domingo, 27 de julho de 2014
A escola e o autoritarismo
No mundo escolar muito se fala de educar para a autonomia, o discurso é o mesmo seja das Seducs, seja das equipes gestoras, seja dos professores, mas na prática a teoria é outra. Todos os que estão envolvidos com educação diretamente ou indiretamente falam de educar os alunos para a autonomia mas praticam a heteronomia, são discursos vazios.
Outro dia participei de um HTPC onde minha atual coordenadora, professora Sônia Laide pessoa a quem muito admiro propôs uma atividade para os professores, a atividade proposta foi que os professores colocassem num papel palavras que os magoaram, a maioria o fez e depois disso cada um leu as palavras que magoaram. Após isso, na lousa digital a coordenadora pôs na lousa digital palavras que a maioria dos professores emprega com os alunos, ei-las:
"Cala a boca, você não sabe de nada".
"Esse aí é um caso perdido".
"Vocês nunca serão alguém na vida".
"Por que não ficou em casa?"
Evidentemente que os professores ficaram incomodados com isso e alguns tentaram racionalizar dizendo que essas frases estavam fora do contexto, e até dando aulas de semiótica e de semântica. A maioria dos professores acha certo impor sua autoridade, se acha no direito de xingar e ofender os alunos e até de mentir dizendo que não ofendem alunos, quando são estes mesmos alunos que procuram a coordenação e a direção para que tomem as devidas providências.
Sempre falo e escrevo que o modelo escolar que nós temos é mais do que ultrapassado, é um modelo escolar do século XVIII cujo interesse era produzir mão de obra barata para os industriários, pessoas que soubessem ler, escrever e fazer as quatro operações básicas da matemática. Por essa razão a escola manda que alunos usem uniformes, que façam filas, que obedeçam ao sinal na entrada e na saída, que tenham apenas 15 minutos de recreio, que tenham que ficar cerca de quatro horas ou mais sentados, copiando lições, ouvindo professores, sem conversar e sem contestar. Além disso tem que aguentar professores arrogantes e que muitas vezes não dominam a matéria. A triste verdade é que os alunos estão na escola para serem controlados, domesticados, adestrados para que saiam da escola como "bons cidadãos", patriotas, subservientes, enfim para que sejam rebanho de ovelhas ou vaquinhas de presépio. Não há educação para a autonomia.
Educar para a autonomia requer coragem e prática e não discursos vazios com palestrantes que nem educadores são e vem "ensinar" o que não sabem para professores e tampouco precisamos de mestres e doutores que lecionam em faculdades visto que o mundo do ensino fundamental e médio é bem diverso do mundo acadêmico.
Educar para a autonomia é dar voz aos alunos, é permitir que eles possam avaliar a escola, é permitir que façam críticas, que possam expressar suas opiniões sem medo de serem censurados. Enfim educar para a autonomia é descentralizar o poder e fazer com que o professor deixe de ser o detentor do conhecimento para transformá-lo num mediador entre o aluno e o objeto a ser conhecido.
Nenhum professor gosta de alunos bagunceiros, nenhum professor gosta que suas aulas sejam desrespeitadas, mas a verdade é que as bagunças são expressões de revoltas dos alunos (consciente ou inconsciente) que perderam suas liberdades. Os bagunceiros são os inconformados com a realidade opressora e autoritária da escola. A instituição escolar para funcionar não precisa ser uma prisão, nem um exército, nem um convento, nem uma empresa, aliás nesses moldes a escola nunca funcionou para criar pessoas independentes, esse tipo de escola só gera pessoas que vão reproduzir a ideologia do poder dominante. No entanto há escolas que realmente educam para a liberdade. Você pode conferir nos links a seguir: Paideia Escuela Libre na Espanha, Escola da Ponte em Portugal e aqui no Brasil o Projeto Âncora.
terça-feira, 15 de julho de 2014
Fanatismo e Estado laico
Ontem à tarde eu publiquei no facebook um texto sobre um padre fanático, obscurantista e que faz cara de Santa Teresa D'ávila em êxtase e logo o perfil da Juventude do Papa compartilhou meus pensamentos e encimou com o título QUE FALTA DE RESPEITO!!
Que argumentaço hein? Religião bacana essa onde deus precisa ameaçar as pessoas com o inferno eterno sendo tostadas para todo o sempre. Um deus que para ser amado e obedecido precisa de ameças. pobre deus...
O texto que escrevi é este: Aí tem um tal de podre, ops, digo padre Rodrigo Maria, um fanático, doente, boçal ao extremo que tive o imenso desprazer de assistir um pedaço de um hangout, onde uma das frases desse infeliz é que católicos devem ser contra o aborto senão irão pra o inferno.
Que argumentaço hein? Religião bacana essa onde deus precisa ameaçar as pessoas com o inferno eterno sendo tostadas para todo o sempre. Um deus que para ser amado e obedecido precisa de ameças. pobre deus...
Meu argumento nem foi a favor do aborto porque eu mesmo sou contrário ao aborto na maioria dos casos, mas não por fatores religiosos mas por fatores de ordem filosófica que explicarei mais adiante. O padre estava tentando convencer os católicos a pressionarem contra uma lei do aborto que tinha sido aprovada pelo congresso e sancionada se não me falha a memória. E ele disse que era dever dos católicos pressionarem os deputados de seus estados para que revogassem essa lei, porque o católico que se omite vai para o inferno de fogo eterno e toda aquela ladainha já conhecida. E o padre disse que católico não pode votar no PT porque o PT é partido comunista-satânico-gayzista-feminista etc..., que tem por objetivo a destruição da família cristã. Penso que esse não seja o argumento adequado para quem quer que seja. Porque isso dá a entender que os católicos só se mostram contrários ao aborto porque a defesa do aborto leva a pessoa a sofrer para todo o sempre no inferno de fogo eterno, não tivesse a Igreja Romana a doutrina do inferno eterno ou se abolisse essa doutrina pérfida, os católicos estariam abortando aos milhões, porque o que os faz serem contra o aborto não é o amor a deus senão o medo do inferno, ou seja, os católicos que agem por medo do inferno - que não são poucos - são hipócritas, eles não querem estar com deus, só querem se livrar do inferno, mas quem os ensinou a agir dessa maneira foi a instituição à qual pertencem.
Mas como o padreco padre deveria argumentar? Usando a filosofia tomista que é fundamentada em Aristóteles mas infelizmente não usou e não usou porque provavelmente não estudou filosofia. Aristóteles fala em ato e potência, os abortistas dizem que podem abortar o embrião antes das formações das redes neurais porque ainda não é humano. De fato o embrião não é um ser humano em ato, isto é, no estado atual, mas tem potencialidade para vir a ser um humano se deixarem que se desenvolva. Porque todos nós, sim você (que me lê) e eu já fomos embriões e fetos já fomos seres humanos em potência e hoje o somos em ato. Então a questão aqui não é se o embrião é um aglomerado de células (claro que é) ou se sente dores (claro que não sente) mas se tem a possibilidade, o potencial para se tornar humano. Este pensamento aristotélico faz com que eu me posicione contrariamente ao aborto. Mas isso não faz com que eu seja a favor da criminalização do aborto, isso deve ser decidido pela própria sociedade através de amplos debates e de plebiscito. Antes que alguém me pergunte: você é contra o aborto em todas as situações? Não. sou favorável ao aborto quando se trata de fetos anencéfalos que terão uma sobrevida de horas, talvez de dias fora do ventre materno, praticamente já estão condenados à morte prematuramente. E, no caso de estupros, penso que é preciso se colocar no lugar da vítima, e ela que decida, mesmo se o feto se desenvolve normalmente etc... É um assunto deveras espinhoso.
O que eu quis dizer é que o argumento dessa gente católica fanática que não tem outro argumento senão o do fogo do inferno é ridícula, sem qualquer fundamentação na realidade, do mesmo modo é ridículo o argumento que as feministas usam: "O CORPO É MEU". Eu pediria para demonstrar que órgão do corpo feminino embrião é, ou pediria para provar se é um câncer que tem que ser erradicado para salvar a vida da gestante em questão. A conclusão a que chego é que os extremos - como escreveu Aristóteles - se tocam e que tanto os religiosos assim como as ultra-feministas tem argumentos falaciosos e inválidos que não fazem a sociedade pensar e refletir seriamente sobre isso.
Voltando ao tema, o dono da página Juventude do Papa que sequer teve a coragem de se identificar ou de fazer o debate em minha página fez dois prints afirmando que eu e um amigo tínhamos falta de respeito com sua religião, fui em sua página debater como se pode ver pelos prints abaixo que fiz.
O que eu quis dizer é que o argumento dessa gente católica fanática que não tem outro argumento senão o do fogo do inferno é ridícula, sem qualquer fundamentação na realidade, do mesmo modo é ridículo o argumento que as feministas usam: "O CORPO É MEU". Eu pediria para demonstrar que órgão do corpo feminino embrião é, ou pediria para provar se é um câncer que tem que ser erradicado para salvar a vida da gestante em questão. A conclusão a que chego é que os extremos - como escreveu Aristóteles - se tocam e que tanto os religiosos assim como as ultra-feministas tem argumentos falaciosos e inválidos que não fazem a sociedade pensar e refletir seriamente sobre isso.
Voltando ao tema, o dono da página Juventude do Papa que sequer teve a coragem de se identificar ou de fazer o debate em minha página fez dois prints afirmando que eu e um amigo tínhamos falta de respeito com sua religião, fui em sua página debater como se pode ver pelos prints abaixo que fiz.
Por aí se vê como essa gente cuja vida gira ao redor da religião é cega, como essa gente é negacionista e como se veem como os "salvos" e os outros como "perdidos" e destinados ao fogo eterno pelo "bom deus". Ademais são criaturas que não conhecem teologia, nem filosofia e nem história. Tudo que existe para eles é sua religião e eles podem ser racistas, homofóbicos, machistas tudo com as bênçãos do "altíssimo".
Ainda um papólico foi em minha página dizer que me denunciou e não contente veio emitir suas opiniões sobre o que penso, e claro, ainda veio oferecer suas orações por minha conversão, fui obrigado a lhe dar um tratamento de choque para não mais poluir minha página com beatismo de capela.
Ainda um papólico foi em minha página dizer que me denunciou e não contente veio emitir suas opiniões sobre o que penso, e claro, ainda veio oferecer suas orações por minha conversão, fui obrigado a lhe dar um tratamento de choque para não mais poluir minha página com beatismo de capela.
Os religiosos querem respeito (leia-se submissão e calar sobre tudo que diz respeito às suas crenças) mas eles não respeitam ninguém que pense diferente deles. Eles podem falar e atacar a quem quiserem e quando quiserem mas se são atacados aí é falta de respeito. Pois é, o fanatismo gera esse tipo de gente que fica vigiando o que os outros falam e escrevem para depois fazer uma cruzada contra os "inimigos de deus", além de fabricar gente hipócrita que quer liberdade para si mesmos e nenhuma para os outros. Cuidado com o que escreve e fala pois a inquisição ainda não acabou, está bem viva! Como escrevia Voltaire: " Écrasez l'Infâme" "Esmagai a infame".
quarta-feira, 9 de julho de 2014
A copa das copas
Enquanto os governistas diziam que essa seria a copa das copas eu bem sabia que essa seleção não venceria, não chegaria ao final e olha que não entendo
Fora essas tragédias promovidas pelo governo que lições a copa das copas nos trouxe?
1ª lição: Vaia à Dilma. Não, eu não sou governista como alguns idiotas e mal-intencionados me acusam. Mas a vaia à Dilma é tão somente porque esta pertence a um partido que posa de esquerda mas que na verdade é um partido reformista, cujo reformismo fica muito aquém do reformismo europeu com seu welfare state. Esses "politizados" que vaiaram à Dilma faz parte da classe média alta que considera o governo do PT como um partido comunista e ladrão. Sim, o PT é um partido corrupto, mas essa gente só acusa o PT de corrupção por pura cegueira ideológica.
2ª lição: Vaia ao hino do Chile. A vaia ao hino do Chile mostra como essa classe média anencéfala vê o mundo. Esse patriotismo de copa do mundo que surge a cada 4 anos e dura cerca de um mês, só produz esse tipo de gente degenerada que acha que está numa espécie de guerra e aí se acha no direito de vaiar o hino de outro país.E, tem gente que acredita que a Copa promove a solidariedade entre os povos... Isso só mostra como essa gente que sofre de nacionalite aguda é demente.
3ª lição: Xingamentos e ofensas ao jogador da Colômbia, o Zuñiga pelo Twitter: No jogo entre o Brasil e a Colômbia o jogador Zuñiga intencionalmente ou não fez com que o Neymar fraturasse uma costela e o tirou da copa. Por isso o jogador colombiano teve que sofrer insultos racistas por parte de brasileiros idiotas. Uma coisa é o jogador lesionar outro jogador e ser xingado pelo ato em si outra coisa é relacionar o ato de agressão pelo fato dele ser negro pois o racismo não atinge apenas o zagueiro colombiano mas todos os negros. Pois quando dizem que "só podia ser preto" essa gente diz que negro é mau, negro não presta e outras coisas do gênero. Mas em parte isso foi bom, porque mostra para todos os hipócritas que o mito da democracia racial no Brasil não existe e que os negros ainda são olhados como seres inferiores por uma grande parcela da população brasileira.
4ª e última lição: O patriotismo depende de ganhar ou perder a copa: Eu não sou patriota e não gosto do patriotismo. Mesmo assim tenho que considerar que há patriotismos e patriotismos, há aqueles que são de momento, como o patriotismo brasileiro e há patriotismo como o dos estadunidenses que realmente levam à sério o seu país. Mas o patriotismo brasileiro é apenas uma caricatura do que seja de fato o patriotismo. Quando amar ou odiar um país depende de uma semi-final de copa do mundo por aí se vê qual é o grau de imbecilização dessa parcela da sociedade brasileira e não há muito o que esperar desse povo.
De fato, essa foi a copa das copas porque acabou com o mito de que o Brasil é o país do futebol, é a copa das copas porque mostrou que o Brasil não é o país da democracia racial, porque a mentalidade da classe média é aquela mesma formada por seus pais e avós de que o reformismo é a mesmíssima coisa que um golpe comunista, etc..., mostrando assim uma classe média boçal que não sabe a diferença entre direita, esquerda, centro-direita e centro-esquerda entre outras posições. E essa é a copa das copas porque eu sou brasileiro com muito orgulho e muito amor até que o Brasil perca um jogo decisivo. É isso, nós brasileiros somos uma nação de comediantes.
sexta-feira, 13 de junho de 2014
Santo Antônio o casamenteiro
Provavelmente o título da postagem chamou sua atenção porque provavelmente você é católico(a) praticante ou nominal devoto(a) de Santo Antônio ou ainda não tem religião mas simpatiza muito com o santo. Mas esse Santo Antônio folclórico nunca existiu a não ser no imaginário popular e dos padres boçais ou mal-intencionados. Não, Santo Antônio não era casamenteiro, nem milagreiro, não mil vezes não. Antônio era nome de profissão religiosa, seu nome verdadeiro era Fernando, Fernando de Bulhões e era português, era cônego de Santo Agostinho, quando viu frades menores se impressionou com seu estilo de vida e ele abandonou tudo para ser seguidor de São Francisco. Quem quiser ler mais sobre a vida do santo de Pádua poderá ler aqui.
Não quero destacar aqui nesta postagem o taumaturgo e tampouco o casamenteiro, alvo de superstições de mulheres supersticiosas. O que eu quero destacar é o homem comprometido com o Evangelho, com a vida de Jesus Cristo, comprometido com os pobres, pobres estes com os quais Jesus Cristo se identificou (Ver Mat 25,31-45).
Santo Antônio não era esse santo romantizado ou esse santo milagreiro que os padres ensinaram para ocultar o verdadeiro antônio, o Antônio socialista, o Antônio revolucionário, o Antônio que conseguiu que uma lei fosse aprovada em benefício daqueles que tinham dívida, essa lei não permitia que uma pessoa fosse presa por causa de dívidas. Eu já escrevi sobre Santo Antônio neste blog e caso queira ler a postagem mais antiga pode clicar aqui.
O frade minorita não poupava aqueles que exploravam os pobres, pelo contrário ele fustigava os ricos e dirigia duras palavras contra aqueles que enriqueciam através da usura. É uma pena que os católicos não conheçam esse grande heroi de sua igreja, a verdadeira vida de Antônio poderia inspirar muitos jovens a viver essa vida evangélica e fazer reviver dentro da Igreja Católica esse espírito franciscano que tanto faz falta no mundo de hoje. Por isso resolvi escrever sobre os sermões desconhecidos de Santo Antônio, sobre suas palavras que foram ocultadas para não melindrar os ricos e poderosos e é o que vamos ver a seguir. As palavras de Santo Antônio estão em negrito.
Os pensamentos dos ricos deste mundo são guardar as coisas adquiridas e sua solicitude em adquirir outras; e por isso ou raramente ou nunca neles se encontra a verdadeira contrição; e assim incorrem na morte. 10º Sermão festivo - Quarta-feira de cinzas
O povo despedaçado é o povo dos avarentos e usurários. Assim como as aves e as bestas dilaceram o cadáver, também os demônios despedaçam com a avareza o coração do avarento ou do usurário; daí a palavra de Naum: "Ai da cidade sanguinária toda cheia de mentira e de extorsões: não se afastará de ti a rapina" [Na 3,1] (...). Os raptores e os usurários, porque roubam o alheio, são chamados cidade sanguinária (...). Os avarentos e os usurários, infectados com o veneno da avareza, tem sede do alheio. O sangue dos pobres é frio (...); a pobreza e a nudez não permitem aquecê-los, mas, quando o calor da necessidade apertar, então invadem, emprestam para lhes sugar o sangue. Ai, portanto da cidade sanguinária toda cheia de mentira, etc. a mentira reside na língua, as extorsões no coração, a rapina na mão. 6º Sermão festivo Epifania do Senhor
A pertinácia constrói a sebe (...); os usurários ensinam seus pequeninos a praticar usura e a dar saltos de usura em usura. Pousam nas sebes da pertinácia, no frio da sua malícia, porque nem querem restituir o alheio nem regressar à penitência. 9º Sermão festivo - Cadeira de São Pedro
Os textos podem ser encontrados no Google Books no livro O pensamento social de Santo Antônio.
Os pensamentos dos ricos deste mundo são guardar as coisas adquiridas e sua solicitude em adquirir outras; e por isso ou raramente ou nunca neles se encontra a verdadeira contrição; e assim incorrem na morte. 10º Sermão festivo - Quarta-feira de cinzas
O povo despedaçado é o povo dos avarentos e usurários. Assim como as aves e as bestas dilaceram o cadáver, também os demônios despedaçam com a avareza o coração do avarento ou do usurário; daí a palavra de Naum: "Ai da cidade sanguinária toda cheia de mentira e de extorsões: não se afastará de ti a rapina" [Na 3,1] (...). Os raptores e os usurários, porque roubam o alheio, são chamados cidade sanguinária (...). Os avarentos e os usurários, infectados com o veneno da avareza, tem sede do alheio. O sangue dos pobres é frio (...); a pobreza e a nudez não permitem aquecê-los, mas, quando o calor da necessidade apertar, então invadem, emprestam para lhes sugar o sangue. Ai, portanto da cidade sanguinária toda cheia de mentira, etc. a mentira reside na língua, as extorsões no coração, a rapina na mão. 6º Sermão festivo Epifania do Senhor
A pertinácia constrói a sebe (...); os usurários ensinam seus pequeninos a praticar usura e a dar saltos de usura em usura. Pousam nas sebes da pertinácia, no frio da sua malícia, porque nem querem restituir o alheio nem regressar à penitência. 9º Sermão festivo - Cadeira de São Pedro
Os textos podem ser encontrados no Google Books no livro O pensamento social de Santo Antônio.
quinta-feira, 12 de junho de 2014
Revista Exame: O capitalismo é injusto!
O economista da Veja não faz uma análise sequer superficial apenas lança ad hominem e tenta justificar o capitalismo criticando os modelos socialistas marxistas-leninistas, como se criticar o socialismo acabasse justificando o capitalismo. Se ele tivesse lido o artigo da revista não teria escrito tanta besteira (ou talvez escrevesse vai saber...). Pois os autores da matéria reconhecem que o capitalismo trouxe benefícios, mas dentro desse modelo ele acaba mais por prejudicar do que ajudar a humanidade.
Mas vamos ao que interessa de fato, vamos ao artigo da revista Exame, que diferentemente do sr. Rodrigo, eu li. O artigo só mostrou aquilo que já é sabido por toda a esquerda o capitalismo beneficia poucos em detrimento de milhões. Mas a revista não é socialista e nem o artigo é revolucionário como faz transparecer o economista da igreja liberal. Aliás, a revista Exame além de seguir a economia de mercado como disse acima, é da editora Abril da mesma família da Veja.
Na página 37 lê-se: Um estudo da OCDE, grupo que reúne as nações amais ricas, ilustra bem esse ponto. O trabalho examina uma série histórica bem menos ambiciosa do que a de Piketty. Foca no que aconteceu desde meados da década de 90, mas conclui o mesmo: a desigualdade vem subindo nos Estados Unidos - e também no Canadá, na Alemanha, na França, no Japão, na China, na Índia e na África do Sul. "Na quase totalidade dos países ricos e na maioria dos em desenvolvimento, a maré elevou todos os barcos nas últimas décadas. Mas os iates subiram mais do que nos barcos menores", diz o sérvio Branko Milanovic, que foi economista-chefe do departamento de pesquisa do Banco Mundial por 22 anos e, ao lado de Piketty, é considerado um dos maiores especialistas no assunto.
Só falta o Rodriguinho falar que a o OCDE é comunista, socialista ou coisa parecida, o que não duvido vindo de um colunista da Veja que sequer ler o que pretende refutar.
Enfim a revista faz uma breve excursão pela geografia ao abordar porque alguns países crescem com a economia do mercado e outros sofrem recessão, a revista Exame abordou que muitas indústrias migram dos EUA para a África, ou da Europa para a Ásia, então se os países ricos perdem os países pobres ganham, isso porque as indústrias estão pouco se lixando para os que perdem seus empregos pois está em busca de mão de obra barata para extrair lucros cada vez maiores.
A revista ainda mostra (ainda na página 37) como ao longo da segunda metade do século XX a desigualdade aumentou entre os salários dos empregados: Na década de 50, os presidentes das maiores empresas americanas embolsavam 20 vezes mais do que a média do mercado. Hoje, ganham 200 vezes mais. Mas há casos extremos. Mark Parker, presidente da fabricante de material esportivo Nike, leva para casa um salário mais de 1000 vezes maior do que a média da companhia. De certa forma, esses executivos passaram a ser tratados como celebridades do mundo do showbiz.
O artigo mostra que em certa medida a competição pode ser saudável mas se levada ao extremo é algo doentio: A partir de certo ponto, a desigualdade se transforma num problema econômico grave. Ela pode ser comparada ao colesterol: existe a boa e a ruim. A desigualdade positiva é aquela que incentiva as pessoas a estudar com dedicação, trabalhar e empreender. Histórias inspiradoras de empreendedores podem ter um efeito multiplicador sobre milhões de pessoas. A desigualdade negativa é a que impede a mobilidade social. Em situações assim, o status social dos pais é determinante sobre o futuro dos filhos. Por ter uma educação melhor, os filhos dos mais ricos ficam com os melhores empregos - como se fossem lugares cativos. Os filhos dos pobres acabam, na melhor das hipóteses, brigando pelos empregos que sobram.
Os defensores do livre mercado dizem que a competição estimula o crescimento da economia e que a competição é justa, eu até concordo com essa tese desde que haja igualdade de condições. É como se numa corrida de 100 metros um atleta tivesse uma vantagem de 50 metros à frente dos outros. Que competição é essa? Que chances os outros terão?
E que todos deveriam ter as mesmas chances não é coisa de socialista, comunista ou anarquista, mas de filósofos iluministas como Denis Diderot e a revista Exame na página 38 escreve: "Pensadores como o francês Denis Diderot, ao longo do século 18, engajaram-se na defesa que todos tinham de ter as mesmas chances de participar da vida econômica e política - um objetivo incrivelmente atual. "Se uma criança passar a infância morando numa casa enorme e andando num carro de luxo porque seu pai e sua mãe são bem-sucedidos, não há o que dizer. Do ponto de vista da sociedade como um todo, o problema é se o dinheiro da família conseguir dar uma grande vantagem educacional a essa criança, diz Michael J. sandel, professor de filosofia da Universidade de Harvard e autor do influente O que o dinheiro não compra - Os limites do mercado. E é exatamente essa a discussão de hoje.
Nos Estados Unidos, quem nasce na base da pirâmide social tem cerca de 40% de chance de permanecer por lá, um número alto se comparado aos 25% da Dinamarca. É daí que alguns economistas dizem, em tom de brincadeira, que se alguém quiser viver o sonho americano é melhor mudar para Copenhague.
O que o artigo da revista Exame diz não é nenhuma novidade para pedagogos, sociólogos, etc... Uma criança que tem pais que leem, que tem acesso aos livros e a cultura em geral será evidentemente mais bem colocada no mercado de trabalho do que a outra que não teve essas oportunidades, e, claro, o homem é fruto do meio, portanto ele reproduzirá tudo aquilo que o meio tiver feito dele. Claro, que há pessoas que conseguem com muito esforço superar esses condicionamentos, mas não conseguem sozinhas, conseguem se tem alguém que acredite nelas e que as estimule, o que não é o caso de todas as pessoas.
É fato que um filho de uma pessoa bem-sucedida também será bem-sucedida e nisso tem razão a sabedoria popular quando diz que filho de peixe, peixinho é. O artigo da revista Exame escreveu: os filhos de médicos, advogados, engenheiros e administradores têm 12 vezes mais chances de ser médico, advogado, engenheiro e administrador do que o filho da empregada doméstica.
O capitalismo não é só injusto é também ineficiente e não sou eu quem o diz, nem Karl Marx, nem Bakunin, nem Kropotkin e nem o secretário-geral do partido comunista, quem faz tal afirmação é a revista Exame que se baseou até em estudos do FMI (será que o FMI foi cooptado pelos comunistas?): A desigualdade de oportunidades não é apenas injusta - ela gera ineficiências do ponto de vista econômico. Em economias nessa condição, há um desperdício enorme do talento de parte da população, gente que poderia estar produzindo muito mais. Uma hipótese cada vez mais aceita entre os economistas é que países mais desiguais tendem, no longo prazo, a ter taxas decrescimento menores. O balanço de estudos feitos até agora aponta nessa direção. Redistribuição, Desigualdade e Crescimento, publicado em fevereiro por três economistas do FMI, é o último deles. O trabalho faz uma análise de 153 países por várias décadas e conclui que os menos desiguais registram uma elevação maior do PIB.
Como é delicioso ver o capitalismo desmascarado por uma revista capitalista, como é bom ver uma revista que não precisou recorrer a Marx ou outros socialistas. Que se baseou até em economistas do FMI. Pois é, chorem liberais caricatos, chorem!!! Chorem reacinhas, chorem!!!!
Fonte: Revista Exame. Edição 1067. Ano 48 nº11 11/6/2014
Fonte: Revista Exame. Edição 1067. Ano 48 nº11 11/6/2014
terça-feira, 10 de junho de 2014
A direita também é a favor das cotas raciais
É isso mesmo o que você leu no título da postagem: a direita também é a favor das cotas raciais. Você não se enganou, a direita também é a favor das cotas raciais, de modo invertido, é claro.
Segundo o Dieese o negro ganha menos que o branco mesmo tendo o mesmo tempo de estudos, e o que vem ser isso senão uma cota às avessas? Outros tipos de cotas com que os negros são "premiados" são os preconceitos por parte de policiais e seguranças de grandes estabelecimentos como lojas e supermercados. O simples fato de ser negro corrobora para que este seja um suspeito em potencial. Outro tipo de cotas que os reacionários dão para os negros é a inferioridade econômica e já que estes são inferiores devem continuar como porteiros, domésticas, etc... Como bem se vê as cotas para negros existem há muito tempo e não foram criadas pela esquerda como querem os reacionários de plantão. O que a esquerda fez foi apenas corrigir erros, injustiças e acabar com o preconceito racial feita pela cotas raciais da classe dominante, da classe média alienada e dos inocentes úteis.
Se negro pode ganhar menos só pelo fato de ser negro, se negro pode apanhar de seguranças, se pode ser revistado pela polícia só porque é negro, por que o negro não pode ter direito a vagas nas universidades públicas?
Nunca vi um olavete, um anarco-capitalista, um neo-liberal atacar as cotas da desigualdade entre brancos e negros. Nunca vi reclamarem da injustiça pelo fato dos negros ganharem menos que brancos, pelo fato da população jovem e negra da periferia ser morta indiscriminadamente pela polícia principalmente a militar. Quer dizer as cotas das castas podem e devem ser mantidas mas as cotas que tentam sanar as injustiças e diminuir o racismo essas não podem mais existir porque segundo os "filântropos" da reação: "as cotas aumentarão o racismo". Ora, mas não são as cotas desses imbecis que dizem que médicas cubanas tem caras de empregadas domésticas que aumentam o racismo e o desprezo pelos negros? Como assim as cotas raciais da esquerda promovem o racismo? Querer que negros tenham acesso às universidades públicas é racismo? Querer que negros possam ser médicos, advogados, engenheiros é racismo? Acabar com essa desigualdade social para que os negros não sejam mais tratados como párias é racismo? Quer dizer então que negros ganhando menos que brancos não é racismo? Quer dizer então que é justa a competição entre um negro que ganha menos e um branco que ganha mais, mesmo ambos tendo número de anos em estudo?
Realmente é muito interessante a tese de que as cotas raciais propostas pelos socialistas e por todas as pessoas de boa vontade promovem a desigualdade racial, é digna de ser estudada por psiquiatras para saber que tipo de demência afeta os cérebros de pessoas que fazem tal afirmação.
quinta-feira, 29 de maio de 2014
Por que ler seis sinais de cientificismo?
Porque é um artigo que discorre sobre os perigos do cientificismo que é a deferência acrítica para com a ciência. O artigo é da filósofa Susan Haack e foi traduzido por um dos fundadores da Liga humanista secular, Eli Vieira Araújo Junior e o artigo está disponível no site que leva o mesmo nome da organização supracitada. Segue a resenha.
Susan Haack é muito didática em sua exposição, mostra o que é cientificismo e quais são os seis sinais.
1. A deferência às palavras ciência, científico e seus cognatos: Por exemplo publicitários adoram mostrar que seus produtos tem eficiência comprovada pela ciência ou que tal coisa é aprovada pelos cientistas. Aqui a palavra ciência confere autoridade de tal modo que surgem cursos de ciência bibliotecária, ciência mortuária e outras bizarrices.
2. O uso de adornos científicos: Geralmente pessoas ligas às ciências sociais ou à alguma arte gostam de usar termos da física em direito ou nas ciências humanas para assim dar "maior autoridade" ao trabalho do "pesquisador". Mas o fato de usar uma linguagem científica não torna o objeto ciência, isso é feito para disfarçar o pensamento raso do pesquisador.
3. O problema da demarcação: Os popperianos gostam de traçar uma linha entre a ciência e não ciência através do "método" do Popper que era muito obscuro e ninguém sabe o que é na verdade. Mas a autora mostrou que não há uma linha clara entre cosmologia e metafísica nem entre a psicologia e a filosofia da mente e nem mesmo entre as artes inventadas pelos seres humanos e a ciência ao longo da história.
4. O problema do método: Para o cientificista tudo aquilo que não tem uma metodologia científica é inválido. Mas a autora mostra que em ciências não existe "um método", não existe "o método" e quem muito fala em metodologia são aqueles que menos uso fazem de métodos.
5. Procurar nas ciências respostas que não são de seu escopo: O cientificista crê que a ciência pode e deve dar todas as respostas que vão além da ciência, vez por outra a ciência té pode dar essas respostas mas isso não é o seu objetivo. Algumas perguntas pertencem à metafísica e a filosofia em geral.
6. Denegrir o não-científico: Para o cientificista só a ciência traz progresso, e tudo aquilo que não é ciência tem menos valor ou não tem valor algum. Mas a autora mostra que culturas tradicionais tem sim o seu valor e mesmo quando a ciência avança ganhamos por um lado e perdemos de outro.
A finalidade deste artigo foi mostrar para o leitor comum (não especializado com a filosofia da ciência) os perigos do cientificismo, que é a superestima da ciência que pode nos trazer o bem mas pode nos trazer o mal também. E que a ciência não é a única forma legítima de investigação, as outras formas de investigação são igualmente válidas (música, dança, literatura, estética, etc...) e enriquecem o patrimônio da humanidade.
http://lihs.org.br/
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