, as mudanças, crises ou revoluções religiosas e filosóficas sempre fazem parte do conjunto de fatores que conduzem uma dada civilização a seu fim. 

Do mesmo modo como é impossível substituir os alicerces de uma casa sem que ela desabe fragosamente é impossível substituir os princípios  e valores elementares ou os conceitos geradores sem que uma dada sociedade se dissolva. 

Alias uma verdadeira revolução, conceito que implica uma mudança radical, consiste exatamente em substituir tais conceitos por outros numa dada sociedade, e assim: Demoli-la, para em seguida reconstrui-la doutra forma.

Foi o que fez o Cristianismo apostólico - Demoliu aquele velho mundo, já enfermo, pela base (O escravismo) e, reaproveitando, tudo quanto era digno e bom, tudo reorganizou em síntese harmoniosa, reconstruiu-o de outra forma.

E cada uma dessas fases: De agonia, morte, decomposição e ressurreição correspondem a trajetória daquele velho mundo que existiu do século III ao século XIII desta Era ou a cabo de mil anos, e seu fim é uma Europa refeita e centro do mundo civilizado. Mesmo quando não tenha podido atingir sua plena maturidade.

Mesmo em seu auge, foi a Europa um projeto inacabado e um projeto inacabado é.

E crescendo desviada de seu autêntico fim, cresceu na direção errada, dirigindo-se ao abismo da destruição - Abatida por uma Revolução, por uma outra Revolução, que a tirou de seus alicerces e atalhou sua vocação. 

E desde então não pode tornar-se ou continuar sendo uma civilização Cristã. Desde que seu ideário foi posto no antigo testamento ou na 'bíblia' foi perdendo a Europa seu brilho, até fenecer e principiar a ser um quintal do islã. O espaço onde floresceram um Tomás de Aquino, um Dante, um Francisco Vitória, um Copérnico, um Vesalius, um Da Vinci, um G Agricola, um Camões, um Cervantes, um Shakespeare... E se converte, por força de um destino ingrato em califado...

Gigante caído aos pedaços por terra, assim a podemos evocar: 
"My name is Ozymandias, king of kings: Look on my works, ye mighty, and despair!"

E a beira de seu túmulo bem poderíamos pronunciar as mesmas endechas que Volney proferiu sobre as ruínas de Tiro ou Babilônia...

Porém que vendaval ou tufão foi esse que acometeu o velho mundo... Que terremoto foi capaz de abalar até a base as suas estruturas de poder...

Com efeito, todas as desgraças da Europa procedem da reforma protestante ou do protestantismo, o qual foi sua Revolução primordial...

Não de Lutero ouso dizer, porém de Calvino e em menor medida de Zwinglio. Um e outro foram os novos Gengis ou Tamerlões vindos da estepe. Os quais passaram pela Civilização como um ciclone, e, desde então, nada mais foi o mesmo.


Até então havia unidade religiosa, e consequentemente ética, em torno de um projeto ou ideário social. O que houve depois, vejam as guerras religiosas na França e na Inglaterra ou a guerra dos trinta anos, foi uma sucessão de batalhas, guerras e conflitos que até a segunda grande guerra foram drenando as energias daquele continente. E nunca mais se compôs a Europa ou livrou-se das guerras fratricidas. 

E quebrada ficou como o colosso de Ramsés II...

Basta dizer que após o curto domínio de uma nova fé - Que jamais esteve a altura da antiga ou logrou substitui-la com sucesso (Coordenando suas diversas sociedades.) produziu-se uma secularização sem fé, e, a partir dela uma nova ordem, materialista, a qual denominamos liberalismo econômico. E desta última 'ordem', qual Atena Palas da cabeça de Zeus, o capitalismo, o anarquismo e o positivismo. E, em seguida o fascismo e o nazismo. E, posteriormente, o modernismo. E de permeio: O ceticismo, o subjetivismo crasso e o relativismo. Todo um caleidoscópio formado por sucessivas culturas de morte...  Cada qual julgando poder substituir com sucesso a precedente - E cada qual mais fracassada e frustrada... 

De fato, abandonada a fé ancestral que plasmou a cultura, apenas restou, no fundo do cálice, um patético saudosismo quanto aos tempos passados, em que a Europa era una e pujante, pela fé e pelo projeto social dela derivado - O que lhe permitia permanecer de pé e erguida face ao islã e resistir impavidamente a seus assaltos. Pois havia vitalidade espiritual e proposta.

Grosso modo, todas essas ideologias e culturas de morte (Que como fantasmas ainda assombram a Europa no tempo presente.) o quanto pretenderam foi substituir a igreja ou a fé apostólica romana, enlaçando povos e países num mesmo ideal 'Católico' ou universal. E naturalmente que ocidental algum encarou seriamente a única opção viável para substituir com sucesso o romanismo: A Fé Ortodoxa... Antes seguem os europeus, mais e mais, na direção do caos ocidental, a ponto de, açulados pelo império protestante do Norte, satanizarem a Rússia hodierna, já reconciliada com sua cultura ancestral, autônoma e independente - Por isso odiada e satanizada, e caluniada (Pela imprensa paga ou comprada.) posto que, apesar das esperanças acalentadas nos anos noventa, não se converteu em província cultural, social e política do Império Yankee (O qual neste tempo sela seu destino entregando-a aos jihadistas para aliviar o querido Estado sionista.)


Enquanto isto os desorientados Europeus apostaram nas 'Canas quebradas' do capitalismo, do comunismo, do anarquismo, do positivismo, do fascismo, do nazismo, dos nacionalismos, etc sem que acertassem no alvo. E a cada uma dessas ideologias 'da moda' se poderia dizer o que foi o dito pelo apóstolo Pedro a Safira: Aqueles que levaram o cadáver de teu marido aí já estão, as portas, para levar o teu... 

Grosso modo cada um desses sistemas, após retalhar ainda mais aquele imenso colosso, simplesmente mirrou até converter-se em seita inexpressiva ou clube de devotos embiocados. Servindo no entanto, cada um deles, como obstáculo para que tornasse a Europa aos braços da velha Igreja ou da fé Ortodoxa - O que significou impedi-la de reencontrar a si mesma, seu espírito, sua consciência, sua identidade e sua missão. Arrancado ao seio materno pela Revolução protestante ou sequestrado, foi aquele infeliz continente, no afã do pensamento, alijando-se cada vez mais dos braços maternos e produzindo, enquanto foi capaz, novos sistemas, até esgotar sua criatividade, isto a pouco mais de um século... 

Desde então revolveu-se ela na lavagem do chiqueiro... até os estandartes e janízaros do islã...

Pois construção metafísica (Observem os decalques grotescos do Positivismo ou do comunismo soviético.) alguma conseguiu satisfazer aquelas mentes sagazes e corações inquietos e ainda menos reconciliar tais povos e nações. O que o protestantismo demoliu e lançou por terra ideologia alguma logrou reconsolidar ou erguer - E por que... Porque se o protestantismo, instilando ceticismo, duvidou da Igreja, o capitalismo desamparou o espírito, o comunismo e o anarquismo chegaram a duvidar de Deus, o positivismo lançou fora a Ética, fascismo repudiou a liberdade, o nazismo sacrificou o amor e a fraternidade, o ceticismo crasso aboliu o conceito de verdade, etc montes foram arremessados sobre montes até que chegamos a calamidade suprema. Foi Nietzsche: Protestante, filho e neto de pastores, tipo de exegeta sofisticado, ateu, incrédulo, louco e profeta do nihilismo, e etc que certa vez comparou a Europa de seu tempo com um campo de urzes semeado por gigantescas ruínas...

Embora não tenha contemplado a chegada dos beduínos com seus cimitarras...

Não que tais seitas, correntes e partidos não se tivessem esforçado para desacreditar, derrubar e substituir a fé ancestral. Calvinismo e Comunismo por sinal, empenharam forças descomunais. De fato, cada uma das igrejas sem Cristo ou das místicas secularizadas mobilizou recursos humanos colossais, julgando poder imitar ou plagiar o poder divino.

Aquele começando por Genebra, e falhando miseravelmente em menos de cem anos, e passando incansavelmente, a Escócia de Knoxx, aos EUA dos 'pilgrins fathers', ou mesmo as plagas do Brasil atual e, mesmo assim, falhando sucessivamente, tentativa após tentativa, sem no entanto jamais tornar a reconstruir a 'Santa Genebra' i é, o califado original ou, segundo Van Paassen, primeiro Campo de concentração da História.

Assim o Comunismo, que com seu estro revolucionário, 'Fez rolar a cabeça do Czar'... Onde ora refloresce ou reverdece uma fé ainda mais pura que a romana...

Agora por que falhou o protestantismo... Esse Adamastor cujas pretensões são tão grandes...

Falhou porque com base na dúvida, na negação ou no vácuo nada se edifica de duradouro. De fato a igreja velha conquistou e guiou a Europa porque firmada na autoridade enunciou verdades eternas e indestrutíveis ainda quando incompletas ou em parte distorcidas. Já o protestantismo postulando o livre exame deu a entender que procurava e consequentemente que não tinha... Como de fato não tem a posse da verdade, posto que lhe falta a verdadeira autoridade - Decorrente da sucessão apostólica.

Dirá ele que tem a bíblia ou que posta livros ou escrituras.

Logo, o que tem ele, é leitura e a leitura não é a verdade.

E essa leitura sequer é o livro, como o leitor - Por sinal, não o é.

Assim o quanto resta ao protestantismo é interpretação individual, subjetiva e falível, opinião, suposição, perspectiva, ponto de vista... Jamais a verdade ou o sentido objetivo do livro, fornecido pela legítima autoridade, aa qual remonta aos apóstolos e enfim ao Cristo. Tudo muito humano e demasiado humano, especulação natural, exegese, elaboração 'racional' e não Revelação divina...

Reino dividido, deu o protestantismo cumprimento as palavras infalíveis do Senhor: E - Devorado pelas seitas. - sucumbiu levando consigo a maior parte da Europa. 

Mesmo onde não reinava, ou seja, nas nações papistas e Ortodoxas, enviou ele (O protestantismo) seus corifeus - Apóstolos do ceticismo. - semeando dúvida e produzindo aquele imenso vácuo espiritual que haveria de ser futuramente disputado pelas culturas de morte a semelhança de um cadáver podre sendo disputado por urubus. Portador de um hálito e pestilencioso e letal, ele, o protestantismo logrou contaminar toda Europa, infecta-la, polui-la e destrui-la por dentro... Até chegarmos aos confins da pós verdade e restar-nos apenas a 'narrativa' ou a 'versão' - Desde então afundamos mais e mais nesse charco ou atoleiro espiritual> Posto que nada temos para opor ao islã, alias encarado já como uma opção possível... E quando assim for que será de Homero, Virgílio, Dante, Tasso ou Ariosto...

Pois é, o buraco ou brecha aberta nos flancos da Europa, não apenas subsiste - mas amplia-se. E nessa Babel de confusão, em que todos gritam, os olhos jamais se voltam para a Ortodoxia. A qual os pode duplamente salvar - Tanto neste mundo (Restaurando a cultura.) quanto no outro, e jamais dão com a verdade que a princípio com tanto amor chegaram a contemplaram.

Conheça também os demais artigos da série 'Culturas de morte': 


  • Americanismo
  • Protestantismo
  • Capitalismo
  • Comunismo
  • Conservadorismo
  • Fascismo
  • Pós Modernismo
  • Sionismo 
  • Positivismo
  • Anarquismo
  • etc




domingo, 26 de novembro de 2023

Religião, credulidade e incredulidade





                                                          OS MILAGRES


Acho mesmo muita canalhice alguém afirmar que Deus é bom e maravilhoso só porque está tudo bem com ela. Quer dizer que quando der ruim Deus ficará sendo feio e mau...

A meu ver essas pessoas que acreditam que a divindade atua exclusivamente em favor delas ou de seu grupo são pessoas sem caráter, egoístas e centradas em si mesmas.

Não tenho motivo algum para julgar que atue Deus em favor delas enquanto nada faz pelas criancinhas famintas da África ou da Ásia - Mesmo porque as criancinhas são inocentes enquanto que elas...

Por outro lado leio na pura palavra de Deus, que ele - Deus, não faz acepção de pessoas; mas que faz chover sobre justos e injustos, sendo imparcial...

Enquanto o ego carnal se apresenta como especial ou como algo da predileção divina, declara Deus que todos são iguais e portanto que não atua em favor de A, B ou C.

Imagina só o caboclo se matando de estudar para passar no vestibular ou no concurso público e Deus ajudando e promovendo sujeito que não estudou, i é, um vagabundo parasita.

Tampouco me parece digno que altere Deus a ordem de um mundo que ele mesmo criou... Afinal porque consertaria Deus algo que poderia ter feito melhor desde o princípio...

Enfim julgo que pessoa alguma daria o melhor de si para evitar algum erro caso contasse com o bom Deus para consertar suas 'cagadas'. Nesse ponto um sadio deísmo ou naturalismo, que exclui o fetichismo, oferece-nos melhores garantias em termos de prevenção de acidentes... E de fato penso que qualquer profissional que qualquer profissional que acredite em milagres ou intervenção divina, tenda a ser mais displicente que um cesssacionista.

Por fim a busca por milagres e eventos sobrenaturais corresponda a uma alteração da ordem divina na medida em que apresenta a divindade como estando a serviço das criaturas ou como executora da vontade delas.


EXTREMA SIT TAGUNT

São nossos neo ateus notáveis por confundir a totalidade das pessoas religiosas com radicais protestantes ou muçulmanos i é com pentecostais/calvinistas e sunitas... O que me parece uma deturpação da realidade ou pura e simples desonestidade.
Também me parecem equivocados quando associam a existência de Deus ao discurso religioso ou quando atribuem a questão da existência de Deus a autoridade, livros, fé, religião, etc e, ainda aqui, se mostram herdeiros de Kant, um pensador luterano alemão que buscava justificar o fideísmo ou exaltar a fé cega.
De fato, seguindo a mesma linha do agostiniano pessimista Lutero Kant tinha por lema abater a a percepção, a racionalidade e a metafísica naturalista ou a capacidade especulativa dos seres humanos para glorificar a fé ou a Revelação divina. Acho incrível mesmo que os céticos, agnósticos e ateus elevem aos céus um autor cujo pensamento deriva justamente do universo religioso e de um universo religioso deplorável. Os protestantes, bíblicos e fundamentalistas agradecem, - Pois situando a divindade no plano da fé cega o debate se torna impossível, e consequentemente qualquer tentativa de impugnação. Segundo o critério de Kant o deus dos fanáticos é sempre intangível.
De fato se a existência da religião revelada depende da existência de Deus, Deus sempre poderia existir sem se ter comunicado com os seres humanos, como predicam os deistas. De modo que a relação não é natural ou necessária e da falsidade das religiões em seu conjunto nada se poderia aduzir de concreto sobre a existência Deus, exceto que seus supostos ou pretensos porta vozes são falsos. A questão em si, da existência de Deus, continuaria sendo tema da metafísica ou da teodiceia, exatamente como foi colocado pelos grandes pensadores gregos: Xenófanes de Colofon, Diógenes de Apolônia, Anaxágoras, Parmênides, Sócrates, Platão, Aristóteles, Crísipo de Solis, Cleanto de Assos, etc
Acho curioso que os modernos passem da fé cega numa religião qualquer diretamente ao ateísmo ou a negação de Deus, sem sequer examinar o agnosticismo ou o deísmo, ao contrário de nossos nobres e prudentes ancestrais. Coisas da bíblia é claro, digo eu, pois apenas a leitura despreparada e irrefletida desse livro poderia causar um tão estranho prodígio.
'Tocam-se os extremos" como diria o 'estagirita' - E de um extremo a outro vão as massas.


PROTESTANTISMO E INCREDULIDADE.


Coisa notável é o protestantismo por produzir, nas massas idiotizadas, um topor estúpido e nos humanos mais inteligentes, materialismo e ateísmo, i é, apostasia. Disto talvez resulte, no futuro, um grande conflito social entre os dois extremos.

sábado, 25 de novembro de 2023

Reflexões sobre a perspectiva alegórica da inspiração linear. (Carta)

 Ao nobre e excelente W. R.

Graça, paz e bem no amoroso Redentor nosso Jesus Cristo.

Li com a devida atenção e o devido carinho as reflexões que tu publicaste na Comunidade X. Porém como minha resposta respeitosa foi truculentamente apaga por a reproduzi-la-ei aqui.
A meu ver o ponto de vista é equivocado.

Embora a tua perspectiva pessoal - Sobre o alegorismo. - esteja dentro da perspectiva Ortodoxa ou patrística, como uma theologumena ou opinião, é bem verdade que desde o século XIX tem sido ela, utilizada pelos companheiros e sucessores de Droysen, como uma explicação puramente naturalista sobre as origens do nosso Cristianismo, beneficiando portanto um erro fatal.
De fato muitos Historiadores helenistas alemães afirmaram que nosso Cristianismo, ao invés de ser revelado, nada tem de sobrenatural, correspondendo a uma evolução ou progresso apresentado pelo Cristianismo alexandrino. E o quanto teríamos aqui seria um judaismo helenizado ou helenizante, forjado por Aristobulos, Filon e outros.
Noutras palavras, nosso Cristianismo não passaria de uma releitura, de uma reformulação, de uma reconstrução, de uma reelaboração do judaísmo ora alegorizado. Seria um judaísmo mais refinado ou aprofundado. Mas sempre um judaísmo ou uma facção ou corrente judaica. E não há como fugir a semelhante conclusão.
E de fato caso concedamos que todos os mistérios do nosso Cristianismo se encontram simbolicamente presentes na mikra, temos de nos perguntar se não é o Cristianismo a kabalah original e se, por acaso, contém o Cristianismo histórico algo de próprio ou de original...
E temos de nos perguntar igualmente sobre que fica sendo de Jesus Cristo, e de sua condição, de seu sentido e de seu papel.. Qual a missão atribuída a nosso Jesus...
Quanto a isto devo dizer-lhe que meu pensamento Teológico é visceralmente niceno ou atanasiano, noutras palavras: Rigorosamente encarnacionista. Um sistema articulado e orgânico em que cada artigo de fé parte desse mistério central e que pretende ser uma espécie de mergulho numa Cristologia profunda.
Alias julgo cumprir um desígnio: Recuperar ou resgatar a consciência cristã não apenas face aos recuos do papismo e do Anglicanismo, a vulnerabilidade da Ortodoxia oriental e a alienação protestante, mas sobretudo face ao islamismo.
Diante disto, a mim me parece, sumamente duvidosa, a existência de uma Revelação parcial ou de elementos da Revelação Cristã anteriores à Encarnação do Verbo e que dela não procedam. Já a simples sugestão de uma Revelação integral do nosso Cristianismo, literal ou simbólica, anterior a esse mistério me parece impensável e não posso crer nela.
Nom possumus.

Nom credidimus.

Pois que ficaria sendo nosso Jesus, o Verbo encarnado?
Como poderíamos supor nosso Jesus mero porta voz de Abraão, Moisés, Caleb, Finéias, Salomão, etc... Me parece repugnante apresentar o Instrutor de todos como mero intérprete de quem quer quer seja ou como comentarista de quaisquer textos...

Não, não posso conceber o Mestre como alguém que se limita a fixar sentidos sem dizer nada de propriamente seu.

Não, não consigo nem posso ver Jesus assim, como o tipo de um exegeta que parte de textos ou livros. Tampouco posso encarar nosso abençoado Redentor como repetidor ou transmissor.
De minha parte acredito que o Cristianismo, ao contrário do judaísmo e do islamismo, parte de uma pessoa viva ou de um homem Deus. Julgo honestamente que a instituição Cristã corresponda a auto comunicação de Deus. Creio e confesso que este caminho equivale a uma intervenção direta de Deus na História dos homens. Que corresponda a manifestação do Deus vivo e portanto que corresponda não a algo antigo, velho ou trivial e sim a algo novo, único, singular ou distinto de tudo quanto existira antes. DO CONTRÁRIO NÃO SERIA VINHO NOVO OU CABERIA NOS ODRES VELHOS, porém ele nos advertiu que esse vinho não cabia naqueles odres. Não desejo salvar os odres, a Torá, a Tanak, a Mikra, etc por amor a uma opinião exótica - Da inspiração linear... E se para salvar o livro de papel devo abater ou rebaixar o homem Deus > Pereça o livro! Basta a bibliolatria! Chega de fetichismo!
Creio portanto que Nosso Senhor Jesus Cristo não se tenha manifestado para repetir lições velhas a e sabidas, mas que se tenha manifestado como Mestre e Instrutor supremo, o qual fala com autoridade própria, tudo quanto teria ouvido 'In sinu patris' i é o que trouxe dos céus.
Alias me parece bastante estranho que aqueles rudes personagens tenham enunciado os elevados mistérios do nosso Cristianismo numa linguagem alegórica tanto mais sofisticada. Parece que nesse caso seriam mestres melhores do que aquele que repetiu, em tempo futuro, as mesmas doutrinas, com expressões literais e palavras chãs. Seria o judaísmo um Cristianismo mais refinado... Não posso admiti-lo.
Creio que o Cristianismo proceda do Cristo e que nosso Cristo imutável jamais tenha orientado a moralidade baixa e vulgar da mikra. Entre a moralidade ou ética evangélica e a moralidade da Tanak vai abismo colossal e imenso.
Nem posso crer que deixaria o Verbo Jesus de corrigir, advertir e instruir os que supostamente acompanhava, e isto sob pena de omissão.
Quanto ao sentido das Sagradas Escrituras: 'Não me manifestei para cumprir a Lei.' já foi dado e fixado pelos legítimos intérpretes, os padres da igreja, e diz respeito a Lei divina e celestial do Decálogo ou dos dez mandamentos, que gravados nas tábuas de pedras foram colocados dentro da arca do pacto. Não a taurat. Não ao Pentateuco. Não a mikra. Não a Tanak como um todo. Não a totalidade do antigo testamento, como julgam as massas de protestantes iletrados, fundamentalistas e fanáticos mas apenas e tão somente ao Decálogo divino.
Por isso todas as outras partes da mikra ou tanak não é que tenham sido propriamente abolidas. Foram declaradas inválidas ou puramente humanas pelo Verbo encarnado Jesus Cristo fonte da vida.
Tanto que na parte mais nobre ou no coração mesmo do Evangelho disse nosso Jesus: 'Ouviste o que dito (Porque os judeus atribuíam a Torá uma origem oral vinculada ais anjos.) aos ancestrais... EU PORÉM VOS DIGO.'
E simplesmente negava o que era puramente natural ou resíduo da cultura.
Jamais apresentou como tal o que nunca fora sagrado ou divino.
Só os protestantes cegos são capazes de supor que Jesus Cristo revogara ou alterara instituições divinas pelo simples fato de ser Deus, posto que Deus é imutável e sem sombra de variação - Pelo simples fato de ter sua vontade perpetuamente fixada no bem ou naquilo que é perfeito. Quer dizer isto que caso uma lei seja de fato divina jamais poderá ser alterada, consertada, reformada, etc Se é Lei divina é Lei perpétua e inalteravelmente fixa pelos séculos dos séculos - TAL A LEI DO EVANGELHO!
Dedico a ti estas minhas reflexões, as quais espero que te sejam úteis. Abraço fraternal.

domingo, 24 de setembro de 2023

Hipóteses sobre Gobleki Tepe




Durante séculos ou milênios acreditamos nós que a construção de alvenaria mais antiga fosse a Pirâmide de Sakkara, edificada pelo divino arquiteto Inhotep, para o Faraó Djoser ou Neterkete, durante a terceira dinastia do Antigo Reino egípcio i é por volta de 2.600 ac ou há quase cinco mil anos passados.

Outros apostavam no enigmático círculo de pedras - Megálitos - de Stonehenge, erguido cerca de meio século depois. 

E de fato nada parecia haver de mais antigo em termos de alvenaria, e caso houvesse seria uma Revolução.

Como o argumento do silêncio é notoriamente falso e a pesquisa histórica, sob todos os aspectos recente, é natural que nossas conclusões sejam provisórias e que retroajam frequentemente na medida em que topamos com artefatos mais antigos até então ignorados. 

Devemos estar preparados para isso e esperar retrocessos cada vez maiores - Pois sempre poderemos encontrar artefatos mais antigos.

Enquanto preparo este artigo é descoberta (2021) a pintura rupestre mais antiga no mundo, contando com cerca de quarenta e cinco mil anos e encontrada na caverna Leang, Indonésia, parece representar um javali. Será ela a mais antiga... O quanto podemos dizer é que é a mais antiga conhecida, até o momento presente... E no entanto quando, há século e meio, D Marcelino Sautuola topou com as pinturas de Altamira e propôs que tinham mais de dez mil anos o próprio Cartailhac não lhe deu crédito algum, havendo inclusive quem postulasse uma falsificação moderna... E hoje falamos em quarenta e cinco mil anos... Quem garante que daqui a um século não terão sido descobertas outras pinturas do gênero com sessenta ou setenta mil anos...

Que dizer então dos primeiros elementos decorativos ou desenhos e adornos malacológicos... Basta dizer que desde o começo deste século foram encontrados na caverna de Blombos, na costa da África do Sul, elementos que datariam de cerca de setenta e cinco mil anos atrás. E no entanto é provisório, e bem podemos suspeitar que existam artefatos ainda mais antigos que ainda não foram encontrados, elementos que foram destruídos e elementos que talvez jamais venham a ser localizados. Jamais podemos declarar que qualquer peça encontrada por nós é a mais antiga ou a primeira em termos absolutos.

E agora, na mesma África do Sul, umas pegadas recém descobertas sugerem a possibilidade de que nossos ancestrais usassem já algum tipo de sandálias cerca de cem mil anos passados... Tais os tetravós das nossas havaianas.

Nada de novo debaixo do sol.

Pois nas Cataratas do Kalambo, na Zâmbia, uma estrutura de madeira com cerca de meio milhão de anos (476.000 anos) pertencente, possivelmente a um abrigo primitivo... O que para alguns pesquisadores supõem inclusive gênero de vida sedentário. 

Que dizer então do Homo Naledi e seus enterramentos - Localizados no complexo de cavernas Star, na já citada África do Sul - que remontam a cerca de duzentos mil anos... Se até bem pouco tempo havia quem risse de Shanidar... Poderia citar ainda o menino do Lapedo, descoberto pelo nosso Zilhão...

A arqueologia esta sempre a surpreender-nos, a corrigir a História e a eliminar opiniões preconcebidas de talhe ideológico. 

E de fato, algumas de suas descobertas chegam a subverter os tais palpites ou opiniões, chegando a ser revolucionárias, na plena acepção do termo.

Desde 1994 não se pode mais escrever sobre História ou sobre Idade primitiva sem mencionar as descobertas do arqueólogo alemão Klaus Schmidt em Gobekli Tepe, cerca de Sanliurfa, Turquia. 

Forçoso mencionar Gobleki Tepe como mencionamos as sete maravilhas da antiguidade ou como mencionamos as Pirâmides de Gizé, os túmulos de Ur, os restos de Mari, Ebla ou Palmira, os palácios de Nínive, os complexos de Cnossos, as ruínas de Tróia e Micenas, a grande muralha da China, Pompéia e Herculano, os Moais da Ilha de Páscoa e algumas outras descobertas emblemáticas.

E juntar o nome imortal de Schmidt aos de Denon, Schliemann, Champollion, Lepsius, Layard, Sayce, Petrie, Evans, Wooley, Carter, Montet, Uhle, Reich, Tello, Heyerdahl, E M Moctezuma, Perthes, Lartet, Dubois, Andersson, Leakey, Coppens, Tim White, etc

E por que...

Por qual razão ou motivo...

Basta dizer que Schmidt descobriu a construção de alvenaria mais antiga da História, a qual remonta - Pasme o leitor instruído! - a 11.500 antes de Cristo. O que sem dúvida alguma bastaria para imortalizar o homem...

E no entanto não é só isso, pois como dizem os nossos 'O problema é mais embaixo.'

Que queremos dizer com isso...

Em geral, acompanhando alguns estudiosos - Como o prestigioso V G Childe, profundo conhecedor da cultura primitiva. - em maior ou menor grau influenciados pelo marxismo e pela ênfase na materialidade, costumamos relacionar a arte, a técnica e o pensamento com a cultura ou com o desenvolvimento material. Via de regra admitimos haver relação entre a produção material e os estádios da cultura de uma determinada sociedade. 

De minha parte, acompanho tal ponto de vista não por ser materialista metafísico - De modo algum o sou. - mas por julgar ser realista e portanto por julgar que o espírito, a mente, a consciência ou seja lá o que for se realiza na matéria, em comunhão ou por meio dela e não a parte dela. Penso de fato que as condições para que o espírito se exprima ou manifeste são dadas pela materialidade, pelo ambiente ou pelas circunstâncias externas a ele e não posso encarar o ser humano como um ente descarnado, puramente espiritual ou angelical, alheio a dimensão física do corpo ou do ambiente em que vive.

Face a essa concepção que faz jus a materialidade e portanto a produção material ou - Segundo os marxistas; a atividade econômica dos seres humanos, a recente descoberta de Klaus Schmidt produziu uma espécie de crise - Daí ser encarada como uma espécie de Revolução ou ainda como algo que subverte. E até parece que a Revolução neolítica de Childe acabou sendo ela mesmo revolucionada.

Então, vamos aos fatos.

E é necessário por pingos anos Is. Pois as coisas não estão muito bem esclarecidas. Haja vista que tal assentamento tem sido relacionado com uma fase pre agrícola na qual os construtores das estruturas não dispunham de criações e plantações. 

A primeira observação a ser feita aqui é de que em Gobekli, aparentemente, não há indício de que os alimentos consumidos, sejam de origem vegetal ou animal, procedam de plantação ou criação assim de manejo agrícola ou pecuária. 

Advirto agora que, segundo o próprio Klaus, parece que durante essa fase, que é a mais antiga, parece que o local não era ocupado ou habitado por uma população sedentária, mas, ocupado apenas periodicamente, mas utilizado como um espaço cerimonial.

Tampouco outros grandes e famosos centros cerimoniais do neolítico como Stonehenge e Carnac parecem ter sido habitados. O que parece indicar-nos uma tradição mais antiga, no sentido de que - Quiçá por motivos de ordem religiosa. - tais espaços não eram habitados.

Julgo que semelhante dado seja importante ou nos forneça algumas pistas sobre o Gobekli.

Outro dado importante é que, sem embargo do que topamos exatamente no Gobekli, a agricultura e a pecuária já eram conhecidas no entorno, no mínimo há meio milênio, senão mais. Queremos dizer que em termos absolutos o Gobekli não precede o trato agrícola, precede-o apenas em termos relativos ou com relação a si mesmo.

Após termos explicitado dois aspectos relevantes da questão podemos já formular algumas hipóteses que quiçá venha a lançar alguma luz adicional.

Pois o ponto nevrálgico aqui diz respeito respeito aos restos de animais e plantas encontrados em Gobekli e dados como selvagens ou não domesticados. E dessa constatação que se parte para estabelecer que os frequentantes ignorassem a agricultura ou a pecuária e que fossem caçadores e coletores.

Começo observando que de fato a decoração do lugar reflete o universo dos caçadores, assim da fauna. 

Podemos a partir de uma religiosidade voltada para animais selvagens e caça negar que seus praticantes ignorassem a agricultura ou a pecuária...

Caso consideremos o caráter conservador, ainda presente em algumas formas religiosas que convivem com o capitalismo e as sociedades urbanas atuais e absolutamente dominante nas formas religiosas mais antigas e tradicionais podemos responder serenamente que não.

Perfeitamente compreensível que as sociedades de caçadores mantivessem seus ritos religiosos inalterados por séculos ou mesmo por milênios mesmo após terem adotado o trato agrícola ou a criação. 

Tanto mais compreensível quando sabemos que não houve troca, permuta ou substituição das atividades como imaginam os leigos. E que a produção agrícola foi introduzida num contesto geral de caça e pesca, convivendo ao lado dela por séculos ou milênios. O que reforça ainda mais a conservação das tais tradições religiosas arraigadas por dezenas de milênios.

Portanto o aspecto apresentado pelos emblemas religiosos, que refletem um caráter arcaico ou estádio anterior não nos deve desorientar, caso levemos em consideração o caráter fixista da religião antiga.

Agora tornando aos aspectos morfológicos dos restos ali encontrados devemos ser criteriosos antes de estabelecer qualquer conclusão precipitada, isso porque as alterações morfológicas e genéticas apresentadas pelos animais domesticados e que diferenciam-nos dos animais selvagens, não acontecem da noite para o dia ou em passe de mágica, mas, como advertem os compêndios de biologia, ocorrem de forma gradual e demandam longo período de tempo e a passagem de gerações.

Pode ser e é perfeitamente plausível que fossem já criadores há alguns séculos - E portanto recentemente. - sem que os animais em questão apresentassem as tais diferenças morfológicas. Ademais, caso levemos em conta o emprego de modelos mistos, como simples manejo sazonal de animais livres, sabemos que tais mudanças sequer ocorreriam. 

Outro o caso das plantas e da agricultura.

Pois parece que sob seleção artificial os vegetais tem a estrutura alterada mais rapidamente. 

O que nos levaria a concluir que caso os frequentantes do lugar tivessem adotado a agricultura pouco tempo antes que fosse construído, algumas alterações na estrutura das plantas consumidas se teria verificado no curso da primeira 'ocupação', o que parece não ter se dado.

Seria o caso, diante disso, de se afirmar categoricamente, que ignoravam o trato agrícola ou que eram meros coletores...

Atentemos que nessa primeira fase não era o Gobekli habitado, mas frequentado, por uma clientela religiosa. Não nos esqueçamos disso!

Outra possibilidade bastante bem acolhida pelos pesquisadores é que o local já fosse frequentado, desde algum momento do mesolítico, e portanto muito antes de que as estruturas de pedra fossem levantadas com o propósito de realizar seus ritos religiosos.

Já apontamos para um elemento com relação ao qual cumpre insistir: O caráter por assim dizer imutável da religião primitiva ou tradicional verificado pelos antropólogos e arqueólogos. 

E se as refeições feitas no local tivessem um caráter religioso...

E se tais refeições tivessem por objetivo perpetuar, e assim sacralizar, o modelo ancestral.

Bem poderia ser que em suas aldeias consumissem plantas cultivadas e animais criados de par com plantas coletadas e animais caçados, mas que no santuário, dedicado a um culto mesolítico, mantivessem, por preceito religioso, o antigo habito alimentar, excluindo o consumo de vegetais cultivados e animais criados...

E se no santuário religioso ou na prática ritual houvesse a estrita obrigação de consumir apenas alimentos caçados ou coletados, segundo o modo dos ancestrais... Costume quiçá facilitado pela abundância dos recursos naturais.

Outro o caso se o Gobekli tivesse sido habitado por uma população fixa. O que, ao menos quanto a primeira fase, parece não se ter evidenciado. 

A partir dos singelos dados coletados e associados a conhecimentos de ordem antropológica julgamos que não haja motivo suficiente para dogmatizar-se em torno de uma origem paleolítica ou mesolítica do conjunto ou de sua construção por caçadores\coletores que nada soubessem, em absoluto, sobre agricultura e pecuária. Viviam num contesto mais amplo em que a agricultura e a pecuária eram conhecidas. Alias nem sabemos de onde vinham e podiam vir de bastante longe...

Consideremos por fim que a leitura de registros materiais deva ser sempre muito prudente, pelo simples fato de transmitir-nos pouquíssimos dados sobre o universo mental ou sobre a cultura imaterial das sociedades estudadas. Precisamente por isso, ao toparmos com uma estrutura que parece remeter a um uso exclusivamente religioso somos obrigados a levar em consideração alguns dados gerais ou comuns a quase totalidade das religiões antigas. Como temos que tomar bastante cuidado ao apelar a fenômenos de natureza biológica, os quais devem explicitados em termos absolutamente rigorosos...










sexta-feira, 17 de março de 2023

Psicologia, psicanálise, Freud e a questão da multiplicidade de existências - Reflexões sobre a obra de Hermínio C Miranda 'A memória e o tempo' Edicel 1984 - Parte VI

               Nada tenho contra o espiritismo prático e até gratidão tenho para com o espiritismo doutrinal ou kardecismo.

                Nascido protestante jamais o fui de coração, por isso lendo o antigo testamento perdi a fé, tornando-me agnóstico.

                Por estranhos caminhos conheci o papismo ou a fé apostólica romana e ainda jovem abracei-a com entusiasmo.

                No entanto a leitura dos clássicos, o conhecimento da Filosofia e juntamente com isso a leitura de diversas obras doutrinais do espiritismo (Eu havia sido convidado a refuta-lo pelo Vigário de minha paróquia.) plantearam-me inúmeros problemas em torno de Antropologia e Soteriologia, todos derivados da ideologia agostiniana assumida pela igreja romana. A leitura dos padres gregos encaminhou-me ao Catolicismo Ortodoxo, o qual ao menos naquelas duas áreas aproxima-se do espiritismo (Na verdade é o espiritismo que nessas duas áreas aproxima-se do Cristianismo antigo ou
 primitivo.)


                 Portanto, mesmo após ter repudiado as crenças na expiação, na soberania da graça, na predestinação e no inferno eterno (Praticamente todas agostinianas, alheias ao texto grego do Evangelho e indignas!) não apenas continuei sendo Cristão Apostólico como aprimorei minha fé, descobrindo o autêntico Catolicismo - Ortodoxo e afastando-me ainda mais da aberração protestante.

                  Por que raios não me fiz espírita doutrinal ou kardecista... Por diversos motivos. O principal porém é porque o espiritismo, repudiando a divindade de Cristo, repudia consequentemente o mistério da Encarnação de Deus, aproximando-se de uma corrente filosófica com que jamais simpatizei, a saber, o neo platonismo, com seu deus puramente espiritual e separado do mundo ao modo do javé judeu ou do allá maometano. No Catolicismo e no hinduísmo a relação com o mundo ou com a matéria, com a Imanência enfim é outra e corresponde perfeitamente a meu modo de ver as coisas.

                   Os espiritistas por sinal, chegam a aproximar dos ocultistas ou esotéricos ao apresentarem o divino Jesus como mera criatura ou simples profeta e colocarem-no ao lado de Moisés, Buda ou Maomé... Compreendo que comparem nosso divino Mestre com Buda ou Confúcio, os quais são mesmo como manifestações suas ou emissários seus. Agora comparar nosso Jesus com Moisés (No qual há muito de mítico como reconheceu Freud.) ou com o sanguinário Maomé, tenha santa paciência... Acho tudo isso asqueroso e revoltante e Jesus me parece mesmo um Ente deslocado em seu nicho, mais parecido com um Sócrates do que com um rabino embiocado...

                      Então não posso ser espírita. O que, como disse, não me faz odiar o espiritismo doutrinal mas apenas discordar dele, até de modo amistoso - Uma vez que a Ética espírita por vezes é mais lúcida que a nossa, i é, que a Ética eclesiástica (Por vezes muito judaica ou muito protestante, mesmo quando romana ou Ortodoxa - Um desastre.) Quanto ao espiritismo prático ou sem ilações doutrinárias ou supostas revelações religiosas nada tenho contra.

                      Tecerei então algumas críticas amistosas ao espiritismo sempre focado no âmbito da Revelação divina, tal e qual costumo fazer ao criticar os unitários e maometanos. Pois uns são por profetas e outros por espíritos, enquanto nós postulamos como veículo mais excelente a Encarnação de Deus ou a manifestação de Deus na carne.

                      Principiarei dizendo o óbvio - Que a comunicação da verdade demanda garantias de seguridade, o quanto possível as mais exatas e infalíveis. Admitindo a preciosidade ou importância da Revelação divina para nossas vidas, para nossa vida Ética, para nossa conduta, para nosso enriquecimento espiritual, etc temos o direito de concluir por um veículo perfeito e sem defeito.

                       Corresponde a tal exigência, tão sóbria quanto sensata, a mediação dos espíritos desencarnados que serviram de guias ao sr Hippolyte Leon Denizard Rivail, mais conhecido como Allan Kardec ou seus predecessores como o juiz Edmonds... Davis... Cahagnet.

                        Antes porém façamos um parênteses importante - Via de regra os críticos pouco informados sobre Kardec e suas obras ou o espiritismo de modo geral supõe muito naturalmente que o objeto das comunicações mediúnicas era o próprio Kardec, e que os espíritos do além o instruíam tal e qual a superna divindade teria instruído Moisés ou Maomé... 

                        A impressão é absolutamente equivocada - Quero dizer, não corresponde a verdade histórica, a princípio, pelos idos de 1856, os espíritos - Por meio de uma comunicação. - teriam comissionado Kardec para sintetizar as comunicações obtidas por um grupo composto por cerca de uma dezena de médiuns reunidos nas residências de Madame De Plainemaison e do casal Boudin, dentre outras. 

                         Via de regra eram tais grupos (A exceção da Sra De Plainemaison) formados por umas adolescentes ou mocinhas, algumas inclusive com cerca de quatorze anos de idade, a exemplo das senhoritas Caroline e Juline (Boudin), Aline Carlotti, Ruth Japhet e Ermance Dufaux - 

                           Tal a origem da primeira e mais afamada obra codificada por Kardec - 'O livro dos espíritos' 1857. A partir de então, e a cabo de uns dez anos apareceriam cerca de oito obras, dentre as quais 'O livro dos médiuns' 1861 e 'O céu e o inferno' 1865. Segundo se diz as comunicações chegam a dezenas de milhares e os médiuns. No entanto, nos idos de 1860, após ter recebido comunicações ou informações procedentes de cerca de quinze diferentes países, foi feita uma segunda edição, Revisada. 

                            Até aqui nosso precioso parentético, quiçá um tanto prolixo...

                            Tornemos agora a questão das garantias...

                                      Que nos pode dizer sobre isso o próprio espiritismo...

                             Lembremos primeiramente que certa vez estourou uma grande controvérsia no seio do espiritismo doutrinal - Não a da reencarnação com os anglo saxões, porém a de J B Roustaing. 

                             E teve nosso Brasil notáveis campeões roustainguianos, a ponto de levar as chamas do incêndio até a FEB... Não vou entrar no mérito de tais debates (Em que tomaram parte Leopoldo Cirne, Leopolo Machado, Imbassahy, Crysanto de Brito, etc) que cheiram a unitarismo e a monofisitismo. 

                                 Quis apenas refrescar as memórias de quantos esqueceram que no auge dessa amarga polêmica uma boa alma lembrou-se de que certa vez, Kardec, ao falar sobre os espíritos ignorantes, declarou que costumam eles levar seus preconceitos religiosos e ideias fixas para as plagas de além túmulo... Conclusão: Os espíritos do Roustaing eram 'romanos' ou como se diz católicos...

                                    Assim se há espíritos romanos - e diversos autores espíritas admitiram que sim! Então que barafunda ou confusão há no além, pois deve haver espírito ariano ou maometano (Como os de Kardec), protestante, judeu, budista, hindu, etc cada qual apegado a suas crençazinhas terrícolas e sem aquele acesso direto a divindade atribuído aos comunicadores de Kardec... E pela enésima vez surge a fé. No sentido de que os médiuns de Kardec eram diferentes, melhores ou especiais. 

                                      Ao contrário dos guias do juiz Edmonds, de Roustaing ou de Pietro Ubaldi, os quais emitiram opiniões ou considerações diferentes... 

                                      Ueh mas não é Revelação divina... Nesse caso como admitir a contradição... Dizendo que os demais foram enganados ou desorientados enquanto que Kardec - Ou melhor dizendo seus médiuns -  teve acesso privilegiado aos arcanos do além. 


                                        Lamento dizer que uma tal solução remete ao universo das seitas protestantes, nas quais cada uma declara estar na posse do espírito santo enquanto afirma que todas as outras são presas do capeta...


                                      Admitida essa explicação, dos espíritos fanáticos presos a determinadas crenças, quem nos pode garantir que as comunicações kardequianas opostas a fé Ortodoxa i é contrárias a divindade de Cristo, a Eucaristia, aos Sacramentos, a Sucessão apostólica, etc não procedem de espíritos protestantes, os quais no além continuam odiando a velha fé da Igreja antiga... Enfim, tudo fruto de um protestantismo invisível...

                                       Aqui meu amigo espírita, enojado, já pergunta: Acabou, já chegamos aos espíritos ruins ou impuros...

                                       De modo algum, ainda não, pois ainda há os espíritos levianos - 'Ignorantes, maliciosos, irrefletidos e zombeteiros... vulgarmente tratados por duendes, trols, gnomos, fadas, gênios, diabretes, etc" (L E 1936 p 44), os quais, segundo Sir Arthur Conan Doyle, sequer conhecem - Enquanto desencarnados - o princípio de reencarnação... in Evening standard, 07 de Junho de 1926

                                          A respeito desta outra categoria demos ainda a palavra ao notável escritor britânico:

                                         "A dificuldade desaparece, penso eu, quando percebemos que essas pessoas espirituais não são de forma alguma oniscientes, e que o assunto diz respeito ao seu futuro, que parece ser um assunto para debate entre eles, como é conosco."

                                           
E Kardec: "... os espíritos, do mesmo modo que entre os homens, ha-os muito ignorantes, de maneira que nunca serão demais as cautelas que se tomem contra A TENDÊNCIA A CRER QUE, POR SEREM ESPÍRITOS, DEVAM SAVER TUDO." L E 1936 p 33

                                           "Allan Kardec faz em 1863 uma análise geral das comunicações mediúnicas que lhe vinham as mãos de todas as partes. Diz então (R S Maio de 1863) que tem mais de 3.600 examinadas, das quais 3.000 (80%) são de uma moralidade irreprochável. Desse número , considera publicáveis menos de trezentas, embora apenas cem sejam de mérito excepcional (2%). Quanto aos trabalhos de grande fôlego que lhe remeteram, sobre trinta só achará cinco ou seis de real valor (15 a 20%). E ele comenta 'No mundo invisível, como na terra, não faltam escritores, mas OS BONS ESCRITORES SÃO RAROS." Wantuil e Thiesen II 1980 p 139

                                           
Ressalto aqui o ínfimo número de comunicações relevantes e o papel do classificador ou daquele que seleciona, papel totalmente subjetivo. 

                                           Quanto a essa questão, da Revelação divina ou da comunicação espiritual, os kardecistas aplicam a ela o dogma da Comunhão dos Santos criando uma espécie de corrente de informações. É o que se aduz do L E - 1936 pg 46 iten 113 onde após declarar que os espíritos Superiores ou iluminados - Que não mais reencarnam por terem atingido a perfeição, a inalterável bem aventurança e a posse de Deus. - São mensageiros ou ministros de Deus... e comandantes dos espíritos inferiores, aos quais instruem e guiam... "Podem os homens por-se em comunicação com eles, porém seria presunçoso aquele que pretende-se te-los constantemente a sua disposição." 

                                           
Conclusão: Parece que os espíritos instruem uns aos outros no que concerne as coisas divinas indo esta ordem do superior ao inferior i é dos espíritos por assim dizer perfeitos aos menos perfeitos ou imperfeitos, e que via de regra - Já pela simples quantidade - estamos em contato com os intermediários dos intermediários, sem que tenhamos acesso direto ao conhecimento divino, o que parece implicar em perda de qualidade, pelo simples fato dos espíritos imperfeitos não poderem assimilar tudo.

                                           Mesmo a propósito dos espíritos superiores - Que é como Kardec humildemente avalia seus guias - diz o codificador: "É erro crer que os espíritos tenha ciência infusa, o saber deles está, no espaço como na terra, subordinado ao seu grau de adiantamento, e há os que acerca de tais coisas, sabem menos do que os homens. Suas comunicações estão em relação com seus conhecimentos, e, por isso mesmo, NÃO PODEM SER INFALÍVEIS."  (R S 1866 - Abril)

                                         
Todavia se não são oniscientes, ao menos enquanto conhecedores das coisas sagradas, como podem ensinar-nos a respeito do Bom Deus com o grau de puridade a que aspiramos.

                                           Eternos céus, os espíritos desencarnados, confessam os próprios espíritas de renome, comunicam apenas suas próprias opiniões, impressões, suspeitas ou conjecturas i é o que 'acham', portanto nada de divino.

                                       Sem embargo o honesto Hermínio C Miranda, nas páginas 55 e 56 de sua obra ainda menciona os espíritos neuróticos e psicóticos, com seu acervo de complexos, traumas, agitações, transtornos, etc asseverando inclusive que são tão numerosos quanto os daqui, além de sujeitos aos mesmos mecanismos mentais ou vicissitudes...

                                      Percebem de onde surgiram tantas narrativas idiotas sobre a vida dos espíritos em Marte, Vênus ou Plutão... Da imaginação ou elaboração inconsciente dos próprios espíritos. Da fantasia fantasmal. Dos hospícios de além túmulo...

                                        Por fim em diversas, obras, pautadas por sinal nas comunicações dos espíritos Kardec confessa honestamente que há espíritos maus e mentirosos, desejosos de desencaminhar a humanidade ou apenas de aparecer - Adquirindo assim fama e glória. 

                                         Tomemos suas palavras ou as palavras de seus espíritos: "102 - Décima classe: Espíritos impuros - São inclinados ao mal, de que fazem o objeto de suas preocupações. Como espíritos dão conselhos pérfidos, sopram a discórdia e a desconfiança, E SE MASCARAM DE TODAS AS MANEIRAS PARA MELHOR ENGANAR." Livro dos Espíritos 1936 p 41


                             
                    No entanto, para que não fiquemos desorientados e assustados, os guias de Kardec tencionam fornecer-nos um critério seguro com que identificar a idoneidade moral dos espíritos e de suas comunicações - "Nas manifestações, eles se dão a conhecer por sua linguagem. A trivialidade e a grosseira das expressões nos espíritos, como nos homens, é sempre indício de inferioridade moral, senão também intelectual. " Id ibd

                               Quer aqui o sr Kardec ou seus espíritos iluminados, que tomemos a pessoa desencarnada e invisível por sua linguagem, querendo dizer que uma pessoa anti ética ou maldosa apresentará, necessariamente, uma linguagem vulgar. 

                                Que pensar sobre isso...


                                Admitimos francamente que a linguagem natural ou espontânea de uma pessoa má será vulgar, grosseira ou desbragada. Porém - No caso em que a pessoa má seja inteligente (O que sucede não poucas vezes.) e deseje enganar, não lhe faltará habilidade para tanto e pouca dificuldade terá para assumir outra linguagem, aparentemente nobre e elevada.

                                 Pessoas inteligentes simulam e simulam a ponto de tecer discursos encantadores, a exemplo de um Calvino ou de um Hitler, de um Bush, de um Trump, etc Simplesmente mudam de linguagem caso necessário seja, afetam outro linguajar, selecionam palavras, etc 


                                  De modo que a pura e simples análise de um discurso não nos pode garantir coisa alguma em termos de moralidade. E isso só seria discutível ou duvidoso caso todos os espíritos maus fossem igualmente ignorantes, o que Kardec naturalmente jamais disse... Logo, nada que os espíritos maus dotados de certa inteligência não possam burlar em se tratando dos humanos. 

                         Fácil portanto o humano ficar a mercê dos espíritos maus e enganadores.

                          Examinemos agora uma outra faceta não menos importante das comunicações.

                         
Pois como se não bastassem os espíritos fanáticos, ignorantes, neuróticos e maus, damos na obra do profo Erny - o qual por sinal foi letrado de renome, que as identidades de todos os comunicantes são inseguras, posto que não possuem certidão de nascimento, carteira de identidade ou mesmo de motorista com a devida fotografia.

                           Presumidamente apresentam-se como Maria, Paulo de Tarso, Agostinho, Tomás de Aquino, Tereza D Avilla, Lucius, André Luis, Meimei, Paraclito, Emmanuel, etc todavia quem sejam de fato, com certeza certa, não podemos saber. Pois são invisíveis...

                            Debalde assevera o sr Kardec pelos idos de 1858 "A experiência nos ensina a conhecer os espíritos, como nos ensina a conhecer os homens."

                             Pobre Kardec - Irmão gêmeo de Cândido e filho de Leibnitz . Pois parafraseando Confúcio bem poderíamos dizer: "Se não sabemos que é a vida, como saber o que é a morte..." 

                              De fato, se quase dois séculos após a criação da Psicologia, a intervenção de tantos sábios, tantas pesquisas, tantas publicações, etc sabemos tão pouco sobre o homem encarnado, vivo e visível como pretender que saibamos algo sobre entidades invisíveis e anônimas... Inclusive o homem do povo - Que nada sabe em termos de Psicologia profunda, inconsciente, personalidade, etc

                            Isso quanto os tipos ou categorias de espíritos e sua condição anônima...


                            Pois ainda que excluamos todas essas variedades de espíritos: Neuróticos, zombeteiros, ignorantes ou maldosos - Todos invisíveis e anônimos... continuamos num mato sem cachorro. Abandonados, perdidos e confusos...

                               Bastando para tanto saber que nem sempre são espíritos desencarnados... 

                               Mas como... 

                               Isso mesmo - basta saber que muitas vezes 'o espírito' em questão bem pode ser o inconsciente do próprio médium i é um entidade imaginada por ele e que é ele mesmo. Claro que a fantasia é inconsciente e não intencional. E no entanto há engano, mesmo sem a vontade de enganar.

                                Tal o fenômeno de múltipla personalidade.

                                Impossível... Claro que não.

                                Tal a hipótese contemplada por primeiramente, e de modo inadequado, pelo profo William Benjamin Carpenter ainda em 1853.

                                 Finalmente, em 1855, uma carta anônima, rompendo com a esquema puramente físico naturalista, postulou o desdobramento da personalidade do médium (Cuchet 2012 p 85 sgs) - Supreendentemente foi tal tese, retomada seriamente, trinta anos depois pelo Dr Pierre Janet (1903 p 377 sgs) notável adversário dos positivistas. 

                                  Ocioso dizer que Kardec conhecia perfeitamente essa opinião (Pois segundo Canuto de Abreu integrava o grupo de pesquisadores da Sociedade Mesmeriana coordenado pelo Barão Du Potet. cf  'O livro dos espíritos e sua tradição histórico lendária') - Elencada também por Blavatsky (O véu de Ísis) e Sir William Croockes, dentre outros - discutida, posteriormente, por todos os Parapsicólogos e avaliada como tese, que associada a hiperestesia, a telepatia e a pre cognição, tornaria, não impossível, porém extremamente difícil a comprovação direta da sobrevivência- Fato de que Kardec não se deu conta, tal e qual seus seguidores. 

                                    "Assim o médium tiraria de si mesmo, e por efeito de suas lucidez, tudo quanto diz, e todas as noções que transmite, mesmo sobre coisas que lhe sejam estranhas em seu estado normal." Kardec 1857 p 24 sgs Já em 1861 (p 39) o codificador admite que o desdobramento poderia bem ser a causa DE MUITAS DAS SUPOSTAS COMUNICAÇÕES ESPIRITUAIS. 

                                       Mais - Kardec admitia que mesmo nas comunicações mediúnicas autênticas, as informações fornecidas eram muitas vezes, UMA COMBINAÇÃO DE CONTEÚDOS ORIUNDOS DO ESPÍRITO COM DADOS INERENTES DO INCONSCIENTE DO MÉDIUM (Kardec 1865 a p 155 "O pensamento do espírito pode, ademais, ser alterado pelo meio que atravessa para se manifestar." (R S 1866 - Abril)

                                        Reflitamos por um instante sobre o que o sr Kardec está a dizer. Pois está a dizer que a pretenciosa terceira Revelação nada tem de divina ou transcendente não passando de dois elementos puramente humanos ou naturais misturados uns com o outro - O espírito desencarnado, que é humano e sempre falível e o espírito ou melhor o inconsciente igualmente falível do médium. Absolutamente nada de Sagrado, celestial ou infalível e perfeito. 

                                Nem mesmo as comunicações dos humanos desencarnados são puras ou isentas de influência por parte dos vivos, humanos e encarnados como nós!

                                                                  Passemos - Pois também pode, o suposto espírito, corresponder a manifestação da mente viva e encarnada de um outro médium qualquer em desdobramento, esteja ele na mesa ou nas proximidades. Como poderia ser produto de elaboração conjunta ou comum, com a intervenção de diversas mentes i é uma colcha de retalhos.

                                 A exemplo do que temos nas manifestações de 'fantasmas' de vivos... cf "Phantasms of the livings - Gurney, Myers e Podmore, London 1886 (Tradução francesa por L Marillier "Les hallucinations télépathique, Paris, 1889). As quais não se limitam a manifestar apenas imagens visuais estáticas (Supostos resíduo ou cascas.) mas inclusive algumas impressões visuais dinâmicas acompanhadas de impressões auditivas  dinâmicas. Naturalmente que o inconsciente de um agente vivo pode produzir impressões dinâmicas e não apenas estáticas. 

                                   Sequer preciso mencionar aqui o fenômenos a que dão o nome de viagens astrais ou saídas de corpos, as quais, sejam o que forem, sucedem durante o sono. cf Hector Durville "Le fantôme des vivants". As quais poderiam sempre terminar em incorporação ou simples ação sobre outro agente em transe, como as trocas de corpos ou de espíritos apresentadas em diversas comédias, sendo a mais conhecida 'Um espírito baixou em mim' 1984 com Steve Martin e Lily Tomlin como Edwina Cutwater.

                                     
   Tanto podemos ter o desdobramento imediato da mente do médium, de seus companheiros ou de algum membro do auditório como a intromissão de qualquer outro espírito vivo. 

                                 Em meio a tanta comunicação exótica e divergente quanta não é de vivo, seja no corpo ou fora dele...

                                  De modo que admitido mais esse raminho de joio no trigal abala-se ainda mais a garantia divina da Revelação ou da Religião, convertendo-se ela em algo essencialmente humano, imanente e natural, a exemplo do unitarismo com seus profetas - Como Maomé. - ou o protestantismo por meio do livre exame ou da especulação exegética...

                                    Tudo muito humano, demasiado humano.

                                     Após o incrível cipoal de espíritos acima descrito, a condição do anonimato e os fenômenos sonambúlicos de desdobramento mental chegamos já ao fundo do poço...

                                     Creio que não. 

                                     Pois restam ainda outras duas expressões da realidade: A fraude e a alucinação, individual ou coletiva. 

                                     A fraude foi admitida sem maiores problemas por Kardec e vinculada expressamente a muitas comunicações (1869 p 36) Limitando-se ele a objetar que nem tudo era falso, ou que havia um resíduo verdadeiro. (1866 p58 sgs). Amiúde vinculava o charlatanismo a cobrança (1869 p 89) e concluía dizendo que os verdadeiros médiuns só tinham a ganhar com a exposição dos impostores. (1859 p 96)

                                     Até que chegamos, por fim, a ilusão ou a alucinação, fenômeno psicológico amplamente demonstrado e sobre o qual não pairam quaisquer dúvidas. Apenas quanto as alucinações coletivas devemos tomar bastante cuidado tendo em vista os fatores predisponentes. Pois a exemplo do 'inconsciente coletivo' - Conceito amplamente discutível. - costuma ser usada como uma espécie de lugar comum ou panacéia pelos naturalistas.

                                     Seja como for Kardec não deixou de leva-la em consideração. Destarte concedeu, sem maiores problemas, que a ignorância, a superstição e a credulidade bem podia produzir alucinações confundidas com fenômenos mediúnicos. (1868 p 29) O quanto objeta, e com propriedade, é que a alucinação costuma ser estática e não dinâmica ou inteligente (1861 p 196) Insistindo mais uma vez que o acesso a informações desconhecidas por parte do instrumento, comprovaria a ação de um espírito guia. 

                                     Kardec ignorava por completo o fenômeno natural da clarividência associado a vida inconsciente ou a personalidade múltipla. Mas não a clarividência ou a profecia em si mesma associada ao sonambulismo puro e simples (1858 p 61). 

                                     Portanto temos bem de par com a 'terceira revelação' i é bem juntinho ou ao lado -  

* Quanto aos fenômenos:

                                      # Fraudes ou imposturas - Admitidas.
                                      # Ilusões e alucinações - Admitidas.
                                      # Forças puramente mentais e desdobramentos psíquicos - Admitidos.

* E quanto os espíritos comunicantes:

                                     # Espíritos neuróticos -
                                     # Espíritos fanáticos - Admitidos.
                                     # Espíritos ignorantes - Admitidos.
                                     # Espíritos malignos - 
Admitidos. 
                                     # Espíritos Superiores FALÍVEIS -Admitidos.

                                      Além das condições de invisibilidade e anonimato partilhadas por todos os espíritos sem exceção. 

                                      Conclusão 01: As autênticas comunicações espíritas não passam de um resíduo ou de mínima parte dentre o conjunto dos fenômenos abordados.  

                                       Conclusão 02 : As comunicações dos espíritos superiores não passam de resíduo ou de ínfima parte dentre a massa de comunicações obtidas pelos médiuns reais ou supostos.

                                         Conclusão 03: É a tal da terceira relevação resíduo de resíduo ou como se diz 'pepita de ouro' extraída a um mar ou oceano de lama. 

                                  Diante de tão imenso cipoal ou labirinto os
 kardecistas costumam vir a liça postulando não sei quais energias ou emanações do bem, uma proteção específica de deus ou de Jesus ou ainda dos espíritos de luz, etc quanto aos MÉDIUNS DE KARDEC - Em que pese as hostes de espíritos zombeteiros e enganadores, o desdobramento mental dos vivos e o anonimato... envolvidos por desdobramentos, capacidades mentais, alucinações e fraudes (Nenhuma das quais excluída por completo por Kardec).

                                     E o quanto assistimos é uma autêntica fuga ao naturalismo.


                                     Apesar das advertências feitas pelo Codificador: "Não há palavra sacramental alguma, sinal cabalístico algum, ou talismã ou ação que possa exercer influência sobre os espíritos (Ao contrário do que diz a querida Blavatsky) --- Mas não é exato que alguns espíritos TENHAM DITADO FÓRMULAS CABALÍSTICAS. Efetivamente, espíritos há que indicam sinais e palavras estranhas ou ainda prescrevem certos gestos por meio dos quais se fazem os assim chamados conjuros. Mas, ficai certificados que tais espíritos estão é a escarnecer e a zombar da vossa credulidade."

                                             
Lamento contrariar os amigos espíritas mas é Kardec quem adverte não haver qualquer seguro espiritual ou garantia de proteção face a essa imensa massa de fraudes, alucinações, desdobramentos e espíritos malignos, ignorantes, neuróticos, anônimos... que cercam o pequeno número de comunicações relevantes.

                                   E são esses mesmos espíritas, que afetando cientificismo, chegam a por em dúvida não apenas os supostos milagres ou intervenções sobrenaturais - Aqui com plena razão! - mas por vezes até mesmo os milagres do divino Jesus consignados no Evangelho Redentor.


                                               
Curioso ver como os kardecistas - Que tanto apreciam o positivismo, o naturalismo ou o cessacionismo (E o autor deste artigo é cessacionista convicto!) com seus temperos deístas. - tresandam e põem-se logo a falar em alguma ajuda providencial já aos médiuns de Kardec já ao próprio Kardec, a qual tornaria tais médiuns invulneráveis ou conferiria ao ilustre professor francês uma espécie de infalibilidade, quiçá arremedo da infalibilidade papal promulgada por Pio IX em 1870.

                                          Verdade seja dita - Impede o pudor que a maioria dos espiritistas, particularmente os mais instruídos, atribua tal prerrogativa a Kardec, mesmo quando admitem que ele selecionou as comunicações e que selecionando atuou falivelmente, como qualquer outro ser humano. 


                                          E é precisamente aqui e a partir daqui que todo esse edifício que se arvora em ciência, filosofia e revelação começa a desabar fragosamente... A desmanchar-se, a ruir e a dar por terra...

                                          A maioria deles prefere, com Canuto de Abreu 1957 p X "O resultado de sua redação só era incorporado ao texto depois de cuidadosamente revisado e corrigido, palavra por palavra, pelos Instrutores."

                                         
Tal o ping pong ou o jogo Tênis espiritual -

                                           As comunicações são, em seu conjunto duvidosas, bem como os espíritos em seu conjunto. 

                                           Como resolvemos isso...

                                           Dizendo que foram examinadas e selecionadas por Kardec.

                                           Reivindica Kardec a perfeição da infalibilidade como o Pio IX, o papa epilético... Certamente que não.

                                            Então...

                                            Recorre Kardec a um recurso especioso que não poucas vezes confunde ou entusiasma seus leitores a ponto de correr louros, aplausos e ovações.

                                             A todo instante Kardec opõem a fé supostamente cega da Igreja antiga a razão ou ao raciocínio. Aqui, paradoxalmente, não é nada 'sofisticado', positivista ou empirista, porém racionalista ou metafísico, tal e qual Leibnitz, Descartes, Voltaire, etc. 

                                              Como um protestante livre examinista falando sobre a bíblia ou o Evangelho (Sem ser o Evangelho ou a bíblia.) Kardec escreve sobre a razão e o raciocínio, a ponto de ser fastidioso citar. E a impressão que se tem é que ele Kardec encarna a razão ou seja o único mortal capaz de raciocinar - Mesmo quando confessa sua falibilidade.

                                                Importa dizer que é a razão um guia naturalmente seguro, mormente quando haja acordo entre os sábios a respeito das conclusões. Fica no entanto sendo, ainda hoje - Como nos tempos de Orígenes. - um recurso restrito e pouco acessível ao grosso do povo ou a gente medíocre e sem instrução. 

                                                  Outro o conceito de Revelação ou Religião, sobretudo quanto associada ao veículo mais adequado - que é a Encarnação de Deus, e ao recurso a autoridade, pelo qual se atinge a gente medíocre ou até mesmo as massas. 

                                                   Os próprios conceitos de Razão (Natural) e Revelação (Sobrenatural) parecem distintos - Ainda que não sejam opostos e destinados encaixarem um no outro, completando a comunicação divina e infalível as aquisições limitadas e apenas humanamente seguras da Razão. 

                                                     Admitido isto o quanto temos aqui não é Religião ou Revelação e menos ainda Ciência porém uma Reflexão ou uma especulação metafísica feita a partir de comunicações incertas e duvidosas i é um tipo de filosofia muito pobre, que pode partir de premissas equivocadas.

                                                      Caso Kardec, sendo humano, seja o critério ou padrão das comunicações, todo espiritismo é puramente humano e natural, mesmo quando houvesse alguma comunicação fidedigna incluída no conjunto.

                                                       Daí Canuto de Abreu... postular a revisão do quanto foi feito por Kardec pelos espíritos... Os quais bem podem ser fanáticos, neuróticos, ignorantes, malvados, etc e são sempre falíveis... 

                                                        Kardec no entanto confere o título de Superiores ou iluminados aos espíritos que assentem a seus juízos. Por que superiores ou iluminados... Porque concordam com ele. Kardec como que canoniza os espíritos que aprovam seu trabalho. Que seriedade há nisto...

                                                         Kardec aprova os espíritos que aprovam Kardec... Senhores isso é pura marmota. 

                                                                            Eternos céus - Imaginávamos uma auto comunicação divina, com garantias razoáveis, puridade, exatidão, etc E eis que os kardecistas, que se julgam cientistas ou filósofos, brindam-nos com possíveis fraudes, alucinações, fenômenos paranormais, comunicações de vivos e toda casta de espíritos: Fanáticos ou irredutíveis e espíritos neuróticos/psicóticos, ignorantes, zombeteiros, falíveis, anônimos (Para você se sentir no AlAnom), etc então me diz se isso não é um mercado ou uma feira... Labirinto sem fio de Ariadne!

                                                     E... no entanto... Apesar disso... Nosso cândido declara sereno e calmo que os espíritos que dirigiam os médiuns de Kardec eram os mais puros e elevados do universo, os melhores, a elite do mundo espiritual - Pois certamente havia ali uma operação divina ou uma ação providencial. 

                                               E incomodam-se nossos amigos quando dizemos que isso não passa de fé e de uma fé grandiosa, de uma fé colossal, duma fé imensa... Quiçá mais fé do que qualquer Ortodoxo que crê na divindade de nosso Senhor o Bom Jesus.

                                                                   Como ainda aqui e sempre quero ser justo, concedo que para as comunicações pessoais ou NÃO DOUTRINÁRIAS - Nas quais pessoas das mais diversas fés, buscam contatar algum ente querido para acertar alguma pendência, tais prevenções e garantias não venham ao caso. Bastando para tanto evocar o falecido no ambiente certo (E do modo correto) - Num ambiente de paz, serenidade, amor e boas energias, a luz do Evangelho e com recurso a prece. - e interagir com ele, deixando o mais a cargo da intuição... que é a meu ver a melhor forma de reconhecer alguém com quem convivemos. Se interage e comunica alguns de segredos ignorados pelo médium podemos dar por plausível a presença do defunto.

                                                                  Manifestamente outro e diverso o caso desse espiritismo doutrinário ou kardecista que pretende substituir os padrões mais seguros da Revelação divina - Que são a Encarnação e na sucessão apostólica na Igreja. - pela mediação de entidades invisíveis e anônimas  que não podem ser identificadas com seguridade. Sabendo que o universo espiritual é bastante similar ao nosso e que está densamente povoado por entidades problemáticas como atribuir-lhe a prerrogativa de informar-nos sobre as coisas santas e divinas...

                                                       Quiçá algum espírita frustrado, após ter lido estas linhas, julgue que queremos desencaminha-lo do espiritismo. Longe de nós. Apenas da doutrina ou do Kardecismo ou ao menos de certos aspectos dela... Quanto ao espiritismo basta dizer que também existe o NÃO doutrinal, perfeitamente compatível com a fé Ortodoxa ou mesmo com as práticas da igreja romana. Pois um romano, anglicano ou Católico Ortodoxo bem pode lá ir receber seus passes, ouvir alguma comunicação, etc sem deixar de ser Cristão. Como pode ir aos centros Kardecistas - Caso se sinta bem. - sem aceitar a doutrina ou aderir a ela. 

                                                    Por não acreditar que a condenação da evocação dos mortos por parte dos antigos judeus tenha qualquer coisa de sagrada ou de divina (É puramente cultural e não consta em nosso Sagrado Evangelho!) sou pela conciliação até onde for possível e não por qualquer ruptura dramática ou radical, mesmo porque o espiritismo possuí uma Ética admirável, filha desse Evangelho e a qual não posso desdenhar. 


                                                    Eis o que tenho a escrever sobre a doutrina de Kardec e suas garantias.