quarta-feira, 16 de setembro de 2015

O 'espírito' da democracia ou afirmação da objetividade moral

Topei na "Nova Idade Média" de Berdiaeff com uma crítica bastante acida ao formalismo democrático, parte da qual reproduzo:

"A Democracia reveste-se ela mesma de um carater puramente formalista, ela própria ignora sua essência e, nos limites do princípio que afirma não tem consistência alguma... A democracia é indiferente a direção e a essência da vontade do povo, não dispõe de critério algum... para definir o valor da vontade... A democracia permanecer indiferente ao bem e ao mal.... é indiferente pois perdeu a fé na verdade... A democracia é cética e filha de um século cético.... Ela não pode admitir que a vontade do povo possa dirigir-se para o mal; que a maioria possa ser pelo erro e pela mentira, e que a verdade e o bem possam subsistir no seio duma pequena minoria... ela tem fé e cre que a maioria sempre acerta."  231

Considero trágicas tais palavras, mas imensamente atuais, geniais e profundas. Especialmente para mim  que sou Policrata ou adepto da democracia direta.

Os democratas acima de todos devem ser honesto buscando compreender as limitações da democracia e estudar seus problemas. Críticas não deveriam apenas ser esperadas mas bem vindas.

Eu não tenho esta fé. No sentido de que a maioria acerta sempre.

Todavia no que diz respeito as coisas comuns e a esfera do político encaro a democracia como o sistema menos imperfeito ou mais seguro: todos enganam-se porém é muito mais facil que individuos isolados enganem-se e mais provável de que o coletivo acerte. Desde que haja ampla discussão!

Apesar disto a reflexão de Berdiaeff leva-me a duas conclusões:

  • Devemos traçar e muito bem os limites de nossa democracia estabelecendo o que lhe pertence e o que não lhe pertence para que não se torne 'totalizante' ou totalitária. Sim, pois uma democracia direta ou não também pode tornar-se totalitária, despótica e inadequada.
  • Devemos reconhecer que há algo acima das democracias ou para além delas. Para não criar um estatismo democrático.
Na idade média as coisas eram bem mais fáceis e comodas. Havia um papa e este papa pensavam por todos e arbitrava sobre todas as coisas; inclusive sobre política, constituindo uma espécie de árbitro superior. Era o meio porque a esfera da religião sobrepunha-se a esfera imanente do poder temporal. No antigo oriente ou no Leste este meio era o concílio ecumênico.

Mudaram os tempos. Concílios tornaram-se impossíveis de serem congregados e os papas romanos passaram a ser apresentados não só como faliveis mas como usurpadores do poder secular ou viciados. Hoje temos uma ONU, a qual continua sendo falivel... Assim se é certo que o Papa romano procedendo por cálculo exorbitou seus poderes não é menos certo que os homens buscaram nele e na fé que representava uma espécie de tribunal superior capaz de revisar os atos políticos necessariamente falíveis.

Após o papa os protestantes tomaram por árbitro um livro: a Bíblia. Aqui a situação tornou-se ainda mais calamitosa porquanto a Bíblia sendo um livro ou amontoado de papéis desprovidos de vida e razão, é sempre incapaz de interpretar a si mesma. Interpretaram-na os homens, cada qual a sua maneira. Fermentaram opiniões, hipóteses, palpites, crenças, credos em grande quantidade, uns em oposição aos outros. Diversos Cristianismos e diversas seitas... O protestantismo com suas variações ou divergências interpretativas falho miseravelmente, perdendo a religião sua primazia em termos de Ética.

Foi, como já dissemos noutros textos nossos, tal primado diretor, assumido pelo elemento comum da razão humana inaugurando-se o período do racionalismo ou das luzes. E toda uma Ética, destinada a direcionar as relações humanas - fossem sociais, políticas ou econômicas - foi elaborada. Uma Ética firmada na transcendência (Conceitos de lei natural e Legislador Supremo) mas já naturalista veio a luz. A unificação foi iniciada com relativo sucesso... antes de estar concretizada no entanto apareceram Hume e Kant este proclamando a morte da metafísica. 

Consolaram-se os doutos com a posse da ciência numa perspectiva nitidamente material ou materialista. Desde então o primado das relações humanas foi assumido pelo econômico (capitalismo e comunismo) ou pelo político e /ou étnico (fascismo, nazismo). Nada mais sobrepunha-se a máquina, ao mercado, ao estado ou ao parlamento convertendo-se tais instituições em deuses. Sem fé, papa, Evangelho ou a simples razão edificou-se uma ciência sem consciência! Até que a própria ciência e toda objetividade foi abatida pelos pós modernos. Restando apenas Estado, Nação e Mercado; fascismo, nazismo e capitalismo; e o pobre homem indo de uma a outra destas fúrias!

Após a falência da razão, o desaparecimento da Ética e o triunfo do ceticismo o econômico e o político converteram-se em 'tetos' da atividade humana. Teve como disse o escritor russo, a democracia de tornar-se meramente formal pelo simples fato de negar a existência de qualquer conteúdo objetivo exterior a si e, em certos contextos de regular por inteiro as vidas dos cidadãos. Invadindo os domínios questionáveis (???) do pessoal, o santuário do Ser.

Alias, quem poderia definir qualquer verdade objetiva exterior a atividade política do corpo social? O papa, o Evangelho, a razão, a ciência??? Após Hume, kant e os pos modermos a transcendência, a racionalidade ou a objetividade material unificadora foram substituídas por um vácuo. Nada restou acima do econômico e do político; do mercado, do parlamento ou da nação!

As pretensões do mercado, do parlamento e da nação tornaram-se abusivas e opressoras a ponto de desumanizar o homem. Apareceram as dinastias dos Stalines, dos Mussolinis, dos Hitleres, dos Bushes, etc Até mesmo as democracias cederam a tentação de ultrapassar a demarcação e legislar a respeito do que diz respeito apenas e tão somente a esfera partículas da personalidade e não ao espaço comum. Espremidas pelo liberalismo econômico algumas formas de liberalismo político ou democracia chegaram a ameaçar a matriz de todos os liberalismos: o liberalismo pessoal ou moral!

Quiçá não haviam lido ou compreendido as primeiras páginas do "Contrato social" onde esta muito bem escrito que certos direitos inerentes a pessoa humana não podem ser cancelados ou restritos nem mesmo pelo grupo social ou democraticamente. Mesmo que diretamente aprovada por todos os habitantes duma determinada Vila a confiscação de uma propriedade qualquer, fruto do trabalho de um de seus companheiros continuaria sendo um crime imperdoável. O máximo que a comunidade poderia fazer é indenizar o proprietário em questão se tal fosse de fato exigido pelo bem comum. Pois se tal não fosse rigorosamente exigido pelo bem comum, nem a título de indenização poderiam tomar posse de tal propriedade enquanto fruto do trabalho pessoal.

Tais os juízos que se fazem sobre a vida humana cujo valor é incalculável.

Mesmo quando aprovados diretamente por uma maioria.

Ocorre-me a condenação de Sócrates pelo Aeropago e a condenação de Jesus pelo Sinédrio: houve alguma discussão, houve voto, houve decisão da maioria e mesmo assim clamorosa injustiça! Por isso não creio na infalibilidade da maioria! Por isso não admito pena de morte exceto em caso de crises cometidos por fanáticos religiosos (uma vez que estes costumam assumir seus crimes e vangloriar-se deles).

Por isso precismos considerar o que esta fora e o que esta acima do político, mesmo sob sua forma democrática. Pois nem mesmo o grupo social tem o direito de regulamentar o comportamento pessoal ou o que esta fora do espaço comum ou da vida pública. A democracia não é nem pode ser totalizante e totalitária. Deve reconhecer seus próprios limites com absoluta precisão. Não pode fabricar autômatos como o fascismo ou a teocracia. Não pode legislar sobre todos os elementos da cultura.

A democracia para ser democracia deve conhecer as fronteiras da pessoa. Não os caprichos dos individuos que pretendam exercer domínio sobre o que é comum ou público. Mas os limites internos da pessoa.

Sob pretexto algum poderia a maioria democraticamente determinar que a totalidade dos cidadãos preferisse Coca Cola a Guaraná, que optasse pelo Verde ao invés do amarelo, que ouvisse gospel ao invés de rock, que comesse arroz no lugar de macarrão, que contraíssem matrimônio com fulano ou beltrano... pois são decisões que não dizem respeito algum a esfera comum do político mas as esfera particular da vontade pessoal. Em termos de preferências dietéticas, estéticas, sexuais, musicais, ideológicas (aqui até certo ponto) não cabe juízo político, mesmo sob a forma democrática. Alias seria essencialmente anti democrático pretender faze-lo.

Queremos dizer com isto que não existe liberdade social ou liberalismo político que possa sobrepor-se aos direitos da pessoa humana. Direito a vida, a conservação de sua integridade física, ao execício da liberdade alheia, a tolerância, a igualdade, a justiça, etc Bem pode o político estabelecer preconceitos como direito na forma da lei. Neste caso devemos preferir o bem e a justiça, mesmo quando fossem o machismo, o adultismo, a homofobia, o racismo, etc sancionados pela totalidade dos cidadãos da República. Neste caso deveríamos ficar com o que esta para além do político e da própria democracia: com a dignidade humana.

Implica reconhecer não só a forma democrática, que sempre poderia ser preenchida por qualquer coisa e reproduzir os erros da estatolatria nazista. Implica reconhecer a existência de um espaço Ético para além da democracia e do formalismo político. Implica reconhecer um espírito ou ideal de justiça que não pode ser tocado ou transtornado pelas mãos humanas.

Não podemos todavia chegar até aqui sem ressuscitar uma dama chamada razão. Elemento comum e unificador de todas as mentes. Não podemos nem queremos ressuscitar o papado. Não podemos mais tomar por critério o Evangelho profanado pelo livre exame. Não podemos tomar por guia as tradições particulares do Cristianismo Católico (em termos sociais). Uma Sociedade pluralista, laicista e democrática só poderia tomar por critério o elemento imanente e comum do raciocínio. O qual exercido em comum, mesmo sem chegar a ser infalível, será sempre seguro.

Levantamos a ponta do véu...

Para escapar aos monstros do capitalismo, do nazismo, do fascismo... da estatolatria... da teocracia... do formalismo político ou democrático temos de inserir ou insuflar um espírito dentro desta forma. Como um corpo sem alma não passa dum cadáver a democracia meramente formal, apartada do bem, da verdade e da beleza não passa duma casca. Receberá este espírito e viverá quando desprezar os profetas da modernidade e restaurar sua crença na capacidade da razão, elemento comum destinado a congregar a espécie humano em torno do mesmo ideal ético.

Recebendo este espírito de ideal ético converter-se-a a democracia formal num organismo vivo destinado a abarcar a sociedade humana como um todo. Mantida como simples formalismo desvinculado da cultura deixará de existir. Caso tal se suceda a civilização entrará em colapso e o mundo, mais uma vez, ver-se-a juncado de ruínas.

Capitalismo, Socialismo e Comunismo face ao humanismo II

Resta-nos constatar se o Comunismo e os Socialismos são humanismos.

Gostaria de tecer algumas considerações a respeito:

Antes de tudo gostaria de salientar que o Socialismo é antes de tudo um estado de indignação e inconformidade provocado pelo capitalismo ou melhor por seus resultados e já digo que não pode experimenta-la quem não possuí algum senso de justiça.

Todo socialista é em certo sentido não só herdeiro de Jesus Cristo mas antes de tudo - cronologicamente falando - legatário de Platão.

Se você não se identifica com o outro e se situações de injustiça são incapazes de revolta-lo jamais compreendera o Socialismo. Encarando-o muito provavelmente como uma patologia, síndrome, loucura ou delírio.

Uma questão de princípios, de valores, de sentido.

Não preciso de Marx aqui. Não entra Engels aqui. Não dependo de Lênin. Apenas uma consciência de justiça face a situações de injustiça.

Os socialismos todos trazem este sentido idealista do vir a ser ou do que deve ser em oposição ao que é e uma firme aspiração por alterar esta realidade indesejável.

A consciência burguesa além de conformar-se dizendo: É assim mesmo! ainda mistifica alegando que sempre fora assim. Quando sabemos que o capitalismo foi precedido por outras formas de produção econômica e organização social. Nem sempre fora assim, portanto nem sempre precisará se-lo.

Não gostaríamos de ser explorados ou de estar no lugar de um proletário. E por isso proclamamos a necessidade de redimi-lo. É o que chamamos de solidariedade ou alteridade.

Todos apreciamos ser verdadeiramente livres em posse de nosso espaço, de nossas roupas, de alimentos, etc e por isso desejamos que todos experimentem essa mesma liberdade!

"O que vocês desejam que os outros vos façam, fazei vós assim a eles."

Tal o objetivo dos socialistas.

Apreciemos agora os meios:

O socialismo ao contrário do comunismo recusa-se a encarar o golpe a sedição ou a revolução sangrenta como uma receita de infalível para todos os problemas sociais. Não adere pois a mística vulgar e grosseira da violência... nem acredita que condições sociais possam ser fabricadas ou criadas a partir da força bruta.

Não excluí a possibilidade de um conflito em determinadas circunstâncias. Não ignora as doutrinas da guerra justa, da legítima defesa, da auto determinação de um grupo social, etc Não é legitimista ingênuo. Mas também não desespera quanto a via do político ou institucional, acreditando na ampliação e aprofundamento da democracia que temos até chegarmos ao poder popular e a democracia direta; após termos percorrido um lento caminho, sempre dialogando com a cultura e investindo em educação.

Agora o que socialismo algum admite é a doutrina da ditadura ou o viés totalitário do Comunismo.

A diferença aqui, em que pesem as mentiras, calúnias e generalizações da canalha liberal, é crucial: Os socialismos todos encaram o liberalismo político legado pela burguesia como um bem ou como algo essencialmente positivo. O liberalismo a ser demolido não é o político mas o econômico. A democracia burguesa ou formal não deve ser revogada mas ampliada ou aprofundada até tornar-se popular.

Em geral os socialismos, por diversas vias - como plebiscitos, referendos, meios de comunicação virtuais, etc - buscam superar a democracia burguesa de Locke jamais revoga-la implementando uma ordem autocrática ou absolutista. A liberdade para os socialistas é um valor real que buscam conciliar com a igualdade desprezada pelos capitalistas.

Daí o tema dos socialistas em geral ser: Igualdade e Liberdade e/ou vice versa.

Donde se concluí que por via alguma o socialismo pode se apresentado como um anti humanismo. Tendo em vista seu compromisso com as liberdades e com os direitos fundamentais da pessoa humana. Podem classifica-lo como loucura ou ingenuidade mas não como um anti humanismo.

Pois mesmo a igualdade que busca não é absoluta - como a que buscam os comunistas - mas relativa. Pois trata-se como esclarece Bakhunin duma igualdade de oportunidades ou chances, a partir das quais - dentro de certos límites - as desigualdades decorrentes do esforço humano tornam-se legítimas. Não o são no contesto capitalista porque jamais se parte de condições iguais... tendo os filhos dos milionários todas as chances e os filhos dos trabalhadores chances bem reduzidas.

A todos os títulos é o socialismo uma doutrina equilibrada, que nega-se a reproduzir em larga escala os pecados do capitalismo.

Passemos agora ao comunismo.

Será ele um humanismo?

Para chegarmos a uma conclusão satisfatória comecemos separando os fins dos meios.

O fim aqui é o mesmo: o controle das atividades econômicas pelo grupo social e a consequente extinção das injustiças.

Sentido precipuamente socrático, cristão, ético que o capitalismo não possuí nem compreende.

Neste sentido há uma certa identidade de fins entre o ideal Católico e o ideal comunista, alias socialista.

Faz-se mister confessar que a seu modo é o comunismo ou brado de alarma. Uma consciência de que algo não vai bem. O sintoma de uma enfermidade quiçá bastante grave. Ora o capitalismo é esta enfermidade grave, é uma consciência acomodada, um sistema impenitente! A ponto daqueles que pretendem corrigi-lo ou enjaula-lo - como Keynes - passarem por heréticos!

O comunismo tem algo de heroico e nobre por ter se sensibilizado face as situações experimentadas pelo proletariado. Fez dele uma espécie de Messias... mas porque antes o capitalismo o havia crucificado!!! Não, este proletariado não é uma classe predestinada, um messias, um redentor ou uma categoria perfeita... É no entanto mártir da cobiça e como tal digno de lástima e de regeneração.

O Comunismo teve o mérito de percebe-lo e de converte-lo numa verdade distorcida! A qual nem por isso deixa de ser verdade. O Comunismo por um tempo importou-se com aquele ser encadeado as máquinas e sujeito a uma disciplina sub humana, aspirando redimi-lo. Há aqui solidariedade! Há aqui alteridade! Então há aqui um conteúdo de humanismo.

Soube o marxismo ortodoxo perceber a situação ou identificar o problema. O que não soube foi soluciona-lo, adotando uma metodologia incorreta, alias amplamente empregada pelo capitalismo.

Antes que o comunismo santifica-se os golpes de estado, desesperando do processo histórico e da educação, o capitalismo implementara a democracia burguesa ou representativa por meio de golpes de estado. E se a Revolução Russa foi uma sedição, que foi a tão festejada Revolução francesa de 89???

Golpes fomentados por elites sem qualquer participação popular que derrubaram os monarcas absolutistas. Não o povo! Pois não houve nem plebiscito, nem referendo, nem qualquer tipo de consulta uma vez que o bom povo era monarquista em sua maioria (!!!). Foi a imposição duma ordem democrática. E já sabemos porque nossas democracias sequer estão consolidadas. Porque ainda não se aprofundaram ou ampliaram tornando-se mais consistentes e reais... Porque ainda não assumiram a forma grega... Uma vez que houve a sobreposição de formas democráticas sobre uma cultura monárquica, ocorrendo a educação para a democracia 'a posteriori'.

Nem é para admirar que os EUA em pleno século XIX ainda perpetrem golpes democráticos sempre mal sucedidos!

Jamais nos libertamos do golpismo. Não é apanágio exclusivo dos comunistas mas vício de que se serviram os liberais do passado cuidando apressar a História e burlar o processo de produção cultural.

Nem mesmo quanto a panaceia ditatorial pode o liberalismo eximir-se.

Afinal Robespierre não teve de fazer-se ditador após a grande Revolução, cuidando apressar a História? A qual tornou a recuar assim que ele fechou seus olhos... não tivemos a ditadura florianista aqui no Brasil, logo após o 15 de Novembro???

Democracia que precise apoiar em ditadura, que tido de democracia é esta?

Trágico foi o erro de Lênin ao sancionar a ditadura do proletariado ora atribuída aos sociais democratas Marx e Engels. De marxista tem a ditadura marxista muito pouco... Marx jamais considerou seriamente a politica e jamais aprofundou suas pesquisas neste campo. Não foi ele quem concebeu o partido como uma espécie de igreja sem deus ou vaticano secularizado, mas Lênin.

Pode-se justifica-lo no entanto se se leva em consideração o espirito do povo russo, impermeável a cultura democrática européia. Como implantar uma democracia burguesa numa cultura 'tzarista'? Absurdo dos absurdos! Tinha mesmo o marxismo russo ou bolchevismo de assumir as formas autocráticas oferecidas pela cultura e apresentar-se em certo sentido como uma continuação do tzarismo. Não deve portanto a Revolução dos russos constituir objeto de nossos melindres.

Problema aqui é desejar transpor a realidade russa - em termos de leninismo - para países em que havia já uma cultura mais ou menos democrática em formação, revertendo este quadro e fomentando ditaduras. Tal o equivoco sinistro do comunismo ou bolchevismo. Desejar reproduzir a experiência russa noutros contextos e culturas.

Tal o erro dos Estados Unidos, das potências ocidentais e desses comunóides e anarcóides que chegaram a vislumbrar primaveras democráticas num contexto islâmico. Quando sabemos que os fundamentalismos e massas fanatizadas só podem ser contidas - e devem se-lo - por regimes despóticos e autoritários. Do contrário a tentativa de implantar-se uma democracia de dentro para fora degenera sempre em teocracia, por falta duma consciência laicista e dum sentido da liberdade.

Pecam comunistas, anarquistas e mesmo socialistas, ao examinarem as terras do Oriente por falta de afinidade com a cultura. Os EUA erram e pecam porque interferem e seus adversários pecam e erram porque esperam do islamismo o que ele não pode dar ou fornecer: suporte para a policracia e para o socialismo. Assim os tontos que em 17 esperavam poder implantar uma ordem democrática onde antes florescerá o tzarismo! Assim os que em 89 juntamente com Robespierre cuidavam lançar os fundamentos de um mundo mais justo e fraterno numa cultura ainda demasiado monárquica, religiosa e um pouco burguesa...

Quando os homens aprenderão que devem caminhar em comunhão com o processo histórico agindo dentro de determinados limites e sem cogitar poder apressar a História?

Resta-nos não só concluir que em que pese seu fim humanista, os métodos adotados pelo comunismo não só não foram humanistas como chegaram a ser inumanos. Foram todavia tais métodos tomados ao liberalismo, 'pai de todas as Revoluções' como diziam De Maistre, Veuillot, A Nicholas e outros reacionários do século XIX. A mesma sensação experimentada pelos liberais de hoje face a propaganda comunista e as diversas tentativas de golpe foram já experimentadas pelos monarquistas do século XIX. Agora se os liberais perpetraram golpes contra os feudais e substituiram-nos por que lamentam-se tanto face a possibilidade de golpes comunistas???

Por todos estes títulos é necessário descrer nos golpes enquanto solução para os problemas sociais e confiar na educação e nas instituições democráticas. Caso desejem abalar o estado burguês, sirvam-se da desobediência civil de Thoureau! Tal o sentido do socialismo!

Reconheçamos enfim que o liberalismo econômico não é o anjo que pretende ser nem o Comunismo o demônio que pintam uma vez que este limitou-se a reproduzir os erros e falsidades daquele, tendo inclusive o mérito de acrescentar-lhe uns temperos ou cheiros de humanismo; coisa que o liberalismo econômico jamais possuiu.

Algo há de humanismo no Comunismo ainda que ele não seja humanista em decorrência de seus métodos materialistas e grosseiros, resultados de uma visão determinista de mundo. Agora no capitalismo, que não passa de um culto arqui sacrílego tributado a Mamon não resta humanismo algum. Pois a afirmação dos economicismos foi a morte do ideal, da razão e da ética.

Capitalismo, Socialismo e Comunismo face ao humanismo I

Definições:

  • Capitalismo: O mesmo que liberalismo econômico ou sistema de livre mercado
  • Socialismo: Existem diversas formas de socialismo > solidarismo, personalismo, keynesianismo, social democracia, anarco socialismo, marxismos heterodoxos, etc Todas estas formas tem por comum as seguintes características:
  1. Controle do mercado - ou planificação -  pelo grupo social em termos de estado ou sociedade apenas; do que decorre a negação do economicismo, na medida em que a atividade econômica é regulamentada por leis externas a si, politicamente elaboradas
  2. A conciliação da igualdade com o ideal da liberdade. O Socialismo encara como positivo o sentido da liberdade - seja pessoal ou político - legado pelo liberalismo burguês.
  3. Opção preferencial por termos pacíficos ou institucionais.
Opõem-se portanto o socialismo não só o liberalismo econômico ou capitalismo mas também a 'ditadura do proletariado' - bem como a toda e qualquer forma de totalitarismo - e a noção de golpe ou Revolução em termos sangrentos; logo ao comunismo.
  • Comunismo: Marxismo ortodoxo, leninismo, bolchevismo, capitalismo de mercado. É um tipo específico de socialismo (pretensiosamente científico) caracterizado pelo autoritarismo. Esta fundamentado nas flutuações políticas de K Marx (cujo conhecimento em termos de ciência política era deficiente) e nas lucubrações despóticas do russo W Lênin. Faz apologia do golpe e da revolução em termos físico, materiais ou violentos.

Analisemos agora, pormenorizadamente, cada um destes sistemas face aos imperativos do humanismo, definido enquanto teoria voltada para o bem estar do ser humano.

Já foi dito por alguns. Leio-o em Berdiaeff (Nova Idade Média) que o capitalismo é um humanismo.

Mas se seu fim último do capital é o lucro e suas normas e regras ditadas pelas necessidades do Mercado como poderia se-lo?
Digo, pelo contrário que este sistema inverteu e subverteu a legítima ordem das coisas.

Não foi o homem feito para o capital, o lucro, a economia... MAS A ECONOMIA FEITA PELO HOMEM. Donde sendo humana, deveria ser humanitária e humanista e subordinar-se a um princípio ético ou espiritual qual seja o bem comum, qual seja a justiça. Tal no entanto não se dá e pelo simples fato de que o liberalismo postula o reino autonomo e portanto o primado da economia. Recusando-se a admitir qualquer controle, não só social e político mas mesmo ético.

Neste sentido as leis da economia são tão amorais quanto as leis da física ou da química e a estrutura do mercado sabe tanto de justiça quanto a estrutura do átomo ou da célula.

Não o capitalismo não pode subordinar-se as exigências da justiça uma vez que tal subordinação implicaria controle externo ou limitação. Admitir isto seria a negação da doutrina do lucro máximo que é seu motor.

Verdade seja dita sem ocultação: o capitalismo esta posto para o lucro ou o acumulo de bens materiais ou riquezas e não para o homem. Não contempla a condição integral deste homem. Sendo tão ou mais materialista do que o Comunismo tem mutilado o homem desde o princípio. De fato ele não se preocupa com a mente do homem, com o sentimento do homem, com as potencialidades do homem; enfim com o que há de imaterial, de ideal, de transcendente neste homem. O capitalismo não cogita em consciência.

Filho seu, o comunismo limita-se a reproduzir e a levar adiante os vícios produzidos por ele qual seja a mistica ateísta, o materialismo vulgar, o imediatismo, o tecnicismo... São carne da mesma carne e sangue do mesmo sangue. Não, caro leitor, não foi o Comunismo que assentou o reino pecaminoso do anti Cristo neste mundo impedindo o Cristianismo de Encarnar-se ou o Catolicismo de inspirar toda uma rodem social; foi o liberalismo econômico. Foi este que por meio do protestantismo nascente atalhou os passos do Cristianismo frustando-o ou impedido-o de realizar-se nas estruturas sociais produzindo uma cultura humanista.

O comunismo é e será sempre consequência. A causa ou raiz do mal, do mal estar da civilização é, a par do agostinianismo/calvinismo, o capitalismo, Foi este que pela primeira vez, e na prática, negou o primado do espírito afirmado pela Helade gloriosa. Foi este que lançou as bases duma ordem materialista mecanicista submissa a necessidades artificiais e que alienou o homem do trabalho. Quando Marx veio ao mundo deu já com o homem demolido e a sociedade humana em frangalhos.

Não sou eu quem o diz, é Berdiaeff ainda, é Bloy é Belloc, é Mounier; os quais estudaram a fundo a patologia de que sofre a civilização e a crise de identidade porque passamos.

O comunismo nada removeu.  PROTESTANTISMO E CAPITALISMO é que removeram os fundamentos antigos, eternos e transcendentes da cultura abrindo um abismo a nossos pés.

Primeiro demoliram os princípios gerais duma fé Católica por definição e privaram o homem desta inspiração. Foi feito... e o protestantismo não podia mesmo substituir como pretendia, o Catolicismo. Até seria hipocrisia de sua parte assumir o papel da igreja que tanto criticara...

Restou no entanto a razão!

E podemos dizer que restou mundo. Pois trata-se do critério adotado pela civilização clássica, sobre o qual bem se pode construir uma Ética (racionalista) objetiva e comum acima da democracia meramente formal ou do político e do econômico. No entanto esta Ética como admitia Kant carecia de um Legislador Supremo. Cheirava assim a deísmo ou a teismo naturalista desagradando os ateus fanáticos.

Alias, por pura e simples questão de oportunismo, aqui; o genial e divino Kant jamais foi levado a sério por seus pupilos, alguns dos quais até apresentaram-no como idiota. Podemos discordar de Kant e repudiar seus dogmas anti metafísicos, mas não te-lo por idiota apenas porque tornou ao ponto de partida ou fez a volta do parafuso.

Imolaram a metafísica e a Ética e tomaram a ciência por guia infalível. Segundo critério da sensação e da percepção ou da experiência. Aqui ainda resta algo; mas já não é transcendente... uma democracia meramente formal ou vazia de conteúdo e portanto relativista do ponto de vista da Ética ou da moral e uma ciência que a semelhança do mercado repudia qualquer coisa que pretenda estar acima de si mesma.

Mas a ciência era concreta.

Por fim vieram os pós modernos, profetas do subjetivismo e do relativismo absolutos, vigários de Hume e aniquilaram este positivismo já desmoralizado pelos Católicos e Racionalistas. E nada mais houve de objetivo ou concreto acima da democracia formal e do liberalismo econômico. Porque a morte da razão matou a ética... destruiu o espaço comum, antes ocupado pela fé Católica e nada restou.

Assim diante das sucessivas mortes da fé, da razão e da percepção só podia mesmo prevalecer o domínio material do econômico, manipulado descaradamente uma forma democrática vazia ou igualmente relativa.

Todas essas mortes e estes cadáveres acumulados desde os tempos da reforma protestante é que tem alimentado o urubu do capitalismo. Ajuntando-lhe ainda mais podridão...

Os capitalistas no entanto asseveram que seu sistema é um humanismo na medida em que afirma não só a liberdade econômica, mas também as liberdades pessoal e política dando continuidade ao ideal greco cristão.

Cumpre desfazer semelhante falácia.

E certificar publicamente que a liberdade acenada pelo liberalismo econômico não passa duma liberdade meramente teórica ou farisaica pelo simples fato de estar desvinculada da justiça. De fato o que o capitalismo dá com uma mão tira com a outra. Assim o que assegura formalmente impossibilita na prática.

Acena de fato com a liberdade mas na prática priva a maior parte das pessoas das condições concretas que constituem os meios porque a liberdade afirma-se e é posta em prática. Admite que o homem é livre mas impede-o de viver livremente por falta de meios ou condições materiais quais sejam habitação, roupa, comida, etc Como pode ser livre uma pessoa que vive de salário? Poderá ela viver sem trabalhar? Escolher entre trabalhar ou não? Escolher entre viver ou morrer? Será que poder trocar de patrão ou senhor constitui mesmo a mais refinada expressão da liberdade humana?

É uma liberdade fantasma, ilusória, aparente.

Pois não contempla a totalidade ou ao menos a maior parte dos seres humanos, mas meia dúzia de privilegiados apenas. É uma liberdade excludente, elitista, aristocrática, de uns poucos. E conquistada as custas da sujeição alheia. Regime que na verdade produz dependentes, clientes ou lacaios numa escala gigantesca. Ao menos quando não é externamente controlado... deixando de ser o que é.

De fato, capitalismo bom, é sempre capitalismo enjaulado ou controlado em certa medida por algum agente de natureza externa. Satisfeitas as exigências descabidas dos 'clássicos' ou dos neo liberais temos uma escravidão ou servidão disfarçada, produção de massas humanas angustiadas e porta de entrada para os fundamentalismo e o fim da civilização. O capitalismo ao invés de brindar o ser humano com o exercício concreto da liberdade tem é brincado com 'massas' humanas, alienadas, acriticas e despersonalizada fornecendo ao teocracia a matéria prima de que precisa para destruir por completo a civilização,

Tem além disto, restringido ou diminuído o espaço do liberalismo político como esclarece Arendt e sabotado a cidadania. Preparando os homens para o autoritarismo religioso ou secular, De fato as necessidades do capital e ritmo de trabalho tem impossibilitado uma reflexão em larga escala a respeito do político e o aprofundamento da cidadania numa perspectiva democrática de democracia pura ou direta. Mais ainda, tem o liberalismo econômico, quando ameaçado por qualquer reação socialista ou trabalhista, traído sordidamente o liberalismo político e negociado com a democracia e os direitos da pessoa humana. Tem sido infiel a seus princípios teóricos, criticado hipocritamente o comunismo e apadrinhado golpes e ditaduras e recorrido a déspotas e se associado a tiranos!

Donde chegamos a constatação de que o liberalismo econômico encara o liberalismo político ou a democracia formal como uma espécie de meio para exercer o controle da Sociedade. Quando perde o jogo, acaba com a partida. E subvenciona golpes, sedições, inquisições políticas que nada ficam devendo ao bolchevismo.

O bolchevismo no entanto assume seu totalitarismo, enquanto que o liberalismo econômico continua a apresentar-se hipocritamente como seu defensor e redentor; quando é na verdade seu algoz e o principal responsável por seu fracasso.

Pois para impedir que a sociedade exerça seus direitos de controle sobre a produção econômica e o acumulo de bens, impede que a democracia seja ampliada e aprofundada, despojando-se das faixas representativas com que foi atada por Locke e assumindo sua forma primitiva, real ou direta.

É um sistema que apresenta a liberdade como algo indesejável, como algo sem qualidade, como algo porque se deve viver e morrer. Eis porque os exércitos burgueses precisam de pajés ou feiticeiros sejam padres ou pastores e uma mística nacionalista que degenera quase sempre em fascismo: Porque do ponto de vista da natureza tanto mais capitalista, tanto mais indesejável ou insuportável é a vida numa sociedade! Agora do que a democracia mais precisa é de pessoas que morram por ela. Morre por ela apenas quem é livre de fato, ou seja, quem tem qualidade de vida.

O capitalismo não pretende por esta qualidade de vida no acesso das massas humanas por implicar em investimentos sociais e transferência de recursos para o humano. Logo não pretende construir uma nova Sociedade desejável, é arquiteto dessa Sociedade do desespero que encaminha o homem ao fanatismo religioso e a intolerância.

Ignora supinamente a justiça como uma palavra vã por falta de significado econômico.

Como poderia ser um humanismo???

É o pai de todos os anti humanismos e um dos anti humanismos mais virulentos. Isto que é o éthos capitalista.




Fundamentalismo e democracia

Democracia só é possível na perspectiva da horizontalidade.

É um reconhecer a capacidade do outro e falar de igual para igual.

Colocar-se num plano de superioridade é e sempre será essencialmente democrático. Exatamente por isso o fundamentalismo religioso é incompatível com as instituições democráticas.

Pois enquanto o cidadão comum elabora seu discurso a partir do elemento natural da razão o fanático alega falar em nome de deus e conhecer sua vontade unificadora.

Toma um livro qualquer, declara: 'Esta escrito' e resolve a questão.

Quanto aos que ousam pensar diferente e discordar de seu ponto de vista, classifica como possessos, dominados e orientados por um suposto espírito maligno.

Enquanto é próprio da democracia discordar e do pensamento humano expandir-se por meio de uma dialética para os sectários e adeptos do livro discordância equivale a heresia. Enquanto o cidadão inserido numa Sociedade democrática deve estar apto para dialogar ou discutir o fundamentalismo religioso condena toda e qualquer especie de crítica, afinal não se pode discutir com deus ou questionar aquilo que os líderes apresentam como sua palavra infalível. Nem se pode dialogar ou negociar com o espírito maligno ou deus do mal...

Em suma o fundamentalismo produz um clima essencialmente unificado, padronizado, totalizante em que a democracia é incapaz de sobreviver. Ele produz uma cultura essencialmente democrático e lança os fundamentos da teocracia com suas inquisições, sharias, djzias, etc É a negação da igualdade entre os que pensam ou creem distintamente e a afirmação da inferioridade. Face ao monopólio religioso, ao curral, ao rebanho, a massa amorfa o dissidente é e sempre será uma pessoa de segunda classe ou incompleta. Incompleta porque não crê, nem vive como deus quer ou determinado livro determina.

O raciocínio primitivo dos sectários manifesta-se assim: se deus, em sua palavra determina com exatidão o que devemos comer, beber, trajar, ouvir, etc a diversidade cultural esta em oposição a sua palavra. Aqui não há nem resta espaço algum para a pluralidade. Deus é um, sua vontade é una, seu livro é um... Portanto todos devem viver do mesmo modo e maneira, orientados por sua palavra. É a padronização, a despersonalização do ser humano; a mais refinada forma de profanação já concebida pelo ego!

Concebeu-a primeiramente o judaísmo antigo com seu monoteísmo feroz, alguns séculos antes desta Era. Em nome de jau a cultura judaica foi levada a diversas partes do planeta, exportada para diversas sociedades e apresentada como sacramento de salvação. Salvavam-se os homens pela adoção da cultura judaica e instituições mosaístas, fechando-se em guetos com o objetivo de contaminação pagã da pluralidade... E já não se podia comer carne de porco, ingerir certos alimentos, vestir tais peças de roupa ou travar tais relações sociais. Tudo segundo as normas e regras de uma determinada cultura apresentada como sagrada.

A princípio o judaísmo cogitou em afrontar e absorver o mundo antigo. De que resultaram um sem número de conflitos.

Manifestou-se o Cristianismo ou Catolicismo cuja ética mais refinada e o monoteísmo mais rico (Tendo em vista o 'interessante' dogma da Encarnação de Deus no mundo material) não estavam atrelados a qualquer cultura ou que eram mais adaptáveis as circunstâncias culturais, ou que foram carreados pela cultura superior dos gregos, e conquistou parte do mundo antigo.

Ficando o judaísmo privado de seus meios coercitivos materiais. Refugiou-se mais uma vez em guetos, buscando isolar-se face a contaminação pagã e a Filosofia. No entanto o contato, ainda que forçado e restrito, com a Sociedade profana dos cristãos 'paganizados' (Católicos) não pode deixar, a longo prazo, de produzir uma acomodação, um certo desprendimento das limitações da cultura, e, consequentemente um judaismo mais maduro já secularizado ou ao menos moderado. Judaísmo este que reconhece a não viabilidade de certos preceitos contidos na Torá, admitindo que não se trata duma lei eterna, imutável e absoluta em termos universais.

Em contato com o pensamento gentílico, os catolicismos, o modelo científico iluminista, etc foi o judaísmo capaz de assimilar muita coisa boa, de evoluir e de tornar-se menos casmurro. Abandonando por completo a ideia absurda de impor sua cultura como lei a todos os seres humanos ou desesperando de converte-los pacificamente. Quando a aspiração de reduzir os pagãos a força ou seja por meio de inquisições e sharias, sabe o judaísmo - melhor do que qualquer outro sistema religioso - não passar de rematada loucura. Relegado a rígidas tradições familiares o judaísmo ortodoxo avança somente neste plano restrito. Afinal só judeus seriam ou são capazes de encarar sua própria cultura como divina! Quem haverá de esperar outro tanto dos demais povos???

Desprovido dum aparelho repressor eficaz, o judaísmo estagnou. Acima de tudo o judaísmo ortodoxo. Teve de reconhecer-se e afirmar-se como uma religião étnica e abdicar de seus primitivo ideal Católico ou universalizante, inaugurado pelos profetas e assumindo pelo Catolicismo, cujos dogmas espirituais e invisíveis serão sempre mais atraentes mesmo quando aparentemente estúpidos! Até posso ser tentado a encarar a Trindade divina como uma entidade irracional. Mas sempre preferirei crer nela do que ser obrigado a deixar minhas barbas crescerem, a cobrir-me com determinado tipo de tecido, a abster-me de comer isto ou aquilo, a concordar com o estupro conjugal, a endossar o extermínio de homossexuais, etc Os Catolicismos são mais arrojados e humanos exatamente por serem abstratos, ao menos em certo sentido.

Ser fundamentalista é ter sua vida minuciosamente determinada por um livro. Aceitar e viver uma outra vida que não se quer. Ter a vontade esterilizada e o ser profanado!

O fundamentalista é uma pessoa amarga e rancorosa porque não teve dignidade suficiente para opor-se as forças tenebrosas que revindicam sua padronização. É precisamente por isso que ele odeia acima de tudo os resistentes, os corajosos, os oponentes; aqueles que ousam determinar livremente suas vidas. O fanático odeia os todos os dissidentes porque no fundo, no fundo gostaria de ser como eles, embora lhe falte coragem.

Eis porque ele deseja converter e convertendo impor determinada cultura.

Neste sentido religião alguma tem sido tão bem sucedida quanto o islamismo.

E por uma razão bem simples: O islamismo é o único sistema religioso da terra que não recua diante da afirmação do absurdo, do ridículo, do abominável, do monstruoso... em nome de seu livro. É o único sistema religioso que para além do judaísmo ortodoxo e do pentecostalismo logrou cauterizar a mente humana! O único sistema religioso que ousou apresentar a divindade como má, mesquinha, rancorosa face a toda crítica naturalista ou racional.

O judaísmo sucumbiu face as exigências da razão e da civilização; perdendo parte de sua modorra. O ramo desviado (moralmente) do Catolicismo (o papismo) civilizou-se. Mesmo o calvinismo e pentecostalismo não puderam - ao menos em parte - deixar de ceder aos imperativos éticos do Evangelho.

O islã não. Não há Evangelho que obrigue-o a amar, tolerar e respeitar seus semelhantes e após o triunfo da Ortodoxia acharita vindicada por Gazalli decretou a morte da Filosofia, não havendo 'razão' a que se curve!

Daí sustentar em alto e bom som a santidade, divindade e conveniência da sharia, a qual não passa de um aparelho repressor altamente sofisticado ou duma inquisição destinada a oprimir os 'fiéis' - em especial é claro o elemento feminino - e a exterminar os dissidentes e infiéis. Os ocidentais idiotas esperam que os muçulmanos civilizados questionem tudo isto: a castração de meninas, o estupro conjugal, a disciplina matrimonial, a homofobia, o adultismo, o escravismo, o imposto do infiel, a jihad, a murtad, etc

É querer tirar leite de pedra.

Os muçulmanos continuam e continuarão insistindo que tais preceitos estão contidos no Corão, na Sunah, nos Hadits, nos sahis, etc e portanto de são divinos e sagrados. Direis que tais preceitos são cruéis, desumanos e grosseiros e eles replicarão que não é dado a um mortal julgar deus ou sua palavra, mas apenas submeter-se a ela. Pois a divindade sempre será superior a percepção e a razão humanas! 'Sois falíveis, Alla é infalível.' vos ensinará qualquer criança maometana!

Percebe como o discurso aqui é vertical?

De cima para baixo...

Pois vosso contraditor fala em nome de deus, enquanto vós falais em nome da razão.

Como ousais esperar que tais pessoas abracem as instituições democráticas e o sentido da liberdade se sequer ousam pensar???

Na medida em que o islã, o pentecostalismo, o judaísmo ortodoxo eliminam o pensamento crítico reflexivo inviabilizam a produção de uma cultura democrática e põem em risco a existência deste tipo de forma.

Na mesma medida em que as religiões fundamentalistas exigem de seus adeptos uma obediência passiva, mecânica ou cega ao livro ou ao profeta, habituam o homem a obedecer. Treinam-no, adestram-no! E ele perde sua autonomia, livre iniciativa, criatividade; convertendo-se numa cópia. Este tipo de fé inquestionável produz homens em série...

O islã no entanto prolifera.

E prolifera como sempre levado pelas pontas das azagaias.

Prolifera porque a mulher dever obedecer o homem ou ser disciplinada!

Prolifera porque o homem deve obedecer o líder espiritual ou ser executado por apostasia!

Prolifera porque a criança, isenta de proteção legal não só pode como dever ser surrada sem piedade, especialmente ser questionar ou tecer criticas ao livro!

Prolifera porque os dissidentes, sejam xiitas (alidas ou imamitas), carijiitas ou mutazilas são oprimidos.

Prolifera porque os infiéis são perseguidos e exterminados.

Prolifera porque exerce violência, de modo criterioso e sistemático, contra tudo e todos: contra a mulher, os leigos, a criança, os heréticos, os infiéis...

Prolifera a ferro e fogo, por meio da violência, da força, agressão, da negação de direitos, dos preconceitos!

E proliferando vai, passo a passo, reproduzindo; onde quer que prolifere, os traços da sociedade árabe do VII século desta Era, que é sua Idade de ouro.

A civilização plural e democrática tem seus olhos posto para frente, fixados no futuro. Os fundamentalismos todos tem seus olhos fixados num passado remoto. São paladinos do reacionarismo!

Como um barco a deriva em meio ao mar iracundo, a civilização tem sido ameaçada por sucessivas vagas: a do judaismo antigo, a da reforma protestante (especialmente de matriz calvinista), a do islamismo! Mal se safa de uma levanta-se outras...

Agora temos diante de nós as ondas fragosas do islamismo e do pentecostalismo; uma oriunda do Oriente e outra do Ocidente e não podemos deixar de alertar os cidadãos sobre o risco imenso que corremos. Assistimos novamente a mais uma invasão de hordas bárbaras semelhantes as que puseram fim ao mundo antigo! Com a diferença de que no momento presente não contamos mais com uma igreja romana vigorosa e inserida no tronco do Catolicismo.

Diante disto só nos resta apostar na educação, na Filosofia, na Ciências e nas Artes como preservativo da cultura ancestral e pagã que legou-nos o Paládio da liberdade e a glória da democracia. Urge acima de tudo demolir o fetichismo, as superstições, as crendices e dar guerra sem quartel ao fanatismo seja pentecostal, islâmico, etc Afirmar a dignidade da pessoa humana, a soberania das leis e a objetividade de uma ética que complete a forma 'vazia' de nossas instituições democráticas.

Somos espectadores duma crise sem precedentes nos últimos séculos, Crise que tange aos fundamentos da cultura, da sociedade e da civilização. Agora o que nos devemos tornar é agentes: empenhados em sustentar o fundamento pétreo do laicismo. Fundamento sem o qual jamais haverá de existir ou subsistir uma sociedade mais justa e fraterna. Democracia jamais foi compatível com a dominação religiosa, o socialismo tampouco, o humanismo menos.

Lutar contra o fundamento religioso é hoje tão importante quanto lutar contra o Capitalismo. É luta pela cultura, pela civilização, pelo progresso; que deve ser feita em duas frentes.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

A democracia, as revoluções e a cultura

Numa de suas últimas obras - 'O mundo assombrado pelos demônios' - o astrônomo Norte Americano Cark Sagan insistiu bastante sobre a incompatibilidade entre o fundamentalismo religioso e nossas instituições democráticas.

Alias pouco me importa se nossas instituições são ou não são plenamente democráticas. Até prefiro falar num espírito de liberdade cuja meta não se satisfaz em implementar ou aprofundar as formas democráticas dentro dum formalismo político, mas num espírito de liberdade cuja meta é produzir uma cultura democrática.

Berdiaeff alegava, e com plena razão que as formas sociais e políticas não podem ser sustentadas policial ou militarmente se lhes falta um substrato cultural. Daí o sentido da liberdade e a cultura da liberdade. Liberdade é algo que deve ser interiorizado. Democracia é sentido que deve partir das pessoas, dos cidadãos e das sociedades e não forma política externa que pode ser sustentada por meio de bombas, armas ou munições.

Estamos inseridos numa democracia formal, a qual mesmo sendo tacanha, mesquinha ou tímida não podemos deixar de encarar positivamente ou seja como um valor. Agora para além desta forma o que devemos criar ou produzir é uma consciência democrática. O que deverá ser feito no âmbito da educação. Precisamos educar para a democracia ou educar democraticamente.

Neste sentido o lar, a escola, a igreja, o clube, o sindicato, etc devem ser encarados como viveiros de democracia. É por meio das instituições educativas ou educacionais que introjetaremos o sentido ou consciência da democracia nas gerações futuras. A partir daí poderemos muito bem questionar os limites da própria democracia, ampliando-os e aprofundando-os democraticamente... Não é abolindo a forma limitada que temos e estabelecendo 'ditaduras' de direita ou de esquerda que chegaremos a democracia pura, real, direta ou popular. Mas refletindo sobre a democracia que temos.

Enfim democracia não é algo que se dá ou que se impõem, mas sempre algo que se conquista.

Neste sentido os caminhos de cada povo ou sociedade devem ser respeitados.

É verdade que diante de determinadas situações limite, em que avolumam-se as violações de direito, os crimes, as opressões; somos tentados a 'redimir' determinado povo ou Sociedade, sem atinar que a verdadeira redenção deve partir daquela Sociedade.

Quero dizer com isto que as intifadas liberais promovidas pelos EUA ou a ONU noutras unidades culturais são tão contraproducentes quanto o restauracionismo acenado pelos nobres franceses ou russos; emigrados após as revoluções francesa e russa de 89 e 17 ou quanto os golpes implementados pelos comunistas e anarquistas em diversos países. Uma vez que as formas políticas não passam de manifestações da dinâmica sócio cultural somos levados a concluir que sua evolução ou passagem embora possa ser atrasada - como reconheceram Polanyi e Hobsbawm - não pode ser adiantada ou antecipada (com sucesso). Nem pode ser o passado reproduzido ou restaurado nos mínimos detalhes como supõem os reacionários de todos os tempos.

Revolucionários e reacionários encontram-se igualmente equivocados. Os primeiros porque pretendem adiantar a História recorrendo a elementos de natureza externa ou material, quais sejam armas e munições. Os segundos porque acreditam poder faze-la recuar empregando os mesmos recursos. Cuidam uns e outros que a polícia, o exército, as hostes ou hordas serão capazes de alterar o ritmo da História e que seus decretos prevalecerão face a dinâmica social e por isso nada edificam de duradouro. E seus golpes, lutas, guerras, combates, revoluções, etc revertem infalivelmente ao cabo de umas poucas gerações.

Reverteram as revoluções Francesa, Russa, Mexicana, Chinesa... como fracassaram todos os restauracionismos monárquicos.

Por isso, se esperamos preservar nossas Sociedades face a grande crise que se apresenta, devemos aprender a caminhar junto com o processo histórico, conhecendo bem seus limites. Implica mergulhar de cabeça no mundo das relações culturais reais e ideais, buscando conhece-las como são para, por meio da educação, isto é, pela afirmação de outros princípios e valores, determinar como haverão de ser.

É importante compreender tal dinâmica não só para resistir a tentação yankee de criar uma ordem democrática a partir de elementos puramente externos e de tramar golpes democráticos fadados ao insucesso, mas também para imunizarmos face a elementos culturais provenientes de sociedades e culturas não democráticas ou anti democráticas.

Temos de conhecer e muito bem a natureza dos elementos culturais anti democráticos para resistir-lhes marcadamente e impedir a aniquilação total das formas democráticas as quais, como já dissemos, é necessário aprofundar e ampliar não destruir. É da democracia que temos, isto é da democracia formal, burguesa ou representativa - brecha aberta pelos burgueses na muralha do absolutismo - que chegaremos a restauração da verdadeira democracia; direta, segundo o modelo dos antigos gregos. A brecha na muralha foi aberta pelos liberais há trezentos anos, o que temos de fazer agora é aumenta-la até destruir a muralha por completo e não tapar esta brecha restabelecendo modelos definitivamente ultrapassados.

Daí a importância de Sagan e pensadores que como ele apontaram com precisão para os fundamentos, fontes ou raízes desta cultura democrática identificando-os com o laicismo ou seja com a liberdade religiosa e com a separação das duas esferas.

Agora, desta definição decorre uma conclusão lógica: entre quaisquer fundamentalismos religiosos e a civilização democrática a incompatibilidade é absoluta. Não pode o fundamentalismo manter-se vivo eternamente numa civilização democrática em que liberdades e direitos sejam politica e legalmente assegurados nem pode a civilização democrática subsistir face as exigências da teocracia.

Aqui a oposição é total e o conflito irredutível.

Aqui a autoridade - ao menos no que tange as coisas comuns - é a totalidade ou maioria dos cidadãos. Ali um livro acatado apenas por parte da população. Devendo a parte não crente ou descrente, curvar-se... conformando-se com um estatuto de inferioridade e sendo contida pela força.

Ali temos uma sociedade que tende a igualdade. Aqui uma Sociedade desigual em que uma parte exerce dominação sobre a outra.

Nem a igualdade, nem a liberdade, nem a fraternidade predominam socialmente quando determinada fé, amancebando-se com o poder político afirma-se como social e legalmente superior a todas as outras. Quando tal acontece topamos com a desigualdade, a coerção e o sectarismo.

Trata-se no entanto de um modelo em ascensão.

Cuidam alguns que basta apontar o Capitalismo como responsável por semelhante estado de coisas. Não basta nem resolve nada. O Capitalismo - e não o Renascimento como supunha Berdiaeff - é que conduziu a humanidade a semelhante estado de coisas. É fato... produzindo miséria, ignorância e angústia este sistema cruel e desumano lançou as massas nos braços do fanatismo religioso. Não nos enganemos, sociologicamente o fanatismo religioso alimenta-se de angústia, ignorância, miséria... parte dos homens oprimidos pelo economicismo liberal deu ouvidos aos pastores, magos, ulemás. Oprimidas pela materialidade de um mundo iniquo e sem esperanças reais de salvação as massas alienadas tem acolhido com alegria a redenção oferecida pelo Corão, pela Sunah, pelos Hadiths, pela Torá, pelo Corpus Paulinum, etc

É a única salvação que lhes é dada face ou mundo sem ética do capital.

E no entanto esta salvação é essencialmente anti democrática na medida em que esteriliza a democracia em suas próprias fontes. Introduzindo na cultura elementos de natureza anti democrática oriundos de sociedades primitivas e impermeáveis a este padrão de pensamento.

Todavia a injustiça não pode deixar de produzir desespero. O excesso de trabalho não pode deixar de produzir alienação ou ignorância. Como o desespero associado a ignorância não pode deixar de conduzir o homem ao misticismo, a superstição e a religiosidade mórbida. Enfim ao beco sem saída da democracia.

Para sobreviver e florescer as instituições democráticas teem exigências radicais. Assim a justiça e o equilíbrio social, assim uma instrução básica, assim uma educação científica, assim a afirmação de princípios e valores compatíveis com ela. Democracias não florescem sobre o ar ou o vácuo! Supõem um povo consciente de sua tarefa, de sua missão, de sua dignidade e não uma massa amorfa conduzida por Ulemás ou pastores em nome de livros escritos para lá de mil anos... Democracia supõem a existência de um sujeito crítico reflexivo.

Mas o capitalismo com seu ritmo de produção é incapaz de produzir tais sujeitos em larga escala.

Entre o economicismo liberal e este tipo de homem há um abismo intransponível.

Desta podridão humana, desta infecção social, desta enfermidade moral produzida pelo capitalismo alimentam-se os fanatismos todos do tempo presente. Os do Ocidente, que ressurgem e os do Oriente, que consolidam-se. E ficam as sociedades democráticas ou politicamente liberais cercadas ou melhor espremidas como um pedaço de alguma coisa entre os dois cabos de uma tenaz.

E vemos que esta tenaz vai fechando-se dia após dia na medida em que ambos os fanatismos, do Oriente e do Ocidente vão se expandindo. E oprimindo, sufocando, ameaçando a existência e sobrevivência duma civilização democrática que sequer afirmou-se ou atingiu sua plenitude. E vão os sonhos dourados da policracia (libertarismo ou 'anarquia) e do socialismo morrendo em seu próprio berço... e substituídos pelo pesadelo da teocracia.

No Ocidente temos o Belt Bible e seus janízaros criacionistas em plenos Estados Unidos com sua cruzada anti científica e puritana inspirada nos moldes do antigo testamento, da torá e da judaização - do cristianismo - promovida pelo calvinismo e pelo pentecostalismo. São dezenas de milhões de fanáticos para os quais a 'Bíblia' - com o Corpus paulinum e o antigo testamento - é inerrante e infalível de capa a capa. São dúzias de milhões de sectários que encaram a KVG como uma fonte capaz de decidir qualquer questão... da física e da química a alta teologia, passando pela Botânica, zoologia, biologia, história, geografia, sociologia, etc Tudo esta ali prontinho, a espera de quem ouse berrar: "Esta escrito!" e dar o assunto por encerrado.

Afinal de contas quem seria capaz de discutir com 'deus' ou de questionar a palavra de 'deus'. Criticismo neste terreno é sinônimo de sacrilégio ou melhor dizendo, de blasfêmia.

Felizmente nos EUA a influência de tais pessoas é poderosamente contrabalançada pela influência dos 'incrédulos' do Norte bem como pela influência dos cristãos teológicos pertencentes as diversas vertentes do catolicismo (Ortodoxo, Anglicano, romano), do espiritismo e pelo aumento da diversidade religiosa em geral. Ficando bastante diluída e controlada.

A bem da verdade o montante de fanáticos estado unidenses diminuí um pouquinho ano após ano pelo simples fato de que seus membros fazem parte de uma macro sociedade democrática, em que as ideias circulam. Queremos dizer que nos EUA os fanáticos não tem como controlar o fluxo de literatura crítica destinada a combater suas crenças... que livros, revistas, jornais e informações acabam atingindo ao menos uma parcela dessas pessoas e retirando-as da 'caverna'.

Aqui a cruz do fundamentalismo: ou toma posse da estrutura política, estabelecendo uma espécie de controle ou inquisição ou entre em lenta agonia e vem a morrer. Os fundamentalismos todos sabem disto e por isso procuram amancebar-se com o Estado obtendo proteção política e privilégios. Sempre que podem os apóstolos do sectarismo restringem a liberdade de pensamento e expressão porque lhes é francamente desvantajosa.

Caso a 'hipótese' fundamentalista possa ser apreciada livremente em comparação com a hipótese científica ou naturalista, o feitiço fica quebrado.

Lamentavelmente, aqui no Brasil estamos assistindo um movimento na direção oposta. O fundamentalismo cresce decididamente.

Talvez não mais como nos anos 90, porém contínua a crescer e a aspirar pelo predomínio em termos sociais ou quantitativos.

Eis o saldo de décadas de opressão, miséria, angústia, a que foram relegadas as massas humanas. A ponto de precipitarem-se nos abismos tenebrosos do sectarismo, do fanatismo, da superstição e do fundamentalismo mais abjeto.

E já esta fé importada do Norte, da grande república puritana, vai produzindo ou engendrando cultura. Fazendo emergir no contesto social brasileiro um novo tipo de homem, em oposição ao homem 'jovial' produzido sob influxo do papismo... Temos agora um novo tipo de homem já não tão jovial. O tipo de homem que teremos no futuro é ainda uma incógnita! O culturalismo no entanto aponta-nos decididamente para o modelo antropológico Yankee, calcado no puritanismo farisaico. Uma perspectiva nada agradável, mas, a reprodução de um determinado tipo humano ou de determinada estrutura social tem quase sempre por base a ideologia religiosa.

Considere agora, amigo leitor, que este novo tipo de homem em construção aspira conscientemente pela posse do poder político inaugurando em nosso pais um novo tipo de relação a que podemos chamar 'coronelismo bíblico' ou coronelismo sagrado. Consiste tal coronelismo num primeiro momento em utilizar-se do discurso religioso - mormente de ameaças (maldições, inferno, etc) - para obter votos. A contrapartida sinistra desse novo curral eleitoreiro é utilizar-se da estrutura política para obter privilégios religiosos, bem como propor ou decretar leis inspiradas em fontes religiosas!

Até que chegamos a um círculo essencialmente viciosos e funesto: candidatos e políticos que utilizam-se do sagrado como fonte de sufrágios e eleitores fanáticos que constituem tais representantes para que defendam os interesses de suas seitas ou agremiações religiosas, e não os interesses do bem comum! Formam-se assim representantes de 'igrejas' ou confissões religiosas, os quais agregam-se em bancadas religiosas ou confessionais como a auto intitulada 'bancada evangélica'.

É o que acontecido em todas as repúblicas ou democracias islâmicas. As quais, em sua quase que totalidade converteram-se ou estão em vias de converterem-se em novas teocracias.

Assim no Brasil...

Pois constituído em grupo inserido no Parlamento, não tardam os representantes sagrados a apresentar projetos fundamentados em seus livros buscando impor ao resto da Sociedade seu modo de viver. E se não lhe são atalhados os passos por um poder superior, como o STF, principiam a propor, sancionar e decretas leis destinadas a regulamentar a alimentação, o vestuário, os gostos musicais, as preferências sexuais de todos os cidadãos até padroniza-los, despersonaliza-los e converte-los num rebanho. Até que por via religiosa atingimos o ideal do fascismo: a extinção de toda pluralidade e a afirmação de um único padrão cultural autorizado pelas leis.

São as religiões do livro ou fundamentalistas que tornam factível ou praticável, a médio prazo, as aspirações do fascismo!

Tal o ideal dos pentecostais, de parte dos calvinistas e dos muçulmanos em sua totalidade. Arabizar ou israelitizar a Sociedade como um todo. Primeiramente as sociedades nacionais, em seguida a sociedade humana, eliminando uma diversidade encarada como pagã e essencialmente má, diabólica, satânica ou demoníaca. Nem pode a mente fundamentalista embasada na 'palavra de deus' seja ela qual for, deixar de encarar toda e qualquer dissidência como herética, pecaminosa ou má! A unificação dos costumes é necessária porque deus é um, sua vontade é una e seu livro um... e pelo qual todos os homens devem governar-se cultivando os mesmíssimos gostos e inaugurando o império da uniformidade.

Pluralidade aqui é heresia!

Pentecostalismo e islamismo encaram perfeitamente este ideal sinistro numa medida maior do que quaisquer outros credos.

Por isso seus adeptos empenham um esforço titânico em tomar posse das democracias e destruí-las de dentro para fora. Enquanto nós socialistas temos tanta dificuldade em aprofunda-las ou amplia-las. E começam criando bancadas bíblicas ou corânicas, tendo em vista defender os interesses particulares de suas confissões e fazer da política uma chicana.

Diante disto cidadão algum pode deixar de inquietar-se ao testemunhar o furor com que tais homens apresentam projetos e mais projetos destinados a solapar o fundamento pétreo de nossa República e Constituição que é o laicismo! Fundamento sem o qual não há democracia possível!

Ora é um que busca inserir a Bíblia em todas as Bibliotecas deste pais! Ora é outro desmiolado como o Daciollo que pretende transferir o poder do povo para deus! Ora é um que procura criminalizar o ensino da evolução biológica em nossas escolas! Ora é outro que pretende vedar aos homossexuais acesso ao matrimônio civil! E já se viu mais de um desses ulemás tupiniquins dirigir palavras preconceituosas e amargas a mulheres, negros, crianças e membros de outras confissões religiosas!

Patente retrocesso em comparação com 1891! Retrocesso de cem anos! Por que se era para manter alguma ordem religiosa em termos políticos, a papista era certamente mais suave do que estas novas fés que pretendem intrometer-se até mesmo em nosso cardápio proibindo-nos sob pena capital comer chouriço, galinha a cabidela, torresmo ou beber vinho! Ao menos o papismo não impõem essas burcas a nossas mulheres e filhas! Ao menos o papismo não nos obriga a deixar a barba crescer ou a fazer certo corte de cabelo!

Os idiotas reclamam em demasia porque o papado impunha crer numa Trindade que é invisível... e curvam-se diante desses sistemas religiosas essencialmente totalitários que pretendem decidir a respeito de cada aspecto exterior da vida humana eliminando todas as nossas liberdades e direitos! Verdade seja dita: o papismo, anglicanismo, espiritismo, etc teem projetos de ética apenas, em termos de princípios e valores! Islamismo e pentecostalismo são sistemas totais e unificados que teem projetos bem definidos em termos de gosto, nada deixando para o homem...

Diante de todo este discurso Bíblico que invade nossos parlamentos como não sentir-se em Bagdad, Cairo ou Damasco???

O que nos é oferecido por essa nova política religiosa em ascensão é um passaporte direto, não para a desfigurada e odiada Idade Média; mas para o Israel do décimo século a C ou para a península arábica do sétimo século desta Era. Tal o ideal acalentado por esses fanáticos de Ocidente e Oriente! E eles não toleram vozes discordantes... pelo simples fato de que não há em seus livros, seja a Tanak ou o Corão, qualquer vestígio ou sombra o ideal democrático embasado na liberdade pessoal.

Verdade seja dita, o islã jamais foi capaz de assimilar ou de compreender ideal tão refinado! Jamais incorporou os valores presentes na Sociedade greco romana, a qual condenou e amaldiçoou em sua totalidade como pagã! O Catolicismo, tantas vezes acusado de 'apostasia' e paganização, este sim incorporou parte dos valores presentes no paganismo antigo, bem como no Evangelho. A reforma no entanto, voltando-se mais uma vez para a Tanak, reeditou, ao fim de seu percurso, o único tipo de política Bíblica ou mosaísta: a teocracia.

Pentecostais e muçulmanos estão de pleno acordo em reconhecer que o poder procede de deus e não do povo ou da Sociedade. E em caracterizar a sociedade laica ou secularizada como ateia. Podem adoçar, atenuar ou esconder o discurso, mas de fato pensam ou melhor creem assim mesmo.

A diferença aqui é que os calvinistas e pentecostais não dispõem de meios para eliminar as dissidências religiosas ou as contradições internas do livre exame (a eterna cruz do protestantismo). Parte das pessoas ou da Sociedade observa tais contradições e recusa-se a crer... assim, diante das inúmeras variações protestantes ou da febre sectarista, sucumbem as pretensões ao poder político. Primeiro o protestantismo tirou a igreja romana do poder e por algum tempo substitui-a cometendo crimes e perpetrando violências ainda mais graves em nome do ideal bíblico... de fato os revolucionários protestantes exterminaram-se uns aos outros tal em qual os revolucionários franceses e russos de 89 e 17 e até já se disse que o exemplo teria partido deles.

O islam porém foi e é mais hábil pelo simples fato de ter sacralizado a estrutura inquisitorial com suas Jihads, Djzias, etc Aqui a falta de vergonha e caráter atingiu seus termos máximos.

Face as exigências do Evangelho mesmo alguns pentecostais, parte dos calvinistas e os papistas em sua quase totalidade foram constrangidos a corrigir-se e a condenar qualquer petição a violência em termos inquisitoriais. Tiveram de ceder a secularização do estado e abrir mão de quaisquer estruturas coercitivas em termos externos ou materiais. O islã foi a única religião da face da terra que não só assumiu o 'terror' - por estar contido no Corão - como ainda hoje revindica o direito de empregar tais estruturas coercitivas em termos externos ou materiais, estruturas a que chamam de Sharia e a qual chamaríamos inquisição.

Então meu amigo, se você condena a igreja romana ou as seitas protestantes por terem se servido de inquisições há uns duzentos ou trezentos anos e sorri para o islã é um autêntico paspalho. Pois o islã jamais renunciou a sua inquisição, jamais reformou-se moralmente.

Fácil é para um não muçulmano imaginar um islã moderninho ou moralmente reformado, sem burkas, Djzias, jihads, etc A totalidade dos muçulmanos no entanto prefere gritar: Maktub! Esta escrito e como esta escrito não podemos criticar, reformar ou atenuar.

E vão pelo mundo afora impondo sem maiores cerimônias a castração de meninas, o estupro conjugal, a correção feminina, as Burkas e shadores, o extermínio de homossexuais, a murtad, a opressão das minorias religiosas, etc

E anarquista há que apoie tudo isto!!!

Patrocinando um sistema religioso apresentando por seus próprios líderes e apologistas como anti democrático e anti socialistas, ou pior ainda, como essencialmente teocrático! Um sistema incompatível com a simples noção de diversidade! Um sistema que opõem-se oficialmente a maior parte dos direitos e garantias atinentes a dignidade humana!

E tal e qual o pentecostalismo cresce na América Latina, cresce o islam do outro lado do Oceano!!!

Ficando os ideais democráticos cada vez mais restritos e sufocados entre estes dois extremismos religiosos tão virulentos.

Diante disto só nos resta lutar para consolidar uma cultura democrática.






sábado, 12 de setembro de 2015

Anarquistas no sindicato




Acabei de ler o opúsculo Anarquistas no sindicato - um debate entre Neno Vasco e João Crispim. Livro de leitura rápida, de fácil leitura e assimilação, linguagem jornalística.

A visão de Neno Vasco é que os anarquistas deveram sim participar do sindicato mas não impor suas ideias e tendência, o sindicato tem que reunir todos os assalariados, independente de crenças e de opiniões, querer o contrário é entrar em contradição com a anarquia.

Já João Crispim achava que os anarquistas deveriam lutar para criar estatutos e regras para direcionar os sindicatos tanto para a luta pelas reformas como para preparar o advento da nova sociedade. João Crispim achava que um sindicato não anarquista não progrediria e em sua visão se fazia necessário crescer dentro do sindicato e cooptar trabalhadores.


Indiscutivelmente Neno Vasco mostrou sua superioridade no debate e seus argumentos foram melhores e desbancou seu camarada João Crispim com tendências autoritárias. Neno Vasco ensinava a tolerância dentro do sindicato, ser cético quanto sua posição e estar aberto a novas ideias.