terça-feira, 14 de outubro de 2025

A utopia positivista...

Como foi dito no artigo precedente uma das poucas ideologias contemporâneas a, de algum modo, tornar-se hegemônica e tentar unificar espiritualmente a Europa foi o positivismo.

Daí a importância de compreendermos sua invenção ou o processo porque veio a surgir, pois ao contrário do comunismo não surge ele pronto como obra de dois ou três cabeças. Assim se o comunismo levou pouco mais de meio século ou de trinta anos para chegar a sua forma básica e elementar, o positivismo, a contar de 1795 ou do "Quadro histórico do progresso do espírito humano." do Marques de Condorcet aos idos de 1870, com Litreé, temos um curso de quase oito décadas e a colaboração de, no mínimo, quatro cabeças.

Condorcet foi quem, pela primeira vez, impulsionado pelo materialismo e pelos progressos da técnica no século XVIII, o século da Revolução industrial, idealizou substituir a velha escatológica cristã, com seu progresso até o fim do mundo ou paraíso, por uma escatologia natural em torno de um progresso humano ilimitado ou infinito. O que certamente nos conduz ao fim da História e ao consequente paraíso na terra dos comunistas. 

A análise em torno da secularização ou naturalização da fé é de A C Grayling, mas remonta a M. Eliade, H. Arendt, P. Gaxotte e outros, aplicando-se as demais culturas de morte pós religiosas criadas na Europa nos três últimos séculos.

E com não se pode viver sem mística ou metafísica disfarçada, os incrédulos pós revolucionários mergulharam de cabeça na ideologia esboçada pelo nobre francês. Com destaque para o sr Louis de Rouvroy, mais conhecido como Duque de St Simon, criador do movimento st simonista, o qual lhe adicionou inúmeros temperos vislumbrando uma sociedade futura, ou um dado esquema de sociedade, articulada em torno de fábricas ou indústrias, da qual resultaria uma reconstrução cultural, através de novos princípios e valores produzidos. 

E aqui já temos um esboço bem melhor delineado do positivismo futuro ou de suas aspirações/pretensões. No entanto essa estrutura utópica st Simoniana, ainda lembra, de longe, a estrutura da velha igreja que pretende substituir. O que também foi dito com propriedade sobre a estrutura do partido comunista soviético pelo Dr Fullop Muller, o qual chegou a ver nela um arquétipo do Vaticano...

Curiosamente foi esse aspecto reforçado ainda mais pelo secretário do Duque, o matemático August Comte, o qual ainda hoje é acusado por se ter apropriado indevidamente da obra de Rouvroy, sem lhe ter atribuído os devidos créditos. Pois esse matemático havia sido criado na igreja papa, e sido fervoroso durante a juventude.

Então ele decidiu plagiar igualmente, a estrutura dessa comunhão religiosa, criando inclusive um calendário positivista em que os Santos da antiga fé eram substituídos por filósofos e cientistas como Galileu, Newton ou Descartes e Pascal. Além disso ele também determinou a construção de templos e a criação de cerimônias pomposas, com estátuas, quadros, alfaias, paramentos, sacerdócio e até mesmo uma paródia de grande mãe ou Virgem Maria; a saber um antigo flerte seu, a sra Clotilde de Vaux. Por onde também chegamos a maçonaria, com seu cerimonial...

Naturalmente que parte de seus seguidores chegaram a avaliar que o sr Comte, ao menos na fase final de sua vida, tinha já as faculdades mentais avariadas e se sentiam bastante desconfortáveis face a paródia religiosa. 

Seja como for não faltava estro ao sr Comte. Pois chegou, antes de Maurras e outros, a compreender a total incompatibilidade entre a cultura apostólica romana e a cultura protestante, coisa que hoje, em tempos de negociação ecumênica, os apostólicos romanos desmiolados ignoram por completo.

Além disso, como herdeiro das culturas clássica e apostólica romana, em que pese ser kantiano - Como Comte e os franceses jamais produziram gnoseologia, adotaram a de Kant, derivada em parte de Hume e Locke. - empirista ou materialista Comte jamais admitiu negar a Ética ou sequer toca-la. Uma nobre incoerência sem dúvida.

Por fim Comte, descendo da terra as nuvens, principiou a escrever sobre a questão do poder ou da política tendo em vista a implantação de seu modelo social. O que conduziu-o igualmente ao exame das questões econômicas. Quanto a política foi democrata ou republicano. Porém, retomando Platão introduziu um comitê de cientistas e teóricos, e militares, responsáveis por implantar ou delinear a futura república, antecipando a ditadura do proletariado de Marx (Provável plágio da sua) e o esquema fascista. Todo despotismo atual procede de Platão via Comte como demonstrou K Popper na "Sociedade aberta e seus inimigos".

Também há revolucionarismo ou jacobinismo aqui, tendo em vista o golpe. Uma vez que o grosso da população, a falta de aparato educacional (Eram massas) vivia numa sociedade a parte e cada vez mais alienada pelo excesso de trabalho. Aqui seriam as elites ou quadros que dariam a liberdade ao povo e esboçariam seu futuro...

Por fim, parece que nós últimos anos de sua carreira, observando a realidade do outro lado do canal da mancha, o sr Comte considerou justamente a questão do liberalismo econômico e da pauperizaçao ou da miséria, insinuando algumas soluções na direção do Socialismo, sem no entanto avançar muito, pois afligido por um câncer no estômago foi colhido pela morte.

Após sua morte ocorreu a esperada cisão entre os Ortodoxos, seguidores de Comte e de sua igreja fake e o grupo chefiado pelo ilustre filólogo - Autor do Dicionário da academia francesa. - E J Litreé, o qual apesar de ter morrido apostólico romano, enquanto chefiou o positivismo notabilizou-se por adotar uma estrita linha de coerência. Da qual resultou a negação da Ética e da Estética enquanto elaborações metafísicas.

E tal negacionismo, tocando as raízes clássicas de nossa cultura, foi um marco.

O qual por trinta ou quarenta anos norteou grande parte da elite positivista. Desde então passou ela a encarar a questão do bem e do mal, do vício e da virtude... Como mera bravata. Enfim como algo inverificavel, relativo, subjetivo, neutro ou indiferente. O que não deixou de repercutir quase de imediato entre a juventude anarquista e comunista, resultado na ação direta.

Entrementes passou o positivismo a vizinha Albion, partindo do grupo de Darwin, a esse tempo já agnóstico. Entre os ingleses contou com a adesão de Mill e Spencer sofrendo algumas alterações ou suavizações, conforme o temperamento e a cultura dos britânicos. Na Inglaterra desvinculou-se o positivismo do grosseiro materialismo francês, legado do iluminismo e, retornando a Kant, elaborou o discurso agnóstico, sem dúvida alguma mais sóbrio ou coerente.

A corrente agnóstica, como já foi assinalado, tinha certa proximidade com Darwin e seu círculo e teve como pioneiros Galton e Huxley. Posteriormente os ingleses chegaram a acomodar o agnosticismo formal com a frequência a igreja anglicana e a admitir inclusive, que ele podia ser completado pela fé religiosa, segundo a aposta de Pascal. Naturalmente que a consequência foi um certo afastamento entre o positivismo francês e o positivismo inglês, a qual recorda a famosa querela entre os espíritas ingleses e franceses ou não kardecistas e kardecistas.

Aliás o espiritismo francês ou kardecista, ousando apresentar suas doutrinas ou crenças como científicas (Que hajam fenômenos ou fatos paranormais é outra coisa, mesmo quando possivelmente causados por espíritos humanos desencarnados) ressente a influência do positivismo, no tempo e na formação da cultura. Por isso está ele, o positivismo, presente tanto no espiritismo quanto no marxismo... O que torna essa história ainda mais fascinante.

Ainda na Inglaterra a crença positivista no progresso ilimitado da humanidade via ciência, contou com um notável paladino no ensaísta e romancista H G Wells, o qual floresceu até o pós guerra e por diversas vezes terçou armas com o fabianista G B Shaw, inclusive a propósito da própria guerra.

Como se vê o positivismo prometia muito, inclusive, em dado momento produzir uma moralidade ou Ética através da ciência (O que cognominavam Ética positiva ou empirica.) - O que jamais aconteceu (A tentativa mais próxima e malograda foi o utilitarismo 'ortodoxo' ou individualista de Benthan, o qual, como se vê, aproxima-se tanto do egoísmo de Stirner quanto de Maquiavel.) e conduziu a humanidade a primeira grande guerra i é ao inferno sobre a terra.

Após a primeira grande guerra seguiu-se a decepção generalizada. Sendo assim, tanto o homem médio quanto a intelectualidade europeias, lançaram o cientificismo (Sempre não ético, neutro ou acrítico face as mazelas sociais e políticas que afligem o mundo.) ou mesmo o conhecimento científico, as urtigas, tal e qual haviam feito antes com a fé e a filosofia. Até que nada restou além do comunismo, a derradeira esperança da Europa.

Estourando a segunda guerra a situação agravou-se ainda mais. A ponto de nos países não comunistas do Ocidente proliferar o pós modernismo, que hoje cede passo e apoia o imperialismo árabe, digo, o islã e a demolição da cultura.

Falhou o positivismo quanto a suas ilusões e falsas promessas e tinha mesmo de falhar pois começou ignorando\romantizando a condição real da população urbana inglesa pós industrial, a qual provavelmente rivalizava com a dos escravizados pretos no Brasil.

E potencializou seu erro original ao negar a Ética por ódio a metafísica. Pois dessa negação resultou sua comunhão servil com os poderes políticos e econômicos, cujos resultados, em termos de miséria ou guerras, jamais chegou a questionar, mantendo-se sempre neutro ou indiferente - Sempre colaboracionista e por vezes até conservador. Mais - Chegou ele, não poucas vezes, a apoiar o darwinismo social - Resíduo ou bastardo metafísico seu.

Com a colaboração do positivismo (E do protestantismo é claro) pode o liberalismo econômico levar adiante sua pauta, aumentando a miséria, alimentando conflitos e estimulando guerras que funcionavam como mercados de armas e munições e assim como fonte de renda ou benefício para alguns poucos celerados. Nada fez essa ideologia toda poderosa e influente para impedir ou frear a calamidade da primeira grande guerra. Quem tentou fazer algo foi J Jaures e P Kropotkin, os quais não pertenciam ao movimento.

A depender dos positivistas atuais - Porque existem! - teríamos inclusive uma terceira grande guerra, a qual, servindo-se de algum darwinismo, seus biólogos e panfletários não tardariam em classificar como benéfica (Ocorrem-me o grande Malthus - Na polêmica contra Godwin - e Von Moltke) tendo em vista o excesso de população e a redução, não da miséria kkkk, mas dos pobres kkkk.

Pois é, lobo perde o pelo mas não perde o vício.

E o neo ateísmo maravilhoso, que segundo Dawkins, ainda não produziu um sistema de ética próprio, faz dessa ideologia inutil, ociosa e perversa suas delícias.

Reflitamos...

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segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Os problemas do anarquismo

Se, ao contrário do protestantismo, do capitalismo e do comunismo o anarquismo jamais esteve a ponto de substituir o papismo e de unificar a Europa ou o mundo, nem por isso sua origem e facetas deixam de ser interessantes.

Quem o criou...

Não se pode saber com exatidão - Pois alguns autores apontam os 'Diggers' da Revolução inglesa e outros até mesmo os 'Levellers'. Outros, em termos de continuidade apontam Godwin: Esposo de Mary Wollstonecraft, pai da segunda Mary e genro de Shelley, o qual como Paine e Benthan era democrata, politicamente liberal e miniarquista, mas de modo algum anarquista - Tal o caso dos revolucionários do século XVII: Todos no máximo republicanos exaltados ou jacobinos... Nem os diggers, nem os jacobisnos, nem Babeuff, Paine, Benthan ou qualquer outro jamais concebera o homem abstratamente como uma espécie de ilha ou numa perspectiva não social.

Quem então teria criado o anarquismo...

Atrevo-me a apontar como seu criador o luterano alemão Johann Kaspar Schmidt, de Bayreuth, mais conhecido como Max Stirner, aluno de Hegel e Feuerbach e autor da obra " O uno e sua propriedade". O qual é apontado por muitos autores como precursor do anarco capitalismo e do pós anarquismo. Curiosamente fez ele parte do clube dos livros ou dos jovens hegelianos, juntamente com Marx e Engels (A História tem dessas), merecendo inclusive uma impugnação por parte do primeiro na obra "A Ideologia alemã".

Além de ter antecipado o pós modernismo e o nihilism, Stirner, que era anti católico, anti socialista, anti comunista, anti humanista, anti democrático, etc teve ao menos a ombridade de definir-se como Egoísta, pois argumentava não apenas pela destruição do Estado ou do Macroestado mas da Sociedade ou do convívio humano. 

Esse Stirner exerceu influência decisiva sobre Spooner e Tucker, dentre outros, aqui do outro lado do Oceano e podemos traçar a linhagem até M Rothbard, M Friedman e Ayn Rand. De fato foi ele a matriz de todos os anarquismos individualistas. 

Aqui um aparte, pois embora não conheçamos detalhadamente o luteranismo de Bayreuth, podemos, por via do pietismo, conjecturar que o anarquismo Stirneriano foi, a exemplo, do capitalismo, do destino manifesto ou do nazismo (cf Georges Santayana "O Egotismo na Filosofia alemã") uma secularização da busca por uma redenção individualista, dissociada da igreja, da comunidade ou do outro.

Outro o caso do francês Pierre J Proudhon, o qual escreveu ao cabo de décadas e também é apontado por alguns como pai do anarquismo. Polímata e polígrafo da estatura de um Marx ou de um Weber leu ele toda bibliografia precedente sobre o tema das liberdades, dos direitos, do Estado e da vida política - Por isso é, o conjunto de sua obra contraditório e confusionista ou caótico, pois reflete suas revisões, correções e assunções sobre o assunto. Assim, suas obras iniciais ainda ressentem a influência de Stirner, da qual se vai desprendendo nas obras da maturidade até, já no fim da vida, resgatar as tradições comunais da França campesina. 

Em certo sentido prenunciou o primitivismo, o retorno da História, a não linearidade do progresso, etc - Pelo que mereceu ser combatido tanto pelos positivistas quanto por Marx, na "Miséria da filosofia" - Julgo todavia que J S Mill, com sua economia estacionária, teria simpatizado com ele. 

A partir daí com os nobres russos M Bakunin e P Kropotkin, toma o anarquismo outro caminho, a ponto de podermos já falar em anarquismos: O ocidental, sempre incerto e tributário de Stirner e o Oriental ou russo, de tradição comunal e portanto comunista ou socialista. 

Bakunin por sinal é quem, com sua genialidade, impõem forma definitiva a um anarquismo que podemos chamar de clássico. E o faz orbitar em torno de três pontos: O micro estado, em oposição ao macro estado; a policracia ou democracia direta, em oposição a democracia representativa ou burguesa dos anglo saxões e a miniarquia e oposição ao totalitarismo de então. Quanto a este último ponto cumpre esclarecer que ao contrário de Rousseau - Com sua vontade geral totalitária e absoluta que tudo invade. - Bakunin (Herdeiro do liberalismo inglês) situou o poder coercitivo do grupo na esfera do 'Bem comum' ou daquilo que é propriamente político, reconhecendo que os costumes, a moralidade ou a vida privada não deveria ser objeto de controle. Uma visão avançada e grandiosa, ninguém pode negar.

Aqui é Bakunin que faz retorno ou petição ao passado, retomando o ideal grego da democracia direta e sendo, em certa medida, reacionário, e não futurista inconsequente como Stirner ou Marx. Alias, sobre a 'Ditadura do proletariado' proposta por Marx e seus comunistas, declarou ele "A liberdade jamais procederá da tirania... Devendo não ser dada ao povo porém conquistada por ele."

Era esse Bakunin herdeiro da tradição Blanquista e assim da sedição ou do jacobinismo (E por aqui toca o comunismo de Marx.), noutras palavras dessa mística revolucionária intensa, legada a Lênin por G Sorel, autor das "Reflexões sobre a violência". Já Kropotkin, mantendo o legado de Tolstoi, assume um programa pacifista ou no mínimo tímido e realista face ao emprego da violência. Pelo que repudiou essa mística revolucionária em torno de uma transformação radical da cultura por meio da força. 

Ainda aqui o anarquismo soube ser bem mais refinado que o comunismo. Pois ambas as vertentes - Inclusive a de Bakunin, ao menos enquanto preparação necessária para a Revolução. - russas ou orientais buscaram investir na educação ou na formação da consciência (E por ai já se vê que não eram todos materialistas ou deterministas economicistas.) criando escolas e idealizando uma instrução alternativa e paralela a estatal. Na Espanha e na Itália chegaram inclusive a produzir uma corrente pedagógica, representada por Ferrer y Guardia. 

E no entanto tal projeto foi internamente sabotado e veio abaixo - Sendo vital para nós saber exatamente porque.

Sucedeu com o anarquismo o que já se havia sucedido com o protestantismo ou com o capitalismo. Pois em determinado momento deixou de ser mera construção social e política, para converter-se em metafísica ou mística totalizante, e invadir outros setores da existência como a Gnoseologia\Epistemologia, assumindo opiniões tão corrosivas quanto o ceticismo, o subjetivismo, o relativismo... E desembocando no pós modernismo atual - Chegando inclusive, com P Feyerabend, a querer reformular o método científico. 

Enfim os anarquistas chegaram a concluir que a razão, a racionalidade e o racionalismo eram limitações impostas pelo poder ou uma forma de dominação que também devia ser demolida e levantaram críticas similares (Estas em parte justas face a um ideário positivista que era quase sempre acrítico face ao poder.) a ciência.

O problema aqui é que toda essa história de pós modernismo, por verdade, imaginário coletivo, narrativas, etc desguarneceu a civilização e a cultura face aos ataques do fetichismo, das mitologias e dos fundamentalismos, em especial protestante e islâmico. O que tornou nossa civilização 'mal feita' vulnerável a projetos ainda mais desastrosos, com referenciais postos na Arábia do século VII d C.

Naturalmente que o anarquismo 'político' tornou-se inócuo e despovoado, subsistindo hoje apenas como um resíduo pós modernista e incomodo, tendo em vista nossa resistência as demais culturas de morte circundantes. 

Invadido, em certos setores, por um ideal de linearidade histórica ou evolutiva, e ao mesmo tempo infestado pelo irracionalismo, o anarquismo não mais consegue responder aos principais questionamentos emitidos por seus críticos.

Quero dizer que tal e qual os comunistas, os anarquistas materialistas e de tendência positivista não podem admitir que o protestantismo ou o islamismo > Formas religiosas ultrapassadas, inócuas e inofensivas (kkk) possam tomar posse do poder e ameaçar a 'sifilização' tornando-a ainda pior... 

Diante disto eles continuam - Apesar da intifada fundamentalista que assistimos em quase todo mundo. - sustentando candidamente a abolição do exército e da polícia... Organizações viciadas e indesejáveis, e no entanto, face a realidade atual: Necessárias. Do contrário quem impedirá os pastores ou os ulemás de tomarem o poder pela força e construírem suas teocracias movidas pela Tanak ou pela Sharia... A ameaça é real.

Grosso modo é este problema derivado de outro, a que os anarquistas jamais prestaram a devida atenção: Como manter a soberania do micro estado ou das pequenas aldeias indígenas (Caso obtenham independência ou autonomia política.) face as aspirações imperialistas de macro estados como os EUA... 

Alias os Comunistas da URSS também falharam por completo, apesar das sensatas advertências de um Trotsky, ao tentar manter seu sistema dentro das fronteiras, abdicando 


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Comunismo > Uma metafísica paralítica

Já nos expressamos inúmeras vezes a propósito do Comunismo.

Primeiro enquanto ideologia reprodutora, a qual além de assumir um tipo ideal posto pelo Cristianismo antigo ou pelo socratismo\platonismo,  reproduziu igualmente diversos vícios do capitalismo, do liberalismo político primitivo e do positivismo, como o materialismo economicista, o 'método' revolucionário e o relativismo ético - Isto a ponto de formar uma construção sincrética.

De fato não se pode negar que apesar de todos os seus erros possuí o Comunismo algo em comum com o socratismo e o Cristianismo antigo, que é a sensibilidade face a injustiça e a aspiração de reformar a ordem natural das coisas, eliminando a injustiça. 

Enquanto que a suprema miséria do capitalismo, do positivismo e do darwinismo social, bem como do ceticismo é conformar-se com o mundo tal qual é, aceitando suas mazelas e avaliando-as como algo comum ou mesmo invencível. 

Em que pese o materialismo tomado ao capitalismo, os comunistas não acompanharam seus companheiros 'coerentes'. Mantendo o ideário Cristão segundo o qual deve a realidade do mundo conformar-se com um ideal Ético ou com uma Lei natural e suprema. 

Por parte do Cristianismo antigo, conformar-se com o mundo e seus pecados, seus vícios ou suas maldades é blasfemo, devendo a ordem do mundo ser corrigida e reformada segundo a lei natural e suprema.

Portanto o Cristianismo leal ao Evangelho e o Comunismo partilham do mesmo sentimento de revolta. 

Sendo em parte o Comunismo, um Cristianismo apostólico secularizado. Tal e qual o capitalismo e o destino manifesto são secularizações do protestantismo. Em certo sentido o conflito "Catolicismos" ou "Ortodoxia" e protestantismo, prolonga-se no conflito "Socialismos" X Capitalismo. Apenas a luta secularizou-se, mas mantém o sentido. 

Naturalmente que o materialismo, sendo necessariamente mecanicista, não se encaixa com esse sentimento de inconformidade ou mesmo com o método revolucionário.

Justiça seja feita a Marx, porquanto era ele etapista - Reconhecendo que caberia ao processo histórico ou a evolução interna do próprio capitalismo que produziria as condições necessárias para que a Revolução fosse bem sucedida. Cabendo ao comunista estar atento para reconhecer o sinal dos tempos, e atuar em comunhão com a História.

Foi Lênin que, partindo de Sorel, objetor e adversário de Marx, eliminou o etapismo ou o determinismo materialista e propôs que a Revolução poderia ser feita noutros contextos. Talvez por isso as revoluções Comunistas tenham revertido e falhado. Por outro lado Marx não foi capaz de perceber a habilidade do capitalismo para adaptar-se as condições externas, inclusive restringindo-se, contendo-se ou limitando-se quando sob pressão ou ameaçado pelas sociedades tradicionais.

Sorel sendo irracionalista, meio idealista e próximo ao anarquismo com o paradigma do espontaneísmo ou da imprevisibilidade, o qual de modo algum se encaixa com o materialismo e seu decorrente determinismo\etapismo.

Bom lembrar que esse ideal revolucionário jacobinista surge não num contexto materialista dialético porém num contexto materialista mecanista ou formal e de uma total incompreensibilidade em termos de cultura. A ideia, bastante ingênua por sinal, é que o poder, a violência, a força ou o terror pudessem mudar a cultura ou dos padrões de comportamento pessoal e social.

Basta dizer que serenado o terror os padrões culturais anteriores são restabelecidos. E as tais revoluções, após tantas calamidades, revertem. E tal se dá porque a cultura tem dinâmica própria, a qual não é necessariamente material.

Outro aspecto é o relativismo ético, comum aos pós modernistas e derivado do positivismo. O qual dificilmente concilia-se com um ideal de justiça que leva a reforma. 

No entanto o que mais choca o observador atento quanto o comunismo é sua fixação no século XIX. A qual chega a ser escrupulosa, uma vez que atribuem aos escritos de Marx, Engels e Lênin o status religiosos da infalibilidade e da irreformabilidade - Como se tivessem esgotado todas as possibilidades do passado, do presente e do futuro. 

Não poucos entre eles continuam reproduzindo a milonga positivista e anti racionalista, derivada de Kant e Condorcet sobre a ciência ser a única forma digna de conhecimento, etc Quando é, o materialismo querido, uma elaboração metafísica, por violar a demarcação kantiana. 

Outro aspecto simplório do comunismo é a imagem do proletariado urbano e industrial como agente redentor. E consequentemente o menosprezo pelo homem do campo, as prevenções contra aquele funcionariado público que representa a odiada classe média, o horror ao lupem proletariado... 

Continuam eles, os comunistas, encarando a História como um combate épico, binário e maniqueísta entre dois grupos ou facções: Burguesia e proletariado... Enquanto a partir de 1870\80 tornou-se a sociedade capitalista muito mais complexa e variada, com inúmeras sociais intermediárias... (E aqui temos Sorokin, Parsons e Timacheff, dentre outros). Eles porém não abrem mão de seu reducionismo simplista e de sua narrativa ingênua e romântica - Na qual tudo gira em torno de um choque entre dois grupos.

Para eles o mundo jamais mudou e continuamos situados no século XIX...

Outro rudimento metafísico é a concepção do conflito como motor da História. Pois eles mesmos admitem que o conflito parte da propriedade privada (Não necessariamente da propriedade privada dos meios de produção - Pois aqui, com Marx - há certa plausibilidade.), a qual é posterior a Idade primitiva, o que implica situar a Idade primitiva fora da História, justamente devido a sua 'imobilidade' ou ritmo lento, não marcado pelo conflito em torno da posse da propriedade, uma vez que era comunal.

Bem, o que questionamos aqui não é o movimento ou o progresso porém seu ritmo acelerado face a limitação dos recursos materiais de que dispomos. 

Outro o caso do futuro - Pois se a cosmovisão marxista (Que gira em torno de uma Dialética que parte do conflito e da propriedade.) assumir que a derradeira fase - Inaugurada pelo advento do Comunismo - implica a cessação do conflito, teremos de admitir o fim do movimento dialético e por consequencia o fim da História. E aqui é a História como uma espécie de túnel porque passa a humanidade... Pois ao fim tornaríamos ao repouso ou a imobilidade do começo i é da Idade primitiva.

De minha parte encaro esse túnel ou sanduíche como algo muito menos aberrante que o progresso ilimitado ou infinito dos positivistas - Pois tudo quanto começa deve ter um fim. Sem embargo disto, os comunas, ao serem questionados pelos positivistas, anarquistas e outros, alegam que o fim do conflito ou da dialética e o advento do comunismo não marcará o fim de todo conflito porém apenas do conflito economico, que incide sobre as classes. Obviamente que existem ou surgirão outros conflitos (De natureza diversa) que darão continuidade a outro ciclo de movimentação dialética. Mas quem não percebe que essa resposta vai pelos caminhos da imaginação e da fantasia. Pois teria havido outro ciclo de movimento dialético, de outra natureza, na Idade primitiva...

Agora - Existe de fato um motor da História... Ou é ela movimentada por diversos motores...

Já disse que Marx focalizou a propriedade dos meios de produção, relacionada com o modelo capitalista. E aqui parece haver certa verdade, vislumbrada ante dele por um Sismondi, dentre outros... Outro problema do Marxismo é a visibilidade limitada da História de que dispunha Marx em seu tempo - Tempo em que a egiptologia de Champollion e Lepsius e a sumeriologia de Grotefend e Rawllinson estavam a dar os primeiros passos e a idade primitiva de Pertez e Lartet engatinhava... 

Foi as apalpeladas ou tateando que Marx tentou elaborar um esquema tanto mais amplo e metafísico - No pior sentido do termo. Assim a questão do conflito como motor de todas as fases da História, de grupos lutando uns contra os outros, de reformulações sintéticas, etc Através das quais o esquema Burguesia X Proletariado se antecipa e perpetua sob outros termos, como senhor e servo ou dono e escravizado... 

Todos estes esquemas genéricos, como o de Vico, o de Adam Smith, o de Lord Kames, o de A Fergunson, o de St Simon, o de Comte e enfim o de Marx representam uma fase bastante rudimentar da sociologia. 

Quanto a proposta de Marx ou sua tentativa metafísica de classificar as fases ou períodos da evolução social de nossa espécie é importante dizer que teve continuidade sob a escola de Lukács e seus seguidores. Os quais fazem incidir suas críticas não apenas sob a atual forma de posse da propriedade privada i é quanto aos meios de produção, mas sobre todas a propriedade privada como um todo. Por isso registrei acima que os lukacscianos identificaram o ponto de partida do conflito a partir do fim da propriedade comunitária e o surgimento da propriedade privada> A partir daí só mudam os nomes e podemos definir a História humana como uma luta por propriedade ou poder. (E chegamos a Adler, transfuga de Freud)

Naturalmente que nenhuma dessas especulações pode ser rigorosamente demonstrada. E tanto pior para elas enquanto atreladas ao falso paradigma positivista da monocausalidade. Se é certo que o regime de propriedade influencia a produção da cultura, nada nos indica que ele apenas determine a totalidade dos elementos de uma cultura.

E Ratzel teria mais razão em apontar a terra e o regime alimentar como criador de técnicas agrícolas e de técnicas alimentares plasmadoras de cultura. De modo que teríamos antes uma cultura do arroz, uma cultura do trigo, uma cultura do sorgo, uma cultura do milho, uma cultura da batata, uma cultura da mandioca, etc que uma cultura de patrícios e clientes ou de pillis e maceuallis... 

Não quero lançar fora deste processo formativo o dono e o escravizado ou o senhor e o servo, quero porém inserir o ambiente: Gélido, montanhoso, paludoso, florestal, etc as matrizes alimentares... A Escrita, o Bronze, a Ceramica, as Crenças religiosas, etc Numa perspectiva pluri causal, tendo em vista a complexidade da cultura e o processo de sua afirmação.

Certamente o regime de propriedade teve lá seu papel e importancia, mas, não atuou sozinho.

Outro equívoco que atribuo ao marxismo\comunismo e que deriva da ideologia materialista diz respeito diz respeito a compreensão deles a respeito do que seja Capitalismo. O qual definem como uma modo de produção. Do qual deriva um modo de remuneração> O salário. E enfim certas relações estruturais. 

E toda uma definição formal, mecanica e material do liberalismo economico.

Eu no entanto considero tanto mais exata e profunda a definição posta por Sombart, em termos de 'Geist' ou espírito - Quero dizer enquanto conjunto de princípios e valores que derivam da consciencia ou como uma emanação psicológica ou mental que se faz social e cria estruturas.

De fato suponho e creio ter razões para tanto, que o éthos capitalista é um tipo de mentalidade que deriva da pessoa, uma tendencia do caráter... etc e relaciono esse espírito com o que os antigos chamavam de avareza ou acúmulo.

Foi a partir dessa distinção que o padre Meinvielle - Servindo-se da linguagem aristotélica (Em torno das causalidades) - tentou explicar porque a igreja papa, ao condenar o comunismo não condenou o capitalismo ou ao menos sua totalidade. O quanto o Cristianismo pode e deve condenar sem remissão é a fonte do Capitalismo i é seu espírito 'geist', a avareza, o acúmulo desmedido, a ambição ilimitada, o materialismo, etc não a estrutura por ele produzida, a qual sendo neutra, bem poderia ser reutilizada caso tal espírito fosse contido. Não é o caso de que não possa ser destruída (Como querem os comunistas - Pois a proposta meramente econômica dos comunas não se opõem a fé!) e sim de que essa destruição não é imposta pela fé porém assunto por assim dizer puramente humano.

Agora limitando-se a condenar o espírito 'geist' do capitalismo, não fornece o Cristianismo qualquer tipo de chancela divina ou religiosa a estrutura do regime capitalista, como querem os oportunistas infiltrados na Igreja. Ao menos o Cristianismo Ortodoxo, fiel a tradição da Igreja, jamais poderá santificar a propriedade privada dos meios de produção. 

Outro o caso da propriedade privada pessoal derivada do trabalho. Esta o Cristianismo assume como religiosa e intocável enquanto expressão de um direito natural estabelecido pelo poder Supremo. O quanto a pessoa obteve por meio de seu esforço pessoal e de que faz uso para manter-se pertence-lhe legitimamente e não lhe pode ser tomando sem que tal constitua-se em roubo, logo pecado. Neste caso toda e qualquer apropriação, tendo em vista o Bem comum, exige uma indenização por parte do poder público ou do Estado.

Quanto ao espírito materialista, excessivamente ambicioso ou avaro do capitalismo, já no berço, avaliou-o a igreja como maligno.

Até aqui nossas críticas ao Comunismo ou melhor dizendo, apenas algumas delas.

Obviamente que não pode o Cristão aderir ao sistema comunista em sua totalidade - Pelo simples fato de dogmatizar em torno da ideologia ateísta e afirmar-se como materialista. 
 

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domingo, 12 de outubro de 2025

A ambiguidade conservadora - Conservar o que...

Leio bastante material conservador de vária procedência.

Assim como leio bastante material anarquista, comunista, liberal, etc

Busco tudo analisar criticamente e reter o que é proveitoso.

Naturalmente que não me encaixo em nenhuma dessas caixinhas, quadrados ou jaulas mentais.

Folgo não pertencer a qualquer desses sistemas que se me parecem mais bulas de medicamento ou receitas de bolo.

Tampouco sou um irracionalista sincrético, que busca conciliar, por exemplo, a liberdade total do mercado com a proteção a natureza e tenho meu lado: O da natureza e o do bem comum ou da justiça social. Simples assim. 

De fato reconheço a mim mesmo como 'socialista' heterodoxo - Religioso, ético, humanista, etc alinhado com a 'Social democracia' ou com o 'Bem estar social"... Isto é com o 'Socialismo pequeno burguês', hostilizado pelo senhor Marx e comprometido com o liberalismo político ou com o que chamamos democracia - Embora eu mesmo aspire por uma democracia cada vez mais direta ou popular, enfim por uma policracia.

Tanto pior quanto a questão das moralidades. Conservador quanto a fé, os dogmas ou mistérios de Jesus Cristo, a liturgia, etc E, mutabilista e objetivista - Logo Socrático! - quanto é Ética. Sou progressista quanto a moral ou os costumes (Sempre diferenciados e relativos a cada grupo social.) e adversário marcado de qualquer modelo conservador nessa área, assim de qualquer moralismo e particularmente do puritanismo, o qual identifico com o farisaísmo hipócrita fustigado pelo divino Mestre Jesus.

Se ser conservador é ser moralista embiocado ou fariseu puritano, estamos em campos não apenas diversos mais opostos.

Alias conservador em que ou com relação a que... Porque já disse que sou conservador, ao menos em algumas áreas... O termo como se vê é ambíguo e confusionista. 

Conservador 'in totum'... Tão utópico quanto comunismo ou anarquismo - Alias, monstruosamente absurdo. No mínimo clamoroso defeito em termos de conhecimento histórico, porquanto sociedades não são múmias ou animais empalhados, eternamente envolvidos em estreitas faixas. Pelo contrário, todas as culturas e sociedades são marcadas por um grau maior ou menor de dinamismo. Sociedade imutável e fixa é coisa que não existe...

Portanto conservador onde e com relação ao que...

Que se quer conservar...

Se Hildebrand, com razão, apontou os termos direita e esquerda como ambiguos e confusionistas, tenho que o termo conservador o seja ainda mais ou em grau maior.

Alias prefiro os termos socialista, progressista, reacionário e liberal, quiçá com algum adendo. Assim, repito, sou socialista 'heterodoxo', progressista em moralidades, reacionário em termos de cultura, liberal em política, conservador quanto a fé, a Ética e a Estética, enfim, segundo meus críticos uma salada, pois sendo crítico devo ser eclético e não sectário. 

Por isso defino os conceitos e suas áreas ou seus limites: Não sou liberal em economia, como não sou comunista quanto ao socialismo ou progressista\relativista quanto a Ética ou a Estética, e menos ainda moderno ou contemporâneo quanto a cultura - Pois no âmbito das moralidades, dos costumes, da cultura, etc, desde que não haja choque com o Evangelho ou as palavras de Jesus Cristo, sou greco romano... 

Daí - Conservador onde e com relação ao que...

Pois ser conservador na Inglaterra ou nos EUA implica conservar esse modelo podre chamado capitalismo... Embora Scruton e outros se tenham aproximado cada vez mais de formas comunais e campesinas, com acentos reacionários que tocam ao ruralismo e ao primitivismo. A mesma evolução experimentada pelo ilustre professor tomista brasileiro Jorge Boaventura, autor bastante querido dos militares e muito presente na BIBLEX. 

Alias a tendência e os acentos são comuns em diversos graus quanto a um paulatino afastamento do liberalismo econômico e uma aproximação dos socialismos não totalitários, religiosos e heterodoxos do passado - Nada que me venha surpreender. 

No entanto ao menos para alguns autores e para os leitores brasileiros 'médios' o conservadorismo anglo saxão deve ser encarado como em termos de um éthos social recente e portanto em termos de capitalismo, urbanização e avanço ou progresso técnico e econômico. Ainda quando uma de suas referências, J Stuart Mill tenha postulado a doutrina da 'Economia estacionária' e se oposto a mística cristã secularizada em torno do progresso ilimitado.

Quanto a este conservadorismo boçal e de origem protestante (Elemento típico do americanismo) que busca associar o puritanismo, o moralismo ou o fixismo moral com um liberalismo econômico acelerado e a mística do eterno progresso, só posso sentir infinito desprezo, daquele que se sente por tudo quanto seja estúpido ou imbecil. Pois é unir o inútil com o ocioso ou o ruim com o desagradável e, inverter a ordem do verdadeiro progresso, colocando imobilidade onde deve haver mobilidade e mobilidade onde deve haver menos mobilidade ou imobilidade. 

Mas é com isso mesmo que nos deparamos no Brasil, via de regra admirador e reprodutor da cultura Yankee, mormente após os avanços do protestantismo.

Outro o caso de um conservadorismo crítico e limitado posto num pais europeu latino ou de cultura greco romana, na Rússia ou no Brasil, tendo em vista sua cultura, suas tradições, suas raízes, sua identidade, etc Embora eu prefira o termo reacionário.

Naturalmente que não estou me referindo ao escravismo ou ao machismo por exemplo. 

Posso no entanto - E ouso faze-lo - mencionar certos aspectos interessantes e dignos de nosso passado como dignos de serem recuperados: A fé e a liturgia da igreja romana (Anterior ao Vaticano II), as organizações e festas populares (Reisado, Bandeira, festas juninas, etc), o apreço pela lingua pátria e suas referências clássicas, o resgate de nossa musicalidade ancestral (O sertanejo caipira, o samba bahiano, a guarânia, a toada, etc), a retomada de certos hábitos alimentares, o ruralismo, o sentido comunal, a doutrina social da igreja romana, etc

Sem querer dar uma de Policarpo Quaresma os brasileiros precisam sim aprender a valorizar o que é seu, suas tradições, suas raízes, sua identidade cultural. Não estou dizendo aqui que se deva deixar de beber Coca cola ou mesmo de comer sanduíche... Julgo no entanto que esse culto ao MacDonalds, ao Rock, ao jeans e a tudo quanto venha dos EUA deva ser analisado criticamente - Pois já estão os pastores enviados pelo Trump, dando a suas seitas o nome de ''church"!!! E o objetivo é claro: Depreciar nossa lingua, a lingua ancestral, a lingua pátria e substitui-la pelo inglês, até transformar-nos em colônia 'made in EUA'. E digo que tal é um projeto - O imperialismo cultural é um projeto Norte americano e sua ponta de lança essas seitas protestantes.

E o objetivo é substituir, por completo - O pingado pela Coca Cola; o pãozinho com manteiga, o bauru ou o biju pelo mac sei la o que, a toada pelo Rock, o português pelo inglês, a igreja esculachada de Roma por essas churches e todos os nossos hábitos ancestrais por costumes importados dos EUA, até que não mais nos reconheçamos como brasileiros!!! - E há gente que opõe Funk a esse projeto rsrsrsrsrs PASSO... O propósito final é que nos passemos a ver como súditos do grande e decadente império do Norte... 

O que é potencializado pela Globo e por nossas salas de cinema, servidores acríticos da indústria cinematográfica Yankee. Afinal outro agente bastante bem sucedido quanto a implantação da cultura exógena em nosso país é o filme... ou Holywood. 

Portanto, caso não revejamos criticamente nossa prática cultural, ao fim deste processo nos converteremos numa cópia ou plagio cultural dos EUA. Uma vez que nossa cultura é atacada por todos os lados e menosprezada pelos brasileiros vendidos.

Há no entanto coisas ainda mais remotas para conservarmos, as quais são atacadas não pelo americanismo, mas por correntes de pensamento ainda mais difusas, como o anarquismo 'místico' e o pós modernismo. Aqui nos referimos a nossa herança grega em torno da Filosofia perene, do socratismo, do aristotelismo, da afirmação da realidade e da verdade.

Haja visto que o ceticismo, como é bem sabido, ao impossibilitar-nos quanto a avaliar a dor alheia como real, quanto a sensibiliza-nos, etc costuma lançar-nos dos braços de um conformismo prático que confina com o conservadorismo tosco... Afinal por que revoltar-se se não podemos afirmar a realidade da injustiça... E como revoltar-se se não existe um modelo ideal ou programa de ação quanto a realidade futura...

Tal o drama do anarquismo total ou místico (Que invade a cultura e os domínios do saber!) o qual arremetendo-se contra tudo quanto seja antigo ou tradicional, não poucas vezes destrói e destrói com fúria, sem nada construir de duradouro ou resistente - Abrindo espaço, não poucas vezes, para o protestantismo, o americanismo e a 'sifilização' contemporânea. Avalio eu que muitas vezes tais emendas saem piores que o soneto bárbaro... E de fato eu não acredito que o modelo protestante, capitalista, anglo saxão ou americanista seja melhor do que as mazelas da igreja romana ou da ortodoxia e tudo quanto vejo, sob o termo de progresso, é quase sempre piora.

Tenho repetido a exaustão: O melhor padrão de resistência cultural ao americanismo está em nosso passado clássico, em nossa herança greco romana, na Filosofia perene construída por Sócrates e Aristóteles em torno da verdade objetiva. Digo o melhor porque até mesmo o Catolicismo Ortodoxo ou apostólico, enquanto afirmação da verdade, dele depende.

Nossa resistência não poderá ser bem sucedida caso parta do irracionalismo ou do fetichismo. Só poderá ser vitoriosa e feliz caso tome por base a racionalidade e da liberdade. Uma vez que apenas elas podem suportar a afirmação do conhecimento científico, do bem comum e da fruição estética ou artística. É erro funesto repudiar a cultura europeia em bloco ou como um todo sem considerar cada elemento. Com efeito os erros da conquista, do escravismo e do capitalismo não justificam a rejeição de nossa herança grega, com a qual não estão diretamente relacionados. Julgo que posso dizer o mesmo sobre o Cristianismo antigo apostólico ou Ortodoxo.

Penso que nos devidos limites e de modo pontualmente marcado, haja espaço para certo conservadorismo crítico em oposição ao liberalismo econômico e seu projeto iconoclástico de progresso ilimitado e transformação acelerada> Assim a conservação de nosso patrimônio natural ou ecológico i é da fauna e da flora, das florestas e rebanhos, das selvas e colônias, enfim da mãe natureza. É algo a ser protegido com unhas e dentes, mantido, conservado e legado a contemplação das gerações futuras - Alias questão de sobrevivência e bem estar.

Assim a conservação de nosso Patrimônio histórico e arqueológico, igualmente ameaçado pela especulação imobiliária. Aqui, temos diante de nós o nosso passado, fundamento de nossa herança e identidade. Assim nossos monumentos, construções, vestígios, objetos, etc 

O que nos leva ao Patrimônio cultural, a respeito do qual discorremos mais acima. Sabendo que estão conectados formando como que uma simbiose. A portanto, no mínimo três setores em que um conservadorismo ou reacionarismo crítico faz oposição face ao que temos no Norte e que estão tentando implantar ou consolidar entre nós latino Americanos ou brasileiros.

Tal o nosso conservadorismo brasileiro, latino americano, apostólico ou grego romano, totalmente diverso do conservadorismo médio anglo saxão ou norte americano. Naturalmente que o brasileiro médio, leitor de um autor tão superficial quanto Olavo de Carvalho (Alias reprodutor acrítico do modelo norte americanista.) ignora tudo isto. Resta-nos convida-lo a ler as últimas obras do profo Jorge Boaventura, de Scruton ou mesmo de John Gray. 

Afinal nada há de conservador ou de conservadorismo em assimilar uma cultura estrangeira que, há mais de século, Eduardo Prado, avaliou como essencialmente oposta a nossa. 

Conheça também os demais artigos da série 'Culturas de morte': 


  • Americanismo
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sábado, 11 de outubro de 2025

A oportunização das capacidades

Um aspecto aparentemente irrelevante para a ampliação do conhecimento é a ampliação de direitos e oportunidades.

Como foi salientado por Poincaré, em seus estudos sobre Ética, é a ciência (E assim a Filosofia) uma construção cumulativa e coletiva, não um trabalho individual. Impossível tornar atrás com o objetivo de tudo comprovar novamente... 

Geralmente cada peça de um aparelho representa o trabalho de um cientista.

Por sinal, aqueles que desejam criar algo novo, começam quase sempre elencando o quanto já foi criado em sua área e buscando saber como tais criações foram produzidas. 

Conectar pessoas é como estabelecer sinapses entre neurônios e transformar a humanidade num cérebro.

Isto no entanto depende dos meios, dos meios de comunicação - Cujo papel é favorecer a troca de ideias, a associação e a síntese.

Todavia seria inútil por as pessoas em contato caso não fossemos capazes de garantir a liberdade e os direitos de cada uma.

Pois o exercício da liberdade e a fruição dos direitos é que conferem a cada um de nós as condições ideais para bem pensar. 
É demanda imposta pela gratidão aspirar engrandecer um sociedade ou grupo social que garante nossos direitos essenciais - Assim a Sociedade democrática.

Ao atribuir a todos, sem distinção, a fruição da liberdade e a todos encarar como objetos de determinados direitos a Sociedade democrática cria condições para que cada qual possa dar o máximo de si tanto na atividade da pesquisa, quanto na capacidade reflexiva ou na produção artística.

Cria ela enfim as condições necessárias para que todos se respeitem, convivam, entrem em contato, dialoguem, troquem ideias, pesquisem e reflitam juntos - Criando como que uma teia ou um tecido do saber.

Ao integrar a mulher, o homossexual, o deficiente, o idoso, o trabalhador humilde, a criança, etc a sociedade dos direitos possibilita que o conhecimento circule mais rapidamente. Criando pontes entre indivíduos 'diferentes' na igualdade da pessoa, a sociedade democrática estimula a associação entre as unidades do saber e a produção de novos implementos.

Quanto maior a integração em termos de unidades do saber tanto maior a chance de produzirmos coisas novas e de avançarmos no entendimento geral.

Outro o caso das sociedades elitistas fechadas, que separam e reprimem os indivíduos. Na medida em que discriminam e oprimem. Pois quebrar pontes é impedir a troca de ideias, obstruir o diálogo e dificultar a expansão do saber, fruto - Como já dissemos, de um trabalho comum ou colaborativo. 

Nem por isso me acuse, o leitor de boa vontade, de incoerência ou de pós modernismo. Não nego e jamais poderia negar a existência da Verdade e da Verdade ética objetiva - Súdito de Cristo, porém da mesma forma súdito de Sócrates. Afirmo a existência do bom, do belo e do verdadeiro. 

O quanto devo questionar é a posse de uma verdade imutável, por parte dos que se dizem cristãos, no campo da moralidade. 

Mormente quando por questão de cultura foi o Cristianismo colonizado pela moralidade ou por um moralismo judaico nada divino, nada revelado, nada sagrado e nada Cristão (Do qual não há mínimo vestígio no EVANGELHO) em termos de especismo, machismo, homofobia, escravismo, etc

Se contra os protestantes afirmo a infalibilidade, inerrância e incorruptibilidade da Igreja Ortodoxa, Apostólica e Católica quanto a metafísica, os mistérios de Cristo, os dogmas, os artigos de fé ou a manutenção da Revelação divina, recuso-me terminantemente a afirmar um infalibilidade mecânico\formal da igreja no plano das moralidades ou da Ética, embora reconheça uma ação genérica da providência em parte da igreja ou das consciências que dela fazem parte. 

E compreendo essa ação - No campo da Teologia para tanto mais depurar e esclarecer. - nos campos da moralidade e da Ética como uma distinção cada vez mais radical entre o conteúdo cultural ou natural das moralidades judaicas e o conteúdo sagrado, divino e transcendente do Evangelho ou das palavras e lições de Nosso Senhor Jesus Cristo. Do judaísmo detemos apenas o quanto nosso Instrutor divino apontou e avaliou como Sagrado: O Decálogo, e nada mais. E negamos a sacralidade ou a sobrenaturalidade da moral hebraica.

Portanto não acreditamos que esse conteúdo semita - Que cria uma ponte com o islamismo. - (Machismo, homofobia, escravismo, estatismo, etc) tão caro ao apóstolo Paulo (Fariseu, filho de fariseu e aluno de Gamaliel.) pertença de fato ao Cristianismo ou seja Cristão.

Para além disso encaramos como um marco, quanto a afirmação de direitos civis inerentes a pessoa humana, a atuação do religioso espanhol Francisco no correr do século XVI, enquanto decorrência dos grandes descobrimentos. 

E quero estender-me quanto a isso. 

Partindo do fato segundo o qual o que chamamos de velho mundo ou mundo bíblico constava apenas de algumas partes da Ásia, da África (Então chamada Líbia ou Mizrain) e Europa. Nós mesmos, noutro artigo, já estabelecemos que os antigos israelitas nada sabiam, em absoluto sobre os chineses e indianos, para não falarmos nos povos americanos. Por sinal politeístas e pagãos em sua quase totalidade. E mesmo assim em posse de uma diversidade religiosa bastante significativa.

Para não falarmos nos povos americanos...

Ora a relação entre os povos conhecidos já havia sido marcada - Não pelo Cristianismo, porém a partir da cultura judaica. Agostinho, a partir dela, afirmou que os africanos ou pretos seriam descendentes de Caim ou de Cã, etc portanto amaldiçoados e destinados a dominação ou ao escravismo. Argumento fartamente explorado pelos batistas norte americanos, defensores da escravidão africana, ao cabo do século XIX... Quanto aos pagãos da antiga Europa houve um maior tato, prudência e composição...

Por outro lado o islã estabeleceu a relação em termos bastante simples - Os quais fazem lembrar o padrão israelita com relação aos antigos cananeus (Reproduzido do mesmo modo pelos calvinistas ou 'novos israelitas' nos EUA) - aos povos do livro > Judeus e Cristãos, a Djzya; aos politeístas e pagãos a conversão ou o extermínio. 

A descoberta ou se quiserem integração cultural da América ao 'velho' mundo planteia tal situação para os Cristãos romanos do século XVI e é fecunda quanto a consolidação dos direitos que hora chamamos inerentes e universais (Os direitos essenciais a pessoa humana). É necessário traçar esse esboço histórico apenas para demonstrar que a atribuição de direitos universais e incondicionais não é, de modo algum, obra do pós modernismo, porém do Cristianismo apostólico, da tradição Cristã, da reflexão teológica, etc 

Pois é, como disse, fenômeno que remonta ao contato dos cristãos ocidentais europeus com os povos pagãos ou não Cristãos das diversas sociedades americanas. Mais - Tal reflexão não foi conduzida por incrédulos, materialistas ou ateus porém por clérigos ou religiosos, particularmente pelos Dominicanos, herdeiros do pensamento tomista e, tanto mais remotamente, de nossa herança grega, clássica ou aristotélica.

Problematizemos: Ao tempo em que a América fora descoberta ou integrada ao universo das relações globais, havia a Europa feito um percurso posterior a Aquino e a escolástica, chegando a Renascentismo, e portanto a uma valorização ainda maior da figura e das lições de Aristóteles por um determinados grupos intelectuais, particularmente paduanos e veronenses. Diante deste recrudescimento do aristotelismo podemos dizer que a postura de  Aquino foi tanto mais crítica e temperada pelo Evangelho - Quando havia atrito entre os ensinamentos Éticos de Jesus e os do Filósofo, Aquino optava sempre por seguir o Evangelho.

Diante disto, certo número de Cristãos espanhóis - Como Juan Ginés de Sepúlveda e Fernandez de Oviedo - firmados em Aristóteles e no antigo testamento, alegaram que os indígenas americanos deveriam ser tratados no máximo como os infiéis maometanos, que eram bárbaros, inferiores ou sub humanos, que não podiam ser objetos de direitos, etc Se lhes opôs a Escola de Salamanca sob o comando de Francisco de Vitória. Era representando ele, neste nosso Novo mundo, pelo profícuo e operoso Bartolomeu de Las Casas, pelo Bispo Vasco de Quiroga, etc Da colaboração destes e doutros grandes homens Cristãos: Soto, Bañes, Cano, etc aflorou o Colóquio de Valladolid (1551), ocasião em que, pela primeira vez na História humana foram considerados os direitos inerentes a pessoa humana, posteriormente estendidos a todos os seres humanos.

Aquele foi o ponto de partida. Pois a lógica é a mesma seja aplicada a mulheres, crianças, idosos, deficientes, gays, membros de outras etnias, etc Pois argumentava Las Casas que eram os indígenas livres na ordem da natureza i é independentemente de suas crenças, exceto quando estas produzissem agressões ou violência. E o que está por trás disto é a tradição autenticamente Cristã, apostólica, católica e ortodoxa segundo a qual a fruição dos direitos naturais por parte dos seres humanos independem de suas crenças religiosas ou de qualquer status espiritual.

É proposição tradicional (Implícita nos padres da Igreja e no Evangelho.) e ao mesmo tempo revolucionária - Pois se a fruição de direitos essenciais e naturais por parte dos humanos neste mundo independe da fé ou do estado da pessoa, independe da mesma maneira e com maior razão ainda de quaisquer outras condições externas, tais como: Origem, situação econômica, gênero, opção sexual, idade, saúde, etc Conclusão: A ação externa da pessoa ou sua avaliação moral não deve ser considerada quanto a atribuição de direitos e, alias, mesmo os criminosos não cessam de ser objetos de direitos essenciais, inda quando imobilizados e privados do direito de ir e vir. 

Independentemente de quaisquer atitudes, ser humano algum jamais cessa de ser objeto de direitos inerentes pelo simples fato de ser humano i é um ser racional e livre. 

Portanto mesmo que você, a luz de sua fé, encare os gays ou as feministas, os pagãos ou os dissidentes, os ateus ou blasfemos como condenados ao fogo eterno ou simplesmente como sujeitos a penalidades espirituais, eles continuam sendo sujeitos ou objetos de direitos essenciais - E portanto (Enquanto pessoas!)) credores de respeito e tolerância, em qualquer sociedade deste mundo.

Nem se pode questionar seriamente a distinção estabelecida do ponto de vista da fé ou da crença. Pois caso confundíssemos a esfera natural e imanente da política com o mundo sobrenatural e invisível seríamos levados a questionar o exercício do poder por parte de qualquer pecador. Nada mais pueril do que vincular a fruição do poder político ao estado de graça, uma vez que é, o estado de graça, conhecido apenas de Cristo, inacessível ao conhecimento humano, inverificável, etc Do que resultariam apenas especulações sacrílegas, discussões inúteis, tumultos e revoluções no campo da política. 


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sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Relativismo cultural: Histórico e confrontação

Posto o problema em seus devidos termos, urge identificar os principais responsáveis ou culpados.

Assim a ideologia que ora se converte em dogma, o relativismo cultural.

Refiro-me ao ponto de vista segundo o qual não se pode falar em culturas superiores ou inferiores. Devendo todas ser avaliadas como iguais.

Segundo essa opinião inexiste notação cultural, posto que tudo quanto é produzido pelos humanos é cultura.

Aqui o 'confusionismo' é evidente. Pois do fato de que tudo quanto seja produzido pelos humanos seja cultura não se segue que todas as produções culturais da humanidade tenham o mesmo valor...

Que toda a cultura produzida pelo ser humano tenha igual valor é algo que se afirma, mas que jamais se demonstra. É portanto um juízo de valor, demasiado subjetivo e arbitrário que a pós modernidade irracionalista aspira converter em dogma inquestionável, a ponto inclusive que criminalizar os oponentes.

É, repito, opinião indemonstrável e caprichosa, emitida por antropólogos como Franz Boas, R Benedict, M Mead, J Herscovitz e outros desde os primórdios do século XX e convertida, nas últimas décadas, em arma política, por parte de minorias ambiciosas, inspiradas por modelos religiosos totalitários.

Inútil argumentar que a Helade clássica produziu o esporte, o teatro, a Filosofia, os cânones da arte, a Democracia, etc enquanto que as antigas tribos israelitas nada produziram de equivalente. Ocioso alegar que a civilização cristã bizantina produziu um modelo de serviço social e assistência, enquanto que a Europa ocidental nada produziu de similar. 

Outros contrastes?

O reino de Angkor e os povos das estepes.  A Itália Renascentista e a França feudal do século XIV. A Bélgica romanista, guiada pelos sábios da Louvain e a Inglaterra do século XIX. Os países escandinavos do bem estar social e os EUA nas últimas décadas do século XX...

Para os irracionalistas, funcionalistas e pós modernos é absolutamente tudo igual. Assim o projeto islâmico para a Europa e o projeto calvínico/pentecostal para o Brasil e a vigência das instituições liberais do tempo presentes. Afinal, se tudo quanto existe são narrativas, e se toda verdade objetiva nos foge, como postular diferentes projetos sociais e políticos, estabelecendo uma escala de valores???

Em última análise é o relativismo social ou cultural fruto da epistemologia kantiana ou do ceticismo metafísico. Seja como for o temos de analisar atenta e profundamente, de modo a fazer-lhe oposição.

A primeira assertiva, alias, até certo ponto justa, é que não podemos comparar grupos ou sociedades que floresceram em diferentes espaços e eras. Quanto ao espaço, há certa lógica. Pois sem chegarmos a F Ratzel e ao determinismo geográfico, temos que admitir que o fato da Revolução Inglesa se ter dado na Inglaterra, cujo solo é, por assim dizer, um  pedaço de carvão, é bem mais do que uma coincidência. Tampouco podemos negar que os habitantes dos desertos, estepes e montanhas sejam mais agressivos que os agricultores das grandes planícies aluvionais - Ou que as primeiras cidades se tenham formado junto as margens dos grandes rios (cf Metchenicoff). 

A questão aqui é se a condição geográfica determina ou apenas possibilita, ficando os resultados na dependência do éthos específico de um dado grupo humano. O que nos leva a questão central i é se qualquer povo, num dado espaço e num dado tempo, procederia da mesma e exata forma que outro... Ratzel foi pelo determinismo espacial... Porém V de La Blache e J Brunhes foram na direção da síntese a que chamamos Possibilismo... Indicando que a ação dos grupos humanos não é homogênea, havendo diferenciação, mesmo quando o tempo e o espaço sejam similares.

Para rematar a questão devo admitir que entre povos que habitam espaços bastante diferenciados as comparações devam ser, quando feitas, cuidadosas e sumárias. Outra questão a ser analisada é que dada a peculiaridade das culturas não devamos considerar a transferência da cultura nos diversos espaços... Faço as mesmas reflexões sobre o tempo - Admitindo o absurdo de compararmos as culturas da Idade da Pedra com as culturas da antiguidade. Outro o caso de compararmos as culturas ágrafas subsistentes com as culturas contemporâneas propriamente ditas.

E é por aqui que chegamos a teoria relativista e pragmática da pós modernidade, chamada FUNCIONALISMO. De fato, nas mentes dos antropólogos cientificistas, que abraçaram o ideário positivista, deve a 'ciência' numa perspectiva empirista e materialista (Não meramente material) todo e qualquer conteúdo que fuja a materialidade e admita qualquer coisa de ideal, deve ser repudiado. Pelo simples fato de que o ideal implica suspeita de imaterialidade ou de metafísica - A qual Kant classificou como impossível... Então eles estabelecem os limites e as fronteiras do saber pela materialidade > O que também produzirá problemas, alias ainda mais grave, no campo da Psicologia.

Antecipando tudo isso E J Litreé, pelos idos de 1860, esboçou a direção do positivismo> A Negação da Ética, enquanto modelo materialmente inexistente posto para a realidade dada nas áreas da Ética e da Estética. Segundo Litreé, não poderia o conhecimento verdadeiro ou científico estabelecer uma meta para o que não existe ou não possuí materialidade - Noutras palavras, nada se pode predicar de Objetivo quanto ao que vá ser feito, estipulando como deve ser feito. O que implica a negação da Ética e da Estética enquanto ''supostas" orientações valorativas sobre o que não tem existência real. O positivismo, a ser coerente, foi meticuloso e chegou a negação da Ética e da metafísica. Poincaré foi mais ou menos do mesmo ponto de vista. 

Não há Filosofia, não há metafísica, não há idealidade não há objetividade fora da materialidade, não há qualquer padrão para juízos de valor, e portanto, não há Ética e tampouco Estética como entendiam nossos ancestrais gregos. Devemos, quanto ao bem e ao mal, quanto ao belo e o feio, e também, quanto a verdade e o erro (E todas as questões que se distanciam em demasia da percepção ou da sensação.) nos conformar com aquilo que é dado ou com aquilo que os gregos chamavam 'doxa' i é opinião. Pois em última análise seria problemas insolúveis, ociosos e, consequentemente, sem importância.

O tiro de Litreé todavia saiu pela culatra. E após as negativas dos positivistas, em favor daquilo que é, existe ou é dado (Ciência descritiva); enfim da inércia conservadora que apenas analisa, estuda ou conhece sem jamais preceituar ou interferir, estouraram as bombas dos anarquistas e comunas da propaganda pelo fato... Ravachol e turma... Os quais eram a um tempo idealistas e a outro materialistas - Vai entender... Abolida a Ética, engendrado o Darwinismo social, proclamado o conformismo, etc chegamos rapidamente a primeira grande guerra mundial. As vésperas da qual tornaram os intelectuais a falar sobre Ética... 

Naturalmente que a reabilitação da Ética ou da moralidade, no contesto do pós guerra foi encarada pelos anarcos, comunas e mesmo por parte das pessoas comuns como mera estratégia oportunista. Admitida a lógica de Trasímaco e lançada ao lixo a de Sócrates, por primeira vez na História o lado 'fraco', representando pelos dominados, ameaçou romper as cadeias da sujeição... Diante disto o desmantelar do positivismo ortodoxo ou do cientificismo crasso foi encarado por muitos como um dourar a pílula - Era Trasímaco amaciando ou buscando ocultar seu discurso e para tanto apelando a conceitos como paz, respeito, amor, bondade, etc tornando a atribuir-lhes sentido meio século depois. E se um Ayer continuará negando ferozmente o sentido de tais palavras sempre encontrará resistência.

Quanto aos pensadores modernistas nada posso dizer sobre a honestidade dessas idas e vindas - Posto que se lhes trouxer alguma vantagem ou benefício são capazes de resgatar a existência de Deus. Os papistas - Assim Emile Boutroux em 1895 cf "Questões sobre moral e educação" ou mesmo em 1883 em "Sócrates, fundador da ciência moral" - no entanto já levantavam a questão da objetividade da Ética ou do Socratismo, e consequentemente da Metafísica, da idealidade, da validade dos saberes, etc cerca de dez ou mesmo vinte anos antes da calamidade de 14.  

E foi exatamente nesse período que toda essa questão passou aos domínios da antropologia. Quando em 1903, L Levy Bruhl na "Moral e ciência dos costumes" - Ocasião em que o autor, dando moral por Ética (Como tantos outros) afirmou que a Ética inexiste como objeto próprio, objetivo e universa, não passando de uma construção social relativa a cada grupo. Cada grupo social teria sua Ética ou moral específica - Daí diversos sistemas de Ética contraditórios ou sem qualquer conexão. 

Isto quanto a Ética, em oposição ao universalismo objetivo de Sócrates.

Quase que simultaneamente, Boas e seus colaboradores elaboraram sua teoria relativista da cultura, com base no funcionalismo, algo, como veremos perfeitamente pragmático. Postulando que é absurdo avaliar uma dada cultura partindo tanto de um universalismo Ético objetivo quanto dos princípios e valores externos a ela ou procedentes de uma outra cultura. E que o único modo de avaliar uma dada cultura é através de sua função, noutras palavras, se aquela cultura foi ou é útil tendo em vista a sobrevivência ou o bem estar do grupo. Portanto se um dado elemento promove a sobrevivência ou a manutenção de certo grupo social deve ser classificado como útil, benéfico ou vantajoso pelo grupo, uma vez que a conservação do grupo é o bem supremo ou o único critério a ser considerado.

Tal o modelo funcionalista, como se vê, derivado do utilitarismo, uma vez que tudo quanto se considera é a utilidade para o grupo em termos de continuidade e bem estar. Não cabendo qualquer juízo valorativo por parte a uma cultura mais evoluída ou a uma instância Ética universal. 

A conclusão aqui é bastante simples: Caso a mentira, a traição, a pedofilia, a castração de mulheres, a tortura, o assassinato, etc traga alguma vantagem para determinado grupo social, mantendo-o coeso e equilibrado, deve ser avaliada como algo bom naquele grupo e para aquele grupo... E o mais é puro preconceito...

Imaginemos porém nossa própria cultura ou algum agregado social próximo a guerra, a tortura, a tirania, etc se tornassem úteis tendo em vista o equilíbrio ou a conservação social... Entendem porque tantos e tantos teóricos tem buscado demonstrar a utilidade da mentira, da traição, da guerra, dos vícios (Bernardo de Mandeville), etc... Pois do ponto de vista do funcionalismo ou do relativismo ético, aquilo que é útil é necessariamente bom... Podemos portanto, demonstrando que qualquer coisa seja útil, transforma-la em algo bom ou desejável, mesmo quando de fato seja anti ética e essencialmente má.

E como parte dos cidadãos é individualista ou ignorante - No sentido de não ser capaz de compreender a teoria. - fica fácil argumentar que tudo quanto seja bom para o outro grupo, assim a castração de mulheres ou a burka para as sociedades islâmicas, também pode ser bom para o nosso grupo... E é exatamente aqui que as coisas se complicam. Pois embora esteja eu pouco me lixando para as tribos do deserto que lavam o c... com areia, acharia preocupante caso viessem eles morar na capital de S Paulo e propagar entre nós as prodigiosas vantagens de sua higiene 'peculiar'...

E decerto, caso avaliemos as coisas pelo critério deles ou do funcionalismo, o problema é a burka, a castração de mulheres, a sharia e as instituições do deserto transplantadas para nossa cultura em lugar de seus elementos e instituições... Então nem seria o caso de buscar demonstrar que são superiores ou melhores porém que são as mais adequadas a nossa realidade. E é o quanto bastaria para combatermos a islamização ou a protestantização.

Nossa maneira de proceder, enquanto Cristãos ou Católicos, ou ainda enquanto herdeiros da civilização greco romana, é a mais adequada tendo em vista nossa estrutura social. E parece não haver indício ou evidência alguma que ao menos neste local ou nesta época as culturas protestante, judaica ou islâmica seriam melhor sucedidas. Como pura e simples conjectura a respeito de um futuro que ainda não existe, tal opção equivaleria sempre a uma aposta, pela qual poderíamos vir a pagar um preço demasiado caro.

Além disto possui a funcionalidade um outro viés, que é do igualitarismo social. Dando por suposto que em dado lugar e tempo todo e qualquer grupo humano agirá da mesma forma, estruturando o convívio do mesmo modo, fica demonstrada a 'igualdade' da espécie enquanto ser social. Por outro lado, se, dadas as mesmas condições, os diversos grupos procedem de modo diverso, com maior ou menor habilidade, temos que não há igualdade social entre os grupos que compõe a espécie.

Então o receio aqui, alias um receio justo até, é que a partir do fato da desigualdade cultural ou social, se possa aduzir um desigualdade em termos de pessoa ou ser humano. Pois as massas tendem a confundir as coisas muito facilmente. Ora, o quanto podemos dizer sobre isto é que a igualdade humana (Universal) em termos de capacidades (Da espécie) não é ativa porém potencial - Todos os humanos tem um potencial racional para a abstração, para a metafísica, para a construção da linguagem, para a predição ou o juízo, para a lógica, para a pesquisa, etc No entanto, como ser humano algum nasce a parte de um determinado construto social, acabamos sendo condicionados pela Sociedade em que nascemos e vivemos na medida em que ela limita ou não a expressão ativa da racionalidade. 

Importante saber que num dada formação social ou cultura há uma condição de relativa igualdade ou de igualdade média, exceto quando as oportunidades são negadas intencionalmente com o sórdido objetivo de produzir alienação ou massificar. Tomo por modelo uma sociedade ideal de informação e reflexão, inda que marcada por desigualdades sociais possíveis de serem superadas. Num dado grupo social ou cultural podemos supor certa margem de igualdade posta para a reflexão e para a liberdade. Então a questão da igualdade humana absoluta não se coloca em função da cultura - O quanto podemos postular é uma igualdade relativa no interior de uma dada cultura. Face, as desigualdades reais impostas pela cultura, o quando podemos afirmar em termos de universalidade é a potencialidade.

Devemos salientar ainda que os indivíduos que migraram de seu universo cultural para outro estarão em vantagem ou desvantagem conforme migrem de um cultura mais elaborada para um cultura mais simples ou de uma cultura mais simples para uma cultura mais elaborada. Resta-nos inferir que o problema da limitação não está na natureza humana ou na potencialidade comum e sim no construto cultural mais ou menos completo, o qual impulsiona mais ou menos o potencial humano, ampliando-o ou restringindo-o. Portanto, na hipótese de que exista uma cultura superior, tanto mais complexa e melhor tendo em vista o estímulo integral de nossas potencialidades é importante ter plena consciência dessa superioridade.

Diante disto, dentro dos limites do tempo e do espaço, não posso deixar de encarar as culturas: Suméria, Egípcia, Grega, Chinesa ou Inca como superiores as demais ou como mais desenvolvidas. Do mesmo modo como a Evolução biológica nos dá a entender que certas linhagens se vão tornando mais complexas na medida em que se adaptam a um meio estável ou instável e logram sobreviver, assim algumas entidades culturais mostram sua superioridade na medida em que estimulam com maior eficácia as capacidades do Homo Sapiens. E estimulam produzindo determinados construtos sociais - Assim entre os antigos Sumérios a escrita, o bronze, o arado, a roda... Entre os egípcios a escrita, o papiro, a mitologia, a medicina... Entre os gregos a Democracia, a Filosofia, o Teatro, o Esporte, a Mitologia, etc Entre os modernos a justiça social, a Democracia, a Imprensa, o Rádio, a TV, a Internet, o avião, a Ciência, etc É a criação de tais meios, suportes ou entidades que estimulam nossas habilidades potenciais.

Por outro lado podemos e devemos classificar como culturas inferiores não as que permanecem estacionadas noutro nível, porém equilibradas, mas sobretudo aquelas cujos membros, tendo conhecimento das conquistas acima citadas, buscam elimina-las. Assim os que buscam eliminar a arte, a ciência, a justiça social, a democracia, a ciência, o esporte, a tecnologia, etc com o objetivo de nos fazer retroagir - Pois uma coisa é corrigir para melhorar e outra destruir por completo.

Então o que queremos dizer em alto e bom som é que não podemos encarar o iconoclasmo, o negativismo científico, a eliminação da técnica, a supressão da democracia, a negação dos direitos naturais, etc como um padrão de cultura igual ao nosso e sim como uma ameaça, ao menos a um projeto (Inda que desviado ou mal esboçado.) de civilização. Longe de nós encarar a sharia, a teocracia, as inquisições, o fetichismo, o criacionismo, o geocentrismo, o terraplanismo, o maniqueismo, etc como algo neutro ou inocente que se deva tolerar. Suprema loucura conceber o islamismo, o protestantismo pós calvinista ou a judaização como propostas alternativas de sociedade quando na verdade representam a barbárie. Barbárie contra a qual devemos reagir forte, poderosa e conscientemente - Inda que para tanto devamos nos opor aos novos dogmas da pós modernidade como o funcionalismo ou o relativismo cultural.

Pois na base do despejo dos jihadistas em solo europeu e enquanto fundamento de tão irresponsável iniciativa estão tais ideologias ou resíduos de um pós modernismo que nega a verdade substituindo-as pela narrativa. Narrativa por narrativa não é a narrativa islâmica que querem os europeus... Tampouco a maior parte dos latino americanos de hoje desejam aderir a versão protestante ou americanista de sociedade. Logo, o ponto de partida de nossa luta pela cultura será a valorização de nossa identidade, de nossas tradições e de nossas vivências. 

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quinta-feira, 9 de outubro de 2025

A ferramenta do relativismo Cultural: Islamização, protestantismo e judaização....

Vivemos em tempos de impérios em conflito. Pois embora tenhamos diversos blocos políticos: Índia, China, Rússia, 'Europa', 'América latina'... apenas dois exercem um proselitismo cultural em larga escala, buscando, obviamente, criar um padrão universal.

Assim o americanismo, com o protestantismo; assim os islamismo. Um despejando-se pela América latina e, consequentemente, pelo Brasil, com suas seitas, bíblias e pastores. Outro despejando-se pela Europa e África. Com grande risco para as demais culturas, tradições e identidades.

Surpreendentemente - Por via do antigo testamento, Mikra ou Tanak - apesar da oposição credal, existe uma certa afinidade de espírito em termos de protestantismo e islamismo. E é algo mais profundo que o iconoclasmo, por tocar o anti cientificismo e o totalitarismo... Percebeu-o o grande humanista francês Gilherme Postel e compôs uma obra pioneira a respeito.

Assim se o islã predica uma transcendência absoluta e anti encarnacionista, o protestantismo judaizante - Devido a sua ênfase no antigo testamento. - (Em oposição a Fé Ortodoxa) recusa-se a levar o Encarnacionismo as últimas consequências: Daí sua objeção as imagens ou representações, a 'Mãe de Deus', a presença real do Senhor no Sacramento, ao Domingo, a comunhão dos Santos, etc 

De fato a proximidade existente entre as Igrejas apostólicas e a Imanência - Uma decorrência necessária da Encarnação de Deus! - choca de tal maneira os protestantes a ponto de assumirem o discurso muçulmano segundo o qual, foi o Cristianismo antigo ou Histórico, poluído e esmagado pelo paganismo! Importante salientar que muito antes de Calvino ou Blaurock se manifestarem neste mundo, os rabinos e ulemás já apresentavam a igreja de Cristo como quintal do politeísmo e da idolatria.

O próprio Jesus, quando mencionado nos registros do povo é classificado como sedutor, feiticeiro, politeísta e idólatra. Ele disse: Se eles falaram mau de mim, que sou o Senhor, como não haverão de falar mau de vós que sois os servidores... Já os infiéis das Arábias inculpam ora Paulo, ora João, ora Orígenes, ora Tertuliano, ora Atanásio, pelas 'blasfemias' politeístas da Cristandade apostólica. (Os protestantes só tem coragem de ir a Clemente de Roma, Inácio, Pápias ou Policarpo - Ouvintes dos apóstolos!). 

Mas estão de pleno acordo quanto ao juízo lançado contra a Igreja Histórica. E como o protestantismo é recente e muito mais jovem que o judaísmo ou o islã, podemos dizer que judaiza e islamiza. Novidade alguma - Pois já no séculos VIII e IX parte dos nossos, pretendeu aproximar-se do islã, embarcando na canoa furada do iconoclasmo. O mesmo se observa no papismo, o qual buscando reconquistar os protestantes foi mergulhando mais e mais no lodo agostiniano, até - Com o Vaticano II - mergulhar no protestantismo, e (Pasme!) no pentecostalismo fetichista (Com a tal RCC)... 

No entanto foram os iconoclastas, os papistas e os neo papistas que se perverteram, guiados por mestres tão cegos quanto os agarenos e os protestantes... Tal a ilusão das aproximações.

O protestantismo, aproximando-se do judaísmo e do islamismo (Por via do antigo testamento) foi perdendo mais e mais seu caráter 'Cristão' e encarnacionista, até nada mais ver ou poder ver no Cristianismo Histórico que o odiado paganismo, o qual anseia destruir até os fundamentos.

E não pode haver mínima dúvida quanto a tais desígnios, digo quanto a proposta tanto do islamismo quanto dos protestantismos pós calvinistas. Os quais encaram o paganismo antigo ou ante Cristão como absolutamente maligno ou diabólico, porfiando destruir seus últimos vestígios, assumidos pela Cristandade apostólica, assim as artes a que chamamos de sacra e a tudo quanto se destaca pela simples beleza.

Outro o programa da igreja, outra sua atitude, outra sua obra...

Todavia, tornando ao islamismo, o que ele pretende destruir são os fundamentos mais remotos de nossa civilização Greco romana, pelos quais respira ódio mortal. O judaísmo é tanto mais civilizado, embora conte também ele com certo número de fanáticos.
Sobre o protestantismo pós calvinista, todos nós o conhecemos muito bem. 

Tal o significado nu e cru da destruição das ruínas de Palmira e Nínive pelos fanáticos do ISIS. Caso você compreenda que cada um daqueles 'Aladlammús' esmigalhados representa as raízes de nossa cultura e as fontes da nossa identidade, terá compreendido tudo e qual seja o objetivo final do islamismo. 

Não nos deixemos ludibriar ou enganar: O Museu do Cairo ali está apenas enquanto significativa fonte de riquezas ou enquanto algo 'vigiado' pelas grandes potências do mundo civilizado. Eis porque, apesar dos esforços empreendidos pelos egípcios esclarecidos e de boa vontade, ele escapou por um tris da destruição... Outro o caso do Museu de Cartum, no Sudão - Onde os tesouros das Cândaces fora pilhados e quiçá derretidos pelos fanáticos...

Pois para a imensa maioria dos xeques e dos muçulmanos devotos, os tesouros contidos em nossos Museus nada mais são do que imundice pagã cujo fim é a destruição... Imaginar algo diverso é pura ingenuidade de quem ignora o verdadeiro caráter do islã.

Aqueles que no passado destruíram as bibliotecas de Cesareia marítima e de Skandaryia bem poderão, uma vez no poder, acabar com os Museus de Londres, Paris (Louvre), Berlim, Prado e Vaticano, assim como as principais Bibliotecas do velho mundo, destruindo por completo o quanto nos resta de um Ésquilo ou de um Aristóteles... E não podemos assistir de braços cruzados uma catástrofe semelhante. 

Pôde a Europa nos séculos passados exumar e resgatar as fontes na nossa cultura. Pois nas pessoas de um Champollion, um Lepsius, um Montet, um Layard,  um Gsell... pode passar a Ásia e reconstituir nosso vetusto passado. Agora ameaçada a Europa como haveremos nós de transpor o mar oceano para salvar as relíquias da nossa cultura...

Caso permaneçamos de braços cruzados, em poucas décadas, assistiremos a destruição da nossa cultura, das nossas raízes, de nossas tradições e de nossa identidade. Caso permaneçamos indiferentes a Europa se converterá em quintal do islã...

Tolos aqueles que esperam proteção e defesa por parte dos EUA. Pois os Yankees são, ao menos em parte, descendentes daqueles mesmos puritanos que deixaram a Inglaterra por não terem podido destruir as torres, cruzes e sinos das catedrais. Para o yankee é a Europa, inclusive a Inglaterra, um território indômito e contaminados pelas relíquias da Ortodoxia ou do Papado: Catedrais, calvários, torres, sinos, etc E tanto se lhe dá que o maometano de cabo do poder o Papa romano... ou dos Bispos...

O próprio papado encarou as coisas desse jeito, no século XV, com relação a Ortodoxia. A atual visão dos EUA outra não é em nossos dias com relação ao papado... Pois existe certa unidade de mente, como assinalamos entre o protestantismo e o islamismo. Destarte o que não pôde o protestantismo fazer ou completar na Europa, é esperado que seja feito pelo islã, quero dizer a destruição do símbolo.

Digo mais - A introdução do islã nos territórios Ortodoxos e romanistas é uma plataforma comum aos EUA, ao sionismo, aos comunas e aos anarcos e quiçá a única plataforma comum que teem eles, por ódio a Cristandade histórica... Os protestantes ressentem por não terem eliminado a igreja romana do mapa ou convertido os Ortodoxos, os sionistas esperam algum alívio caso os jihadistas avancem na direção da Europa, os comunas e anarcos esperam apoio político por parte dos muçulmanos - A ONU e a maçonaria executam e os governantes safados se deixam comprar...

Quem perde é o povo europeu, sejam romanistas, Ortodoxos ou liberais honestos, envolvidos pelos apóstolos da sharia. Quem perde são os cidadãos livres. Quem perde são aqueles que estão em posse de algum direito outorgado por lei. Assim as mulheres, os homossexuais, as minorias religiosas... E os amigos das artes, da ciência e da democracia; da civilização enfim ou do que lhe resta.

Portanto precisamos defender a América latina, quanto ao imperialismo protestante e a Europa, quanto ao imperialismo árabe, enfim quanto a ambas teocracias ou totalitarismos. Ambos fantasmas ou abutres, que ameaçam a civilização, precisam ser ousadamente combatidos.

No entanto antes de entrar nesse assunto - Da resistência ao protestantismo e ao islã, devo aborda de passagem as relações entre o Cristianismo nascente ou a Igreja primitiva e o paganismo ou nossa ancestralidade. Ressaltando que, apesar do 'fantasma' do judaísmo ou da cultura semita, não foi ela totalmente negativa\negacionista, mas em parte assimilacionista.

Já porque a ideia de um Deus encarnado - Fundamento e centro da fé Cristã. - sendo procedente dos céus, não tem afinidade alguma com o judaísmo antigo (Cuja mentalidade estava voltada para a transcendência absoluta ou para uma divindade apartada do mundo material.) e sim com o paganismo. Portanto se algum protestante ou judaizante tem algo contra o paganismo que se faça ariano, unitário ou muçulmano uma vez que a ideia de que deuses se façam mortais ou gerem filhos humanos é pagã e de modo algum semita. 

Não é a doutrina da mãe de Deus que é pagã como afirmam os protestantes mais ingênuos - Pagã é a ideia de que Deus se faça ser humano, repito. E no entanto tal é o fundamento pétreo de nossa fé uma vez que, segundo o Evangelho escrito, o fundador do Cristianismo reivindicou para si a natureza divina (Disse que julgaria os mortais no último dia, que perdoava pecados, que não tinha pecado, etc), merecendo por isso ser classificado como pagão e idólatra pelos judeus...

Eis porque não foi o Cristianismo antigo absolutamente iconoclástico ou negativo quanto ao paganismo antigo. Radical e intransigente face ao politeísmo e suas representações - Enquanto foram elas objeto de adoração. - não anatematizou a arte ou seja a pintura, a escultura, a arquitetura, a poesia, a música e o canto, apropriando-se de cada uma dessas expressões com o objetivo de abrilhantar a adoração verdadeiro. De modo que a adoração ao Deus encarnado Jesus Cristo foi provida de uma expressão estética ausente tanto no judaísmo e no islamismo, e assim nas seitas protestantes filhas da reforma.

É algo que se justifica facilmente nos padrões opostos a Encarnação. Outro o caso da religião em que a divindade tornou-se visível, audível e palpável no complemento de sua natureza humana. Ao encarnar-se o Deus Cristão entra no acesso dos sentidos e se torna perceptível. E como todos os aspectos de nossa condição foram os sentidos santificados pelo mistério da Encarnação, e assim a percepção humana.

Adoramos em espírito decerto ou guiados pela razão, pela mente, pela consciência, mas adoramos no corpo santificado pela Encarnação e pelo Batismo, e adoramos pelo corpo ou através dele, não fora dele ou como espíritos puros. É o espírito princípio e fonte do culto verdadeiro que prestamos no corpo. Por isso expressamos esse ato interno do espírito por meio de um aparato simbólico externo.

Adoramos em espírito e verdade e o fundamento de toda verdade é a Encarnação que santifica nossos corpos e que nos autoriza a empregar uma linguagem simbólica e gestual. Quanto a isto estamos de acordo com os odiados pagãos e não com os judeus ou com os muçulmanos, pois ao contrário deles adoramos um Deus encarnado e não um ente descarnado ou puramente espiritual.

É Deus Espírito e por isso o princípio da adoração é interno, derivado do sentimento, do afeto, do amor... E no entanto esse mesmo Deus que é Espírito puro, ao assumir e santificar um corpo material, sanciona o emprego do corpo na adoração. 

Daí a presença de arte no padrão apostólico, no catolicismo, na Ortodoxia. É nosso Deus Bom, verdadeiro e belo. Deve, nossa adoração, ser boa (Impedindo aqueles que estão fixos no mal ou no pecado de exerce-la.), verdadeira (Pela afirmação dos Mistérios da fé.) e bela, em seu aparato material e simbólico: Ícones, círios, incenso, gestos, ordenação de palavras, poesia, canto, etc

Eis porque, nossos excelentes ancestrais, conduzidos pelos apóstolos, tomaram aos pagãos, seus ancestrais, todos esses ofícios e capacidades e colocaram-nos ao serviço do Deus verdadeiro, de sua parentela, de seus apóstolos, de seus membros... Do que resultou um Calendário eclesiástico ordenado, uma liturgia simbólica e soberbas catedrais com cúpulas e torres encimadas por cruzes e adornadas com sinos. E esses ofícios solenes, executados através dos séculos em cada catedral constituem um hino de glória ao mistério da Encarnação.

Por isso, na medida em que as estátuas e pinturas dos deuses foram cessando de ser cultuadas não tivemos problema algum em conserva-las, de reconhecer o belo que há nelas e de mante-las, não como algo religioso ou sagrado, porém enquanto obras de arte. Ao contrário dos muçulmanos os cristãos não precisam destruir os vestígios dos deuses antigos pelo simples fato de não serem mais adorados. 

E o resultado disto é que não apenas podemos como devemos conservar esse legado artístico nos espaços a que chamamos Museus com o objetivo de apreciar sua beleza. Pois ainda que tais obras não tenham sido postas a serviço da verdade, ao menos neste mundo sublunar, são aptas para exprimir o belo e exprimindo o belo beneficiar nossas almas. Pois nos alimentamos tanto do belo e da verdade quanto do bem, os quais só se encontram unidos na pessoa de Jesus Cristo.

Enfim essa noção de Bondade, verdade e beleza - Kallocagathia tem uma História, que faz parte de uma dada cultura. É o quanto buscaremos explorar na segunda parte deste ensaio, confrontando com os demais modelos de cultura e sobretudo com a ideologia do relativismo cultural. 


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