sexta-feira, 23 de julho de 2021

Entrevista - Continuação

02) Tipo Wallon, Piaget e Vygotsky?

Sem dúvida. Constrói-se o ser humano a partir do que recebeu ou trás, ordenando o conhecimento e estabelecendo relações orgânicas. Não é ele responsável pelo que é ou recebeu mas é responsável pelo que faz com o que é ou recebeu, na magnífica definição de Sartre. Parece que a capacidade de superar-se e de ultrapassar aquilo que ultrapassar aquilo que o influencia e limita faz parte de sua condição. 

O realismo no entanto, e tal realismo tem um acento trágico, considera que em parte dos humanos tal capacidade existe e existirá apenas como potência, jamais vindo a converter-se em ato. Isto por não ser ativada ou excitada pelo meio externo ou por uma educação de qualidade. O exercício da racionalidade precisa ser despertado pelo esforço educativo, o qual por isso mesmo é dever da comunidade, do grupo social ou do Estado. Pois é a partir da experiência educativa que as potencialidades humanas, em termos de habilidades e competências, tornam-se realidades. O que implica a necessidade de uma educação integral, que coloque as pessoas em contato com as principais correntes de pensamento, inclusive com as que sabemos não serem sadias, de modo a que as pessoas, atuando criticamente, façam a seleção. 

Uma educação completa ou integral não pode excluir qualquer elemento ou ser meramente técnica, como pretende este governo ideológico, acrítico e colaboracionista até o sectarismo, pressupondo que vivamos no melhor dos mundos ou sociedades possíveis e que nos devamos conformar com a injustiça. 

Uma educação humanista, integral e completa abarca a história da Filosofia ou do pensamento, a História da arte, a História das crenças religiosas, a História dos sistemas econômicos, Teoria sociológica, Teoria psicológica, Epistemologia, Gnoseologia, Ética, etc Nenhum destes conteúdos é inútil ou ocioso. Não é questão de luxo mas de colocar o ser humano em contato com universo de seu pensamento. Tampouco é necessário, ao apresentar tais conteúdos, afetar uma neutralidade artificial - Segundo os falsos pressupostos do positivismo - bastando que o expositor seja honesto, ou seja, que assuma leal e publicamente seus pressupostos e que jamais falsifique as opiniões de qualquer autor, atribuindo-lhe apenas o que ensinou. 

Na medida em que tais conteúdos são negados a parte dos cidadãos ou que lhes é imposta uma restrição que nada tem de neutra, lhes é negada uma contemplação mais ou menos completa da realidade psicológica, mental, social e histórica, e só podemos classificar uma tal negação em termos de ocultação intencional, e portanto de crime. Nem pode o Estado ocultar a realidade humana em sua complexidade, esconder, disfarçar, etc sem tornar-se manipulador. Implica tal opção - Sob quaisquer aspectos anti ética - alienar parte dos atores sociais e produzir massas. Todas as vezes que o Estado patrocina a ignorância ou a alienação ao invés de dilatar as fronteiras do conhecimento torna-se criminoso ou pecador.

Enfim nós acreditamos que o conhecimento da realidade ou o ensino integral (Que assume um conteúdo Ético) seja por si só libertador e que em certo sentido (Não no convencional empregado pelos sectários!) equipare-se a tão sonhada revolução. Os verdadeiros arsenais estão em nossas bibliotecas, as autênticas armas são os livros e a bomba mais poderosa é a informação associada a reflexão. 

Ema educação meramente 'positiva' ou técnica implica viés materialista e pragmático. É como dissemos educação aparente ou superficial, destinada a definir o espaço ou local do cidadão na sociedade e a criar excelentes empregados, operários, trabalhadores, subalternos, colaboradores, etc sempre incapazes de questionar a Sociedade ou de dialogar com ela. Fornecer uma educação para certo tipo de trabalho é negar oportunidade ao cidadão e fixa-lo. É sobretudo oferecer uma vidinha comum, prosaica ou trivial. É esterilizar o espírito. É destruir vocações. É condenar possíveis pensadores, cientistas, artistas, etc a inexistência. É mutilar o ser humano e fabricar possíveis fanáticos religiosos, marionetes, robôs, zumbis; em suma negacionistas. 

Temos de nos opor a esse tipo de educação limitada, sumária, superficial, seletiva... O qual trará morte ao espírito e acelerá a decadência da civilização. Precisamos de uma educação ou melhor de uma formação integral e humanista que fuja aos pressupostos artificiosos do positivismo e possibilite ao educando posicionar-se criticamente face a realidade do mundo.

02) Escola sem partido ou Ideologia?

A Ideologia porta-mo-la todos nós, cada um de nós, inclusive o positivista que afeta ser cem por cento objetivo. O positivismo no entanto é uma Ideologia como outra qualquer, assim como o Capitalismo - Que tampouco se assume quando busca formar colaboradores ingênuos e acríticos a partir do ensino público. - o ateísmo, o materialismo, etc  

É como nariz, cada qual tem o seu.

Importa que o educador, ao invés de afetar um a neutralidade utópica ou hipócrita, seja honesto ou leal, apresentando a suas turmas seus pressupostos ou sua afiliação ideológica e que ao expor o roteiro teórico da Psicologia, da Sociologia, da Filosofia ou da Pedagogia ao invés de fazer uma seleção sectária ofereça um panorama geral quanto possível completo. É necessário por fim que jamais falsifique as informações, atribuindo a cada pensador ou teórico o que realmente disse ou ensinou. 

Como no entanto é e deve ser a Escola, como salientou Dewey, uma organização democrática destinada a criar democratas, é natural que haja ampla liberdade de ensino, resultando desta abusos e confusão. No entanto é melhor conviver com os abusos de uma educação democrática ou liberal do que estabelecer uma educação autoritária no sentido de estabelecer um currículo fechado verticalmente imposto por ideólogos ainda piores. Aqui a atuação do sectarismo seria ainda pior e a emenda sairia pior do que o soneto. Melhor cometer equívocos por excesso de liberdade do que criar um currículo fechado, sectário e aparentemente objetivo.

Julgo no entanto que em meio a uma saudável esfera de liberdade deva haver um critério ou padrão sumário. De modo a evitar-se qualquer tipo de pregação ideológica semelhante a dos pastores e fanáticos. Concordo com certos críticos e reconheço que não é aconselhável ou de bom tom converter o plano de aula em catecismo comunista, fascista, nazista, capitalista ou anarquista. E julgo que o educador deva ou seguir o currículo, em parte completo, oferecido pelo Estado ou em caso de objeção, criar um roteiro completo e abrangente, que lhe permita circular com a sala pelas principais teorias ou doutrinas que compõem o ensino de sua disciplina. 

A melhor solução todavia me parece acompanhar a curiosidade dos alunos estimulando-os aula após aula a tirarem suas dúvidas ou a fazer perguntas. Creio que o melhor método consista em ouvir os educandos, permitindo, sempre que possível que a demanda intelectual e teórica parta deles. Dar voz ao aluno (E até empregaria o termo 'protagonismo' caso não estivesse batido.) é uma solução excelente. Quando uma pergunta parte de um aluno toda e qualquer restrição é criminosa parta do professor, d diretor, do dirigente, do secretário da Educação, do Governador, do ministro ou do presidente da República... Pois esse aluno tem direito ao saber, ao conhecimento a uma resposta consistente. 

Ofereçam o roteiro ou o currículo aos alunos e não hesitem, em caso de interesses divergentes, passar ao sufrágio. Permitam que o grupo ou a sala escolha o curso das aulas, que estabeleçam as prioridades. Convoquem os educandos a opinar. Partam da demanda ou da solicitação da turma e o ensino será democrático. 

Se os alunos perguntarem sobre o comunismo, exponham honestamente os ensinamentos de Marx, mesmo quando discordem dele. Se questionarem sobre o anarquismo ofereça-lhes Godwin, Stirner, Proudhon e Bakhunin, e Sorel; ainda Tolstoi, Kropotkin, Ellul, etc Se pedirem informações sobre o fascismo exponham fielmente as opiniões de Mussolini; e assim sucessivamente sem medo, receio u temor - Pois tal é a missão de um bom professor: Informar seus alunos. 

Partam dos alunos e não de vocês, é o que aconselho a todos os professores, inclusive aos sectários. E cessem com essas pregações impositivas e toscas. Do contrário os autoritários vão usar esse argumento contra a liberdade de ensino e convencer muita gente. 

03) Gnoseologia -

Sou por uma Gnoseologia forte e positiva.

Noutras palavras sou partidário de um dogmatismo moderado ou da possibilidade do conhecimento. Portanto contrário a afirmação cética, alias contraditória em si mesma, a menos que o ceticismo corresponda a uma exceção enquanto única verdade. Caso o ceticismo deva ser posto em dúvida que credibilidade merece ele? É uma proposta frágil e insegura.

Ademais pressupõe o ceticismo uma antropologia pessimista ou negativa, a qual é, por definição artificial, partindo sempre de crenças ou mitos, jamais duma análise sóbria da própria natureza. 

Caso Sorel alegue que é o dogmatismo ou a antropologia otimista dos antigos gregos fruto de sua realidade social, respondemos que a antropologia pessimista é fruto de conjuntura social ingrata, posterior a morte de Alexandre e a decomposição de seu Império... Dos epígonos, dos diádocos, etc

Ademais esse tipo de antropologia intrusa teve já seu roteiro e sua gênese traçada, reportando ao misticismo oriental, assim a Buda, a renúncia da vontade e ao nirvana. Haja visto que Pirro de Elias, segundo Laércio e outros doxógrafos gregos, havia sido ouvinte dos bicus... Nada de Filosófico aqui.

Para além disso admitimos que o otimismo ou realismo antropológico, em que pese seu caráter natural e naturalista, seja assimilado com mais facilidade por uma sociedade afortunada e segura de si. A admissão de um determinado padrão antropológico não é alheia ou indiferente a uma dada condição social, o que não significa que derive necessariamente dela.

Outro o caso do pessimismo. O qual jamais se sustentou sem petição a algum mito ou crença religiosa. O que continua sendo válido em nossos dias e em nossa cultura - Em que o pessimismo antropológico e cognitivo de modo geral é tributário do agostinianismo (Assim do Jansenismo, do luteranismo, do calvinismo e do protestantismo...) e este enfim do Maniqueísmo, Ideologia muito mais mazdeísta ou zoroastriana do que Cristã. 

Mesmo a igreja apostólica romana, admitindo um agostinianismo diluído, em diversos graus ou níveis, não deixou de portar e transmitir alguma dose desse veneno. Cuja aceitação por sinal, foi potencializada pela queda do império romano e pelo advento dos bárbaros germânicos no Ocidente e pelo advento do islã no Oriente. 

Nada de sério no pessimismo antropológico ou em seu resíduo cognitivo, mero epifenômeno de lendas religiosas potencializado por situações de crise ou decadência - Como a nossa... E reforçado seja pela baixa estima seja por um falso sentimento de culpa inconsciente.

Compreensível que nossa civilização decadente se tenha convertido em viveiro ou sementeira do Ceticismo. 

No entanto o que devemos considerar é a condição do ser humano. 

04 - Por que?

Porque o ser humano demanda pelo saber ou pelo conhecimento como demanda por água e alimento.

Alias enquanto o corpo demanda por água e alimento, a mente demanda pelo saber do qual se alimenta.

Admitir que jamais obtemos qualquer tipo de conhecimento e que nossa ignorância seja invencível é dar nossa espécie por frustrada. 

Coisa admirável, demandar a vontade por algo que esteja acima de nosso alcance ou seja impossível.

Além disso parte da espécie esta persuadida de que nosso aparelho cognitivo seja eficaz. 

Diante disto seriamos autorizados a concluir que as laranjeiras e bananeiras ao produzirem laranjas e bananas cumprem com sua função ou atuam conforme a natureza.

Nós no entanto apesar do propósito e de um aparelho cognitivo, falhamos... sendo como que abortos da natureza. Situação patética e dolorosa.

Estrelas, montanhas, árvores e vermes são mais felizes do que nós por não terem mínimo grau de consciência. Nós no entanto temos consciência para perceber que somos presas duma ignorância insuperável. 

Nada mais dramático do que ter consciência da própria ignorância e saber que nada pode ser feito para remediar tal condição.

Por tal via se chega muito rapidamente ao nihilismo crasso e logicamente ao suicídio.


05 - Epistemologia?

Sou partidário do realismo objetivo vinculado a escola de Aristóteles e dos escolásticos medievais, ou se preferem o senso comum de Th Reid. 

Quero dizer com isto que admito a existência da verdade, de algumas verdades absolutas e de certas verdades relativas porém não menos verazes.

A parte é maior do que o todo. Penso Logo existo. É o homem um ser para a morte.

Aqui quem duvida passe ligeiro a demonstração.

Recebo o óbvio ou o axiomático como verídico assim o que é comunitária ou socialmente percebido, embora hajam exceções. Nossos sentidos são limitados e por vezes falham, o que não significa que falhem sempre ou que nos enganem a todo momento.

Alias por ser limitado nosso conhecimento não se torna falso ou errôneo, pois são conceitos ou perspectivas distintas.

Considero não apenas válida como profunda a resposta dada por Antíoco de Ascalon aos relativistas e subjetivistas de seu tempo: Caso a experiência fosse criada pelos sentidos cada qual criaria a sua experiência e a sua verdade. Cada qual conceberia um mundo a parte e jamais nos poderíamos entender. Se nos entendemos é porque existe um fundo comum percebido por todos. Uma vez que aqueles que possuem a mesma qualidade dos sentidos percebem as mesmas formas, cores ou sons sem prévio acordo somos levados a concluir que as impressões sensoriais procedem não dos sujeitos cognoscentes e sim das coisas ou dos objetos.

Dizer que uma caneta é ou pode ser um lápis segundo a vontade do sujeito é emprestar demasiado poder as palavras. O que por birra ou capricho dizemos não muda a natura das coisas, e o contrário disto é o velho antropocentrismo. Semelhante aquele outro princípio falacioso segundo o qual existe o que é percebido... Todavia as estrelas e mundos que nos vemos continuam a subsistir sem das a miníma importância para nós ou nossa percepção. De fato você pode dar a um alfinete o nome de preskia, o alfinete no entanto continuará sendo aquilo que é, algo que pontudo que serve para furar. Também pode chamar um copo de avião, agora demonstrar que seja avião, entrando nele e decolando, esta acima de suas forças. De fato toda essa questão segundo a qual posso fazer dos objetos ou das coisas o que quiser é sempre pura balela, no máximo mudamos os nomes, não a essência das coisas. É um jogo de palavras miserável.

O que a coisa ou objeto é para cada um de nós ou para os indivíduos é irrelevante, importa o que os objetos ou coisas são em si mesmos e o que informam-nos sobre si mesmos. 

06) Verdade?

Relação de equivalência entre dado objeto ou coisa e nosso intelecto. Quando nossos sentidos detectam algo que se encontra presente no objeto temos este fenômeno relacional que é a verdade. Alias a verdade é sempre relativa, não quanto a vontade do sujeito, mas quanto ao objeto que é seu critério. 

Quando um grupo de estudantes percebe a forma retangular do quadro negro temos uma verdade. Quanto uma turma percebe a cor azul do armário temos outra verdade. Cada vez que atribuímos ou negamos determinada qualidade a um ser em conformidade com sua condição temos a verdade.

07) Critério ou padrão?

A evidência ou algo que nos é seguramente transmitido ou revelado pelo objeto ou, simplificando, a coisa ou o objeto.

08) Não o sujeito ou o aparelho sensorial?

De modo algum. O aparelho sensorial ou cognitivo limita-se a apropriar-se de um dado ou de um aspecto transmitido pelo objeto. Percebem os sentidos aquilo que está no objeto equivalendo portanto a um simples meio ou veículo. Percebemos através dos sentidos e não os sentidos. O quanto percebemos pertence ao objeto e nele se encontra.

09) Método, roteiro ou caminho?

Principiamos pela sensação e chegamos a relações bastante complexas que partem do Silogismo percorrendo um longo caminho: Sensação, Percepção, Abstração, Comparação, Conceito, Juízo (Que é uma relação afirmativa ou negativa entre dois conceitos) e Silogismo, a partir do qual temos diversas formulações lógicas. Isto quanto a nossos processos cognitivos triviais e comuns, a respeito dos quais nem sempre estamos conscientes ou fazemos quaisquer observações.

Caso atentemos ao esquema perceberemos que o conteúdo do conhecimento principia com a ação dos sentidos i é com a sensação e a percepção, posto que ao nascer não trazemos ou portamos qualquer conteúdo formal. O que, como já dissemos, não quer dizer que não portemos uma orientação esquemática, como uma espécie de programação de computador, destinada a ordenar o conhecimento adquirido. 

Com a abstração e a partir dela entramos nesse universo mental, lógico ou racional, que nos leva a formulação não apenas de silogismos mas de fórmulas, leis e teorias. 

Pois o roteiro do que conhecemos por ciência obedece ao mesma ordenação comum. Posto que inexiste experiência pura que por si mesma converta-se em fórmula, lei ou teoria. De fato se o ponto de partida para a Lei ou a Teoria são os dados coletados pela ciência, os esquemas de análise e síntese fogem já por completo a experiencialidade pura, correspondendo a operações mentais. Isto para não falarmos na na formulação daquela relação de termos que procede da natureza mesma das coisas. Essa relação, que é a Lei, é aduzida ou formulada pelo sujeito partindo de conceitos comuns que não são, necessariamente falando, objetos da experiência. Nem poderíamos levar a experiência aos primeiros princípios ou aos axiomas sem fazer eterna petição de princípios...

De modo que a ciência não é apenas experiência mas uma reflexão ponderada sobre os resultados da experiência dentro de um aparelho conceitual definido.

Segundo a visão equilibrada do Conceitualismo o conhecimento, seja qual for, resulta da ação comum e coordenada dos sentidos ou da experiência e do raciocínio ou da reflexão. Sendo fruto da empiria e da razão. Empirismo crasso e racionalismo crasso não passam de posicionamentos extremistas e equivocados. 

10) Metafísica?

Como já foi dito por Schopenhauer "É o homem um animal ou ser metafísico." 

E mesmo sem querer faz metafísica.

Por isso não partilho dos preconceitos do luterano I. Kant, alias tomados ao irracionalismo de Lutero, tributário de Ockhan e enfim do já citado Agostinho com sua antropologia pessimista. Nada de consistente nessa filosofia alemã, espécie de protestantismo secularizado. Prefiro, decididamente a Filosofia grega ou clássica, a qual não tinha vergonha alguma de ser metafísica.

Alias o ateísmo e o materialismo tão em moda nestes nossos tempos são metafísicas, ainda que muito mal formuladas. Apenas o agnosticismo, que é uma espécie de ceticismo limitado ao raciocínio, não seria tão metafísico. Incerta ou dúbia a posição de Kant pelo simples fato de ter buscado estabelecer limites ou fronteiras, o que ao contrário do ceticismo crasso supõem sim uma metafísica, da qual os positivistas são tributários. 

De qualquer modo ou maneira nada me parece mais monstruoso do que os ateus e materialistas clamarem contra a metafísica. Sabe ao espiritismo kardecista apresentando-se como científico. E ao próprio positivismo. Tudo bem século XIX... Pretensa objetividade. 

Bem nós não buscamos disfarçar qualquer coisa, e fazemos metafísica séria e consciente a partir de um aparelho conceitual aristotélico sujas fontes chegam a Parmênides e a Anaxágoras.

Nem seria possível negar a metafísica ou arbitrariamente a Ontologia ou a Teodiceia apenas sem tocar a gnoseologia e a epistemologia tão habilmente manejadas pelo alemão, e o que é ainda pior ou mais grave, sem comprometer a estética e enfim a Ética. Embora Kant tenha tentado salvar a Ética em sua 'Razão prática' desde Litreé, Levy Bruhl e Ayer, o qual proclamou-a como sem sentido e vazia de significado. 

Enfim declarar que nossos conhecimento é aparente, provável, ilusório, superficial ou convencional e não essencial ou real me parece pior do que o ceticismo que nega possibilidade. Melhor negar a possibilidade do saber do que converte-lo numa farsa ou em algo não consistente. 






quinta-feira, 22 de julho de 2021

Minha mais recente entrevista - Extratos

Drops -

01) Economia?

Face ao mito positivista do progresso ilimitado, já denunciado por A C Grayling como secularização da escatologia Cristã, sou partidário decidido da Economia estacionária. Vivemos num sistema finito, portanto não dá mais para brincar com essa xaropada de desenvolvimento contínuo, nossos recursos são limitados e a reciclagem uma necessidade embora mesmo a reciclagem não passa de um paliativo. 

02) Anarco primitivismo?

Sim. Nesta altura do campeonato encaro com franca simpatia este ideal apontado por Nisbet como tributário do Cristianismo antigo, já por via do monaquismo beneditino, já por via do franciscanismo. Precisamos redescobrir nossa relação de dependência face ao mundo natural, restabelecer a comunhão com os demais seres e assumir uma perspectiva holística. Temos que nos redefinir como parte do ecúmeno, recriar as pontes que foram derrubadas, rever nossas necessidades e excluir o quanto não seja essencial. Enquanto vítimas de nosso próprio consumismo temos o direito de questiona-lo. 

Para mim, além de Freud, tenho por revolucionário a Scott Nearing, num nível de consciência bem mais profundo que um Blanqui, um Bakhunin, um Lênin ou um Sorel. 

Há quase cem anos foi constatado por V G Childe que a evolução social não se faz conforme o esquema linear adotado pelos marxistas 'ortodoxos' comportando crises ou recuos. Quem sabe não chegamos no momento de recusar conscientemente ou de planejar um retorno? 

Claro que não estou clamando contra o progresso científico. Creio todavia que deva este ser posto sobre bases humanas e humanistas e não sobre a falsa base da máxima lucratividade. 

Sempre que tornarmos ao consumismo irracional, ou ao consumo acelerado tornamos ao vomito. Criamos necessidades artificiais que devem ser revistas e temos de pensar que se cada um dos bilhões de seres humanos aspirarem a acumular o máximo de entidades materiais nosso planeta é que será consumido, nossa casa, nosso lar, nosso espaço.

Temos portanto de moderar o consumo e de limitar o acúmulo com o propósito de salvar o planeta e temos de faze-lo urgentemente, antes que seja demasiado tarde.

Não dá mais para tolerar os caprichos de um sistema econômico individualista, irracional e cego.

Nesse sentido é louvável sim um retorno ao campo, ao padrão agrícola, a uma economia natural, a um padrão de sobriedade... capaz de dizer: Não vou aquecer o mercado, não vou gerar emprego ou renda, não vou comprar isso, não quero aquilo, não preciso disso... Basta! Chega!

03) Tal a solução?

Não. No máximo parte dela ou, creio eu, mero paliativo.

Pois na base de nossos problemas temos um círculo monstruoso: Injustiça social, miséria e angústia a um lado e excesso de população a outro. Precisamos atacar dos dois lados, posto que a miséria parece instigar o instinto da geração. Precisamos tentar atenuar a miserabilidade crônica por meio de investimentos da área da educação, da proteção ao trabalho e da promoção humana. E precisamos, concomitantemente, tentar conter o crescimento da população mundial. Aqui Malthus se faz tão importante quanto Sócrates, Platão e Jesus. Pois qualquer crescimento mínimo quanto a densidade populacional põe em risco nossas conquistas no plano social. Puxa-se de um lado e encolhe-se do outro...

Não basta opor-se aos caprichos do liberalismo econômico, com seu exército de reserva inclusive. Não é suficiente. Pois faz-se mister implementar políticas de controle populacional a nível global, por meio de incentivos inteligentes. 

04) Crê o senhor que a solução esteja no Comunismo?

Jamais acreditei no comunismo, mas nos comunistas ou em parte deles. Cuidando que fossem humanistas e assumissem a causa humanista da justiça social. 

Sei que há comunistas e anarquistas, assim marxistas, de boa vontade e comprometidos com a Ética da pessoa. Oriundos de outros sistemas valorativos e ignorando a doutrina de Marx tem eles certo sentido humano. 

No entanto...

05)  No entanto???

No entanto por defeito essencial é o marxismo um sistema materialista, mecanicista e determinista ou como dizem entre eles etapista - O que põe tudo que é humano a perder. 

Há marxistas excelentes apesar do marxismo ou do comunismo e são os marxistas levianos ou incoerentes.

Assim que se tornam sérios i é que se põem a ler as obras de Marx e assimilar seu pensamento tornan-se os marxistas insensíveis e cruéis. Pois o ideal metafísico da Revolução acaba substituindo por completo aquele ideal de justiça social ou promoção humana acima citado.

A partir daí passam eles a condenar com inaudita ferocidade todas as formas de reformismo social (As quais tem em conta de socialismos heterodoxos ou utópicos.): Assim o ativismo parlamentar, a formação educativa da consciência... 

Pois crendo que a consciência seja absolutamente determinada pelo modo de produção, acreditam que estruturas e homens só serão modificados quando o modo de produção capitalista por transformado pela Revolução proletária. No entanto para que as condições da Revolução sejam dadas é necessário que o modo de produção capitalista se desenvolva livremente e em máximo grau. Portanto, para os comunistas fiéis a Marx, deve o capitalismo ser implantado e desenvolver-se livremente a nível mundial e não ser limitado, contido, precocemente combatido, repudiado, reformado, etc Até que o modo de produção se desenvolva em máximo grau devemos apenas observar ou ficar na expectativa, crentes de que o capitalismo trás em si mesmo, em seu organismo ou em seu bojo os gérmens de sua destruição. É dele, do capitalismo, que partirá sua ruína e a passagem para a redenção cósmica i é para o comunismo. 

É portanto o capitalismo passagem, caminho, porta ou via de acesso ao mundo futuro. Fase ou período necessário dentro daquele esquema evolutivo e linear traçado por Marx. Etapa a que não nos podemos furtar... Conter o capitalismo é conter a revolução, e ser reacionário da pior espécie possível.

Daí os maravilhosos comunistas desconfiarem já dos trabalhadores mais humildes i é dos que mais sofrem e dos camponeses, os quais costumam censurar muito frequentemente acusando de imediatismo, na medida em que se preocupam antes de tudo com seus salários e com a condição do trabalho ao invés de pensar na futura Revolução. 

E pelo mesmo motivo, surpreendem a muitos, quando se unem aos capitães da indústria e campeões do liberalismo contra os interesses dos trabalhadores e os socialistas parlamentares ou reformistas, implementando a política desumana e cruel do 'Quanto pior melhor' com o objetivo de - Pasme leitor ingênuo - impulsionar ainda mais e tornar ainda mais forte o Capitalismo. Vargas foi inimigo odioso porque sancionou leis de proteção ao trabalho que de algum modo coibiam ou continham o capitalismo. Odiaram-no os liberais, herdeiros da velha política. Mas, odiaram-no acima de tudo os comunistas para os quais o céu ou paraíso comunista dependia antes de tudo do inferno liberal. 

De fato todos os analistas marxistas, a começar pelo próprio Marx e sem seguida com Engels e Sorel, supuseram (Demonstrando o quanto eram fracos de espírito e o quanto ignoravam a dinâmica da cultura.) que o parto cósmico aconteceria na Inglaterra, na Alemanha ou nos EUA... Por outro lado não puderam prever que nos países latinos, a partir do liberalismo econômico desbragado, teríamos uma safra de ditaduras... O que foi percebido apenas pelo heterodoxo H J Laski. Surpreendentemente a tal da Revolução acabou vingando num país tão agrário quanto a Rússia, o que fugia por completo as predições e esquema etapista de Marx. Dos problemas planteados por essa estranha Revolução surgiram diversas seitas, correntes e partidos que culminaram em expurgos. Apesar da NEP e dos expurgos conheceu a mesma Revolução significativas idas e vindas, até que por fim tornou ela ao vinagre, após sete décadas de sofrimentos... Outra não foi a sorte das Revoluções Mexicana e Chinesa, igualmente implementadas em países agrários e é claro não protestantes. 

Nas sociedades protestantes, por uma questão de cultura, desenvolveram-se as forças capitalistas de produção, e se acaudalaram, e se avolumaram, e engrossaram de um modo tal sem que no entanto sequer manifestassem mínimos sinais de simples insurreição... 

Raymond Aron, após ter sido ele mesmo marxista, feito já marxólogo, decifrou por completo o enigma dessa esfinge. Portanto nada devemos esperar do Comunismo, pelo etapismo mecanicista, colaborador servil do capitalismo.

05) E quanto o anarquismo, que pensar?

Antes de tudo jamais devemos dizer anarquismo e sim anarquismoS.

Pois tal e qual o Renascimento, a Reforma protestante, o Liberalismo, a Revolução Francesa, o Socialismo (Aos quais bem cabe um S) temos diversas formas de anarquismo bem distintas. 

De fato temos basicamente dois anarquismos:

# O Oriental ou Russo de Tolstoi e Kropotkin, no qual há um elemento humano ou pessoal a par se um elemento estrutural. A partir dessa saudável corrente - Que bem poderia ser chamada de sócio anarquismo, social anarquismo ou mesmo de socialismo anarquista. - foi que parte dos anarquistas passaram a insistir bastante na educação e na formação da consciência e da cultura a par da transformação econômica e política.

# E o ocidental cujas raízes tocam a Godwin e a Stirner e que foi desenvolvido na Europa por Proudhon (Embora Proudhon possa ser classificado como pensador original ou a parte.) e Bakhunin e nos EUA por Tucker e Spooner. Ora esta última corrente embricou com o darwinismo social (Spencer) e com o liberalismo econômico (Bastiat, Molinari, Mises, Rothbard, Friedman, etc) dando origem a ideologia ANCAP, o que já diz tudo. Para nós essa corrente representa um ideal tão sinistro quanto o comunismo. E representa um desenvolvimento natural e orgânico do liberalismo econômico, na medida em que um liberalismo econômico forte tende a descartar a esfera do político sobre a qual até então se apoiará. O reverso desta ideologia é o neo liberalismo irracionalista de Hayek, rebento do velho absolutismo, por meio do qual os reis todo poderosos serviram como capachos a um liberalismo ainda frouxo e temeroso face a Igreja Romana.

Quanto ao anarquismo russo ou oriental, mesmo quando exportado para o ocidente e remodelado, reconhecemos nele diversos valores, assim a superação do materialismo grosseiro, mecanicista, fechado e etapista dos marxistas por um sadio realismo que considera a força do elemento ideal ou imaterial; assim o consequente apelo a formação da consciência, a dinâmica da cultura e a educação, assim um apreço pela estabilidade social e pela paz em maior ou menor nível, assim um vigoroso questionamento face ao mito positivista do progresso incessante, ao progresso tecnológico e ao desenvolvimento econômico, assim o consequente retorno a natureza, a retomada das questões ecológicas... Cada um desses itens corresponde a um valor a ser assumido pelo homem ético do futuro, isto se queremos de fato sobreviver como espécie. Sim, o anarquismo porta em si mesmo certos elementos que são preciosos para todos nós seres humanos. Não Bakhunin com seu pensamento tão raso quanto o de Marx e nem Sorel mas Kropotkin, Tolstoi, Thoureau, Nearing...


06) Portanto não crê no senhor no paradigma da Revolução?

Com e como Bernstein acredito na Evolução e do Evolucionarismo, embora não de maneria simplista ou linear. Não acredito noutro gatilho da cultura além da educação i é de um processo regular de transmissão e reelaboração. Tampouco acredito que um ato de força possa alterar a dinâmica cultura. E menos ainda que as estruturas econômicas um vez alteradas alterem radicalmente a cultura, embora julgue que na atual conjuntura a implementação de reformar econômicas possam beneficiar o processo educativo, bem como as estruturas políticas em termos de qualidade.

07) É o senhor contra Revolucionário?

Sou cético quanto ao sucesso das Revoluções tendo em vista as pretensões dos revolucionários, o que  não significa que seja contra revolucionário ao menos no sentido corrente ou vulgar, segundo o qual seja necessário conter as revoluções por meio da força. Sobretudo quando contam com o apoio da população ou das massas sou contra toda e qualquer tentativa de repressão. Toda tentativa de repreensão a uma Revolução feita 'a posteriori' é burra além de potencialmente cruel. Já disse a exaustão e ainda repito: A Revolução, de modo geral, deve ser contida 'a priori' i é em suas causas ou preventivamente por meio de sábias reformas sociais. Por isso falo sempre em profilaxia das Revoluções. O liberalismo econômico no entanto, sendo irracionalista e cego por natureza converte-se em motor natural de tumultos, distúrbios e revoluções.

Salvo algumas possíveis exceções tenho postulado uma neutralidade absoluta por parte dos autênticos Cristãos e dos humanistas, face a quaisquer Revoluções. Como Berdiaeff só posso encara-las como uma Penitência imposta aos Cristãos por sua escandalosa omissão e por seus pecados sociais, frutos dessa vergonhosa mancebia com o liberalismo.

08) Fascismo?

O fascismo tem uma compreensão mais realista sobre a cultura e o passado, todavia, por não saber maneja-la recorre - Exatamente como burgueses e revolucionários - ao padrão da força até chegar ao militarismo, ao autorismo e ao totalitarismo; tal sua grande miséria, chega perto da solução do problema mas não soluciona nada. Alias dependência de Sorel é manifesta: Tanto o carrasco Mussolini quanto o prisioneiro Gramsci eram leitores acríticos de Sorel e nisto iguais a Lênin. 

Para além disto a antropologia fascista é a mesma antropologia venenosa do integralismo, tributária do pessimismo agostiniano tal e qual a reforma protestante e o jansenismo, em oposição a certas correntes Dominicanas e a escola Jesuíta, o que é para lamentar-se. Devido a tal antropologia anti natural e maniqueísta (Alias abraçada por Sorel.) desconfiam eles do povo, da sociedade e consequentemente da Democracia julgando que a pessoa deva ser contida por essa igreja secularizada que é o Estado, com sua inquisição secular e autos de fé secularizados. 

Enquanto Sócrates fazia uma crítica construtiva não a democracia mas a qualidade dos democratas e a um estruturalismo formal que já se esboçava, os modernos partem para uma crítica ontológica ou essencial cujo fundamento mais remoto é esse tipo de antropologia jamais sancionada mesmo pela Igreja romana com a doutrina da graça forte ou capacitante. O que eu não consigo entender é como a Igreja romana tolera a presença de tais pessoas em seu seio ao invés de remete-las ao luteranismo, ao calvinismo ou ao jansenismo que é o lugar delas. No entanto bem conhecida é a tolerância do romanismo face ao agostinianismo, fonte de todas as nossas tragédias.

A partir de uma petição cega ao padrão da autoridade chegamos pelo militarismo a doutrina perversa da obediência cega, a qual ignorando os preceitos transcendentes da justiça, caí sob as críticas de Sócrates, Platão e Jesus. Pois pouca diferença há entre a doutrina do sacrifício patriótico e as doutrinas da Razão de Estado e da Vontade geral, uma após a outra adversárias do homem e do humano.

Todos esses vícios terríveis se acham presentes nessa cultura de morte.

09) Nazismo?

Abominação da desolação e a mais primitiva das culturas de morte.

10) Democracia?

Não é a democracia que temos a democracia que queremos e tampouco corresponde a nosso modelo grego que era direto mas a um modelo delineado na Inglaterra burguesa por J Locke. 

Temos assim uma estrutura formal bastante precária, que corresponde a um esvaziamento, restrição e perda de qualidade por parte do político, como foi observado por Arendt.

Ademais por ter surgido em tais condições e portar defeitos estruturais foi essa forma 'contemporânea' quase que de imediato cooptada pelo liberalismo economia. O que não significa que todas as formas de Estado, compreendido como forma de organização social e política, tenham tido o mesmo destino ao cabo da História. 

Agora por serem e terem sido tanto mais permeáveis ao gerenciamento econômico por parte da burguesia, foram as democracias contemporâneas denunciadas com veemência pelo anarquismo, até o iconoclasmo. 

Como os comunistas ao fim do curso ordinário das coisas postulam o fim das 'classe' sociais os anarquistas postulam o fim do Estado - Concordaríamos com eles em se tratando do fim da autoridade arbitrária ou abusiva, todavia em se tratando do fim da autoridade em si mesma somos completamente céticos. Para nós ambas as propostas não passam de propostas duvidosas quanto a um futuro incerto. Pois não conhecemos sociedades sem divisão social ou exercício da autoridade. 

Não acreditamos portanto na destruição da democracia burguesa ou formal por qualquer tipo de evento cósmico ou revolução, mas em sua transformação por dentro, a partir de reformas políticas que venham a amplia-la cada vez mais até converte-la numa democracia autêntica, popular e direta, conforme o modelo clássico. Julgamos portanto que a democracia burguesa corresponda a uma passagem institucional para a democracia direta. Claro que para não cairmos numa oclocracia ou num domínio das massas, como advertiu Ortega y Gasset, temos de secundar as reformas políticas com um maciço investimento nos domínios da Educação, assim de criar democratas para o exercício da democracia ou ainda de produzir homens e mulheres a altura das instituições. Jamais devemos dar as costas a formação e produção de consciência enquanto transformamos as estruturas, sob pena de tais transformações serem inúteis. 

11) Implica portanto uma ruptura com o formalismo/estruturalismo democrático de viés positivista?

Sem dúvida.

Impossível falar em democracia, e aqui partimos da França, sem falar em Liberalismo político, e aqui partimos da Inglaterra.

Democracia sem liberalismo político e Ética é como corpo sem espírito ou alma.

Podendo inclusive, a partir da doutrina da Vontade Geral de Rousseau, converte-se num autoritarismo disfarçado e ainda de assumir uma forma totalitária. 

Mesmo sendo direta a democracia continuará pertencendo a esfera do político e portanto a uma esfera por definição, limitada - Posto que pertencente as coisas que são comuns, em oposição ao gênero de coisas que são privadas e que se encontram fora de sua alçada.

Democracia sem liberalismo político torna-se demasiado ampla e indigesta, por ultrapassar seus próprios limites ou suas próprias fronteiras e degenerar. Portanto a primeira baliza conceitual é a do liberalismo econômico.

A segunda é a necessidade de um recheio ou conteúdo Ético portada pelos atores políticos ou pelos democratas. A democracia concede oportunidades políticas a todos. No entanto caso esses todos sejam em sua maior parte canalhas, como estrutura ou forma que é, a democracia não fará milagres. Portanto a par de manter as estruturas democráticas temos também de produzir cidadãos virtuosos ou éticos, comprometidos com princípios e valores humanistas. Sob pena de vermos nossa democracia vir abaixo. A advertência de Sócrates sempre será válida - Democracia para a aristocracia da virtude ou para que os melhores e mais excelentes tenham acesso ao poder. 

Caso não cuidemos do homem e de sua formação a democracia não nos salvará. Não nos enganemos, não nos iludamos. Melhor conhecer bem as limitações de nossa democracia para maneja-la com máxima habilidade. 

Estruturas não salvam ou salvarão a quem quer que seja, por terem de ser ocupadas por homens dignos. Em não havendo homens dignos tudo estará perdido.

12) E as 'cruzadas' ou expedições democráticas feitas pelos EUA?

Pura e simples continuação do espírito jabobino e revolucionário (Este espécie de ponte entre o primeiro modelo revolucionário, protestante, detectado por Sorel, e as revoluções contemporâneas.).

 Para nós é tal prática contraproducente. Posto que cada sociedade ou cultura deve fazer seu próprio caminho. Democracia é algo que deve partir de dentro da própria sociedade como que brotando da consciência e não algo a ser formalmente imposto por um poder externo. Alias nada mais contraditório e anti democrático que impor a democracia... O que chega a ser escandalosamente vergonhoso.

Impossível criar uma vida democrática onde não há espírito democrático. 

Alias a grande tragédia da modernidade já foi descrito por um acurado analista J M de Carvalho em termos de inversão. Na medida em que a criação das instituições e estruturas precedeu a formação do homem e a afirmação dos direitos. É isto criar umas casca ou crosta não conteúdo. 

Tanto pior quando nos EUA é o ideal democrático sordidamente usado com o objetivo de satisfazer necessidades econômicas, assim de pilhar ou parasitar outros países, o que já foi classificado como pirataria democrática. Nada mais comprometedor para o modelo democrático. Com suas agressões, ataques, invasões, etc os EUA, prestam imenso deserviço a vida e ao espírito democráticos.

13) As guerras?

São justas as guerras quando esforço de defesa contra um Estado ou uma Sociedade agressora.

Já as guerras agressivas ou de conquista são execráveis e deveriam ser rigorosamente proscritas e punidas por um tribunal internacional. 

Mesmo o emprego da violência racional e controlada por qualquer sociedade deve ser cuidadosamente ponderada de modo a se evitar possíveis excessos e abusos que porventura tornem ainda mais sofrida a condição do povo, posto que durante as situações de anomia parte dos indivíduos costumam a tirar proveito com o objetivo de praticar crimes, maldades, retaliações, vinganças, etc (Conferir D'Apchon 'O Irenophilo...' o que como disse acima deve ser evitado com máximo rigor.

O próprio Sorel reconheceu que a violência sempre pode sair do controle e o mais que fez foi conjecturar sobre um futuro incerto ou profetizar. De modo que o recurso a força ou a violência deve ser sempre o último a ser empregado, após terem sido esgotadas todas as outras possibilidades face a uma situação de injustiça e crueldade insuportável.  

Já disse, somos totalmente contra qualquer tipo de mística criada em torno da violência ou de qualquer entusiasmo face a seu emprego. É a violência semelhante a um veneno ou a uma droga que deva ser manipulada com todo cuidado e empregada meticulosamente.

14) Culturalismo?

Sem dúvida.

É a cultura que faz o homem pois o homem é prisioneiro da cultura. 

Uma visão realista de cultura considera tanto o poder da matéria ou da estrutura quanto a força do imaterial, do espírito ou das ideias. 

Julgo que tais estâncias sejam quase equivalentes. 

15) Quase...

Parece-me inquestionável  que a dimensão material exerça imensa influência sobre os seres humanos, cria possibilidades e firma condições. Parece alias que a maior parte dos seres humanos ou as massas ainda se movam apenas nesse nível.

Todavia, apesar disso, parece-me que as transformações, as rupturas, o progresso, o avanço, a mudança, a cultura, etc partam de um princípio dinâmico que é a mente, o pensamento, a criatividade, a racionalidade, a livre iniciativa... Assim ao imaterial, ideal ou espiritual, realidade que julgo ser mais forte e capaz de sobrepor-se a influência da materialidade; ao menos em alguns momentos. Momentos que correspondem as grandes transformações que marcam a História. Quando o meio oferece oportunidades ou condições é o ser humano que tira partido deles para supera-las e superar a si mesmo. 

16) Interacionismo...

Inclusive nos domínios da Educação por não ignorarmos o que é dado, e tampouco o fenômeno humano. Pois se admitimos portar um sistema operacional em termos de racionalidade e esquema de linguagem tampouco questionamos o papel do homem como sujeito do conhecimento. 


Continua -


quarta-feira, 21 de julho de 2021

Crônicas de uma subida... De Santos a São Paulo - SP

Como frequentemente faço embarquei pela manhã, alias manhã ensolarada, no Terminal Rodoviário de Santos - SP, rumo a S Paulo Capital. 

Trajeto que há dois séculos passados levaria mais de um dia e nos séculos XVI/XVII cerca de dois dias.

Horrendo era o caminho do Pe José, o qual parece que subia de penedia em penedia através de colossais torrões de barro... As coisas só vieram a melhorar no final do século XVIII com a calçada do Lorena e, em seguida, com o aterra do Cubatão e o caminho novo ou do Imperador, embora D Pedro I tivesse seguido pela calçada do Lorena. Depois vieram a Estrada velha, a Anchieta e enfim a nova Imigrantes, pela qual fazemos o mesmo percurso em menos de uma hora e sem quaisquer solavancos.

Excepcionalmente - Ao menos para mim que subo algumas vezes por mês - era possível contemplar, em meio ao azul oceânico, a distante Ilha da Moela. Na qual Paulo Freire de Andrade assentou o primeiro Farol do Estado de São Paulo em 1830, isto sobre um cômoro de noventa metros de altura. Uma bela e grandiosa visão. - A qual não tardou a desfazer-se...

Pois assim que chegamos ao Planalto pudemos observar ao lado esquerdo, praticamente dentro da Mata Atlântica uma espécie de bairro cuja presença ainda não havíamos detectado, o qual pela extensão e pela visão do barro remexido nos pareceu ser recente. Tenho certo para mim que aquele espaço é de preservação. Pois como disse é uma espécie de ilha no meio da Mata... 

E assim, de uma visão celestial, produzida pela natureza, chegamos a uma visão infernal produzida pelos seres humanos: A destruição da natureza...

Pois é enquanto alguns parasitas sem consciência tomam um foguete e vão passear pela estratosfera é esta terra, sobre a qual pousamos os pés, diariamente agredida e desfigurada.

Afinal se ao subir a serra do Mar, no curso da nova Imigrantes, e, de dentro de um ônibus, somos capazes de perceber o crime abominável, como crer que as policiais - Ambiental, militar ou civil não o percebam? Ou será o caso - Mais grave ainda - de que o tenham percebido e, se omitido, nada tenham feito? Agora se nada querem fazer por que raios não acionaram as autoridades ambientais, o ministério público, etc Não se sentem seguros para realizar uma operação? Por que então não recorrem ao Exército, a propósito do qual é costume recorrer a propósito de qualquer coisa neste país?

Hábeis para agredir e surrar professores, trabalhadores, cidadãos que protestam contra o governo tirânico, alienados mentais, etc, etc, etc por que temem defender a mãe natureza e, se necessário for, remover aqueles que porventura tenham ocupado espaços de proteção ou reservas?

A resposta face a omissão do Estado, da Sociedade e dos poderes públicos parece ser simples: A natureza não fala, a flora não grita, a fauna não berra... É a natureza muda e nós surdos face a seus clamores. Ficando ela sujeita a toda sorte de abusos e crimes monstruosos.

Inútil criar leis e estabelecer decreto se a natureza não pode clamar por proteção, assim falar, gritar, berrar, denunciar os crimes cometidos contra si e clamar por providências. Quem deveria fiscalizar, falar, gritar, berrar e clamar por ela somos nós... E por isso vai mal e muito mal a situação.

Pois a maior parte de nós ou daqueles que se dizem Sapiens ainda não conectaram nossa sobrevivência a sobrevivência do planeta.

Cegos pelo antropocentrismo cultural acreditamos pertencer a uma espécie a parte e poder viver sem a natureza. 

De fato a maior parte de nós é ignorante, burra, desinformada, estúpida, imbecil, tola, idiota... semi alfabetizada, etc tendo muito dificuldade para compreender o ciclo do ar ou da água. Mais fácil imaginar nosso Bom Deus lançando água a terra com um regador gigante ou fabricando ar... 

Tais os alienados, que se preocupam mais com a sexualidade alheia, com o cardápio alheio, com o traje alheio, etc do que com o que realmente importa: A condição da natureza, o crescimento populacional e a miséria - Já por que a miséria interage com o crescimento populacional, estimulando-o... e dando origem a um ciclo vicioso mortal. O que deveria chocar os seres verdadeiramente humanos, racionais e conscientes não é nudez alheia mas a extinção de qualquer espécie vegetal ou animal, o que infelizmente, encaramos como algo trivial... Sim, para nós o desaparecimento de uma forma de vida que levou milhões e milhões de anos para manifestar-se não passa de banalidade> A novela, o futebol, o carnaval e o frenesi religioso parecem bem mais importantes do que condição da terra nossa mãe.

Classificarei socraticamente a gente acima como parte das massas alienadas.

Há no entanto aquele outro perfil ou tipo de gente, ignorado pelo moralista grego. 

Refiro-me aos malvados i é aos voluntariamente maus.

Asim aquele que diante deste grande problema, que é o problema ecológico (O mais premente dentre todos!), limitam-se a dar com os ombros e a cogitar: Após mim o dilúvio, julgando que quando a catástrofe começar não mais estarão por aqui. Aqui o pior tipo de gente, a gente individualista, egoísta e desalmada, a qual não se importa sequer com o futuro de seus próprios filhos, netos e descendentes. Pouco se lhes dando que vivam em cercados por uma atmosfera poluída, em meio a excessos de calor, caminhando sobre uma terra contaminada, servindo-se de água suja, sujeitos a situações de fome e contemplando um cenário de imensa feiura... Tais os arquitetos do inferno, do inferno concreto, do inferno real, que desde alguns séculos aperta seus tentáculos em volta desta pobre terra.

Essas pessoas respeitáveis, que pensam somente em trabalhar, vencer, lucrar, enricar e desfrutar. Essas pessoas maravilhosas que pouco se informam sobre as condições do planeta e se recusam a criticar o sistema. Essas lindas e mimosas criaturas que folgam em negar o óbvio, estão condenando os homens e mulheres do futuro próximo a uma morte lenta, indigna e dolorosa num cenário de horror. Pois estão sujando, poluindo, emporcalhando e devastando nosso ambiente, nossa casa, nosso lar... Mesmo quando sabem muito bem que não dispomos de outro, ao menos fora da ficção científica.

Aquele que se recusa a considerar o futuro de seus próprios filhos, carne de sua carne e sangue de seu sangue, só pode ser visto como pérfido mau caráter, como canalha e como sacripanta. Afinal quem não tem compaixão de seus próprios descendentes, recusando-se a pensar neles, como haverá de se preocupar com os demais seres humanos? Desde que eu esteja bem, os demais que se ferrem... Tal o lema dessa gente para a qual a causa a ecologia é ociosa. Pois aqui já não estamos mais diante dos devaneios metafísicos de comunistas e anarquistas em torno da querida revolução, e sim diante de um problema palpável e real, que diz respeito ao futuro da espécie. 

Curioso que os marxistas ortodoxos, sejam comunistas ou anarquistas, tenham de fato admitido tão estúpida e cruel premissa segundo a qual deve o capitalismo desenvolver-se ao máximo sem quaisquer empecilhos ou atenuantes, quando de tal desenvolvimento só poderia resulta a calamidade e ora temos a desdita de contemplar: O colapso da mãe natureza, a agonia do planeta, a destruição de Gaia... Do desenvolvimento estrondoso das forças de produção capitalistas - Em que pese o imenso esforço de reformistas de toda casta no sentido de conte-lo. - o quanto resultou foi termos acionado a sexta grande extinção em massa. A qual, não fossem o empenho de gerações e gerações de socialistas parlamentares, reformistas utópicos, sociólogos de gabinete e humanistas de casta, teria já explodidos há dois ou três séculos, essa bomba mais letal do que milhares de bombas de neutrons.

Sejam os créditos atribuídos ao capitalismo, mas também aos marxistas etapistas, materialistas e deterministas, com sua política diabólica do 'Quanto pior melhor' ou de dar corda ao capitalismo e sabotar o reformismo. 

A bem da verdade o capitalismo, esse monstro de avareza e irracionalismo, jamais devería ter vindo a luz do sol. Deveria ter permanecido trancafiado no abismo em que fora posto pela Igreja antiga e lá ficado, contido e preso. A Reforma no entanto destampou a caixa... Enquanto os etapistas julgaram proveitoso contemplar o crescimento da Hidra... O que vemos hoje é, repito, a mãe natureza agonizando. Chegamos as portas do abismo e nada de gatilho metafísico ou de transformação mágica. Nem depois, nem antes, posto que a URSS foi o que tinha de ser: Um estrondoso fracasso. Assim o México e a China... Enquanto tais peripécias aconteciam era a natureza atacada por todos os lados, como continua sendo atacada hoje, uma vez que não pode defender-se ou gritar.

A força ou melhor dizendo a violência foi aplicada na direção errada. 

Pois poucos cogitaram ou cogitam defender os vegetais e animais que sofrem violência por parte dos homens irracionais.

Poucos, muito poucos tem cogitado não em revolução mas em algo bem mais simples, i é em proteção, em proteger a natureza nossa mãe contra o terrorismo do capital.

Capitalistas, comunistas e parte dos anarquistas são culpados face da destruição do planeta e o extermínio de tantas formas de vida. 

Bem, tornando a serra do Mar, a Baixada, a S Paulo, devo dizer que antes de chegar ao Planalto, ainda na Baixada ou Cubatão também pude observar que a comunidade carente que fica localizada a esquerda da Imigrantes se tem alastrado ainda mais em direção do Manguezal, que é um bioma protegido por Lei. Mas quando não se trata de bater em professores ou grevistas onde está a Lei? Quem ousa ir até lá fiscalizar, conter, remover??? Ninguém... Ninguém... Pois o manguezal não fala, não grita, não pede socorro - Agoniza lentamente... E para muitos sequer passa de um lugar lamacento ou sem importância alguma.

Cadê o exército? A polícia civil? A política ambiental? O ministério público? Os políticos gananciosos por votos? Os cidadãos??? 

Ao subir a baixada e observando como ocupações ilegais proliferam de cima abaixo fico a pensar sobre quanto tempo o entremeio i é a mata existente na escarpa da Serra sobreviverá - Pois houve ou há ali uma Vila Parisi... Quanto tempo levará para que, face a conivência das autoridades, passem os desterrados a ocupar as as margens do Rio Quilombo, o Vale e em seguida todos os declives daquela selva ou melhor, daquele paraíso terrestre tão poeticamente descritos por um Mawe, por um Pinck, por um Zaluar, etc Naquele triste dia, graças a omissão geral que lavra neste tempo, as árvores e cachoeiras se tornarão tão históricas quanto as figuras de um Anchieta ou de um Pedro I, e existirão apenas enquanto vestígios do passado. Será que ainda existiremos nós enquanto espécie? E qual será a condição de nossos filhos?



domingo, 18 de julho de 2021

O Karma ou a roda do Comunismo, de Marx e de Sorel...

Sabido é que mantenho franco diálogo com representantes de pensamento, isto a ponto de ter assistido, como convidado de honra e observador, a todo tipo de reuniões ideológicas. Tenho os ouvidos abertos a todos pois gosto de conhecer ou de aprender e não apenas por meio dos livros, embora eles também ajudem muito, especialmente quando vamos as fontes primárias ou aos autores e suas obras. Alias só não atendi aos convites dos maçons e não as reuniões a que fui convidado porque não me interesso pelo que seja oculto, mas apenas pelo que é público. 

Por isso quando mais moço fui as reuniões dos comunistas, os quais alegavam - Alguns quiçá sinceramente, e outros por bravata. - se terem conciliado com o pensamento democrático e superado o paradigma da Revolução violenta. Observei tudo muito atentamente e não tardei a perceber a terrível contradição existente entre o pensamento de Lênin e o pensamento de Marx e Sorel, mesmo quando Lênin tenha tomado seu éthos revolucionário a Marx e seu método a Sorel. Sucede no entanto que por questões de princípios e coerência lógica Marx e Sorel eram etapistas, julgando que a Revolução seria acionada pelo máximo desenvolvimento do modo capitalista de produção, assim na Inglaterra, na Alemanha ou nos EUA, jamais na Rússia, quase feudal e eminentemente agrária do Czar. 

Posto está que numa Rússia agrária e feudal Lênin não esperou pelo kairós assinalado por seu guru mas ousou agir sem esperar pelo momento histórico e cuidou poder fazer avançar o processo histórico, e agindo assim inverteu e subverteu o marxismo, enquanto esquema dado e modelo pronto, antepondo a Revolução ao desenvolvimento das forças de produção que deveriam aciona-la e transplantando o desenvolvimento das forças de produção capitalistas para depois da Revolução soviética. 

É portanto, perfeitamente natural e compreensível, que a decisão de Lênin e o sucesso da Revolução tenham planteado aos revolucionários bolcheviques toda uma série de problemas jamais imaginados por Marx, Engels ou Sorel, o quais haviam imaginado outro esquema ou outra realidade. Tais problemas a seu tempo receberam distintas respostas por parte dos pensadores comunistas russos, do que resultou a fragmentação, o sectarismo, o conflito e a confusão - Até Trotzky, Preobrajenski, Bukharin, etc ninguém sabia ao certo como lidar com aquela realidade a parte do esquema.

Basta dizer que parte dos Comunistas, e começaremos a crônica da loucura por aqui, eram favoráveis a promover o desenvolvimento das forças de produção nos termos capitalistas ou liberais, enquanto outros propunham a industrialização forçada do campo quase que nos mesmos termos, e por ai adiante.

Claro que outros tantos comunistas ficavam chocados diante de tais propostas e no entanto eram elas coerentes e partiam do etapismo marxista. 

Faço agora uma pausa e torno a minha experiência com os comunistas.

Vez por outra tive ocasião de em alguns autores apostólicos romanos - Quem sequer pertenciam a teologia da libertação, sendo quase todos anteriores ao Vaticano II - (Alguns padres inclusive.) que apesar de seus vícios e erros possuía o comunismo uma vantagem face ao liberalismo econômico ou o capitalismo, e era esta vantagem um sincero desejo de resgatar o homem da opressão (Um certo humanismo), certa compaixão pelos oprimidos e um sentido de justiça social... Após ter convivido com os comunistas de hoje e buscado conhece-los não mais posso corroborar esta premissa humanista... Após ter lido as "Reflexões sobre a violência" de Sorel devo confessar que ao menos parte dos comunistas não partilham de tais princípios. Marque isto leitor amigo!

Todavia antes de tornar ao marxismo para confrontar os marxistas fortes e coerentes, devo dizer duas palavrinhas sobre o anarquismo e declarar que sua condição é muito pior, posto que ao veneno materialista mecanicista juntam um psicologismo mais forte, um iconoclasmo mais amplo e certa doze de individualismo (O que faz dele uma ideologia muito mais virulenta.) O Comunista coerente, após percorrido o caminho, aspira derrubar o modelo econômico atual que ajudou a desenvolver-se, certo de que a estrutura cairá por si mesma. Enquanto o anarquista tudo aspira derrubar e destruir junto com o modelo econômico sem aguardar qualquer transformação orgânica. 

Quando passei a conviver com os comunistas - Como convivi com os fascistas, com os anarquistas e até (Pasme leitor!) com os protestantes (Pois meu irmão e eu fomos observadores num curso de Teologia protestante.) - algo chamou de imediato minha atenção, o famoso grupo do 'Quanto pior melhor', amiguinhos do DEM ou do antigo PFL e do PSDB, que pretendem assistir impassíveis ou melhor complacentemente a marcha do capitalismo e seu fortalecimento no Brasil. Parte dos quais não apenas nutrem um ódio feroz contra aqueles que por meio de reformas procuram atenuar ou conter o capitalismo como chegam a unir-se frequentemente com os janízaros do capital contra os socialistas parlamentares ou sociais democratas.

Na primeira reunião deles que assisti chamei um desses srs a parte e pus-me a solicitar suas razões, motivos, etc Ele no entanto não soube ou não quis responder-me. Posteriormente outro deles, este leitor compulsivo dos teóricos (O que não é comum entre eles!) polemizou com meu irmão alegando que os socialistas parlamentares, sociais democratas e reformistas eram os inimigos por excelência, traidores e apostatas por haverem abdicado do ideal revolucionário e dos meios porque seria ele atingido: O livre desenvolvimento do Capitalismo ou do modo de produção burguês, o qual de modo algum deveriam ser atalhado ou combatido, já porque continha em si mesmo os germes de sua destruição. 

Contendo ou suavizando o capitalismo por meio de reformas políticas inspiradas por uma Ética humanista o quanto fazíamos era conter o fluxo da História e postergar a Revolução. 

Lembrava-me disto e sabia o sentido mas não havia aquilatado a malignidade intrínseca. 

Até o dia em que lí, e a leitura é recente, as "Reflexões sobre a violência" de G Sorel, o qual, quanto a isto, é marxista ortodoxo e mais exaltado que os próprios comunistas.

Pois nada equivale a testemunhar um teórico do Escola referendando com suas palavras tudo quanto havíamos já havíamos intuído sem no entanto querer acreditar, por ser o que é... Mas é.

Também meu irmão, que chegou a ser anarquista ao modo de Tolstoi e Kropotkin, tendo por isso convivido com os 'ocidentais' de Bakhunin e com os libertários dos EUA (Aos quais jamais poupou severas críticas, até desvincular-se do anarquismo por causa deles.), tem se perguntado a cada dia, durante os últimos seis anos, por que os mesmos anarquistas que moveram guerra atroz a ex presidente Dilma toleraram de muito bom grado não apenas o ultra liberal canalha do Temer mas até mesmo o Bolsonaro, esse fantoche da teocracia e títere da bancada evanjéguica?

Pois é questão que se planteia e grave questão.

Por que raios os comunistas aderiram a aliança liberal contra esse mesmo Vargas que de bom ou mau grado reconheceu os direitos dos trabalhadores? Por que na Espanha foram contra Franco, em Portugal contra Salazar, na Argentina contra Peron e na França contra De Gaulle quando todos estes eram combatidos pelos liberais economicistas? Por amor ao política liberal ou as instituições democráticas? Pera lá - Não são os comunistas inimigos inconciliáveis da democracia burguesa e da política parlamentar, partidários da Ditadura do proletariado e do liberalismo moral ou pessoal? Então por que raios se uniram a oposição capitalista em todos esses países? Qual o segredo de tostines?

Sabido é que parte desses ditadores, tal e qual Hitler e Mussolini, foram alçados ao poder num cenário político formalmente democrático pelas massas lançadas numa situação de extrema penúria e angústia, pois haviam captado os anseios imediatos das massas e acenado com reformas destinadas a conter o espírito do capitalismo em ascensão. O que de modo algum havia ocorrido aos comunistas e anarquistas, os quais tentaram em vão conquistar os trabalhadores ( E de fato não pouparam e não poupam esforços para isso.) e mesmo camponeses com suas propostas abstratas e futurescas na direção de uma metafísica revolucionária, insistindo na preparação da Revolução futura. O bom povo no entanto, sejam funcionários públicos, camponeses ou mesmo a maior parte do que chamam de proletariado, jamais se interessou pela tal mudança cósmica futura. E mesmo na Rússia eles só conquistaram a adesão dos camponeses e obtiveram a vitória acenando com a Reforma Agrária.

Quanto aos países protestantes - Onde Marx e Sorel, péssimos conhecedores da cultura, imaginavam explodir a tal Revolução - um ideal funesto imposto pelos pastores tem resistido a todas as forças produtivas por mais de século e meio...

Os nossos no entanto, a suportar a indignidade imposta por um capitalismo plenamente consciente e imperioso, preferiram cair nas garras dos ditadores e demagogos que lhes acenavam com reformas.

Naturalmente que os janízaros do capital denunciaram-nos e combateram-nos desde o princípio, alegando motivações democráticas, quando as verdadeiras motivações eram econômicas: Manter a auto regulação ou as imunidades do capitalismo, e fugir as odiosas reformas. O quanto eles desejavam era manter o trabalhador como vil escravo e é de fato chocante que a proposta de uma emancipação sumária tenha partido de ditadores, porém tal se deu em todos os países citados. São fatos - Que fazer? Assim o é ou foi.

Agora por que raios os revolucionários comunistas fizeram pacto de aliança com os tais Capitalistas e burgueses se não comungavam do valor comum em torno da democracia formal? Alguém me pode dar uma resposta satisfatória? 

A partir de Sorel, interprete fiel do sr Marx posso da-la eu.

Justamente por que os tais ditadores odiosos eram tão reformistas quanto os socialistas parlamentares e a sra Dilma Roussef. E basta ser reformista ou pensar conter o capitalismo para exasperar todos os revolucionários sejam comunistas ou anarquistas. Pois foge a seu esquema etapista, segundo o qual cumpre ao capitalismo desenvolver ao máximo suas forças, aprofundar a luta ou conflito social, inspirar ódio mortal ao proletariado e acionar a desejada revolução, não havendo outra via de acesso, passagem ou caminho.

É o desenvolvimento modo de produção burguês que criará as condições para a Revolução comunista, é ele que nos conduzirá a ela, é ele que a deflagrará. 

Sociólogos humanitários, clérigos justicionistas, socialistas parlamentares, democratas reformistas, ditadores sagazes, sindicalistas imediatistas, etc são todos e efetivamente todos adversários da Revolução na medida em que tentam conter ou fazer recuar o poder do grande capital ou amenizar as mazelas produzidas por ele. Para que surja a revolução a tensão deve agravar-se e não diminuir. 

Perceba, para o comunista leal, para o marxista coerente e para o materialista compenetrado, tais grupos só podem ser vistos como perniciosos e odiosos em máximo grau, pois são os traidores que repudiam formalmente os ensinos de Marx e Engels e que fazem abortar o grande dia. O reacionário portanto, aquele que sonha com uma sociedade economicamente equilibrada ou com a extensão das classes médias, com a estabilidade e com a paz social, é o inimigo por excelência, o proscrito, o maldito.

Quem sabe por que os comunistas maravilhosos se opuseram a Vargas não tardará a intuir porque os anarquistas que combateram Dilma não se empenham em combater seus sucessores. Dilma era a inimiga, assim Lula, posto que uns e outros pretenderam conter a fúria capitalista ou liberal por meio de reformas, i é, porque eram reformistas. Dilma e Lula eram e são ameaças concretas ao destino da sociedade brasileira pelo simples fato de terem buscado a justiça social e aliviado a situação de milhões e milhões de criaturas humanas. No entanto se o preço pago pela promoção humana e pela justiça social é postergar a gloriosa ruptura chamada revolução é um preço demasiado caro - Ferre-se a justiça e vá as favas a promoção humana, pois o que importa é o 'ideal' ou projeto futuresco de Revolução.

É Sorel quem o diz e em alto e bom som: O Verdadeiro revolucionário seja comunista ou anarquista não cogita em Justiça, conceito subjetivo e embaralhado sem maior conteúdo ou valor (Aqui Litreé, Ayer e outros positivistas concordam.). Tampouco (Sendo ateísta.) considera ele algo a semelhança de uma lei natural ou em termos de essencialidade, o que serve unicamente aos poderosos (Aqui mostra ele imensa ignorância em termos de História já quanto o socratismo grego, já quanto o Cristianismo antigo.). Ademais o Revolucionário nada busca de imediato, nem mesmo aliviar os sofrimentos, dores, e angústia dos trabalhadores, mas apenas a Revolução futura, a qual absorve todos os seus cuidados...

Portanto o que dizem alguns Cristãos e padres sobre a busca dos comunistas pela justiça social e dos anarquistas quanto aliviar o sofrimento humano, pode até ser válido por parte de alguns deles - Mormente quanto aos que procedem do papismo, da ortodoxia, do espiritismo, do judaísmo ortodoxo, do budismo, etc e que mantém os valores recebidos ou a cultura (Mesmo caso dos ateus não marxistas ou anarquistas.) - mas não quanto a totalidade deles, especialmente quanto a parcela que nasceu e foi educada no sistema, estando familiarizada com os ensinamentos de Marx e chegado a introjeta-los. Caso sejam coerentes eles chegarão a doutrina do 'Quanto pior melhor'.

Posso pensar ou imaginar algo semelhante a tal padrão de pensamento, materialista, evolucionista, linear e mecanicista?

Sim posso e de fato existe um sistema religioso bastante parecido nos confins do Oriente.

Compreendo que parte do espiritismo kardecista tenha se esforçado, a luz do Evangelho a separar o veículo instrumental da reencarnação da doutrina metafísica do Karma. Por isso parte majoritária dos espíritas preconizam a prática fervorosa das boas obras. Ocorre-me no entanto, ao folhear certo livro doutrinário de origem espírita, em que o autor atribui esse zelo pelas 'imoderado' por boas obras a cultura 'católica' ou melhor apostólica romana, prevalecente no Brasil. Advertindo que a doutrina do Karma considera que é sempre melhor não beneficiar o outro, pois o benefício aparente equivale na verdade a um estorvo.

Advirto mais uma vez que a maior parte dos espíritas não compactuam com tal juízo extremado, buscando manter a doutrina da reencarnação, sem no entanto apresentar a doutrina do Karma como uma roda inexorável ou samsara. Por isso mesmo os espiritas que de algum modo referem ao Karma e buscam exercer a caridade são frequentemente apresentados como incoerentes não apenas pelos papistas e ortodoxos mas até mesmo pelos protestantes. Situação delicada.

Outro o caso do hinduísmo. O qual não se tendo deixado influenciar pelo Evangelho ou pelo Cristianismo, além de carregar o conceito de Karma ou samsara aduziu uma série de postulados éticos ou morais que consideraríamos aberrantes.

Se no marxismo temos uma metafísica materialista e determinista mecanicista no hinduísmo temos uma metafísica espiritualista ou espiritual igualmente determinista mecanicista, a qual face a dor e ao sofrimento leva as mesmas e exatas conclusões: A inação, a não interferência ou a omissão, enfim a uma insensibilidade monstruosa.

Não, não exageramos ao comparar a metafísica marxista com a metafísica hindu, posto que são ambas deterministas, mecanicistas e etapistas.

O princípio do Marxismo já expusemos tanto neste artigo como no anterior, sobre as correntes sociológicas. O princípio do hinduísmo ou da samsara fundamenta-se na crença de que todo e qualquer sofrimento porque passe o homem no curso desta vida é resultado de algum crime ou pecado cometido da vida precedente. Afinal reencarna o homem para fazer penitência ou pagar pelos pecados cometidos durante a existência anterior. Algo tipo a pena de Talião: Pé por pé, mão por mão, cabeça por cabeça. A conclusão é obvia: Cada sofrimento neste vida é uma oportunidade para pagar uma maldade cometida na outra e purificar-se. É o sofrimento físico o modo porque nos purificamos e nos aproximamos da perfeição. Daí a necessidade de aceitar resignadamente os sofrimentos... Tal no entanto não basta, pois na medida em que por compaixão interferimos no processo, com o objetivo de aliviar ou eliminar o sofrimento alheio estamos privando aquela pessoa de uma oportunidade para purificar-se. Portanto ao conceder-lhe um benefício imediato ou material estamos na verdade a prejudicando-a, tipo fazendo-lhe mau quanto ao plano mais elevado ou espiritual.

Por isso o hindu consciente e devoto tenderá ser indiferente aos sofrimentos humanos, já que sofrimento equivale a purificação.

A doutrina ou a teoria pode até ser bela, as consequências no entanto são monstruosas.

Perceberam como o Comunismo, sacrificando uma situação imediata, concreta ou atual de dor, tendo em vista o desenvolvimento desse sistema cruel chamado capitalismo e seu ideal metafísico e futuresco de revolução é análogo hinduísmo, posto que seu etapismo social corresponde a uma espécie de karma material ou materialista?

Os odiados e execrados reformistas ou socialistas parlamentares é que de fato se preocupam com o problema imediato, atual e concreto da injustiça social, da dominação, da exploração e do sofrimento humano. Eles é que se mostram sensíveis e comprometidos quanto a eliminar tais males agora, i é no momento presente, ao invés de recomendar aos sofredores que se conformem (Até que a Revolução estoure!) ou que tenham paciência; ou ainda que saiam lançando bombas em meio a população civil. 

Enquanto os revolucionários inumanos limitam-se a condenar qualquer tentativa no sentido de minorar as situações sociais de vulnerabilidade e angústia. 

A bem da verdade - E o leitor ficará com essa pérola ao termo deste artigo. - os meigos revolucionários (Ou Psicopatas) contam com tais situações de dor, angústia e sofrimento para exasperar ou enlouquecer (E o sofrimento de fato enlouquece.) o povo e lança-los nos braços da Revolução. Sabendo que parte das pessoas são amantes da paz ou acomodadas, por uma questão de cultura, contam esses ideólogos com o sofrimento para torna-las agressivas ou move-las a violência. É como os boiadeiros que para lançar um pobre boi num rio cheio de piranhas (O Araguaia) picam-no sem dó até que entre e seja devorado... Os anarquistas e comunistas encaram os trabalhadores como um boi de piranha, o qual deve ser picado pelo sistema capitalista até entrar no bojo da revolução...

E depois de tudo isso esses demagogos sem consciência ainda tem o desplante de virem a baila para censurar os trabalhadores e camponeses preocupados apenas com si mesmos i é com a condição dos trabalhos que realizam face a Lei ou que lutem por melhorias imediatas, ao invés de focarem na tal Revolução. 

Por isso nada é mais comum em suas reuniões e assembleias eles reclamarem que o povo ou mesmo o proletário é insensível a causa, de modo que as reuniões são formadas majoritariamente por intelectuais, professores e funcionários públicos... Quase todos oriundos das 'classes médias' que censuram e dizem odiar... - Não por proletários, pobres e muito menos camponeses. Diante disto eles se perguntam repetidamente: Por que? Por que? Que devemos fazer para atrair os trabalhadores, por quem lutamos. 

Minha Santa Simone Weill, essa boa gente jamais se colocou no lugar dum proletário ou trabalhou como um... Ideólogos lindinhos eles trabalharam quase sempre instalados em confortáveis poltronas, com ar condicionado, merenda, lanchinho, aguinha gelada (Oh odioso paraíso burguês!)... Assim o é. Agora que lhes tem a oferecer além de um roteiro metafísico cristalizado na palavra (Mágica) revolução? Nada, absolutamente nada. 

Negam que a alma sobreviva a morte do corpo ou que haja uma outra viva e ainda esperam que o trabalhador sofrido abdique do presente e viva em função do futuro.

Contam que os operários, camponeses e pobres sejam uns estúpidos ou idiotas, mas não são e a demonstração cabal é que essa mística materialista que assume a forma monstruosa de uma samsara não penetra eles. 


 

sábado, 17 de julho de 2021

Alguns pensadores sociais, matrizes de pensamento sociologico e contribuicoes individuais.


# A terra, a região ou o meio. - Montesquieu e Ratzel.

O comportamento pessoal ou coletivo é determinado pelas condições geográficas, assim pelo solo, pelo relevo ou pelo clima. Homem e sociedade não passam de frutos de um determinado espaço.

# A interação entre o homem e a terra - Vidal de La Blache, Jean Brunhes e E Huntington.

A Sociedade é fruto de uma interação entre fatores geográficos e fatores étnicos ou humanos, e portanto resultado de uma síntese entre um determinado meio e determinado povo. Essa teoria recebeu o nome de possibilismo ou condicionalismo.

# O contrato social associado ao medo ou temor da violência e ao padrão da autoridade -Th Hobbes.

O a. supõem um estado original de anomia ou anarquia, assim de confusão, violência e instabilidade generalizadas que teria levado os homens a estabelecerem um contrato segundo o qual transferem o exercício da autoridade ao soberano e, por ext., ao Estado, sob a condição de que este preserve suas vidas e propriedades.

# Soberania política como única estância social de poder - Jean Bodin.

Planteia este a. que a soberania política deva ser sempre única, de modo que as demais estâncias sociais de poder, que porventura rivalizem com ela e busquem limita-la (A universidade, a Igreja, as côrtes, o parlamento, etc) devam ser eliminadas. Serve de base a doutrina absolutista.

# Sentimento de patriotismo ou nacionalismo - Ch Maurras, M Barrés, etc

Partem sempre da ideia abstrata de pátria, considerando certos elementos sócio culturais comuns ou aglutinantes como a etnia, a lingua, a escrita, a fé religiosa, etc 

A partir dai pretendem negar as diferenças e antagonismos de classe introduzidos pela economia liberal ou capitalista, por perceberem-nas como capazes de destruir por completo a unidade social e política através do conflito interno a que chamamos guerra civil. 

O que os leva a tentar fortalecer a unidade social interna (E espantar o fantasma da guerra cívil.)  por meio do conflito externo ou da guerra levara a outros países, sociedades e culturas. 

Tal e qual os revolucionários, os nacionalistas também apelam ao padrão da força ou da violência embora com objetivo distinto, pois enquanto os revolucionários buscam potencializar a luta de classes ou o conflito e alimentar o ódio dos oprimidos, os nacionalistas aspiram esconder a sujeira debaixo do tapete ou disfarçar o conflito ao invés de ameniza-lo ou liquidar com ele. Tal e qual o cientificismo e o revolucionarismo o nacionalismo já foi definido como uma mística capaz de substituir o éthos religioso.

Efeito cumulativo das reformas sociais: Bouchez, Adler, Bernstein, Lucien Herr, Jean Jaurés, Leon Blum, M Deat, etc  

A soma total das sucessivas reformas políticas e econômicas tem a capacidade de, a longo prazo, alterar radicalmente a estrutura social, assim de conter o liberalismo econômico ou capitalismo, fazendo recuar e estabelecendo na prática uma imensa classe média face a qual os extremos sociais das grandes fortunas e da miséria são paulatinamente eliminados, do que resulta um equilíbrio social duradouro. Sorel declara que esse ideal é medievo e portanto inspirado no padrão ético Cristão.

# Anarco primitivismo ou reacionarismo natural, retorno a uma economia agrária, modelo alimentar ou dieta alimentar, etc - Scott Nearing.

Representante do anarquismo naturalista ou anarco primitivismo voltado para modelos pré capitalistas, o qual por isso mesmo vai na contra corrente do progressismo, do futurismo, do evolucionismo linear, etc São partidários da economia estacionária de J S Mill e como observou Nisbet estão na proximidade do monaquismo beneditino e do franciscanismo, ideologias de inspiração Cristã.

# Evolucionismo não linear. Victor Gordon Childe.

Ao invés de evoluir avançando sempre a dinâmica social admite recuos ou retornos que a semelhança do repuxo de um arco impulsionam a evolução adiante. São portanto as crises que preparam o desenvolvimento posterior.

# Pacifismo radical e desobediência civil - Tolstoi, Thoureau, Gandhi, etc 

Condena intrinsecamente qualquer apelo a forca ou a violência, ainda que circunstancial e controlado, preconizando outros meios de luta como a desobediência civil, codificada por Thoureau. 

# O contrato social - Rousseau.

Do contrato social de Rousseau resulta a Vontade geral da nação, conceito equivalente a Razão de Estado em Maquiavel, o qual confere a democracia um aspecto totalitário e alheio ao liberalismo politico, cujas pretensões são bem mais humildes e limitadas.

Para Rousseau a trama de relações sociais ou políticas é que torna o homem mau ou contamina-o, assim o próprio Contrato social. Como o homem não pode existir alheio a tal contato esse tipo de percepção resulta sempre num patético sentimento de melancolia, análogo aquele que se experimenta face a qualquer determinismo absoluto. Pois em um passo o homem, bom por natureza, converte-se em presa de uma malignidade inevitável. E de uma hora para a outra passamos do otimismo crasso ao pessimismo crasso.

# A simpatia - Adam Smith.

Opinião derivada de um otimismo antropológico semelhante ao de Rousseau.

# Dinâmica social - Th Malthus.

Percebeu Malthus que em última análise a questão da justiça social e da própria existência humana tem por estorvo a multiplicação vegetativa ou não planejada da espécie.

# A organização do trabalho - F Le Play.

Para esse a. a organização do trabalho é que molda tanto o comportamento ou a personalidade quanto as formas de organização social.

# Distinção entre labor e trabalho - Hannah Arendt. 

Para essa a. o Labor corresponde aos movimentos ou esforços que nos são naturais ou impostos pela condição humana > Assim mover-se, comer, beber, procriar, etc Já o trabalho corresponde a nossa existência social, sendo até certo ponto artificial e assim a tudo quanto criamos ou produzimos, inclusive em termos de bens. 

# A tradição ou o costume - Tocqueville, De Maistre, De Bonald, E Burke, R Kirk, R Scruton, J Gray, etc

Representa a visão dos conservadores ou contra revolucionários. 

Para os quais o principal bem é estabilidade absoluta (Uma utopia) e eles não querem que a sociedade se mova, altere ou transforme. Apesar disso a maior parte deles recusam-se a ver o liberalismo econômico como o principal gatilho em termos de mudanças sociais, inclusive quanto a destruição do ambiente natural e do patrimônio histórico e cultural.

# A economia ou o modo de produção. - K Marx.

Marx é materialista e economicista. 

Define a sociedade em termos de infra estrutura: O modo de produção; e super estrutura, a qual corresponde a totalidade da cultura imaterial ou ideal.

Assim o modo de produção específico determina as formas de consciência ou os elementos da cultura: A fé religiosa, sistemas jurídicos, concepções metafísicas, expressão estética, organização política, etc 

Seguindo esse esquema traça K Marx um roteiro histórico mecânico, fechado e inexorável que começa com o comunismo vigente na idade primitiva, entra na História  - Aberta pelo conflito entre proprietários e escravos. - passa pela I Média com seus senhores e servos e chega a I Moderna com patrões e operários. 

Com o triunfo final dos operários, que compõem o proletariado, saímos da História e chegamos - Através do socialismo ou melhor do capitalismo de Estado (Cristalizado na ditadura do proletariado.) - ao Comunismo, o qual corresponde a cessação do movimento, ao retorno ao uno e assim ao fim da História.

É o marxismo tributário de três fontes: A econômica clássica ou liberal inglesa (D Ricardo), os socialismos utópicos franceses (Fourier, St Simon, etc) e a Filosofia alemã representada pela dialética de Hegel e o materialismo de Feuerbach - O materialismo histórico nada mais é que a associação ou mistura entre os ensinamentos de Hegel e Feuerbach. Tais as três fontes.

# Materialismo dialético, o conflito como motor da História ou do processo histórico. - F Engels.

O materialismo dialético de Engels corresponde a um aperfeiçoamento conceitual da inversão já feita por Marx quanto a Dialética de seu mestre Hegel, que era idealista ou espiritualista. 

Engels ao aperfeiçoa-lo torna-o ainda mais mecanicista e fechado. Pois não se pode fugir a determinação dialética, pular ou saltar etapas. E temos aqui um etapismo ditado por necessidades internas ou orgânicas no dizer de Sorel. 

Destarte cada premissa ou síntese convertida em nova premissa trás em si mesma os germes de sua corrupção. O senhorio que impõem e impulsiona o feudalismo porta em si o germe da burguesia qual fosse uma herança genética. A burguesia do mesmo modo carrega em si mesma o germe do futuro paraíso comunista. 

Desse modelo linear de evolução social resulta que para qualquer sociedade chegar ao paraíso comunista deverá passar antes pelo inferno capitalista. Pois esse inferno capitalista é passagem ou via de acesso necessária ao comunismo e jamais haverá paraíso comunista que não seja precedido pela ordem capitalista. Portanto, segundo a visão de mundo comunista, deve o liberalismo econômico avançar livremente e desenvolver ao máximo suas forcas, assumindo o que os burgueses creem ser sua vocação ou virtude i é a o egoísmo e a dominação; e não ser atenuado ou contido por reformas políticas. De modo que o comunismo aceita sem questionar a doutrina da auto regulação. Pelo avanço da discórdia até a luta e o ódio e que se chegará a tão sonhada revolução e a nova terra sem males...

Tal a teoria, ao menos em essência completa, de Marx e Engels.

# A economia ou o modelo de produção, sem o conflito - D Ricardo, W Petty, Bastiat, Molinari, Hayek, etc

Ninguém descreveu melhor o processo justificado por esses ideólogos do que Karl Polanyi. Polanyi simplesmente dissecou a gênese da ordem materialista economicista em que estamos inseridos. É ele completado pelo marxista heterodoxo Hobsbawm.

De modo geral esses ideólogos tentaram racionalizar em torno do sistema econômico liberal - Tanto que Wrigth Mills, tomando tal alegação por verdadeira, condenou o paradigma da razão como falacioso, o que, como já dissemos, por via do agostinianismo, é admitido pelos conservadores. Hayek no entanto, notável pela sinceridade e concordando com Kant, declarou que toda e qualquer tentativa de planejamento ou controle em torno dos fenômenos ou fatos econômicos é absurda posto que não obedecem eles uma ordenação racional. Concluí esse teórico liberal que o erro de seus predecessores foi justamente tentar racionalizar em torno do irracionalizável - Tal a origem de todas as crises econômicas ou de sua piora! - o que conduz inevitavelmente ao erro socialista. É a prática e a intuição que preparam o homem para lidar com tais fenômenos até certo ponto imprevisíveis.

# O conflito entre os liberalismos i é entre o Liberalismo Político e o Liberalismo economicista. Harold J Laski. 

Na medida em que os rumos de uma democracia cada vez mais direta e popular pode desagradar aos senhores do capital e em que os distúrbios sociais provocados pelo liberalismo econômico podem chegar a um ponto de saturação, corre a ordem democrática serio perigo. 

Laski até poderia ter aprofundado a análise e planteado por que diversas sociedades democráticas ou liberais reverteram a padrões autoritários e totalitários inspirados por culturas de morte antes da segunda grande guerra ou até que ponto as condições necessárias a afirmação do nazismo e do fascismo, e do comunismo foram preparadas por um liberalismo econômico extremo. 

Hannah Arendt também constatou o quanto o liberalismo econômico ou o economicismo absorvendo a esfera do político colaborou para que ele perdesse em qualidade.

# A violência e o conceito de Mito - G Sorel. Assim Frazer quanto ao homem e a cultura primitiva no que diz respeito mito. 

Após ter repassado a História e analisado diversas situações, como o mito de prometeu entre os antigos gregos, o mito da luta contra o diabo; explorado pelos cristãos fundamentalistas, o mito do progresso continuo entre os europeus do século XIX, etc chegou Sorel a conclusão de que a ação das massas é quase sempre impulsionada ou potencializada por algum mito. Após ter tirado tal conclusão Sorel pretendeu oferecer ao proletariado sindicalizado o mito da greve geral concebido por seu amigo F Pelloutier.

# Massas, Rebelião de Massas - Ortega y Gasset. 

Num aporte genial o sóbrio pensador espanhol juntou diversos elementos e perguntou a si mesmo até que ponto uma democracia meramente formal - I é sem qualquer espírito ou habilidade (O que nos ela a critica de Sócrates aos democratas despreparados e vazios de seu tempo!) - é apta para franquear o acesso ao poder as massas despreparadas e transformar-se numa oclocracia. O que já havia sido intuído por outro excelente observador: Alexis de Tocqueville.

A critica não é ácida mas tão lúcida, oportuna e necessária quanto a de Sócrates no sentido de formar democratas conscientes e trazer certo conteúdo Ético a democracia por meio da formação/Educação. Somente passando do formalismo tosco a autêntica vida democrática, cristalizada na virtude, na solidariedade e no amor a justiça, poderemos salvar este precioso tesouro que é nossa democracia. Pois uma metafisica desbragada em torno das estruturas democráticas não nos conduzirá a lugar algum. Homens precisam ser preparados para as lides democráticas por meio de princípios e valores saudáveis. Pois o melhor dos automóveis é inútil caso não contemos com um excelente motorista.

# A competição, rivalidade ou luta pela existência - Herbert Spencer, Murray Rothbard e M Friedman.

Implica transferir os postulados de Darwin quanto a Evolução das espécies, assim a competição ou rivalidade traduzida em termos de força, para a sociedade dos homens, assim para os terrenos da politica e da economia. Embricou com o individualismo e com o egoísmo 'moral' e acabou servindo de base a ideologia ANCAP.

# O cientificismo ou o potencial libertador da ciência - Condorcet, Comte, Bunge, Dawkins e Dennett. 

Com Littré negam a existência ou ao menos os fundamentos da Ética enquanto atividade metafisica e vazia de sentido (Ayer). Dai postularem - Como fez Dawkins recentemente - que 'Um dia' (Apelando ao futuro como qualquer profeta marxista ou anarquista!) a ciência produzirá ou nos dará uma Ética (E também arte ou estética assegura o opinólogo inglês)!

Os cientistas adeptos desse tipo de mística recusam-se a admitir que possa existir qualquer tipo de controle ou regulação ética exterior a ciência (Revindicando a mesma graça revindicada pelos economicistas - A auto regulação.) ou acima de suas vontades, encaradas como instância decisória suprema. E se troca um papa ou uma dúzia de escolarcas por milhares de papas ou escolarcas - O que torna a condição ainda pior uma vez que a investigação científica atinge em cheio a condição de vida das pessoas, e o mínimo que se poderia exigir dela, i é, da ciência e dos cientistas é (Em lugar do papado ou dos mestres de Filosofia) uma organização democrática responsável por determinar democraticamente os limites de tal prática. Os cientificistas no entanto preferem acenar com a ilimitação...

# A solidariedade social - Emílio Durkheim

Durkheim julgava que o ator social era irrelevante, já por ser seu comportamento determinado pela estrutura social ou por jamais poder ele interagir socialmente - Com os fatos sociais - e alterar ainda que no mais ínfimo grau as estruturas. Pelo que chegamos a um determinismo social absoluto e tão fechado quanto o de Marx. 

No entanto ao contrario de Marx e Sorel, Durkhiem encara a Sociedade como algo que se mantém pela coesão, pela unidade ou ainda pela solidariedade; de modo que o papel da edução é sempre inserir ou integrar o individuo, e pela educação fica ele moldado, tornando-se apto a cooperar. Tudo isto se perde nas situações de anomia, de modo que toda e qualquer tendência ao conflito social deve ser contida. Daí nosso homem encarar com temor e suspeição as consequências de um liberalismo social desbragado e do desenvolvimento da luta de classes, sendo o sociólogo apaziguador tantas vezes injuriado por Sorel nas reflexões sobre a violência. Durkheim era um dos que sem avançar quanto as causas, aspirava por um capitalismo latino ou francês ou seja por um capitalismo tão ameno e contido pelo poder político que bem poderia equivaler a um socialismo largo, baseado no esquema da Idade Média e posteriormente codificado por Keynes, Galbraith e Giddens. O qual Sorel associava aos socialistas parlamentares e a doutrina social dos clérigos embatinados.

Foi Durkheim que formulou o conceito de fato social, procurando objetivar o fenômeno, o que foi já objetivo de exposição neste Blog.

# A guerra - O Spengler, Von Moltke, etc

Estes a. - Que serviram como ponto de partida para nazistas, fascistas e mesmo anarquistas - conferem a guerra diversas virtudes, como a de diminuir a densidade populacional, a de estimular a coragem, a de selecionar líderes habilidosos, etc É doutrina próxima do darwinismo social.

# A Mímesis - A J Toynbee


Elemento (s) da cultura ou constelação cultural que atinge e contagia todos os grupos de uma determinada Sociedade partindo do superior e chegando as mais baixos, de modo que todos acabam sendo animados pelo mesmo ideal, o que proporciona fundo para uma ação integrada, social, coletiva ou comum.

# A circulacao das Elites - V Pareto, G Mosca, R Michels, etc

Segundo tais autores o modelo liberal econômico ou capitalista possuiria estruturas capilares (Arsene Dumont) capazes de permitir que os mais aptos, dignos ou merecedores galgassem os postos de comando naturalmente. Decorrendo dai a meritocracia.

É ingenua por confundir as virtudes éticas ou as virtudes políticas com a administração de uma empresa e o resultado deste equívoco tem sido levar o modelo empresarial a administração pública, apenas para preceder e facilitar as privatizações. A bem da verdade o controle das empresas por atribuição da herança passa geralmente a figuras apagadas ou ineptas que acabam por imiscuir-se, com grave dano, na esfera da política. Quanto aos administradores, por assim dizer, são formados nas universidades a partir de uma ética que dizem ser particular e que, partindo do já assinalado darwinismo social e do maquiavelismo, chega a autorizar a trapaça, com terríveis consequências para toda ordem social.

# As crenças ou ritos religiosos -  F de Coulanges, E Voeglin, C Dawson, H Butterfield, R Graves.

Salientam as bases religiosas das mais antigas organizações politicas e sociais. A 'Cidade antiga' de Coulanges ainda parece ser a obra mais significativa produzida por essa corrente. Afinal o Código reformista de Ur Namu é fruto de uma ideologia religiosa, assim o solidarismo social Inca e mesmo a superação das lutas sociais em Roma.

# A liberdade, inclusive a libertação feminina - J S Mill.

J S Mill, um dos maiores pensadores de todos os tempos, também é responsável por ter cunhado o termo 'Economia estacionária' contra os delírios futurescos dos positivistas e cientificistas de seu tempo, partidários da crença num progresso infinito. 

Posteriormente A C Grayling classificou os delírios positivistas como mera secularização da escatologia Cristã. Noutras palavras, apenas como mais uma oferta oferta de paraíso na terra ou de terra sem males, a exemplo das que já haviam sido oferecidas pelo comunismo, pelo anarquismo, pelo nazismo, pelo fascismo e por tantas outras ideologias. 

De modo que a apreciação feita por Arendt, Eliade, Gaxotte e alguns outros quanto o caráter místico ou religioso do comunismo aplica-se da mesma maneira ao cientificismo.

# A contenção da libido ou repressão - Freud. 

Segundo Freud a energia necessária para edificar nossas instituições sociais foi fruto da restrição feita ao sexo ou ao prazer de modo geral pelos diversos esquemas de moralidade. Faz a humanidade tais sacrifícios pelo simples fato de avalia-los como compensadores face a seu estado de vulnerabilidade decorrente das ameaças representadas pelo mundo externo.

# Princípios Ideológicos ou ou valores metafísicos - Hegel, C Baur, Strauss, E Duhring, C Bougle, P Sorokin, etc

Salientam a prevalência de determinados princípios e valores de ordem metafisica, sejam lógicos, estéticos, éticos ou ainda pré racionais, irracionalistas, etc na formação das diversas instituições sociais

# As relações intra culturais ou a cultura como um sistema criado por afinidades eletivas - M Weber, F Boas, Ruth Benedict, Talcot Parsons, etc  Marcel Mauss na Franca aproximou-se do culturalismo. (O weberianismo não é determinista pois reconhece a ação humana no plano social e a interação agente/ator - estrutura.)

As ideias acima expressas no tópico anterior tendem a estruturar-se organicamente em torno de núcleos fundamentais dando origem a constelações que impõem-se ao intelecto pelo sentido. O que não significa que os núcleos fundamentais sejam necessariamente racionais, sendo comuns estruturações sistemáticas e orgânicas em torno de postulados irracionais a exemplo das que estruturaram-se em torno do agostinianismo ou do calvinismo. Quer dizer que a cultura forma agregados a exemplo de tecidos, órgãos ou estruturas corporais. 

# Ciclos de civilização - J B Vico, A J Toynbee e O Spengler. 

O 'Corsi i ricorsi' de Vico serviu de ponto de partida para as ulteriores formulações de Toynbee e Spengler quanto a ciclos de civilização que se sucederiam regularmente. Toda essa abordagem remonta a Políbio, Aristóteles e a Platão.

# Funcionalismo, ação humana e interação social - Max Scheler, Georg Simmel, Talcot Parsons e (A partir de M Weber) Karl Mannheim (idem). 

Aqui há paralelo com as teorias epistemológicas de Wallon, Piaget e Vigotsky, as quais são interacionistas por considerarem o papel da estrutura e do sujeito cognoscente.

# Sociedade da informação - M Mcluhan.

Graças aos avanços da tecnologia, a velocidade das informações e seu volume torna díficil sua assimilação pela maior parte dos agentes sociais. 

Podemos nos dispersar em meio a tantas informações antes de saber o que e verídico ou não, com consequências deveras graves no momento de tomar decisões, assim em meio a uma pandemia. 

# Relações líquidas - Z Bauman. 

As próprias relações digitais, que podem servir como pontes, podem também, em contrapartida, tornar mais fáceis as rupturas ou impedir a criação de vínculos afetivos estáveis; o que pode repercutir a nível de contato social. Seja como for parece que a tendência do contato social seja assumir o mesmo ritmo que atribuímos as comunicações, acelerando-se.

# Etapas ou estádios sociais - Lord Kames, Conde Saint Simon, A Comte, K Marx.

Esquematizações abstratas da dinâmica social com pretensões de serem absolutas, assim aespaciais e atemporais. 

# As leis da imitação - Gabriel Tarde.

Conjunto de leis que Tarde acreditava fazerem parte da Sociologia, contra a opinião de seu rival, Durkheim, e que parecem pertencer a Psicologia social. Foram aplicadas a Gustavo Le Bon e outros as massas e as Revoluções. 

# Não intencionalidade da ação dos atores/agentes - Adam Ferguson. Parte da ação social fecunda exercida pelos agentes humanos é inconsciente ou não intencional. Evoca a doutrina metafísica de Hartmann.

# Utilidade pública dos vícios na perspectiva do lucro ou do liberalismo econômico - Bernard de Mandeville.

Advertência lúcida e honesta aos moralistas ou puritanos incoerentes que fazem causa comum com o capitalismo. Pois segundo este a. os vícios propiciam lucros ao sistema. Assim a embriagues de uns alimenta o consumo da bebida, incrementa esse mercado e enriquece os vendedores de bebida, tal e qual a dependência do fumo e das drogas enriquece os fabricantes de cigarros e traficantes. Assim o vício do jogo... Outro o caso da compulsão sexual ou alimentar, estimulada igualmente pela propaganda. 

Parece que o parte do consumismo que alimenta o mercado esteja fundamentado no que os moralistas classificam como vicioso e os psiquiatras como compulsivo.

De modo que o mercado não seria apenas conivente com a imoralidade, mas apoiante, na medida em que tira amplo proveito dela.

- Utilidade provada e prejuízo público advindo dos vícios.

Outra a perspectiva de Platão, para o qual, na República, os distúrbios de saúde causados pelos vícios ou pelos excessos onerariam os cofres públicos, isto numa época em que não havia SUS. Evidente quem na conjuntura social do Brasil os mesmos vícios e excessos que estimulariam a felicidade privada ou a fortuna de uns onerariam o SUS e assim os cofres públicos, de modo que ficam as coisas postas em ordem. 

O defeito aqui é que Mandeville, como bom liberal, confunde inadvertidamente o sucesso individual ou particular com o bem público. 



Nótulas pessoais sobre 115 autores lidos.