A metrópole de São Sebastião do Rio de Janeiro, surgiu num contexto colonial como vila e depois cidade tipicamente colonial. Segundo consta teria sido fundada a 01 de março de 1565 por Estácio de Sá, sobrinho do governador geral Men de Sá.Duzentos anos depois em 1763 a cidade do Rio conquistou o status oficial de capital da colônia, tornando-se sucessivamente capital do Brasil português, do Brasil imperial e do Brasil republicano até 1960, quando Brasilia - transcorridos dois séculos de glória - despojou-a de sua dignidade primacial. Desde então tornou-se capital do Estado homônimo.
Para compreendermos o que era o Rio de Janeiro até meados de 1900, precisamos saber como eram as cidades coloniais do Brasil.
De certo modo nossas cidades coloniais prolongavam a tradição urbana da idade média. E de uma Idade média adaptada as peculiaridades da peninsula ibérica, com a caracteristica presença árabe ou mozarabe...
Nossos primeiros nucleos populacionais eram labirinticos, ou seja, formados por casas de paredões maciços com poucas portas e janelas entrecortadas por becos bastante estreitos, mal iluminados e sem calçamento.
Os medievos como os antigos em geral só eram pródigos com relação ao interior - e as vezes ao exterior - de seus templos, enquanto casas de deus ou dos deuses. As habitações dos homens pouca atenção mereciam, exceto a do Rei ou do principe ou seja o palácio... não havia nada de interesante em tais vilas e cidades além da igreja matriz e da casa da câmara.
De alguma maneira a tradição arquitetônica portugueza/colonial inspirada na idade média prolongou-se até o fim do Império, já porque o imperador reinante, D Pedro II, enquanto sucessor dos reis de Portugal, representava a continuidade das tradições e instituições tradicionais legadas pela colônia. Até o fim do império nossa cultura foi de certa forma plasmada na cultura lusitana e colonial, ou seja, infensa a estrangeirismos...
Com o fim do império no entanto e o advento de um sistema pautado no ethos cientificista e francofilo do positivismo, a coisa muda de figura.
Duma hora para outra tudo quanto era sagrado para o império adquire o status de satânico para os adeptos do novo regime. Como prolongamento da execrável idade média e trazendo em seu bojo inspirações que iam do teocentrismo a um tímido humanismo religioso, a arquitetuta colonial passou a ser encarada como sinônimo de atraso ou de reprodução cultural sem um pingo de criatividade...
Dentre todas as cidades acima descritas primava o Rio de Janeiro com sua multidão de casarões monoliticos e becos estreitos formando um inintrincavel labirinto. Algo nada animador se levarmos em conta o surgimento do automovel...
Os casarões por sinal estavam em parte abandonados e sublocados, aprensentando sinais de decadência e ruina... implica dizer que serviam de abrigo a centenas de cortiços e que abrigavam milhares de pobres...
Desde o final do império cogitava-se em que o Rio viesse a sediar alguma "Exposição Internacional"... cogitação que se tornou ainda mais forte após a ascenssão do novo regime.
No entanto como o Rio poderia vir a abrigar uma Esposição Universal, se não passava duma imensa cloaca mal cheirosa habitada por uma multidão de miseráveis? De um labirinto em que apenas com dificuldade e lentidão os automoveis podiam circular? De uma amontoado do igrejas e chafarizes inuteis? De uma sucessão de casarões decadentes e ruinosos?
Graças as inumeras guerras e conflagrações, os burgos medievais foram cedendo espaço a 'verdadeiras' cidades em toda Europa... somente na Alemanha e na Austria algumas cidadezinhas conservam intacta a primitiva forma...
Sob a égide do iluminismo e do positivismo o neo classico despontou e triunfou nas principais capitais e nas grandes cidades do velho continente dando cabo das reliquias medievais que ainda não haviam sido destruidas...
Quarteirões quadrangulares ou retangulares intercalados por praças, ruas espaçosas margeadas por calçadas igualmente espaçosas e arborizadas, palacetes cercados por imensos jardins...
Na mesma medida em que o verde ou seja as florestas começavam a ser sistematicamente destruidas, o verde, como que paradoxalmente, invadia as cidades e se instalava nos quintais, calçadas e praças... as praças eram para as cidades o que as floreiras e vasos eram para as residências.
Residências que com o despontar da econômia burguesa converteram-se em autênticos palácios passando a rivalizar com os palácios de verdade. Era um festival de linhas e de cores, de pedrarias, de vidros e metais, um espetáculo para os olhos em oposição a patética simplicidade do vilarejo colonial com sua arquitetura pesada e pobre...
Como capital de um dos maiores países do mundo, o Rio de Janeiro não podia ficar para trás.
Do contrário como haveria de vir a sediar uma 'Exposição internacional' e a receber tanta gente civilizada e ilustre? Como apresentar aos olhos dos refinados vizitantes procedentes da Europa aquele casario tosco e sem graça? Como aparentar progresso e afetar modernidade?
Simples: pondo abaixo todo aquele monte de igrejas, chafarizes e casarões e deslocando a população pobre para os morros, onde por sinal não seriam vistos pelos gringos...
Assim sendo sob o lema positivista da ordem e do progresso, iniciou-se uma verdadeira revolução arquitetônica e paisagistica na cidade do Rio de janeiro, revolução destinada a transforma-la numa capital de verdade nos moldes de qualquer capital européia. O Rio estava destinado a ser o cartão de vizitas de um Brasil em franca expansão, do Brasil, do país do futuro...
Havia no entanto um pequeno detalhe, os cortiços...
Campos Salles, Afonso Penna e Rodrigues Alves não recearam e fazer valer a autoridade presidencial. Conclusão: milhares de pobres foram despejados e os cortiços demolidos... foi a consolidação definitiva das favelas... O preço do embelezamento do centro da cidade foi a favelização dos morros...
Curiosamente as favelas reproduziram mais uma vez o velho esquema arquitetônico herdado a colônia e a Idade média: construções sobrepostas entrecortadas por becos bastante estreitos formando um enorme labirinto...
A primeira operação de faxina ou limpeza social no Rio durou cerca de dez ou vinte anos, ao cabo dos quais - por ocasião do centenário da independência (1922) a cidade, ja preparada para maravilhar os europeus civilizados, tornou-se digna de sediar a Exposição Universal...
No entanto, entregues a sua própria sorte, as favelas - hoje são cerca de 1000 (verdadeira favelopolis) floresceram, se expandiram e se alargaram nos últimos oitenta anos, dominando, mais uma vez o cenário de uma cidade já não tão maravilhosa...
Grosso modo as favelas principiaram como verdadeiros guetos com o intuito de segregar os mais pobres e de po-los a margem da sociedade. Esta tática de se esconder ou ocultar a pobreza ao invés de sana-la só poderia ter chegado onde chegou...
No entanto cerca de cem anos após a remoção dos miseráveis do centro para os morros (dos cortiços para as favelas) a sociedade brasileira, que pouco ou nada conhece sobre sua própria história, parece não ter compreendido nada, a ponto de renovar e de reforçar os erros fatais do passado.
Afinal porque somente agora, as vésperas de uma Copa e duma Olimpiada o governador Sérgio Cabral lembrou-se de debelar o tráfico e de ocupar os morros da cidade. Tanta gente morreu neste meio século, porque o governador só se lembrou de fazer alguma coisa justamente agora?
Em quem será que o governador esta pensando?
Nos habitantes das favelas?
Mas como se estão sendo todos tratados compulsóriamente como suspeitos e revistados, sem que haja aplicação do principio juridico de presunção de inocência. Por trás desta ação imediatista o que há é violação de direitos com trinta mil residências revistadas sem que qualquer jurista apareça para falar em anticonstitucionalidade...
No entanto quando de trata de invadir o palacete ou a manssão de qualquer político ou empresário corrupto, ninguém se preocupa em invadir a menos que haja algum papel ou ordem...
Mas enfim são barracos...
Pensou o governador no restante da população?
Então deveria ter pensado antes de tudo nas filas do SUS, pois lá no Rio tem gente morrendo por falta de atendimento médico a um tempão...
Devia ter pensado em investir a fortuna que investiu em armamentos e munições em Escolas, esporte, livros, merenda...
Então em quem pensou o sr governador, as autoridades respeitáveis, a imprensa canalha???
Em quem pesaram eles?
Ora bolas, nos gringos que virão assistir a Copa ou as Olimpiadas...
Pobre morre todos os dias...
Idiotas da classe mérdia também...
Agora imagina só se algum Yankee morre baleado durante os espetaculos???
Não nos iludamos porque a atual operação é mera cópia ou plágio da de 1900... cujo objetivo foi oferecer um Rio menos feio e menos inseguro aos gringos durante a exposição internacional de 1922...
Agora mais uma vez reiniciam a limpeza, com a desculpa cinica e esfarrapada de beneficiar uma população que já enfrenta o problema a quase cem anos...
Quando na verdade tudo esta sendo feito mais uma vez em beneficio os visitantes estrangeiros, com o intuito de brinda-los com uma aparência de civilidade...
Mais uma vez a miséria esta sendo varrida para devaixo do tapete...
Tenho dito!!!










