quinta-feira, 19 de julho de 2018

Superando o Comunismo ou Capitalismo de Estado com Jaurés e Otto Bauer

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J Jaures é uma personagem muito pouco conhecida e praticamente ignorada em nossa 'Terra brasilis'. Mas foi alguém muito importante há cerca de cem anos quando tombou por tentar impedir a catástrofe que conhecemos como primeira grande guerra. Assim enquanto o russo Lênin, sem apoiar, visava tirar proveito da Guerra, Jaures forcejava por evita-la a todo custo, e por isso tombou, vitimado por dois tiros quando estava prestes a recorrer a arbitragem de W Wilson presidente dos EUA. Após Jaures veio o dilúvio e levou consigo milhões de preciosas vidas humanas, especialmente dos mais pobres é claro.

Bem, como dizia, J Jaures é uma figura praticamente conhecida aqui no Brasil e isto tem um motivo ou uma razão - O grande líder socialista francês jamais assimilou o que chamam de marxismo 'ortodoxo' mesmo em simples termos de comunismo, para não dizer bolchevismo (Ou leninismo, o comunismo russo)... Não fora em vão que Jaures havia cursado Filosofia. Então ele estava muito bem aparelhado, no sentido de examinar toda essa questão revolucionária tanto mais a fundo. E examinou...

Como explicitamos noutros artigos os babovistas, blanquistas e anarquistas acreditavam piamente que a Revolução significava tomar posse do poder ou da estrutura política, e que isto equivaleria a alterar as estruturas sociais. A ingenuidade deste tipo de proposta salva a vista. Tal a complexidade daquilo que convencionalmente chamamos sociedade, a qual começava a ser estudada por Lorenz V Stein e F Le Play. Os anarquistas, como ainda hoje, não se preocupavam com o dia seguinte a Revolução que implicava a destruição do estado, com sua cadeia de relações sociais e econômicas. Guiados por um espontaneísmo irracionalista e leviano chegaram a crer que no dia seguinte a queda do estado a terra se converteria num paraíso...

Marx e Engels, ainda jovem assimilaram este padrão de pensamento miserável. E também identificaram a tomada do poder político com a dita Revolução, sem atinar quanto aos gravíssimos problemas que viriam depois, especialmente caso o futuro da Revolução não fosse seriamente pensado, planejado ou calculado. Nutriam quase todos uma concepção mágica em torno do poder, e diante disto só poderiam atuar como a R Francesa, por meio do terror. E a revolução russa foi uma reedição dele, como o período Stalinista também o foi...

Afinal das contas a produção e circulação de bens de consumo, inclusive de gêneros de primeira necessidade, tem sempre dependido, em maior ou menos medida, do controle e da orientação do estado. Desde que a Revolução industrial criou o modelo fabril e iniciou este movimento a que chamamos urbanização houve uma separação drástica entre o campo e a cidade, de modo que a exemplo de Roma, as grande cidades ou metrópoles ocidentais já não são auto suficientes quanto a alimentação de seus habitantes. Os campônios devem produzir e os comerciantes conduzir, pelas vias de acesso, tais insumos as grandes cidades, de modo que haja suficiente oferta deles. Do contrário a fome generalizar-se-ia... e com ela as enfermidades, os conflitos...

Eis porque, torna-se inviável ou mesmo perigosa, a simples ideia de destruir o macro estado ou o poder político da noite para o dia, assim como de aterrorizar a iniciativa particular ou impedi-la de atuar, sem que haja um bom plano no sentido de manter os serviços - como as vias públicas e meios de transporte - relacionados com o abastecimento e a oferta de gêneros aos grandes centros urbanos. Do contrário, em questão de poucos dias, a falta de circulação e de gêneros alimentícios provocaria a fome e a carestia, o que significa que os pobres i é a gente humilde, que a Revolução pretende redimir, morreriam em primeiro lugar, ou melhor, após nossos animais de estimação...

Claro que face as mentalidades levianas tudo isto parece besteira. Mas não é.

Por trás do poder há algo muito mais complexo que se chama administração de serviços. E temos de imaginar ou conceber em que termos esta administração funcionaria caso o poder fosse destruído ou passasse por sensíveis alterações. Ou a mesa do pobre, do operário, do trabalhador; faltará pão... Já ouviram alguém dizer que tudo sempre pode piorar? Pois é... Por imprevidência pode...

Demos a palavra a Otto Bauer: "A revolução política tem sido obra da violência. A revolução social somente pode efetivar-se por meio de um trabalho duro e construtivo. A revolução política pode ser feita em algumas horas. A revolução social será resultado de uma ousada e reflexiva tarefa." e continua "Como já disse Marx a Revolução política pode apenas liberar os elementos da nova sociedade. No entanto construir com estes elementos a sociedade nova é tarefa que não poderá ser feita por meio de lutas nas ruas ou guerras civil. DEMANDARÁ TRABALHO CRIADOR DE LEGISLAÇÃO E ADMINISTRAÇÃO."A revolução drástica até pode ser necessária, no entanto jamais será suficiente e por não ser suficiente demandará planejamento, em torno de assuntos administrativos aos quais não poderá fugir e que tampouco poderão ser resolvidos com rifles, fuzis, metralhadoras e munições. Agora veja o senhor... Os anarquistas, em parte, não tem qualquer proposta social face ao futuro e Bakunin, sempre que era questionado neste sentido, alardeava que só lhe importava destruir, uma vez que as coisas se reorganizariam por si mesmas no futuro, i é, sairiam do nada!!! Em momento algum ele pensou nas consequências acarretadas por estas rupturas de relações habituais ou pela cessação da oferta dos serviços básicos... Das quais bem poderiam resultar a fome e uma mortandade geral.

Os Comunistas adiantaram-se um tanto e pensaram, mas como pensaram mal... Julgando poder colocar tudo, numa situação de 'ditadura do proletariado' sob a tutela da burocracia ou do estado onipotente, sem cogitar seriamente que resultaria deste inchaço... Todas as tarefas ou funções econômicas, em parte apenas, exercidas pela iniciativa privada, seriam da noite para o dia absorvidas pelo estado. E no entanto este estado é o proletariado, o proletariado o partido, o partido o comitê central, o comitê central pelo politburo e o politburo pelo secretário do partido - Cabendo a um só, a uma só cabeça, a uma só mente tudo planejar e dirigir num pais do tamanho da Rússia ou no caso dos EUA, do Brasil, do Canada, da Australia, o que já seria inviável no minúsculo Portugal. A bem da verdade milhares de cabeças pensam e agem melhor do que nunca, mesmo quando sob a égide do capitalismo. Com todos os seus defeitos, com algumas capacidades, méritos e competências administrativas ele deve contar para ser um tiquinho bem sucedido. Pois bem, sob a égide do bolchevismo, todas estas tarefas, normalmente exercidas e dirigidas por um aluvião de pessoas, passam a ser dirigidas por um ou meia dúzia, e diante disto o malogro é absolutamente certo, e as fomes, como o Holodomor que assolou a Ucrânia ou a grande fome que assolou o Cambodja sob Paul Pot... Aos maquiavélicos só restará negar os fatos e mentir, vitimizando-se e apelando ao conspiracionismo. E ele o fazem...

Fazem suas cagadas e depois sequer tem coragem suficiente para assumi-las!

Agora como se chama essa absorção total da iniciativa privada (o que diferente dos meios de produção e sua posse) e mesmo do comércio por parte do poder público? CAPITALISMO DE ESTADO!!! (Werner Sombart) O qual passa a gerenciar atividades econômicas que não são essencialmente alteradas. E salários continuam sendo pagos, pelo estado todo poderoso. E se nas condições do liberalismo crasso, como na Inglaterra anterior a 1900, não se pode negociar com o patrão, tampouco no estado bolchevique se pode negociar com o deus estado e sequer interromper a produção por meio de grevas, a qual em tais condições passa a ser encarada como uma atividade política destinada a sabotar a revolução...  Acenando com a redenção dos trabalhadores e até com mais liberdade, o bolchevismo toma o mesmo caminho que a R Francesa, chegando ao comitê de Salvação e por fim a autocracia napoleônica.

Diante da nacionalização e da burocracia a socialização fica a ver navios, pois a posse dos meios de produção passa ao estado ou ao político e não aos trabalhadores ou ao povo.

Alguns anarquistas e comunistas no entanto insistiram quanto a socialização de tais meios - discordando assim dos bolchevistas/leninistas. A bem da verdade, por questão de tática, o próprio Lênin, concederá autonomia aos soviets, iniciando e promovendo a socialização efetiva. Até consolidar sua dominação. ocasião em que os soviets foram dissolvidos e tomado o caminho da estatização burocrática.  Os teóricos e militantes acima citados acreditavam que o melhor caminho era entregar cada fábrica ou indústria a administração direta dos trabalhadores, excluindo assim qualquer ingerência por parte do macro ou micro estado, dos consumidores ou da sociedade. De modo que a produção seria determinada por eles e não coordenada por qualquer órgão comunitário de caráter externo, do que resultaria certamente uma certa confusão. Além disto, tais homens acreditavam que o consumidor seria beneficiado pela concorrência em termos de oferta e procura, da qual resultariam preços acessíveis... A posse individual os meios de produção cessaria, mas não os termos da concorrência e teríamos um socialismo de mercado ou um mercado socializado, aqui a proposta parece ser já boa, mas implica certas dificuldades.

A primeira diz respeito a demanda social e a produção. Pois de alguma forma a produção deve ser pensada em termos de demanda social, o que exige uma coordenação administrativa. É apenas um aspecto do problema, pois o outro, bem mais grave, seria a possibilidade de que cada setor ou cada fábrica, tendo em vista concorrer com os demais produzisse mais do quanto fosse absorvido pela demanda, do que resultaria uma 'crise'... Levantei apenas dois dos problemas relativos a autonomia absoluta das fábricas controladas pelos trabalhadores num contexto de livre mercado. Diante deles a solução aventada por Jaures e Bauer me parece bem mais sofisticada.

Pois eles entendem socialização dos meios de produção, da indústria ou das fábricas não como simples posse direta pelos trabalhadores e consequente partilha dos lucros auferidos, mas como posse dos meios de produção ou das fábricas pela sociedade como um todo, do que resultaria um controle misto, a co participação.

Assim, segundo o modelo de co gestão germânico, teríamos um conselho fabril de que participariam não apenas os trabalhadores, mas os técnicos da fábrica, representantes das comunidades local e nacional e representantes dos consumidores. Cada comuna ou região possuiria macros conselhos compostos por representantes de cada setor correspondente a cada fábrica, os quais poderiam ser agrupados por setor. A mesma organização, representativa, seria reproduzida na esfera nacional. Do que resultaria não apenas uma verdadeira socialização dos meios de produção mas uma democratização da atividade econômica análoga a que aconteceu no plano político. Os técnicos seriam remunerados tal e qual os operários e os representantes do P P pelo P Público. Apenas os representantes dos consumidores tomariam parte em tais conselhos por conta própria, visando seus interesses.
Claro que em termos de consumo demandaria uma participação ainda maior dos cidadãos e portanto um impulso educativo.
Uma tal solução nos permitiria fugir aos extremos do capitalismo de mercado ou de um simples socialismo de mercado embora este último modelo possa servir como meio para chegarmos ao modelo acima, numa perspectiva evolutiva, por meio do acúmulo de reformas. Mormente quanto partíssemos da Revolução - nos termos de Rosa Luxemburgo - ou da tomada do poder - nos termos de um Leon Blum - a aprovação de tais reformas não implicaria dificuldade alguma. Seria sempre algo exequível em termos administrativos caso partíssemos de Kautsky, Bernstein, Rosa ou Blum; a solução elaborada por Jaures e Bauer seria sempre viável em quaisquer situações.


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terça-feira, 17 de julho de 2018

A Igreja e o espantalho do anti abortismo I - A hipocrisia dos anti abortistas

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A véspera das eleições 2018 estamos assistindo a mais uma manipulação do discurso anti abortista pelos pseudo católicos liberais e protestantizados, ou melhor dizendo pelos neo católicos ou tridento modernistas.

Já me referi no artigo anterior ao imenso perigo que consiste nos Católicos assumirem slogans protestantes ou causas que não são suas, como a pregação ou cruzada anti comunista. O protestantismo, aliado incondicional do capitalismo, em sua imensa miséria pode, definir-se a si mesmo como uma religiosidade anti Comunista. Ele sequer possui uma doutrina social normativa.

O Catolicismo não. Não é comunista, mas tampouco seu ponto de vista pode ser definido nos termos bisonhos e simplórios de um anti Comunismo. Por mais aterrorizante que a Revolução russa ou bolchevique tenha sido. E foi. A Igreja tem uma doutrina social, que não é nem comunista nem liberal. Isto quer dizer que ela não tem parceiros ou aliados, justamente por ter uma proposta própria. E que não pode fazer o jogo do liberalismo ou do imperialismo cultural Norte americano, que em termos de ideal Católico é uma anti civilização.

Mas o protestantismo, desde Trento, esforça-se por empenhar o papismo e por manipular seus membros, já em favor do agostinianismo, já em favor do germinismo de Bismarck, já em favor do nazismo, do liberalismo... E os Católicos tontos e superficiais, como verdadeiros patos, vão se deixando enlear pela parlenga protestante. Em temos de relativismo ecumênico não podia ser diferente. Os protestantes lançam suas iscas ideológicas ou puritanas, e os Católicos vão se deixando fisgar.

Qual a principal consequência de tudo isto?

O ideal Católico e Cristão de sociedade, legado por nossa tradição antiga e medieval vai ser cada vez mais pondo de lado e o ideal protestante ou Norte americana, em torno de uma sociedade liberal economicista ou capitalista se vai afirmando entre nós. Graças aos 'senões' destas almas timoratas...

Nada diferente durante estas eleições presidenciais 2018. Em que os protestantes e sua sinistra bancada teocrática, tem buscado favorecer seus candidatos, Marina e Bolsonaro - um e outro mancomunados com o liberalismo econômico - e prejudicar o candidato rival, Ciro Gomes, do PDT, apelando ao anti abortismo, a que os Católicos são bastante sensíveis e transformando-o em argumento político. Tudo isto sai dos fornos protestantes... e o resultado é justamente o afastamento drástico de nossas tradições - sempre respeitadas pelo Dr Enéas Carneiro- em benefício do capitalismo e da cultura yanke.

Comecemos portanto a deslindar esta trama, principiando pelo tema ou pela questão do aborto.

Lembro-me de ter lido, na Didaké e em S Atenágoras de Atenas, alguma coisa contra o aborto. De fato este ponto de vista faz parte da tradição humanista Cristã desde seus primórdios mais remotos.

Os antigos tinha uma postura distinta. E não poucos recorriam a poções com o objetivo de interromper a gravidez, algo bastante comum nas antigas Grécia e Roma. Levados pelo mesmo princípio - que abortistas e não abortistas parecem ignorar - eles também admitiam repudiar e consequentemente lançar ao bueiro ou a cloaca os filhos recém nascidos. Os Cristãos daquele tempo chocavam-se face a ambas as posições e a suas expensas financiavam - embora fossem pobres - orfanatos destinados a recolher tais crianças, combatendo eficazmente o aborto e a exposição. Eles não se contentavam em assumir, hipocritamente um discurso anti abortista ou em ignorar o não menos grave problema da exposição, da miséria e da escravidão - Por meio de instituições próprias buscavam solucionar a ambos os problemas.

De nossa parte, numa sociedade pluralista e laicista, nós temos buscado analisar o aborto do ponto de vista natural ou comum e tomar como ponto de partida os ensinamentos de Aristóteles a respeito do ato e da potência, bem como a tradição Socrático humanista que costumeiramente enfatiza o caráter racional do ser humano, um ser capaz de refletir, de pensar e portanto de planejar o seu futuro. Diante disto somos levados a crer, que num contesto em que a família pode ser planejada e a gravidez evitada por meio de contraceptivos, a opção pelo aborto irrestrito torna-se no mínimo problemática.

Afinal por que interromper artificialmente um processo que pode ser evitado e que não precisaria ter sido iniciado? A possibilidade de planejar, de algum modo, exclui a necessidade de uma interferência 'a posteriori'. Não se trata aqui de discutir se o feto é ou não um ser vivo ou se sente dor, não é o foco da questão. O que se deve analisar aqui é se este processo iniciado ao consumar-se redundará ou não no surgimento de um ser vivo... A vida esta potencialmente contida neste processo, que é a gravidez, desde o princípio. Então, se não desejamos que haja gravidez ou vida POR QUE NÃO PLANEJA-LA RACIONALMENTE ATUANDO DESDE O PRINCÍPIO OU NÕ PRINCÍPIO OU seja adotando métodos contraceptivos sejam eles quais forem? Por que não evitar ao invés de interferir 'a posteriori'?

Num tempo em que a oferta de preservativos é feita pelo poder público, o qual oferta da mesma maneira o planejamento familiar e contraceptivos, chega a ser clamoroso absurdo pleitear a aprovação indiscriminada do aborto, especialmente tendo em vista a clientela economicamente mediana e medianamente instruída - Isto sem falarmos nos abastados... E quando se cogita, tendo em vista relativo controle, que tais procedimentos sejam executados em instituições públicas com o dinheiro público. Como contribuinte tenho direito de recusar-me a custear o aborto de uma madame fútil, manipulada por um esposo fútil ou cruel, que bem poderia ter laqueado suas trompas ou exigido que o macho fizesse vasectomia! Afinal de contas é comum em todas as classes e condições que o 'macho alfa', após ter exigido transar sem camisinha, pressione a mulher para abortar... Refiro-me a tais problemas situados nas classes média e superior. E não quero pagar por tal ônus!

Quanto a possibilidade de tais serviços, destinados a atender esse tipo de clientela - bem posicionado - serem assumidos pelo setor privado, teríamos de pensar no controle. Pois teríamos aqui um sistema de abortização movido a dinheiro e sabe-se lá que abusos monstruosos resultariam disto em nosso paraíso tupiniquim... em que tráfico de órgãos e assassinato de pacientes é algo corrente. Em Hospitais públicos inclusive.

Mas estas pessoas, alegará alguém - e não sem razão - já realizam abortos no exterior ou abortos clandestinos aqui mesmo no Brasil. Aqui temos que ser bem claros. Quanto a essas mulheres ou casais de situação confortável - que optam livremente por assassinar seus futuros filhos e filhos que bem poderiam ser evitado - que continuem a gastar seu dinheiro no exterior, abortando por lá. O problema é a existência dessas clínicas ilegais, que auferem milhões e milhões aqui mesmo, sem que seus proprietários sejam punidos no rigor da lei. Antes de punir os que abortam deveriam ser punidos aqueles que tornam o aborto factível e dele fazem uma fonte de lucro. Mas no Brasil... Toda situação em torno do aborto feito por ou para pessoas bem situadas é problemática e eu julgo que tais pessoas, a começar pelo macho ou pelo pai, deveríam ser rigorosamente penalizadas. Deveríamos começar punindo com máximo rigor o homem, posto que vivemos numa cultura ainda machista.

Agora temos um problema não menos sério que é o das mulheres pobres e sem instrução inseridas uma cultura ainda mais machista, aquelas que por condição natural ignoram que seja planejamento familiar ou contracepção. E que tampouco deixam de ser influenciadas pelo macho ou, muito frequentemente, abandonadas pelo 'garanhão', tendo de assumir sozinhas o encargo de sustentar a prole, resultando disto situações de miséria e indignada que não podem ser desconsideradas, especialmente pelos que ousam apresentar-se como Católicos. Claro que as condições desta mulher pobre e quase sempre parda e semi analfabeta de periferia é totalmente distinta da madame fútil que encara o feto como um parasita ou como um pedaço de seu corpo! Como imaginar esta pobre mulher, vivendo como uma freira ou, procriando, sucessivamente sete ou doze filhos para que passem a viver sob condições desumanas???

Sem que o papa, o cardeal, o arcebispo ou mesmo o padre X ajudem-na a sustentar e criar dignamente esta imensa prole. Acaso o Marmelo Rossi ou o Pulha Ricardo estão dispostos a compartilhar do ônus que implica a criação de tantos filhos??? Quantos orfanados ou abrigos mantém eles??? Vão levar estas pobres crianças para a casa paroquial, adotar e cuidar??? Então veja só que diferença entre esta pregação teórica, que beira o fideísmo, e a atitude dos primeiros Cristãos, que mesmo sendo pobres assumiam o encargo de alimentar, vestir e manter os pequeninos???

Caso contrário denunciar, como criminosa e assassina a esta mãe pobre de periferia, que não recebe apoio algum, não passa de sórdida hipocrisia! Claro que a situação material, concreta e real desta mulher, deve ser considerada. Por que não localizam o macho que a abandonou? Por que não obrigam este celerado a pagar uma boa pensão? Por que não colocam este desalmado atrás das grades? Por que não punem este egoísta??? Porque se evade! Porque foge! Porque não há quem o encontre ou vá buscar! Porque é bêbado, drogado ou marginal! Porque não tem fonte de renda donde se lhe arreste uma pensão!!! Porque socialmente este homem ou marginal inexiste! E fica a mulher obrigada a manter-se sozinha, abandonada e com um cordão inteiro de filhos... Querem condenar o aborto em tais condições??? Assumam a responsabilidade social ou comunitária de vocês. Mas vocês murmuram contra a esmola do Bolsa família, e declaram - Quem pariu Mateus que balance! Que belos inimigos do aborto vocês são!!! Por que uma coisa é absolutamente certa: Se o macho pode omitir-se e permanecer impune, ou a Igreja ou o Estado i é a Sociedade, terão de auxiliar esta mulher... Do contrário, caso ela venha a abortar, calem a boca! Vocês são os infanticidas, não ela.

A situação da mulher em desespero é uma situação específica que os bons Cristãos não podem ignorar. Como criminalizar uma mulher destas em sã consciência? A qual já foi punida por si mesmo ao desfazer-se de um filho! Via de regra a mulher do povo tem sensibilidade e por isso fica, não poucas vezes, traumatizada, após abortar. Enquanto a mulher rica ou de classe média, cede as exigências do macho sem maiores consequências. Uma, amiúde, acalenta remorsos e culpa. A outra muito raramente. Portanto como pensar em punir esta vítima do machismo e do egoísmo humano. O mínimo que podemos dizer aqui é que a mulher que aborta, dependendo de seu contesto, não devería ser criminalizada. Assim a mulher pobre e sem instrução, a mulher do sertão, da rua ou da periferia. Esta mulher deveria sim ter sido acolhida e ajudada. Caso não o tenha sido, o mínimo que se espera é que não seja molestada pela hipocrisia alheia em busca de 'punições'.

Se vocês, paladinos do anti abortismo, querem de fato evitar que o aborto seja amplamente descriminalizado no Brasil - E nosso país só conhece soluções extremistas ou radicais: Proíbe tudo ou libera geral - comecem assumindo sua culpabilidade social e ajudando tais mulheres. Comecem a fundar orfanatos e abrigos tendo em vista a criação de tais pessoas numa atmosfera de carinho e dignidade. Sentem o coração doer face a tantos infanticídios? Pois bem adotem??? Quantos de vocês estão dispostos a adotar tais criaturas ou no mínimo a apadrinha-las??? Cadê as obras de vocês??? Quanto aos protestantes, ao menos são honestos quando declaram que não precisam fazer boas obras e que sem elas se salvam. Agora e vocês anti abortistas Católicos, cadê suas obras???

Me desculpem pera rude franqueza, mas se não fazem absolutamente nada ao invés de berrar: Aborto não... Vocês deveriam é engolir e digerir o anti abortismo de vocês. Porque cheira a hipocrisia. Vocês tem um problema que é em parte social, produto da ignorância e da miséria e nada fazem além de exigir que mulheres solteiras perambulem pelas ruas rodeadas por seus filhos esqueléticos! É este o espetáculo de uma sociedade Católica??? Um exército formado por uma multidão de miseráveis e famintos??? Sementeira de ravachóis e Casieros!!! Mas o Pe Pulha Ricardo... Mas o Pe Pulha Ricardo não passa de um fariseu hipócrita que coloca sobre os ombros alheios imensos fardos que nem mesmo com a ponta do dedo mindinho ousa empurrar!!! Pelo simples fato de não ter adotado alguns deses pobrezinhos ou de manter um abrigo destinado a acolhe-los! Ele só sabe pregar ou seja falar... Quanto a fazer...

Claro que alguns Católicos denodados e heroicos do passado, e una pouquíssimos hoje, tenham feito e busquem fazer alguma coisa. Merecem ser ovacionados e aplaudidos de pé. No entanto, parece que a imensa maioria dos que compõem esta multidão de abortistas tenha tombado no comodismo, no egoísmo e na insensibilidade. Limitando-se a apontar, a julgar e a condenar aqueles aos quais deveriam ajudar. Estão envenenados pela mesma ideologia neo liberal, burguesa e egoísta que alimenta os abortistas das classes superiores.

Continua


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A indecisão da Igreja face ao Nazismo e a pregação anti comunista

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QUEM COMEÇOU A FAZER ISTO E AINDA FAZ PELO BRASIL AFORA É O PROTESTANTISMO!!!





Algumas pessoas, decerto, acusam-nos de ser coniventes ou mansos face a igreja romana. Jamais o fomos, e quem nos conhece pessoalmente sabe muito bem disto. Não somos romanos ou papistas - Como Georges Sorel, A Comte, Ch Maurras e outros tantos, não temos temos fé na igreja romana ou papólica e tampouco morremos de amor - de modo geral - pelo papado ou pelo alto clero desta igreja. Censuramos a igreja romana por - Durante o concílio de Trento - ter acalentado o veneno agostiniano, nos opomos a assimilação da crítica puritana iniciada pela falsa reforma, abominamos os 'affaires' políticos do Vaticano ou o poder temporal dos papas, criticamos a judaização ou adesão aos mitos e fábulas do antigo testamento, reprochamos as reformas litúrgicas do Vaticano II e acima de tudo vemos com maus olhos a solução ecumênica, de que resulta a protestantização e a queda dos ideais desta comunhão, ora miserável ou desprezível.

Os neo Católicos que nos perdoem, não desejamos ofende-los. Mas temos de dizer sempre a verdade, quer agrade ou desagrade; não importa.

Então que significam nossos sucessivos e repetidos elogios a igreja romana ou ao Catolicismo de modo geral, ou ainda ao Cristianismo Católico que tanto desconsertam nossos amigos ateus e materialistas, agnósticos e deístas que conhecem nossos trabalhos e admiram nossa atividade???

Antes de tudo devo dizer que tais elogios tem uma conotação História, estão dirigidos ou voltados ao passado, ao Catolicismo antigo, anterior ao Vaticano II ou mesmo ao Vaticano I, ainda a Trento. Nosso Catolicismo é o Catolicismo anterior a 1570, o Catolicismo 'imoral' ou moralmente liberal da Idade Média, ou o Catolicismo resistente, da contra reforma irredutível, da Liga Francesa...

Admiramos diversos elementos que o Catolicismo originalmente possuía, alguns dos quais foram conservados e mantidos até o Vaticano II. Assim a doutrina social da Igreja. Assim o esplendor litúrgico. Assim o espírito franciscano. Assim a resistência sócio/cultural ao Islã. Assim o sentido de totalidade ou de lei Cristã, etc, etc, etc Como admiramos o que há de espírito Católico nos neo Católicos em especial na gente simples, e que leva-a a resistir a contaminação protestante em nome da tradição ancestral. Admiro certos elementos estéticos presentes no tradicionalismo, assim a luta pela Missa antiga, eu a aplaudo... Como admiro certos elementos presentes na Teologia da libertação, como o sentido da justiça... Lamento que todos estes elementos se tenham desagregado e se convertido em posse de correntes e seitas extremistas após o Vaticano II, como deploro e lamento essa infiltração protestante, pentecostal e fundamentalista, chamada RCC, a qual me levou a ruptura com a igreja romana...

Eu sou simpático a cultura Católica, no Ocidente identificada com o papismo e com o alto anglicanismo, por encara-la como uma espécie de continuidade, em termos de cultura clássica ou greco romana. Em termos de espírito socrático/humanista. Em termos de ética platônica. Em termos de epistemologia Aristotélica... Admiro a igreja romana por ter promovido a teologia escolástica, da qual resultou o Renascimento filosófico. Admiro a igreja romana por ter, de modo geral, sustentado a causa da razão face aos delírios do agostinianismo. Tenho motivos de sobra para admirar a velha e decadente igreja romana pelo que realizou no passado.

Quando comparo as colonizações Norte e Latino Americana, e constato, com Toynbee, o que aconteceu com nossos índios - devido aos esforços de Francisco Vitória e do Colóquio de Valadollid - e o que aconteceu com os peles vermelhas (Onde estão os peles vermelhas???). Quando comparo o rigor da escravidão Norte americana e calvinista, com a escrvidão de cá, promovida pelos países latinos e Católicos. Não posso deixar de sentir certa simpatia pela igreja romana, a qual mesmo quando comete seus erros e crimes é bem mais amena do que a igreja rival. Há sem dúvida um conteúdo de humanidade ou humanismo nos filhos da igreja romana, sempre que, com justiça, compara-mo-los com os filhos da reforma protestante, e quase sempre é esta minha perspectiva, pelo simples fato de ter nascido protestante e de ser um ex protestante.

Por onde se ve que não aprendi 'mentiras com os padres' e que tampouco fui 'envenenado pelos torpes jesuítas'. De modo algum. Nasci calvinista, inserido numa tradição que até hoje respira ódio a igreja 'paganizada' de Roma, aspirando destrui-la. E lá estaria até hoje caso não principiasse a questionar as críticas hipócritas que os pastores dirigiam a igreja mais velha. Pois como vim a saber - após aprender espanhol, italiano, francês e inglês - também o protestantismo teve sua inquisição - a qual matou muita, mas muita gente - seus autos de fé, como o de Salém; suas explosões de violência face aos descobrimentos científicos, etc Bem eu tive de ler diversos autores antigos e recentes - muitos dos quais eram judeus, ateus, materialistas, ex protestantes, etc - para descobrir tudo isto e persuadir-me de que com todos os seus vícios e defeitos a igreja romana havia sido muito menos nefasta que sua jovem cria, a reforma protestante.

E quanto mais tenho estudado mais tenho corroborado o que por mim mesmo, com ingente esforço, descobri.

Basta dizer que a igreja romana foi muito mais heroica e resistente face a culturas de morte como o liberalismo econômico ou capitalismo, o anarco individualismo e o nazismo. O protestantismo, enquanto sistema individualista que é, colaborou com o capitalismo desde o princípio, impulsionando, inclusive o acúmulo primitivo de capital. Afinal as riquezas tomadas a igreja antiga, jamais foram repartidas com o 'Bom povo' tornando-se posse dos governantes, nobres, bem nascidos e ricaços!!! Que fez a bela reforma, tendo em vista conquistar apoio político contra o Vaticano? Entregou os bens da igreja antiga - inclusive os que serviam para aliviar a miséria dos campônios mais humildes - aos poderosos... Como se chama isto??? Compra! Oportunista até nisto a reforma protestante nasceu comprando apoio aos ricos e poderosos... E por isso Lutero, que havia apregoado reformas apenas quanto a fé, é o primeiro a reprimir, em nome de seu deus, a aspiração dos camponeses por uma reforma mais cristã e mais concreta. E como a autoridade é dada por deus, os camponeses oprimidos pelos senhores convertem-se em demônios e diabos, são postos a caça e perecem em número de 25.000. Lutero assume a culpa por todas estas mortes, e solifideista que era, clama pelo sangue de Cristo, declarando-se puro, remido e lavado no dia seguinte...

A direção ou movimento futuro, nos domínios de um calvinismo cada vez mais sabotado pela incredulidade, é descrita por Weber como uma paulatina substituição das preocupações religiosas ou teológicas por preocupações financeiras. Além disso a redução da dimensão da vida religiosa pelo protestantismo só podia resultar na absorção, de parte desta vida, por objetivos ou atividades econômicas. E todo aquele capital acumulado ao invés de ser investido em boas obras, destinadas a promover a criatura viva, é investido em técnicas e depois em capitais ociosos... A marmelada esta pronta e o protestantismo foi o mestre cuca.

Quanto a colaboração com o Nazismo, recomendo ao leitor a leitura dos artigos precedentes.

A igreja romana - Se foi substituída por uma outra, mais 'aberta' ou colaboracionista - é porque foi mais heroica e resistente... Se foi mais combatida pelo nazismo... Se foi mais odiada pelos anarco individualistas... O protestantismo é no mínimo frágil face as culturas de morte que assolam nossa civilização, muitas das quais tiveram nele seu ponto de partida. Há afinidades eletivas aqui...

E no entanto, eis o puxão de orelha, reconhecemos que a igreja romana não resistiu ao máximo ou não resistiu o quanto deveria face a abominação nazista. E por que??? Temos de saber o pôrque!!!

Que foi que iludiu a igreja e impediu-a de cumprir seu papel sufocando o Hitlerismo no berço como enfrentara Bismarck em 1874???

Aqui a História se faz interessante como a trama de um pano ou de um tecido.

Por questões que não nos vem ao caso, em 1870, Bismarck estabeleceu, na recém unificada Alemanha, o sufrágio universal. Bismarck era uma raposa e tinha planos que não nos vem ao caso. Para tanto devia eliminar um adversário poderoso e secular. Refiro-me a igreja romana, chefiada pelo autocrático Pio IX. Contava esta comunhão, pelos idos de 1875, com cerca de 28% de fiéis na Alemanha e no Sul, na Bavária e nas margens do Reno, o percentual de papistas chegava a 60 ou mesmo a 85%. Sim, aquilo era um problema, pois os papistas, como sempre, viviam fazendo restrições de consciência a propósito de cada coisa - Havia dentre eles quem condenasse o aborto, o divórcio, a pena capital, a maçonaria, a agressão a outras nações (odinismo), etc, etc, etc Bismarck queria um povo obediente ou adestrado, como os camponeses protestantes, resultado de um dos sistemas feudais mais opressivos. Aqueles luteranos é que eram disciplinados e mesmo quando passavam ao ambiente urbano convertiam-se em operários disciplinados e dóceis soldados. Os malditos Católicos, como os antigos socráticos e filósofos eram dados da festejos, bebiam, dançavam e não apreciavam obedecer, ao menos tanto quanto os 'verdadeiros alemães', orgulhosos quando a sua própria servidão face a um estado quase divino (Hegel).

É 1874 e o chanceler de aço esta decidido a quebrar a espinha dos ultramontanos ou Católicos. Para ele, Bismarck, com suas escolas, jornais, cooperativas, etc os papistas formavam um estado dentro do estado e eram animados por outro espírito ou outra cultura (Bons tempos aqueles?). É necessário lutar por esta cultura alemã e protestante, construída em termos de obediência mecânica ou cega, militarismo, odinismo e expansionismo. Mais além esta a Áustria, uma nação de lingua e sangue alemães, que permanece atrelada ao papado e precisa ser 'libertada'... Por enquanto a Baviera católica servira de laboratório a Kulturkampf ou luta pela cultura. Destarte o Bundstag emite uma séria de medidas restritivas destinadas a humilhar e abater os Católicos. Mas ali esta de atalaia um pastor exemplar - Von Keteller, quiçá o mais ilustre Bispo alemão do século XIX. Von Keteller havia presidido o sínodo de Magúncia em 1848 e posto a questão trabalhista ou operária em termos de Justiça, criando um marco nos domínios do Catolicismo. Opos-se ainda a canonização da doutrina da Infalibilidade papal em 1870. Foi procurado pelo grande F Lassalle, pouco antes deste ter sido assassinado...

Von Keteller dirigiu a resistência dos Católicos alemães a ponto do velho chanceler luterano não conseguir dobra-lo como esperava. Os dias iam se passando e os Católicos ameaçavam não pagar os impostos... enquanto sua bancada mobilizava-se no Parlamento. Bismarck havia jurado não ir a Canossa sob qualquer pretexto i é não negociar com os súditos Católicos... Entrementes realiza-se a eleição de 1875, e no auge da crise os socialistas não só formam partido como elegem Bebel e enviam-no ao Parlamento. Mau prenúncio, Bismarck volta sua atenção ao novo partido, e como não pode suster duas frentes de luta, vai a Canossa ou seja, suspende as leis anti Católicas e pede perdão. Fora sua única derrota. E ele havia vencido austríacos e franceses!

Bismarck era, como dissemos, uma raposa; e como tal tinha vistas largas. Sabia o que esperar do 'maldito' partido operário e precisava revidar de algum modo, atalhando-o. É 1878, Bismarck convoca o Bunstag a votar diversas leis contra a social democracia, restringindo sua liberdade de ação. Precisa do apoio da bancada Católica e parte dela, esquecida do que acontecera alguns anos antes, colabora... E abraça o discurso anti comunista elaborado por um luterano obstinado, que até 1875, fora perseguidor da igreja! E o erro começou aqui!

Escusado dizer que cerca de 1890 as leis bismarckianas foram suspensas, podendo a social democracia alemã organizar-se e reorganizar-se livremente, o que corresponderá a uma fase de incessante expansão até a Guerra de 1914. Quando o socialismo germânico, por ter, majoritariamente, aderido ao odinismo e aderido a guerra, caíra em descrédito. Outro nuance histórico interessantíssimo - Embrulhados, os líderes alemaẽs forjam uma estratégia definitivamente absurda: Enviam o líder comunista radical, W Lênin, - num trem - a Rússia, com o objetivo de assumir a direção insurrecionista, e quiçá assumir o controle daquele pais. O objetivo era simples. Eles sabiam que Lênin, como grande parte dos comunistas era contrário a guerra e que, chegando ao poder, desmobilizaria as tropas Russas, aliviando significativamente a situação da Alemanha. E foi o sucessor deste Lênin, saído da estação Finlândia com o apoio dos Alemães, que esmagou o Fuherer Alemão em 1945!!! Assumindo o controle de parte do território alemão por quase meio século. Vejam pois como a História gira!

Por outro lado não é menos verdade que após o apoio a guerra e o assassinato de Rosa Luxemburgo e Liebknecht a demagógica Social democracia alemã entre em crise, cedendo espaço ao extremismo leninista ou comunista. Desde então é o Comunismo que principia a crescer rivalizando com uma nova ideologia tanto mais alemã, o Nazismo. Comunismo e nazismo são rivais, mas na Alemanha luterana o Nazismo leva franca vantagem, apenas nas regiões Católicas o Comunismo empata com o Nazismo quando não o supera. Assim para os Bispos Católicos da Alemanha o supremo adversário não é o nazismo, sempre incipiente, ao menos no princípio, mas o temível bolchevismo. E o clero se borra de medo pensando já em 1875 - na Kulturkampf - já na ação dos comunistas na Rússia, a qual faria a velha kulturkampf parecer doce.

Há no entanto uma nova raposa no galinheiro. É Adolph Hitler, um austríaco, de origem Católica, que como tantos nazistas e comunistas havia perdido a fé durante a juventude. Esse Hitler conhece muito bem o imaginário Católico construído desde 1917, sabe que o bolchevique ou comunista é uma espécie de bicho papão e que a atual URSS correspondia ao Reino apocalíptico de Magog... E precisa de um espantalho. Homem sagaz ele restringe parte de seu discurso oficial e dedica parte dele a atacar o 'Comunismo' além de, como Bismarck, editar leis restritivas destinadas a conter os comunistas. Parte do clero alemão, mais uma vez, deixa-se seduzir pelo canto da sereia, e abençoa o autor de 'Mein Kampf' aquela bíblia da insanidade e evangelho maligno... Hitler se esforça um tiquinho mais - deve conseguir uma concordata para assim poder induzir os filhos da igreja ao erro - e acena com uma ataque a Moscou, invadirá a Rússia e vencerá Stalin. Assim em 1933, os Católicos, com uma candura ilimitada, assinam o pacto com o 'anti Cristo'.

Feito isto Hitler destrava a lingua e dá a seus discursos o tom anti semita, violento e insano que tanto conhecemos. De imediato os Católicos mais esclarecidos principiam, por instinto, a debandada, depois o baixo clero e enfim até mesmo parte do alto clero. Mas ele não quebra a flauta, e conhecendo muito bem a debilidade dos maus Católicos, vai intercalando seus discursos anti semitas e odinistas, e mesmo neo pagãos com o mantra anti comunista. A Rússia será invadida, farei uma cruzada contra Stalin... O que - pasme - lhe assegura o apoio de uma minoria 'Católica' até o fim!!! Embora desde 1937 o Papa Pio XI tenha publicado uma encíclica contra ele e o nazismo. O que eu quero salientar aqui é que este discurso anti comunista, destinado a seduzir os Católicos, já havia sido editado pelo Bismarck 'derrotado' em 1877/78, por essa raposa luterana que em seu coração odiava a Igreja...

Agora veja, amigo leitor, que lástima - Esse mesmo discurso é empregado com relativo sucesso pelo apóstata e neo pagão Hitler meio século depois. Havendo quem caísse no alçapão...

Temos algo de diferente em nossos dias quando pastores enviados pelos EUA forjam o mesmíssimo discurso no Brasil - visando não comunistas ou bolchevistas mas, pasme, os próprios Católicos sociais, os progressistas, os sociais democratas, os trabalhistas, etc até certo ponto mais próximos de nossa tradição e da doutrina social da igreja do que os liberais???

Que sinceridade devem esperar os Católicos ao darem com esse velho discurso, cheio de lábia, na boca de liberais ou melhor de protestantes liberais???

Quando esses mesmos protestantes, com o apoio dos liberais vendidos, criam uma bancada religiosa em nosso Parlamento com o objetivo de solapar as instituições democráticas e de instaurar uma teocracia nos moldes do antigo testamento???

Acaso os neo católicos tontos, seduzidos pela cantilena ecumênica, esperam ser poupados quando são chamados pelos pastores de politeístas e idólatras???

Leiam na Torá de Moisés, que os protestantes tanto estimam, qual deve ser o fim dos politeístas e idólatras.

Como ex protestantes temos razões de sobra para temer é uma nova Kulturkampf luterana ou protestante, desta vez nos moldes do antigo testamento, destinada a oprimir não só os Católicos mas os umbandistas, espíritas, budistas, hindus, irreligiosos, e especialmente é claro, os 'fantasmagóricos' bolchevistas...

Portanto, nas eleições que se aproximam, tomemos por critério não a qualquer postulado moral nos termos dos puritanos, mas nossa fé e sobretudo nossa Ética, a tradição e a doutrina social da igreja, votando em candidatos que se proponham a respeitar os direitos do trabalhador brasileiro e a pugnar pela qualidade de vida, mesmo que não tenham fé ou religião. Melhor votar em cidadãos irreligiosos que se postem em favor do semelhante do que em fanáticos obscurantistas que sonham com o poder. Não de seu voto a fanático algum, a fundamentalista algum, especialmente se for pastor e não vote em candidatos protestantes!!! Busque candidatos Católicos coerentes - que não sejam liberais economicistas ou capitalistas (Jamais vote DEM, PSC, PSDB ou PMDB porque os programas destes partidos então em oposição a Doutrina Social da Igreja Católica. Leiam em Rerum Novarum sobre a necessidade da intervenção social nos domínios da economia e sobre a condenação dos princípios liberais) - ou candidatos que mesmo sendo irreligiosos estejam preocupados com as condições materiais da sociedade, porque esta é a finalidade da política e não outra qualquer.

A moral é algo que se vivencia em casa e não algo que se impõem aos outros.

Reflitam sobre tudo isto para que não venham a ser agentes ou 'imbecis' uteis da propaganda protestante (americanizante).

PERMANEÇAMOS FIÉIS A NOSSA CULTURA!

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O SUPREMO PECADO DO ECUMENISMO!
OLHA SÓ QUEM ESTÁ POR TRÁS DE TUDO MANIPULANDO OS CATÓLICOS TONTOS!!!




A perspectiva de Kropotkin


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Muito se poderia dizer a respeito do príncipe anarquista e igualmente príncipe dos anarquistas, P Kropotkin. Limitar-nos-e-mos a fazer algumas observações a seu respeito e partilhar com o amigo leitor.

A respeito de sua primazia intelectual face a Bakunin temos os testemunhos de Nisbet e Lefranc dentre outros. Bakunin comparado com Proudhon é um pigmeu. Kropotkin transcende a Proudhon, é um homem completo e de esmerada educação. Por isso busca apresentar o anarquismo como uma aspiração racional e dar-lhe bases filosóficas, isto num tempo em que o irracionalismo começava a esboçar suas pretensões...

Kropotkin, mesmo durante sua fase juvenil, não dá mostras de qualquer tara revolucionária, como aquela que Bakunin tomara ao energúmeno Nechayev. Pouco fala em Revolução mas quando fala reporta ao conceito 'lato' de Proudhon, reportando a qualquer tipo de ruptura cultural. Ele certamente não teria maiores escrúpulos - assim como o velho Engels - em, diante de certas circunstâncias, apoiar uma resistência violenta, mas não parece ser tão precipitado como Sorel e menos ainda um entusiasta como Lênin. Sua postura parece ser prudente e comedida. Como Otto Bauer ele bem sabia que tomar o poder não é tudo...

Provavelmente, ao contrário de nossos anarquistas, ele havia pensando sobre o que fazer no dia seguinte após a Revolução ou a suposta destruição do macro estado com sua rede de serviços paralisada. Do que resultam inúmeros problemas administrativos, que poderiam traduzir-se em palavras tão simples quanto fome e mortes...

Este tema, quase ausente nos escritos de Kropotkin é uma espécie de prelúdio a ênfase cada vez mais ética ou moralista - cujos acentos remontam a outro príncipe anarquista L Tolstoi - de seus escritos, que as vésperas de sua morte assumem um incomodativo tom 'evangélico' (por evangélico aqui não queremos dizer protestante mas algo concretamente comprometido com o Evangelho de Cristo, assim como Franciscano).

Esclerose ou caduquice? Como folgam dizer os radicais e ateus???

A resposta pode ser mais complexa do que se pensa caso levemos em consideração que a principal obra de Kropotkin, após o 'Apoio mútuo' é dedicada a Ética, a uma Ética de cunho naturalista, mas tão essencialista ou objetiva quanto a do velho Sócrates. Pois enquanto Bakunin declara-se por Maquiavel - É necessário tomar por fundamento a política de Maquiavel diz ele - e com ele Lênin, Trotsky, etc Ele, Kropotkin como Sorel, Jaures e Rosa Luxemburgo, declaram-se pela ética da honestidade e da franqueza, recusando-se a assumir o legado anti ético da burguesia.
 

Assim quando os leninistas principiam a torturar prisioneiros e a executar civis, o velhote indefeso envia a Lênin uma missiva em que constam as seguintes palavras: "Se admite tais métodos, não é difícil concluir que um dia haverá de empregar a tortura como na Idade Média. ... tu não tens direito de poluir estas doutrinas com teus métodos vergonhosos, métodos que apenas evidenciam um monstruoso erro... Que futuro espera o comunismo se um de seus mais poderosos defensores pisoteia assim os mais piedosos sentimentos?" Já M Gorki, que segundo Tasso da Silveira, fora o principal propagador dos ideais revolucionários entre o povo simples, quiçá exprimindo os sentimentos 'Cristãos' oriundos de sua educação Ortodoxa ousará reprochar ao tirano sua insensibilidade desumana a ponto de exaspera-lo.

Bem antes dele Plekanov havia declarado ser Lênin "Feito da mesma massa que Robespierre." embora o francês nada tivesse de Maquiavélico. Martov a seu tempo, referindo-se a Lênin, é ainda mais incisivo: "La bestia a tomado gusto por la sangre.".É necessário... em caso de necessidade recorrer a todos os estratagemas imagináveis sugeridos pela astúcia, adotar procedimentos ilegais, calar, falar, dissimular a verdade... diz ele a respeito da política sindical. Ao que Rosa, a heroína e mártir, rebate lá das Alemanhas: Não se há de recorrer a astúcia alguma com o objetivo de enganar o povo! Os cidadãos deverão compreender bem a complexidade das tarefas a serem realizadas. Aqui a consciência contra o embuste e o principal representante desta corrente, o mais honesto e o mais respeitado, em todos os grupos e mesmo por seus inimigos, foi Piotr Kropotkin.

Aqui temos a proposta de um Socialismo ético e humanista para uns, ingênuo e vulnerável, para outros, que como Trotsky adotavam uma postura relativista sempre atrelada as posições maquiavélicas que até hoje alguns aplaudem como autêntica - Como se não houvesse no socialismo ou mesmo fora dele quem não assumisse sinceramente tais postulados, encarando-os como essenciais e transcendentes.

A bem da verdade, ao menos no campo dos comunistas, as hesitações partiram do próprio Marx, ainda durante a juventude. Pelo simples fato de ter aderido a uma solução materialista mecanicista segundo a qual a consciência e seus valores não passavam de uma manifestação das relações econômicas de produção. Não é a consciência que determina a existência, mas as condições materiais da existência que determinam a consciência dirá o grande economista alemão sem jamais dar-se conta da tensão existente, não poucas vezes, entre as exigências da consciência e as imposições externas de caráter econômico. E no entanto este Marx que tanto insistiu sobre a dependência da idealidade face a produção econômica, esse mesmo Marx genial, morre - segundo seus biógrafos - esmagado pela angústia após a perda da esposa. Noutras palavras, morre o grande teórico do materialismo de nostalgia ou depressão. Restando a seus discípulos fanáticos a tarefa de relacionar tais sentimentos dolorosos com a produção econômica!

Seja como for a relutância com que Marx e Engels inserem algumas poucas palavras alusivas a ética ou moral na grande crítica ao programa de Gotha bastam para demonstrar o quanto estavam equivocados neste sentido. Ainda aqui parecem encarar toda e qualquer expressão em termos de ética como epifenômeno das relações econômicas ou materiais de produção. E como as relações de produção se alteram no correr do processo histórico ou seja como a infra estrutura sofre modificações, assim a super estrutura, dando origem a uma nova ética, a novos princípios e valores, distintos dos anteriores ou mesmo opostos a eles. O que nos leva a sucessivas éticas, que conflitam umas com as outras. E temos aqui o relativismo crasso... Perde-se toda e qualquer noção de essencial ou absoluto e chegamos a Maquiavel, guia de Bakunin, Lênin e Trotsky. Aqui os fins não precisam esta de acordo com a nobreza dos meios, os fins justificam os meios, isto é a baixeza e vulgaridade dos meios.

Kropotkin, ainda que agnóstico ou deísta, não se conforta com esta solução relativista, fonte de tantos crimes, maldades, vícios e crueldades, pugnando por um essencialismo naturalista, que parta da Evolução biológica dos seres vivos. Tal o escopo desta obra genial que é sua Ética, toda destinada a combater a Ética naturalista e essencialista rival, elaborada por H Spencer e 'batizada' algumas décadas depois com o nome de 'darwinismo social'.

Foi genial em seu comedimento face aos arrebatamentos insurrecionistas, tal e  qual Rosa Luxemburgo - que como ele tampouco era pacifista ou mesmo reformista. Foi fiel a um padrão de ética essencial fundamentado na própria natureza biológica. E além disso - pasmem - como J S Mill ousou postar-se a favor de uma econômica estacionária i é cônscia de suas limitações. De fato P Kropoktin busca uma alternativa tendo em vista conciliar a expansão do modelo urbano com subsistência do ambiente rural ou campestre que desde a Revolução Industrial muitos deduziram estar definitivamente condenando a desaparecer. Como Proudhon, Tolstoi, Anwar Sadat e outros grandes homens procedentes do campo ou do meio rural, Kropotkin trás este amor pela terra, este sentimento de filiação, esta nostalgia... que o homem da cidade, submetido a tirania da técnica, e maquinizado ele mesmo, não pode compreender. E nós vivenciamos as consequências psicológicas e pessoais deste homem que jamais acariciou uma pétala de rosa, que jamais deitou-se ao sol sobre a relva, que jamais nadou num riacho, subiu numa árvore para colher frutas ou brincou com as ovelhas - VIVENCIAMOS O DRAMA DA NEUROSE...

E qual a causa???

Essa ruptura artificial imposta pela revolução industrial em nome da produção econômica. A qual tem separado o homem do meio natural e encerrado este homem numa colmeia de aço e concreto, transformando-o num zumbi!

Em Kropotkin não damos com as altas reflexões de Liebmann, Hinkelammert. Munford e outros mas com a intuição do problema e uma sincera vontade de dar com soluções práticas em termod de realidade. Temos portanto de compreender que Kropotkin não é um destes espíritos tacanhos e idealistas que pretendem barrar o progresso técnico ou a mecanização do trabalho a qual ele saber ser irredutível e crê, poder vir a ser benéfica, desde que administrada com sabedoria.

O grande erro da Revolução industrial foi - por considerações de ordem puramente econômica - situar a fábrica fora do campo ou do meio rural, fazendo dela um lugar ou ambiente fechado, em torno do qual, a semelhança dos burgos medievais - que cresceram em torno das grandes catedrais - desenvolveram-se as cidades atuais. Claro que algumas indústrias pesadas, como a siderúrgica e a construção naval, deverão ser necessariamente assim. Mas por que as demais indústrias, como a têxtil, a alimentícia, etc deveriam imita-las??? Sem levar em conta as decorrências psicológicas e sociais desde novo tipo de organização, no caso urbana??? Aqui a solução proposta pelo teórico eslavo é perfeitamente simples e exequível, desde que os interesses puramente econômicos não fossem postos em primeiro lugar.

Instalar as máquinas nos campos ou nas zonas rurais, nas vilas, aldeias e quadras. Onde parte de população trabalharia nelas enquanto parte trabalharia nos campos, ao menos durante a semeadura e a colheita. Claro que os interesses de ambas a produções, em termos de pessoal e tempo ou calendário deveriam ser reorganizados, em termos administrativos. O que nada tem de impossível. O benefício aqui seria a permanência de parte das pessoas nos campos, em seu ambiente natural, sem que por isso a produção fabril fosse abandonada. O que nos faz lembrar o velho sistema de manufaturas distribuídas. Mas é claro que a princípio, o ideal da fábrica/panóptico, com sua fiscalização, ritmo acelerado e produção acelerada, visando a maximização dos lucros, fica de certo modo frustrada. Resta-nos objetar que o simples fato de produzir alucinadamente e despejar um aluvião de produtos no mercado, não só não assegura o consumo como pode resultar em crise. A ilusão nutrida pelos industriais do passado em torno de uma super produção foi em diversas situações um fator de crise, pois levou os preços a desabar...

Por isso a produção precisa estar estar atrelada a demanda pelo consumo. Daí algumas indústrias como a automobilística, produzirem dentro de limites e desmobilizar o operariado após a produção ter atingido este limite, o que ocasiona o desemprego. Caso tal situação de 'repouso' por parte da produção - como dissemos ditada pelo fluxo nem sempre constante do consumo - acontece-se no ambiente agrário ou rural, ao menos parte dos braços desmobilizados bem poderiam ser aproveitados em atividades rurais, semeadura, colheita e serviços. O mais interessante quanto a este tipo de solução proposta há mais de século por Kropotkin, se torna ainda mais viável e efetiva em termṕos de Internet ou de comunicação digital, em que a produção feita em pequenas células sempre poderia ser coordenada e articulada virtualmente.

Em termos de socialismo é esta opção estaria muito mais próxima dos modelos coletivistas de Jaures e Bauer, eliminando tanto o capitalismo de Estado, em que a estrutura autoritária e burguesa das macro fábricas é mantida e dirigida por uma burocracia estatal - e em que o Estado toma para si considerável parte dos lucros - quanto a possibilidade de uma espécie de anarco capitalismo em que as fábricas competiriam alucinadamente umas com as outras. É verdade que os consumidores sempre poderiam buscar produtos de procedência mais barata segundo a lei interna que regula o mercado. Creio todavia que o consumidor tenha direito de participar das decisões que regulam a produção, numa perspectiva democrática ou na democratização da indústria e da fábrica, isto porém é já uma outra coisa. Talvez a dinâmica do mercado devesse ser respeitada e isto beneficiasse o consumidor sem que tivéssemos a necessidade de produzir uma maior demanda democrática numa sociedade em que ainda a esfera da política ainda não foi completamente democratizada como deveria.

Seja como for fica ai um esboço quanto a proposta de Kropotkin no sentido da produção superar o velho modelo concentrado em fábricas e substitui-lo por um modelo mais descentralizado, que pudesse inserir-se na realidade rural ou campesina, contendo o êxodo rural e auferindo uma melhor qualidade de vida aos trabalhadores, inclusive em termos de sanidade psicológica. Num determinando momento a ideia de criar imensos conglomerados industriais e urbanos deu vezo a formação, oportuna, de um imenso exército de reserva. E o imaginário industrial parece não mais poder prescindir dele. A administração deste imenso exército de desempregados e desocupados tem se dado em termos de militares, belicosos, policialescos, etc mas a tendência é que numa sociedade cada vez mais democrática essa 'solução' torna-se inviável. Por mais utópico que pareça julgo que seria melhor para os próprios empresários abrirem mão deste recurso i é de permitir a concentração destas massas urbanas. A saída proposta por Kropotkin, caso levada a sério, acabaria dispersando essas pessoas no ambiente rural e lhes dando a chance de fazer algo mesmo quando não estivessem envolvidas na produção fabril. Enfim a descentralização da produção fabril pelos campos demandaria o transporte da matéria prima, vindo a abrir uma promissora frente de trabalho - Na área dos transportes.

Talvez Kropotkin e nós sejamos demasiado otimistas no sentido de acreditar que os empresários estejam dispostos em gastar mais com o transporte das máquinas e da matéria prima ou com a eliminação do exército de reservas. A maior parte deles prefira - e isto é certo - que a sociedade como um todo continue pagando pelos danos causados a pessoa humana por este tipo de organização destinado a maximizar seus lucros. Afinal de contas quem pagará pelas despesas hospitalares, tratamentos psiquiátricos, prisões, não serão eles,  - os empresários - mas o Estado, sustentado acima de tudo pela classe média. A classe média é que continuará pagando a elevada conta produzida pela urbanização acelerada.

Toda evidência aponta que semelhante tipo de solução sempre estará na dependência do Estado, i é de um Estado democrático, conquistado e liderado, institucionalmente, pelos próprios trabalhadores ou pelo povo como um todo. A menos que uma crise, suscite reações ainda mais fortes, que acentuem os conflitos e redistribuam os poderes, sempre numa direção mais democrática e direta é claro. Sem um suporte político ou institucional a proposta do revolucionário russo jamais será exequível. Mas nós nos sentimos gratificados por conhece-la e divulga-la.

Dialogando com G Sorel

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Em G Sorel desembocam diversas tradições ou correntes de pensamento, as vezes demasiado afastadas uma da outra. A ponto de Lênin classifica-lo como um pensador embrulhado ou como diríamos confuso. De fato, a impressão que temos ao lê-lo é que sobrepôs um amontoado de ideias sem se preocupar com a coerência e ainda aqui carrega o vezo de Nietzsche e do anarquismo. Era honesto, e apresentava-se como irracionalista, para ele a tônica da vida era o mito. Não a razão, alias, racionalismo, intelectualismo, institucionalismo, pacifismo; e tudo quando temos em conta de civilizado era para ele decadente; e aqui encontra-se com O Spengler.

Há nele uma forte influência Católica ou mesmo agostiniana, que apesar da esperança, faz com que tema um futuro sombrio. Como Rosa Luxemburgo ele não é imune a hipótese da barbárie. Há um forte conteúdo conservador tomado a De Bonald, De Maistre, Tocqueville e outros que lhe infunde um ódio insuperável a democracia burguesa ou meramente formal e ao capitalismo; enfim ao conjunto que costumeiramente chamamos liberalismo, para ele essencialmente corrupto. É um homem, que acima de tudo, abomina a forma democrática vigente. Sera sucessivamente conservador ou melhor reacionário e marxista heterodoxo, flertará com o integralismo da 'Ação francesa' - aproximando-se de Ch Maurras (outro pensador bastante rico quanto perigoso), até namorar com Mussolini e o fascismo jamais renunciando a seu ódio anti liberal. Há nele um conteúdo Marxista, mas heterodoxo, posto que repudia o materialismo dialético, pelo simples fato de conhecer o valor das ideias e o significado do determinismo mecanicista. E nem aqui se esgota, pois há também nele um conteúdo anarquista que o leva a forjar o 'mito' da greve geral e a dissertar sobre o emprego metódico da violência. Pelo conteúdo marcadamente Ético, encontra-se com P Kropotkin e opõem-se já a Maquiavel, já a seus cultores sejam Bakunin ou Lênin, Marx ou Engels.

Como se vê este homem é um caudal de 'varia doctrina'.

Ademais os títulos de suas obras são por si mesmos significativos - "O processo de Sócrates" onde defende a condenação de Sócrates pelo areópago. "As causas da dissolução do comunismo", "A decadência do mundo antigo" e finalmente as "Reflexões sobre a violência" que é seu 'Magnum opus'.

Também escreveu, em 1889, uma obra sobre a Bíblia em que manifestava certa predileção pelo Antigo Testamento devido a seu conteúdo 'heroico' ou seja a seu caráter violento. O próprio Nietzsche em algumas de suas passagens parece ter esboçado o mesmo tipo de sentimento a respeito da excelência do antigo testamento face ao Evangelho e Wulfilas, o primeiro Bispo dos alemães, já havia deduzido por esta similaridade entre os livros dos antigos judeus, especialmente Reis e Crônicas, e o caráter do primitivo povo alemão sob o paganismo.

Assim na 'Decadência' não poupa críticas aos antigos gregos - ou aos romanos helenizados - com seu ideal de civilização racional, político e jurídico ou institucional, que encara como decadente ou degenerado. Para ele, Sorel - e aqui temos de pensar em O Spengler e no Nazismo - as fases mais grandiosas da civilização correspondem justamente aos momentos de crise e tensão, nos quais predomina a violência. Assim o antigo israel, a Germânia ante Cristã, a baixa Idade Média... períodos em que ele enxerga a apoteose do heroísmo, na esteira de Carlyle. Aqui temos a expansão da energia criadora, ali uma contensão ou negação desta energia que equivale a um estado vegetativo ou comatoso.

Há portanto, entre nós ele, uma contradição marcante em torno do progresso - que ele com certa razão, em termos técnicos, encara como utópico ou mitológico (crítica que vale para os positivistas) - pois o que encaramos como o ápice da civilização ele encara como decadência e o que encaramos como crise e decadência, ele encara como apogeu. Com efeito, o ideal deste irracionalista não podia estar na Grécia Clássica ou na Roma dos Antoninos e a Roma que ele glorifica é certamente a Roma imperialista e expansionista da República, a Roma de Scipião Afer e Múmio, a Roma que venceu Cartago e devastou Corinto!
Já dissemos - Com Catão, este homem expulsaria Carnéades e seus companheiros de Roma e subscreveria o Édito de Domiciano, enviando Epicteto e demais filósofos ao exílio. E ele não disfarça seu ódio pelos intelectuais de gabinete, responsáveis por falsear a História.

Apesar deste lamentável exagero, que malbarata a paz e sua consequência, que é o progresso artístico, literário, religioso, científico... Sorel não deixa de ensinar-nos grande e perigosas verdades. Homem de inteligência acurada não deixa de antever que a par da violência física responsável pelo derramamento de sangue há outras formas de violência, e de uma violência dissimulada ou oculta, que trás em si um germe de morte! Refere-se destarte a nosso pacifismo não poucas vezes hipócrita - que oculta covardia e decadência! - e a maldade com que é a institucionalidade manipulada e oprime o homem. O que este homem genial soube captar foi a pior forma de abuso sob a qual tem caído nossas instituições - A jurisprudência e o parlamento - no sentido de (Em nome da paz e da segurança) exercerem uma opressão dissimulada e hipócrita. Face a qual as massas institucionalmente oprimidas ficam completamente indefesas. Assim o fórum, o parlamento e até mesmo o púlpito servindo a dominação econômica ou a plutocracia; sutilmente é claro...

Sem atingir as instituições, cremos nós, Sorel demonstrou que elas não são imunes a um abuso deplorável por parte de muitos, e que o discurso em torno da paz e da civilização, da racionalidade e da institucionalidade, pode comportar uma intencionalidade essencialmente má, ignominiosa... Podemos usar dos conceitos e formas de civilização para dominar, oprimir e explorar mais eficazmente. Portanto temos de, sem condenar as instituições ou a civilização em si mesma - caindo no extremo de Sorel, e chegando aos confins do Nazismo - examinar muito bem o discurso e compara-lo com a realidade. Já Freud dissera com razão que no futuro as pessoas avaliarão a civilização em termos de acesso a ela mesma i é em termos de acesso ao prazer, face aos sacrifícios empenhados. E se nos parece que um ideal de civilização restrito, em que umas poucas pessoas privilegiadas tenha acesso a maior parte dos bens enquanto os demais ficam a chupar os dedos não se manterá para sempre...

Os benefícios da civilização devem ser paulatinamente estendidos a maior parte de seus membros, de modo que ela valha a pena. Por isso como o velho Keynes temos de falar em qualidade de vida ou em bem estar, em justiça social ou no bem comum de Aristóteles. São discursos indispensáveis e metas que temos de buscar atingir. Do contrário a civilização, encarada como mero Slogan, não resistirá as críticas honestas de um Sorel ou aos ataques, nem sempre injustos de um Marx ou de um Engels, de um Tolstoi ou de um Kropotkin, ou até mesmo de um liberal como J S Mill.

Outro aspecto demasiado interessante, que Sorel tomou a Nietzsche, e que precisa ser aprofundado diz respeito a mística no pacifismo ou mesmo da não agressão, a qual sempre pode ocultar fragilidade e covardia, malbaratando-lhe todo valor. Os Católicos mais esclarecidos concordam que a opção pela paz ou pela não agressão só tem valor quando assumida por alguém que é capaz de agredir, de atacar, de exercer a violência, de lutar e de vencer; jamais quando assumida por fracos e covardes a guiza de disfarce, o que amiúde tem ocorrido no terreno do Cristianismo. Massas degeneradas afetando pacifismo.

O martírio de nossos ancestrais, os pioneiros da fé, só teve valor porque em qualquer tempo podiam renunciar livremente a sua fé ou a seus ideais, e salvar suas vidas. Podiam escapar, podiam lutar e vencer, como declara Tertuliano, mas preferiram morrer por e com seus ideais. Aqui a força das ideias ou como quer Sorel, do mito - que ele mesmo tenta restabelecer. Aqui a força mais poderosa, a força interior e espiritual, a força do caráter ou da personalidade, que leva de arrasto a força meramente física. Mais forte é aquele que podendo lutar, combater e vencer se deixa supliciar por uma ideia. Quem mais controlado, disciplinado e vitorioso do que este homem??? Por outro lado o simples ato de deixar-se matar sem poder escapar ou ter forças para lutar, como no caso dos Romanov, não tem valor algum. Só é martírio se existe a opção de salvar-se por meio da abjuração. É a liberdade que mede a força do martírio, o qual implica em sair da vida voluntariamente. Hora quem vence o amor pela vida é capaz de vencer qualquer coisa.

Há aqui, no verdadeiro martírio que mostra-se indiferente face a morte, o adversário mais temido pelo gênero humano, uma força ou um poder que nem Nietzsche nem Sorel puderam aquilatar devidamente. Como há valor no autêntico pacifismo assumido por quem sendo forte poderia lutar e defender-se. E como há valor na não agressão por parte de quem poderia atacar ou lutar. Por outro lado Sorel não deixa de ter razão quando se refere aos degenerados que sendo covardes ou fracos assumem um pacifismo oportunista. É uma situação real e o mínimo que cada um deveria fazer é examinar a si mesmo antes de afetar aparências e profanar o Evangelho. Se é fraco ou covarde que assuma sinceramente suas limitações... É o mínimo que se espera de um Cristão devoto.

Destarte não é o pacifismo um valor absoluto, mas algo que será avaliado a partir de certas condições ou circunstância. E tampouco é absoluto, como já dissemos, face as exigências da justiça. Por isso concordamos com Sorel no sentido de que haja uma violência necessária e desejável, quando posta a serviço da justiça ou da vida humana, que são valores de ordem superior. Apenas acrescentamos, por questão de prudência, a seguinte restrição: O recurso a violência defensiva ou ao que chamam revolução só deve ser aplicado após se esgotarem todos os demais recursos quais sejam: A ação parlamentar, a greve geral, a mobilização, os recursos judiciais, a desobediência civil... Aplicados e esgotados todos os recursos não só podemos como devemos recorrer a violência. Não a violência pela violência, mas tendo em vista um objetivo ético, como a concretização da justiça.

Justiça seja feita, Sorel também condena a violência pela violência e denunciou como absurdas as execuções feitas pelos jacobinos durante a grande Revolução. Como certamente, apoiando Kropotkin e Martov, condenaria o recurso a tortura por parte dos bolcheviques. Não apadrinha psicopatas, inda que seu discurso contenha um entusiasmo imoderado do qual não partilhamos. Pois não nutrimos maiores ilusões a respeito da tal Revolução violenta, não a encaramos como uma panacéia e menos ainda como o ápice da civilização. Com todos os abusos e defeitos que cremos, devam ser eliminados, nós preferimos o ideal grego de civilização. Com olhos críticos, ainda assim optamos pela institucionalidade e pelo modelo racionalista, afinal também a Revolução pode degenerar e a violência sair do controle, resultando em algo tão funesto e monstruoso quando foi o nazismo. Ademais a teocracia, seja protestante ou islâmica, reforça também ela a apologia da violência, escarnecendo do Evangelho e seu ideal de paz relativa ou não violência.

Diante de tudo quando escrevemos vale a pela ler as 'Reflexões' de Sorel, mas da maneira como ele mesmo desejaria que as lessemos ou seja criticamente. Certamente uma leitura crítica de sua obra lhe seria muito mais honrosa do que uma leitura religiosa, tipo de leitura que ele, com travo de amargura, atribuía aos leitores de Marx e Engels... Portanto dialoguemos com Sorel ao invés de concordarmos mecanicamente com ele. E boa leitura!

A dupla tradição do comunismo - Sua gênese e desenvolvimento

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Conforme dissemos num artigo anterior, o Comunismo se nos apresenta, face ao anarquismo - particularmente face ao anarquismo proudhoniano, mas também face ao bakuninismo (Kropotkin foi quem pela primeira vez tento sistematiza-lo racionalmente polindo as 'arestas') - como um sistema bem mais simples, orgânico e coeso. Conhecendo certa coerência mesmo quando pelo cisma divide-se em correntes rivais. Cada uma delas parte de um princípio oposto presente na gênese da ideologia e desenvolvido até o fim. No anarquismo percebemos inúmeras ideias opostas e contraditórias sobrepostas como que flutuando. Além de esta cindido em duas tradições básicas: Ocidental e Oriental ou russa, o anarquismo encontra-se cindido em torno de inúmeras questões, inclusive práticas e suas correntes assemelham-se as seitas protestantes.

O marxismo, grosso modo, conhecerá apenas duas variedades: A um lado a Social democracia, seja a crítica ou prudente, de Engels, Bebel e Rosa; a moderada de Kautsky, Adler, Bauer, Gramsci, etc ou a radical de Bernstein e por ext dos fabianistas ingleses... O nível a que tais críticos aderem ao insercionismo pode variar quanto o grau, mas não quando a essência do conceito. A outro teremos apenas o jacobinismo radical, demolidor e iconoclástico de Lênin, Trotsky e turma. Os mencheviques de Martov e Axelrod inclusive, tendiam a solução social democrata...

Ainda hoje o marxismo achasse cindido entre comunistas ou leninista a um lado e sociais democratas, 'revisionistas', gradualistas, 'heterodoxos' ou reformistas a outro. E aqueles que arrogantemente revindicam para si o título de 'Ortodoxos' ou fiéis, apegando-se a um aspecto do pensamento de Marx como pronto, acabado e imutável - quando jamais deixou de ser repensado ou revisto pelo próprio Marx - não tem deixado de fazer suas mãos pesarem sobre aqueles que encaram como heréticos, mesmo quando hipocritamente criticam a Igreja Católica.

Importa saber que esta situação característica do marxismo é insuperável ou insolúvel.

Mas por que?

Porque uma e outra corrente partem de dois princípios antitéticos presentes na gênese do pensamento marxista. Quiçá o jovem Marx até tenha pensado em concilia-los, mas só podia falhar, como de fato falhou.

Agora que elementos ou princípios contraditórios Marx buscou unir e qual a gênese de cada um deles?

A um lado temos um ideal de Revolução jacobinista expresso pelo conceito de conjuração levado a cabo por uma elite minoritária. Este ideal foi tomado por Blanqui ao babovismo e transmitido ao jovem Marx, que incorporou-o ao primitivo conceito de Revolução, anterior a 1848. É a ele que se refere Engels no prefácio de 1895 e Bernstein em seu estudo a respeito das fontes ideológicas do marxismo.

Este ideal de Revolução implica admitir que um grupo de heróis ou de homens superiores; um 'quadro' enfim, pode mudar por si só o curso da História, o que nos faz lembrar a noção de herói em Carlyle ou mesmo em Sorel. Implica saber que nem Carlyle, nem Sorel e finalmente nem mesmo Babeuf eram ateus ou mesmo materialistas. Daí terem enfatizado ou salientado o potencial da ação humana, mesmo na esfera individual. Eles certamente acreditavam que a História podia ser adiantada e ignoravam a noção de processo histórico e condicionamento material. Blanqui, que a ser ateu e materialista assimilou o pensamento insurrecionista de Babeuf, era, tal e qual Bakunin, um homem simples ou intelectualmente vulgar. Não podia perceber a contradição entre o método recomendado por Babeuf e as decorrências de seu próprio modelo de pensamento; tampouco o jovem Marx foi capaz de percebe-lo porquanto guiado pelo entusiasmo.

Marx no entanto fora bem mais atilado que Blanqui, no sentido de deixar-se conquistar por um materialismo consciente, que chegou a ser chamado materialismo dialético, por conformar-se com a dinâmica estrutural do pensamento hegeliano. Esse materialismo levou-o a formular o conceito de infraestrutura e de superestrutura e a consagrar o pensamento economicista.

Curiosamente os etapistas, gradualistas e sociais democratas todos apegaram-se a este conceito de materialismo economicista, ulteriormente desenvolvido pelo próprio Marx. Segundo este modelo de pensamento ou esquema o capitalismo carregaria em si o germe das contradições que plenamente desenvolvidas - em sua maturidade - levariam-no inevitavelmente ao colapso. O pensamento clássico de K Marx só poderia ser, como foi, radicalmente determinista. O Capitalismo transporta em seu seio germes de morte... Quando chegar a seu ápice declinará e entrará numa crise da qual jamais poderá sair. O partido deve treinar o proletariado para que seja capaz de detectar o momento em que este processo atingir seu 'clímax' - Só então o proletariado poderá exercer ou cumprir seu papel que é aproveitar-se da oportunidade oferecida pelo processo histórico e assumir a liderança do corpo social. Implica isto caminhar com a História e esperar pela oportunidade dada, que depende do curso do capitalismo... Este desenvolvimento do capitalismo só pode ser apressado pela dinâmica interno do próprio capitalismo, no sentido de atingir sua maturidade e tornar-se vulnerável. TODA E QUALQUER AÇÃO HUMANA QUE PRECEDA ESTA EVOLUÇÃO ECONÔMICA OU MATERIAL É INCONCEBÍVEL OU ABSURDA.

Neste caso como se dará a Revolução babovista ou blanquista?

O velho Marx julgou sabe-lo e poder dize-lo.

Acreditava que no correr da carruagem a proletarização do trabalho eliminaria já os elementos da antiga ordem, já o mundo rural, já as classes médias ou intermediárias. Ao fim do processo todo este universo intermediário cessaria de existir, sendo absorvido, é claro pelo mundo do trabalho. Ao fim do processo, uma capitalismo maduro poderia ser socialmente descrito como uma multidão colossal de proletários face a um diminuto grupo de burgueses monopolistas, estes, naturalmente, a testa da sociedade. Claro que sempre poderia restar um grupo mais ou menos largo que sempre poderia vender-se a burguesia e combater por ela - tal o lupem proletariado. Seja como for Marx chegou a acreditar que apesar dessa possível traição por parte da massa amorfa, alienada e manipulada, o poder cairia como uma maçã madura nas mãos dos trabalhadores. Ele jamais pensou nos termos apocalípticos, catastróficos ou sangrentos da velha Revolução francesa e chegou a crer numa transição/revolução que a não ser pacífica tampouco corresponderia ao 'terror' robespierriano... Tão execrado pela nova elite dominante francesa ou mesmo pela elite dominante inglesa.

Claro que esta visão, por diversos títulos, não se encaixa com a visão anteriormente descrita, em termos de blaquismo/babovismo, legado pela Revolução francesa. Aqui, a ação humana ou individual embrenha-se pelos caminhos do idealismo, podendo por si só mudar os caminhos da História sem contar com agentes condicionantes ou limitantes, ou mesmo exigir uma visão acurada dos tempos, na qual uma elite intelectual busca por sinais. Grosso modo a sanha dos guerreiros e revolucionários não conhece tais elementos condicionantes - como o processo histórico ou a dinâmica interna do capitalismo - presentes no pensamento de Marx e é exatamente esta ignorância a respeito das limitações externas ou dos límites que a torna combativa e invencível no dizer de Sorel.

Assim a corrente marxista mais sofisticada ou determinista, torna-se hermética ou astrológica no dizer de Sorel, na medida em que depende de cálculos externos sobre a realidade feito por um corpo de especialistas. Especialistas que por exigências de caráter racional seriam levados do jacobinismo a social democracia. Por chegarem a crer que ao contrário da conjuração babovista/blanquista esta revolução deveria ser previamente calculada ou preparada nos mínimos detalhes, o que certamente demandaria algum tempo. Por outro lado tempo é que não lhes faltaria, sendo oferecido pela evolução interna do capitalismo, a qual deveriam acompanhar. No entanto o resultado daquela evolução era absolutamente previsível: O colapso do sistema e a oportunidade revolucionária. No campo externo a sociedade capitalista nada poderia ser feito no sentido de 'abreviar os tempos', destarte urgia esperar e enquanto se esperava a política institucional ou melhor a social democracia bem podia fazer as vezes de tática, tendo em vista a futura revolução. Temos aqui um pensamento muito próximo ao de Engels e a respeito do qual nos referimos já em diversas ocasiões. Ainda conta com a Revolução e é crítico, mas por exigência do materialismo - que já se transforma em realismo - faz a revolução recuar ou posterga-a...

Antecipar a Revolução, dirá Engels, é como por o carro a frente dos bois, fazer o jogo da burguesia, ser esmagado e expor-se a ver  a causa do socialismo aniquilada. A revolução ou a ação humana, só poderá ser bem sucedida em seu tempo, quando as condições materiais, oferecidas pelo sistema, mostrarem-se propícias. É a maturação do capitalismo quem nos oferecerá a grande chance - Marx o disse!!!

Diante disto Bebel, Adler e outros, com as bençãos de Engels e antes, com as do velho Marx, podem lançar-se sem temor ao seio da disputa eleitoral e levar os ideais comunistas ao parlamento, beneficiando-se da máquina chamada propaganda. Afinal elemento algum, fosse de ordem política ou não, seria capaz de atalhar a dinâmica do capitalismo e, consequentemente de impedir o estouro da Revolução. A revolução estava determinada pelo processo histórico - em termos de produção econômica - e nada seria capaz de alterar esta realidade. De modo que a ação parlamentar era muito bem vinda.

Perceba amigo leitor que o rígido materialismo mecanicista de Marx conduziu seus seguidores a via eleitoral ou a inserção.

Por outro lado, quando Bernstein, no final do século XIX, avançou até praticamente negar o colapso deduzido ao materialismo crasso e a necessidade de uma revolução, afirmando a ação parlamentar como algo definitivo e quando até mesmo os centristas chegaram a identificar a 'tomada' do parlamento pelos socialistas com a ditadura do proletariado, a ala jacobina - que sempre se mantivera calada por respeito a Marx e a Engels - não pode deixar de retomar o ideal revolucionário, inda que não pudesse repudiar ao materialismo gradualista ou denunciar Engels como revisionista. Diante disto levantaram as mãos contra Kautsky, o testamenteiro de Engels, e contra diversos outros pioneiros, fazendo alarde em torno das mutilações de Liebknecht, agora apresentadas como falsificações e ignorando ou fingindo ignorar a existência de muitas outras fontes e documentos quais sejam as cartas de Engels e de Eleanor Marx. De modo geral o conjunto de tais documentos revelam-nos um Engels que apesar de seus precauções e criticidade abraçou não apenas a via parlamentar mas a violência defensiva, repudiando o golpismo peculiar as correntes blanquista e bakuninista. Claro que os comunistas jacobinos não podiam admitir nada disto, pelo simples fato de não acreditar na via institucional ou parlamentar. Assim, desviando os olhos de Engels e de seus últimos escritos, eles passaram a classificar todos os sociais democratas como renegados e a arvorar o revolucionismo como única solução não apenas viável mas possível. Ao menos da Rússia a coisa tomou este caminho, tomando o jacobinismo o nome de leninismo e hipostasiando-se ao comunismo soviético ou marxismo ortodoxo.

Claro que e Lênin sempre pôde apelas ao jovem Marx blanquista/babovista com o objetivo de santificar seus ideais. O que ele não poderia ter feito é ignorar o conjunto do pensamento marxista e seu desenvolvimento ulterior. O que sobretudo não poderia ter feito é ignorar os ulteriores pronunciamentos de Engels, atribuindo a Kaustky uma ruptura que jamais havia acontecido. Ao apresentar os sociais democratas como inovadores e apóstatas Lênin mostrou-se absolutamente desonesto. O único renegado ou traidor aqui foi Lênin, embora a bem da verdade, devamos admitir que ele apegou-se a um princípio individualista, idealista e rival, que num determinado momento Marx e Engels tiveram de sacrificar ou ignorar - A possibilidade de indivíduos ou grupos, por meio de golpes ou conjurações, antecipassem as condições dadas pela História - Fazendo com que esta avançasse. Para tanto teve Lênin de fazer certos empréstimos ao teórico anarquista G Sorel - outro implacável adversário do determinismo economicista - pensador que mais tarde veio a descrever, hipocritamente, como embaralhado ou confuso.

Paradoxalmente Engels não desejou destruir por completo a esperança na futura Revolução, mas apenas posterga-la. Grosso modo podemos dizer que ele assumiu uma posição social democrática 'crítica', ficando como que no meio do caminho, entre Lênin e Bernstein. Por isso Bernstein como Kautsky, pode revindicar para si o título de sucessor, caso admitamos que Marx e Engels possam ser superados ou revistos; como se supõem de seres humanos e falíveis, inda que geniais e bem intencionados. Na medida em que o pensamento de Marx conheceu uma evolução e do Engels mais ainda, por que supor que este padrão de pensamento não pudesse continuar a evoluir após a morte deles convertendo-se numa Bíblia ou num Corão?

Importa saber que para mater viva a esperança de uma revolução final, Engels teve de reler, reinterpretar ou revisar o materialismo mecanicista e economicista de Marx, renunciando ao que chamamos determinismo, e postulando o que chamamos de condicionamento ou possibilismo. Vale a pena reproduzir suas belas palavras:

"Devemos provar a nossos adversários o princípio essencial - o lado econômico - que eles repudiavam; e então nem sempre tinhamos tempo, facilidade ou ocasião PARA POR EM RELEVO OS OUTROS FATORES QUE EXERCEM AÇÃO RECIPROCA... A evolução política, jurídica, filosófica, religiosa, literária, artística... dependem certamente da evolução econômica. NO ENTANTO TODAS SE INFLUEM MUTUAMENTE E ATUAM, A SEU TEMPO, SOBRE A BASE ECONÔMICA." Carta de 1890 publicada no Sozialisticher akademiker em Outubro de 1895Admitido o simples condicionamento material, Engels, tornava mais aceitável e reforçava ainda mais a doutrina revolucionária da interação, partir da qual os futuros comunistas puderam deduzir que caso a oportunidade oferecida pelo processo histórico não fosse 'trabalhada' ou aproveitada pelo elemento humano, a chance de implementar com sucesso a Revolução ficaria abortada - Daí a insistência cada vez maior no sentido do partido ou da propaganda preparar uma elite de homens no sentido de aproveitarem a oportnunidade histórica.


Daí Rosa Luxemburgo, cogitar que a oportunidade revolucionária não aproveitada poderia descambar em algo totalmente distinto do capitalismo ou do comunismo, o que ela define como barbarismo. Prenúncio do Nazismo??? Quem sabe... Foi o quanto bastou para Lênin e seus sequazes assinalarem-na como heterodoxa, tal e qual Kautsky, Bernstein, Plekhanov, Axelrod, Martov, Gramsci, etc, etc, etc Curiosamente, o citado G Sorel, que nutria séria dúvidas quando ao materialismo mecanicista, também nutria certo temor face a um futuro sombrio e barbaresco...


Importa saber, e esta é nossa conclusão, que o marxismo nascente comportava dois princípios antitéticos, contraditórios ou opostos - Um consciente e outro não. E que no decorrer do tempo Marx e Engels foram apegando-se cada vez mais ao princípio consciente, que conduziria fatalmente a social democracia, até que este foi ligeiramente corrigido por Engels, tendo em vista a elaboração de uma ideologia mais equilibrada, do que resultou uma espécie de social democracia crítica, em que o ideal da Revolução foi protelado para um futuro incerto, como após a revolução russa o fim da ditadura do proletariado seria sucessivamente protelado para um futuro incerto, até atingir setenta anos, e por a luz do dia a farsa ou o equívoco da transição. Claro que, em tais condições, exceto em caso de golpe de estado (Situação em que seria exercida a violência defensiva - Otto Bauer, 1926) os socialistas poderiam conformar-se indefinidamente com a política parlamentar.


Lênin teve de reassumir o ideal do jacobinismo - sem todavia identifica-lo com o idealismo - e de negar toda evolução ulterior, rompendo com ela, e negando, ao menos o pensamento mais elaborado e desenvolvido de Engels. Claro que tudo isto supõem uma traição, inda de inconsciente. Os princípios opostos no entanto, já ali estavam, envenenando o pensamento de Marx. Tudo quando podemos dizer aqui é que Marx era jovem e que o pensamento de cada personagem intelectual deve ser analisado numa perspectiva cronológica e evolutiva.





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